1

Oração de Natal

Gilberto Mendonça Teles

Jesus, para o Natal minh’alma vos suplica

Um silêncio de paz, uma quietude rica

De áureas recordações, de mística saudade,

De sossego, de calma e de serenidade…

Longe, para bem longe, o tumulto das gentes,

O borborinho insano e as vozes estridentes

Da turba irracional!

                            Deixai-me ouvir os hinos.

As sagradas canções, o badalar dos sinos,

Estes celestes sons que em minha’alma se adensam…

Entornai sobre mim a luz de vossa benção

Espiritualizada… Arrancai de meu peito

O lúrido rancor com que – néscio – me enfeito!

Jesus, farei com que nesse Natal eu posso

Sentir por um momento a Excelsitude Vossa

No espírito cansado e cheio de saudade.

Insuflai em minha’alma as luzes da Bondade.

E a minha fronte ornai de sonhos mais celestes…

Sejam-me a inspiração as dores que tivestes.

Somente para Vôs seja o meu pensamento

Voltado…

         E, então, no som nostálgico do vento,

No quérulo cantar das pequeninas aves,

No cicio feliz das orações suaves

E na festiva voz dos sinos vos verei

— Simples como um Mendigo e altivo como um Rei!

                            (Natal de 1953)

2

Nos ombros da cruz

Lêda Selma

Cristos em trapos

cristos famintos

cristos descalços

cristos sem nome

cristos em falso

no rito da vida

no giro da lida

na roda indigente

de cristos-meninos,

arremedos de gente.

É Natal!

Cristos que buscam

um rumo, a esmo,

e no medo se escondem,

e nos becos se perdem,

e na dor se consomem.

Cristos que espiam

o arrastar das horas

e nas ruas, exaustos,

furtam escombros

de sonhos andrajos.

É Natal!

Cristos que fogem

de balas fardadas

das armas insanas,

das culpas urdidas,

mas morrem ao som

dos vis estampidos.

Cristos sem vida

nos guetos dos morros,

cristos nas valas

de sua própria sina.

É Natal!

De volta, a Estrela,

da alegria, o alarido,

retiram-se as nuvens

sorriem as luzes

esbatem-se as dores

refinam-se os sinos

em retinir festivo:

renasceu o Menino!

Sobre a toalha de linho,

a imponência da Ceia.

É Natal!

Cristos que vagam,

esmolam um pão

(olhar embaçado

de solidão e sombras),

ouvem repiques,

do cimo da torre,

em dó sustenido,

qual suplício de almas.

Nas sobras do nada

a ceia dos filhos.

É Natal!

Na calçada imunda,

mastigam silêncios

e bênçãos negadas,

os cristos da cruz.

Sobre o chão estriado,

esperas exangues,

inclemência da noite,

dores caladas.

Da instância azul,

o Cristo espia…

É Natal!

E das mãos vazias,

calejadas de nãos,

dos cristos sozinhos,

sem manto, sem rosto,

acenos aos céus

como se em prece:

a luz da Estrela

é o olhar de Jesus!

É Natal!

A adoração dos magos, de Leonardo da Vinci

3

Notícias do Natal

Elias Antunes

Quando alguém divide

O seu pão escasso com

 Quem tem fome:

 Isso é Natal!

Quando alguém ajoelha

E agradece pelas dádivas

Do sol e da chuva:

Isso é Natal!

Quando alguém se lembra

Que há um menino dentro de si

Cheio de paz e inocência:

Isso é Natal!

Quando alguém encontra

A sua estrela guia

E redescobre a magia da vida:

Isso é Natal!

4

Natividade

Adalberto de Queiroz

A luz piscando na vitrine exposta

as vésperas da Noite de Natal

provoca olhares, entanto me desgosta:

é frio o brilho do esplendor frugal.

Não há entres os presentes mirra, incenso,

nem ouro, que há milênios, ao Menino

os Reis-magos concederam. Qual o senso

da analogia — manjedoura ou destino?

Aqui, mais nada, só há mercadorias:

tristes vazios que a ganância cava

na alma extasiada dessas criancinhas,

a permanente a nódoa, que não sara,

pois o que é falso por fim negocia

o pai: aquilo que em Cristo era Graça.

5

Distraído

Danilo Baldacini

Sentado no sofá

Absorto, do tamanho de um cachorro

A realidade abaulada é vermelha

Verde superporá

Urdidura sem linha

Memória decepciona

Todo o universo da vontade minha

Inverso desmorona

Porém não agora

Em que respiro fundo numa bola

Que pisca centelha

Abafando a turba em colóquio e pasto

Convoluto em silêncio

Por um segundo eu morro

Num enfeite de Natal absorto

A natividade, de Caravaggio

6

Haicais de Natal

Eduardo Lima

Do Passado

Breves lembranças

Momentos reprimidos

Entre guirlandas

Do Presente

Ouço um sino

Sinto a brisa passar

Canto um hino

Do Futuro

Espero natais

Encontro esperança

Em dias letais

7

Sagrada família? (ou Poema baseado em fatos reais)

Simone Athayde

Ontem vi Maria

no semáforo da Avenida Brasil.

Vi também o

menino Jesus

nos braços dela.

Já José

Cadê José?

E agora?

Maria não era linda,

Não tinha manto,

nem olhos verdes, bondosos.

Era desgrenhada, desdentada, desiludida.

Sozinha,

Tentava sua triste lida,

Estendendo a mãozinha

Não para abençoar

Mas para pedir.

Alguém se compadece da família incompleta

e dá uma esmola melhorzinha.

Nesta época, todos ficam mais generosos.

Até o prefeito, que encomendou

a maior árvore de natal que a cidade

já viu.

8

Luzes

Rodrigo Celestino Rocha

Acendem-se os olhos

os corpos

as mentes…

as gentes.

Vez ou outra

desajustadas ao longo do ano.

Unem-se num encontro amistoso,

amoroso, caloroso

embora,

às vezes…

nem tanto.

Trago

presentes…

na cachaça…

no charuto.

Vejo sumir na fumaça

mais um ano que se foi.

Unidos agora

mas talvez, quem sabe…

distantes depois.

Que o Natal una

aqueles que possam doar suas luzes

para ascender…

um outro alguém.

9

O que é o Natal para você?

Matheus Nunes

Não esperarei por uma pessoa

Até a madrugada

Com toda certeza, que não virá.

Neste Natal nascerá um menino

Ungido pelo Divino Espírito Santo

Que nasceu em uma manjedoura

E reinará para todo o sempre.

Tem pessoas que ainda não entendem a verdadeira magia do Natal.

O que é o Natal para você?

A Adoração dos Pastores, de Rembrandt

10

Natal é genial

Hélverton Baiano

Quis a genialidade de quem inventou o Natal

Do marqueteiro de Jesus

e de quem pôs a virgindade na mãe.

Muitas vezes quis a inocência cega de acreditar

Para meus socorros nas agruras.

Adoro conviver com quem me deseja Feliz Natal

Porque é doce e verdadeiro.

Mas, para mim,

O melhor do Natal é o décimo terceiro.

11

Time lapse slow motion

Veronika Topic Eleuterio

A verde ramada sem vida

desnuda, aguarda impotente

e o pequeno de cabeça amarela desponta

acelerado, baixa, levanta e encontra

da cesta capta as esferas coloridas!!!

Poft.. bolas espalhadas

Cabeça grande interfere

ela abaixa, recolhe

Bolas em seu lugar

Entra em cena o barrigudinho bailante

que dá nove voltas

E a não tão mais pelada

agora pisca colorida

Ganha adornos, brincos

biscoitos que não se comem mas enfeitam

bonecos de neve que não se derretem

bolas cafonas de porta retrato

ou com minúsculas frases clichês

o menino chora porque não alcança

e deixar pela metade traz desesperança

O pai sem escadas

ergue prontamente o pequeno

esquecido da sua quarentagem

ganha de presente costas travadas

depositam as últimas bolas e estrelas,

No chão abandonam um boneco velho

barbado e de roupa carmim

montada toda parafernália

desligam a câmera para ver como ficou

Mas a rapidez aniquilou cada detalhe

postar a intimidade é o que vale

Hora de fazer a carta para o Santa Claus da Amazon

Cabeça amarela pediu um carro giroflex

Enquanto a mãe compartilha o vídeo

O pai corre para tomar um dorflex.

12

Natais de outrora

Elizabeth Caldeira Brito

Aqui, neve não há.

E o frio que brota

dos olhos vorazes

congelam sorrisos

que teimam o silêncio.

Aqui, Noel não há.

E a ausência sentida,

na sombra da árvore,

que sonha saudades

de outros natais.

Aqui, a estrela não guia.

Seu cadente trajeto

espatifa horizontes

na geografia.

E do céu, antes aberto,

a saudade aproxima.

Invade o passado

e o traz para perto.

13

É Natal!

Luiz Castro

Há uma guerra acontecendo,

Causando dor e sofrimento a uma nação inteira,

Mas, é Natal!

Há crianças e velhos passando fome,

Sofrendo violência e abandono,

Mas, é Natal!

Há pessoas sofrendo preconceitos

Pela sua cor, origem ou sexualidade,

Mas, é Natal!

Há pessoas vagando pelas ruas das cidades,

Dormindo ao relento, sem um teto para se abrigarem,

Mas, é Natal!

Há pessoas escravizadas pelas drogas

E há pessoas planejando violência e mortes,

Mas, é Natal!

Há um planeta inteiro sendo destruído,

Animais sendo mortos e árvores sendo derrubadas,

Mas, é Natal!

E apesar de tudo,

Num mundo impiedoso e injusto,

Ainda há fé e esperança.

É Natal!

14

Noite Feliz

Gabriel Emiliano Rodrigues

Somos todos feitos de amor e esperança

aos pés da árvore de arame e luz led

“Feliz Natal”

Bendito sejam os corações amolecidos

pela bondade sazonal dos panetones

De fato, a cesta mais que básica chega a mãe e seus doze filhos. Com uma  garrafa de cidra de maçã

Ela vem com panfletos e dura o tempo de se agradecer, e de silenciar a todos os críticos que só criticam

No shopping, nevam bolinhas de isopor

há renas, trenós e promoções imperdíveis

Mas fora do ar-condicionado chove e faz calor, é tempo de jacas e mangas

Há também os presépios e advertências das avós

Afinal, essa festa é aniversário

do menino deus de Nazaré

Que nasce todo ano em dezembro

só para ser crucificado em abril

E com ele vão todos os bons irmãos

Mais uma vez mortos para o mundo

assim que se apagam os pisca-piscas

sepultados em caixas empoeiradas

Até o ano que vem

15

Então se foi, o Natal

Émerson Falkenberg

E se Natal fosse o nome de uma criança,

Batizado pobre, que herdou a rua fria,

Que fantasia a ajuda na próxima pessoa,

E na próxima, e no próximo…sinal fechado.

Aquecido pela cachaça e esquecido pela criança,

Sujeitado a dança trágica e desfecho abrupto.

Mas no final, todos brindam ao Natal.

16

Natal à mesa

Ernani Catroli

Ecos rendados egressos

                        dos longes

Tudo de imutável

                   da noite única

             O que se vê

       – quadro a quadro –

se emoldura do sagrado

As janelas todas abertas

      Janelas de Matisse

17

Então, é Natal!

Lucien Guymen

Comidas, festas, e bebidas.

Mesas grandes, enfeites coloridos, roupas elegantes.

Brindes e mais brindes.

Beijos e abraços, contendas também.

Passeios, viagens e muito mais.

Presentes, brinquedos e distração.

Tudo pra divertir e comemorar.

Mas, comemorar o quê mesmo?

Alguns lembram, outros esqueceram, mas o que importa?

Nas casas de poucos a festança se repete todo ano.

Nas casinhas de muitos o prato vazio continua “gritando”.

Flagelos naturais seguem por aí matando.

Fome, miséria e sede pululam em cada canto.

Em que lugar esconderam o tal “espírito de Natal “?

Política e Economia continuam ditando.

São os deuses de ontem e de sempre.

Para onde a carruagem, sem renas, nos levará?

18

Refazendo o Natal

Maria Helena Chein                                   

Há um menino acordado                                    

olhando o mundo: é Natal.

Bebo-Te                                                                               

na alegria desta noite,

enquanto Te contemplo, Menino,

na manjedoura iluminada

do meu peito.

Busco-Te

em cada gesto,

em todo olhar,

e no meu irmão,

no sol e na flor,

Te encontro.

Busco-Te

mais ainda,

e chegas

na dor do próximo,

minha dor,

e quase Te perco

na violência dos tempos.

Bebo-Te, Senhor,

de olhos fechados,

bendizendo Teu nome

e Tuas criaturas

neste universo

de transgressões e doçuras.

Bebo-Te

em Teu nascer

para que eu nunca

Te deixe ou Te crucifique.

19

A luz Natalina

Línea Sousa e Silva

As luzes se acendem

e com elas os sentimentos

depois de um ano atrás da tela

que os apps descansem

organizamos momentos

a retrospectiva paralela

analisamos os que precedem

preparamos os eventos

mais parece uma novela

as misturas acontecem

Árvore, presépio, ornamentos

estrela, guirlanda, vela

abraços, presentes, elementos

que até janeiro desaparecem

desliga a luz, outro ano se revela

em cada olhar dos que agradecem

o devenir de conhecimentos

que inicia enquanto outro sela.

20

Desencanto

Cristiano Siqueira

apesar de ter sido

igual qualquer natal,

aquele ano foi diferente.

também debaixo da árvore:

meu presente

não fui dormir

mais cedo

sequer houve segredo

não houve a meia

pedido nem carta

mistério e madrugada

somente a ceia

ninguém entrou pela janela entreaberta…

quando eu ainda era menino

antes mesmo do dia vinte e cinco,

morria o bom velhinho.

21

Empreitada natalina

Solemar Oliveira

o anúncio do Messias – dizia o homem

e contratou um artesão de mãos sutis

e mais dois pedreiros para a gruta de cimento

e fizeram um presépio desconcertante e ridículo

assim mesmo, botaram nele um menino e um jumento

vieram outros e mulheres

um conjunto de indigentes

feios, grotescos, velhos e infantes

inocentes e vividos,

católicos e protestantes

numa tarde ocuparam a gruta

e botaram o bebê do berço na estrada

e, sem romperem sua crença,

anunciaram uma filosofia de incógnitos

e sua ordem firmou-se de nascença

e todas as manhãs que se seguiram

renderam odes gloriosas à mesmice¹

¹ para que as notas não passem em branco.