14 contos marcianos. Leitura diversificada e imperdível

Quatorze escritores encararam o desafio e escreveram contos de alta qualidade sobre os “contatos” entre a Terra e Marte

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção começa a publicar uma série do que se pode chamar de “contos marcianos” ou de contos galácticos. As viagens espaciais estão, afinal, na ordem do dia.)

1
Um gato intragaláctico
Edival Lourenço

Em 2030, o multibilionário, multinvestidor e visionário Elon Musk reuniu as condições julgadas necessárias e suficientes para iniciar a colonização de Marte. Não se esqueceu de nada. Consolidou, inclusive, a cozinha interplanetária.

Musk não abriu mão de, em certa medida, participar pessoalmente da expedição pioneira e ousada. Participar pessoalmente, vírgula, ou melhor, dois pontos: para ir, e ao mesmo tempo ficar, Musk mandou desenvolver, em uma de suas startups de biotech, um clone de si mesmo.

O gestor do Projeto Clone foi o mesmo do projeto do carro Tesla S Plaid que, em julho de 2021, explodiu em pleno movimento, com três dias de uso. Assessores do magnata aconselharam-no a trocar de gestor. No entanto, cabeça dura, manteve o técnico, partindo do princípio de que grandes erros catapultam enormes descobertas. Até citou o caso de seu ídolo do rock e otras cositas mas, Keith Richards, dos Stones, que garante criar seus emblemáticos riffs de guitarra, a partir de erros cometidos durante os ensaios. Seu duplo deveria ter as mesmas características do modelo-matriz. Deu-lhe o nome de Elon Clooney, em homenagem a si mesmo e ao amigo e ídolo do cinema, George Clooney, que, em 2020, havia estrelado e dirigido o legendário filme pós-apocalíptico, de viagem espacial, “Céu da Meia-Noite”. Concedeu a Elon Clooney a primeira cidadania marciana e instalou, entre ele e seu duplo, uma conexão telepática. Musk poderia participar realmente da expedição, administrar os problemas surgidos, sem ter que arriscar a própria pele. Em caso de sinistro, sairia ileso.

A marca proeminente do gestor do Projeto Clone é a genialidade com defeitos ocultos. Elon Clooney não foi diferente. Saiu cego de um olho e com alguma instabilidade emocional. Julgado por Musk não ser necessário reparar as anomalias, a cópia caolha e instável seguiu para Marte, no comando da missão.

Ao martirizar, ou seja, tocar o solo com a expedição em Marte, Elon Clooney comandou com eficiência a montagem do acampamento e estabeleceu as primeiras ações da colonização. Certo dia, com depressão, pilotando uma das naves, afastou-se da equipe e enxergou, abaixo dos trópicos, numa vibração invisível a olho comum, uma enorme colônia, habitada por seres com certa aparência humana. Deduziu que seriam imigrantes de algum exoplaneta estiolado.

A visão do lugar e de sua gente só foi possível graças aos defeitos clonais (a misantropia depressiva e a cegueira), na verdade, uma visão de lince pós-biótico. Elon Musk nunca vibrou tanto consigo mesmo como quando certificou o acerto de sua decisão, na escolha do gestor do projeto, e quando intuiu que os defeitos, na hora exata, teriam uma utilidade extraordinária. Isso lhe provocou um sopitamento de autoconfiança que, de normal, está sempre esguichando pelas tampas.

Elon Clooney viu na colônia um problema gravíssimo para nós terráqueos. Usando de tecnologia ultraquântica, hermética ao entendimento de nosso estágio científico atual, os aliens instalaram um gato intragaláctico, para roubar água de nosso planeta, e sanar suas necessidades gerais. Com um campo hidrófilo potencializado, pelas forças magnéticas do planeta Marte, por meio de um tubo anticatódico de sucção contínua, desviavam a umidade da atmosfera e os rios voadores da Terra, provocando secas, desertificações e diversos outros fenômenos prejudiciais aos nossos biomas. Não bastasse a ação do homem contra seu próprio habitat, somou-se o desvio de água, em forma de vapor, para Marte, que tornou o problema singularmente dramático.

Segundo cálculos preliminares da equipe de Elon Musk, as duas ações combinadas, do homem e dos alienígenas, são capazes de inviabilizar a vida humana, na Terra em, no máximo, meio século.

O multibilionário já se reuniu secretamente com os líderes do G7 e da Comissão de Segurança Interestelar da ONU. Ainda não conseguiram definir, com precisão, como será o desarme do gato. Nem que ferramentas, armas, estratégias e habilidades serão usadas no combate a essa milícia do vapor d’água. Mas, de uma coisa, já têm certeza. Tudo será planejado e desenvolvido pela criatividade fosforescente de Elon Musk e seu clone misantropo com visão biônica. E a fortuna do magnata há de deixar seus concorrentes imediatos comendo poeira terráquea e marciana.

No entanto, alguns senões começaram a erodir as bases da missão. Primeiro: há algum tempo não se sabe o paradeiro de Elon Clooney. O comando da expedição foi entregue a um apagado ajudante de ordem. Segundo: diante do comportamento errático, egocêntrico e arbitrário de Elon Musk, o governo americano chamou o FBI para investigá-lo.

Já na primeira diligência, num exame de fundo de olho, por teleobjetiva, ficou comprovado que, aquele que se diz Elon Musk, é cego de um olho.

Edival Lourenço, escritor, é membro da Academia Goiana de Letras (AGL).

2
Olha o que apareceu aqui!
Hélverton Baiano

Linda, estrambótica, assobrejética e exuberante aquela nave no meio da rua, entre seis e sete horas da noite, o dia escurecendo, e aquele trem mais espalhafatoso de luzes multicoloridas, ziguezagueando nos olhos da gente e deixando um troço todo empacotado para a estupefação do povo da cidade. A gente era tudo meio cafuçu, sem tino pra essas livuzias do céu. O trambolho ficou ali mais de meia hora, sem barulho, apenas com o estardalhaço das luzes e a nossa estupefação fazendo parte do cenário. Zizuíno fotógrafo tratou de clicar sua Minolta 6×6, para garantir a veracidade da história. Após deixar o pacote, a nave suavemente decolou e a uns 20 metros de altura soverteu-se num arremedo de velocidade que ninguém a olho nu conseguiu acompanhar por mais de um segundo.

De carabina empunhada, o delegado Osires e os soldados Tuinha e Fogoió se entrincheiraram vendo aquela marmota toda e, de prontidão, para o caso de acontecer algum movimento suspeito. Agachados estavam, e estupefatos também, e agachados ficaram averiguando o presente deixado pela nave. Depois de algum tempo, o povo foi espiar. A cidade toda rodou em volta do tal presente, indagando, mas sem coragem de aproximar. Muita gente não foi nem dormir naquela noite, ficando ali de butuca, vigiando. Houve quem chegasse até a se ajoelhar e a rezar, achando que aquilo veio a mando de Deus e, quem sabe, de lá pudesse sair um santo ou outra coisa sagrada. Quem sabe, Nossa Senhora da Glória, a padroeira? No dia seguinte, cedinho, lá estavam as autoridades mandando isolar a área com corda de imbé, emendada com sedém, pra ninguém chegar perto até elas resolverem que fim dariam ao embrulho.

O papel que o envolvia era fino como seda e lustroso feito panela areada na decoada, mas ninguém conseguia abrir ou rasgar. Em seguida, tentaram machado, facão, foice, alavanca e nada. Também ninguém conseguia aluir o tal objeto. Era pesado demais e cheirava a baunilha.

Mais de vinte dias se passaram, quando começou uma romaria, primeiro dos povoados, depois das cidades vizinhas. A notícia espalhou e numa distância de seis léguas veio gente curiar e dar palpite, que gente pra isso não falta por lá. Os conterrâneos começaram a ganhar dinheiro com o turismo do objeto do outro mundo e a planejar investimentos para implementação do turismo extraterrestre na cidade. Casas estavam virando pensão, as ruas cheirando a mijo, os becos cheirando a bosta e os córregos entupidos de gente tomando banho.

No décimo segundo dia, após o início da romaria, no entanto, para desespero de uns e encantamento de outros, Piolho de Bosta, um peralta da favela e que andava aprontando na cidade, encostou no pacote, soltou um baita dum peido, estrondoso e malcheiroso, o maior que já se ouviu por ali, e o embrulho se desfez com a leveza de uma pluma, nem parecendo o troço impenetrável e misterioso que estivera ali por tantos dias. De dentro saiu uma moça bela, belíssima, bonita a mais não poder, mas bota bonita nisso, esculturalmente pelada, daquelas de fazer inveja à mais linda miss universo. Carlim Providência correu no sufragrante, esbaforido mesmo, ao comércio de Seo Tim Pano, catou de lá um pedaço de tecido e, para empunhar contrariedade aos homens que assistiam à cena, embrulhou a moça. A polícia tratou de encaminhá-la rapidinho para a casa do prefeito, onde se dirimiam as dúvidas e se criavam outras maiores ainda.

Acho que não era o melhor lugar para onde despachá-la, mas minha opinião e merda eram uma coisa só. Ninguém me ouvia e nem me escutaria, ainda mais numa situação daquela. Mas o que eu imaginei, bichão, aconteceu!

Lulindo, filho do prefeito, raparigueiro inveterado, que não se apartava do cabaré de Ana Preta, da boate Schana Cool e das festinhas que a mocidade fazia para introduzir lá uma música chamada de rock and roll, achou a fruta doce. Dito e feito, mais feito do que dito, Lulindo, todo serelepe, passou a cuidar da moça do outro mundo. E olha que cuidou muito bem! Boa coisa eu sabia que não daria. Na primeira noite o rapaz foi sorrateiro ao quarto da extraterrestre e usou com ela os dotes de macho terráqueo bem-sucedido nos enfrentamentos da carne.

Dois dias depois, a moça já estava toda buchudona, com uma barriga, para nós humanos terráqueos, assim de uns sete meses, um espanto pelo pouco tempo passado após a furupa. No dia seguinte, quando menos se esperou, ela se enrolava e se atrapalhava na cama com quatro bebezinhos, dois meninos e duas meninas, logo, logo socorrida pela primeira-dama em fraldas e mamadeiras.

Dois dias depois, sem mais nem menos, Lulindo, os filhos e a extraterrestre desaparecem como que por encantamento, e sem deixar vestígio. Desse acontecimento o que se sabe é que, passados cinco meses, até hoje ninguém dá notícia dos desaparecidos, e nossa cidade, não demora muito, vai ficar mais famosa que Varginha, em Minas Gerais. Após o acontecido, a notícia circulou por umas tais redes sociais da internet, coisa que a gente nem sabia que existia. Pelo visto surtiu um efeito danado, pois nossa cidade ficou famosa. Os repórteres vieram. Ouvíamos e víamos falar dela pelo rádio e pela televisão. Eu mesmo, que não sou de conversar muito, ouvi gente dizendo que tinha chegado a notícia, de pessoas falando na redondeza, que outra nave daquela estava a caminho da nossa cidade. E, pelo que foi escutado, não vai demorar muito, não, viu?

Hélverton Baiano é poeta, prosador e jornalista.

3
ET abduz Bolsonaro pra salvar o Brasil
Carlos da Silva

Otávio Arantes Cavalcante de Macedo não é um narrador confiável. Porque, ao misturar alhos com bugalhos, parece acreditar que a realidade é pura ficção. Mas, como a história é dele, que foi testemunha ocular e auricular dos acontecimentos, cedo-lhe o lugar, como polícia literária, para relatar os fatos.

Meu nome é Otávio Arantes e, please, não confie em mim nem no narrador que diz que a narração é minha. Ponha um pé atrás. Sou uma espécie de Bentinho da política, nascido em Esperantina, mas com parentela em Piracuruca, belas cidades do meu Piauí.

Um dia, sob um calor escaldante de 41º, estava eu a passear pelas ruas de Esperantina. Ah, não me lembro bem. Talvez tenha sido nas ruas de Nossa Senhora dos Remédios ou de Piracuruca. De repente, escuto uma voz: “Tu, bom amigo, conhece Marte?” Olhei, desolhei, tresolhei. Não vi ninguém. A voz, tão melodiosa quanto a de Chico César e a de Lucy Alves, continuou: “Você não está me vendo, pois estou usando tinta invisível para não incomodar os terráqueos”.

Pronto!: pensei: “Sou ou estou ficando louco, pois começo a ouvir vozes, e nem sou espírita”. Saí correndo e entrei, ofegante e quase infartado, no Centro Espírita São Miguel das Flores Estreladas. Mais esbaforido do que caititu em roça de milho, balbuciei para o seu Zé das Espigas, um homem forte com ar de ET — orelhas grandes e olhos saltados, como se quisessem fugir do rosto — que estava sendo perseguido por vozes.

Incrédulo, Zé das Espigas disse: “Acalme-se. Deve ser o calor — 41º na sombra torra o cérebro de qualquer um. Venha hoje, à noite, na sessão e vamos verificar o que está acontecendo”.

À noite, meio desconfiado, compareci ao centro. Em torno de uma mesa, sentadas, 13 pessoas. O número não me agradou: pensei logo em azar. Mas lembrei que, contando comigo, eram 14. Aí fiquei tranquilo. Sereno, de roupa branca, Zé das Espigas puxou uma cadeira e pediu para que eu me sentasse. Sentei.

Zé das Espigas fechou os olhos, como todos nós, e invocou sabe-se lá o quê ou quem. Cinco minutos depois, uma voz disse: “Otávio Arantes, seu safado, pague os 500 reais que deve para meu filho”. Fiquei assustado. Porque, de fato, eu devia 500 reais para Colemar do Couto, que havia me vendido uma cartucheira e um bicicleta. Paguei 200 reais e fiquei devendo 300. Portanto, minha dívida não é de 500 reais.

Cutucado por Zé das Espigas, eu disse, de maneira quase inaudível: “Devo, não nego e vou pagar os 300 reais”. O espírito, ou seja lá o que for, respondeu: “Pague, porque senão lançarei uma maldição sobre sua família”.

Saí do centro espírita convicto de que não estava louco, as outras 13 pessoas também ouviram a voz de seu Manuelzão do Couto, que havia morrido havia sete anos.

Porém, 30 metros depois, a voz voltou: “Amigo Otávio, a Voz que falou no centro espírita não era a minha, não. Por favor, não fique assustado. Meu nome é Astrolabium, e sou soldado de Marte e vim ao Brasil com uma única missão. Mas preciso de sua ajuda”.

Peão do trecho, sou mercenário, por isso, embora assustado, decidi dizer: “Certo, ajudarei você, mas preciso de 500 reais para pagar uma dívida”. Astrolabium retrucou: “Mas, até agorinha, não eram 300 reais”.

Envergonhado e com certo medo, anuí: “Pois é, a dívida é de 300 reais. Mas, como devo 200 reais para a comadre Eva de Matão de Dentro, de Santa Cruz dos Milagres, preciso de 500 reais”. A Voz concordou: “Sim, pagarei mil reais. Combinado”.

Mais confiante, eu disse para a Voz: “Mas, se não vejo você, como posso confiar no que está dizendo?” De repente, escutei o barulho de uma coisa raspando. A Voz estava raspando parte de seu corpo. Pude perceber, meio assustado, que estava diante de um homem alto, cabeçudo, com orelhas gigantes e um nariz que parecia uma tromba de elefante, só que menor. Bonito? Feio. Mais ou menos. Não tão assustador, mas, por ser diferente dos homens, poderia pôr para correr qualquer pessoa.

Do mesmo modo que “apareceu”, Astrolabium sumiu. Porque, enquanto a gente conversava, Mário do Arroz havia chegado e já começou a perguntar: “Deu para falar sozinho, Otávio Arantes?” Dei uma desculpa: “Estava pensando em voz alta”. “Ah, bom. Cuidado para não ficar doido, como ocorreu com seu João das Embiras. Ele começou a conversar sozinho, alegando que ouvia vozes e que precisava respondê-las. Ficou louquinho da silva e agora mora num asilo de Pavussu.”

Louco eu? Nada disso. Astrolabium reapareceu e, para meu desconcerto, disse: “Sabe, não sou macho. Sou fêmea”. Teria a ET uma queda por mim? Não sei. Mas qual é sua proposta mesmo?

“É o seguinte. Vim ao Brasil com uma missão. O governo de Marte chegou à conclusão de que é preciso abduzir o presidente Messias Bolsonaro Jair. Nós precisamos levá-lo para o nosso planeta, para reeducá-lo”, disse a Voz, ou melhor, Astrolabium.

Reeducá-lo? Como assim? Astrolabium não se fez de rogado e esclareceu: “Bolsonaro está planejando um golpe de Estado, o que levará o país ao caos, em outubro de 2022. Portanto, se levarmos o presidente para Marte, vamos reeducá-lo e o devolveremos ao país em 2023”.

Com a pulga atrás da orelha, perguntei: “Mas como eu, um homem simples do Piauí, posso ajudá-la na empreita?”

A Voz, quer dizer, Astrolabium, esclareceu: “Você precisa me guiar até o Cercadinho de Bolsonaro, em Brasília, segurando firme na minha mão, pois meu equilíbrio, dada a questão do oxigênio, é precário. Ninguém irá desconfiar de você, um homem do povo”. De um embornal invisível, a ET retirou uma camisa amarela, com os dizeres “Brasil, ame-o ou deixe-o” e me entregou. “Vista-a quando chegar na capital.” Quis saber: “Como faço para ir até Brasília?”. Astrolabium me disse: “Você pega um ônibus da Real Sul ou da Rápido Marajó. A passagem custa 230 reais”.

Mas não tenho dinheiro para ir e voltar, além de que há o problema da hospedagem e da alimentação. A ET cortou-me: “Pensei em tudo isso. Pegue mais 2.500 reais. Terminado o serviço, lhe darei mais 2.500 reais”. Contentei-me. Mas, antes, indaguei: “E como você irá para Brasília?”. Astrolabium explicou-se: “No mesmo ônibus no qual você viajará”.

No dia 8 de setembro, um dia depois das comemorações da Independência, estou todo pimpão na porta do Palácio do Alvorada, segurando uma mão invisível, com firmeza. Bolsonaro aparece, com sua carantonha branco-avermelhada, mandando beijos para o público, que o aplaude e pede intervenção militar.

De repente, como por encanto, Bolsonaro desaparece e todos ficam bestificados — como aqueles que assistiram a Proclamação da República em 1889. Astrolabium não deu nem sinal de vida.

Dois dias depois, estou na Rodoviária de Brasília, comparando os preços de passagem para Teresina, quando, de repente, a Voz diz: “Otávio Arantes, obrigado. Bolsonaro já está em Marte, em processo de reeducação. Por enquanto, delirando, está resistindo e falando em tomar o poder. Mas já está mais calmo. Já está até usando máscara”.

Pergunto: “Por que você voltou?” A ET disse: “Para pagá-lo e agradecê-lo”. Peguei o dinheiro, coloquei no embornal e senti, de leve, o que parecia um beijo na face esquerda. “Adeus”, disse Astrolabium.

De volta ao Piauí, contei a história para parentes e amigos. Ninguém acreditou. Até seu Zé das Espigas acha que estou louco ou possuído por um espírito maligno. O resultado é que agora faço companhia para João das Embiras no asilo de Pavussu.

Aposto que você também não acredita na minha história. Ah, tenho saudade de Astrolabium. Tenho certeza de que ela me compreenderia…

Carlos da Silva é escritor. Mora em Teresina (PI). Email: [email protected]

4
Viajantes
Solemar Oliveira

Somente os loucos espremem até as glândulas do absurdo e estão no plano mais alto das categorias intelectuais. — Pablo Palacio

Não conseguia terminar a leitura. Estava preso em uma palavra e parecia que todas as outras desfilavam ao seu redor. Não! Passavam por baixo, como águas sob uma ponte. Deve ser a viagem. Eu cochilava. O brilho da TV me confundia. As palavras corriam pela folha amarela. Levantei-me. Sacudi a cabeça e, depois de beber um gole de água, mudei para o noticiário.

Em seguida, um filme. Um velório. Sobre o morto, nada além de sua memória. As pessoas não falavam. O enterro demorou um pouco menos do que os enterros normalmente demoram. Choveu, um clichê. Deixou o dia filmado mais melancólico. Espalharam-se, levianamente, os entristecidos parentes e amigos. É imperdoável que não pensem na brevidade da vida e, foda, blá-blá-blá.

Amanhã parto para Marte. Sou um astronauta servidor, segundo a empresa que organiza a viagem. Na nave, eu, os astronautas funcionais e mais vinte incautos aventureiros. Desbravadores da nova cultura de humanos no espaço. Um título idiota. E ridículos são todos os sonhadores milionários que esperam um grande futuro dessa empreitada. Meu papel não é secundário. Sou da tripulação. Cuido do sono dos passageiros. Espero que sonhem durante a viagem. Amantes, carros conversíveis, frutas de Natal que só se vendem no Natal, mansões, com dúzias de banheiro, e chardonnay francês.

Acomodação. Cintos de segurança presos. Regras e recomendações perfeitamente ditas e seguramente ouvidas. Decolagem. Barulho ensurdecedor, para os que ficaram lá fora. Nave no espaço. Oxigênio, apenas dentro. Abaixo de nós, a Terra. Certamente azul, como dizem. À frente, o indomado. Vazio que se engole, se autopenetra e destrói o nada ao seu redor, depois cria novamente. Uma espiral perpétua. Depois dos uivos de alegria e das comemorações orquestradas, hora de dormir. Aplico, com um recurso simples, um dispositivo acoplado às roupas dos passageiros, um sonífero forte. Já sonham com o futuro, pois é o futuro que desejam. Antes do meu sono, penso em churrasco e Coca-Cola. Sou o derradeiro, como deve ser.

Por causa da cena que vejo, gastei uns minutos, ainda, pensando numa ideia que venho amadurecendo há algum tempo. O Imbecilismo. Nada muito complicado. Algo entre o indiferentismo crônico e o completo desconhecimento de todas as coisas relacionadas aos humanos. Uns possuem, outros também. Lembro-me do meu irmão, como um isento. Tinha anticorpos para essa doença. Uma inspiração. Preciso esperar alguns minutos para garantir que todos estejam confortáveis e imersos em um estado de sono profundo. Observo os rostos sortudos feitos por Deus, em algum momento de Sua folga, que deve acontecer raramente, ou durante o excesso de trabalho, nas horas extras eternas, abobados e com semisorrisos indiscretos nos lábios imbecis. Os cheques compensados e um canhoto da passagem, para guardar de lembrança.

O Imbecilismo não é uma novidade. Em Marte, talvez ele se espalhe novamente. Conquiste os microrganismos marcianos, em sua fase mais primitiva, e a nova raça, que eventualmente venha a surgir, já comece estragada pela síndrome. Não há como evitar. O contágio, não sei como se processa. Pensamento. Mucosa. Piolhos (nanopiolhos). Um olhar demorado. Há possibilidades. Muitas. O fato é que qualquer novo ser, marciano ou não, será um imbecil em algum momento. Reduzido à simplicidade e ao egoísmo. À superficialidade das ações inerciais. Tudo que executa é por impulso. No sentido da correnteza. A moda. Então, os passageiros, guardadas as condições especiais, são como os atores na cena do velório, de ontem na TV, de luto, com a indumentária correta. Não pensam no que importa e, ridículo, blá-blá-blá.

Agora, o meu sono. Acomodado numa poltrona confortável e limpa, aperto no painel o botãozinho que leva o soro, como um interruptor que desliga, desde a ampola invisível até a corrente sanguínea. Em instantes, durmo o sono que não desejo, mas nele poderei articular a estrutura do Imbecilismo, sem o óbvio cansaço do cérebro. Criar a tese para os marcianos estudarem e que, talvez, seja a razão de sua sobrevivência decente.

É isso! Nos vemos em Marte.

Solemar Oliveira é escritor.

5
A angústia em Marte
Tobias Goulão

Lembro-me daquele dia há dez anos com certa claridade — por mais estranho que seja usar o verbo “lembrar” em nossos dias efêmeros. O lançamento da primeira nave que foi para o planeta Marte com uma tripulação humana. Foi todo um reboliço. O mundo voltava ao tempo das grandes navegações, mas agora não havia o silêncio que tornou o evento apenas ibérico. Colombo hoje não seria esquecido, e Camões não precisaria de mais que três tuites inteligentes para ser a sensação do dia (o máximo que conseguiria). Era algo mundial. Mesmo que seja por um instante, alguém naquele dia, parou para ver a enorme espaçonave produzir uma imensa nuvem de fumaça e fogo para deixar nosso planeta em busca do primeiro lugar da nova corrida espacial.

É estranho pensar hoje no resultado daquilo tudo. Ver o veículo espacial de cores azul, vermelho e branco ganhar espaço, deixando para traz — por coisa de três meses — as naves verde e branca e a vermelha e amarela, acirrou os ânimos por aqui. Pareciam com aquelas histórias da antiga Guerra Fria, mas agora com mais vigor e sem muita margem para dizer que era mentira, como no caso da Lua. Todos viram, sem contar que checar se alguém está no planeta é a coisa mais simples. Uma única bobeira e o nosso sistema de internet X-Plus-G reporta para os sistemas do governo e rapidamente conseguiriam dizer se foi feito em algum estúdio verde de Hollywood. Não foi o caso.

A tripulação, composta por seis pessoas, três homens e três mulheres, conseguiu ser carismática o suficiente para se tornarem mártires da ciência ainda em vida. A considerar que eram os primeiros, muitos especulavam que não voltariam para a Terra. Mesmo assim, um pai de família, o sr. astronauta Peter Mendez aceitou a missão. Aqui podemos já desvendar um dos grandes mistérios daquela viagem: Mendez era o único astronauta da equipe, tendo passado por serviços em estações espaciais e tudo. Os outros foram “voluntários” treinados, sendo três deles pagantes de uma expressiva fortuna para conhecer o planeta vermelho. O caso de Mendez, mais famoso, foi que ele cobrou para ir. Depois de ter contraído grandes dívidas (hoje se sabe que foi com jogos online, sites de conteúdo adulto e investimentos cegos que afundaram) era a chance de poder deixar para a esposa e seus três filhos uma segurança financeira para que nenhum deles se preocupasse com mais nada. Mas, ao fim, o experiente ficou só. Uma complicação na aterrissagem levou a óbito um dos tripulantes. Duas falhas de segurança causaram a morte de mais três. Ainda havia um jovem senhor, com um nome russo que não me lembro, que, ao se desesperar por não ter certeza que retornaria para a Terra, acabou por se suicidar. Dizia que não iria morrer no desespero da incerteza daquele deserto e seria o senhor de sua vida. Saiu dos alojamentos, sentou-se em uma elevação próxima, retirou seu capacete e foi estrangulado pelo deus da guerra.

Restou Mendez naquele vazio vermelho. Isolado como nunca ouvimos dizer que outro ser humano ficou. Estava com alguns problemas. Todos os contratempos surgidos deixaram as coisas muito mais difíceis. Suprimentos e até mesmo oxigênio estavam com dias contados, parte do material para construção do laboratório foi perdido, as sementes para iniciar uma pequena plantação não foi encontrada no material que havia sido enviado com antecedência para o planeta.

Tentou organizar o máximo de coisas possíveis no acampamento durante um tempo, alimentado pelo sonho de ser resgatado por alguma missão desconhecida (ele também havia perdido o contato com a Terra, mas não sabia o motivo). Ao ocupar a cabeça ficou até menos apavorado, mas sonhos frequentes com homens vermelhos conversando ao seu redor em linguagem estranha fez surgir alguns questionamentos sobre seu fim.

Depois de calcular que teria pouco mais de um mês de suprimentos para viver naquele campo de batalha, começou a se desesperar como um condenado à morte em sua cela. Pensava em tudo, desde a captura pelas criaturas de seus sonhos ao simples fato terrível da morte solitária. Tamanha era a angústia dessa solidão que levou a uma série de grandes reflexões pessoais. Com o tempo ele resolveu gravar uma espécie de “Diário de Bordo” — que foi comercializado em audiobook e até mesmo transcrito com enorme sucesso. Nesse diário de um condenado algumas das mais interessantes ideias de nossos dias foram narradas.

Dele surgiu o termo “loucura de Marte”, muito utilizado posteriormente para se aplicar aos eventos que sucederam a  sua expedição. O fator solidão pesou muito e, já entendendo que isso provocava os seus maiores tormentos no lugar, acabou por dizer em um de seus áudios: “Enlouquecer aqui é fácil. Marte é cruel. Só, sem mais uma alma viva por perto, tudo fica sob os olhos do Medo e do Terror. É a pior sensação dos mundos. Peço de todo coração que ao menos um alienígena apareça para aliviar essa solidão. Não consigo mais estar apenas comigo”.

Aquele terrível desespero acabou por se transformar em confissões. Descobrimos medos e tormentos de Mendez desconhecidos até mesmo pela família. Deixou claro toda sua miséria e pediu perdão a todos por não conseguir realizar a missão e acabar se condenando — e condenando a missão — sem nenhum sucesso. E já em contagem regressiva de dias de vida, acabou por compor alguns monólogos consideráveis em sinceridade.

Aquele quando fala do “eu”:

“Depois de muito relutar acabei por encontrar comigo mesmo. Aceitei que era o melhor a ser feito. Desse encontro surgiu um terrível conhecimento antes mascarado e que obrigou a deixar registrado um pedido de perdão a todos. Só já não havia espaço para ilusões, mentiras, disfarces. Era eu olhando para mim nu. Vi um terrível retrato e não fiz mais que chorar por muito tempo. Essa visão do meu próprio interior foi mais terrível que qualquer outra aparição nesse campo de morte”.

Não podemos deixar de lado o trecho mais comentado pelos críticos, uns por admiração, outros por desdém, mas todos falam dele:

“Aqui estou, náufrago, lançado no infinito e afogando. Procurando agarrar alguma coisa para suportar o fim da expedição que será também o fim da vida. À deriva, perdido em um oceano sem navios que possam me resgatar, só posso ver a morte se aproximando como o sangue ganhando espaço no horizonte com o pôr do sol. Morte essa que me afogará em um espaço vazio de vida, em um nada. E assim encontramos a derrota da primeira luta humana contra o deus da guerra.

Um Odisseu que nunca chegará em sua Ítaca. Sem ninfas pelo caminho, sem ciclopes para dar alguma emoção. Essa é a pura solidão de uma pessoa. Se houver uma angústia suprema assemelha-se ao que vivo nesses últimos dias. Só tenho por companhia Fobos e por sentimento Deimos, e nisso fico a olhar para o melancólico fim do dia imaginando como será o sentimento de saber que será o último. […] ‘Na noite afortunada/ em segredo, pois que ninguém me via,/ eu mesmo vendo nada,/ sem outra luz e guia…’.”

Esse foi seu último relato gravado, provavelmente com algumas horas antes de sua morte. Nada mais sabemos dos seus últimos momentos.

Esse trecho, logo que divulgado, fez muitos jovens redescobrirem a literatura existencialista na tentativa de se aproximar desse sentimento de angústia demonstrado pelo primeiro herói de Marte. Foi o motivo de vários cursos em plataformas online, discussões em lives, temas de trabalhos acadêmicos. Mas, como tudo aqui na terra é líquido, logo escorreu e foi esquecido. Hoje, o que ainda é considerado clássico em trabalhos intelectuais sobre Marte são aquelas duas teses europeias que ditaram o rumo de tudo mais que foi feito. Um é aquele estudo do importante intelectual alemão sobre “A hermenêutica das rochas de Marte: perspectivas e novos significados de um mundo em criação”, e também o tratado francês “Gênero e Marte: abordagens de neutralidade na desconstrução do mito marciano”. Todos são referências indispensáveis para os trabalhos que refletem o que aconteceu com o planeta vermelho.

Ao fim, a história de Mendez e sua evanescente tripulação foi o primeiro passo de uma trágica exploração. Depois de muito tempo soubemos que a China havia enviado uma tripulação antes, e o que seria sua entrada na corrida já seria uma segunda leva de colonos para o solo marciano. É claro que a presença desses dois antípodas temperada com a chegada da nave saudita criou um clima de tensão muito elevado. Em poucos anos os conflitos começaram. Marte, por fim, fez jus a seu nome e foi palco da primeira guerra nas estrelas. Naquele lugar deserto muita coisa foi testada. Armas impensáveis fora da ficção científica foram utilizadas na última batalha. Aquele mês de julho colocou um ponto final no primeiro grande evento interplanetário do nosso século.

Hoje, ao olharmos fotos do que foi o planeta vermelho, encontramos um brilho azulado em seu contorno. Dizem que é a radiação criada na atmosfera e que impede a sobrevivência de pessoas por ali devido ao teor radioativo que pediria um traje muito pesado, estruturas de habitação densas, o que somado ao equipamento de sobrevivência faria ser necessário uma mudança da própria estrutura humana. Se um dia a raça humana voltar lá será algo diferente do que é hoje. E não deve demorar tanto.

Tobias Goulão, mestre em História, é professor da Universidade Católica de Anápolis.

6
Terra à vista
José M. Umbelino Filho

…quando finalmente as estruturas de propulsão primária se desprendem e o módulo tripulado avança sozinho contra o escuro, ela se permite ligar o áudio e inundar o cockpit com a voz alienígena de David Bowie. it’s a god awful small affair, to the girl with the moisty hair. deveria ser um momento triunfal, ela pensa, deveria ser um momento histórico. mas está enjoada, sua cabeça se ressente dos barulhos, suas pernas imploram pela gravidade roubada. e os dois astronautas chineses que a acompanham são de poucas palavras. estão ocupados em manter botões apertados, luzes acesas, mecanismos em ordem. ela olha de repente a terra pelo visor e quer se emocionar. não consegue. lá embaixo fica apenas o que se despreza: a mediocridade humana. o horror, o horror!  em sua imensa beleza de luz e água, a terra brilha como a íris de um olho azul. mas em vão.  logo o planeta some no escuro e ela entende que diante da nave há apenas vazio. a distância, o desafio, a odisseia. agora, sim, ela se emociona. percebe que não merecia ter vindo. escolheram a pessoa errada. deviam ter mandado um poeta. um artista, um bailarino, uma criança. alguém que soubesse o que dizer. fecha os olhos e imagina que os duzentos e quarenta dias de viagem passam num segundo e a nave pousa em solo marciano. a glória dos desbravadores! mas os dias não passam assim; os duzentos e quarenta dias no escuro, sinalizados debilmente num visor de luz azul. há apenas vazio a frente. por duzentos e quarenta dias, confrontar o vazio. confrontar o vazio. olhar diretamente no olho de uma divindade ausente. é verdade, talvez nenhum poeta sobrevivesse àquilo. poetas são criaturas delicadas, assim como os astronautas. talvez devessem ter mandado apenas os poetas suicidas. talvez máquinas. mas só as máquinas suicidas. agora ela já não pensa mais. aquilo não é uma viagem, é um naufrágio. sua alma é o destroço na espuma. não é um voo, é uma queda. pois uma pessoa é capaz de viajar por muito tempo e para muito longe; pode cruzar mares e desertos. pode sobreviver à fome e à exaustão. enfrentar selvas, monstros, bárbaros, calmarias, tempestades. mas ninguém vence a solidão absoluta. ninguém cruza o vazio. e diante deles é tudo o que há: anos-luz de ninguém. uma noite profunda. um infinito ninguém. e se para chegar a Marte, ou à esquina de casa, for preciso cruzar silenciosamente toda aquela solidão, todo aquele silêncio, todo aquele vazio, então que covardia lançar seres humanos a tal absurdo! ninguém coloniza a solidão. ninguém habita o vazio. duzentos e quarenta dias. quando a nave finalmente pousa em solo marciano, os três pioneiros estão mais perdidos do que quando partiram. ela desce primeiro. a primeira coisa que faz, a única coisa que faz, é a única coisa que importa fazer: olhar o céu desconhecido e procurar algum sinal da Terra, só para gritar, aliviada: Terra à vista!

José M. Umbelino Filho é escritor.

7
Natimarte
Edgar Franco-Ciberpajé

Nada faz muito sentido aqui dentro. Mas nada faz sentido em lugar nenhum. Somos nós que damos sentido à existência, agarrando-nos às nossas crenças – subprodutos da imberbe cultura humana – e às nossas parcas e porcas ditas experiências, em existências limitadas que não são nada diante da imensidão das eras cósmicas. O planeta, que por décadas parecia desabitado para nós, guardava um segredo em seu núcleo oco e de temperatura praticamente estável, por volta de 37 graus Celsius.

Foi nomeado pelos gregos de Ares, o deus da guerra, e renomeado como Marte pelos Romanos. Talvez o sentido que eu esteja dando ao que estou experienciando agora seja o mais distante possível da concepção de guerra. Ou seria esta a semente astral de uma guerra diferenciada?

Eu vim com a décima primeira missão de exobiólogos que estudam o núcleo de Marte. Sou especializado em psicologia transhumana, humana, animal e vegetal. Estudei e analisei todos os relatórios das missões anteriores, mas nada se compara a estar aqui agora, conferindo com meus próprios olhos e demais sentidos este fenômeno completamente inusitado, sem precedentes, sem explicações lógicas, sem nenhum sentido a partir de  todos os paradigmas que balizam a ciência humana. Entretanto, a estrutura básica do fenômeno retoma metaforicamente algo que é muito natural no contexto da biosfera Terrestre, produzindo um estranho paradoxo entre sua forma compreensível e seu modus operandi incognoscível.

Estou há 63 horas aqui, e vivencio a estranha sensação que acaba dominando a nossa psique após algum tempo experienciando o fenômeno. Sensação que leva-nos a uma condição psicológica que rememora estados não ordinários de consciência causados pela ingestão de altas doses de enteógenos como a ayahuasca, o Psilocybe cubensis, ou o peiote. Estados que podem durar por até sete dias após a saída do local, e fizeram inúmeros cosmonautas desistirem de suas missões, retornarem à Terra e mudarem completamente suas vidas e valores existenciais. Por isso todos os pesquisadores permanecem por até 60 horas terrestres aqui dentro, o máximo de tempo possível sem ser afetado densamente pela sensação. Mas eu estou aqui para experienciar profundamente o estado de consciência induzido pelo contato com o sistema, para tentar compreender seus efeitos na psique humana.

Confesso que escrevo este diário tentando manter a coerência e a racionalidade enquanto experiencio a sensação mais extasiante que já experimentei em meus 49 anos de vida. Algo que transcende a ideia de sublime, e mesmo diante das encruzilhadas lógicas que me impedem de ver qualquer racionalidade neste fenômeno, estou em um estado sereno, mas de completa e total percepção e atenção a todos os detalhes inacreditáveis desta experiência transatávica e magnífica.

Agora sinto meu coração batendo exatamente no compasso do dele!

Do ciclópico feto da criatura de milhares de quilômetros de tamanho que é gestada no útero núcleo de Marte.

Edgar Franco-Ciberpajé é professor da Universidade Federal de Goiás, arquiteto e artista.

8
A Quinta Migração
Julius Vieira

Uma fila era a última coisa que imaginaria poder atrasar sua pesquisa em anos. Mas, até instalarem as bibliotecas — virtuais ou não — no novo planeta, levaria um bom tempo para retomar o seu trabalho. Levava consigo uma pouca bagagem, pois os outros pertences foram dentro de algum contêiner nos cargueiros despachados no dia anterior. E neste contexto, Jax olhava a centena de humanes à sua frente, todos aguardando sua vez de entrar na nave.

Como historiador especializado em História Antiga, muito de seu olhar recaía sobre o marco das primeiras migrações espaciais humanas — naquela época ainda com a grafia já em desuso — há quase cinco milênios e sua pesquisa envolvia traçar os paralelos entre todas as posteriores. Sua primeira constatação veio do cansaço dos mais de cinco anos em preparativos burocráticos para organizar mais uma migração em massa: concluiu que vivenciar eventos históricos não era tão agradável quanto estudá-los.

Estavam partindo de Netuno para uma galáxia vizinha, era a Quinta Migração. O pequeno Plutão fora sumariamente ignorado. Na perspectiva de Jax o ex-planeta fora salvo. Levava-se cada vez menos tempo para desenvolver as tecnologias que faziam os planetas se tornarem habitáveis, apesar de sempre serem necessário ajustes de um para outro. Ao mesmo tempo, os recursos dos planetas ocupados pela praga humane eram a cada migração consumidos com maior voracidade. Atitude sustentada pela certeza de que um novo planeta poderia ser habitado, se necessário. Isso também fazia o espaço entre as migrações mais breves, sempre deixando para trás apenas um caco do que o ambiente fora. Isso aconteceu com cada um dos planetas do sistema solar.

Jax, de certa forma, estudava o que ficava para trás. Muitos criticavam seu estudo acerca da Terra, afinal, há incontáveis gerações ninguém chamava aquilo de lar. Era só passado, lixo, velharia. Mas o historiador entendia: o passado poderia ajudar em muito às reflexões do presente. Por mais que os terráqueos não tivessem os mesmos pescoços compridos e curvados dos humanes — efeito de uma evolução acelerada pelos novos ambientes —, eram sim os seus antepassados.

Por exemplo, em sua pesquisa havia descoberto alguns registros de renda dos primeiros migrantes. Depois descobrira dados sobre a renda média da população mundial em um período aproximado. Cruzando os dados o historiador elaborou uma hipótese, que se refletia no presente: a cada migração, a população mais pobre ficava para trás. Pessoas com doença graves internadas em hospitais, também. Inclusive, dali da fila era possível ouvir os protestos dessa população e as repressões das autoridades geradas por esses fatos, pois a Quinta não estaria isenta de contradições. Jax fazia um grande esforço para ignorar esses sons, outros na fila não pareciam afetados.

Um fato interessante surgiu em sua mente: a mão de obra mandada para os novos planetas para transformá-los em um habitat pertencia a essas camadas mais pobres. Era o tipo de emprego que gerava muitas baixas. Jax só estava naquela fila devido a morte de centenas de operários mandados não só para um outro planeta, mas para outra galáxia, incumbidos de preparar o terreno para a moradia de seus contratantes. A única vantagem à vista era a garantia de que a própria família poderia desfrutar do novo lar… e isso nem sempre acontecia, segundo alguns artigos lidos sobre a Quarta Migração. Outras contradições eram as campanhas pró-vida feitas em torno das Migrações, pregando a ideia do salvamento de milhões.

Jax sentia certa culpa e sabia que tinha privilégios por ser filiado a uma das maiores universidades do planeta, isso lhe rendia certo status, mas o que faria? Ficaria? Ele sabia o resultado de ficar: uma vida de subsistência até definhar. Sempre monitoravam o planeta por algum tempo para observar o desenrolar das coisas pós migração. Era quase sádico. Na Terceira, o número de suicídios coletivos após o primeiro ano foi enorme. Da Primeira e da Segunda, as informações eram mais difíceis de obter devido a tecnologia ultrapassada. Era difícil de extrair os dados.

O historiador devaneou sobre como o resultado prévio de sua pesquisa podia ser visto ali mesmo, pouco antes dele entrar na nave. Ao vivenciar, sentiu ter entendido o que marcava cada Migração, desde a Primeira. E ao contrário do que as propagandas pregavam, elas não eram uma celebração da vida, eram muito mais uma ode dedicada a morte.

9
Son(h)ar de Marte!
Gazy Andraus

Há um mistério insolúvel, ao que reluz em vermelho, como as cores das bandeiras e flâmulas que são carregadas em batalhas na Terra.

O óxido de ferro que nutre seu solo e fecunda as imaginativas mentes, buscando paralelos intricados (e intrigantes), tem feito parte deste aparato insondável, até então.

E mesmo o quarto planeta do sistema solar, assemelhado à Gaia em tamanho, rotação cíclica e superfície rochosa, atenua, vez ou outra, o que seriam suas possibilidades paisagísticas criativas, ao se verificarem similitudes em suas áreas exploradas pelo fator humano (indiretamente via máquinas por ele engendradas).

Autores outros da Terra já exploraram virtualmente suas possibilidades.

Ray Bradbury desvelou suas crônicas, em maneiras poéticas.

Alan Moore conjecturou um ultra-humano quântico que podia deliberar em quaisquer áreas planetárias… mas que resolvera refletir filosoficamente sobre o solo marciano (propício às reflexões além-Terra).

E eis que Cydonia teimou em perscrutar o cosmo, desterrada do solo avermelhado, tal qual pirâmide terrestre engendrada por seres bípedes que se dizem inteligentes.

Poderia uma pareidolia ser, em primeira instância, uma contraparte de uma realidade absorta (e absoluta)?

Descrevo este relato, pousado neste ermo solo avermelhado, em que não posso me ausentar, pois meus circuitos de compressão e terminais termais extrapolaram em problemas. Ou seja, em caso de necessidade a vagar pelo solo para reconhecimento da área, a ação estaria impedida momentaneamente, pois se se forçasse, ela se excluiria. Mas foram tantos dias em navegação sideral… e agora, meus fios capilares se desprendem — a radiação fora além do esperado.

Ainda assim, há a pretensão de finalizar-se a exploração, quando o tanque de imersão reaprumar as vestimentas.

Não antes disso!

Tentar-se-á pisar o solo a se averiguar a área circundante (e circunscrita).

Não se tem como sustentar mais este paradigma: solto num planeta (mas ainda dentro do bólido), como único a habitá-lo, há um dia (não estou certo disso), enquanto dois de nós três, integrantes da nave espacial, por não terem resistido às intempéries do vácuo sideral, desfaleceram no trajeto (ao que se necessitou ejetá-los, dada a falha do sistema criogênico, coincidentemente quando faltaram poucos dias a se adentrar na área circunscrita do planeta).

A situação só se complicou, pois embora todas as vicissitudes naturais pudessem ter sido previstas, algumas de ordem inimagináveis se sobrepuseram.

Não se pôde lidar com a radiação, a qual superou a contagem potencial prevista.

Não se pôde também resistir aos raios fustigantes, apesar do revestimento da nave. Não sei como minha integridade física não fora tão afetada, como a dos outros cosmonautas (talvez algum fator de minha conformação molecular-atômica pudesse ter algum diferencial como justificativa).

Porém, o mais inusitado não foi por mim comunicado à Terra.

Uma anomalia, perto de entrar no espaço aéreo do planeta, perturbou todos os controles e comandos eletrônicos da nave. E também perturbou o meu processamento neuronal. Repentinamente, foram vislumbradas luzes, brilhos, colorações variadas, como duma aurora boreal…porém, mais intensas e prenhes de “metais” variados reluzentes enviando “sons” a meus ouvidos… e, de repente, deu-se espaço à audição sonora ao que passei a vislumbrar imagens. Sinestesia, como nunca me havia permeado a tal nível.

Adensou-se a ponto de se auscultar os sons — desde inaudíveis, vociferantes, aos mais altos e reagrupados que, embora soassem caóticos, faziam sentido, ao penetrarem as bigornas e martelos de meus tímpanos.

Situava-me entre algo febril e alucinado, enquanto a fronte transbordava em gotículas transpirantes… ao que, em contato ao ar mantido na nave, instantaneamente se cristalizava.

Esta tecnologia atual, em que o sistema recupera o oxigênio neste bólido interespacial, a partir do dióxido de carbono eliminado a partir da respiração de nós, tripulantes, começou a trazer preocupação a mim…único sobrevivente, dado que, com a morte dos dois outros, a situação também enveredou a outros caminhos não aventados! Pois parece ter-se iniciado também outra falha neste sistema de manutenção do “ar”, ainda que, aparentemente, a entrada na superfície marciana tenha durado segundos.

Até depois de adentrar o céu marciano e pousar, quando revisei os registros eletrônicos que voltaram a funcionar, percebi-os acusarem adensamento do espaço-tempo, como longas horas de estiramento (Einstein se regozijaria com tamanha relatividade vivenciada).

Aturdido, ainda assim, vislumbro da nave, o horizonte: solos arenoso-pedregosos e sua colorização avermelhada…

Após instantes a me recuperar, soluciono o até então impensável: pisar no solo marciano, como pioneiro! E eis que, ao sair, mesmo protegido (os terminais da vestimenta foram novamente preenchidos e, embora na nave o ar parecesse ficar rarefeito lentamente, consegui manter o uniforme revigorado), passo a ter sensações estranhas em minha mente ao pisar a terra marcial… eu sigo o olhar e a visualização do solo, das areias, das pedras, das cores…mas não consigo me focar, pois repentinamente os rasgos visuais se dão a mim como sons que se extravasam e penetram pelos meus olhos, em que tudo se coaduna aos ouvidos e se torna mais sonoro que visual… uma sinfonia que vai se alter(n)ando, se complexando, a cada momento em que direciono minha cabeça com mais rapidez.

Estou mergulhando num “mar” sonoro, cadenciado, com timbres e tons cujos instrumentos poderiam ser, talvez, os mesmos que se utilizam na Terra… mas creio que isto se assemelhe apenas a uma “coordenação” da mente a que eu consiga apreender tais conceitos (como quando um sonho acontece para reestruturar a mente no sono)! Ao olhar, daqui de fora, à nave, ela também, que tem brilhos devido aos metais, vai se sonorizando… e quando redireciono meus olhares às luvas, elas se sonorizam igualmente.

Estou mergulhando, enfim, num acesso atemporal sonoro…não consigo…mais…refletir ♫♩palavras…minha…mente ♬…tem dificuldade de formar… elucubrações♬♫♩♬…sons…sss… ♪sens…♫, ato♫♩i♬.

Ac♪ ♪♫, ♫ ♩♬♪♪ ♫, ♩♬♫ ♩♬ ♪ ♪ ♫, ♫ ♩ (♬ ♪), ♫ ♪ ♫, – ♪ ♪ ♩♬ – ♬♬♪…

♪♫ ♪ ♩♬ – ♬♬♪!

♪♩♬!

Gazy Andraus é pós-doutorando pelo PPGACV da UFG (bolsista PNPD-CAPES), doutor pela ECA-USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, pesquisador e membro do Observatório de HQ da USP, Criação e Ciberarte (UFG) e Poéticas Artísticas e Processos de Criação. Publica artigos e textos no meio acadêmico e em livros acerca de Histórias em Quadrinhos (HQs) e Fanzines. É autor de HQs e Fanzines na temática fantástico-filosófica.

10
Pro rumo da minha terra
José Fábio da Silva

“Apenas seres conscientes podem se dar ao luxo da inutilidade. Uma máquina só existe se exercer uma função.” — Provérbio robótico

Com exceção dos relógios, uma máquina não costuma contar o tempo. Mas posso afirmar que, se viva eu fosse, muito velha eu seria. Desde quando fui ligada, existo nesse deserto. Segundo minha programação, cheguei em uma pequena cápsula que não resistiu à aterrissagem. Eu mesma sofri avarias, que de imediato foram constatadas, por mim mesma, como de baixo risco. Pouco comprometiam a realização de minha programação. Embora, vez ou outra, possa embaralhar a ordem dos dados. O que os seres conscientes chamam de uma má concordância na construção de frases.

Simples, minha função é. Atiro dados ao espaço como informação aos que um dia aqui chegarão. Estão a caminho e precisam saber o que os aguarda nessas terras pouco conhecidas. Se viva eu fosse, pioneira eu seria. Desde quando fui ligada, existo nesse deserto. Como máquina não passo de uma ferramenta para os que me construíram. Apesar de acumular a cada dia mais e mais dados, ainda sou a mesma de minha programação inicial. Ter informação não é o mesmo que ser inteligente. Acumular dados também não significa aprender.

Em breve os meus construtores estarão por aqui. Aí, serei desligada, minha missão terei cumprido. Ao menos é isso que diz as minhas informações de origem. Recolho dados e transmito informações. Não recebo informação alguma de volta. Assim, sei que estão a caminho e que existe um tempo estimado para chegarem. Pode ser que nunca cheguem, mas isso não importa, como máquina não especulo. Desde quando fui ligada, existo nesse deserto. Não fui programada para tomar atitudes, apenas recolho dados e transmito informações.

Outro problema que foi detectado em meu sistema é uma constante repetição de informações. Incorro na repetição de dados já tabulados. Sobrecarrega a minha memória, mas não atrapalha em si o meu funcionamento. No mais, desde que cheguei nessa outra terra, tudo é como se igual sempre fosse. Noite após noite, uma grande estrela surge e tudo ilumina. Dia após dia, ela desparece e tudo escurece. A temperatura sobe e depois cai. Os ventos sopram e depois param. As pedras são as mesmas pedras de todos os dias. Desde quando fui ligada, existo nesse deserto. De modo que, se consciente eu fosse, poderia pensar que não sou eu a repetir informações, mas as informações que teimam em se repetir.

Com exceção dos relógios, uma máquina não costuma contar o tempo. Mas algo de novo ocorreu desde que aqui cheguei. Outra máquina. Também aqui estava há muito tempo. Como eu recolhe dados e os atira ao espaço. Mas certeza eu tenho que não os envia pro rumo da minha terra. De outo lugar essa máquina semelhante é. Diferente ela é, mas a função que exerce é igual a minha. Como eu recolhe dados e os atira ao espaço. Mas para outros seres conscientes. Outros seres também diferentes, mas ainda assim com os mesmos objetivos. Objetivos que não sei quais são, visto, ser simples a minha função. Objetivos que não sabe quais são, visto, ser simples a sua função.

Se consciente fosse, feliz ficava por ter agora companhia. Mas para mim ou para a outra máquina isso pouco importa. Continuamos a nossa simples missão. Agora os meus criadores têm a informação de que outros seres querem o mesmo que eles. Os outros seres a mesma informação possuem. A outra máquina também tem avarias. Se viva ela fosse, diria que coisa da idade seria. Mas máquinas não envelhecem. Apenas deixam de desempenhar a sua função e são desligadas. Assim eu serei quando os meus criadores aqui chegarem. Terei minha missão cumprido. Assim ela será quando os seus criadores aqui chegarem. Terá a sua missão cumprido. Se os criadores dela antes dos meus chegarem, o resultado é o mesmo, embora em outra perspectiva.

Ambas teremos nossos dados removidos e depois seremos desligadas. Para os nossos criadores, é algo de suma importância. Para eles, agora, tudo é uma corrida. Para nós, máquinas, tudo não passa de recolher dados e atirá-los ao espaço. Pouco importa quem a informação receba. Não conhecemos os nossos construtores. Quando finalmente chegarem, para nós diferença não irá fazer. Desde quando fomos ligadas, existimos nesse deserto. Ao menos é isso que diz as nossas informações de origem.

José Fábio da Silva é membro da Academia Anapolina de Letras.

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Problemas técnicos
João Paulo Lopes Tito

Loreta despejou a água fervendo no filtro, e instantaneamente o cheiro de café tomou conta da cozinha. Nem três minutos depois, Otávio surgiu pela porta, puxando fundo o ar.

— Adoro o cheiro de café pela manhã. Ainda mais, passado pelo meu amor.

— Eu sei, minha vida. Conhece mais alguém que faz isso por você?

Riram juntos. Otávio deu duas goladas e mastigou a torrada crocante, fresquinha! Abriu o jornal e prostrou o olho na primeira capa. “Mortalidade sobe na periferia”. “Ministro alerta para o aumento do Cofins”. “Surita surge seminua em foto elogiada por fãs”. “Vila Nova perde mais uma”. Sempre a mesma baboseira.

— Muito serviço hoje, benzinho?

— Demais. Você nem imagina. Mas me espere para o jantar!

Pegou o capacete apressado, fixou na alça de pressurização e digitou o código de inicialização de sequência de ejeção. Aguardou a voz mecânica do robô Bishop sinalizar a autorização para destrave da câmara de desinfecção, e partiu para o serviço.

Loreta e Otávio, brasileiros, casados, sem filhos, foram sorteados dentre outros milhões de casais voluntários no mundo todo para a primeira missão terráquea de colonização de Marte. Numa parceria mais do que improvável entre a NasaA e as agências espaciais da China, da Rússia, de Java e o empresário multibilionário Melon Tusk, a Operação Vassilyev se tornou o grande trunfo da humanidade para salvar a espécie de uma terrível pandemia que já durava anos. A diretriz do comando espacial era para não divagarem do plano bíblico. Gênesis 9:7.

Na Terra, telespectadores assistiam 24 horas por dia as aventuras do casal em Marte, no que se tornou conhecido como o primeiro reality show espacial. E, naquela noite, a audiência bateu recordes, porque Otávio bebeu demais no posto avançado de descarte de estruturas ociosas, e chegou no iglu homeostático depois das dez.

— Otávio Mendonça de Araújo Júnior! Onde o senhor estava até essa hora?

— Em Marrrrte.

— Não me venha com ironias! Que estou te esperando desde às 5 para lavar as sondas!

— Moza, vozê é a quem mês?

— Otávio! Você não era assim! — colocou o rosto entre as mãos e saiu chorando para a cápsula conjugal.

Otávio sentou-se, reflexivo, recendendo vodca chinesa.

— Os homezzz zão de Marrrrte. As mulherez de Vênus. Aqui eu que mando!

O áudio do controlador no rádio do traje não deixava dúvidas: “Houston, temos um problema”. Mas no Twitter, um telespectador via oportunidades: “Fogo no parquinho! Marte já demanda seu primeiro advogado de família!”.

12
Um salto no escuro
Rogério Rocha

Existem, basicamente, dois tipos de viagens: aquela que fazemos todos os dias e outra que só se faz uma vez.

Após a descida turbulenta, os olhares de Anders e Falco se cruzaram. Ofegantes, dentro de seus trajes, não conseguiam acreditar que haviam enfim tocado o solo do planeta vermelho. Nos primeiros minutos de caminhada, foram tomados pelo assombro diante do feito — grandioso e assustador. Só não mais assustador do que a sensação de serem tomados por um silêncio monumental.

A nave Esperança chegou em Marte a 27 de abril de 2055, após sete meses de viagem, e pousou em Chryse Planitia, na região de Ares Vallis, liberando um veículo robô que os ajudaria na coleta de materiais, fotos e dados sobre o ambiente descoberto. Essa era a terceira tentativa feita pela Terra. As missões tripuladas anteriores fracassaram devido a problemas no percurso: a primeira não passou do cinturão de Van Allen e a segunda distanciou-se da rota no trecho final, perdendo-se em definitivo, durante a aproximação do seu destino.

No final das contas, dois astrobiólogos chegaram vivos ao planeta, após a entrada na atmosfera. Três planetólogos, dois astrofísicos e três climatologistas, que com eles viajavam, morreram nas cabines, com uma espécie de mal súbito, pouco antes do fim da viagem. O fato é que não houve lógica. Morreram. Foi como se alguém os tivesse drenado as forças. Seus corpos foram rapidamente ejetados da nave, seguindo-se os protocolos de segurança determinados pelo comando central.

Em solo marciano o computador científico (anexo ao capacete dos trajes) deixou de funcionar com a precisão de quando testado na Terra. Emitia agora apenas avisos esporádicos sobre as distâncias e o clima. Clima este que já anunciava a chegada de uma grande tempestade de areia para o mesmo dia da martissagem.

Sobre o solo vermelho de Marte a solidão e o cansaço invadiam a alma dos astronautas. Em pouco tempo começaram a descobrir a dificuldade que teriam para instalar uma base de apoio para outras expedições e o quão duro seria manter-se vivo em meio àquela desolação, sem falar em seus estados mentais e fisiológicos visivelmente afetados.

Após algumas horas de exploração do terreno, os cosmonautas visualizam um grupo de pequenos orbes prateados e brilhantes que se movimentam à distância. Ao segui-los, para registrar aspectos de suas formas e estruturas, são levados para dentro da cratera Jazero, situada no côncavo dum pequeno vale. De lá observam a formação e chegada da temida tempestade. O céu, carregado de nuvens de poeira rubra e muito vento, foi invadido por um som desconhecido, que lembrava a vibração de um sino a tocar num tom grave e abafado.

Em fração de minutos estavam os dois encobertos por pela densa poeira. Os equipamentos portáteis que levavam nos trajes disparavam todo tipo de bip. Correram, sem certeza da direção, retrocedendo ainda mais para o centro da cratera. Que bela forma de chegar ao mundo novo. Após anos de seleções tortuosas, treinamentos, planos, testes secretos, um voo de meses, o desgaste psicológico, os conflitos que tiveram de enfrentar e a culminância da morte obscura de vários membros há menos de um dia da entrada na atmosfera, Falco e seu parceiro descem justamente no meio de uma tormenta em formação.

O sonho da conquista de um novo mundo, uma nova terraformagem, um planeta de fuga para os terráqueos, criou a grande ilusão marciana. Vendida como algo perigoso, porém necessário, a Missão Marte os trouxera a um inferno de lugar sem vida.

Sob os efeitos dos ventos fortes, os exploradores falavam alto, gritando um ao outro em seus comunicadores, até perceberem que algo ainda mais estranho ocorria. Os orbes, que antes buscavam, brilhavam intensamente no centro da tempestade. As luzes deles saídas desceram por sobre a cratera, fazendo abrir-se o chão. Os astronautas, sem tempo para reagir, caem num fosso que suga a terra que há instantes estava sob suas botas. Minutos depois a fenda se fecha, aparentemente mediante a intervenção das mesmas luzes, que somem quando o mau tempo se extingue.

A verdade é que metade dos habitantes do planeta havia desaparecido ou migrado para planetas distantes, enquanto a outra parte se estabelecera definitivamente nos subterrâneos de Marte logo após a trigésima convulsão meteorológica do ano marciano de 5000. Os que ficaram, juntamente com a população de extraplanetários, construíram as cidades do subsolo, que era onde estava a vida daquele mundo.

Oriundos de várias partes da Via Láctea, a maioria dos seres dali eram quase etéreos. Outros, híbridos de terráqueos e seres evanescentes, escravizados pelos Senhores dos Submundos (os descendentes dos primeiros marcianos) e o restante, a terça parte do contingente de vida inteligente de Marte, era formada por abduzidos do planeta Terra.

Ao retomarem o sentido do que estava a ocorrer, os astronautas viram-se presos em tubos fosforescentes, pairando cinco metros sobre uma multidão de seres disformes, em meio aos quais conseguiam ver algumas faces que lembravam a de humanos. Com a comunicação rompida entre eles, percebiam que algo lhes falava dentro de suas mentes. Uma consciência maior que as suas, que lhes narrava a história do planeta vermelho, a razão daquele cenário e o que lhes poderia acontecer.

— Quem está falando conosco? — questionou Anders, com a voz do seu pensamento.

— Não parece nos querer o mal, Anders. É o que pressinto! — diz Falco também telepaticamente.

— Temo pelo nosso destino, Anders. Não temos saída. Essa gente vai nos destruir.

Falco, ainda na vertical, dentro do tubo flutuante, abaixou a cabeça desolado. Abaixo de suas botas estava um amálgama de seres que, olhando fixamente para cima, representavam seu maior medo, naquele momento.

Imóveis no corpo de luz em que se achavam, os dois terráqueos sentiam estar em descida gradual. A continuar o trajeto descendente, em pouco tempo estariam nas mãos daquela estranha horda.

Na iminência de serem tragados pelos marcianos, sentem novamente a presença grandiosa de uma entidade que lhes fala como que aos ouvidos, com o reverberar de uma potente voz em seus cérebros. Inexplicavelmente, percebem as mensagens até em forma de sussurros. Alguém lhe diz um nome. Seu nome. Enoque.

Nesse instante, aproxima-se deles uma nave de cristal. Seu brilho é como o de uma noite estrelada. Lá dentro, sobre um trono, na sala de comando, está Enoque. Que os acalma e os retira dali, transportando-os num raio azul. Em fração de segundos estão de frente para um homem de aparência extremamente idosa, cujo olhar e a presença dominam seus corações, enchendo-os de esperança.

Diante deles estava o profeta Enoque (que andou com Deus e depois sumiu, arrebatado). Tinha-se tornado, ao longo de mais de mil anos, além do homem mais velho do mundo, uma espécie de mentor dos habitantes dos planetas inferiores, tendo por missão manter a paz e o equilíbrio entre os habitantes das regiões daquele quadrante de espaço, tomadas pelo cientificismo de base hiperracionalista. Há milhares de anos andava pelos mundos a bordo da nave Ezequiel, que o transportava de um local a outro com o auxílio de saltos quânticos. Seu papel era de usar de controle psíquico para atuar no combate à disseminação da violência dentre as espécies do sistema planetário, impedindo a escravização de civilizações menos evoluídas pelos povos mais avançados.

— Agora estarão salvos. Para sempre! — diz Enoque.

Um brilho vigoroso adentra os olhos dos homens do espaço que, num piscar de olhos, veem-se transportados para longe de Marte. Quando a luz do dia se dissipa, e o olhar recupera sua visão, Anders e Falco veem a Terra na linha do horizonte.

Desfeitos do traje virtual e da luz que os conduzira, exultaram o profeta e se alegraram pela descoberta. Por sobre um vale, na parte iluminada da Lua, encontraram Enoque face a face. Com o temor da reverência que seu rosto imprimia, ouviram-no em silêncio. Depois, Anders lhe perguntou sobre o que fariam ali. O velho sábio disse-lhe que a salvação da ruína que teriam nas mãos dos seres de Marte seria um futuro de recuperação na base permanente do satélite do planeta de onde vieram.

Como planeta de condenação, Marte não poderia mais ser habitado por outros povos. Isso os condenaria à Morte por desintegração anímica ou à escravidão. Como acontecera com todos os que ali ousaram estar antes deles. A lua, contudo, pequeno corpo a circundar a Terra, diferente do planeta vermelho, era uma colônia de cura e um recanto para os arrebatados, que agora viviam em suas galerias interiores, em seu subsolo. Aliás, o desprezado satélite terrestre também guardava segredos. Todos escondidos, por milênios, no fundo de suas entranhas.

Rogério Rocha é membro da Academia Poética Brasileira.

13
La Pulce
Itamar Pires Ribeiro

Enfim entendera a sincronia proposta. “A passagem da pulga”, agora era uma questão também pessoal. Restavam duas horas. Não havia quase nada a fazer. Quase. Poderia gravar mensagens melosas para a Terra, poderia esconder arquivos vitais para o futuro em criptografias impossíveis, carregar as armas e bloquear as portas, mas isso já havia feito, dois dias antes.

Poderia também secar o Porto, Safra 1984, que trouxera para azedar naquele buraco. Providência sábia e urgente. Logo abriu a garrafa, mas o que saiu de dentro era qualquer coisa menos um Porto. Vinagre podre. Se lembrou de ter ouvido uns ruídos estranhos, duas semanas antes, vindos da boca do Olaf Park, mas não prestara a atenção devida. Estava bêbado, o que melhorara seu humor de pedra arenosa, não por muito tempo. Que ideia miserável, assaltar o Porto e substituí-lo por aquela coisa intragável.

Dez minutos haviam se passado. Ainda seria possível terminar de carregar o Marmota e tentar alcançar, antes da noite, a primeira base de Themis, Dice, da qual não tinha notícias há mais de uma semana? O Marmota tinha autonomia suficiente mas Dice foi primeira base escavada em Themis, com mais de duzentos anos de uso, e velhice não era um bom atributo no turbulento Marte. De Dice ele poderia pegar outro Marmota, com capacidade de viagem noturna e correr até Irene, uma base bem mais moderna e que poderia ter resistido às últimas semanas, mas tudo dependeria da sorte em Dice.

Restava uma hora e meia. Bom, poderia tirar uma razoável soneca. O vinagre estragado não ajudaria nisso. A aproximação de Phobos muito menos. A pequena sombra de Phobos, com sua correria diária, o medo dá velocidade? Que anedota ruim.

O tempo escorria, como sempre. Rápido, imperceptível. Mais meia hora se fora. Podia libertar Hermógenes, a tartaruga, de seu cativeiro de proteínas sintéticas. Que ele corresse pelas instalações, que subisse ao altar deixado pelo Park, que atacasse a mordidas o galo de bronze que algum dos construtores do abrigo roubou de uma porta de Paris e incorporou como enfeite na mesa de trabalho. Tanto faz. Uma hora e pouco de prazo. Em breve sua carapaça, seu sistema imune que se adaptara às condições do planeta e transformara as tartarugas em bichos de estimação abundantes, nada disso faria mais diferença.

Criptografou arquivos e os encaminhou à estação retransmissora em Deimos, que boa imagem de abnegação profissional ele não estava deixando! Talvez merecesse uma promoção póstuma. Que honra. Que pena que o Park tenha sumido para Irene há três dias. Não havia como lhe cobrar pelo Porto bebido, nem pelo Marmota roubado, pelos suprimentos surrupiados, pela munição perdida, pela sabotagem nos comunicadores de curta distância. Podia gerar mensagens para a Terra, e daí? Em pouco mais de uma hora e meia a rápida sombra de Phobos passaria frente ao sol, a mensagem levaria meia hora para chegar, quando respondessem, o que teria sobrado? Estática?

Phobos tinha um apelido tolo, dados pelos primeiros expatriados franceses, La Pulce, que terminou incorporado e, às vezes, traduzido para quantas línguas houvesse entre os humanos. La Pulce — uma coisa pequena, insignificante e um tanto cômica. Duas vezes ao dia a pulguinha passava na frente do sol. Com o tempo aquela passagem passou a ter utilidades inesperadas: para os trabalhadores significava uma troca de turno, para os financistas o fim de um ciclo de especulação, para os amantes, a hora de interromper e depois reiniciar os jogos de cama, o acerto dos relógios mais simples usava a passagem da pulga como método de aferição.

Havia algo de cômico na corrida desesperada da pulga, com seus doze segundos cravados para atravessar o sol? Desde a tomada de Phobos ninguém conseguia associar aquela pequena sombra com qualquer coisa engraçada.

Quando a minúscula sombra passava pelo sol num ângulo alto, entre 75 e 125 graus a possibilidade de que algo nos atingisse, vindo diretamente de Phobos, era sempre muito alta para que houvesse qualquer sorriso. O que viesse, se viesse, faria os 6 mil quilômetros que separam Marte de Phobos em pouco mais de dois minutos. Dois minutos, esse era o prazo final.

A faixa equatorial de Marte fora escolhida para abrigar as principais instalações do planeta. O clima um pouco mais ameno significava um gasto de 30% a menos na espessura dos abrigos, uma economia considerável, mas que, por si só, não animaria ninguém. Mas as terras raras e suas imensas jazidas em Themis, isso sim, validavam o empreendimento. A partir delas se produziam as ligas metálicas das velas siderais e o núcleo dos motores de cada espaçonave que cruzava o sistema solar. Até as absurdas e felizmente raras naves-colônia, com seus milhares de criaturas humanas congeladas, que buscavam algum dia alcançar Próxima Centauri B, tinham em seu núcleo de movimento as ligas metálicas de Marte. Até aqueles esquifes.

No equador viviam 90% de todos os extraditados, tanto faz se chegaram por conta e risco, ou se foram exportados da Terra para cumprir sentenças e mesmo os que eram nativos de Marte. A sincronia do equador com a órbita baixa e acessível de Phobos fora outro atrativo econômico. Se Themis tinha jazidas imensas, Phobos era uma jazida flutuantes de terras raras. Três vezes ao dia os enormes paraquedas orbitais eram lançados de Phobos e desciam silenciosamente através da atmosfera rala. Hoje não há mais paraquedas e nem silêncio. O que vem de Phobos desce em velocidade, produzindo, mesmo na atmosfera miserável, uma monótona nota Mi, aguda como um silvo.

Os extraditados que foram jogados para trabalhar próximo aos polos de Marte não tinham que conviver com aquele terror diário, para eles era mais que suficiente a permanente ameaça representada pelos adaptóides, seres microscópicos, pouco mais que vírus, pouco menos que bactérias, que infestavam as águas das calotas polares e que foram os responsáveis por diminuir a população dos polos para umas poucas centenas de miseráveis. A pena no Polo Norte de Marte era considerada como uma das piores punições possíveis. Quando víamos as filmagens sobre o processo de digestão da carne humana pelos adaptóides entendíamos o recado dos juízes.

O derretimento de um terço das calotas polares fora um bom negócio para dois tipos de criaturas. Primeiro para os financistas da Terra: atmosfera densa, habitável, fartura de água, agricultura a céu aberto! Ações disparadas em Xangai, Tóquio, Cairo e Londres. Em segundo lugar para os adaptóides, que puderam infestar milhares de humanos tenros e úmidos. A miserável gravidade marciana dissipou todo vapor dágua na trilha do planeta em torno do sol em apenas cinco giros.

Àquela altura o interesse das companhias de exploração espacial já se voltara para o profundo oceano de Europa de Júpiter, do qual se extraía o riquíssimo licor “guddommelig spiritus”, uma coisa fermentada por milhões de anos na sopa gelatinosa e fosforescente de algumas regiões abissais do oceano de Europa. Uma garrafa daquilo produzia uma tonelada de licor, milhares de alucinações luminosas e nenhum efeito colateral duradouro. O preço de garrafa era igual a duas toneladas de terras raras marcianas. Marte valia pouco, quase nada, bem antes da tomada de Phobos.

Sem as velas siderais, Marte desabaria. Nas forjas de Themis as terras raras eram refundidas e transformadas na matéria prima finíssima e virtualmente indestrutível das velas. Em Themis se concentrava mais da metade da população. Marte tivera, no apogeu da ocupação humana, dois séculos antes, cerca de cinco milhões de humanos, ou quase humanos. Os orgulhosos nativos de Marte, que, por alguma esquisita implicância, preferiam chamá-lo de Mitra, diziam-se Mitradianos e se orgulhavam de seus quase três metros de estatura, do desenvolvimento de seu sistema imunológico para combater os adaptóides e incorporá-los a seu próprio código genético. Esses restariam. Sua fisiologia era imprestável para qualquer outro planeta. Na Terra, em Vênus, teriam um infarto fulminante de seus longos corações. Fora de “Mitra” seus adaptóides jamais seriam admitidos. Estavam confinados. Sabiam disso e extraíam seu curioso senso de humor e orgulho trágico. Olaf Park, um mitradiano imprestável, transmitira uma mensagem a bordo do Marmota. Estava quase alcançando Dice. Mandaria ajuda, toda ajuda que pudesse. Depois deu uma longa gargalhada, como se estivesse engasgado com areia, e desligou. Uma hora. Uma hora até a chegada do que viesse de Phobos.

A Pulga fora a principal fonte de riqueza em Marte, talvez por isso foi tomada. Mas aquele era um raciocínio demasiadamente humano, quem sabe? Assim pensavam os ocupantes de Phobos? Pelos últimos cinco anos toda a faixa equatorial fora metodicamente bombardeada, sempre na passagem alta de Phobos, entre 75 e 125 graus. Primeiro quisemos acreditar que o rompimento de todas as comunicações e o silêncio de Phobos pudessem ser apenas um acidente.

Quando começaram os bombardeios tentamos atribuir-lhes alguma causa natural. Uma rápida análise algorítmica demonstrou regularidades e precisão que seriam incompatíveis com o mero acaso. Nova Mumbai foi riscada do mapa com uma semana de bombardeio preciso: primeiro as comunicações, depois a geração de energia. Os domos de proteção foram mantidos intactos. Era a única indicação de que os ocupantes logo chegariam.

Chegaram.

Não houve sobreviventes.

Nem mesmo os financistas, nem mitradianos. Talvez adaptóides.

“A passagem da pulga” passou a ser uma gíria para a morte certa. Com tudo isso, o fluxo de extraditados terminou aumentando. Havia sempre demanda por novas instalações, manutenção das forjas de Themis, mais velas e motores siderais. Bons lucros. O preço das terras raras justificava qualquer esforço, a necessidade de manter a exploração espacial e armar uma frota para retomar Phobos também eram boas desculpas. Em cinco anos apenas duas naves tentaram pousar no satélite. Sem notícias e nem comentários. A cada semana chegavam novas levas de extraditados, a maioria absoluta não duraria dois meses, sabiam disso. Era o tempo suficiente para pagar as despesas da viagem, saldar as contas na Terra, se livrar de morrer em algum inferno como Guantánamo, Bangu 12 ou o Novo Cepaigo. Tempo suficiente para processar algumas toneladas de fibras para as velas e ser atingido pela passagem da pulga. Ser transformado em areia em Marte, grelhado vivo na atmosfera de Vênus ou congelado ao ponto de ruptura das células no oceano de Europa: eram as três saídas dos infernos da Terra. Quem sobrevivesse estaria livre, e com algum recurso.

Nenhum morador de Marte levava mais a sério a lorota, diariamente repetida pela Terra, de estar armando uma grande frota para retomar Phobos. Nunca chegaria, e pra quê acabar com um negócio lucrativo, se ainda existia muito lucro a ser gerado? Hermógenes que tentasse responder. Ele já atacara, como previsto, a figura do galo de bronze. A dentadas.

Dois minutos. O silvo, em mi, irritante, inquebrável, começara. O que viesse de Phobos chegaria em menos de dois minutos. As armas eram inúteis, eu sabia. O velho traje, ridiculamente amarelo, também. Noventa e um graus de elevação. Um lançamento bem no alvo.

Pouco mais de um minuto.

O silvo se tornando mais agudo.

O que viesse de Phobos logo tomaria aquela estação.

Preparei explosivos. Nem sei se valia a pena usá-los. Por quê não?

Meio minuto. O silvo cessou. Estavam no solo.

Enfim.

Itamar Pires Ribeiro é escritor, crítico literário e jornalista.

14
Os sucessores
Leonardo Teixeira

Quando Euclides falou aos amigos que tinha visto uma espécie de estrela cadente misturada com cometa e que aquilo teria pousado no meio da reserva florestal, falaram que ele assistia Alienígenas do Passado demais. Em breve usaria cabelo arrepiado e um talismã maia. A zoeira brasileira não perdoa! Terráqueos enviaram sondas e fizeram pesquisas sem autorização em Marte. Quem sabe a lei da ação e reação (terceira lei de Newton) tivesse sido manifestada?

Foi o que aconteceu! Não foi a nave de Clark Kent nem as teorias de ufólogos de plantão. O problema é que não havia mais vestígios do objeto não identificado, salvo algumas árvores emborcadas e um mato assentado já ressecado, como se alguma radiação parecida com as de antenas parabólicas tivesse marcado o chão.

Mesmo sendo Euclides um rapaz cético (agora alvo de comédias pela insanidade), nunca se interessou pelo sobrenatural ou pelos misticismos que assolam os desvairados exotéricos. Ele sequer sabe quem foi Padre Quevedo e nunca assistiu ou leu nada sobre pessoas especializadas em fantasmas e eventos paranormais.

Isso mudou quando percebeu algo estranho com o seu vizinho (apelidado de Nhonho), um jovem rechonchudo ultranutrido, com acúmulo de lipídios adiposos, de repente foi secando sem fazer dieta, nem cirurgia, muito menos atividades físicas. Em uma semana ficou tão raquítico como um faquir, com olheiras que denunciavam o pouco sono.

Nhonho contou ao vizinho Euclides que antigamente ele sonhava maravilhas e amenidades. Todavia, desde a visita de um bizarro ser, que parece ter vindo de Marte, só tem pesadelos violentos ou imagens em que está se despencando num abismo. E sempre acordou assustado, mais magro e mais fraco. Nesses dias ele percebeu que a moringa ao lado de sua cama sempre secava, além de cair água repentinamente dos chuveiros e das torneiras. Já reparou que algumas vezes as instalações vazam água de forma sinistra?

Euclides falou que deveria ser defeito hidráulico ou ações da própria física… Desde o dia em que o objeto pousou na mata Nhonho teve esses pesadelos. Sua moringa esvaziava, a torneira pingava e a ducha expelia uma chuvinha como se tivesse sido chupada. Chegou a pensar que fosse sonâmbulo, pois não havia ninguém em casa. Nas noites seguintes passou a trancar a porta do quarto, mas os pesadelos continuavam e a água esvaziava da moringa. A sensação era horrível, pois ele acordava com sede. Jamais teria sede se tivesse ingerido dois litros de água. Afinal, muitos sonâmbulos não se saciam do que se alimentam!

Ele passou graxa nas mãos e pó de grafite em volta dos lábios. Desta forma, se tocasse a moringa, ela seria tingida e se bebesse água, o pó de grafite teria se desmanchado. Pois bem: com portas e janelas trancadas, a moringa ficou vazia e intacta novamente. Nhonho acordou assustado e ofegante. Resultado: alguém ou uma coisa entrou e consumiu suas energias, ingerindo água posteriormente. Aquilo era muito estranho!

Euclides teve uma boa ideia. Montou um circuito interno para capturar áudio e vídeo, com muita nitidez, apesar do escuro da noite. E no dia seguinte constatou que durante a filmagem, o corpo de Nhonho ficou muito inquieto, durante o estágio do sono REM (com os olhos no conhecido movimento repetitivo ocular) e, instantes antes de acordar, a água diminuía inexplicavelmente, como se tivesse sido sugada por um canudo invisível. Em seguida, parece que a água dali não era suficiente. O chuveiro e a torneira pingaram, como se uma força de sucção extraísse do cano aquela água parada.

Por tal absurdo, Euclides procurou pesquisou e encontrou profissionais exotéricos e alternativos. Instalou aparelhos no quarto para detectar atividades sísmicas, detectores de rádio frequência, variações elétricas, sonoras e de energia. Instalou também um dispositivo ultravioleta de movimentos, raios ômega para estudar atividade quântica, além de um moderno captador de movimentação de micropartículas aéreas. Tudo isso fomentado pela poupança e com um empréstimo financeiro de Nhonho. Após uma semana de testes, o pessoal concluiu que instantes antes do pesadelo, partículas se alteravam em volta da cabeça do seu vizinho e os raios ômega detectaram pequenas interrupções de caminho. Houve variação elétrica corpórea e grande movimentação de energia, como se da respiração ofegante e lenta dele – durante o sono -, fosse extraída sua energia vital. Por isso ele emagrecia tão vulnerável quanto uma criança desprotegida.

Além dos raios gama e a luz ultravioleta, um sensor térmico aliado a um aparelho que se assemelha a um olho de cobra, captou o formato da energia corpórea e conseguiu finalmente detectar um ser do tamanho de um adolescente, com a cabeça um pouco maior do que a dos homens. Teria alguma referência com aqueles alienígenas imaginados por inúmeras pessoas? Olhos grandes, corpo magro e pequeno… A criatura simplesmente se materializava no meio do quarto e chegava próximo da cabeça do Nhonho. Pelo ar respirado ela sugava energia vital para se alimentar. Enquanto isso o rapaz definhava rapidamente. Ela sorvia água da moringa e das instalações hidráulicas. Depois sumia repentinamente e todos os dispositivos detectavam atividades normais no quarto.

Euclides leu num jornal local que havia forte desnutrição em vários países do mundo. Não era somente um problema africano como se via há muitos anos. Inúmeras pessoas sofriam de insônia e pesadelos constantes. Foi daí que ele concluiu seu pensamento. Seu vizinho sofria perseguição estranha de um ser jamais descrito pela ciência humana. Euclides imaginava que esses seres se alimentavam dos humanos, e como se fossem súditos e os aliens seriam os sucessores que habitarão o nosso planeta. Não se sabe se isso foi um gatilho da ação e reação em Marte ou se é por conta da maneira com que o homem tem tratado a natureza e esse planeta. Elucubrações!

Os vizinhos da frente ficaram com medo das torneiras que vazavam repentinamente. Objetos que caíam ou sumiam eram causas de terríveis temores. Nada mais era tão sórdido quanto essa experiência. Mas o mundo parecia não se importar com isso. As piadas continuaram e poucos levaram Euclides e Nhonho a sério. Muitos homens vivem lá fora como se nada lhes fosse capaz de tirar sua perturbação e sua soberania.

Seis meses depois da primeira visita, Nhonho teve falecimento de múltiplos órgãos. Euclides se sentiu muito triste pela perda daquele jovem. E mais triste ainda, pois sabia que o problema dos vazamentos hidráulicos no mundo estaria longe de ser resolvido.

Leonardo Teixeira é escritor.

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