100 poemas de até 100 caracteres

Novamente, o Opção Cultural provocou 100 escritores, brasileiros e de outras partes do mundo, a criarem histórias curtinhas. Depois dos 100 contos, a vez agora é das poesias, versadas ou não, mas certamente memoráveis

Yago Rodrigues Alvim

Do artista e designer Lucas Ruiz, “Irina”; iustração criada especialmente para o projeto “100 poemas de até 100 caracteres”

Do artista e designer Lucas Ruiz, “Irina”; ilustração criada especialmente para o projeto “100 poemas de até 100 caracteres”

Para dar o pontapé inicial, preambular pequenas poesias, perguntei-me, primeiramente, qual o menor poema do mundo. O brasileiro. E também qual o menor conto, novela, romance… Encontrei, depois de uma pesquisa rápida no Google, Oswald de Andrade, “Amor”. Curtinha, a poesia é /Humor/ e só. Recentemente, ainda que não seja o menor conto do mundo, li “Confissão” de Lygia Fagundes Telles, escritora recém-indicada ao Nobel de Literatura.

— Fui me confessar ao mar.
— O que ele disse?
— Nada

Valia muitíssimo contá-lo. De leituras já não tão frescas assim, acudi à memoria alguns telefonemas. Os tais “sapatinhos”, de que me esqueci, eram de Hemingway. Não dele, exatamente. “For sale: Baby shoes, never worn.” [“Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados”, em livre tradução]. Alguns estudiosos, atualmente, contestam sua autoria. Do telefone, veio ainda um mais curtinho, de Franz Kafka: “I am a cage, in search of a bird”; que ganhou a seguinte tradução para o português: “Uma gaiola saiu à procura de um pássaro”.
Pois bem, cá estavam algumas respostas. Mas não de todas as perguntas. Há pouco tempo, com a mais que ajuda do crítico literário Sérgio Tavares, do professor Augusto Rodrigues Niemar e do escritor Walacy Neto, reuni poesias de até 100 caracteres. O desafio estava vencido. Micropoemas ou micropoesias? Poemete? Augusto acudiu: “Inclassificados”. Ainda assim, poemas. Com toda sua poesia. Ei-los, então. Aproveite!

 

Os artistas

Os artistas são aqueles que veem

Chifre em cabeça de cavalo:

São deles os unicórnios.

ADRIANE GARCIA | BELO HORIZONTE-MG

Caminho

Pássaro habitado por pássaros

voo

Sem pouso

ALBERTO BRESCIANI | BRASÍLIA-DF

 

Estupro

Permitiram ao estrangeiro estuprar-te

Arrancaram tuas entranhas

minério

sugaram a seiva

rios

Minas deflorada

sangra

ALDA SOARES STUTZ, 1979; ADAPTAÇÃO DENISE STUTZ | RIO DE JANEIRO-RJ

 

À bala

Se tudo der certo

Ainda morro de bala perdida

No centro da cidade

De cara lavada

Eu, meio, quase,

Eu.

ALEX ANDRADE | RIO DE JANEIRO-RJ

 

Estratigrafia

Veios de calcita irisam, rios lentos

na sólida rocha, sob terreno

tão árido e seco, outrora gelo.

ALEXANDRE GUARNIERI | RIO DE JANEIRO-RJ

 

O CRONÔMETRO

Ventre d’arame-farpado:

o tempo.

Rasgar-se, aprender, varar:

viver.

Ser de feridas, miro a idade em mim.

ALEXANDRE PILATI | BRASÍLIA-DF

 

Clarice me ensinou

Um bicho

é sempre

uma das formas

mais acessíveis

de gente

ALEXANDRE STAUT | SÃO PAULO-SP

 

O SOM DA FESTA RESSOOU

o som da festa ressoou

a cor da fresta arvorou

olho a madrugada serena

de onde venho

para onde voltarei

ANA ROSSI | BRASÍLIA-DF

 

Senhor

a noite se abre

e eu leio teu poema

Meus olhos nas estrelas

soletram teu amor

ANDERSON BRAGA HORTA | BRASÍLIA-DF

 

Lua estranha

escrevi o seu nome

num bodoque

e atirei o pássaro

vivo

rumo a tudo.

ANDRÉ DI BERNARDI | BELO HORIZONTE-MG

 

DENSIDADE

talvez sobre

só o que ficou sob.

O mais leve

sempre sobe.

você

que nunca

soube.

ANDRE OVIEDO | SÃO PAULO-SP

 

Adultério

Na escuridão

o corpo nu cintilava

Uma constelação

acenando o caminho

sem volta de tudo

que não volta mais

ANDRÉ TIMM | CHAPECÓ-SC

 

BREVE

de que adiantou ser bela

suspirou a flor do Cerrado

(e o cosmo a fez estrela

da galáxia Agora)

ANGÉLICA TORRES | BRASÍLIA-DF

 

Soçobrando

Roupas de ontem

Juntou-se às velharias

e foi até o Exército da Salvação

saber se tinham interesse nela também

ANITA DEAK | SÃO PAULO-SP

 

voltei a fumar no instante em que te vi

ANNA LUÍSA BRAGA | GOIÂNIA-GO

 

À maneira de Xico Sá

No banheiro eu e tu.

escapuliu o sabonete:

Fizeste um haiku.

ANTÔNIO MARIANO | JOÃO PESSOA-PB

 

IR ALÉM

Ser

no que nunca fui,

estar

onde nunca estive,

Sair de si?

e não mais regressar.

ANTONIO MIRANDA | | BRASÍLIA-DF

 

No sonho

sentidos,

subida,

assombro e

saída.

Nem mais.

Sono-preguiça-soul.

susPIRO.

À vista:

— O sol!

BETINA RUIZ | GUIMARÃES, POR

 

Sentiu

por cima

a sensação

do que é ser:

abraçado.

O casaco ainda

morno.

Acabou de ser passado.

BOBBY BAQ | SÃO PAULO-SP

 

DO CONTRA

Coisa mais linda é ver uma mulher bêbada no samba mastigando um espetinho de contrafilé.

BRUNO BRUM | SÃO PAULO-SP

 

TRAVESSEIRO DE MACELA

O besouro

e o moribundo breakdance

no chão

após a pancada

na alvenaria oca.

eu

depois

de você.

CARLA ANDRADE | BRASÍLIA-DF

 

lembrar, um segundo

no amor

nenhuma experiência até o momento atingiu a nobreza do exemplo

[absoluto

CAROLINE RODRIGUES | SÃO PAULO-SP

 

Mesmice

Estou oca.

Melhor louca

que assim pouca.

CELINA PORTOCARRERO | RIO DE JANEIRO-RJ

 

Varal

Tem dias que não acho onde descer meus pés

Não encontro sequer um colchão

Estico-me na madrugada

Me transformo

Num varal

CLAUDIA NINA | RIO DE JANEIRO-RJ

 

Alquimia

Combino palavras com muito silêncio.

Poucas palavras.

As palavras que gritam.

CLAUDIO PARREIRA | SÃO PAULO-SP

 

Conclusão

tem dia que não

vai

tem dia que não

sai

tem dia que não

é

tem dia que não

tem

tem dia que

tende a

adiar

CRISTINA JUDAR | SÃO PAULO-SP

 

Sangue e simulacro

abre a mínima escotilha

e sai pra dentro da palavra

DANIEL FARIA | BRASÍLIA-DF

 

Função soneca

De dez em dez (licor

de sono) em sentinela

até o sol se pôr

(pela última outra vez)

no protetor de tela

DIEGO GRANDO | PORTO ALEGRE-RS

 

A chave mestra

Às vezes

Quando o problema

bate à minha porta

eu tento consertar o mundo

usando uma chave de fenda

DIEGO MORAES | MANAUS-AM

 

DE TRÊS DEDOS

Geometrias rasuradas

nos gramados

da memória.

Uma coruja sobre

um ângulo reto.

O gol vazio e quieto.

EDSON CRUZ | SÃO PAULO-SP

 

A estética da fome

admirar o prato limpo

depois de lamber os dedos.

ELLEN MARIA | SANTOS-SP

 

Tudo que não falseio é invenção.

ERIVELTO CARVALHO | BRASÍLIA-DF

 

que a beira

dos olhos

é a bocarra

sombria

e insuspeita

da fossa

de mindanao

EUGÊNIA FRAIETTA | GOIÂNIA-GO

 

universidade indígena

só os índios nos ensinarão

a ver através

do olho do furacão

FABIANO CALIXTO | SÃO PAULO-SP

 

se o poema

revela ou

atiça

evoco o avesso

que

deixa para outros

a dúvida

se tudo e nada

cabem ali

FÁTIMA BUENO | BRASÍLIA-DF

 

Bisturi

como uma

estrela cadente louca

minha língua-poema

rasgou o céu da tua boca

FELIPE PAULUK | LONDRINA-PR

 

Traí-a com

Outra. A ou-

Tra. A morta.

A displicentemente

Retraída.

FRANCISCO K | BRASÍLIA-DF

 

Tutano

Só sabem do teu esboço

desferido a esmo.

Teu cerne, medula e osso

só diz respeito a ti mesmo.

FRED GIRAUTA | RIO DE JANEIRO-RJ

 

FISSÕES

feridas desta cor

do quase-branco

do pardo-ermo

rumar até o escuro

cor exposta

ao branco explícita

GERALDO LIMA | BRASÍLIA-DF

 

Quero sexo direito

bem feito

que penetre fundo

meu peito.

GIOVANNI VENTURINI | SÃO PAULO-SP

 

mau tempo

estreitas gotas acalmaram-se

no afago de frágeis costelas.

como a erva daninha, nasceu assim

o amor.

HELLEN LOPES DE CARVALHO | GOIÂNIA-GO

 

Três redondilhas e um big bang

na ampulheta sobre o espelho

eu sonhei que era o universo

expandindo – e te abraçava

HENRIQUE RODRIGUES | RIO DE JANEIRO-RJ

 

DO ESTATUTO DO SONHO

cada sonho sonhado

é único e verdadeiro

interrompido acaba

o novo começa de novo

ad libitum

HENRYK SIEWIERSKI | BRASÍLIA-DF

 

Peregrino

Me movo entre déjà-vus.

Minha memória é confusa,

mas já começo a me lembrar

do futuro.

JOÃO PAULO PARISIO | RECIFE-PE

 

INGULAR

Eu arranquei a letra _ do meu computador,

agora nenhum texto vai er mai obre nó doi

JOÃO TURCHI | SÃO PAULO-SP

 

HERANÇA

pulsa no meu pulso

o sangue áspero

do meu pai

no meu peito pula um coração

que herdei

do meu velho pai

JOILSON PORTOCALVO | BRASÍLIA-DF

 

Sete Mitos VII

Vida é Odisseia.

Ulisses galopa aqui,

em minhas artérias.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO | FAZENDA PEDRA SÓ-BA

 

ARTE DE AMAR

Amor sem instrutor

Amor sem professor

Amar é coisa de amador

JOSÉ SANTOS | SÃO PAULO-SP

 

todas as vezes

em que me disse

“eu te amo”

fazia uma pergunta

e não uma afirmação.

KAIO BRUNO DIAS | GOIÂNIA-GO

 

Breviário da perda

Todas essas coisas,

bondes e amores,

havemos de perdê-las cada vez menos pálidos.

Com mais critério.

KATIA BORGES | SALVADOR-BA

 

MOVIMIENTO PERPETUO

a Augusto Monterroso

y

quiero mudar

estilos y razones

demudar

estilos y razones

y

pasados los años

passados los años

rayuelas

LARCO A. LOPES | GRANADA, ESP

 

GARATUJAS

Lavremos com tinta

estas paredes rabiscáveis

onde cada camada

é uma vida inteira

LEMUEL GANDARA | BRASÍLIA-DF

 

Choro que sou

Sonho o azul de mim,

distante do mar…

No centro:

crio casa,

mergulho dentro

(olho corre rios)

LUANA BORGES | GOIÂNIA-GO

 

Meus oito anos

AURORA DA MINHA VIDA

ORA                     IDA

OS ANOS        TRAZEM      AIS

LUCI COLLIN | CURITIBA-PR

 

Simples constatação

Filosofei

a vida toda

Pra constatar

Minha ignorância.

Sísifo fui.

No topo, vi

O recomeço.

Sísifo, morro.

LÚCIA BETTENCOURT | RIO DE JANEIRO-RJ

 

Natalka

Eu me sinto tão ridículo

ao escrever

poemas pra você que

finjo até fazer cover

de e. e. cummings.

LUCIANO RAMOS MENDES | CURITIBA-PR

 

Fosse mais um dia

além, fosse mais um dia

o olhar pela janela vazia

aberta, alma que recebe

e nada tem por oferecer

MARCELO ADIFA | SOROCABA-SP

 

O Homem nu

Aqui só há uma espécie de desesperado,

o que morre de tédio.

MARCIA BARBIERI | SÃO PAULO-SP

 

XAMÃ

Sou a força, encantaria

Do amanhã.

Trouxe a noite, chamei o dia

Por Iurya eu sou Xamã

MÁRCIA WAYNA KAMBEBA | ETNIA KAMBEBA, PARÁ

 

Título para um poema que não existe

é a luz que

ensina sobre

o tempo

em uma casa

naufragada

no quintal

dos fundos

MÁRCIO-ANDRÉ | BUDAPESTE, HU

 

Vento

O vento é uma criança

que não se cansa

de brincar.

quando cresce,

perde toda a magia:

vira vendaval.

 

MARCO CREMASCO | CAMPINAS-SP

 

Sonata ao silêncio de um gato

A unha não rasura mais o assoalho até a rua: flutua. Desnuda a casa, o coalho resmunga: textura.

MARCOS MESSERSCHMIDT | PORTO ALEGRE-RS

 

Aniversário

É dada a luz

Agora vá!

Nascer é todo dia.

MARIA BALÉ | SÃO PAULO-SP

 

Tentativa

Deitei sobre o nosso suor

Vi teu corpo em mil homens

Mas coração partido

Não cola com porra

MÁRIO BRAZ MANZI MUNIZ | GOIÂNIA-GO

 

Vida

punhado de casos

acasalados pelo acaso

MATHEUS ARCARO | RIBEIRÃO PRETO-SP

 

Estudo para uma queda

O ESPAÇO

rasurar chuva

O CORPO

esboçar instinto

de

iminência

O SALTO

traçar reta

a entrega

ao

absoluto

MAURÍCIO DE ALMEIDA | BRASÍLIA-DF

 

Sem título

no alto da árvore

folhas e galhos retorcidos

ela e ele dançavam.

pas de deux.

MICHELINY VERUNSCHK | SÃO PAULO-SP

 

Sonho

O mar

na solidão do quarto.

Minha coragem

acorda

o convite selvagem do ar:

de novo.

Respiro.

MOEMA VILELA | PORTO ALEGRE-RS

 

NÚMEROS

Dez mil crianças

refugiadas

desapareceram

em caminhos

sem chegada.

Contar até dez mil

entre pausas

é quase nada.

MONIQUE REVILLION | PORTO ALEGRE-RS

 

ENVELHECER

Olhar sisudo vê

Pedaços de madeira pelo chão.

(mais bagunça pra guardar.)

Fosse um bom pedaço de tempo antes

Era casinha pra montar.

NARA VIDAL | TUNBRIDGE WELLS, UK

 

MICRO-SONETO

quando

as luzes se apagam

começa o dia

aquando, da rua,

luzes acendem-se

a noite, esplanada,

sinicia.

NIEMAR | BRASÍLIA-DF

 

ANA LÍDIA

nossa primeira santa

faz milagres

este poema

escrito

em menos

de um minuto

NICOLAS BEHR | BRASÍLIA-DF

 

outra variação, outra

em te sonhar fiquei tão santa

que agora pra me comer

só de joelhos.

NINA RIZZI | FORTALEZA-CE

 

OLHAR

Tudo o que sei de ti

Cabe dentro dos teus olhos

Teu olhar é um livro aberto

NOÉLIA RIBEIRO | BRASÍLIA-DF

 

SINOPSE DOS INCLUÍDOS

EXTREMA-UNÇÃO

SCRIPT

STATUS

STRESS

SUB

PAULINO JÚNIOR | FLORIANÓPOLIS-SC

 

aquela sensação de vazio

dentro de mim tinha nome

era mesmo fome

de você

PAULO LIMA | GOIÂNIA-GO

 

Um dia após o outro é apenas

um dia após o outro apenas

PAULO PANIAGO | BRASÍLIA-DF

 

rio chamado sexo e rio chamado lacre

saliva ali (em nós) remédio

olho tédio que é praia

varrida para ser desfeita

pelo açúcar – que te avisa

PAULO SCOTT | RIO DE JANEIRO-RJ

 

Num instante, de repente

Por mais que tente

Por mais que breve

Talvez, nem mesmo o poema

Se c_mpl_t_

R. CHAUL | GOIÂNIA-GO

 

Quarteto de cordas

Começa o último movimento

O som de uma corda que arrebenta

Não do cello,

nem dos outros instrumentos.

RAFAEL GALLO | BAURU-SP

 

MADRUGOU, MANO

Nóis tá tudo na missão

Acorda cedo

não dorme no ponto não

Arregaça a manga

simbora atrás do cifrão

RAFAEL GANDARA | APARECIDA DE GOIÂNIA-GO

 

Verborragia

Envelheço dois verbos a cada dia;

Minha morte sem significados.

RAIMUNDO NETO | SÃO PAULO-SP

 

Descontentamento web 3.0

Um grão de conquistas

Num deserto de desejos

RAPHAEL ROCHA | BRASÍLIA-DF

 

Foz

Quando o nó

(Desfeito)

Vira dó

RENATO TARDIVO | SÃO PAULO-SP

 

CASCA DE NOZ

ofélia cortando espelho

corpo-discurso:

fascinação e feitiço

eco rebatendo voz

nós:

porta secreta

ROBERTO MEDINA | BRASÍLIA-DF

 

Depois das duas

O saldo da noite

ramalhete de tulipas

vazias de chope.

ROBERTO MENEZES | JOÃO PESSOA-PB

 

Na corda bamba

Somos acrobatas nesse fio tênue

entre o chegar e partir:

Viveramar é criminoso,

porém a alma é grande.

RONALDO CAGIANO | SÃO PAULO-SP

 

O corpo

veste

o olho

nu

SAMUEL LUIS BORGES | SÃO PAULO-SP

 

Laura

Se vens depois de mim

não caberias a ti que eu existisse

Mas esse eu que hoje existe

não existiria antes de você

SÉRGIO TAVARES | NITERÓI-RJ

 

Não uma supernova

esse poema é só

uma estrela morta

coberta com lençol branco

e gente em volta

falando bem feito

quem mandou não ter rima

SHEYLA SMANIOTO | SÃO PAULO-SP

 

Do começo da escrita

Caneta em punho, a linha da testa salta para o papel, rende-se a outras linhas, mais dispersas.

SUSANA FUENTES | RIO DE JANEIRO-RJ

 

HAMLET – VI ATO

sempre pronto

embora sempre preparado

pronto

embora

pra sempre

palavras palavras palavras

T. S. BERLIM | ITATIAIA-GO

 

Terráqueos

Enterrados no descaso

desta Terra,

nesta terra

floresce

nosso caso

THIAGO MOURÃO | SALVADOR-BA

 

Partiu

correr atrás da vida, que ela é breve, um sopro

pode ser (que) leve.

VANESSA MARANHA | FRANCA-SP

 

o asco causa

caos e caso

soca às ocas

partes do dia

como saco

o asco no casco

dos meus pés

de cavalo.

WALACY NETO | GOIÂNIA-GO

 

[dente-de-leão]

[o seu maior gesto de carinho foi

rasgar-me a carne voar leve

como um dente-de-leão]

WELL SOUZA | SÃO PAULO-SP

 

Bilhete para João

A boca molda a palavra em suspensão minéria, morta matéria, arranjada na lei mosaica, exigindo o não.

WESLEY PERES | CATALÃO-GO

 

A noite é uma criança

Desde que você se foi a noite tem chorado nos meus braços.

WILSON GORJ | APARECIDA-SP

 

O quarto

Sob um teto empanzinado de borrões

Ela me descobre

Essa voz, uma migalha insondável, diz:

Basta.

WHISNER FRAGA | SÃO PAULO-SP

 

Passei a língua no céu da boca

E percebi que tinha uma imensidão

Dentro de mim

YAGO RODRIGUES ALVIM | GOIÂNIA, GO

 

Bônus

 

Sou sua.

Sou só.

Sua.

LARISSA MUNDIM | GOIÂNIA-GO

 

Post ATUALIZADO em 10 de Fevereiro de 2016, às 10h31.

3 respostas para “100 poemas de até 100 caracteres”

  1. Avatar virginia finzetto disse:

    Gostei demais da proposta. Conheci muitos poetas e reli outros tantos que admiro. parabéns!

  2. Avatar Rayo Francis disse:

    Parabéns! Também sou escritor e MICROCONTISTA! Possuo mais de 5mil Micronarrativas Rimadas, com no máximo 100 caracteres – incluindo espaços e pontos. Caso estejam ou queiram fazer um concurso, ou publicar um livro coletivo, por exemplo, terei imenso prazer em colaborar! Segue o link de um dos meus blogs: http://microcontosrimados.blogspot.com.br/ Estou também no Facebook, com diversos grupos de microcontos. Basta acessar que eu aceito. Forte abraço fraterno!

  3. Avatar Nilva Souza disse:

    Cada um mais belo que o outro, “amanheci tomando letras de tua boca até roubar-te um beijo café da manhã” Nilva Souza

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.