100 contos de até 100 caracteres

O Jornal Opção fez a provocação e 100 escritores brasileiros, de diversas partes do País e até de fora dele, aceitaram criar histórias dignas de romances num espaço de uma ou duas linhas

SophiaPinheiro

Ilustração: Sophia Pinheiro

Nas próximas linhas, caro leitor, você encontrará felicidades e mazelas, suspenses e erotismos. São textos de autores profissionais, ganhadores de prêmios como os mais que reconhecidos Jabuti e Sesc de Literatura; mas há também escritores amadores, aqueles professores, dentistas, engenheiros, fotógrafos, músicos e até bailarinos, que já participaram de antologias, coletâneas, ou que apenas publicaram seus qualificados textos em lugares diversos ou em lugar algum (até agora).

São pessoas envolvidas pelo prazer da escrita, brasileiros que vivem pelos quatro cantos do País e até além destas fronteiras. São 100 autores; 100 contos, microcontos, de até 100 caracteres com o único objetivo de comemorar o Dia da Literatura Brasileira, data surgida em homenagem a um dos maiores autores do romantismo brasileiro: José de Alencar.

Foi no dia 1º de maio de 1829 que José Martiniano de Alencar nasceu. O cearense escreveu sobre índios e a vida no sertão. Além de escritor, o autor de “O Guarani” e “Senhora”, dentre outros importantes títulos, foi jornalista, advogado, deputado e ministro da Justiça. A Alencar e à literatura brasileira, sejam as próximas linhas. Aproveite!

O marido morreu de tifo, a filha mais velha se perdeu e o frio, que foi bom.
AGATHA COUTO, GOIÂNIA – GO

Em Vênus, Jack olhou na água e encontrou a única coisa que ele apostaria não encontrar lá: um homem.
ALAN CRISTIE, RIO DE JANEIRO – RJ

No começo, descrença. Depois, medo, ao ver Bob — tão pequeno — olhando para a faca daquele jeito.
ALESSANDRO GARCIA, PORTO ALEGRE – RS

Dei-lhe um beijo e pronto. Foi tudo o que eu queria naquela noite. Não pedi telefone nem o nome.
ALEX ANDRADE, RIO DE JANEIRO – RJ

No farol, o menino estende a mão ao carro. Usa nariz de palhaço. Os olhos refletem o brilho do sol.
ALEXANDRE STAUT, SÃO PAULO – SP

Lá do alto, a lua me sorria. Talvez porque, como eu, encontrou alguém que lhe fizesse bem.
ALISSON WYNFRITH, GOIÂNIA – GO

Quando apertou o gatilho, Mylena não imaginava que o disparo levaria 100 mil anos para atravessar o universo.
ANDERSON FONSECA, BREJO SANTO – CE

Adão tinha de tudo. Celular, mp3, Marlboro. É que Solange, adepta do pompoarismo, tirava de letra as revistas íntimas.
ANDRÉ TIMM, PORTO ALEGRE – RS

–– Se for o Capeta, diz que eu tô no banho.
ANDREA DEL FUEGO, SÃO PAULO – SP

saía sempre de terno, mas adorava saia e salto alto, bem alto.
ARTHUR PORTO, GOIÂNIA – GO

Saudade é um pedaço de qualquer coisa morando dentro da gente ainda que louco pra voltar pra casa.
BÁRBARA FALCÃO, GOIÂNIA – GO

— Ir ou vir?
— Ir e vir.
— Promete?
— Não.
BENJAMIM S., CURITIBA – PR

Temia a altura quando pulou para a morte de um prédio em chamas, em 1974. Até hoje escutam seu grito.
BRUNNO FALCÃO, GOIÂNIA – GO

Eram jovens quando começaram a andar juntos. Foi amor à primeira vista. Pena que o dono os jogou fora.
BRUNO FERREIRA, ANÁPOLIS – GO

Mirava-te os olhos, parecidos com colchas de folhagens, ora verdes, ora secas. Suplicava por deitar no sossego teu.
CAMILA BORGES, GOIÂNIA – GO

Zacarias viu a vizinha arrodeada de borboletas. Suspirou e apertou o laço. Viu lá longe o mar. Fim.
CARLOS RABELO, GOIÂNIA – GO

A lágrima desceu até encostar no sorriso.
CÍNTHIA GARCIA, GOIÂNIA – GO

Obedecia ao instinto de subir, mas por dentro desabava. O martelo do tempo afundava o prego, sua cabeça.
CLAUDIA NINA, RIO DE JANEIRO – RJ

Precisou tatuar no peito um coração, pra ver se, pelo menos assim, sentiria ali alguma dor.
CLÁUDIO F. MEIRA, GOIÂNIA – GO

Trocou o sorriso pela felicidade. E a felicidade era tanta que precisou sorrir. Mas já não havia como.
CLAUDIO PARREIRA, SÃO PAULO – SP

E caminhando, alcançou os passos, onde guizo e toque-da-luz na face fez intervalo nos olhos. Beija-a-flor.
CYNTHIA BORGES, GOIÂNIA – GO

Vivia como um condenado que fizesse dançando o caminho que leva da cela ao patíbulo.
DANIEL LOPES, SÃO PAULO – SP

Todos os personagens desta história morrem antes de chegar à próxima linha.
DÉBORA FERRAZ, SERRA TALHADA – PE

Tinha os lábios trêmulos e as pálpebras cansadas. Mas, sem pressa para finais, bebeu até a última gota.
DÉBORAH GOUTHIER, GOIÂNIA – GO

Sem luz própria, bastou um olhar meio pôr do sol. Ainda orbitava o marido, mas brilhava para outros.
DELAMARE FERNANDES, GOIÂNIA – GO

A mulher de short azul atravessa a rua de pedra, o homem de óculos observa. A criança na janela grita. A mulher sorri.
DENISE STUTZ, RIO DE JANEIRO – RJ

o sentimento é mais
pesado que o corretor ortográfico
insistir é precoce só quem já o fez se desfaz.
DIEGO DORNELES, GOIÂNIA – GO

A mão que escreveu o microconto foi a mesma que recebeu a ordem de despejo.
DIEGO MORAES, MANAUS – AM

Roubaram-lhe o cais. Afogou-se num oceano de ais.
ELTÂNIA ANDRÉ, CATAGUASES – MG

Converso horas debaixo do chuveiro sobre tudo para que não me dei ouvidos.
EUGÊNIA FRAIETTA, GOIÂNIA – GO

A salamandra de brilhante acordou numa lapela da plateia. Correu para o palco e cantou sua ária. Incêndio no teatro.
EUGENIA ZERBINI, SÃO PAULO – SP

Tateio o sépia da sua imagem e pouco ainda pulsa aqui dentro. É caminho sem volta. No verão que vem, não mais entraremos no mar.
FABRICIO BRANDÃO, ILHÉUS – BA

fez um cacho de balões entrelaçados coloridos.
rumou para soltá-los no céu amplo, esperou.
comeu-os.
FERNANDA XAVIER, MONTES CLAROS – MG

Cansado de matar cachorro a grito, silenciou com um latido.
FRANCISCO PERNA FILHO, PALMAS – TO

Foda mesmo é ter que viver assim, me limitando de ponto a ponto de fim a fim. Afim de 100 (sem fim).
FRANKLI SAUSMICKAT, GOIÂNIA – GO

Ela miava sem parar. Fome ou cio? A gatinha manhosa caprichava nos escandalosos plangores. Cafuné e tudo resolvido.
GERALDO JOSÉ SANT´ANNA, SÃO JOSÉ DO RIO PRETO – SP

O amor daquele homem era doença. Por anos pediu socorro, mas ninguém a ouviu.
GERALDO LIMA, BRASÍLIA – DF

Quando Gustavo C. acordou de sonhos intranquilos, estava metamorfoseado num livro escrito em húngaro.
GUSTAVO MELO CZEKSTER, PORTO ALEGRE – RS

Quis o homem falar amor, ficou sem língua. Quis andar amor, sem pernas. Ao sonhar amor, voou pra longe.
HAILTON CORREA, ITAUÇU – GO

Abraça-o e, calmo, diz: sabe, filho, nessa cidade há três homens bonitos. Eu, seu irmão e seu primo.
HELENA TERRA, PORTO ALEGRE – RS

a luz se enfia como uma lâmina, dor aguda do céu. no fim da rua, a noite é geométrica.
HELLEN LOPES DE CARVALHO, GOIÂNIA – GO

“Eu não posso te perder!”, ele disse chorando. “Você nunca me teve”, ela respondeu e saiu correndo.
HENRIQUE LOPES, GOIÂNIA – GO

Conheceram-se na fila do McDonald´s e amaram-se para sempre, até o rapaz do caixa gritar “Próximo!”
HENRIQUE RODRIGUES, RIO DE JANEIRO – RJ

Declive acentuado, o ônibus balança ritmado pelos buracos do asfalto, avistamos nosso lar, descanso.
ISABEL PACÍCIFO, BRASÍLIA – DF

A escola era do amor, mas foi pela dor que a viu saindo pela porta.
ISADORA MAIA, GOIÂNIA – GO

Toda vez que chovia, sorria. Como se chuva pudesse regar seu deserto interno. Quem sabe floresceria.
JANAINA BARROSO, SÃO BERNARDO DO CAMPO – SP

Como fazer um mar: pegue uma bacia e coloque um torrão de anil. Adicione água à vontade. Pronto.
JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA, SÃO PAULO – SP

— sou louco por ela
— e ela?
— só é louca mesmo.
KAIO BRUNO DIAS, GOIÂNIA – GO

Vastidão de medo, lá vão os bandoleiros de micromortes. Um madurou, outro minguou menor que micuim.
KAITO CAMPOS, GOIÂNIA – GO

Examinou-me com a paciência que é necessária pra comer romã e disse: “Talvez não seja bem isso…”
LARISSA MUNDIM, GOIÂNIA – GO

Alegria, um palhaço triste, não havia tido a sorte de encontrar alguém que o apresentasse a si.
LEANDRO BERTOLDO, PADRE PARAÍSO – MG

Chocou-se. Gemeu. Fustigou o ego. Chocou sua vontade. Não aprendeu a ser. Sem penas. Batem panelas.
LEO BARBOSA, JOÃO PESSOA – PB

Na foto, ela e o marido sorriem ao lado da amiga. Na janela do avião, céu sem nuvens, chuva fina.
LIMA TRINDADE, SALVADOR – BA

Duraria a vida? Não sei. Só sei que ela estava tão bonita que a olhei e pedi um expresso… loongo.
LUANA BORGES, GOIÂNIA – GO

Dancei com a taça de vinho na mão. À porta, ainda trancafiada, sem música, brinquei de solidão.
LUANA COSTA, GOIÂNIA – GO

Sentado à beira da janela, soprou para tentar apagar o charuto e a apagou de sua memória.
LUCAS GARCIA, GOIÂNIA – GO

Quando me chamastes de lunático te chamei de solática. O brilho da minha lua não existiria sem a chama ardente do teu sol.
LUCAS JABUR CHAVES, GOIÂNIA – GO

Da janela, gritou pro vizinho: “sou puta mesmo”. Depois, fechou a persiana e foi lavar a louça.
LUCAS ROSSI, SÃO PAULO – SP

A dor sentida, a bala rompendo carne, osso; o coração explodindo antes da consciência do tiro.
O fim.
LÚCIA BETTENCOURT, RIO DE JANEIRO – RJ

Aproveitou a lama para construir um imenso chiqueiro.
E ficou esperando os porcos brotarem.
LUIS HENRIQUE PELLANDA, CURITIBA – PR

Ia começar uma história, mas acontece que.
LUISA GEISLER, CANOAS – RS

Se o motel fosse um pouco mais perto da igreja, teria evitado o atraso.
MAUREM KAYNA, GUAÍBA – RS

Despe-se. Pés, joelhos, cintura, ombros e o cabelo preto. Imersa. Nada resta além do vestido de seda.
MARCELA HAUN, GOIÂNIA – GO

Sou o estrangeiro que deita na cama, mija e caga onde seu pai não ousaria e sente seu rifle ameaçando minha nuca.
MÁRCIA BARBIERI, INDAIATUBA – SP

Após anos na casa, descobriu a origem dos pesadelos: ele compartilhava os sonhos com a baleia que a levava no estômago.
MÁRCIO-ANDRÉ, SANTIAGO DE COMPOSTELA – ESP

Tantos anos morta. Do nada, abre os olhos. Milagre! O tempo passou só para mim. Saberá quem sou?
MARCIO LEITE, SALVADOR – BA

Depois da morte da mulher, tirou os ponteiros do relógio. Definhou-se até tornar-se fagulha de horas.
MARCO CREMASCO, GUARACI – PR

Entre os silêncios de quem foi e chegou existe este texto.
MARCOS NUNES CARREIRO, GOIÂNIA – GO

Ficou horas diante do rio, vendo os peixes esquivos. Assim, pôde entender o desassossego que sentia.
MARIA ESTHER MACIEL, BELO HORIZONTE – MG

O piloto desvia da rota, sobrevoa o Rio, o Pão de Açúcar. Triste, mordo a saudade e o pão da TAM.
MARIA VALÉRIA REZENDE, JOÃO PESSOA – PB

Agitou o braço. Reluziu metálico. O inseto, ali, inoculando o tempo.
MARIEL REIS, RIO DE JANEIRO – RJ

Radiante, ela disse que me mandaria uma foto. Mas quando a foto chegou, sua expressão era tão triste.
MÁRIO ARAÚJO, CURITIBA – PR

Abriu a cortina para que o sol entrasse. Mas seu marido ficou na noite, de onde jamais sairia.
MATHEUS ARCARO, RIBEIRÃO PRETO – SP

Talvez você meu coração e eu seu passo? Você por mim respira e o amor por nós eu faço.
MATHEUS BOSCOLI, GOIÂNIA – GO

Meu pai morreu quando eu tinha 4 anos. Ficou então órfão de mim.
MIGUEL SANCHES NETO, PONTA GROSSA – PR

Por cinquenta anos, o marido foi seu despertador, até o dia em que nenhum dos dois acordou.
MOEMA VILELA, CAMPO GRANDE – MS

A carta manuscrita chega tarde. Nela, a frase feito adaga: não saber foi a pior forma de consentir.
MONIQUE REVILLION, SÃO LEOPOLDO – RS

Eu ria, enquanto comia a linha que sua boca ganhava ao repetir, com todo sotaque, “pão de queijo”.
NATÂNIA CARVALHO, GOIÂNIA – GO

Apertou bem o cadarço pra ver se o sangue parava de bombardear o coração.
NATHÁLIA PONTES, BRASÍLIA – DF

Cansou de rastejar e se enclausurar; sofrendo metaformizou-se, borboleta voou!
NATHÁLITA FERNANDES, SENADOR CANEDO – GO

Quando abri a porta do quarto, não vi nada além dos lençóis da cama desarrumados.
RAFAEL MENDES, SÃO PAULO – SP

Me veio a solidão. São ócios do ofício ou são ossos de um cão?
RAFAEL STEFANINI, GOIÂNIA-GO

Observou pegadas idênticas, buscou na memória o velhaco charlatão. Cavou e constatou esmaltes masculinos.
RENATO NEGRÃO, BELO HORIZONTE – MG

Quando tudo anoiteceu, achou um sorriso vestido de lua.
RICK DA CUNHA, CANTAGALO – RJ

Da goela mal-dita, engulo as sílabas dos por favores e cuspo o verbo despedaçado de futuros e breves horrores.
RODRIGO JANUÁRIO, GOIÂNIA – GO

E no trago do último cigarro, se apagou para nunca mais
ascender.
RODRIGO RIBEIRO, GOIÂNIA – GO

Manoel tinha nas mãos um florete, um suor frio e pavor. Seu oponente carregava uma espada bastarda.
RODRIGO ROSAS, RIO DE JANEIRO – RJ

Não há mais o tumulto
das pernas sob os lençóis. Restam a sonífera ilha e um amor à deriva.
RONALDO CAGIANO, CATAGUASES – MG

Mãos presas, o rosto desfigurado, forçou a voz, para ela ouvir, na sombra do quarto: “Te adoro”.
SERGIO LEO, BRASÍLIA – DF

Na margem, o pai pesca sem isca. O reflexo sob a água é a vontade. Seu filho chama-se rio.
SÉRGIO TAVARES, NITERÓI – RJ

Tudo que era externo ao esterno a afetava. Sentia-se cada vez menor. Tomou chá. O que há depois?
SHAYENE KARLA, GOIÂNIA – GO

Sinto-me calma, como se sente calma uma vaca antes de ser abatida. Entorpecida, abafada…
SÍLVIA PATRÍCIA, GOIÂNIA – GO

Foram felizes para. Fazerem uma selfie. E o sempre virou apenas hashtag.
SUSSY CORTÊS, GOIÂNIA – GO

Por não querer dizer que acabou, foi indo leve e sutil, achando que seria mais fácil. Ah, se soubesse.
VENÂNCIO CRUZ, GOIÂNIA – GO

RECALL DE SERES HUMANOS: corpos e almas se tornaram um risco para o pleno funcionamento do sistema.
VICTOR CASÉ, SÃO PAULO – SP

Como o cano da arma tinha um gosto amargo, resolveu pingar gotas de mel na bala.
WALACY NETO, GOIÂNIA – GO

Finalmente descansou, foi o que ela disse ao lado do cadáver de Deus.
WESLEY PERES, CATALÃO – GO

Ontem, os três irmãos foram juntos para a escola de bicicleta. Hoje, há três cruzes na avenida.
WIGVAN, GOIÂNIA – GO

Morrer? Nem pensar! Deu três pancadinhas na madeira… do caixão já coberto de terra.
WILSON GORJ, APARECIDA – SP

cê me foi passarinho. pousou em meu corpo, bicou-me, cantou paixão. depois, foi-se. avoou, deixando penas pelo chão.
YAGO RODRIGUES ALVIM, GOIÂNIA – GO

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Alegra Catarina

Madrugada de destino traçado.
O Sul era seu Norte. Magalhães piscou no Cruzeiro. A Deusa se perdeu.

Aloisio Nunes de Faria

Muito bom!

Carol Carvalho

Meu Deus! Que coisa mais linda de se ler.