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Olga Savary faz prefácio fraco para Paradiso mas tradução é de qualidade

[caption id="attachment_18920" align="alignleft" width="300"]“Paradiso”: o romance de Lezama Lima é a obra-prima máxima da literatura cubana “Paradiso”: o romance de Lezama Lima é a obra-prima máxima da literatura cubana[/caption] Estou iniciando a leitura de “Paradiso” (Martins Fontes, 623 páginas), de José Lezama Lima (1910-1976), na tradução da poeta Olga Savary. Não se trata de um trabalho inepto. De fato, é muito difícil traduzir o escritor cubano para qualquer língua. Ao profissional não basta saber, e muito bem, as línguas Espanhola, o ponto de partida, e Portuguesa, o ponto de chegada. Precisa travar uma verdadeira guerra para tornar uma obra enviesada, pouco “fluente”, num texto legível mas não simplista. Nós, brasileiros, temos o hábito de achar que o espanhol é uma espécie de português com defeito e, por isso, seria fácil traduzir de uma língua para a outra. Não é bem assim. As duas línguas são hermanas, sim, mas são como Caim e Abel. As dificuldades são maiores exatamente porque parece fácil traduzir de uma para a outra. Traduzir significa ganhar e perder. Mas, sem as traduções, as pessoas deixariam de ler as principais obras-primas da literatura internacional. Ao comparar o original com a versão de Olga Savary, é preciso considerar duas coisas. Primeiro, a perícia da tradutora é flagrante. Segundo, o fato de existir outra tradução, de Josely Vianna Baptista, certamente facilitou o trabalho de Olga Savary. Não estou sugerindo que a poeta copiou e inspirou-se no trabalho precedente da também poeta Josely Vianna Bap­tista. É possível que, para não se in­fluenciar, a segunda tradutora não te­nha examinado a versão anterior. Porém, se o fez, e isto é correto, às vezes decisivo, pôde encontrar outras soluções, adequar e melhorar frases, palavras, expressões e sentidos. [caption id="attachment_18921" align="alignleft" width="250"]Lezama Lima: Brasil ganha duas traduções do mais importante romance de Cuba, “Paradiso” / Foto: Wikipédia Commons Lezama Lima: Brasil ganha duas traduções do mais importante romance de Cuba, “Paradiso” / Foto: Wikipédia Commons[/caption] Observe-se que, na nova tradução que fez para a editora Estação Liberdade, Josely Vianna Baptista recriou “Paradiso”. Porque há novos estudos sobre a obra, ex­plorando nuances que haviam sido pouco percebidas, e a tradutora está mais experiente e atenta às filigranas da Língua Espanhola e à prosa de Lezama Lima. Perce­be-se, numa comparação rápida en­tre os empreendimentos hercúleos das duas poetas, que, aqui e ali, há mais “fluência” no trabalho de Josely Vianna Baptista. Porém, no caso, fluência não tem a ver com tornar o texto mais pedestre, simplificado, e sim mais preciso em português — criando, por assim dizer, um texto em português (quase) tão rico quanto o texto em espanhol. É um tour de force. É rico um país que tem duas traduções de alta qualidade de uma obra-prima seminal como “Paradiso”. Há probleminhas na edição da Martins Fontes, a que, no momento, examino com mais cuidado. O prefácio de quatro páginas de Olga Savary nada acrescenta — só contém platitudes e autoelogios —, prendendo-se demasiadamente a um texto de Julio Cortázar. Um trecho do comentário do escritor argentino é repetido duas vezes, o que sugere uma revisão descuidada. O sumário cita o “prefácio” e o texto “Convite a ‘Paradiso’”, mas seus autores não são mencionados, exceto no final deles. A apresentação, bem feita, é de autoria de Cintio Vitier, coordenador da edição crítica do romance. Uma reclamação tem a ver mais com o fato de que como manuseio muito certos livros, como “Paradiso” — a leitura é mais lenta, para não perder as filigranas —, as capas que não têm orelhas acabam por ter as pontas dobradas. Livros grossos, com mais de 600 páginas, exigem orelhas protetoras. De resto, até agora, não há muito do que reclamar.

Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro

[caption id="attachment_18917" align="alignleft" width="300"]Nativo da Natividade: o importante sindicalista rural foi assassinado  a mando de um político de Carmo do Rio Verde, em Goiás, em 1985 / Foto: Reprodução Nativo da Natividade: o importante sindicalista rural foi assassinado a mando de um político de Carmo do Rio Verde, em Goiás, em 1985 / Foto: Reprodução[/caption] No caderno de Júlio Santana está (ou estava) escrito: “Matar Na­ti­vo da Natividade (presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais) em Carmo do Rio Verde, Goiás. Man­dante, prefeito Roberto Pas­coal. Contato na cidade, Genésio. Pa­gamento, 2 milhões de cruzeiros”. Em 1985, Júlio morava em Por­to Franco, com sua mulher, quando foi procurado pelo tio Cícero Santana para fazer um serviço: matar o sindicalista goiano Nativo da Natividade. “A mulher de Júlio odiava Cícero. Dizia que o tio era o culpado por ele levar aquela vida desgraçada de matador. Júlio sempre rebatia. Dizia que entrou para a pistolagem por vontade própria. Queria ganhar dinheiro e viver grandes aventuras. O tio havia apenas o ajudado a fazer o que desejava.” O relato de Klester Cavalcanti: “Numa conversa que não demorou mais de 10 minutos, Cícero passou todo o serviço ao sobrinho. Ele teria de matar Nativo da Natividade, presidente do Sindicato dos Trabalha­dores Rurais de Carmo do Rio Verde, no interior de Goiás. O mandante do crime era o prefeito da cidade, Roberto Pascoal, que se dizia incomodado com a influência política de Nativo na região e, principalmente, com os boatos de que o sindicalista seria candidato a prefeito nas eleições municipais de 1988. Quando contatou Cícero, Roberto Pascoal disse que queria eliminar Nativo antes que ele ganhasse ainda mais força e projeção”. A mando de Roberto Pascoal, Genésio buscou Júlio em Brasília e o levou para Carmo do Rio Verde. “Pelo trabalho, receberia 2 milhões de cruzeiros — pouco mais do que três salários mínimos da época, que era de 600 mil cruzeiros.” Júlio tinha 31 anos. Genésio disse ao pistoleiro que ele mesmo poderia fazer o trabalho. “E por que não fez?”, perguntou Júlio. “O prefeito disse que era mais seguro trazer um matador de fora, para não levantar suspeitas sobre ele”, explicou Genésio. Nativo, informou-se Júlio, era casado e pai de dois filhos pequenos. Tinha 33 anos. “Muito pacato, só saía de casa para ir ao sindicato ou a alguma reunião de agricultores.” O motorista Pelé, num Fusca azul, levou Júlio para conhecer o sindicato onde Nativo atuava. Informado dos hábitos de Nativo, Júlio decidiu matá-lo quando estivesse voltando para casa. “Eram quase 7 horas da noite quando o carro do sindicalista apareceu na esquina. Júlio ajeitou o chapéu de palha para esconder o rosto e ficou de pé. Caminhava lentamente, no lado oposto da rua, na direção da casa de Nativo. Tirou o revólver da cintura no mesmo instante em que o carro parou. Estava a uns 20 metros do homem. Mas queria chegar mais perto, para acertar o tiro na cabeça. O sindicalista estava tranquilo. Nem desconfiava que estava prestes a morrer”, escreve Klester. “Nativo andava devagar, a caminho da porta”, relata Klester. “Do outro lado da rua, a uns 10 metros de distância, Júlio o tinha na mira de seu revólver. Estava puxando o gatilho quando viu uma menina de uns 5 ou 6 anos abrir a porta e correr, sorrindo, na direção do pai. Não teria coragem de matar um homem diante dos olhos da própria filha. Imediata­mente, apontou a arma para o chão. O sindicalista agachou-se e pegou a menina nos braços. Júlio ainda viu quando os dois se beijaram pouco antes de entrarem em casa.” No dia seguinte, Júlio saiu à caça de Nativo. Este voltou para o sindicato à noite e foi seguido pelo pistoleiro. [Júlio] “Chegou na porta do carro de Nativo antes que ele saísse. Apontou a arma para a cabeça do sindicalista. O homem reagiu, segurando o braço direito de Júlio com as duas mãos. Durante o embate, ele puxou o gatilho quatro vezes — os exames feitos no cadáver encontraram três perfurações no tórax e uma no pescoço. Só parou de atirar quando teve certeza de que Nativo estava morto (em 1996, 11 anos após o episódio, o prefeito Roberto Pascoal foi julgado como mandante do crime, e absolvido).” Promo­tores, juízes e advogados que atuaram no caso têm o dever de ler as informações do livro de Klester. Trata-se do próprio pistoleiro revelando quem encomendou o crime e mostra como este foi feito. Crime cometido, Júlio foi levado para Brasília numa ambulância. Genésio disse: “Acho que, agora, concordo com o prefeito. Você fez por merecer os 6 milhões de cruzeiros pelo serviço”. Cícero havia passado o sobrinho para trás. Para matar Nativo, Júlio recebeu “apenas” 2 milhões de cruzeiros. Em Imperatriz, ao se encontrar com o tio, Júlio ameaçou matá-lo. Cí­cero disse: “Já parou para pensar que você deve tudo o que tem a mim? Se não fosse por mim, você não teria nada, Julão! Você não seria ninguém”. Júlio replicou, gritando: “Grande vida de merda essa que o senhor me deu. Eu sou um assassino, tio. Ganho a vida matando gente. E o senhor tem coragem de dizer que isso é bom”. Cícero morreu em 1993, aos 53 anos, e o sobrinho descobriu que, ao contrário do que todos na sua família acreditavam, não era policial militar. Júlio também se passava por policial militar. Detalhe: o maior assassino do Bra­sil agiu livremente em Goiás no mandato dos governadores Iris Re­zende e Onofre Quinan — matando pessoas no Estado — e os peemedebistas-chefes não conseguiram, nem tentaram, prendê-lo. (E. F. B.) Leia Mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino

[caption id="attachment_18915" align="alignleft" width="620"]José Genoino, guerrilheiro do PC do B: preso, em 1972, por militares do Exército, na região do Araguaia / Foto: O Globo José Genoino, guerrilheiro do PC do B: preso, em 1972, por militares do Exército, na região do Araguaia / Foto: O Globo[/caption] Em 1972, aos 17 anos, convencido pelo tio Cícero Santana, Júlio Santana aceitou trabalhar na equipe do delegado de Xambioá, o sargento da Polícia Militar de Goiás Carlos Teixeira Marra, como guia ou mateiro. Exímio conhecedor dos “segredos” da floresta amazônica, Júlio seria utilizado para caçar integrantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Ele nem sabia o que era comunista, nunca tinha visto um automóvel, não conhecia energia elétrica e seu sonho era tomar Coca-Cola. Ao ver um helicóptero, pensou: “Como essa trepeça pode voar?”. Como uma personagem de García Márquez, “achou delicioso tomar água gelada. ‘Parece que a língua fica adormecida’”. No início da Guerrilha do Araguaia, os militares queriam capturar e não matar os militantes do PC do B. Eles buscavam informações sobre as forças de esquerda. Por isso, Carlos Marra avisou aos soldados e Júlio: “Se a gente encontrar algum guerrilheiro, é para capturar o cabra vivo. Não é para matar ninguém. Quero o sujeito vivo, para ele contar onde os outros guerrilheiros se escondem”. Júlio ficou aliviado, pois não queria matar. Na selva, além de orientar os soldados, Júlio tinha a missão de achar alimentos para a tropa. “Matou um macaco, uma garça e uma onça-pintada. A carne musculosa e repleta de nervos do felino não agradou a ninguém.” [caption id="attachment_393930" align="aligncenter" width="378"] Corpo de Maria Lúcia Petit: a guerrilheira foi morta na região do Araguaia | Foto: Reprodução[/caption] Em 11 de abril de 1972, como integrante da equipe do delegado Marra, Júlio colaborou na prisão de José Genoino Neto. O grupo era constituído de Marra, Ricardo, Emanuel, Forel, Júlio e Tonho (um negro musculoso). Marra patrocinou um “campeonato” de tiro e Júlio ganhou com facilidade e, por isso, obteve a primazia de atirar primeiro num guerrilheiro. Na mata, Júlio localizou José Genoino e alertou Marra: “Estou vendo um sujeito lá na frente”. Ao ser abordado, o guerrilheiro, que usava o nome de Geraldo, disse ao delegado que era “apenas um agricultor”. Logo depois, mesmo com as mãos amarradas, conseguiu fugir. O militar pediu que parasse. “Vou mandar abrir fogo, Geraldo”, gritou Marra. “Pode atirar”, respondeu Genoino. Irritado, Marra ordenou: “Julão, derruba o cara. (...) Mas lembre que eu quero ele vivo”. Júlio atirou e acertou, de raspão, o ombro direito de José Genoino. Recapturado, José Genoino, segundo a versão de Júlio, foi torturado pelo militares — chegaram a queimar suas pernas. Mesmo assim, respondia: “Não sei de nada, delegado”. Sem aprovar as torturas, Júlio disse para José Genoino: “Rapaz, fala logo tudo o que você sabe. Você vai acabar morrendo de tanto apanhar”. José Genoino respondeu: “Mas eu não sei de nada. Não estou mentindo”. Estava mentindo, é claro. Ouvido por Klester Cavalcanti, o petista confirma o diálogo: “Diante de tanto sofrimento e agonia, agradava-lhe a ideia de que ao menos um de seus algozes preocupava-se com a sua integridade”. Na versão de Júlio, José Genoino não entregou seus companheiros. Em maio de 1972, Júlio viu o corpo do guerrilheiro Bérgson Farias sendo chutado por militares. Assistiu o barqueiro Lourival Moura, aliado dos guerrilheiros, ser torturado até a morte. Júlio disse a Klester que não gostou do que viu. No início de junho de 1972, os militares acuaram os guerrilheiros Miguel Pereira, o Cazuza, Rosalindo Souza, o Mundico (que teria sido justiçado pelos companheiros), e Maria Lúcia Petit da Silva, a Maria. Marra gritou para Júlio: “Derruba um deles. Pelo menos, um”. Júlio mirou no ombro de um guerrilheiro e atirou. “Por causa do ferimento na perna direita, o comunista machucado inclinou-se para o lado direito e dobrou levemente os joelhos. Esses movimentos fizeram com que o tiro, que deveria pegar no ombro, o atingisse na cabeça, do lado esquerdo. O corpo caiu no solo e ali ficou, sem mover-se. Júlio sabia o que tinha acontecido. Quis não acreditar que acabara de matar mais uma pessoa”, relata Klester. Quando ouviu que havia matado uma “moça”, Júlio ficou ainda mais perturbado. Marra o recriminou: “Não era para matar, Julão”. Detalhe: a história relatada por Klester não estava registrada — até 2006 — em nenhum outro livro sobre a Guerrilha do Araguaia. Trata-se de um furo de reportagem publicado em livro. “Mata! — O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia” (Companhia das Letras, 443 páginas, publicado em 2012), do jornalista Leonencio Nossa, relata: “João Coioió e a mulher, Lazinha, posseiros amigos de Maria Lúcia Petit, contaram ao delegado Marra que a guerrilheira apareceria no sítio, na manhã seguinte, para buscar mantimentos que o casal tinha comprado a seu pedido. Marra e um grupo de soldados fizeram tocaia dentro da casa. Maria Lúcia se aproximou do sítio. Estava acompanhada de Cazuza e Mundico, que a ajudaria a carregar a compra. Um homem da equipe do delegado, Júlio Santana, de dezoito anos [na verdade, tinha 17], atirou nos guerrilheiros, acertando a cabeça de Maria Lúcia. Cazuza e Mundico escaparam”. A fonte da informação é Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, um dos militares mais bem informados sobre a Guerrilha do Araguaia. Os depoimentos de um dos algozes dos guerrilheiros do PC do B e de alguns moradores da região confirmam a versão de Júlio Santana. Pelos serviços prestados ao Exército, Júlio recebeu 1.200 cruzeiros, cerca de cinco salários mínimos da época, e ganhou uma farda. Parece ter ficado mais feliz com o fardamento do que com o dinheiro. (E.F.B.) Leia Mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

As denúncias de corrupção antecipam sugestões do Supremo sobre a reforma política

[caption id="attachment_18948" align="alignleft" width="248"]Dias Toffoli, presidente do TSE: ex-advogado do PT vive drama de definir questão que afetava o partido | Foto: Ricardo Setti/STF Dias Toffoli, presidente do TSE: ex-advogado do PT vive drama de definir questão que afetava o partido | Foto: Ricardo Setti/STF[/caption] A mudança no jogo entre as relações eleitorais e políticas deve criar o financiamento público a campanhas? O PT é a favor, para todos os partidos. Ironicamente, hoje os petistas e seus aliados são os grandes beneficiados pelo dinheiro público, desviado em movimentos escusos para financiar também candidatos, além de deixar algum a quem opera o sistema. Na mesma segunda-feira em que Lula telefonou de São Paulo para a rádio em Recife e falou da reforma, o ministro da Justiça, companheiro José Eduardo Cardozo, ofereceu declarações, no Rio, em defesa da mudança: “Se queremos um Estado de direito legitimado, temos uma tarefa inadiável: a reforma política. Não é possível conviver com um sistema (político-eleitoral) que, pelas formas de financiamento, gera corrupção estrutural. Isso não pode mais ser aceito entre nós.” Lula não mencionou financiamento eleitoral, nem Cardozo disse algo sobre reeleição. A diferença é que Cardozo se levou pelo auditório onde estava, numa conferência nacional de advogados promovida pela OAB. Ali, uma sombra pairava sobre todos: as denúncias sobre corrupção do governo que contaminaram a reeleição presidencial. Cardozo pegava carona numa parte da ramificação governista do Supremo Tribunal Federal que se apresentou na reunião. Autor de uma palestra por encomenda da OAB, o ministro Luís Roberto Barroso, nomeado pela candidata Dilma Rousseff, recomendou ao futuro presidente, fosse quem fosse, uma receita da reforma para higienizar o sistema político-eleitoral: — Quem quer que ganhe as eleições tem que ter comprometimento patriótico e dedicar o primeiro semestre a mudar essas instituições que transformaram política em negócio privado. A receita de Barroso admite que empresas doassem dinheiro a campanha eleitoral, mas apenas a um partido, não a candidatos. A doadora poderia fechar contrato de fornecimento ao governo a quem financiou, mas apenas depois de uma quarentena pós-eleitoral. O discurso de Barroso inspirou o presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, nomeado por Lula, a recomendar um teto às doações de empresas, para evitar contribuições excessivas. Receitou mais duas providências: o fim da coligação partidária na eleição de deputado e vereador; e um sistema para peneirar os partidos e evitar que proliferem sem controle. Antes deles, o ministro Dias Toffoli, nomeado por Lula, publicou artigo onde recomendou a proibição de financiamento por empresa, a limitação de contribuição por pessoa física, a fixação de um teto para gastos de campanha e a criação de uma barreira que impeça a proliferação de partidos como os 28 que, neste ano, elegeram deputados federais. Admitiu Toffoli que partidos nanicos vivem da oferta de seus serviços a partidos mais fortes, como o acesso a dinheiro do fundo partidário e o espaço no horário eleitoral de televisão e rádio. Uma oferta na qual se fartou a campanha da reeleição de Dilma neste ano: “Ficam sujeitos a se colocar a serviço de projetos políticos de agremiações mais robustas”, nas palavras de Toffoli. Os três ministros que se expressaram, durante a semana, sobre pontos diferentes da reforma política representam quase um terço da atual composição do Supremo com dez juízes. Mesmo que não se reeleja, Dilma terá tempo para preencher a vaga aberta. Se nomear mais um, o PT será o padrinho de 7 ministros entre 11, seis deles influenciáveis pelo Planalto. Na verdade, não cabe ao Supremo determinar a reforma, mas eventualmente julgar dúvidas que surjam sobre decisões na esfera legislativa. Mesmo assim, sugestões e articulações informais deles podem ser úteis na condução do processo de definição sobre as mudanças eleitorais. Veja-se uma manobra recente de Toffoli como presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Na segunda-feira, o TSE começou a julgar o pedido do PT para proibir o PSDB de divulgar no horário eleitoral uma antiga gravação em que a candidata Dilma elogia o desafiante Aécio Neves. A votação empatou em três a três. Cabia ao presidente Toffoli desempatar, mas ele pediu vistas porque estava numa situação difícil. Antigo advogado petista no próprio tribunal, o companheiro estaria na berlinda qualquer que fosse o seu voto, contra ou a favor de Dilma. “Até elogio fica proibido?”, ironizou o ministro Gilmar Mendes, sem levar em conta o drama do colega Toffoli, mas apenas o inusitado da questão levantada pela campanha da reeleição. E o que fez Toffoli? Não apresentou o voto de desempate. Chamou os advogados do PSDB e PT e sugeriu que todos desistissem de reclamações pendentes no tribunal a cinco dias do final da eleição presidencial em nome da boa ordem eleitoral. O acordo saiu e ele não precisou votar.

No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens

[caption id="attachment_18913" align="alignleft" width="620"]Klester Cavalcanti: o repórter escreveu um livro meticuloso e surpreendente sobre um matador de aluguel / Foto: Divulgação Klester Cavalcanti: o repórter escreveu um livro meticuloso e surpreendente sobre um matador de aluguel / Foto: Divulgação[/caption] Depois de participar da Guerrilha do Araguaia, em 1972, Júlio Santana voltou para a casa dos pais, em Porto Franco, “decidido que não mataria mais ninguém”. Cícero Santana o procurou mais uma vez e convidou-o para participar de um assassinato. Leandro levou um tapa no rosto e contratou Cícero para matar o agressor, Aníbal. Júlio perguntou para o tio: “O senhor vai matar o cabra só porque ele deu um tapa na cara do outro?”. O tio explicou-se: “Não, Julão. Eu vou matar o cabra porque alguém me pagou para fazer isso. Aprenda uma coisa. Nesse negócio, não importa se o camarada é bonzinho ou se é um peste. Não quero saber se ele deu um tapa na cara do outro ou se estuprou a filha de alguém. O que importa é que a pessoa me paga e eu faço o serviço”. Nesse tempo, Júlio começou “a sentir uma ponta de admiração e respeito pelo trabalho do tio pistoleiro”. Aceitou matar Aníbal. Ao encontrá-lo, Júlio perguntou: “O sr. sabe onde posso comprar uma Coca-Cola?”. Aníbal respondeu e Júlio o matou. Ele e o tio fugiram numa bicicleta. “Cícero pedalava com calma, como se nada tivesse acontecido. Júlio não conseguia esquecer a imagem daquele homem estendido a seus pés, com a cabeça lavada de vermelho. Mas seu tio demonstrava uma tranquilidade impressionante. Como, depois de tirar a vida de uma pessoa, ele poderia estar tão sereno? Era frieza. Ou seria coragem demais.” Depois de ouvir que a polícia da região do Maranhão não se metia com pistoleiros e acreditando que poderia ficar rico, Júlio aceitou a proposta de se tornar matador profissional. Depois, recuou: “Sei não, tio. Acho que não quero entrar nesse negócio”. Cícero insistiu que, se rezasse dez ave-marias e 20 pai-nossos, a alma seria “limpa”. Ao aceitar ser sócio de Cícero, Júlio ouvia, no rádio, uma música do goiano Odair José. Ele lembra que o refrão dizia: “Eu vou tirar você desse lugar. Eu vou levar você pra ficar comigo”. O tio garantiu que Odair José era o “melhor” cantor do Brasil. Cícero disse para Júlio economizar para comprar uma motocicleta e sugeriu que usasse apenas uma arma (como parece ser o caso do serial killer goiano Tiago Henrique Gomes da Rocha, de 26 anos). “Isso lhe daria mais segurança e precisão no tiro.” O tio deu-lhe um revólver calibre 38. Cícero explicou que Júlio devia atirar nas suas vítimas bem de perto — “porque é importante que o tiro seja certeiro, de preferência na cabeça”. Orientado pelo tio, o pistoleiro-chefe, Júlio viajou para Açailândia para matar Caetano, vendedor de frutas que devia dinheiro a um comerciante. Como Caetano atendia todas as pessoas com um “sorriso largo”, Júlio sentiu pena dele. Seguiu Caetano até sua casa e chamou-o. Depois de fazer uma pergunta, acertou um tiro no seu rosto e “saiu correndo matagal adentro. Enquanto corria, rezava as dez ave-marias e os 20 pai-nossos que deveriam tirar de sua alma o peso da morte daquele coitado. Mas parecia que, quanto mais rezava, mais culpado se sentia”. O primeiro crime como profissional ocorreu em 27 de julho de 1972. Pelo assassinato, recebeu 300 cruzeiros. “Ganhar 300 cruzeiros por um dia de trabalho era algo que ele jamais imaginara ser possível. Além disso, havia gostado da emoção que sentira ao matar Caetano.” Ele “queria ganhar mais dinheiro”. Depois de assassinar um menino de 13 anos, em 1978, em Parago­minas, no Pará, Júlio foi contratado por José Mariano, o Índio, para matar o garimpeiro João Baiano, no garimpo de Serra Pelada. João Baiano havia roubado ouro do patrão. Recebeu informações de que João Baiano era negro e tinha um dente de ouro. Matou o garimpeiro errado. Em seguida, matou o verdadeiro João Baiano. Júlio matou quatro menores de 16 anos, 59 mulheres (“a maior parte delas teve a morte encomendada pelos próprios maridos, que acreditavam ter sido traídos”) e 424 homens. Sem contar “as três pessoas [Amarelo, Maria Lúcia Petit e Caetano] que matou antes de 1974, quando começou a anotar seus trabalhos” num caderno. Esse caderno era mantido escondido numa mochila, atrás do guarda-roupa, e nele havia um relato pormenorizado com os nomes de suas vítimas e as circunstâncias de suas mortes. Após de matar tantas pessoas, como se estivesse numa guerra particular, Júlio amealhou um patrimônio que ele considera ínfimo — uma voadeira, um Fiat 147 e 100 mil reais. “Aos 51 anos, dos quais quase 35 trabalhando exclusivamente como matador de aluguel — ele jamais teve outra atividade profissional —, achava que tudo aquilo era muito pouco para tanta desgraça e miséria que viu e fez na vida. Se soubesse que terminaria assim, jamais teria ouvido os conselhos do tio.” Embora tenha matado tantas pessoas, Júlio só foi preso uma vez. Matou uma mulher, em Tocantinópolis, mas subornou o delegado, dando-lhe uma motocicleta, e fugiu. Em junho de 2006, Júlio prometeu à sua mulher, evangélica, “que não cometeria mais nenhum homicídio”. Klester Cavalcanti diz que, “aos 52 anos, Júlio se dizia exausto daquela vida desgraçada, de matar um aqui e outro acolá. Além disso, não tinha mais a agilidade, a força e a visão aguçada do passado”. Decidiu sair de Porto Franco, no meio da madrugada, para não deixar pistas. Antes, pegou a voadeira e jogou o revólver e a mochila com o caderno onde anotava os nomes de suas vítimas no Rio Tocantins. A mulher de Júlio o pressionava, desde 1985, para abandonar a “profissão” de pistoleiro. Menos comedida e discreta do que a Sônia de “Crime e Castigo” — espécie de redenção de Raskólnikov —, ela, que não tem o nome mencionado, possível acordo de Klester com Júlio, “nunca deixou de dizer que o amava. Costumava falar que não entendia como um homem tão carinhoso com a esposa e os filhos poderia tirar a vida de alguém. E, o pior, por dinheiro”. Júlio respondia: “É o meu trabalho, mulher”. Ela dizia, com firmeza: “A maior vergonha da minha vida é ser casada com um assassino”. E ameaçava: “Ou você arruma outro emprego ou um dia eu ainda vou deixar você”. Após matar um funcionário público, em Carolina, no Ma­ranhão, voltou para casa e, deitando ao lado da mulher, disse: “Acabou”. Ela nada respondeu. Júlio comprou um sítio, onde mora com a mulher. “Não precisava de mais dinheiro. Já tinha tudo o que era necessário para ser feliz: uma boa casa, a roça e a família. E ainda havia guardado parte de suas economias na poupança. (...) Júlio Santana costuma dizer que só não vive totalmente em paz porque, de vez em quando, ainda sonha com algumas de suas vítimas.” O que ele faz? Reza as dez ave-marias e os 20 pai-nossos que aprendeu com o tio Cícero. “E volta a dormir.” O filho mais velho de Júlio morreu aos 19 anos, num acidente de mo­tocicleta. “Júlio acredita que a morte do seu primogênito foi um cas­tigo de Deus por todas as desgraças que fez na vida.” Por não ter sido preso pela polícia e julgado e con­denado pela Justiça, pode-se dizer que Júlio, autor de vários crimes, não foi castigado? Por mais que se diga “tranquilo”, um homem que se sente vigiado, que teme a própria sombra, está irremediavelmente preso numa cela invisível. O “já” do título indica que, mesmo aposentado, Julão pode voltar a matar? Não se sabe. Nem Júlio, sua mulher e Klester certamente sabem. (Euler de França Belém) Leia Mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

Aos leitores que se interessam pela história da Guerrilha do Araguaia, recomendo seis livros: “O Coronel Rompe o Silêncio” (Editora Objetiva, 224 páginas), de Luiz Maklouf Carvalho; “A Lei da Selva — Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares Sobre a Guerrilha do Araguaia” (Geração Editorial, 384 páginas), de Hugo Studart; “Operação Araguaia — Os Arquivos Secretos da Guerrilha” (Geração Editorial, 656 páginas), de Eumano Silva e Taís Morais; Guerrilha do Araguaia — A Esquerda em Armas (Editora da Universidade Federal de Goiás, 241 páginas), de Romualdo Pessoa Campos Filho; A Dita­dura Escancarada (Companhia das Letras), de Elio Gaspari, e “Mata! — O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia” (Com­panhia das Letras, 443 páginas, publicado em 2012), de Leo­nencio Nossa. O excelente livro de Maklouf contém o relato de Lício Au­gusto Ribeiro, o coronel que comandou a operação para prender José Genoino (o relato sobre a prisão pode ser lido entre as páginas 89 e 102). É o militar durão, citado por Júlio Santana, que mandava no delegado Carlos Marra. O livro de Leonencio Nossa faz referência direta ao pistoleiro Júlio e ao delegado-militar Carlos Marra. (E. F. B.) Leia mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens

Jornal Opção tem quase 1 milhão de acesso com apenas duas edições

Em outubro, com apenas duas edições, o Jornal Opção obteve quase 1 milhão de acessos. Jornal Opção impresso e o Jornal Opção Online, com uma cobertura extensa, rápida e ricamente informativa, conquistaram os eleitores goianos. Mais: o número de acesso do jornal em outros Estados, sobretudo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, está crescendo. São Paulo superou Brasília como segunda colocada. A cidade campeã em acesso é Goiânia. Rio Verde, dos municípios do interior, é o que mais acessa o jornal, seguido de perto por Anápolis.

Serial killer matou mais de 30 pessoas e repórter pergunta se quer pedir perdão

Espantoso que uma jornalista, como uma de televisão, fique perguntando para um homem que matou de 29 a 39 pessoas se está arrependido e se quer pedir perdão. A repórter da TV Anhanguera não deve ler os jornais, pois, se estivesse lendo, saberia que Tiago Henrique supostamente fala em matar mais pessoas. Pode até pedir perdão, para obter alguma compaixão, mas isto não quer dizer que está dizendo a verdade. Alguns repórteres de televisão (e não só) ou são muito ingênuos ou fingem muito bem. Talvez, na busca frenética pela audiência e transformando tudo em espetáculo — inclusive a dor e a malandragem alheias —, tenham se tornado cínicos.

Ao contrário do atacante Walter, Paulo Baier aos 40 anos está em plena forma

Layout 1A diferença entre o jogador Walter, do Fluminense, e Paulo Baier, do Criciúma, é que o primeiro só pensa no presente, como se fosse uma criança, e o segundo soube se resguardar e está jogando bem aos 40 anos. Em entrevista ao “Estadão”, publicado no domingo, 19, Baier comentou sobre sua passagem bem-sucedida pelo Goiás e revela o segredo de sua longevidade. “Há quatro anos, eu mudei um pouco a parte de musculação e isso está fazendo a diferença para eu ainda jogar em alto nível. Pelo menos três vezes por semana eu procuro fazer um trabalho forte para ter o suporte e evitar lesões”, afirma Baier. “Em 12 edições dos pontos corridos” do Brasileirão, “o jogador fez 106 gols, tornando-se o maior artilheiro desse período”, conta o “Estadão”. Ele fez mais gols do que Fred (97 gols), do Fluminense, e Luiz Fabiano (68 gols), do São Paulo.

Pop continua dando banho na concorrência na questão do serial killer

[caption id="attachment_18689" align="alignleft" width="600"]Tiago Henrique Gomes da Rocha Tiago Henrique Gomes da Rocha[/caption] Na cobertura da história do serial killer Tiago Henrique Gomes da Rocha, de 26 anos, o “Pop” continua a publicar as melhores reportagens. Repórteres concorrentes podem dizer que seus jornalistas são favorecidos pela Polícia Civil. Pura bobagem. O que falta a outros profissionais é experiência. E talvez agressividade. O material extenso, com poucos erros, sugere que, quando quer, a redação do “Pop” é capaz de produzir, e rapidamente, material de qualidade. O único problema do “Pop” é a revisão. Há erros de ortografia e concordância.

Mais uma vez, abre-se a crise com a credibilidade dos institutos de pesquisas

Como ocorreu no primeiro turno presidencial, a turma que se envolve com o apoio à eleição do tucano Aécio Neves passou a semana cabisbaixa com a queda da cotação do candidato nas duas mais importantes agências de pesquisa, Datafolha e Ibope. Hoje, a precisão dos números das amostras de opinião deixa dúvidas consistentes. Começa pelo principal, a cotação do prestígio dos candidatos. Dois dias antes da votação, o Ibope atribuiu a Dilma, em quatro de outubro, 46% das preferências; colocou Aécio em segundo com 27 pontos; e mostrou Marina Silva com 24. No dia seguinte, véspera da eleição, o levantamento do Data­folha emplacou Dilma com 44%; Aécio, 26; e Marina, 24 pontos. As contas sempre consideram os votos válidos. Abertas as urnas na noite de 6 de outubro, domingo, o flagrante da vida real determinou a Dilma 42% das preferências. Menos do que os 46% do Ibope e os 44 do Datafolha. Aécio recebeu 34%, mais do que os 27 do Ibope e os 26 do Datafolha. Marina ficou com 21%, menos dos que os 24 do Ibope e do Datafolha. Questão de margem de erro de dois pontos para cima ou para baixo? Não explica tudo, muito menos a votação surpreendente que a vida real revelou para Aécio. Agora, com o fim do segundo turno, as pesquisas recebem uma nova chance para flagrar tendências sem distorção tão profunda. Antecipou-se o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, companheiro Dias Toffoli, e com aparente boa intenção. A ideia dele é chamar logo as agências de pesquisa para uma análise conjunta em torno das previsões e resultados eleitorais. Quer mais precisão de todos. Para começar, a unificação da margem de erro entre todos. Porém, as dúvidas vão além de margem de erro. Ao longo da campanha, a cotação de Dilma caia nas pesquisas, mas subia a satisfação com o seu governo, o otimismo com a economia crescia para cima. O governo apregoava taxas inéditas de emprego, mas virá por aí, a propaganda duvidosa, a explicação para o incremento da sensação de bem-estar do povo em situação econômica adversa? Sim, o governo manipula dados socioeconômicos, como mente na campanha. Na quinta-feira, liberou o IBGE para divulgar que a taxa de desemprego desceu de 5% em agosto para 4,9 no mês passado, a menor taxa desde 2002 – o esporte preferido do PT, comparar-se a era FHC. Porém, fechadas as urnas hoje, estará liberada a divulgação de desempenho negativo. O Ipea poderá expor dados apurados pela Pnad sobre pobreza e desigualdade social, antes proibidos por causa da campanha. Os brasileiros também poderão conhecer problemas com a coleta de impostos e o desempenho de alunos de português e matemática na rede pública.

Nadine Gordimer critica alienação política de Eudora Welty e elogia agudeza de Virginia Woolf

[caption id="attachment_18903" align="alignleft" width="620"]Eudora Welty e Virginia Woolf: a contista americana influenciou Nadine Gordimer, mas não tinha uma cabeça política, possivelmente devido  à estabilidade dos Estados Unidos; já a autora inglesa, autora dos romances “Orlando” e “Ao Farol”, buscou e entendeu a magnitude da vida / Fotos: Wikipédia Commons Eudora Welty e Virginia Woolf: a contista americana influenciou Nadine Gordimer, mas não tinha uma cabeça política, possivelmente devido à estabilidade dos Estados Unidos; já a autora inglesa, autora dos romances “Orlando” e “Ao Farol”, buscou e entendeu a magnitude da vida / Fotos: Wikipédia Commons[/caption] Nadine Gordimer, uma das poderosas escritoras sul-africanas e Nobel de Literatura de 1991, morreu em 13 de julho deste ano, aos 90 anos. Sua literatura é celebrada por críticos do gabarito de Susan Sontag e John Maxwell Coetzee, ambos também prosadores. Escreveu, entre outros, “A Filha de Burger” (Editora Rocco), “Uma Mulher Sem Igual” (Rocco) e “O Melhor Tempo É o Pre­sente” (Companhia das Letras). Convencionou-se dizer que um de seus principais temas é o Apar­theid e suas consequências. Mas seus livros contam histórias mais amplas, sobre a vida cotidiana dos indivíduos, inclusive no pós-Apartheid. No livro “Os Escritores — As Históricas Entrevistas da Paris Review” (Companhia das Letras. O diálogo com a escritora, exposto em 32 páginas, foi traduzido por Alberto Alexandre Martins), Jannika Hurwitt mantém ótima conversa com Nadine Gordimer, entre 1979 e 1980. Trinta e três anos depois, permanece como uma entrevista muito bem feita e atual. Nadine Gordimer revela que, antes de ser escritora, pretendia ser bailarina. Porém, acometida de uma doença, menos grave do que pensava sua mãe, começou a ler freneticamente e decidiu escrever livros. “Quando converso com jovens escritores e digo: ‘Já leu isso ou aquilo?’, ‘Bem, não, os livros estão tão caros...’, eu digo: “Deus do céu! A biblioteca central é uma excelente biblioteca. Pelo amor de Deus, use-a! Você nunca vai ser capaz de escrever se não ler.” O leitor iniciante deve seguir algum método? Nadine Gordimer sugere que, quando não se é especialista, não se deve ser rígido. “Costumava ir à biblioteca e vagar por lá, e um livro levava a outro. Mas penso que essa é a melhor forma.” Quando criança, ela lia os livros — como “... E o Vento Levou” e “Diary”, de Samuel Pepys — e escrevia pequenas críticas. Além da leitura, que é formativa, a autora já começava a observar como seus ídolos escreviam. Na universidade, à qual frequentou um ano, relacionou-se pela primeira vez com negros e leu Henry Miller e Upton Sinclair. “Foi ‘The Jungle’, de Sinclair, que realmente me fez pensar em política.” Como não conseguiu ser bailarina, Nadine Gordimer decidiu ser jornalista, depois de ter lido “Scoop” (publicado no Brasil como “Furo!”), de Evelyn Wau­ghan. Em 1949, aos 26 anos, publicou um livro de contos, na África do Sul, e começou a escrever contos para a prestigiosa “New Yorker”. Um editor da Simon and Schuster interessou-se por sua prosa ao ler um conto na revista norte-americana. Busca-se às vezes, na prosa de Nadine Gordimer, um óbvio engajamento político, uma defesa quase panfletária dos negros sul-africanos e uma crítica contundente do Apartheid. Há certo engajamento e a crítica é concreta, mas a autora escapa ao engajamento típico de escritores de esquerda que estão a serviço de partidos comunistas e socialistas. “Na minha literatura, a política transparece de uma maneira didática muito raramente. [...] A verdadeira influência da política na minha literatura é a sua influência nas pessoas.” A política está presente em sua literatura, é um dos alicerces, mas não é a casa inteira. Porque a política é apenas uma faceta da vida de um indivíduo. A vida é mais rica e diversificada. Mas na África do Sul, de fato, dadas as condições políticas e humanas radicalizadas, envolver-se com a política, não raro subordinando a literatura, era, até certo período, inescapável. Talvez ainda seja, porque os efeitos do Apartheid não desapareceram inteiramente. No romance “Desonra”, J. M. Coetzee sinaliza que mesmo um escritor possivelmente mais refinado — mais literário, digamos — não escapa aos tentáculos de aço da política. “A Filha de Burger”, para a autora, “é um livro sobre engajamento. O engajamento não é apenas uma coisa política. É parte de todo o problema ontológico da vida. [...] Aquilo que um escritor faz é tentar compreender a vida. Penso que isso é o que a literatura é. [...] É procurar esse fio de ordem e lógica na desordem, e o caráter de incrível desperdício e maravilhosa prodigalidade da vida”. O romance foi censurado pelo governo do Apartheid. Por morar na África do Sul, por ter nascido no país, a política ampliou os horizontes da literatura e do indivíduo Nadine Gordimer. A autora de “O Melhor Tempo É o Presente” diz que a escritora Eudora Welty, que considera como “a maior contista norte-americana”, “se tivesse vivido” no país de Nelson Mandela “poderia ter voltado” os “dons incríveis que possuía mais para fora — poderia ter escrito mais, poderia ter atacado assuntos mais abrangentes. Eu hesito em dizer isso, porque o que ela fez fê-lo de modo maravilhoso. Mas o fato é que não escreveu muito; não creio que tenha chegado a desenvolver integralmente seus dons como romancista. Não foi obrigada pelas circunstâncias a ajustar contas com alguma coisa diferente”. O que a sul-africana está a insinuar, com a devida delicadeza, é que, apesar da literatura apurada, há um certo grau de alienação político-social na prosa de Eudora Welty. Um dos motivos é a estabilidade política — ao menos a interna — dos Estados Unidos. A perspicaz entrevistadora inquire se o mesmo ocorre com a escritora britânica Virginia Woolf. Nadine Gordimer diz que não. “Porque Virginia Woolf se ampliou na outra direção. Realmente se concentrou por inteiro naquele envelope transparente que tinha descoberto para si. Há duas maneiras de amarrar a experiência, que é o ato de escrever afinal de contas. Escrever é tentar entender a vida. Você trabalha a sua vida inteira e talvez tenha conseguido entender um pedaço bem pequenininho. Virginia Woolf fez isso de forma incomparável. E a complexidade das suas relações humanas, a economia com que conseguiu retratá-las.” Noutras palavras, a inglesa não era uma autora engajada, mas tinha uma compreensão aguda do funcionamento da sociedade, com suas implicações políticas. Nadine Gordimer não diz, mas Virginia Woolf participava de um círculo de intelectuais e escritores (Blooms­bury), ao qual pertencia John Maynard Keynes, o mais importante economista do século 20, que discutia — além de literatura — política, economia, a sociedade. Ao contrário dos autores que se consideram gênios desde os primeiros livros, Nadine Gordimer admite que seus romances iniciais eram fracos. “Foi somente com ‘O Falecido Mundo Burguês’, publicado em 1966, que comecei a desenvolver uma musculatura narrativa. Daí em diante, minha luta tem sido não perder a sensibilidade aguda — quer dizer, a agudeza de captar nuances de comportamento e casá-las com sucesso a um talento narrativo.”

Irismo avalia que Paulo Garcia prejudicou Iris Rezende em Goiânia

[relacionadas artigos=" 1,2,3... "] O irismo avalia que a gestão de Paulo Garcia na Prefeitura de Goiânia, mal avaliada pela população, prejudicou Iris Rezende. Por mais que tenha mantido distância do petista, os eleitores sabem que Iris Rezende foi o principal responsável pela eleição dele para prefeito de Goiânia e, certamente, não o perdoa por isso.

Por que Iris Rezende esconde tanto Paulo Garcia? Vergonha ou medo de perder voto?

[relacionadas artigos="18827"] O prefeito de Goiânia, Paulo Garcia, do PT, mantém encontros escondidos com o candidato do PMDB a governador de Goiás, Iris Rezende. Os encontros ocorrem no escritório político ou no apartamento do peemedebista. O motivo é simples: como é desaprovado pela população de Goiás, Paulo Garcia não é um bom cabo eleitoral. Por isso Iris Rezende decidiu afastá-lo de sua campanha. Na periferia, Iris Rezende afirma, com todas as letras, que nada tem a ver com a gestão de Paulo Garcia.

A arte de recuperar o tempo perdido pela memória

[caption id="attachment_18944" align="alignnone" width="620"]Foto: O grito, de Edvard Munch Foto: O grito, de Edvard Munch[/caption] Dizia o cartaz, na portaria: “Aluga-se o apartamento de número 614 neste prédio”. Sem hesitação, ele entrou e disse ao porteiro, apontando para o anúncio: “Quero vê-lo”. “Vou mostrar ao senhor”, disse o gordo — pois era gordo, homem —, tomando da gaveta um molho de chaves. Elevador. Sexto andar. “Faz favor”, disse o porteiro, cedendo a passagem. Ele saiu pelo corredor de muitas portas. Caminhou seguro, até que parou em frente a uma delas. Não precisava olhar os números para parar em frente àquela, que marcava: 614. Esperou que o porteiro a abrisse. Entraram na pequena habitação: uma sala e um quarto conjugados, um banheiro, uma cozinha. Os cômodos pareciam um pouco menores, mas eram eles mesmos. Procurou o armário barato, que ficava no canto da sala. Não estava ali, mas ele podia vê-lo com exatidão: sua madeira clara, as quinas arredondadas, o espelho manchado nos cantos e a porta que não fechava bem, deixando perceber nos cabides baratos as roupas simples de estudantes. Viu também os três sofás-camas de ocasião, com seus forros desbotados, lugares de sono e repouso que só vinham a altas horas, depois de muito tempo de estudo. Viu-os, embora não estivessem ali. Viu também o lençol, a coberta fina e o cobertor sapeca-negrinha que ficavam dobrados no pé de cada sofá, sob o travesseiro: era uma regra da república cada um dobrar os seus pela manhã, ao levantar. Via tudo, como vira tantas e tantas vezes, ao entrar no fim do dia, cansado das aulas e do trabalho como estagiário. Ganhava pouco, mas valia. Podia complementar a mesada que o pai, com grande dificuldade, lhe mandava, religiosamente, sempre no primeiro dia do mês. E aprendia na prática os rudimentos da futura profissão. O banheiro em nada havia mudado. Ali estava a banheira que ficava sempre cheia, para atender às mínimas necessidades, nas constantes faltas de água. Lá estava também o chuveiro, onde aplicavam um bom banho frio, quando algum deles se excedia na bebida e chegava turbulento, perturbando os outros, que estudavam para as provas na faculdade. O armário de plástico na parede de azulejos brancos ainda era o mesmo — ou teria sido trocado por outro mais novo, porém idêntico? Teve a impressão de que, se o abrisse, lá estariam três escovas de dentes e os apetrechos de barbear, com que raspavam, solene e orgulhosamente, os pelos das barbas ralas recém-aparecidas e os quase imperceptíveis bigodes. O pequeno basculante do banheiro não havia sido mudado, mas estava pintado de novo e os vidros, antes lisos, agora eram canelados. Era o basculante pelo qual, à noite, luzes apagadas, revezando-se, espreitavam as incautas vizinhas que trocavam de roupa nos apartamentos da testada em frente. Lembrou-se que uma delas, a de formas mais apetitosas, era Mara, corista daquele teatro da Praça Tiradentes. A persiana do quarto, de correr, da enorme e única janela que dava para o pátio, parecia apenas mais velha, e mesmo sem movê-la, podia ouvir o ruído que fazia, quando corria nos trilhos pouco lubrificados. O pátio embaixo estava igual, com suas plantas que sempre pareciam tristes, por pouco cuidadas. Mas um paredão de cada lado mostrava que as duas vetustas casas dos terrenos vizinhos tinham sido sequestradas por outros prédios, tão altos quanto aquele onde estava. Olhando em volta do apartamento — ou da república de estudantes que fora um dia —, viu a estante de cerejeira, e nas prateleiras os retratos das namoradas, o despertador a corda, os livros, e, sobre o forro de crochê que a mãe havia tecido, o rádio de válvulas. Nele ouviam a Rádio Nacional, e entre outros programas, o “Repórter Esso” e as “Músicas na Passarela”. Este último era o preferido: as músicas suaves não tiravam a concentração, enquanto estudavam. A estante, haviam-na comprado por uma ninharia, numa daquelas lojas de móveis da Rua do Catete, mas tiveram que juntar os restos das mesadas dos três, para pagá-la. O rádio — quase podia ouvi-lo, com sua incurável estática — havia sido presenteado pelo pai do mais remediado do trio. Estante e objetos estavam lá, absolutamente nítidos, embora ninguém mais, além dele, pudesse vê-los. Abriu a porta da pequena, para não dizer minúscula cozinha, e imediatamente viu, embora há muitos anos tivessem saído dali, a mesinha e a cadeira de compensado que ele usava para estudar em maior isolamento. Sobre a mesinha, o abajur de latão pintado e a lâmpada azulada — chamava-se luz solar, e diziam que poupava os olhos —, as folhas de papel almaço, a régua, o esquadro, o compasso e a caneta Bic. Na pequena pia também não estavam, embora ele pudesse vê-los com nitidez, o filtro de barro e a cafeteira italiana, que o padrinho, um médico de posses, lhe dera. Nela era fácil e rápido fazer um café para espantar o sono, quando ameaçava o estudo para as provas escritas ou orais. O porteiro, parado, olhava intrigado suas mudanças de expressão: ora sorria, ora fechava o semblante, conforme a cor das lembranças que iam brotando. Devia estar pensando que ele não regulava bem, mas isso não lhe importava o mínimo. O piso de granitina da cozinha tinha sido conservado, como o do banheiro, mas os tacos de madeira da sala e do quarto tinham sido substituídos por uma imitação de assoalho, o que lhe pareceu, no momento, quase uma ofensa. Mais um olhar em volta: podia ver tudo como era antes. Tudo? Não, algo essencial faltava, algo que ele não mais via nem sentia, ainda que procurasse. E que era, afinal, o que ele fora buscar ali: onde estava aquela alegre juventude que impregnava o ambiente e parecia destinada a ser eterna? Onde estavam aqueles três rapazes, risonhos e dispostos, mesmo nas horas mais difíceis de suas regradas vidas de estudantes? Onde eles, que preenchiam aquelas paredes com suas risadas sinceras, suas sentenças absolutas, suas afirmações que derramavam otimismo e confiança? Onde estavam aqueles três, que não mais os via, com seus corações cheios da mais válida emulação e suas mentes repletas dos mais legítimos projetos e sonhos? Onde estariam? E seus desejos, seus planos, suas doiradas visões de futuro, para onde haviam voado? Teve a impressão de que veria um deles, como sempre via, ao chegar em frente ao armário do banheiro. Mas foi apenas ligeira ilusão. Viu alguém muito diferente, ainda que guardasse longínqua semelhança com um dos rapazes. Era apenas um senhor com um ar grave, rugas de preocupação na testa franzida e comissuras nos cantos dos lábios, que só poderiam ser de velhice, cansaço ou tristeza. Sentiu vontade de gritar, com todas as forças: Voltem! Mas não faria o que sabia inútil. Não seria ouvido jamais.