Antônio Caiado*
Especial para o Jornal Opção

Em uma região historicamente marcada por tensões geopolíticas e estratégicas, a Jordânia emerge como um ponto central na guerra entre Israel e o Hamas. Situada estrategicamente entre Israel, Síria, Iraque e Irã — alguns dos principais antagonistas da região —, a Jordânia enfrenta o desafio de equilibrar sua segurança e as alianças em um ambiente volátil. A posição única ganha ainda mais destaque à luz da contínua presença militar americana no país. Os Estados Unidos, com seus interesses claros de proteger seu aliado Israel e de conter a influência iraniana, veem na Jordânia um parceiro crucial e, ao mesmo tempo, um baluarte contra potenciais ameaças.

A Jordânia, ao longo dos anos, solidificou sua posição como uma aliada estratégica fundamental dos Estados Unidos no Oriente Médio. Em 2016, membros do serviço militar dos EUA que treinavam no país marcaram sua presença na cerimônia que celebrou a expansão do Centro de Treinamento Conjunto das Forças Armadas Jordanianas (JTC). Este centro, inaugurado em 2003, surgiu como um epicentro para soldados americanos e jordanianos aprimorarem habilidades de combate e segurança de fronteiras. A decisão do governo jordaniano de expandir o JTC visava adaptar-se às crescentes demandas de operações conjuntas e sinalizava o desejo contínuo de aprimorar a interoperabilidade entre as forças dos dois países.

Essal infraestrutura permitiu, à época, que as forças armadas dos EUA e da Jordânia treinassem juntas para enfrentar os desafios crescentes na região. Esse espírito de colaboração foi concreto, se manifestando em gestos significativos como a cerimônia de dedicação, na qual dignitários e militares de ambos os países testemunharam o hasteamento conjunto das bandeiras americana e jordaniana, simbolizando uma aliança duradoura.

Base Aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia | Foto: Acervo Pessoal / Antônio Caiado

Nos últimos anos, o posicionamento militar dos Estados Unidos no Oriente Médio sofreu mudanças significativas, refletidas na evolução de suas prioridades na região. Bases americanas extensivas no Qatar, que anteriormente abrigavam vastos armazéns de armamentos, foram fechadas, e os suprimentos remanescentes foram transferidos para a Jordânia. O movimento colocou Washington em uma posição mais estratégica para lidar com o Irã. A capacidade de o Irã de ameaçar bases americanas com mísseis tem sido uma ferramenta crucial em sua estratégia de negociação. Ao negar essa vantagem aos iranianos, os EUA ganham maior poder de barganha — o que é de vital importância caso a guerra entre Israel e o Hamas entre numa escalada que envolva atores políticos ligados ao Irã.

Em 2021, o governo dos Estados Unidos gastou quase 300 milhões de dólares na expansão da Base Aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia. Embora ela seja usada desde 2014 por aviões americanos que participaram do combate ao ISIS/DAESH (Estado Islâmico), essa presença foi reforçada ainda mais, com a expansão e reparo das instalações e infraestrutura, e também com a transferência de vários caças F-16 Fighting Falcon e tropas terrestres, que somam quase 3 mil homens. Anteriormente, em 2018, a base havia sido visitada pelo Príncipe Herdeiro da Jordãnia, Al Hussein Ibn Abdullah II, o que reforça a importância da mesma para o país.

Evidentemente, a presença militar em solo jordaniano sugere boatos de ajuda militar dos Estados Unidos para Israel. Os rumores percorreram as redes sociais após os ataques terroristas do Hamas no dia 7 de Outubro desse ano. Contudo, isso foi desmentido por fontes militares da Jordânia.

O fato é que a base pode ser colocada em ação a qualquer momento, pois as bases americanas na Síria foram atacadas por drones e foguetes lançados do Iraque, que é um país de maioria xiita próximo ao Irã. Além disso, navios dos Estados Unidos interceptaram foguetes de longo alcance disparados pelas milícias Houthis, do Iêmen, que são apoiadas pelo Irã e há anos estão em conflito com a Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos e em aproximação com Israel.

Diante desse cenário, a presença militar dos Estados Unidos na base aérea de Muwaffaq Salti é altamente vantajosa, pois o local é próximo da fronteira jordaniana com a Síria e o Iraque. Além disso, os caças F-16 Fighting Falcon conseguem operar em quaisquer condições meteorológicas e de luminosidade, o que é de vital importância na região. Quando consideramos a força naval americana presente no Mediterrâneo Oriental e o posto de observação militar no Sinai, os Estados Unidos possuem um grande poder de barganha na região e um alto grau de interoperacionabilidade militar.

Antônio Caiado | Foto: Acervo Pessoal

*Antônio Caiado é brasileiro e atua nas forças armadas dos Estados Unidos desde 2009. Atualmente serve no 136º Maneuver Enhancement Brigade (MEB) senior advisor, analisando informações para proteger tropas americanas em solo estrangeiro.

@oantoniocaiado
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