Uma onda de desinformação nas redes sociais foi apontada como um dos principais fatores por trás da recente crise migratória em Ceuta, enclave espanhol localizado no norte da África. Dias antes da chegada de milhares de migrantes, vídeos publicados no TikTok, Instagram, Facebook e em grupos de WhatsApp passaram a divulgar, de forma falsa, que a fronteira com a Espanha estava aberta e que qualquer pessoa que alcançasse Ceuta pelo mar teria autorização para permanecer no país.

A informação falsa se espalhou rapidamente e levou cerca de 60 mil pessoas a se dirigirem à fronteira em apenas 48 horas. O fluxo sobrecarregou a cidade, que tem pouco mais de 80 mil habitantes, e desencadeou uma das maiores crises migratórias dos últimos anos na região.

Entre os que tentaram a travessia estava Ayoub El Abyad, marroquino de 16 anos. Em entrevista à agência Reuters, ele contou que decidiu viajar até Ceuta após assistir a vídeos nas redes sociais mostrando pessoas chegando às praias do enclave espanhol.

“A migração é sobre melhorar as nossas vidas e, por isso, decidimos tentar atravessar a fronteira e confiar em Alá”, afirmou o jovem, segundo o jornal português SIC Notícias.

Vídeos ensinavam como cruzar a fronteira

Além de afirmarem que a entrada na Espanha estaria garantida, diversas publicações ensinavam como realizar a travessia. Os conteúdos indicavam trechos considerados menos vigiados da fronteira, mostravam rotas para contornar o espigão de Tarajal e compartilhavam mapas com os caminhos mais utilizados pelos migrantes.

Em grupos nas redes sociais também passaram a circular anúncios de venda de boias, equipamentos de mergulho e bolsas impermeáveis para proteger documentos e celulares durante a travessia.

Hashtags como #Ceuta, #Fnideq, #Haraga, #Hraga e #Hijma reuniram milhares de vídeos e relatos sobre a migração. Uma das principais comunidades era a Hrig Sebta — “Sebta” é o nome árabe de Ceuta e “hrig” significa “queimar os papéis”, expressão usada para se referir à migração irregular. Segundo a imprensa espanhola, grupos semelhantes chegaram a reunir dezenas ou até centenas de milhares de integrantes antes de serem removidos das plataformas.

Decisão do Supremo foi interpretada de forma equivocada

A desinformação teve origem após uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha, anunciada em 8 de julho. A Corte determinou que migrantes interceptados no mar nas proximidades de Ceuta e Melilla não poderiam mais ser devolvidos automaticamente ao país de origem. A partir da decisão, cada caso deveria ser analisado individualmente, respeitando o devido processo legal.

Nas redes sociais, porém, o entendimento foi distorcido. Publicações passaram a afirmar que a Espanha estava proibida de deportar qualquer migrante que chegasse a Ceuta pelo mar, o que não era verdade.

O governo espanhol esclareceu que a decisão apenas modificava o procedimento administrativo para as deportações, que continuavam autorizadas desde que cumpridas as exigências legais. Quando a correção da informação foi divulgada, entretanto, milhares de pessoas já haviam iniciado a viagem.

Travessia terminou em tragédia

Com a disseminação dos rumores, multidões seguiram para Fnideq, cidade marroquina vizinha à fronteira. Centenas de pessoas entraram no mar ao mesmo tempo, tentando alcançar Ceuta a nado ou contornando as barreiras marítimas.

As fortes correntes, a baixa temperatura da água e o desgaste físico tornaram a travessia extremamente perigosa. A crise resultou em dezenas de mortes e mobilizou equipes de resgate dos dois lados da fronteira. Entre os migrantes estavam homens, mulheres e crianças, enquanto famílias buscavam informações sobre parentes desaparecidos.