Um dos animais mais enigmáticos e ameaçados da fauna australiana voltou a dar sinais de vida depois de oito décadas sem registros confirmados. Trata-se do quoll-do-norte, ou o dasyurus hallucatus, pequeno marsupial carnívoro que foi fotografado no Santuário de Vida Selvagem de Piccaninny Plains, em Cape York, norte do território Kaanju. 

A imagem inédita foi captada por uma câmera de movimento instalada em um afloramento rochoso isolado, após a iniciativa do gerente do santuário, Nick Stock, que decidiu testar o local durante um sobrevoo de helicóptero. Poucos dias depois, o equipamento revelou um exemplar adulto com suas características manchas brancas, marcando o primeiro registro da espécie na região desde a década de 1940. 

O quoll-do-norte é o menor entre os quatro tipos de quolls existentes na Austrália. Mede entre 24 e 37 centímetros, pesa até 1,1 kg e possui pelagem marrom-avermelhada salpicada de manchas brancas. Noturno e ágil, caça aves, pequenos mamíferos, invertebrados e até frutas, sendo também um excelente escalador capaz de perseguir presas em árvores. 

No passado, a espécie ocupava vastas áreas do norte e leste australianos. Porém, sua população entrou em colapso a partir da década de 1930, quando o sapo-cururu (Rhinella marina) foi introduzido no país. Sem resistência às toxinas do anfíbio, os quolls sofreram quedas drásticas. Além disso, gatos selvagens, queimadas descontroladas e a perda de habitat agravaram a situação. 

Curiosamente, o local onde o animal foi registrado permaneceu protegido de incêndios ao longo das décadas graças ao manejo cuidadoso do fogo. Outro fator positivo é que não foram identificados gatos selvagens na área, aumentando as chances de sobrevivência da espécie. 

Para os ecologistas da Australian Wildlife Conservancy (AWC), que administra o santuário em parceria com a Fundação Tony & Lisette Lewis, a descoberta é motivo de celebração. “Depois de anos sem avistamentos, finalmente confirmar a presença de um quoll-do-norte no santuário é extremamente gratificante”, afirmou a pesquisadora Helena Stokes, destacando a importância da persistência científica e da proteção de grandes paisagens. 

A AWC já protege três populações conhecidas da espécie em diferentes santuários do norte australiano e pretende intensificar os levantamentos em Piccaninny Plains para verificar se há outros indivíduos e avaliar a viabilidade da população local. 

Após quase duas décadas de buscas frustradas, a redescoberta trouxe alívio e renovou a esperança dos especialistas. “Cada redescoberta importa. Justo quando estávamos quase perdendo a esperança, este pequeno quoll nos lembra por que continuamos procurando e por que proteger essas paisagens em grande escala é essencial”, declarou Nick Stock. 

O registro não apenas reacende a esperança de conservação, mas também oferece pistas sobre como a espécie pode estar adaptando seu comportamento diante das ameaças históricas. Para os cientistas, compreender essa resiliência será crucial para garantir que o quoll-do-norte continue a existir nas próximas gerações. 

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