Concessão em estudo prevê novo polo de lazer, gastronomia e turismo no Parque João Leite
10 janeiro 2026 às 21h01

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Goiânia pode estar diante de uma das transformações mais relevantes de sua relação com o meio ambiente e o lazer urbano. O Parque Estadual do João Leite, responsável por proteger a principal fonte de abastecimento de água da capital, entrou oficialmente no radar do Programa de Concessão das Unidades de Conservação do Governo de Goiás. A proposta, ainda em fase inicial, prevê a concessão do uso público do parque, com foco em visitação ordenada, educação ambiental e implantação de estruturas de lazer, turismo e gastronomia no entorno e em áreas específicas previamente definidas.
O projeto é conduzido pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, responsável pelos estudos de viabilidade técnica, jurídica e econômico-financeira. Embora ainda não haja um edital publicado para o João Leite, o tema já mobiliza setores estratégicos da economia goianiense, como hotelaria, bares e restaurantes, que enxergam no parque um novo eixo de desenvolvimento sustentável para a capital.
À frente da Semad, a secretária Andreia Vulcanis reforça que o processo está em fase de construção e que não há, neste momento, definições fechadas sobre empreendimentos ou modelos de exploração. Segundo ela, o que existe é um estudo preliminar de concessão do uso público do parque, nos moldes do que vem sendo desenhado para outras unidades de conservação do estado.
“O que a gente tem é um processo em andamento, em estudo pelo BNDES, para concessão do uso público do Parque Estadual do João Leite. Ele ainda está em construção, não temos nada definido”, explica a secretária em entrevista ao Jornal Opção. “Temos um projeto inicial, mas a parte de desenvolvimento econômico ainda não está madura. Não há nada concreto para apresentar agora.”
Mesmo assim, Andreia Vulcanis detalha que o escopo do estudo envolve pensar a visitação do parque de forma estruturada, com equipamentos capazes de atrair o público e, ao mesmo tempo, garantir retorno econômico para viabilizar os investimentos necessários. “Estamos falando de trilhas de visitação, estruturas de recepção, e, sim, ideias como um centro de convenções e áreas de gastronomia, tudo isso ainda sendo desenhado. É um desenvolvimento longo, porque precisamos entender valor de investimento, retorno, prazo de concessão e o modelo mais adequado.”
Uso público limitado e preservação como eixo central
Um dos pontos mais sensíveis do debate envolve a preservação ambiental, especialmente por se tratar de uma área estratégica para o abastecimento hídrico de Goiânia. Sobre isso, a secretária é categórica ao afirmar que o impacto ambiental tende a ser positivo, justamente pelo modelo de concessão adotado.
“As áreas de concessão normalmente não passam de 1% ou 2% do total da unidade de conservação”, afirma. “O restante permanece integralmente preservado. Quando há investimento privado, a gente ganha em infraestrutura, educação ambiental, sensibilização da população e também em recursos para proteger melhor essas áreas.”
Segundo Andreia Vulcanis, os recursos gerados com a concessão ajudam a fortalecer ações de manejo, pesquisa, combate a incêndios e conservação da biodiversidade. “É um modelo em que 2% ou 3% da área vai para uso público, e todo o restante se beneficia com mais proteção e cuidado. Avaliamos essas concessões como muito positivas.”
Três parques estaduais em concessão
O Parque Estadual do João Leite não está sozinho nesse processo. Ele integra um grupo de três unidades de conservação cujos estudos foram contratados junto ao BNDES. Além dele, estão o Parque Estadual da Serra de Caldas Novas e o Parque Estadual de Terra Ronca.
“O de Caldas Novas está mais avançado, já teve edital, mas passa por revisão. O João Leite e o Terra Ronca estão mais atrasados, justamente porque têm características muito específicas e precisam de equipamentos turísticos para viabilizar economicamente a concessão”, explica a secretária.
No caso do João Leite, o desafio é criar atrativos suficientes para gerar fluxo de visitantes, sem comprometer a função ambiental do parque. “Esse é o ponto central: construir atratividade turística respeitando as particularidades da área.”
Hotelaria vê oportunidade de novo resort
Do lado do setor produtivo, a expectativa é grande. Para Charleston Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Goiás (ABIH-GO), o projeto pode fortalecer não apenas o turismo, mas toda a economia da capital.
“A hotelaria está vendo isso com bons olhos. Vai fortalecer a economia de Goiânia e do estado. Já existem investidores interessados, mas todos aguardam o projeto sair do papel”, afirma. Segundo ele, o setor participou de uma primeira reunião de apresentação da proposta, ainda em caráter embrionário.
“Foi a primeira conversa. Todos aprovaram a ideia, mas agora precisamos ver o projeto, entender os detalhes. Para a hotelaria, tudo precisa estar sólido.”
Charleston destaca que, a depender do modelo e da atratividade do complexo, o João Leite pode inclusive receber empreendimentos de maior porte. “Ali cabe até um resort, desde que o projeto seja interessante. Se a estrutura for boa, o investidor vem. O turista vai onde a atração é boa.”
Gastronomia e lazer como elementos-chave
Entre os pontos considerados essenciais pelo setor estão a facilidade de acesso, a qualidade da infraestrutura e uma oferta gastronômica forte. “Tem que ter atração, tem que ser bonito, fácil de chegar e com uma parte de gastronomia bem feita. Isso é fundamental para atrair o turista”, avalia o presidente da ABIH-GO.
Sobre a possibilidade de cobrança de taxas ou ingressos, Charleston pondera que o tema ainda é prematuro. “Por enquanto, é só projeto. A hotelaria só define tarifa quando tudo está claro. Taxa é a última coisa que se discute.”

O setor de bares e restaurantes também acompanha de perto as discussões. Para Newton Pereira, presidente do Sindibares Goiânia, qualquer iniciativa que fomente o turismo e o lazer urbano tende a gerar impacto positivo direto na economia local.
“Todos os projetos que chegam para agregar ao turismo no município têm o nosso apoio. Isso atrai pessoas, gera concentração em bares e restaurantes e pode inclusive levar à instalação de unidades dentro do próprio projeto”, afirma.
Newton destaca que ainda não há empreendimentos definidos, justamente porque o edital não foi lançado. “Não existe edital formal ainda. Precisamos aguardar os trâmites para saber quantos espaços estarão disponíveis e como será essa ocupação.”
Para os entrevistados, mais do que uma aposta econômica, o projeto é visto como um ganho social para a cidade. “A população precisa de áreas de lazer, entretenimento e contato com a natureza. O João Leite pode se tornar um projeto diferencial para caminhadas, piqueniques e convivência familiar”, avalia o presidente do Sindibares.
Ele também ressalta o cuidado ambiental apresentado pela Semad desde as primeiras discussões. “Os cuidados com o meio ambiente e com a qualidade da água foram muito bem observados. A própria secretaria está à frente do projeto, então há uma preocupação clara em não gerar impactos negativos.”
Na avaliação de Newton Pereira, o João Leite pode ajudar Goiânia a ampliar sua vocação turística, hoje muito concentrada no turismo de negócios. “Goiânia já recebe muitos congressos, feiras e eventos. Um projeto como esse faz o turista ficar mais tempo na cidade, conhecer novos espaços e consumir mais.”
Segundo ele, o diferencial da capital está justamente em equilibrar desenvolvimento urbano, lazer e sustentabilidade. “Não somos uma cidade turística tradicional, mas temos um grande potencial. Um parque estruturado como esse agrega muito tanto para o visitante quanto para o morador.”
Acesso público e serviços pagos: tendência do modelo
Embora ainda não haja definição oficial, a tendência apresentada nas discussões iniciais é de que o acesso ao parque permaneça gratuito, com cobrança apenas pelos serviços ofertados. “Pelo que entendemos, o parque seria aberto, e os serviços — como alimentação e atividades específicas — seriam pagos”, explica Newton.

Esse modelo segue o padrão adotado em outras unidades de conservação concedidas no país e busca garantir inclusão social sem inviabilizar os investimentos privados.
Próximos passos ainda dependem de maturação
Apesar do interesse crescente e da mobilização dos setores envolvidos, todos os entrevistados são unânimes em afirmar que o projeto do João Leite ainda exige tempo e amadurecimento. Novas reuniões devem ocorrer após a conclusão dos estudos do BNDES, quando haverá definição mais clara sobre modelo de concessão, investimentos, cronograma e regras de uso.
“O João Leite é um projeto de longo prazo, complexo, mas com enorme potencial”, resume a secretária Andreia Vulcanis. “Nosso foco é garantir preservação ambiental, uso público responsável e benefícios reais para a população.”
Se confirmada, a concessão pode reposicionar o Parque Estadual do João Leite como um dos principais espaços de lazer, turismo e educação ambiental da Região Metropolitana de Goiânia — unindo natureza, desenvolvimento e qualidade de vida em um mesmo território.
Parque Estadual do João Leite

Criado pela Lei nº 18.462, em 9 de maio de 2014, o Parque Estadual do João Leite – Pejol é uma unidade de conservação de proteção integral com 2.832 hectares, localizada na Região Metropolitana de Goiânia.
Vizinho ao Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco, forma um contínuo florestal de quase 5 mil hectares, preservando um dos maiores remanescentes de Floresta Estacional Semidecidual do estado — um dos ecossistemas mais ameaçados do planeta. Além de proteger o reservatório do Ribeirão João Leite, principal fonte de abastecimento de água da região metropolitana, o parque abriga importantes sítios arqueológicos com vestígios de povos indígenas da tradição Aratu, que ocuparam a área até pelo menos o século XIV.
O Pejol se destaca pela alta biodiversidade, com registro de 29 espécies de mamíferos, 286 aves, além de dezenas de anfíbios e répteis, incluindo espécies ameaçadas como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o mutum-de-penacho. A flora reúne ao menos 485 espécies vegetais, distribuídas entre florestas, cerrados e áreas alagáveis. Aberto à visitação gratuita de terça a domingo, o parque oferece trilhas para caminhadas, ciclismo, corrida e observação da fauna e da flora, seguindo normas rígidas de conservação. A gestão é apoiada por um conselho consultivo que integra poder público, universidades, organizações sociais e comunidades do entorno, reforçando o papel do Pejol na proteção ambiental, na educação ambiental e no lazer sustentável.
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