Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia passa a produzir efeitos a partir desta sexta-feira, 1º, abrindo uma nova etapa para o comércio internacional brasileiro e criando oportunidades diretas para estados exportadores como Goiás.

Na largada da implementação, uma parcela expressiva das vendas brasileiras ao mercado europeu deixa de enfrentar tarifas de importação. Estimativas da Confederação Nacional da Indústria indicam que mais de 80% das exportações já entram com imposto zerado, o que reduz custos, melhora preços e amplia a competitividade frente a outros fornecedores globais.

Na prática, milhares de produtos, que incluem desde itens industriais até alimentos e matérias-primas, passam a acessar o continente europeu em condições mais favoráveis. Esse movimento inicial tende a beneficiar especialmente a indústria.

Entre os produtos que já contam com isenção tarifária, a maior parte está concentrada em bens industriais, o que sinaliza ganhos mais rápidos para esse segmento. Setores como máquinas e equipamentos, alimentos processados, metalurgia, materiais elétricos e produtos químicos aparecem entre os mais impactados no curto prazo. No caso de máquinas, por exemplo, itens como compressores, bombas industriais e componentes mecânicos passam a entrar no mercado europeu sem as barreiras tarifárias que antes encareciam sua competitividade.

Além da redução de custos, o acordo amplia o alcance comercial do Brasil. Ao integrar economias que somam centenas de milhões de consumidores e elevado poder de compra, o tratado reposiciona o país em cadeias globais. Hoje, o Brasil mantém acordos com países que representam uma parcela relativamente pequena do comércio mundial, mas, com a inclusão da União Europeia, esse alcance tende a crescer de forma significativa.

Para Goiás, esse novo cenário pode representar uma mudança relevante. A Europa já é um dos principais destinos das exportações do estado, que registrou superávit comercial com o bloco nos últimos anos. Com a abertura comercial, a expectativa é de expansão desse fluxo, com a participação das vendas externas podendo avançar de cerca de 22% para até 30% do total exportado.

A estrutura produtiva goiana reforça esse potencial. Produtos ligados ao agronegócio e à agroindústria, como soja e derivados, carne bovina, milho, café, couro, ferroligas e minérios, tendem a ganhar espaço com a redução gradual das tarifas, especialmente à medida que o cronograma do acordo avance.

O impacto, no entanto, não se limita ao campo. O aumento das exportações deve repercutir em toda a cadeia econômica, atingindo comércio, serviços e logística. O vice-presidente da Fecomércio-GO, Márcio Andrade, avalia que o tratado cria uma oportunidade ampla para o estado. “Esse acordo abre nossas fronteiras para uma competitividade maior no mercado europeu, principalmente com os produtos agrícolas”, afirmou ao Jornal Opção.

Segundo ele, o crescimento das exportações tende a gerar efeitos indiretos importantes. “A produção agrícola impulsiona o comércio e os serviços, especialmente transporte e logística, que são essenciais para que a exportação aconteça”, destacou. A expectativa, segundo Andrade, é de geração de renda, aumento da demanda por trabalhadores e impacto positivo sobre salários.

A infraestrutura logística de Goiás é vista como um diferencial nesse processo. A presença da Ferrovia Norte-Sul, projetos de integração ferroviária e o uso de hidrovias ampliam a capacidade de escoamento da produção, fator considerado estratégico para aproveitar o novo cenário.

Apesar das oportunidades, o acordo também impõe desafios. O mercado europeu exige padrões rigorosos em áreas como qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade, o que pode exigir investimentos em tecnologia e capacitação.

Para o secretário estadual de Indústria, Comércio e Serviços, Joel de Sant’Anna Braga Filho, o foco agora está na capacidade de resposta das empresas. “Agora é acompanhar as estratégias para que empresas brasileiras sejam competitivas na União Europeia”, afirmou.

A adaptação também passa pelo tempo. Nem todos os setores terão abertura imediata. O acordo prevê um processo gradual de redução tarifária, com prazos que variam conforme a sensibilidade de cada segmento, assim, podendo chegar a uma década no lado europeu, até 15 anos no Mercosul e, em casos específicos, períodos ainda mais longos. Esse modelo busca permitir que empresas se ajustem ao aumento da concorrência internacional.

Para o economista Márcio Dourado, o impacto do acordo vai além do comércio. “Ele altera o ambiente de incentivos da economia, reduz custos e pode ampliar a inserção do Brasil em cadeias globais de valor, desde que haja ganho de competitividade”, avalia.

Outro efeito esperado está na modernização produtiva. A maior abertura para produtos europeus, especialmente bens industriais e tecnológicos, tende a reduzir custos de investimento e facilitar a incorporação de tecnologia pelas empresas brasileiras.

Embora o acordo já esteja em vigor, sua implementação completa ainda depende de etapas institucionais na Europa, incluindo análise do Parlamento Europeu. Mesmo assim, os primeiros efeitos já começam a redesenhar o comércio exterior.

Para Goiás, o cenário combina oportunidade e pressão: ampliar presença internacional, atrair investimentos e gerar empregos, mas em um ambiente cada vez mais competitivo e exigente.

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