por Abílio Wolney Aires Neto
Especial para o Jornal Opção

Publicado com destaque de layout na vigorosa Coletânea Goiás + 300[1], onde também publicamos em edição anterior, o artigo da Prof. Fátima tem o sabor poético que transpõe o leitor para um reino de beleza natural e mítica, onde as estações aladas dançam entre prosa e tons de poesia culta de modo a criar uma atmosfera encantadora e erudita.

A combinação dos elementos prosaicos evoca uma sensação de transcendência e conexão com as raízes mais profundas da expressão humana, daí porque a leitura desse artigo me foi uma experiência enriquecedora em face da linguagem e imaginação do mundo realista e sensível apreendido no artigo, que se transcreve na íntegra adiante.

Filha dos professores José Antônio de Jesus e Ana Isolina Furtado Lima de Jesus, Leodegária de Jesus nasceu em 1889 em Caldas Novas, mas mudou-se para Jataí com dois meses de idade. Estudou durante a adolescência no Colégio Sant’Ana, na cidade de Goiás, e foi uma figura importante no desenvolvimento da educação escolar, da literatura e da imprensa goiana, além de trabalhos importantes em outros estados como Espírito Santo, São Paulo e Amazonas.[1] Destacou-se, no entanto, principalmente na poesia, com a publicação de dois livros.[4] Um de seus maiores reconhecimentos foi a fundação e redação do jornal A Rosa, ao lado de Cora Coralina em 1907.[2]

[1] Coordenada pelos Escritores Jales Guedes Coelho Mendonça e Nilson Jaime.
[2] Antonio Miranda. «Poesia goiana: Leodegária de Jesus». Consultado em 27 de junho de 2020
O Popular (24 de agosto de 2019). «Leodegária de Jesus, poeta de Goiás, recebe homenagens». Consultado em 27 de junho de 2020
Rezende, Tânia Ferreira. «A semiótica dos corpos na literatura goiana: o corpo negro de Leodegária de Jesus». Plurais (UEG). 8: 131-159. Consultado em 27 de maio de 2020
Jornal Opção (14 de agosto de 2019). «Encontro de Poesia e Artes celebra 130 anos de nascimento de Leodegária de Jesus e Cora Coralina». Consultado em 27 de junho de 2020
Universidade Federal de Goiás (15 de dezembro de 2014). «Uma pioneira da poesia». Consultado em 27 de junho de 2020
Streglio, Cosme Juares Moreira (2015). A lírica de Leodegária de Jesus: devaneio poético e imagem (PDF) (Mestrado). Pontifícia Universidade Católica de Goiás

Confiram o culto e delicioso artigo:

ORCHIDEAS, A ECOPOESIA DE LEODEGÁRIA DE JESUS

Maria de Fátima Gonçalves Lima (PUC Goiás)

A MULHER TAMBÉM TEM O QUE DIZER



LEODEGÁRIA DE JESUS foi a pioneira que abriu com determinação e coragem a tradição da poesia lírica feminina e negra no estado de Goiás. A autora quebrou os paradigmas daquele período medievo no Brasil e, principalmente no Centro-Oeste, considerado um grande sertão de cerrado, um cerradão, época em que a mulher era condenada a não expressar a força e gana do ser mulher – forte, dinâmico, sensível e poético. Nesse período, em Goiás, predominava o coronelismo, e a produção literária feminina era completamente invisível.
LEODEGÁRIA BRAZÍLIA DE JESUS (1889-1978) nasceu em Caldas Novas. Nos primeiros meses de vida da pequena, seus pais se mudaram para Jataí. Daí, essa cidade foi considerada o berço da poetisa. Ali, morou até os 14 anos – período em que iniciou a composição dos poemas de estreia. Os registros apontam que seus primeiros passos literários se iniciaram nessa época, na adolescência, com o soneto “Luar de outubro”. A poetisa não parou de escrever, especialmente os sonetos que dominaram toda a sua produção poética.

Aos 15 anos, debutou na poesia ao enviar sua obra Coroa de Lyrios para a Editora Livro Azul, em Campinas (SP). Dois anos depois, já com 17 anos, em 1906, com nome artístico Leodegária de Jesus, abre caminhos para a produção literária feminina em Goiás. Leodegária de Jesus mudou-se com a família para a cidade de Goiás, então capital do Estado. Estudou no Colégio Sant’Ana, centro educacional católico, onde fortaleceu seus estudos e começou a participar dos círculos culturais da cidade de Goiás.
Nesse período, fez amizade com mulheres atuantes intelectualmente, como Cora Coralina, que se tornou sua amiga, e outras, como Rosita Godinho, 1Dados da autora: Doutora em Teoria Literária pela UNESP – São José do Rio Preto; Pós Doutora pela PUC Rio de Janeiro; Pós-doutora pela PUC São Paulo. Coordenadora do PPGLETRAS – Programa– Mestrado em Letras PUC/Goiás, crítica literária, ensaísta e escritora de obras infantis. Membro da Academia Goiana de Letras (AGL), Cadeira nº 5 Luzia de Oliveira e Alice Santana. Em 1907, começou a participar do Clube Literário Goiano, onde comandava sessões.
Fundou, em parceria com Cora Coralina e outras, o semanário A Rosa, órgão de ativismo das mulheres da Vila Boa, do qual foi, também, redatora. De acordo Gilberto Mendonça Teles, em seu livro a A Poesia em Goiás2 , (2019, p. 95), […] entre 1903 a 1930, ocorreu no Estado de Goiás, pelos menos nos primeiros 10 anos, uma grande intensidade cultural, assinalando, naquele período, uma inquietação de espírito cujos aspectos fundamentais foram a produção literária e o jornalismo. Especialmente, em Coroa de Lyrios (1906) pode ser notado que a poetisa foi guiada pela intuição, por uma escrita com uma tonalidade autobiográfica e pelo gosto adquirido em leitura de poetas, como Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias e Castro Alves.
E, ainda, traços parnasianos. Não apontava linhas do modernismo que já despontava naquele início do século XX. Essa obra é composta por 30 poemas que podem ser subdivididos pelas seguintes temáticas: natureza, amor e o sofrimento, amor como felicidade, mãe e família. Leodegária de Jesus foi matéria de estudo de Gilberto Mendonça Teles3 , Basileu França4 , Darcy França Denófrio5 , Rosarita Fleury Curado. Em 2015, orientei na PUC Goiás a dissertação de Mestrado A lírica de Leodegária de Jesus: devaneio poético e imagem6 , do pesquisador Cosme Juares Moreira Stréglio. 7 Nesse trabalho, abordamos os aspectos das marcas do Romantismo e as imagens que percorrem o imaginário poético na produção poética da autora. 2 TELES, Gilberto Mendonça. A Poesia em Goiás. 3ª Edição revista e ampliada. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2019, 744 p. 3 TELES, Gilberto Mendonça. A Poesia em Goiás. 2ª UFG, 1982. 3ª Edição revista e ampliada. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2019, 744 p. 4 FRANÇA, Basileu. Poetisa Leodegária de Jesus. Goiânia: Kelps, 1996. 5 DENÓFRIO, Darcy França. Lavra dos Goiazes: Leodegária de Jesus. Goiânia: Cânone Editorial, 2001. 6 STRÉGLIO, Cosme Juares Moreira (2015). A lírica de Leodegária de Jesus: devaneio poético (Dissertação de Mestrado, sob orientação da Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima). PPGLETRAS PUC Goiás. 7 STRÉGLIO, Cosme Juares Moreira A Lírica de Leodegária de Jesus: devaneio poético e imagem. Dialética: Belo Horizonte, 2021. 2 A ECOPOESIA DE LEODEGÁRIA DE JESUS Neste estudo, escolhi para um trabalho crítico, o livro ORCHIDEAS8 (2014), cuja primeira edição foi publicada em 1928, depois de 22 anos do seu primeiro livro, e fugi das leituras que exploram, na obra dessa poetisa, como marcas do Romantismo, a saber: amor pela natureza, subjetivismo, sentimentalismo exacerbado, melancolia, fuga da realidade e saudosismo. Tais aspectos estão presentes em seus livros e demonstram que a autora se inspirou nos poetas da segunda geração do Romantismo, tais como: Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. Minha visão crítica, neste ensaio se debruça sobre a ação ecopoética, que pode ser verificada em ORCHIDEAS, mesmo que a autora não tivesse consciência dessa proposta ao escrever seus poemas. A poetisa se dirige para dentro de seu mundo interior, à procura daquilo que o revela: os sentimentos, desejos, as saudades, suas experiências, seu olhar sobre a própria vida, suas fantasias criadoras e vivências, tudo traduzido em palavras por meio do eu lírico. Porém, no reflexo da própria imagem, não se pode negar que ela também vê o sentimento do mundo refletido nas águas da vida. Desta forma, os mundos subjetivo e objetivo se aderem, imbricam-se, formando uma só entidade subjetiva e objetiva ao mesmo tempo, retratando a vida, com a predominância do primeiro. A construção poética é um ato solitário e, ao mesmo tempo, solidário, que canta e encanta o mundo. A poesia é a revelação espiritual da vida, revela o mundo e cria outro, o poético que é plural, plurissignificante. Por esse motivo, observa-se que existe um olhar sobre o resgate da natureza em geral: a humana e, também, da sua terra natal, como uma tentativa de resgatar a poesia natural que mora na paisagem, no chão nativo do cerrado goiano, com seus Ermos e Gerais9 e Caminhos de Descaminhos10, para lembrar dois títulos de obras de Bernardo Élis que exploram a paisagem, o homem e as histórias desse sertão goiano. 8 JESUS, Leodegária de. Orchideas: poesia. Goiânia: Gráfica UFG/ Ateliê Tipográfico, 2014. Xxi. 112.p. Ilustrações de Tai e Terezinha Boaventura, coleção Cidade de goiás. A publicação segue o texto original da primeira edição por Admin. Da Ave Maria, 1928. 9 ÉLIS, Bernardo. Ermos e Gerais. São Paulo, Bolsa de Publicações, Hugo de Carvalho Ramos, 1944; 2. Ed., Goiânia, OTO Editora, 1955. Prêmio Prefeitura Municipal de Goiânia. 10ÉLIS, Bernardo. Caminhos e Descaminhos. Goiânia, Liv. Brasil Central, 1965. Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Nesse sentido, a poetisa, realiza, já no início do século XX, o que chamamos ecopoesia, pois existe um retorno à natureza das terras e campos dos descaminhos de Goiás. A ecopoesia já aparece no título do livro de poemas ORCHIDEAS, escrito na forma original e semioticamente exótico, como a própria flor, tão comum nas matas tropicais e no cerrado goiano. A orquídea é uma flor que metaforiza a natureza humana em geral, não apenas a partir da etimologia da palavra que se origina do grego órkhis que significa “em forma de testículos”. O nome surgiu de uma analogia observada pelo botânico grego e estudante de Aristóteles, Theophrastus. O estudante relacionou raízes de algumas orquídeas com testículos humanos. Daí, na Grécia, a imagem da orquídea passou a ser relacionada com virilidade masculina ou beleza feminina, ou outras características afrodisíacas e amorosas. Além das histórias lendárias, a orquídea é uma flor, também, relacionada à beleza feminina ou aos órgãos genitais. Desse modo, sempre está ligada ao nascimento ou à criação de um ser, da vida, ou da fecundação de um óvulo. Diante do exposto, orquídea é a flor da vida que dá suporte à mãe Terra. Desse modo, Orquídea não representa necessariamente um gênero específico, mas a natureza humana e, principalmente, a terra mãe, Gaia: que surgiu a partir do Caos e iniciou todo o ciclo de formação do Universo, conforme a mitologia grega. Gaia é a deusa da Terra mãe, responsável pelo surgimento espontâneo de seus três filhos: Urano, Óreas e Ponto. No poema Teogonia de Hesíodo11 , também conhecido como a Genealogia dos Deuses, traça um perfil da relação familiar desses deuses primordiais, e apresenta Gaia e Urano como casal, apesar de ele ser seu filho e dessa relação nasce o Titã Cronos, que representa a passagem do tempo. Gaia tem a marca da fertilidade, do solo fértil, move o tempo e cria as espécies. Diante do exposto título Orchideas, antes de ser uma simples metáfora da beleza feminina ou alusão a uma imagem romântica, é, antes, uma volta à terra mãe, à Gaia, que é, dentro da obra, Goiás – a terra natal de Leodegária, e deve ser lembrando que essa obra foi escrita quando a autora escreveu esse livro 11HESÍODO. Teogonia: A Origem Dos Deuses. Estudo e tradução Jaa Torrano 3ª edição Biblioteca Pólen Dirigida por Rubens Rodrigues Torres Filho. Tradução: Jaa Torrano Título original do poema: Theogonía. Revisão desta edição: Ana Paula Cardoso. EDITORA ILUMINURAS LTDA. São Paulo – SP, s/d. longe dos ermos goianos. Dessa maneira, Orchideas é uma volta à casa, ao (oikós = lugar onde se habita, espaço, casa). A partir dessa leitura, assinalo que Leodegária de Jesus quando publicou esse livro, já realizou, em 1928, um exercício ecopoético, hoje inserido dentro da corrente do Ecocriticismo. O exercício poético ou ecopoético (como nomeiam estudiosos do chamado Ecocriticismo,) cogitam, por meio da leitura da ecopoesia (ou poemas quem têm a natureza como tema) como o homem destrói a natureza, por intermédio do desmatamento, protegido pela égide da chamada pósmodernidade e civilização. O Ecocriticismo que não está presente apenas na literatura, mas também nas artes plásticas, fotografia, música e até na astrofísica. Esse estudo parte dessa reflexão ecocrítica literária poética e que se inscreve na necessidade inerente ao ser humano e, nesse caso específico, funciona como mecanismo para despertar a consciência adormecida em matéria ecológica, quando a palavra nos convida a pensar ecopoeticamente no ambiente que nos cerca e em como ele nos atinge, concomitantemente, sua linguagem protege biomas, regata culturas, conecta o indivíduo com a natureza e, com isso, ainda protege gerações futuras. Tudo isso por meio de sua arte que, ao mesmo tempo, critica, sensibiliza e conscientiza. A ecopoesia estuda a consciência sobre o fazer poético, o papel do poeta, seu compromisso social e sua responsabilidade ética com o planeta. Sua arte em prol da vida, a ação poética inspirada na harmonia da natureza e em como o poema pode afetar o outro. Nos poemas que analisaremos a seguir, veremos como os poetas escolhidos nos despertam do sonambulismo da vida urbana em busca do equilíbrio com a Terra. Nos dias atuais, esse posicionamento estético da literatura sobre natureza, homem e meio ambiente, denominado Ecocriticismo ou Ecocrítica – uma corrente crítica contemporânea divulgada pela primeira vez por Cheryll Glotfelty, nos anos 90, no volume de ensaios que editou, The Ecocriticism Reader: Landmarks in Literary Ecology (1996)12 . O ecocriticismo traduz e contempla uma literatura que traz reflexão sobre a criação literária, ao mesmo 12GLOTFELTY Cheryll , Harold Fromm, Ecocriticism Reader: Landmarks in Literary Ecology.University of Georgia Press, 1996. tempo em que apresenta pensamentos sobre o ser da natureza em geral, nas interferências humanas perante o meio em que vivem. A obra Orchideas é dividida em três partes, com temas que tratam da natureza: Flores Mortas; Ramos Floridos e Gottas de Orvalho. Escolhi, desse conjunto de poemas, três, para uma reflexão sobre a posição ecopoética de Leodegária de Jesus: O soneto “Á velha serra” (p. 19) é iniciado com uma reflexão: Serranias azues, pensativas montanhas De minha terra, como eu vos amo! (p. 19) O poema, a partir da imagem Serranias azues, aciona a imaginação em torno de serranias, montanhas, aglomerados de serras que percorrem o azul do infinito, do pensamento, da memória do eu lírico, ao pensar em Goiás. Daí, a prosopopeia das “serranias” “pensativas”. O azul é a cor da lembrança, da memória que desperta a poesia de Leodegária de Jesus. É na intensidade do azul da memória, que nasce o ecopoema dessa poetisa. A poesia traz o retorno à terra natal. O soneto surge a partir da epígrafe nascida da contemplação da memória, ou do tempo que passou e exprimir a natureza da Gaia, da terra do eu lírico, assinalada de serranias azuis e montanhas que refletem a beleza da vida dos gerais goianos. Ao mesmo tempo em que o eu poemático contempla a natureza, contempla também a natureza do poético e escolhe as palavras que traduzem com primazia os sentimentos de saudade, como os “azues” das serranias e as “pensativas montanhas”. Essa composição de vocábulos produz imagens de um passado que rememoram lembranças de um amor balizado em desejos escondidos da jovem poetisa, amores não concretizados da juventude: esqueço inteiramente,/ A magoa que me punge e a vida tormentosa. O poema traz a revelação de uma realidade interior que atravessa abstratamente a realidade perceptível por meio dos sentidos. Os versos materializam o desejo de um porto sonhador, que é o eu lírico, e que move discurso do texto poético. O poema traduz uma angústia, uma procura do próprio ser do eu poemático, dentro do mundo da sua memória e de sua própria natureza. O poema é a revelação da alma, porque poesia é a alegria de quem lê, provocando a imaginação por meio da palavra poética, fazendo com que um poema possa ter várias janelas, multiplicando-se a cada leitura. Sem dúvida, o poema é um objeto único, criado por um poeta único que traz um estilo próprio, numa época, num contexto histórico, um estilo próprio de um poeta específico. O soneto se inicia com o eu lírico a contemplar de longe, a partir da memória, o poente do seu passado que ainda reluz, embora embaçado por uma “[…] sombra e neve vaporosa”. É a natureza humana marcada pela saudade que “inunda um coração dolente”. O eu poemático exprime. DAQUI si te contemplo á doce luz do poente, Coberta assim de sombra e neve vaporosa, Eu sinto me inundar o coração dolente Estranha, suave luz de paz maravilhosa. (p. 19) O texto poético leva o ser humano a sentir e contemplar o mundo com intensidade, a filosofar e, portanto, conduz o ser homem à Filosofia, e ela, por sua vez, “encaminha o ser a uma passagem para um poético mágico, para uma alquimia verbal, para uma descoberta da magia e do poder das palavras. A palavra leva uma coisa a ser coisa” (NUNES, 1986, p. 267).13 As palavras são poderosas e, de acordo com a interpretação de Heidegger: “As palavras não são simples vocábulos (Wörter), assim como baldes e barris dos quais extraímos um conteúdo existente. Elas são antes mananciais que o dizer (Sagen) perfura, mananciais que têm que ser encontrados e perfurados de novo, fáceis de obturar, mas que, de repente, brotam de onde menos se espera. Sem o retorno sempre renovado aos mananciais, permanecem vazios os baldes e os barris, ou têm, no mínimo, seu conteúdo estancado”. (NUNES, 1986, p. 270). Nas estrofes seguintes expõem encontro do eu poemático com a velha e serra a imaginação aguçada provocada pela memória latente. Gosto de ver-te assim; perante a majestosa Angústia de te envolve sempre… eternamente, Eu me sinto feliz; esqueço inteiramente, A magoa que me punge e a vida tormentosa. E quando nessas tardes languidas de inverno, Vejo teu grande vulto immerso nesse eterno E turbido tristor, eu penso consolada: Que me guardas em teu seio enorme de granito, Mudo e cheio de dor; um coração afflicto Uma alma que soluça, exhausta, torturada!… (p. 19) 13NUNES, Benedito. Passagem Para o Poético (Filosofia e Poesia de Heidegger). São Paulo: Ática. 1986. A velha serra aguça a imaginação e tudo se torna sentimento. Gaston Bachelard (1988) assevera que a imaginação não é, como sugere a etimologia, “a faculdade de formar imagens da realidade; é a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, que cantam a realidade” (p. 33). 14 Mais do que inventar coisas e dramas, a imaginação “inventa vida” e “mente novas”. O filósofo define a imaginação como uma potência máxima da natureza humana. A imaginação, com sua “atividade viva”, desvincula-se, simultaneamente, do passado e da realidade, direcionando-se para o futuro. O poema “Goyaz” (p. 20) é outro exemplo da ecopoesia de Orchideas e tem, como tema, o retorno do eu poético à terra mãe e a sua natureza exuberante de “serra azul, os rios, as palmeiras”. Goyaz Goyaz querida! perola mimosa Destes sertões soberbos do Brasil! Terra que amo, que minh’alma adora, Ao ver-te longe, tão distante, agora, Quero-te mais ainda, Minha terra gentil! E vivo a recordar as joias ricas Que te enfeitam o collo primoroso; A serra azul, os rios, as palmeiras De cujas frontes virides, faceiras, Saúda o pôr do sol O sabiá queixoso. Ah! Como é bello nas montanhas rosadas, Cheias de luz, de aromas, de harmonias. (p. 20) O poema é repleto de imagens e recordações. Bachelard (1988) afirma, ainda, que a verdadeira imagem, quando é vivida primeiramente na imaginação, “deixa o mundo real e passa para o mundo imaginado, imaginário. Através da imagem imaginada, conhecemos essa fantasia absoluta que é a fantasia poética” (Ibidem, Idem 46). No dizer do filósofo, quando alguma imagem “assume um valor cósmico, produz o efeito de um pensamento vertiginoso. Uma tal imagem14 BACHELARD, Gaston (1884-1962). A poética do devaneio. Tradução Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988. pensamento, um tal pensamento-imagem não tem necessidade de contexto”. As proezas das palavras vão além da expressão do pensamento. As imagens são envoltas de saudades, e a natureza, como na visão do Romantismo, participa da dor do eu lírico. Um bom exemplo é a prosopopeia do “O sabiá queixoso” que saúda o pôr do sol, de cima da palmeira, numa clara influência do Romantismo de Gonçalves Dias. O poema traz a imagem dos “rios sossegados”, matas, dos pássaros e todo o universo de Goiás, aqui denominado de Pátria: E como é doce à sombra da matta, Onde tecem rolinhas ninhos frouxos, Acalentar um sonho estremecido, Ouvir do arroio o muralhar sentido, à luz avelludada Desses teus poentes roxos. […] Ó pátria minha estremecida e bella, Não verei o teu azul risonho, Mas, onde quer que me conduza o fado Jamais te esquecerei, berço adorado, De minha dor primeira! Do meu primeiro sonho! Aqui, onde exilou-me a desventura E a mocidade minha saturada De amargores fallece, tristemente, Vivo a sonhar comtigo, eternamente, Ó terra de minh’alma! Ó Pátria idolatrada. (pp. 21-22) 15 O poema é uma espécie de canção do exílio, que desperta o leitor para a mãe pátria, mãe terra, valorização da natureza do solo goiano. É essa a mesma temática, também, do poema “Supremo Anhelo” (p. 23): 15 O poema está no original conforme a edição fac-símile (edição fac-similar ou edição fac-similada, apresenta uma reprodução exata da edição original ortografia usada na primeira edição. SUPREMO ANHELO VOLTAR a ti, ó terra estremecida, E ver de novo, a doce luz da aurora, O valle, a selva, a praia inesquecida. Onde brincava pequenina outr’ora; Ver uma vez ainda essa querida Serra Dourada que minh’alma adora; E o velho rio, o Cantagallo, a ermida, Eis o que sonho unicamente agora Depois… morrer fitando o sol no poente, Morrer ouvindo ao desmaiar fagueiro De tarde estiva o sabiá dolente. Um leito, enfim, bordado de boninas, Onde dormisse o somno derradeiro Sob essas verdes placidas collinas, (p. 23) Anhelo é palavra em espanhol que pode ser traduzida para o português como “saudade”. O vocábulo significa, ainda, desejo, anseio, vontade e esperança. Todos esses significados se inserem em contextos vários, de acordo com um sistema maior de signos, de sememas e de símbolos que sustentam uma imagem metafórica. Nesse sentido, faço alusão às palavras de Paul Ricoeur, quando classifica a metáfora como: “acontecimento semântico que se produz no ponto de intersecção entre vários campos semânticos. Esta construção é o meio pelo qual todas as palavras tomadas conjuntamente recebem sentido”. (RICOEUR, 2000, p. 155.)16 Então, e somente então, a torção metafórica é simultaneamente um acontecimento e uma significação, um acontecimento significante, uma significação emergente criada pela linguagem. E completando, pode ser lembrado que: 16 RICOEUR, Paul. A metáfora viva. Trad. Dion Davi Macedo. São Paulo: Edições Loyola, 2000. O metafórico não existe senão nas fronteiras da metafísica. Com efeito a superação pela qual a metáfora usada se dissimula na figura do conceito não é um fato qualquer de linguagem; ela o é invisível por meio do visível, o inteligível por meio do sensível, depois de os ter separado. […] a verdadeira metáfora é vertical, ascendente, transcendente. (RICOEUR, A Metáfora Viva 2000 p. 443) 17 Ou, ainda, utilizo o conceito da metáfora que está no livro Rethorique Gènèrale18 do Grupo de Liège (grupo de professores do Centro de Estudos Poéticos da Universidade de Liège), publicado em 1970, que aborda vários estudos dos processos metafórico e metonímico, baseando-se nas pesquisas semânticas de Pottier e Greimas. Segundo esse grupo, na constituição da metáfora há sempre um termo de partida (P), uma chegada (CH) e um termo intermediário (I), o qual assinala a interseção entre os dois termos. A metáfora, portanto, nesse ponto comum, vai unir os dois termos, incorporando-os, tornando-os um único. No poema em análise, esse procedimento metafórico pode ser esquematizado da seguinte forma: Diante do exposto, “Supremo Anhelo” (p. 23) consubstancia toda a vontade do eu poemático de retornar aos campos da sua terra natal, aqui descrita pelos pontos como a Serra Dourada, o velho rio, o Cantagallo. O poema apresenta, mais uma vez, a imagem do sabiá dolente e as colinas, presente em outros poemas. O título do poema “Supremo Anhelo” é o primeiro comparativo dessa travessia, logo é o ponto de partida (P); o termo espanhol Anhelo, que aparece na primeira comparação representando além de saudade, desejo, anseio, vontade e esperança (I), Eu lírico e saudade, também (I); Goiás, Gaia, Terra, 17 RICOEUR, Paul. A metáfora viva. Trad. Dion Davi Macedo. São Paulo: Edições Loyola, 2000. 18 DUBOIS, Jean. Rhétorique Générale, Universidade de Michigan, Larousse, 1970. Supremo Anhelo (P) Goiás, Gaia, Terra, Casa, ecopoesia (CH) Anhelo, Eu lírico e Saudade (I); Casa (oikós = lugar onde se habita, espaço), ecopoesia são os termos de chegada (CH). Entre comparação da passagem do “Supremo Anhelo”, para travessia da ecopoesia, a volta à Gaia, Terra, Goiás, está a metáfora: Anhelo, que é o Eu lírico e Saudade centralizando a travessia. Diante do exposto, no centro dessa convergência é que mora a metáfora, que é o SENTIMENTO, o DESEJO DE REVER A TERRA NATAL e até o ROMANTISMO desse poema lírico. Logo, essa intrincada construção imagética representa a metáfora que é o sentimento de voltar à terra, ALQUIMICAMENTE, na ótica do poético, funde os semas do anhelo, eu lírico, Gaia, Terra, Casa, Ecopoesia ao discurso, texto poético, ao olhar de quem tem sensibilidade. Como já explicitei no início do estudo, Orchideas é dividida em três partes, com temas que tratam da natureza: FLORES MORTAS; RAMOS FLORIDOS e GOTTAS DE ORVALHO. Em toda a obra estão presentes ecopoemas, em que a natureza e a saudade da terra mãe é a fonte de inspiração. FOLHAS MORTAS: Á velha serra (p. 19); Goyaz (p. 20); Supremo anhelo (p. 23); Ao partir (p. 24); RAMO FLORIDO: Tela agreste (p. 33); Aguarella (p. 34); Manhã na raça (p. 35); Luar de outubro (p. 36); Primavera (p. 37); GOTTAS DE ORVALHO: No álbum (p. 55), A Nenem (p. 57), Jardim fechado (p. 60), A estrela (p. 72), Ontem e Hoje (p. 81) Árvores (p. 93). Por esse motivo, além do título denominado Orchideas, na edição de 2014, publicada pela UFG/Ateliê Tipográfico, 2014, as ilustrações de Tai e Terezinha Boaventura ampliam a visão ecopoética da obra de Leodegária. Figura 1: tela de Terezinha Boaventura Mas é claro que essa consciência sobre o ecopoema ou ecoposia, a poetisa não possuía. Não por ser uma tendência contemporânea, mas porque tanto o poeta do passado como os poetas contemporâneos não precisam ter uma intenção de fazer ecopoemas. Não se pergunta a um poeta o que o seu poema diz ou o que ele quis dizer com o poema. O poema não diz, o poema é poesia. A poesia é pasmar o momento, é êxtase, é o indizível, o inexprimível. A poesia é a arte que se manifesta pela palavra e o seu objeto é o reino mágico e infinito do espírito. A poesia é a comunicação, a expressão do “eu” do artista por meio do signo literário, isto é, da palavra plurissignificante e da metáfora. Através desse “eu”, o poeta vê o mundo e, simultaneamente, volta para si próprio, numa atitude contemplativa e filosófica. No entanto, o filósofo contempla o mundo exterior, ideias gerais, objetivas, universais. Contempla também o mundo interior, ideias particulares, subjetivas, dentro dos seus limites pessoais. Paradoxalmente, porém, contemplar o próprio reino, o poeta descobre o mundo inteiro. A poetisa Leodegária de Jesus faleceu em Belo Horizonte, no dia 12 de julho de 1978 e deixou uma carreira que marcou sua trajetória como poetisa, mulher negra, professora, jornalista, ativista, produtora cultural e administradora – tornou-se patronesse na Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás e iniciou a ecopoesia em Goiás.

[1] Coordenada pelos Escritores Jales Guedes Coelho Mendonça e Nilson Jaime.
[1] Antonio Miranda. «Poesia goiana: Leodegária de Jesus». Consultado em 27 de junho de 2020
O Popular (24 de agosto de 2019). «Leodegária de Jesus, poeta de Goiás, recebe homenagens». Consultado em 27 de junho de 2020
Rezende, Tânia Ferreira. «A semiótica dos corpos na literatura goiana: o corpo negro de Leodegária de Jesus». Plurais (UEG). 8: 131-159. Consultado em 27 de maio de 2020
Jornal Opção (14 de agosto de 2019). «Encontro de Poesia e Artes celebra 130 anos de nascimento de Leodegária de Jesus e Cora Coralina». Consultado em 27 de junho de 2020
Universidade Federal de Goiás (15 de dezembro de 2014). «Uma pioneira da poesia». Consultado em 27 de junho de 2020
Streglio, Cosme Juares Moreira (2015). A lírica de Leodegária de Jesus: devaneio poético e imagem (PDF) (Mestrado). Pontifícia Universidade Católica de Goiás