Para uma parcela expressiva dos moradores de Goiânia, o salário ou a renda principal já não é suficiente para fechar as contas do mês. É o que mostra a edição de 2026 da pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social. Segundo o levantamento, 68% dos entrevistados na capital goiana disseram ter realizado algum tipo de atividade extra para complementar ou obter renda nos 12 meses anteriores à pesquisa. Em 2025, eram 54%.

O crescimento de 14 pontos percentuais foi o maior registrado entre as dez capitais brasileiras incluídas no levantamento. Ainda assim, a diferença em relação à média das cidades pesquisadas, de 61%, não é considerada estatisticamente significativa.

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), em parceria com a Ipsos-Ipec, com apoio da Fundação Grupo Volkswagen e cofinanciamento da União Europeia. Ao todo, foram entrevistadas 3,5 mil pessoas com 16 anos ou mais, entre 1º e 20 de julho. Em Goiânia, foram 300 entrevistados. A margem de erro estimada para a capital é de seis pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

Fonte: Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), pesquisa Viver nas Cidades – Desigualdades e Mobilidade Social 2026.

Faxina, reforma e jardinagem estão entre os principais bicos

Entre os goianienses que buscaram uma segunda fonte de renda, os chamados serviços gerais aparecem como a atividade mais citada. A categoria reúne trabalhos como faxina, reformas, manutenção e jardinagem e foi mencionada por 26% dos entrevistados, ante 19% na pesquisa anterior.

A venda de roupas e outros produtos usados também ganhou espaço. Em 2026, 15% disseram recorrer a esse tipo de atividade para ganhar dinheiro, contra 11% em 2025.

Outro caminho encontrado pelos moradores da capital foi o trabalho por aplicativos. 10% dos entrevistados afirmaram ter atuado como motoristas ou feito entregas, percentual que era de 9% no ano anterior.

A lista inclui ainda venda ambulante, produção de alimentos em casa, trabalhos manuais, revenda de cosméticos, serviços de beleza e aulas particulares. Os percentuais não podem ser somados porque os entrevistados tinham a possibilidade de indicar mais de uma atividade.

Fonte: Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), pesquisa Viver nas Cidades – Desigualdades e Mobilidade Social 2026.

O resultado ajuda a dimensionar uma mudança que aparece no cotidiano de quem precisa complementar o orçamento: a renda adicional deixou de ser apenas uma alternativa ocasional e passou a fazer parte da estratégia financeira de uma parcela considerável dos moradores da capital.

Mais renda, mas também mais pressão sobre o orçamento

A procura por uma atividade extra ocorre em um cenário no qual parte dos entrevistados também percebeu mudanças na própria renda. Considerando as dez capitais pesquisadas, 31% disseram que a renda pessoal diminuiu nos 12 meses anteriores à entrevista. Outros 45% afirmaram que ela permaneceu estável e 18% perceberam aumento.

A pressão aparece também quando os moradores são questionados sobre as despesas que mais pesam no orçamento doméstico. A alimentação foi apontada por 47% dos entrevistados como o principal gasto, seguida por moradia, com 27%, e saúde, com 11%.

A pesquisa identificou ainda mudanças nos hábitos de consumo. O levantamento aponta aumento no consumo de ovos ao mesmo tempo em que houve redução na compra de carnes, laticínios e produtos hortifrutigranjeiros, movimento interpretado pelos pesquisadores como uma possível substituição de itens de maior custo por alternativas mais acessíveis.

Outro ponto investigado pela pesquisa é a mobilidade social entre gerações. No conjunto das capitais analisadas, 73% afirmaram ter alcançado um nível de escolaridade superior ao dos pais. Quando a comparação é feita pela renda, porém, o percentual cai para 46% entre aqueles que disseram ganhar mais do que os pais ganhavam quando tinham a mesma idade.

O dado coloca em evidência uma diferença entre formação e retorno financeiro. Ter estudado mais do que a geração anterior não aparece, necessariamente, acompanhado de uma melhora proporcional na renda.

A pesquisa também perguntou aos entrevistados como avaliam a própria situação nos últimos cinco anos. No conjunto das cidades pesquisadas, 45% disseram ter aumentado a renda no período, enquanto 44% perceberam melhora na escolaridade e 41% nas condições de moradia. Na outra ponta, 35% relataram redução da renda e 24% disseram ter enfrentado piora nas condições de moradia.

Goiânia no retrato nacional

A capital goiana aparece no levantamento entre as cidades com maior proporção de moradores recorrendo a atividades extras. O índice de 68% ficou acima dos 61% registrados na média das dez capitais.

Fonte: Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), pesquisa Viver nas Cidades – Desigualdades e Mobilidade Social 2026.

Belém e Salvador registraram 66%, enquanto Fortaleza chegou a 65%. Porto Alegre passou de 47% para 57% entre 2025 e 2026. São Paulo saiu de 53% para 58%. Em Manaus, ocorreu movimento contrário: o percentual caiu de 69% para 62%.

No caso de Goiânia, o salto de 54% para 68% representa uma mudança significativa no tamanho do grupo que declarou ter procurado uma atividade adicional para aumentar a renda.

Mais do que a escolha de um tipo específico de “bico”, o levantamento mostra uma cidade em que diferentes formas de trabalho, da faxina à venda de produtos usados, passando por entregas e serviços por conta própria, são utilizadas para reforçar o orçamento familiar.

A pesquisa, contudo, mede a percepção e o comportamento dos entrevistados, e não deve ser interpretada como uma estimativa da quantidade de trabalhadores informais existente em Goiânia. O universo pesquisado foi de 300 pessoas na capital e os resultados estão sujeitos à margem de erro de seis pontos percentuais.

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