Nos confusos tempos atuais, em que abundam a desinformação, a ignorância e a superficialidade, sempre teremos questões que suscitam indignação em alguns grupos sociais. Isso faz parte do jogo e não seria diferente com o Enem. Caetano já ensinava “a vida é real e de viés”, mas dito de outra forma: tudo é enviesado. A interpretação dos fatos é sempre mediada pela experiência vivida – é o viés, a ideologia. Desde que foi criado, em 1998, o Enem se tornou alvo de todo tipo de controvérsia: vazamento de questões (e ao que parece houve novamente neste ano), gabarito errado, falhas na impressão dos cadernos, citações incorretas e avaliações negligentes de redações.

Em 2015, um trecho da pensadora francesa Simone de Beauvoir sobre o feminismo já foi alvo de críticas de conservadores. A frase era: ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”, do livro “O segundo sexo”, de 1980. Naquele ano, a questão pedia apenas que o estudante conseguisse identificar a segunda onda feminista.

Ocorre que desde aquela época o Enem se tornou obsessão da direita e palco de uma guerra cultural. Como se sabe, numa guerra, o bom senso é o primeiro a sair pela porta. Depois de assumir, em 2019, Jair Bolsonaro anunciou que promoveria uma “análise ideológica” da prova. Os técnicos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que elaboram o exame, foram alvo de todo tipo de pressão. Enquanto Bolsonaro esteve no poder, sumiram as questões sobre o golpe militar de 1964.

Neste ano, a prova alimenta as teses da direita sobre manipulação ideológica. Na opinião da bancada ruralista, as perguntas de geografia têm “cunho ideológico, sem critério científico ou acadêmico”, por isso deveriam ser anuladas. A principal queixa da FPA se refere a uma questão a respeito do agronegócio no Cerrado. “De um lado, o capital impõe os conhecimentos tecnológicos, como mecanismo de universalização de práticas agrícolas e de novas tecnologias, e, de outro, o modelo capitalista subordina homens e mulheres à lógica do mercado. Assim, as águas, as sementes, os minerais, as terras (bens comuns) tornam-se propriedade privada”, diz o autor citado. Pode não se concordar em nada com a colocação da questão, mas o que se pede do candidato é que ele interprete o texto e responda baseado naquilo que foi lido, independente se concorda ou não com o apresentado já que a educação não é mera apreensão de regras aritméticas ou gramaticais.

Cabem críticas? Tenho por princípio que o contraditório é sempre bem-vindo já que o conhecimento não deve se fixar em visões de mundo preestabelecidas, sob pena de paralisar. Agora é importante ter em mente que da mesma forma que as críticas foram (corretamente) direcionadas ao governo de Bolsonaro por querer eliminar o período da ditadura brasileira é preciso poder criticar questões que eventualmente possam “demonizar” (ou não) determinado segmento.

O importante nesse caso é saber que, como no período anterior, o Inep não se deixou levar tanto pela ideologia conservadora, também agora, não deve ser levado pelo contrário. Isso porque quem trabalha com educação defende o contraditório e a capacidade de pensar o mundo sob diferentes aspectos. Toda área do conhecimento opõe grupos com ideias divergentes. Resta procurar o bom senso e buscar aprender com os mestres, como Paulo Freire quando ensina que: “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”