O que você faz quando chega em casa depois de um dia de trabalho? Uma pergunta aparentemente simples de responder. Afinal, quem trabalha merece descanso. Então, nada mais natural do que entrar pela porta, tirar a roupa do trampo, tomar um bom banho e depois fazer um lanche rápido enquanto escuta um bom som no sofá para aliviar o estresse. Ligar a TV para se entreter ou se informar também é boa pedida.

Outro roteiro bem comum é abrir a porta, jogar sacolas e o excesso de roupas numa poltrona e ir direto para a cozinha. Não para pegar algo na geladeira, mas preparar algo para comer. Depois, de uma refeição rápida porque não há muito tempo a perder, tem de colocar a roupa para lavar, dar uma faxina pelos cômodos e arrumar as camas para dormir. Uma ducha rápida e então deitar na cama em estado de prostração, porque é preciso recuperar energias para o dia seguinte, que também é preto na folhinha.

Duas realidades nada incomuns nos lares pelo Brasil. A primeira, bastante compatível com o que se convencionou chamar de “tradicional família brasileira”; a segunda caracteriza a dupla jornada de quem tem uma casa para cuidar depois de dedicar preciosas horas de vida para a subsistência remunerada. Isso vale para quem mora sozinho, mas também – e aí a rotina costuma ser bem mais penosa – para quem tem familiares de quem cuidar.

E “cuidar” é a palavra-chave para enfim debater o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano: como ampliar o horizonte dos “desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”?.

Primeiramente, é preciso ressaltar a pertinência da escolha – a comissão organizadora raramente tinha sido tão feliz com tamanha abrangência de uma temática. O melhor: o exame aproxima-se da realidade de cada candidata e candidato, que certamente tem perto de si um exemplo em quem mirar e pensar para escrever seu próprio texto.

Grande parte dos homens se divide entre os que não aprenderam a cuidar e os que aprenderam a não cuidar

Nós, homens nascidos no século passado, fomos criados para trabalhar “fora”. Em casa? Bem, de vez em quando “ajudar” a mãe ou a irmã, quando mais novos, ou a namorada, mulher ou companheira, quando já adultos. São pouquíssimos os que fomos ensinados a “cuidar”, no sentido lato do termo. A grande parte dos homens, na verdade, se divide em duas outras turmas: os que não aprenderam a cuidar e, mais grave, os que aprenderam a não cuidar.

Fazendo uma sociologia bem simplista, essa é uma questão cultural e que passa pelo carimbo patriarcal presente nas bases do Brasil desde os tempos coloniais. De certo modo, com as devidas adaptações, a figura arquetípica do senhor de engenho é reproduzida até hoje. Em outras palavras, há uma pitada de “coroné” em todos nós, mesmo nos homens mais “desconstruídos”.

A mulher, da mesma forma, leva em seu DNA séculos em que teve como sua profissão ser “do lar”. O cuidado é algo naturalmente presente em sua vida: cuidar da casa, do marido, dos filhos, enfim, dos “bastidores” da família – e até de si própria, quando sobra um tempo.

Apesar de parecer uma obviedade, é preciso registrar que esse papel destinado à mulher não se constitui em regra apenas no Brasil; ao contrário, predomina em praticamente todo o mundo. Curiosamente, os homens, aqueles que não foram criados para cuidar direito nem mesmo de si, são eles quem cuidam do destino das demais pessoas, pois controlam a política das nações – inclusive, claro, das superpotências. Quantas presidentas houve na história dos Estados Unidos? Ou da União Soviética/Rússia? E da China? Em outras nações influentes, mulheres no poder foram exceções, e como primeiras-ministras. Foi o caso de Margaret Thatcher, no Reino Unido; Angela Merkel, na Alemanha; e Golda Meir, em Israel.

Aliás, em meio a uma guerra desproporcional no Oriente Médio em que seu país devasta um povo à caça de terroristas sanguinários, parecendo agora usar o abominável ataque sofrido como “habeas corpus” para se igualar em questão de atrocidades, como agiria Golda Meir no lugar de Benjamin “Bibi” Netanyahu? Uma das frases clássicas da mulher que ficou conhecida como “Dama de Ferro” era sintomática: “A paz virá quando os árabes nos odiarem menos do que amarem suas crianças”. Golda liderava Israel quando houve o ataque surpresa de Síria e Egito que gerou a curta Guerra do Yom Kippur, vencida pelos judeus e que completou meio século anos em outubro de 1973.

A mesma alcunha, “Dama de Ferro”, não por coincidência, consagrou Thatcher e também foi adaptada para Merkel – que virou a “Frau de Ferro”, “Chanceler de Ferro”, “Garota de Ferro”. Por que a recorrência? Porque, para ser aceita no mundo do poder, é preciso à mulher que seja dura, forte, que se masculinize no mais alto grau (por isso, talvez não se aceitasse comportamento muito diferente de uma Golda no lugar de um Bibi, na estratégia israelense ora em curso).

Angela Merkel, a “Mutti”: chanceler alemã é a liderança mais importante da Europa em seu tempo | Foto: Reprodução

O apelido que consagrou Angela Merkel, porém, foi “Mutti”, o correspondente em alemão para “Mamãe”. Não foi à toa: ela priorizou o “cuidar” em cada uma das diversas crises que atravessou – a financeira de 2008, a sanitária de 2020, a crônica crise migratória etc. Sua forma de governar por mais de 15 anos uma potência econômica e geopolítica foi um esteio que estabilizava não só a Alemanha, mas toda a Europa. Por coincidência – ou não –, a Guerra da Ucrânia estourou em fevereiro de 2022, dois meses após ela deixar o comando de seu país. Que falta faz uma Merkel hoje!

O ser humano é o cupim do mundo. As consequências da depredação estão à vista para todo aquele que tiver olhos. Mas, se vivemos agora à beira de um colapso climático ou nuclear, não é por causa das mulheres. É, sim, pela falta de ter o cuidado delas, algo que, se aplicado às decisões que afetam o globo, daria a todos no planeta condições mais confortáveis e igualitárias.

Não é pouco simbólico que vídeos que se pretendem hilários, com brincadeiras ou experimentos radicais em que marmanjos se envolvem, percorrem as redes com o título “Por que os homens vivem menos”. Pois os homens vivem menos porque, às vezes, têm a estupidez do tamanho que pensam ser sua força bruta.

A utopia que salvaria o mundo seria a entrega da governança de vez às mulheres com a preciosa recomendação: governem como vocês cuidam.