“Vou fazer um debate sobre Goiás sempre olhando para frente”

A poucas semanas de assumir o posto mais importante do Estado, vice-governador se diz pronto para suceder a Marconi Perillo e também para o debate com os eventuais adversários na corrida eleitoral

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O verbo “construir” e suas variações talvez seja uma das maiores presenças nesta entrevista do vice-governador José Eliton (PSDB) ao Jornal Opção, a última grande sabatina antes de ele assumir o posto principal, com a desincompatibilização de Marconi Perillo (PSDB), no dia 7 de abril. Com dados abundantes e igual disposição, o futuro ocupante da cadeira principal do Palácio das Esmeraldas se mostrou realmente disposto a erguer pontes, tanto em relação à sociedade goiana como também com os aliados políticos – que andam se engalfinhando em busca de um lugar de destaque na chapa majoritária da base governista.

Por meio de números e estatísticas, ele busca derrubar um a um os questionamentos dos opositores, notadamente de Ronaldo Caiado (DEM). Aliado de Marconi por 16 anos e um dos responsáveis pelo lugar que o futuro governador ocupou na chapa encabeçada por ele em 2010, hoje o senador tem se mostrado um ferrenho antagonista do tucanato. Mas, com sólidos argumentos, José Eliton derruba uma a uma as acusações do democrata, que lidera as pesquisas de intenção de voto ao governo – fato que não assusta o entrevistado. “As pesquisas são uma fotografia do momento. E é fato que não tem havido nenhuma relação dessa fotografia com o resultado das eleições. ”

Augusto Diniz – O governador Marconi Perillo (PSDB) deve se desincompatibilizar até dia 7 de abril. Como está sendo a transição para a gestão José Eliton?
Estamos vivendo um momento muito tranquilo e saudável, a quatro mãos, tanto política como administrativamente. O governador Marco­ni tem noção exata de seu papel de estadista, que busca zelar pela estabilidade e pela governabilidade do Estado. Já vimos dialogando muito desde dezembro, numa ação conjunta para fazer tudo isso de forma harmônica, de modo a não criar solução de continuidade em programas importantes que estão em execução.
Da mesma forma, temos buscado o ambiente adequado para avanços conforme a visão de prioridades que terei a partir de abril, dentro de uma perspectiva de ter um documento norteador das ações, que é o plano de governo apresentado em 2014 e que queremos implantar em sua totalidade até o fim deste ano. Obviamente, a sociedade é dinâmica e temos a compreensão clara de que as demandas se alteram com o passar do tempo. Diante disso, estamos elegendo alguns tópicos como foco do governo, além de todas aquelas que já forma devidamente apresentadas e que, conforme a própria imprensa noticiou, coloca Goiás como o que mais executou percentualmente o que apresentou durante a campanha. Queremos chegar ao fim da atual gestão, se possível, com o plano de governo cumprido em sua integralidade.

Euler de França Belém – A segurança pública é uma preocupação central dos brasileiros. O sr. indicou uma pessoa, Irapuan Costa Junior, que já governou o Estado, integrou o Senado e que é um estudioso do assunto. Logo ao assumir, já conquistou o apoio da PM e da Polícia Civil. Está tomando medidas que parecem simples, mas que têm funcionado. Qual será a política para fazer avançar a segurança no Estado?
Primeiramente, é preciso fazer uma avaliação sobre a visão da população em relação às preocupações mais latentes. Em 2016, quando assumi a Secretaria de Segurança Pública, um veículo de comunicação impressa da capital publicou outra, que apontava que 79% das pessoas ouvida tinha a segurança como principal problema. Hoje essa preocupação, no caso de Goiás, caiu para o 3º lugar, com 29% – em 1º lugar aparece a saúde e, em 2º, a manutenção do emprego. O dado, por si só, já demonstra o acerto das políticas públicas implantadas de lá para cá: ao tirar a segurança do foco de principal preocupação, o cidadão basicamente reconhece os avanços nesse setor, que continuará a ser prioritário no governo.

No leque de prioridades que teremos, a principal será manter o equilíbrio fiscal. Sem saúde financeira, nenhuma das demais atividades tem condição de ser aplicada. Uma vez garantidas as condições básicas para o adimplemento do Estado para com suas obrigações, teremos condições de avançar nos programas a serem desenvolvidos. Dois pontos são fundamentais: um é a área de saúde e outro, a de segurança. Ao convidar o ex-governador Irapuan Costa Junior para compor os quadros do governo como secretário de Segurança Pública, fiz isso com forte convicção principalmente em sua capacidade técnica. É alguém que conhece a área como poucos, além de ser um homem estudioso e culto, que atuou com firmeza de propósitos quando governou o Estado. Sua biografia o credencia, principalmente diante do momento histórico que vive o Brasil. Além de tomar ações próprias do exercício como secretário, ele com certeza vai inspirar os mais novos para mostrar que, mesmo em um cenário de descrença, é possível fazer a política do bem, é possível tem homens e mulheres atuando com foco no interesse público. Foi justamente essa resposta que ele me deu ao aceitar o convite e que me deixou extremamente feliz, orgulhoso e convicto da decisão que tomamos. Ele nos disse que tinha a obrigação de servir ao Estado mais uma vez, mesmo tendo uma vida tranquila, social e economicamente, colocando-se à disposição para uma posição das mais espinhosas do governo, que é a área da segurança pública. Esse fato por si só demonstra sua grandeza.

Dentro da agenda da segurança, que já elegemos como prioritária no governo, temos de garantir a consolidação da agenda que já vinha sendo implementada e que é responsável pela redução dos indicadores de violência nesses dois anos. Talvez o grande desafio agora seja fazer encontrar a curva de queda de crimes praticados com a curva de sensação de segurança, que são situações distintas. Obviamente, é preciso implantar ações como as que já iniciamos, com a aquisição de novas tecnologias de combate ao crime e avançar as ferramentas de inteligência, para dar aos agentes mais condições de análise de cenário e mais volume de informações, com capacidade de processamento de maneira muito mais rápida, de modo a ter eficiência em especial no combate ao crime organizado.

Outra ação é o incremento de efetivo nas diversas forças policiais. Já são quase 6 mil homens e mulheres – entre Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Polícia Técnico-Científica etc. – que foram incorporados nos últimos anos. Devemos abrir, ainda neste exercício, novos certames para continuar a recompor o efetivo.

O dr. Irapuan está ultimando um plano de segurança a partir do qual vamos implantar novas ações. Isso vem acrescer às experiências que temos desenvolvido nos últimos anos, além daquelas traduzidas por um programa de Estado que estamos elaborando e que visa o monitoramento, desde a concepção até a primeira infância, de todos os nascituros em Goiás, com foco bastante centrado na segurança pública. Dentro desse conjunto de ações, temos algumas prioridades relativas ao transporte público na capital, com ações de intervenção mais forte, para termos uma paz social que todos almejamos.

É importante destacar – para ilustrar, apenas – um dado que qualquer cidadão pode mensurar e visualizar rapidamente sobre o combate eficaz ao crime. Em 2016, tomando todos os jornais da época, observa-se que a cada duas semanas, pelo menos, havia um episódio do crime que ficou conhecido como “novo cangaço” – quadrilhas que explodiam agências bancárias no interior, faziam reféns e depois saíam em disparada. Não era possível combater isso apenas com homens e armas. Então, o que fizemos? Estabelecemos uma política focada em inteligência e tecnologia. Elaboramos um mapeamento com ação conjunta dos Estados membros do Pacto Integrador de Segurança Pública e resultado disso é que hoje praticamente não observamos nenhum indicador desse tipo de crime em Goiás. Ou seja, basicamente anulamos essas quadrilhas, realizando a identificação e a prisão de seus integrantes.

Tudo isso não pode ser feito com debates simplistas, para jogar para a plateia. É preciso fazer, sim, um debate conceitual, envolto em políticas de segurança pública. Nem vou me referir aqui às questões conjunturais de nosso Estado ou que dizem relação específica à estrutura do Direito brasileiro, que é outro elemento a ser discutido.

Augusto Diniz – Parte da opinião pública ainda questiona o motivo da troca de secretário, com a saída de Ricardo Balestreri. O que de bom teve na gestão de Balestreri e que pode ser aproveitado por Irapuan Costa Junior? E o que houve em termos de falhas?
Primeiramente, a decisão so­bre os cargos se dá conforme a visão daquele que está no governo, no caso específico – como es­tou fazendo a transição com o go­vernador –, daquele que tem uma visão própria a respeito das pri­oridades de cada área. Isso não me impede de destacar o belíssimo trabalho que o professor Ri­cardo Balestreri à frente da pasta, tanto que fiz a ele o convite para permanecer no governo, na condição de secretário-chefe do Ga­binete de Assuntos Estratégi­cos, para implantar políticas públicas que possam ser traduzidas em políticas de Estado e não de governo nas mais diversas áreas, inclusive a de segurança pública.
O discurso de Irapuan em sua posse demonstra identidade com muitos conceitos que já vinham sendo trabalhados por Balestreri. Um deles é a proximidade da polícia com o cidadão, que é uma frase que o novo secretário gosta de usar em seus pronunciamentos e era uma bandeira que vinha sendo levantada por seu antecessor. Claro que cada um vai avançar segundo seu próprio estilo.

Por outro lado, temos uma visão de operação muito mais forte, no que diz respeito aos processos internos das forças policiais por parte do dr. Irapuan. É justamente esse aspecto com que nos identificamos. Se alguém retomar o discurso de posse à frente da SSP em 2016 e, guardadas as questões de estilo de linguagem, vai observar que a linha principal é basicamente a mesma do discurso de Irapuan.

Patrícia Moraes Machado – Há uma expectativa muito grande, no meio político, sobre como o sr. vai se apresentar como gestor nos próximos oito meses, qual a identidade que vai ter sua administração. O que o sr. pretende afirmar como marca nesse período?
Quando eu destaco que a principal prioridade é a saúde financeira do Estado, eu me refiro a uma gestão baseada em princípios e valores fundamentais para a austeridade.

Patrícia Moraes Machado – Mas o cidadão vai sentir isso no dia a dia?
Com certeza. À medida que mantivermos a capacidade de desenvolvimento do Estado e fazendo intervenções tanto na saúde como na segurança pública, o cidadão vai sentir reflexos. Como governador, não há como fazer qualquer ação em qualquer área que seja se não tiver o orçamento equilibrado.

Patrícia Moraes Machado – O sr. acredita que o cidadão comum conseguirá entender esse caminho de prioridades? Afinal, ele quer ver o prato pronto na mesa dele.
O cidadão entende isso ao ver a viatura na rua, ao ser atendido pelo médico prontamente no hospital, quando vai ao terminal e percebe que está seguro, quando uma empresa se instala em sua cidade e gera empregos, quando a escola funciona bem e seu filho não deixa a aula. Isso com certeza impacta sua vida, mas a partir de condições de responsabilidade. Tem muita gente por aí que faz as propostas mais mirabolantes do mundo, mas, ao ser confrontado com o orçamento do Estado e todas as suas obrigações, não consegue explicar de onde vai retirar o dinheiro para todos os malabarismos que anuncia.

Já o que estou falando se baseia em ações concretas baseadas em prioridades concretas. Ou seja, quando me refiro à prioridade fiscal e financeira, me refiro a todas as demais, porque sem a primeira as demais não existem.

Patrícia Moraes Machado – Há um grupo de trabalho definindo uma linha para seu governo, que seria formada por seis metas, salvo engano. Essas metas já foram definidas?
Nunca discuti número de metas, se são 5, 6, 10 ou 20 metas, ou mesmo nenhuma. O que temos é um plano de governo aprovado em 2014, quando a população goiana elegeu o governador Marconi e a mim. Portanto, primeiramente vamos estabelecer o cumprimento desse plano de governo. Porém, temos uma sociedade dinâmica e com demandas que aparecem com o passar do tempo; temos também um governante que vai começar a administrar o Estado com sua visão de mundo e de prioridades. Em cima desses elementos, temos equipes trabalhando nas diversas áreas – além de segurança e saúde, também em educação, modernização, startups, inovação etc.

Eu tenho dois prazos, especificamente. O primeiro – a que terei de estar atento com 100% do meu tempo, do meu foco e das minhas ações – vai de 7 de abril a 31 de dezembro de 2018. É o tempo que vai completar os períodos de gestão do governador Marconi e o meu. Outro é o projeto que apresentaremos a Goiás e, caso os goianos o entendam como o melhor para o Estado, teremos outro prazo, a partir de 1º de janeiro de 2019 até 31 de dezembro de 2022. São dois momentos a discutir, um em função da desincompatibilização do governador Marconi e outro condicionado ao processo eleitoral.

Euler de França Belém – Uma das preocupações do tucanato em Goiás foi a de criar uma rede de proteção social – com programas como o Bolsa Universitária, por exemplo. O ajuste fiscal nunca sacrificou as pessoas que se enquadram nessa rede. O sr. pretende acrescentar algo a essa rede de proteção durante sua gestão?
O projeto já está em execução, mas será importante consolidar ainda mais essas conquistas, que são essenciais para a sociedade. Talvez pela origem do governador Marconi e a minha, também, temos sensibilidade muito grande com a imperiosa necessidade de geração de oportunidades. O governador tem em sua biografia, páginas escritas de um menino que deixou Palmeiras de Goiás, de uma família muito simples, que ajudava sua mãe a vender, que trabalhou no Canindé [bar que era situado na chamada Praça da Cirrose, no Setor Oeste] com seu pai e que teve de interromper uma faculdade de Engenharia por não ter condições de pagar. Quando teve oportunidade, ele fez a transformação na área social do Estado.

Quando Marconi assumiu o governo de Goiás, em 1999, o único programa social era a entrega de bolsas e alimentos, muitos destes deteriorados em função de ser adquiridos em diversos lugares do País. Hoje, o Renda Cidadã modificou o perfil social e econômico do Estado, gerando riquezas nos municípios, distribuindo renda e fomentando geração de empregos. Outro programa criado foi o Bolsa Universitária, que, ao final do semestre, terá atendido, 200 mil pessoas em todo o Estado. Tivemos ainda o Bolsa Futuro, que atendeu 500 mil pessoas com ensino profissionalizante. Temos o Cheque Reforma, que ajudou milhares de goianos, a melhorar suas condições de moradia e seremos o primeiro Estado do Brasil a zerar a acessibilidade residencial para famílias com integrantes que tenham algum tipo de necessidade especial. São também 6 mil cadastros feitos pelo programa Goiás na Frente – Terceiro Setor, uma agenda importantíssima. A UEG [Universidade Estadual de Goiás] se graduaram 100 mil pessoas, gerando uma série de oportunidades a elas. Tivemos agora o programa Goiás Sem Fronteiras, que encaminhou alunos da rede estadual de educação para intercâmbio nos Estados Unidos – faremos o mesmo também para a Espanha, o Canada e outros -, e está mudando perspectivas de mundo para esses estudantes. Essas conquistas devem ser preservadas.

Da mesma forma que para o governador Marconi, isso é muito caro para mim porque também venho de uma família simples. Estudei no Colégio Dom Prudêncio, escola pública de Posse, e vim para Goiânia. Andei de transporte público, como milhares e milhares de jovens fazem todos os dias. Tive a oportunidade de fazer um curso superior, depois ser eleito vice-governador e, a partir de abril, de ser governador do Estado. Meu foco não pode ser outro que não a geração de oportunidades para as pessoas, o que parece ser muito próprio daqueles que passaram por esse tipo de situação, não daqueles que nunca enxergaram o que é, de fato, passar dificuldades.

Euler de França Belém – Então os programas sociais serão aperfeiçoados?
Todos os programas sociais podem passar por aperfeiçoamento. O que fizemos no fim do ano foi isso: utilizar um programa já existente – o Cheque Reforma – para, após uma conversa com as Apaes [Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais] do Estado, definir pela priorização às famílias com necessidades. São aperfeiçoamentos que são feitos no dia a dia. Essa é uma agenda que manterei com muita força, é um compromisso que eu tenho. Porém, não há agenda mais libertadora do que a geração de empregos.

Marcelo Mariano – Qual é o tema que vai pautar os debates durante a campanha eleitoral: Será a segurança pública ou algum outro?
Vou levantar temas que considero importantes. Quero discutir o Estado moderno, a geração de oportunidades, a inclusão do Estado na economia do século 21, a necessidade de formar saber e não apenas transmitir saber. É preciso ter um Estado que desenvolva novos processos para agregar valor ao que produz, porque trabalhar apenas com a produção primária, apenas, limita a capacidade de desenvolvimento do Estado. Precisamos falar sobre investimento em inovação e tecnologia, em startups, no Estado como ente transformação na vida das pessoas.
Da mesma forma, também precisamos discutir as transformações na área da saúde. Eu vou apontar um norte claro dentro do que penso para Goiás. Espero que a política não descambe para argumentos vazios e baixos, e que os candidatos que se postam em outros campos entendam isso e tenham capacidade de debater com profundidade os diversos temas.

Patrícia Moraes Machado – Em toda campanha, a discussão da segurança recrudesce, sempre com a questão da falta de efetivo. O tema salarial também vem à tona, envolto a críticas. Há previsão de aumento? Como está a crise em relação ao piso salarial dos policiais?
Quem faz a assertiva em relação a um alegado piso de R$ 1,5 mil para policiais em Goiás ou faz por má-fé ou por desconhecimento. Não há tal piso no Estado. As pessoas tentam distorcer o que foi definido. Eu me recordo de estar sentado à mesa do salão verde do Palácio das Esmeraldas, com o então presidente do Tribunal de Justiça (TJ-GO), desembargador Leobino Valente, com o então procurador-geral de Justiça, Lauro Machado, o então secretário de Segurança Pública, Joaquim Mesquita, o governador Marconi e eu. Discutimos, na força-tarefa da segurança, algumas alternativas para incrementar o efetivo. Na balança entre garantir as conquistas para os diversos segmentos e a saúde do Tesouro estadual, tínhamos dificuldades em avançar na contratação de homens e mulheres para todas as forças policiais com o modelo que tínhamos. O impacto seria muito grande nas contas.

Então, o dr. Leobino e o dr. Lauro sugeriram modelar a questão, para que o Estado tivesse condição para contratar. Veio a criação do cargo de policial de terceira classe, com a remuneração de R$ 1,5 mil na época – hoje já é de R$ 1,8 mil, em função dos aumentos concedidos. Não se pode confundir isso com o salário-base da PM. O militar recebe essa remuneração durante os três primeiros anos, quando está sob estágio supervisionado e no primeiro ano de academia. Depois, entra automaticamente na carreira com salários que já são observados hoje, de mais de R$ 3 mil. Só que nenhum dos que diziam receber R$ 1,5 mil recebe menos de R$ 2,9 mil, porquanto têm todo um conjunto de situações que impactam em seus vencimentos. Foi uma política salarial feita para que tivéssemos condições de ampliar o efetivo. A partir daí, pudemos ganhar quase 6 mil novos profissionais nas forças policiais, quase 2,5 mil só na PM. Estão concluindo a primeira etapa de formação na academia e, a partir de agora, estarão nas ruas; depois, vão ter uma carreira como todos os demais.

Por isso digo que, quando alguém critica esse ponto, ou o faz por má-fé ou por ignorância. Espero que alguns desavisados da oposição venham debater isso conosco, porque farei questão de colocar tudo com muita clareza para a população fazer sua avaliação. Repito: foi uma construção conjunta entre os três Poderes para que pudéssemos criar essa alternativa.

Euler de França Belém – Os incentivos fiscais foram fundamentais para a economia goiana durante muito tempo. Eles ainda são? Como será de agora em diante?
Precisamos nos preparar para um cenário que não tenha o modelo atual, até mesmo porque, ao convalidar os incentivos, o Congresso também estabeleceu prazos de vigência para as diversas políticas do setor. Hoje Goiás é um pouco menos dependente dos incentivos em relação ao que éramos há 20 anos. Ainda é um importante instrumento de atração, mas temos uma economia muito mais sólida e saltamos de um PIB de pouco menos de R$ 20 bilhões para quase R$ 200 bilhões em menos de 20 anos, o que é extraordinário. Isso se deu, em muito, pela política de incentivos fiscais. Agora é hora de prepararmos as novas formas de atração de empresas. E para isso vale toda a série de elementos de que falei na questão anterior, que nos darão uma condição de competitividade diferenciada em relação aos demais Estados.

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“Quero discutir ideias para o Estado em alto nível”

Marcelo Mariano – O governador Marconi Perillo tem feito um trabalho muito bom para promover Goiás internacionalmente. Qual é a importância da parceria com outros países – como Israel, um grande polo de startups – para fomentar isso em nosso Estado?
Parece-me uma agenda fundamental. Temos hoje relação com mais de 160 países mundo afora. Nossa balança comercial é superavitária há quase 30 meses consecutivos e isso dado à capacidade de articulação do governador Marconi. Talvez isso tenha sido um diferencial importante de sua ação e visão, com o que compartilho integralmente. Eu mesmo já liderei várias missões internacionais, algumas de natureza comercial e outras institucionais.

Eu me recordo de duas missões particularmente importantes. A primeira foi para Nova Zelândia, Austrália e China, a partir da qual estabelecemos uma parceria para a universidade, em relação à produção de lácteos e carne de natureza caprina. A Fonterra, empresa neozelandesa, acabou por adquirir unidades em Goiás que hoje são referenciais. Temos uma fazenda produtora de leite no município de Mambaí, no Nordeste Goiano, que tem a maior produção mundial de leite por hectare. Em outra missão, na Rússia, conseguimos viabilizar um conjunto de ações para a Saneago e ampliamos nosso mercado de carne em diversos pontos do mundo.

Augusto Diniz – No auge da crise dos municípios, o programa Goiás na Frente causou uma surpresa positiva na sociedade goiana. Fazendo um balanço do andamento, o que foi efetivado e o que está atrasado em relação ao previsto?
Até dia 6 de abril próximo, vamos entregar aproximadamente R$ 4 bilhões em obras do programa Goiás na Frente, isso contando apenas a partir de janeiro. Em Santa Helena, estivemos para inaugurar a subestação local, que vai salvaguardar a estabilidade energética para toda a região Sudoeste. É um investimento privado, da Enel, mas que já constava do portfólio do Goiás na Frente, que prevê R$ 9 bilhões de investimento.

Estamos entregando 50 escolas padrão século 21; entregamos o presídio de Anápolis e, agora, o de Formosa; quilômetros e quilômetros de rodovias inauguradas por todo o Estado, mudando a paisagem logística de Goiás e garantindo um novo salto de desenvolvimento. Até o fim do ano, espero ter completado basicamente todos os investimentos públicos que estavam previstos. No caso específico da parcela destinada aos municípios, são R$ 500 milhões e já repassamos recursos a 144 prefeituras. Estamos com 101 municípios com processo já adiantado. Apenas um município do Estado não pleiteou recursos do programa, que foi Catalão [administrado por Adib Elias (MDB), oposição ao governo]. Creio que teremos cumprido grande parte do que foi lançado em 2017. Aliás, é importante destacar que, quando nós o lançamos, poucos acreditavam na dimensão que o programa tomaria. Tivemos o cuidado, tanto o governador Marconi como eu, de apresentar obra por obra do que seria feito, bem como a fonte do recurso. Se você voltar às páginas do Jornal Opção de janeiro ou fevereiro do ano passado, certamente vai observar cada uma das fontes de financiamento para execução.

Euler de França Belém – Por que em Formosa o prefeito Ernesto Roller (MDB) reclama que o dinheiro não chega?
Se ele apresentar os documentos e o projeto, conforme o requerido, a verba chegará conforme o estabelecido – como chegou a todos os municípios de todas as siglas partidárias. Como eu disse, 144 municípios já receberam obras. Já inauguramos obras em prefeituras geridas por diversos partidos políticos. Esse discurso cai por terra, não se sustenta, mas tem sempre um tempo de maturação para que o recurso chegue, é preciso respeitar todas as etapas.

Patrícia Moraes Machado – A Enel assumiu a Celg e até o momento não supriu a expectativa de melhorar o serviço de energia no Estado. Foi a melhor alternativa?
Foi o caminho possível dentro da realidade em que a Celg se encontrava em janeiro de 2011. Fizemos uma readequação econômica da empresa naquele exercício – basta pegar o balanço do ano para ver o nível de recuperação. Naquele momento, priorizamos o pagamento de encargos da empresa e a retomada de investimentos. Todavia, iniciamos o processo de federalização – que não foi o clássico, mas um primeiro modelo, que depois foi replicado no Amapá – e depois veio a privatização. Penso que, no passar de alguns anos, o resultado para o cidadão e para a economia de Goiás será altamente benéfico. É preciso ter um prazo de maturação. A Enel investiu, ao longo do ano em que assumiu a Celg, R$ 800 milhões do total de R$ 2 bilhões que terá de aportar nos próximos anos. Os investimentos certamente terão impacto nos resultados dos serviços ofertados pela Enel.

Euler de França Belém – O sr. é pré-candidato a governador e seu grupo terá 20 anos de poder ao fim deste mandato. Isso depois de terem tirado outro grupo, que estava no poder havia 16 anos. O sr. não teme que a chamada “fadiga de material” possa fazer sua postulação ser derrotada?
Em hipótese nenhuma. Vamos para um debate conceitual: quais os avanços por que Goiás passou, quais as conquistas. Mas esse debate terá um limite, muito pequeno, até porque penso que o cidadão tem a referência do passado, porque é fundamental, mas as pessoas votam pensando no futuro. Quero estabelecer um diálogo com a sociedade de modo a mostrar o que penso para o amanhã, qual o Estado que eu quero para 2019, para 2022, para 2030 ou 2040, quais os nossos caminhos de desenvolvimento.

Nossos dois principais opositores tiveram oportunidades: um deles [senador Ronaldo Caiado, do DEM] está na política há mais de 30 anos, é de uma família oligárquica de Goiás, que na primeira metade do século passado dominou a política do Estado; quais serão suas ações e propostas? Não sei, mas o debate vai apresentar isso de forma muito clara. O outro pré-candidato [deputado federal Daniel Vilela, do MDB] representa um grupo que esteve no poder durante 16 anos e a população resolveu trocar aquele modelo de desenvolvimento. A partir de então, a economia observou um salto em Goiás. Será que as pessoas querem retroceder, olhar no que está no retrovisor e voltar para as políticas do passado, seja da primeira metade do século passado ou para aqueles 16 anos a que se fez referência? Ou quer consolidar as conquistas, modernizar e avançar ainda mais? Eu me proponho a fazer esse debate olhando para a frente.

Euler de França Belém – As pesquisas de intenção de voto, no momento, mostram o sr. em 3º lugar…
Há pesquisa para todo gosto. Tem pesquisa em que temos 6% e outras com 20%. Da mesma forma, o candidato que está na frente tem 40% em algumas e 28% em outras.

Euler de França Belém – Mas o que essas pesquisas captam, em sua opinião?
As pesquisas mostram apenas o retrato do momento. Cada pesquisa tem valor de acordo com a metodologia utilizada, de acordo com a área de abrangência. E parto do princípio de que todas sejam feitas de boa-fé. Essa “fotografia” do momento, mesmo porque – e o Jornal Opção publicou um Editorial recente sobre isso – não tem havido nenhuma relação dessa fotografia com o resultado das eleições.

Patrícia Moraes Machado – Um marqueteiro relatou que, em pesquisas qualitativas, está se demonstrando que a população quer novamente alguém com o perfil o Marconi Perillo de 1998. Como o sr. avalia isso?
É impressionante como isso vem realmente de maneira muito forte. Eu avalio isso como uma forma de reconhecimento do trabalho do governador. É um elogio monumental que a sociedade faz a ele. As pesquisas quali mostram que, mesmo os que são divergentes ou têm qualquer resistência ao governador, reconhecem os avanços de seus governos. É algo uniforme em todas as pesquisas. Isso me dá a compreensão de que o discurso da modernidade e do avanço é o que as pessoas esperam. Elas querem essa atitude e esse comprometimento. É nisso que quero inserir a discussão, em alto nível, debatendo os grandes temas para Goiás. Quero discutir ideias.

O destinatário das ações do governo – seja um morador de Goiânia, Catalão, Anhanguera ou Rio Verde – quer entender a visão dos que querem governar o Estado em relação ao processo de desenvolvimento. Será que está tudo errado? Será que quem quer entrar quer também trocar tudo? Ou vão querer consolidar as conquistas? Vão manter o Renda Cidadã, o Bolsa Universitária, vão alterar esses programas? Será que vão manter a política de saúde ou vão mudá-la? Outro dia eu vi um dos candidatos tendo a coragem de propor a construção de hospitais pré-moldados ou algo assim. Pensei, será que em pleno século 21 querem construir hospital de placa em Goiás? De qualquer forma, pelo menos externou sua posição. Esse debate é que vai desnudar os candidatos diante da opinião pública.

Marcelo Mariano – Quem o sr. preferiria enfrentar em um segundo turno, Caiado ou Daniel?
Vou repetir uma expressão do futebol: quem quer ser campeão não escolhe adversário.

Patrícia Moraes Machado – O sr. foi escolhido como vice-governador na chapa vencedora em 2010 como aliado de Ronaldo Caiado, que o indicou. O hoje senador ficou 16 anos nesse grupo, mas desde 2014 vem acirrando as críticas. Por que isso aconteceu?
Primeiramente, é preciso ressaltar que em 2010 o que houve foi uma construção partidária. Naquele momento, quando acabou a eleição, o DEM em Goiás tinha o vice-governador eleito, um senador da República reeleito [Demóstenes Torres], três deputados federais eleitos [Ronaldo Caiado, Vilmar Rocha e Heuler Cruvinel] e dois deputados estaduais eleitos [Helio de Sousa e Nilo Resende]. O que sobrou do DEM, hoje?

Patrícia Moraes Machado – Apenas ele [Caiado].
Será que os outros estão todos errados? Ter coerência é muito importante. Eu não fico flutuando de um lado para outro, tenho compromisso com ideias, com aquilo em que acredito. Não posso um dia falar mal de alguém, amanhã falar bem e depois de amanhã falo mal de novo. Não consigo compreender isso. Há poucos dias, li uma declaração do senador em relação a José Nelto [MDB, deputado estadual], em que o tachava de “desqualificado”, “mentiroso”, “caluniador”. Na terça-feira, porém, estavam de braços dados como se não houvesse nada. São conveniências que me deixam a pensar: será que vale tudo pelo poder? Eu nunca vou atacar o senador Caiado em sua pessoa, porque sei que tem virtudes também. Ele pode não ter a capacidade de compreensão do mundo como nós compreendemos, às vezes pode ter uma visão muito radical, sectária. Ele pretende que sua verdade seja absoluta, enquanto eu prefiro tê-la construída no debate. Vou governar para o grande pecuarista, mas também quero governar para o lavrador também; da mesma forma, quero dialogar com o empresário e com o trabalhador; tenho de ser capaz de dialogar com o MST [Movimento dos Trabalhadores Sem Terra], de sentar à mesa com os movimentos sociais, preciso construir uma agenda com os professores, com a academia. É preciso governar para todos, com olhar amplo, de Estado.

Patrícia Moraes Machado – Por que Caiado saiu da base?
Essa resposta só ele pode lhe dar.

Euler de França Belém – E sobre o deputado federal Daniel Vilela, que deverá ser o candidato do MDB ao governo de Goiás, o que o sr. pensa exatamente dele?
Daniel é um político jovem, que tem buscado sua qualificação por meio do conhecimento e tem tido uma atuação interessante em Brasília. Tenho muito respeito por ele e espero que possa participar do processo eleitoral dentro de um debate altamente qualificado e por meio do qual o cidadão possa ter acesso a boas teses e boas ideias.

Augusto Diniz – Sua pré-candidatura já está consolidada totalmente dentro da base governista ou ainda há questionamentos?
Uma candidatura não nasce de si mesma. Qualquer postulação que se arvora dessa forma não tem como ser bem-sucedida. Porém, se você voltar ao momento logo após as eleições municipais de 2016, verá que a primeira declaração do governador Marconi foi justamente esta: “José Eliton será nosso candidato a governador”. Fui conversar com ele depois para compreender essa posição e ele me disse que era preciso começar a pavimentar essa discussão. Então, me disse que eu estava preparado para governar o Estado e, então, disse a ele que iria me reservar o direito de avaliar a questão. Eu estava na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico (SED) e logo depois saí para a Segurança Pública, na qual fiquei muito focado. Logo depois, o PSDB também manifestou publicamente a mesma posição do governador. O mesmo fizeram também alguns partidos, em um terceiro momento. Em meados do ano passado, então, fui ao governador e comunique que começaria a trabalhar para consolidar aquela posição.

Dentro do cenário atual, estou iniciando o trabalho assimilando a indicação dos partidos. Alguns já fizeram isso formalmente e outros já estão encaminhando a decisão, já acertados. Deveremos ter uma aliança partidária extremamente significativa, talvez a maior que a base teve desde 1999. Tudo isso construído com muito diálogo e respeitando todas as posições.

Augusto Diniz – Como está sua relação com o presidente da Assem­bleia, deputado José Vitti (PSDB)? Há alguma aresta a aparar ainda?
Tive a oportunidade de ouvir o presidente Vitti. Conversamos bastante e colocamos nossas visões. Tenho certeza de que ele faz tudo para contribuir com nosso projeto. Da mesma forma, estamos dialogando com todos os grupos. Evidentemente, temos algumas dificuldades na composição – se tivéssemos dez vagas na chapa majoritária, estaríamos tranquilos em pré-campanha. Mas construir uma chapa ocorre sempre dessa forma, com vagas limitadas. Estou tendo muito cuidado para conversar com todos que estão na base e outros que não estavam e estão chegando, como o Solidariedade (SD) e o PCdoB. Nunca serei um elemento de imposição de quem quer que seja.

Euler de França Belém – Dois partidos grandes, o PP e o PSD, ainda não estão fechados com a base. O PP ameaça apoiar Daniel Vilela, bem como o presidente do PSD, Vilmar Rocha, também mostra que pode fazer esse caminho. Vão fazer falta se saírem da base?
Eu espero não os perder. Vou trabalhar muito, até o momento final, para que o PSD esteja conosco, bem como o PP. Respeito muito todos os partidos e suas lideranças. Sei que o senador Wilder Morais (PP) almeja ser candidato à reeleição e é um desejo lícito, legítimo, que ele possui. É preciso ter maturidade para compreender esse processo, mesmo porque no PP – e eu conheço o partido, porque o presidi – há uma ampla identificação com a base governista. Cabe ao PP resolver seus problemas. Cabe a mim manter o diálogo e deixar as portas abertas.
Com o PSD, da mesma forma, os prefeitos sempre manifestaram claramente sua ligação com a base do governo. Os deputados do partido têm suas declarações de apoio à base constantemente veiculadas, tanto de Thiago [Peixoto, deputado federal] como de Heuler [Cruvinel, também federal] e Francisco Júnior [deputado estadual]. Respeito as posições individuais de Vilmar Rocha e não cabe a mim fazer juízo de valor a respeito disso.

Euler de França Belém – Qual é o mo­tivo do contencioso entre vocês dois?
Não tenho contencioso algum com Vilmar. Respondo por mim, por meu sentimento, não posso fazer avaliação da parte de outra pessoa. O que posso fazer é o que sempre faço: toda vez que tive oportunidade, sentei e conversei. Não me cansarei de fazer isso, se preciso for, mais uma, duas ou dez vezes para discutir o projeto. Entretanto, é preciso que esse projeto tenha correspondência de pensamento, de sentimento. Sei respeitar esse particular.

Patrícia Moraes Machado – Como o sr. avalia a declaração de Ciro Nogueira [presidente nacional do PP], segundo a qual o grupo do governador Marconi e do sr. não teria cumprido os compromissos acertados com o partido?
Ciro Nogueira é um homem que eu respeito muito, por quem tenho um carinho profundo, e ele sabe disso. Sei das angústias por que ele deve estar passando para solucionar esse problema, pois precisa defender os interesses partidários. Por isso, compreendo suas afirmativas, ainda que possa haver uma ou outra imprecisão.

Euler de França Belém – Então a chapa para senador está definida, será mesmo com Marconi Perillo e Lúcia Vânia (PSB)?
Lúcia Vânia tem um histórico no Estado, primeiramente por sua folha de serviços. É uma parlamentar que sempre pautou suas ações em defesa dos interesses de Goiás e, por isso, tem todas as credenciais para ser nossa candidata. Da mesma forma, Marconi tem todas as credenciais para ser candidato ao senado, à vice-presidência ou à Presidência da República, só não pode ser candidato a governador ou a vice-governador, porque a lei não permite. O desafio na base é construir a convergência, o consenso. Vou trabalhar até o último momento para ter os partidos na base representados pelo projeto.

Marcelo Mariano – Quais os pré-requisitos que o candidato a vice-governador deva ter? Ele deverá vir de uma região específica, como o Entorno do DF ou do Sudoeste goiano?

Euler de França Belém – Em relação à vice, há vários nomes cogitados: Hildo do Candango (PTB), representante do Entorno do DF; Raquel Teixeira (PSDB), representante da Educação; Thiago Peixoto, que é de Goiânia e um deputado qualificado; Heuler Cruvinel (PSD), do Sudoeste do Estado. Como o sr. vê esses nomes?
A resposta é basicamente a mesma em relação ao Senado. É uma construção que parte de uma análise de cenário, de quadros relativos a pesquisas qualitativas e quantitativas. É preciso analisar composição partidária, que é uma variável importante. O critério regional também deve ser levado em consideração, mas talvez hoje a discussão maior seja centrada na representatividade dos diversos partidos que compõem nossa base. Precisamos construir essa chapa com todas as vagas distribuídas de modo a abrigar todas as siglas, mesmo porque temos um cenário bem diferente em relação aos dois pré-candidatos da oposição: temos quadros muito bons. Eu poderia citar com tranquilidade pelo menos dez nomes que seriam excepcionais candidatos a vice-governador; mais dez ou vinte nomes que poderiam concorrer às vagas para o Senado ou suas suplências. Enquanto isso, a oposição busca no laço elementos para compor sua chapa majoritária. Reconhecemos as credenciais de cada um dos aliados envolvidos no processo, primeiramente; e, em segundo lugar, temos capacidade para dialogar.

Da mesma forma, o deputado Jovair [Arantes, do PTB] ficou responsável por já estabelecer o diálogo para a construção da chapa proporcional para a Câmara. Vamos trabalhar para eleger 13 ou 14 deputados federais. Só isso já sinaliza claramente o potencial da base para as eleições de 2018.

Patrícia Moraes Machado – Todos sabem de sua qualificação e capacidade. Mas há um fantasma: o estigma de Alcides Rodrigues [vice-governador de Marconi entre 1999 e 2006 e depois governador eleito pela base entre 2006 e 2010]. Quais são as diferenças básicas entre o sr. e o ex-governador?

Augusto Diniz – Há algum tempo de que o sr. possa ser o próximo Alcides, rompendo com Marconi depois?
Toda pessoa escreve sua própria história, por suas letras e suas convicções. Essa comparação não é pertinente, mesmo porque o ex-governador Alcides teve sua trajetória, a qual respeito. Não faço críticas à pessoa dele e penso que, como político, tomou suas decisões conforme considerou corretas. Eu haverei de tomar as minhas, não delegarei o governo a ninguém. É muito difícil conseguir construir a alternativa de se tornar governador de um Estado, buscando acertar, com uma agenda importante para a sociedade, e, dentro desse contexto, delegar tudo isso para outrem. Isso, sim, eu considero desrespeitoso com a população. Vou ter meus acertos e eventualmente me equivocar, mas sempre dentro do que eu achar que seja pertinente. Minhas cartas e meus artigos sempre foram escritos por mim, nunca por um “ghost-writer”.

Euler de França Belém – Qual será sua política para o Cerrado? E o que o sr. pensa em termos de manejo das águas?
Vou começar respondendo do micro para chegar ao macro. Recentemente tivemos um estudo profundo sobre a Bacia do Meia Ponte, para avaliar os riscos eventuais em relação ao abastecimento de água da região metropolitana de Goiânia. Ao discutir isso no âmbito da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos (Secima), chegamos à conclusão de que seria necessário antecipar ações para garantir o ambiente adequado para que, mesmo em um cenário de crise hídrica – que é o que se apresenta para este ano –, possamos evitar o desabastecimento na capital e municípios vizinhos. Compartilhei esses estudos com o governador Marconi e achamos por bem antecipar medidas, editando um decreto de segurança hídrica, como parte de uma agenda fundada em estudos técnicos e científicos.

Dentro do decreto há medidas como a mitigação de outorgas para estação de água para irrigação em determinadas regiões da bacia. Mais do que isso, estamos discutindo internamente – como sugestão do deputado Roberto Balestra (PP) – uma forma de fomentar novas tecnologias de irrigação que gerem menor impacto, como o gotejamento, por exemplo. Esses elementos demonstram a preocupação com o abastecimento, claramente, mas também com a preservação dos mananciais.

O Cerrado tem talvez a maior biodiversidade de fauna e flora do País. Mas é preciso ter uma racionalidade nessa preservação. Fico preocupado quando começamos a ter um discurso muito radical acerca de alguns temas. A ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é um exemplo: qual o critério que foi utilizado? Recentemente tivemos um grande incêndio na região, para o qual foi mobilizada a atenção do País inteiro, com manifestação de artistas mundo afora em relação àquela reserva. O parque teve sua área praticamente triplicada, mas a União não atua para o proteger efetivamente em suas demandas, como com o turismo sustentável – que seria a saída para o desenvolvimento dos municípios abrangidos, caso contrário sofreriam um processo de atraso histórico.

Outro elemento importante são os mananciais do Estado. Eu poderia citar o Rio Paranã [no Nordeste goiano], como o Araguaia, o Verdão [no Sudoeste goiano] e outros tantos. Alguns abastecem cidades outros são cartões postais. Em meio a isso, coloca-se uma situação muito passional. Eu me recordo do canal construído com o desvio das águas do Araguaia e cujas imagens rodaram o Brasil inteiro. É algo que impressiona, mas tecnicamente qual é impacto que haveria sobre o Rio Araguaia? É um rio que é considerado patrimônio dos goianos, o que condiciona uma atitude refrataria a qualquer intervenção no curso. Porém, é preciso ter capacidade de compreender que o manancial se situa em uma região fértil, com um potencial econômico monumental e que pode produzir alimentos de forma grandiosa. O que é preciso é ter condição técnica para explorar a biodiversidade, as águas, sem comprometer um rio tão importante para Goiás. Ou seja, é preciso ter uma política de preservação ambiental clara, mas com a visão de que é preciso garantir o desenvolvimento econômico de todas as regiões. Essa equação é difícil, mas é preciso ter coragem para debater caso a caso.

Euler de França Belém – O senador Ronaldo Caiado tem insistido em dizer que seu grupo está deixando o Estado superendividado. Como é a história desse endividamento? Quantos empréstimos Goiás fez e qual sua capacidade real de endividamento?
Nessa matéria, o senador Caiado deveria estudar mais antes de se pronunciar de maneira tão equivocada. Basta tomar um indicador, no que diz respeito à relação dívida/receita, para observar o equívoco. Mas não sei se é mesmo um equívoco ou apenas má-fé, ao tentar transformar algo tão objetivo em um debate eleitoral.

O primeiro dado palpável é que o governo nunca atrasou suas obrigações com relação à folha de pagamento. Como esse Estado pode estar quebrado? Sobre a relação dívida/receita, em 1999, quando Marconi assumiu, nós precisávamos de 3,4 anos de arrecadação para pagar a dívida do Estado. Quase 20 anos depois, precisamos de 0,98 – ou seja, menos de um ano de arrecadação – para pagar toda a dívida. Onde ele enxerga que o Estado está quebrado? São números que estão disponíveis no Tesouro nacional, no balanço do Estado, qualquer um pode ter acesso. Ou seja, é um argumento apenas para jogar para a plateia.

Por decisão própria, temos um orçamento muito enxuto para este ano, porque o custeio do Estado é uma realidade e o governador Marconi pagou, em seus dois primeiros mandatos, quase R$ 40 bilhões em dívidas feitas por governos anteriores. Temos ainda um saldo fiscal de aproximadamente R$ 640 milhões para tomada de empréstimo, conforme o plano de ajuste fiscal celebrado entre a União e o governo de Goiás. Esses dados, por si só, já destroem esse argumento falacioso. Por isso, entrevistas como esta, com essa dimensão, são importantes, para que o cidadão possa fazer sua avaliação acerca do comportamento de cada um, se é para construir algo ou apenas para criar factoides.

Euler de França Belém – O deputado José Nelto está fazendo uma lista de obras inconclusas do governo de Goiás, como o Centro de Convenções de Anápolis, bem como o aeroporto de cargas e os hospitais regionais de Uruaçu e Santo Antônio do Descoberto. Como o sr. responde a esses questionamentos?
O deputado está convidado, então, para dia 6 estar em Anápolis para a inauguração do Centro de Convenções. Sobre o aeroporto de cargas, pesa uma liminar a respeito de impacto ambiental das obras. Já em relação ao hospital de Uruaçu, vamos inaugurar nos próximos meses; sobre a unidade de Santo Antônio do Descoberto, era uma unidade municipal que depois foi federalizada, com obras paradas durante muito tempo. No fim do ano passado, o governador Marconi assumiu a obra e teve todo um trâmite burocrático de transferência do hospital. Agora, retomamos a construção. Ou seja, o Estado assumiu algo que não era dele.

 

“Vamos ter um foco muito forte na pacificação do transporte público”

A secretária Vilma Barbosa questiona o vice-governador sobre seu plano de gestão

Vilma Barbosa é secretária do Jornal Opção e há 20 anos trabalha em Goiânia morando em Goianira. Uma reclamação constante que fez é em relação a assaltos nos terminais de transporte, o que, segundo ela mesma, melhorou nos últimos tempos, com a nova política de segurança pública. Durante a entrevista de José Eliton à equipe do jornal, ela teve a oportunidade de questionar o vice-governador sobre essa e outras questões.

Para chegar ao trabalho, por muito tempo eu tive de tomar três ônibus. Quando chegava ao Eixão [Terminal Padre Pelágio], as pessoas muitas vezes saíam correndo pela plataforma e eram frequentes os arrastões. Já assisti gente tendo aparelho celular sendo tomado, já vi gente apanhando de outra pessoa do meu lado. Agora, temos policiamento nos pontos de ônibus e a situação tem melhorado um pouco, mas é preciso melhorar mais. Qual é sua proposta para que isso possa assim ocorrer?
Muito interessante o que a sra. me diz. Moro em um prédio e, outro dia, estava descendo e uma sra. que trabalha lá e ela me disse “olha, dê uma melhorada boa nessa questão dos terminais, temos sempre problemas em relação a isso”. Nesse sentido, o dr. Irapuan está correto ao implantar essa política nos terminais. É uma política que agora vamos estabilizar, mas que, por problemas de efetivo, não tínhamos como ampliar. Com 2,5 mil homens que agora estarão entrando em serviço, após sua formação na academia, a SSP ganha condições de estabelecer um policiamento específico para o transporte público, que é uma preocupação muito grande para o governo. Se por um lado conseguimos diminuir crimes como homicídio, furto ou roubo de veículos e o novo cangaço – típicos de organizações criminosas –, por outro, estamos melhorando a atenção ao crime que influi mais na sensação de segurança – que é exatamente esse de furtos e roubos nos terminais ou nas residências.

E especificamente sobre o transporte coletivo, o que o sr. tem a dizer?
Dentro do Plano de Segurança que estamos ultimando devemos ter um foco muito forte na pacificação do transporte público. Será uma agenda permanente nos terminais, com forças policiais para dar aos usuários do sistema a tranquilidade necessária. Eventualmente isso poderá incomodar alguns, até porque, para efetuar o trabalho de segurança, a polícia precisa ter espaços abertos e campo de visão claro. Teremos também agentes policiais transitando à paisana nos diversos veículos de transporte, dentro do trabalho de inteligência que queremos desenvolver. Então, quero voltar aqui e encontrar a sra., para perguntar se melhorou a situação e se aumentou a sensação de segurança.

Outra questão é sobre a segurança para o deslocamento para a escola e mesmo na própria unidade. Eu tenho um filho de 17 anos que vai para a escola à noite e eu não consigo dormir enquanto ele não chega em casa. Como devolver essa tranquilidade para as mães?
Criamos a unidade do Batalhão Escolar e a aperfeiçoamos, fazendo um trabalho conjugado à Secretaria do Estado da Educação (Seduce) na rede estadual. Os resultados são fantásticos nessa área. Mas a mãe fica em casa sem dormir porque, em sua cabeça, não tem certeza do que está acontecendo com o filho dela. Mas basta pegar estatisticamente os resultados para observar os avanços significativos.

A saúde pública está precária, estamos sofrendo muito e precisando de alguém com pulso firme para resolver o problema.
É impressionante a confusão que as pessoas têm em relação à saúde – sobre o que é competência do governo do Estado ou do município. As unidades de saúde sob a responsabilidade do Estado são os grandes hospitais, com medicina de média e alta complexidade – Hugol, Crer, Hugo, HGG. Já a responsabilidade do município recai sobre a saúde básica, nos postos de saúde, Cais e UBSs. O que temos hoje, então? Dos usuários dos hospitais estaduais, 93% de média de satisfação com o atendimento – e posso falar isso com muita tranquilidade, porque, quando sofri um atentado [em outubro de 2016, no fim da campanha para as eleições municipais, durante carreata em que foi atingido por um tiro, em Itumbiara; o atirador acabou morto, mas matou o então candidato a prefeito Zé Gomes], fui atendido no Hugol, um hospital público com uma qualidade de atendimento excepcional.
Da mesma forma, alguém que for atendido no Crer, vai perceber o nível altíssimo de atendimento – não é coincidência que a acreditação da unidade é a máxima no índice da ONA [Organização Nacional de Acreditação]. Dos 12 hospitais públicos acreditados no Brasil, 5 são em Goiás.

Ocorre que o cidadão que se dirige ao Cais, muitas vezes não recebe o primeiro atendimento, muito menos a consulta ou a cirurgia – lembrando que, pelo SUS, toda a regulação é competência do município. Não tem médico para atendê-lo. A pessoa fica revoltada e diz que a saúde está um caos. Só que não sabe diferenciar o que é unidade do Estado e o que é do município.

Estamos ultimando os acertos, primeiramente na parte jurídica e burocrática. Já temos recursos, estabelecidos por orçamento como prioridade, para ampliar ações que, apesar de não ser responsabilidade do Estado, impactam a vida do cidadão: cirurgias eletivas. Vamos avocar para nós algumas situações e utilizar a rede estadual já existente para tentar reduzir a fila de procedimentos eletivos em Goiás. Vamos iniciar esse processo muito em breve, assim que as condições estruturais estiverem prontas, espero que até meados de abril.

Outra ação é de impacto muito importante na vida do cidadão e que tem um custo razoavelmente alto, mas que resolvemos bancar: é a criação do chamado “terceiro turno” de atendimento. Se alguém estiver trabalhando em horário comercial e sentir alguma dor, provavelmente vai ter dificuldade para sair e se dirigir ao consultório. Estamos estabelecendo, então, que na rede estadual – excetuando-se os hospitais de urgência –, as pessoas poderão ir depois das 18 horas para fazer sua consulta, ser atendido e ser submetido a exames, se for o caso. Isso vai dar ao trabalho a condição de fazer sua consulta e vai desafogar o fluxo durante o dia nos diversos locais de atendimento. Nenhuma das situações é de competência do Estado, mas queremos avançar para melhorar a saúde do goiano.

Foi possível tornar o Estado de Goiás um “case” de sucesso na área, no que diz respeito à medicina de média e alta complexidade, tanto é que praticamente todos os secretários estaduais de Saúde para conhecer nosso modelo. Portanto, nosso principal objetivo é manter as conquistas e aprofundar em outras.

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Júnior salles

Será que sou somente eu que sinto um nojo e um asco imenso quando vejo a cara desses políticos de Goiás? Da vontade de vomitar quando sai aquele programa eleitoreiro do governo de Goiás no rádio, dinheiro nosso para promover um governo sujo e corrupto que afundou a saúde a segurança a educação o emprego em Goiás.
Essa. É a chance de banir esses porcos da política de Goiás.