“Uma nova subida dos casos de Covid agora seria trágico”

Secretário Estadual de Saúde avalia que Goiás terá uma terceira onda da Covid, mas espera que o avanço da vacina faça com que ela seja mais “branda”

Embora a ocupação de leitos de Covid em Goiás esteja estabilizada e com tendência de queda, as autoridades sanitárias do Estado estão em alerta para uma nova alta no índice de transmissão do vírus. O secretário de Estadual de Saúde, Ismael Alexandrino, é taxativo ao dizer que os casos da doença vão aumentar no estado. Para essa afirmativa, ele leva em conta o ciclo natural do Coronavírus. Em contraponto, ele tem a expectativa de que se possa avançar o máximo com a vacinação para que não haja grande lotação dos leitos de hospitais.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Ismael Alexandrino salientou que a falta de regularidade na chegada de novas doses no estado ainda é um entrave para o planejamento e organização da vacinação. Mesmo assim, diante dos obstáculos, ele ainda avalia como positiva a marca que o estado alcançou em relação à vacinação – são mais de um milhão de goianos que já receberam a primeira dose. 

Como avalia o avanço da vacinação em nosso estado?
A vacinação, como um todo, gostaríamos que estivesse mais rápida. Mas sabedor das limitações que têm a chegada de vacinas no Brasil, a vacinação aqui no Estado tem avançado a contento. Nós temos mais de um milhão de pessoas vacinadas em primeira dose e mais ou menos 550 mil de segunda dose.

Só que infelizmente a gente tem tido grande dificuldade em planejar e fazer um cronograma. Não tem havido regularidade do Ministério da Saúde em relação a entregas (das doses). Naturalmente a gente sabe que essa falta de regularidade tem a ver com a forma com que o Ministério da Saúde recebe as doses adquiridas. Também não temos nem previsão de chegadas das vacinas. As previsões que estamos recebendo, ou os avisos de entregas, têm sido muito próximos da entrega. Por vezes chega a informação 12 horas antes da entrega chegar aqui em Goiânia. Isso dificulta demais a nossa logística e organização. 

Apesar disso, com uma equipe plenamente engajada e com os municípios com muita vontade de colaborar – já que é eles quem aplicam,  a gente faz a logística – conseguimos avançar. Os grupos considerados mais delicados já foram todos vacinados. Estamos agora em um grupo bastante importante que é o das comorbidades. É um grupo grande com 616 mil pessoas, que quando a gente tiver todos vacinados teremos um pouco mais de tranquilidade. 

A gente já percebe claramente o efeito positivo da vacina, sobretudo nos idosos em relação à taxa de internação. O mesmo ocorre com os profissionais de saúde, que tivemos redução no número de doentes. 

O senhor já tem algum dado que confirma a redução de mortes e internações de pessoas que compõem grupos prioritários e que já foram vacinadas?
A vacinação reflete claramente na redução de doentes e infectados. As pessoas acima de 60 anos de idade eram a grande maioria nas UTIs. Chegou a representar 80% dos pacientes internados em nossos leitos. Hoje esse contingente está abaixo de 40%, em média. Enquanto aos trabalhadores da saúde, a gente percebe que houve redução de 65%. É um número muito significativo. 

“A gente já percebe claramente o efeito positivo da vacina, sobretudo nos idosos em relação à taxa de internação”

Independente da marca da vacina, se é CoronaVac, Astrazeneca ou Pfizer, tem tido um resultado de forma satisfatória em relação à proteção das pessoas. Precisamos ampliar cada vez mais essa vacinação. 

Goiás está entre os dez estados que mais vacinaram. É por conta da pressão que foi feita nos municípios para informarem a aplicação das doses no sistema do Ministério da Saúde?
Goiás está entre os dez estados que mais vacinam e que mais registram as doses aplicadas. Provavelmente a gente tenha um desempenho até melhor. Na verdade, em relação à vacinação, temos a percepção – e claro isso é subjetivo – que sempre se vacinou em um ritmo interessante, porque a distribuição nossa tem sido a mais rápida dos estados. Em 24 horas temos vacinas distribuídas em todos os  rincões goianos. Só que essa questão de registro, que é de fato onde se visualiza que as pessoas receberam a dose, elas estavam deixando a desejar em alguns momentos. 

Neste atual momento é algo que melhorou. Poderia ser até melhor. Isso porque há um pequeno delay. Percebemos que cidades com menor desempenho ainda possuem de 4 a 5% de registros com delay. Por vezes tem cidades que fazem a vacina em um dia e só vão registrar no dia seguinte. Realmente isso é algo que precisou de um grande esforço.

O governador Ronaldo Caiado (DEM) fez um pedido pessoal aos prefeitos para dar prioridade a esses registros. Algumas cidades nós ajudamos, pois estavam com dificuldades no sistema. Estamos procurando corrigir eventuais dificuldades para gente ter um retrato real e assertivo do avanço da vacinação. 

O que considera ser hoje o maior obstáculo no combate a Covid?
Gostaria de apontar dois obstáculos, pois acho que contempla mais o cenário. O primeiro dos obstáculos é a cobertura vacinal ainda baixa. Não vou entrar no mérito político, mas o Brasil realmente demorou um pouco para começar a vacinar. Somos o quinto país com maior número absoluto de vacinados, mas também nossa população é gigantesca. Números absolutos é importante de se observar, mas é preciso analisar também os dados relativos. 

O segundo obstáculo ainda é o comportamento da população que banaliza a doença. Acho que não temos que criar pânico de forma alguma. Inclusive sempre tive a postura de não criar pânico. Mas não se pode banalizar a doença. A partir do momento que se banaliza e perde o medo todos ficam em desvantagem em relação ao vírus. O vírus não perdoa e não tem idade para ele atacar. Hoje a gente sabe que, principalmente as cepas novas, sobretudo a P1 que é maioria no Estado de Goiás, ela não escolhe o idoso com comorbidade. Ela coloca em risco pessoas de qualquer idade. Então o comportamento da população e a vacina que está aquém do que gostaríamos, certamente são dois fatores dificultadores para o enfrentamento à pandemia. 

A ocupação dos leitos de UTI tem se mantido abaixo de 80%. Se deve também ao avanço da vacina, ou tem mais a ver com as restrições que foram colocadas em prática no Estado?
São alguns fatores. O avanço da vacinação é inegável e sempre contribui positivamente. Aquelas restrições, tiveram reflexos da mesma forma. Mas tem o próprio ciclo do vírus. O vírus e o comportamento de uma pandemia tem sua singularidade. Isso faz com que a gente tema e tenha receio em relação a possíveis e prováveis novas subidas – uma terceira onda. Estamos vendo isso acontecer em alguns estados, como São Paulo, no Paraná e Santa Catarina.

A população precisa ter consciência disso e o que pode acontecer. Repito, não é de forma alguma um alarde ou terrorismo, mas precisamos analisar que a pandemia não finalizou. Se tivermos uma nova subida, estando nós com 78% ou 80% de ocupação de leitos, seria trágico, porque nós não desocupamos os leitos, as pessoas ainda estão internadas e a subida dos casos da doença sempre vem numa velocidade muito grande. 

Goiás está se preparando para a 3º onda? Há alguma ação para estoque de medicamentos para intubação, planejamento de novas UTIs…
Essa questão de estoque de sedativo e de bloqueadores musculares é quase impossível. A gente tem conseguido comprar no varejo. O varejo que eu digo não é o que eu compre na farmácia, eu compro de representantes e de indústrias, mas em quantidade pequenas que é o que as empresas tem disponível. É algo que dá para o consumo de uma semana mais ou menos. Não dá pra ter estoque. Grandes estoques não existem em nenhuma unidade federativa.

Outra grande preocupação nossa desde o ano passado e neste ano também, felizmente não ficamos sem, é a oferta de oxigênio. O consumo aumentou absurdamente. Em algumas unidades chegou a aumentar 500%. Imagina o Hcamp de Goiânia com os  30 pacientes intubados e quase 200 internados e todos eles consumindo oxigênio 24 horas por dia? Imagina o quantitativo desse consumo? De oxigênio a gente fez medidas de manter os estoques.

Outro ponto é que não estamos desmobilizando leitos de UTIs. Temos que deixar bem claro isso. Não fizemos isso da primeira para segunda onda, exceto aquela unidade de Águas Lindas que foi o governo federal. Nós expandimos muito nossos leitos. Saímos de 254 leitos para 943. É uma subida quase quadruplicada. O estado de Goiás nunca vislumbrou algo assim. Nunca viu a criação de tantos leitos de UTIs.

Esse quadro de abertura atual pode ampliar esse risco da terceira onda?
Sem dúvida essa abertura traz um possível risco. A gente entende perfeitamente a abertura. As pessoas trabalham e precisam trabalhar, mas traz consigo o aumento do risco. Não tendo a abertura estaríamos fora do risco da terceira onda? Não. Não estaríamos em razão do próprio ciclo do vírus, mas certamente seria algo mais lento e branda. 

A partir do momento que se banaliza e perde o medo todos ficam em desvantagem em relação ao vírus

O momento é favorável no sentido de que estamos em uma queda sustentada da ocupação de leitos, ainda. Mas fica um alerta para a população que a questão comportamental é preponderante e determinante no desfecho de ter ou não uma terceira onda. Não estamos sendo contrários à retomada das atividades. Entendemos que o momento é de queda sustentada, mas a população precisa estar absolutamente consciente de que os cuidados precisam seguir sendo tomados, já que a subida de casos será inevitável. O tamanho da subida da contaminação não tem como adiantar, mas essa subida será inevitável. Isso é uma certeza tendo em vista que hoje a velocidade de contágio da população está subindo também. Na verdade esse é o único indicador que está subindo. Os outros a gente observa, como o nível de ocupação de UTIs, taxa de leitos disponíveis, não estão subindo. Só que o R (número efetivo de reprodução R determina o potencial de propagação de um vírus dentro de determinadas condições. Se ele é superior a 1, cada paciente transmite a doença a pelo menos mais uma pessoa) subindo, ou seja, a contaminação acontecendo, mais ou mais tarde os outros indicadores vão subir também.

Eu tenho observado que mesmo que algumas pessoas tenham tido a doença, não tem sido tão exacerbada em razão das vacinas. Está muito mais tranquilo neste aspecto. Então qual é nossa expectativa: vai subir sim, mais cedo ou mais tarde, mas talvez essa subida seja que dê para seguir sem nenhum tipo de restrição do ponto de vista de fechamento (econômico), mas de comportamento. É fato que vamos ter que conviver com medidas como o uso de máscaras. 

Dá para se ter uma ideia do impacto financeiro causado pela pandemia no orçamento da saúde?
O ano de 2020 foi inteiro de pandemia, isso impactou em R$ 577 milhões. Esse valor foi gasto só com a pandemia. A grande maioria foi com hospitais que é onde tem a assistência especializada e UTIs. São nessas unidades onde temos a maior parte dos gastos. Mas principalmente, dentro dos hospitais, cerca de 60% dos gastos foram com pessoal. Essa é uma atividade assistencial, braçal e que precisa de um grande quantitativo de pessoal para atender os leitos de UTI e tudo mais. 

Foram quase meio bilhão de investimento em custeio. Isso foi o montante de 2020. Em 2021 ainda está em curso, mas não ficará menos do que esse valor. 

Ismael, a política de descentralizar o atendimento à saúde, levando unidades estaduais para cidades do interior, deve continuar? Ou os avanços promovidos até aqui já contemplam o planejamento?
Essa questão da regionalização é um dos pilares da gestão. Faz parte das bandeiras do governador Ronaldo Caiado. Nós nos mantivemos muito fiéis a esse eixo da gestão. Não nos distanciamos do plano da regionalização e conseguimos de fato levar a todas as macrorregiões do estado leitos de cuidados a Covid, unidades de terapias intensiva, dos hospitais de campanha que são de alvenaria, ou seja, são unidades que já estavam no planejamento inicial e participar da nossa rede como hospitais estaduais e que findada a pandemia continuarão existindo.

O tamanho da subida da contaminação não tem como adiantar, mas essa subida será inevitável

A regionalização avançou muito. O governador Ronaldo Caiado e eu mantivemos um alinhamento muito grande nos planejamentos. E é importante que o que foi planejado está sendo executado.

Sobre o hospital do câncer, será uma parceria com a unidade Barretos?
De fato, o hospital oncológico faz parte do nosso planejamento. Não é uma coisa que acontece do dia para noite. Carece de uma execução demorada, porque é complexa. É preciso pensar desde a prevenção ao tratamento quimioterápico, radioterápico, cirurgia oncológica e reabilitação. Então é complexo. Obviamente precisamos de expertise de pessoas que estão acostumadas no dia a dia a trabalhar com isso, e ter excelência.

O governador Ronaldo Caiado já tinha o desejo, e recentemente cada vez mais, de colocar em prática essa parceria com o pessoal de Barretos, que inegavelmente é um serviço de excelência na oncologia. O Hospital de Barretos hoje se chama Hospital do Amor, gerido pelo Henrique Prata, ele certamente será naqueles moldes e sem dúvida será uma parceria profícua que vai render frutos positivos para a população de Goiás.

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