“Temos passivo de 2,5 mil licenciamentos ambientais que sequer foram abertos processos de an├ílise”

Nova secret├íria estadual do Meio Ambiente, Recursos H├¡dricos, Infraestrutura e Assuntos Metropolitanos diz querer informatizar e desburocratizar a├º├Áes da Secima

Secret├íria Andr├®a Vulcanis | Foto: Fernando Leite/Jornal Op├º├úo

Curitibana, a procuradora federal do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente┬á(Ibama) assumiu na semana passada a Secretaria Estadual┬ádo Meio Ambiente, Recursos H├¡dricos, Infraestrutura e Assuntos Metropolitanos┬á(Secima) com a miss├úo de desburocratizar os processos de licenciamento ambiental e outorga parados na pasta. Andr├®a Vulcanis vem do Distrito Federal, onde ocupou em 2018 o cargo de subsecret├íria na Secretaria do Meio Ambiente, para Goi├ís a convite do governador Ronaldo Caiado┬á(DEM), que buscava um perfil t├®cnico para a cadeira.

Sob o olhar de preconceito e desconfian├ºa dos que criticam a escolha de pessoas de fora do Estado para ocupar cargos no primeiro escal├úo do governo Caiado, Andr├®a afirma na entrevista que essa ├® uma barreira f├ícil de romper por meio da experi├¬ncia e do trabalho. “O importante para fazer uma boa gest├úo ├® conhecer o tema mais do que conhecer o ambiente local.”

Augusto Diniz – O que fez uma curitibana parar no Distrito Federal e depois vir para Goi├ís ocupar a pasta do Meio Ambiente no Estado de Goi├ís?
Logo assim que me formei em Direito, passei em um concurso para procuradora federal e fui lotada no Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov├íveis] no Estado do Paran├í. Ingressei em 1996. Chegando ao Ibama, a complexidade da mat├®ria ambiental j├í se apresentava. Naquele momento, v├írias legisla├º├Áes ainda n├úo existiam. Houve uma realidade quando chegamos ingressos de concurso: n├úo existiam procuradores novos. Eram procuradores antigos, aposentados. No caso do Paran├í, quase que n├úo tinha ningu├®m.

A mat├®ria ambiental passava por processo de formula├º├úo de legisla├º├úo, a Procuradoria tinha muita influ├¬ncia para interpretar a legisla├º├úo, como fazer a gest├úo ambiental a partir das leis que estavam colocadas. O jur├¡dico ganhou uma relev├óncia muito grande naquele momento. Todas as pol├¡ticas de gest├úo do licenciamento, auto de infra├º├úo, multas, embargos, fauna e outras ├íreas passavam pela an├ílise jur├¡dica. Em raz├úo do contexto daquele momento, a partir da mat├®ria jur├¡dica pude absorver e observar todo o conjunto da legisla├º├úo na aplica├º├úo do dia a dia.

Tive esta vantagem de poder ter um acesso em todos os assuntos. Tudo passava pela Procuradoria. Nada se decidia sem ter um parecer jur├¡dico. T├¡nhamos uma atua├º├úo no contencioso tamb├®m muito forte: a├º├Áes civis p├║blicas em raz├úo de danos ambientais, autos de infra├º├úo, multas, danos. Aquele primeiro momento da carreira fiz uma passagem muito ampla a partir da mat├®ria jur├¡dica, mas voltada para a gest├úo, porque era uma ├írea consultiva, na qual orient├ívamos os gestores. Depois de dois anos e meio de carreira, fui convidada para assumir a Superintend├¬ncia Estadual do Ibama, quando sa├¡ da ├írea jur├¡dica e fui para a gest├úo.

Toda a mat├®ria ambiental no Paran├í estava sob a minha gest├úo. Depois voltei para a Procuradoria, fui superintendente duas vezes. Enquanto estava na Superintend├¬ncia, houve um movimento dos servidores com envio de documentos e abaixo-assinados para a ministra do Meio Ambiente, que era a Marina Silva (Rede), para que eu fosse mantida no cargo na transi├º├úo de governo. Isso chamou a aten├º├úo do pessoal em Bras├¡lia. “Como assim servidor pedindo para manter gestor em cargo?” Era uma novidade para eles. Foi quando fui convidada para ser procuradora-geral do Ibama.

Cheguei em Bras├¡lia em 2007. Est├ívamos com grandes empreendimentos em licenciamento, das obras de hidrel├®tricas, rodovias, ferrovias. Havia o impulsionamento do PAC [Programa de Acelera├º├úo do Crescimento] e era preciso viabilizar as obras. A conversa era sempre a mesma, de que a ├írea ambiental dificulta o desenvolvimento. Ent├úo assumimos essa pauta para viabilizar juridicamente, porque eu era procuradora, os assuntos da ├írea ambiental. Naquele momento, toda mat├®ria jur├¡dica passava por ali e acabei por assessorar muito a quest├úo da formula├º├úo do C├│digo Florestal, do Decreto n├║mero 6514/2008 – de infra├º├Áes ambientais -, resolu├º├Áes do Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente].

O Decreto 6514 ├® federal, mas foi copiado por praticamente todos os Estados. Sou respons├ível pela reda├º├úo desse Decreto. Claro que com uma equipe, mas cada v├¡rgula daquele Decreto eu sei porque ela est├í ali ou n├úo est├í. Fui presidente da C├ómara de Assuntos Jur├¡dicos do Conama. Todas as mat├®rias que passaram pelo Conama passavam pela nossa an├ílise. Venho de uma experi├¬ncia muito grande.

Depois eu sa├¡ da carreira, fiquei tr├¬s anos licenciada e quis ver as coisas do outro lado. Comecei a fazer muita consultoria para os Estados para fazer legisla├º├úo. Para o Amazonas e o Amap├í, trabalhamos com a legisla├º├úo do cadastro ambiental rural. Na Bahia, trabalhamos uma legisla├º├úo de licenciamento ambiental. Neste per├¡odo, comecei a ver as agendas dos Estados, as legisla├º├Áes estaduais ambientais que estavam atrasadas ou defasadas. Fiz algumas consultorias empresariais e entendi um pouco do lado de l├í do balc├úo. Do lado de c├í h├í uma vis├úo um pouco m├¡ope do que para o empresariado representa a ├írea ambiental. Tive a oportunidade de ver isso sobre a ├│tima empresarial.

Quando retornei para a carreira, fui para a Ag├¬ncia Nacional de Transportes Terrestres [ANTT] conhecer um pouco da agenda de infraestrutura. Fui para o DNPM [Departamento Nacional de Produ├º├úo Mineral] para entender como a minera├º├úo estava sendo desenvolvida. At├® que recebi um convite para ir para o governo do Distrito Federal e fui para a┬áAg├¬ncia Reguladora de ├üguas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa). Da ├írea ambiental, a regula├º├úo de recursos h├¡dricos era um tema que eu n├úo tinha tido a oportunidade de trabalhar mais de perto.

Fiquei dois anos na Adasa e tive a oportunidade de enfrentar a crise h├¡drica de Bras├¡lia, quando ficamos um ano em racionamento. Toda a legisla├º├úo que a Adasa soltou, as resolu├º├Áes, para o enfrentamento da crise, as aloca├º├Áes negociadas de ├ígua, as discuss├Áes entre a┬áCompanhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) e os produtores rurais, n├│s participamos. Foi quando fiz um aprofundamento na agenda de recursos h├¡dricos. E por fim fui para a Secretaria de Meio Ambiente como subsecret├íria com uma miss├úo: “Vamos resolver o licenciamento ambiental do DF”. Por├®m foi no ├║ltimo ano de governo.

O ├║ltimo ano ├® at├¡pico, ├® um ano eleitoral. Desenvolvemos muita coisa. N├úo conseguimos finalizar o processo em um ano, foi muito r├ípido, teve mudan├ºa de secret├írio no meio. Diante desse contexto e do meu curr├¡culo, o governador estava a procura de um t├®cnico que tivesse experi├¬ncia. Levaram meu nome ao governador, conversamos, aceitei o convite e aqui estou.

Marcelo Mariano – A sra. n├úo conhecia o governador antes do convite? Foi uma indica├º├úo meramente t├®cnica?
N├úo nos conhec├¡amos. Foi uma indica├º├úo t├®cnica.

Augusto Diniz – Surgiram algumas criticas ├á forma├º├úo do secretariado do governo Caiado por trazer pessoas de fora do Estado para algumas pastas, como ├® o caso da sra.. A sra. entende que isso seja uma barreira para chefiar a Secima ou entende como preconceito com quem n├úo ├® goiano em integrar a equipe de governo?
A agenda ambiental, licenciamento, recursos h├¡dricos, fauna, flora, ├® uma agenda comum em qualquer lugar. Todos os Estados vivem a mesma dificuldade com licenciamento e de outorga. J├í circulei no Brasil todo. N├úo h├í de se dizer que eu n├úo conhe├ºo da agenda porque a agenda ├® comum, a legisla├º├úo ├® a mesma. Claro que h├í as legisla├º├Áes estaduais, mas a legisla├º├úo b├ísica, que ├® a federal, ├® comum a todos os Estados. E a realidade de enfrentamento da gest├úo ├® a mesma. O que n├úo conhe├ºo ├® a realidade local. Mas, estando em Bras├¡lia, a realidade ambiental ├® a mesma. Estamos falando do cerrado, de uma din├ómica clim├ítica que ├® muito semelhante. N├úo h├í grande diferen├ºa daquilo que j├í conhe├ºo com alguma profundidade.

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Entendo que quem estivesse aqui com um perfil parecido com o meu entraria no Estado tendo o dom├¡nio do que acontece em cada regi├úo do Estado. Mas isso pode ser superado de forma muito r├ípida. Quero conhecer pessoalmente tudo isso, absorver com rapidez. O importante para fazer uma boa gest├úo ├® conhecer o tema mais do que conhecer o ambiente local. O ambiente local se faz uma visita e se aprofunda sobre aquele assunto.

Marcelo Mariano – Nos primeiros dias como secret├íria empossada, a sra. j├í definiu o que pretende mudar, implementar e manter na a├º├úo da Secima?
Fizemos uma vis├úo panor├ómica das a├º├Áes da Secima. A primeira reuni├úo foi com os analistas e gerentes das ├íreas tem├íticas. A ├írea ambiental foi a primeira. Na quinta-feira falei com outras ├íreas que ainda est├úo sob minha pasta, que s├úo Cidades, Infraestrutura e Assuntos Metropolitanos. Observei que h├í um andamento de v├írias coisas, um sistema de informa├º├úo que estava em desenvolvimento, o Web Licen├ºas, para tornar tudo informatizado, v├írias iniciativas de mudan├ºas que estavam sendo pensadas, por├®m n├úo implementadas.

Havia um movimento interno a partir do pr├│prio conjunto de servidores que agora vamos continuar aquilo que for bom, que a bola estava apontada para o gol vamos chutar e segui daqui para frente. Aquilo que precisar de algum conserto ou que ainda n├úo foi implementado vamos arrumar o que for necess├írio. Embora houvesse iniciativas, inten├º├Áes e uma ampla disposi├º├úo, n├úo est├í executado. Temos um passivo de quase 2,5 mil processos de licenciamento ambiental que entraram com pedido e sequer foram abertos os processos de an├ílises. Cada empreendimento precisa ser olhado. ├ë um passivo enorme. E a equipe n├úo ├® muito grande. Chegamos com um sufoco para atender a demanda.

Em outorga temos 5 mil processos de passivo. S├úo assuntos que precisamos dar uma solu├º├úo r├ípida. E ├® uma solu├º├úo complexa, que depende de instrumentos que viabilizem isso de uma forma mais ├ígil e eficiente, mas ao mesmo tempo n├úo pode parar, as pessoas est├úo ali batendo na porta e pedindo essas licen├ºas e outorgas. Como vamos trabalhar? Uma equipe ser├í destinada para fazer a reformula├º├úo disso tudo. O que ├® a formula├º├úo? O que temos de construir? Qual ├® a agenda que iremos reformar para entregar uma solu├º├úo mais eficiente?

E a outra equipe ficar├í na execu├º├úo do dia a dia, da forma como ainda acontece hoje, at├® que estejam preparados os instrumentos que chamarei de reformas estruturais.┬áDividiremos as equipes e tocar a agenda para tentar superar o passivo e ao mesmo tempo arrumara para que o quanto antes tenhamos resultados mais completos.

Augusto Diniz – A sra. citou que come├ºou um trabalho na Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal de desburocratiza├º├úo das licen├ºas e outorgas e disse que o Web Licen├ºas, da Secima, est├í em constru├º├úo. O que ainda precisa ser feito para que isso comece a ser aplicado em Goi├ís?
Marquei uma reuni├úo com o setor de tecnologia da informa├º├úo. Passarei um dia mergulhada nas a├º├Áes da equipe, abrindo sistema por sistema para entender o que est├í funcionando, o que j├í foi constru├¡do e o que ainda falta. O que tenho de informa├º├úo ├® de que o Web Licen├ºas est├í em desenvolvimento, h├í um m├│dulo de an├ílise para licenciamento ambiental, mas o que ├® isso e se representa uma solu├º├úo ainda n├úo deu tempo de avaliar.

Augusto Diniz – O que a sra. acredita que precisa mudar para que se desburocratize a an├ílise e concess├úo de licen├ºas ambientais e outorgas para diminuir o passivo que foi citado?
Entendo a situa├º├úo em tr├¬s n├¡veis. Como se faz gest├úo ambiental? A partir de informa├º├úo. Vou interferir em uma determinada ├írea. Tenho de conhecer a vegeta├º├úo que vai ser alterada, a fauna ali associada, preciso conhecer o rio e os recursos h├¡dricos que ser├úo afetados, quais s├úo os efluentes que aquela atividade produzir├í. Preciso conhecer o contexto onde uma coisa dialoga com a outra. Posso dizer que determinada coisa ir├í acontecer se tiver informa├º├Áes suficientes que me deem capacidade de an├ílise.

Como isso vem sendo feito no Brasil at├® hoje? Cada empreendimento vai na ├írea que ir├í afetar e realizar um estudo dizendo qual ├® a vegeta├º├úo, fauna, recurso h├¡drico, se vai afetar outro empreendimento que est├í do lado. Esse estudo detalhado ├® trazido em papel, que o analista l├¬ e ├® apresentada a rela├º├úo de impactos ambientais que a obra ir├í provocar para depois ser feita a an├ílise. S├│ que, depois de tantos anos de interven├º├Áes no meio ambiente e tanta tecnologia da informa├º├úo que veio a ser constru├¡da, se as informa├º├Áes j├í estivessem sistematizadas… Abro um computador e tenho detalhado onde fica determinada vegeta├º├úo, fauna, qual interfer├¬ncia haver├í no recurso h├¡drico e a tipologia de empreendimento gera determinado resultado. Se isso estivesse informatizado, eu ganharia de um a dois anos de an├ílise s├│ porque a informa├º├úo j├í existe.

Hoje, o Estado, tanto o de Goi├ís quanto o brasileiro, tem essas informa├º├Áes. Mas elas est├úo nos estudos dentro de um arquivo em papel dentro do arm├írio. Precisamos trazer essas informa├º├Áes para um n├¡vel tecnol├│gico. Tenho uma base de informa├º├Áes, conhe├ºo meu territ├│rio e sei que se houver uma altera├º├úo de uma forma ou de outra posso mandar diminuir o impacto aqui e arrumar a situa├º├úo de uma outra forma. O primeiro movimento ├® trazer o n├¡vel de informa├º├Áes que est├úo nas universidades, que t├¬m milhares de teses de doutorado, disserta├º├Áes de mestrado e pesquisadores produzindo material, mas que fica no papel na biblioteca da universidade. Precisamos trazer isso para n├¡vel de gest├úo.

Meu sonho de consumo ├® ter como nos filmes, que quando h├í crise v├úo abrindo as informa├º├Áes em um tel├úo. A gest├úo ambiental tem de ser mais ou menos nesse caminho. Eu clico em um bot├úo vai me mostrar determinada informa├º├úo que me diz que se isso est├í aqui o empreendimento n├úo pode acontecer nesse lugar, o que possibilita deslocar o empreendimento de local.

Augusto Diniz – O que a sra. quer dizer ├® que o acesso ├á informa├º├úo que ├® gerada n├úo ├® t├úo f├ícil nem dentro da pr├│pria secretaria?
N├úo ├® porque est├í em papel. Fica na cabe├ºa das pessoas, ├ás vezes nem isso, e tem de se repetir e fazer mais estudos. Um exemplo disse ├® quando h├í necessidade de se fazer uma interven├º├úo com um empreendimento em determinada ├írea e preciso saber qual ├® a fauna que vai afetar. Eu pe├ºo o monitoramento, que vai ao local, coloca armadilhas, para o analista de fauna inscrever as esp├®cies, se aparece alguma esp├®cie amea├ºada de extin├º├úo. Apareceu uma esp├®cie amea├ºada o requisito ├® um, n├úo apareceu h├í uma possibilidade mais livre de autorizar o licenciamento naquela ├írea.

Para cada empreendimento eu pe├ºo um monitoramento. Se h├í um empreendimento aqui e o outro a um quil├┤metro, pe├ºo para os dois a mesma informa├º├úo. O empreendimento vai contratar uma equipe, uma consultoria, que vai produzir as mesmas informa├º├Áes. Uma coisa n├úo conversa com a outra. Elas est├úo na mesma ├írea e uma n├úo transmite para a outra a informa├º├úo. Isso precisa acabar. Temos de parar de pedir repeti├º├úo de coisa que j├í conhecemos. Se eu pegar o estudo do primeiro empreendimento terei informa├º├úo do empreendimento que est├í do lado. Por que estou pedindo duas vezes?

E s├úo estudos car├¡ssimos, que custam R$ 1 milh├úo, R$ 2 milh├Áes, R$ 3 milh├Áes, com informa├º├úo que eu pe├ºo e j├í tenho. Tenho mas ela n├úo est├í acess├¡vel. N├úo est├í f├ícil de leitura.

Marcelo Mariano – Antes de falar sobre os outros dois n├¡veis, gostaria de saber quanto tempo a sra. estima que ser├í necess├írio para trazer toda a papelada para o ├ómbito tecnol├│gico?
Vou mergulhar na ├írea de tecnologia da informa├º├úo. J├í conversei com a equipe. Eles t├¬m alguns n├¡veis de informa├º├úo j├í produzidas. Os mapas de recursos h├¡dricos est├úo informatizados, o cadastro ambiental rural j├í est├í informatizado. As informa├º├Áes v├úo ser colocadas no sistema em n├¡veis para que o sistema me d├¬ as informa├º├Áes. Ainda n├úo sei quais n├¡veis j├í foram disponibilizados no sistema, quais ser├úo necess├írios, se vamos resgatar as informa├º├Áes que est├úo no papel, como traduzir essa informa├º├úo do papel para um n├¡vel tecnol├│gico.

Preciso mergulhar com a equipe para entender como isso tudo acontece e avaliar. Se vamos produzir informação daqui para frente, se vamos olhar para trás e resgatar informação. Tudo isso dependerá do custo-benefício e das dificuldades que possamos encontrar. Ainda não consigo saber como isso vai acontecer.

“O problema ├® que eu n├úo digo como Estado para o empreendedor qual meta ele tem de atingir”

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Esse ├® s├│ o primeiro n├¡vel.
Esse ├® o primeiro n├¡vel que entendo precisar de revis├úo quando falo de licenciamento ambiental e qualquer instrumento de gest├úo. Se eu falo de uma unidade de conserva├º├úo, um parque estadual, e j├í h├í o processo informatizado das informa├º├Áes, consigo dizer se a estrada que passar├í no entorno do parque pode sim passar ou se precisa haver desvio em determinado local porque h├í uma sensibilidade ambiental. A medida que eu consiga ter esse n├¡vel de informa├º├Áes consigo fazer qualquer gest├úo ambiental.

O segundo n├¡vel, que ├® o de mais inova├º├úo, entendo que precisa de reforma, vem da metodologia de avalia├º├úo de impacto ambiental. A metodologia foi criada na d├®cada de 1980. Qual era a realidade do Brasil na d├®cada de 1980? Havia o problema de Cubat├úo [que ficou conhecida como “Vale da Morte” por ser, na ├®poca, a cidade mais polu├¡da do mundo pela fuma├ºa das f├íbricas], com a crise instalada, pessoas doentes e polui├º├úo ambiental absurda. Como resolver isso? N├úo havia nada informatizado. A metodologia foi criada a partir de experi├¬ncias internacionais.

Como se fazia avaliação de impacto? Vou lá, diagnostico, saber o que está acontecendo. Depois do diagnóstico, que vai trazer vários níveis de informação. A metodologia de avaliação funciona assim. A partir do diagnóstico que o empreendedor encontra ele vai apresentar uma matriz de impacto ambiental, que diz como reduzir os impactos no meio ambiente. Onde está o problema? Para cada impacto ambiental, cada consultoria ou empreendedor me diz, por exemplo, vou fazer uma estrada e vai ter atropelamento de fauna. Como eu resolvo esse atropelamento de fauna? Vou fazer passagem subterrânea para os animais circularem de um lado para o outro ou uma ponte verde para os animais passarem por cima.

O problema ├® que eu n├úo digo como Estado para o empreendedor qual ├® a meta que ele tem de atingir. Posso dizer para ele “n├úo admito que voc├¬ atropele nenhum animal silvestre” ou posso dizer “considerando que ├® inevit├ível o atropelamento de animais silvestre por ser uma estrada porque ela est├í em uma ├írea de vegeta├º├úo nativa, aceito que voc├¬ atropele dois animais silvestres a cada quil├┤metro por ano”. Eu tenho de dar uma meta para ele. Com recursos h├¡dricos e qualidade da ├ígua, o Conama deu a metrifica├º├úo, que diz que pode-se emitir efluente com a qualidade tal que afete o rio da seguinte forma. Para emiss├Áes atmosf├®ricas, o Conama tamb├®m deu par├ómetros.

Mas ├® s├│ isso. Para todos os outros impactos ambientais n├úo tem par├ómetro definido. Para cada caso depender├í a proposta que o empreendedor traz e se o analista ir├í analisar se aquilo ├® bom, se est├í adequado ou n├úo, porque o analista n├úo sabe onde quer chegar. O Estado n├úo diz para o analista onde ele tem de chegar, qual o resultado ambiental ele tem de entregar. A metodologia que foi criada, e ao longo do anos foi trabalhada, que acontece em todos Estados e munic├¡pios que licenciam, ├® subjetiva. Fica muito entre o analista ambiental olhar e achar “est├í bacana; n├úo, arruma aqui” para cada n├¡vel de impacto ambiental.

E isso sobrecarrega o analista, porque fica muito no CPF do analista. Se eu sou um bi├│logo e tenho um carinho especial pela fauna serei mais rigoroso do que se aquele mesmo empreendimento fosse analisado por um engenheiro civil. O Estado precisa dizer “empreendedor, para cada impacto ambiental eu quero que voc├¬ atinja o seguinte resultado”. Isso ├® inova├º├úo. N├úo existe em lugar nenhum no Brasil uma discuss├úo nesse n├¡vel. Vamos fazer isso aqui em Goi├ís. Vou antecipar para o empreendedor onde ele tem de chegar. Quando o empreendedor vem para o empreendimento ele j├í tem de saber que tem de chegar a determinado resultado e far├í isso de uma forma.

A metodologia de an├ílise via deixar de ser criar uma proposta para chegar na meta que o Estado me diz que tenho de atingir. Isso significa que deixo de fazer an├ílise de processo para olhar a gest├úo ambiental a partir do resultado que quero que seja atingido ou deixado de atingir no ambiente. Paro de olhar processo, documento da prefeitura, se tem alvar├í disso para olhar o resultado. Para a fauna o resultado que eu quero ├® esse, para o ar ├® aquele, para a ├ígua ├® aquele. Se voc├¬ atingir os resultados que estou pedindo, se me provar que a sua proposta atinge est├í licenciado, se n├úo provar n├úo est├í.

Isso gerar├í um salto de qualidade na an├ílise ambiental porque vou direto no resultado. N├│s viemos da cultura latina, portuguesa principalmente, que sempre olha muito o processo. A licita├º├úo no Brasil ├® muito isso. Come├ºa com um termo de refer├¬ncia, que tem de passar por uma avalia├º├úo de pre├ºo. Depois fa├ºo um edital, publico e fa├ºo a licita├º├úo. Para se fazer uma licita├º├úo v├úo de oito meses a um ano, porque fa├ºo pelo processo, n├úo pelo resultado. O que estou contratando? O pre├ºo est├í adequado e est├í justo? S├│ que fazemos isso por processo. E na ├írea ambiental vamos direto para o resultado. Estamos criando essa nova metodologia, que estamos trazendo para c├í, ├® bastante inovadora. Espero que ao longo deste ano estejamos com esse estudo conclu├¡do.

Augusto Diniz – A sra. disse, em uma entrevista, que os ├│rg├úos de meio ambiente precisam parar de olhar para o produtor rural como um vil├úo. Gostaria que a sra. explicasse melhor o que vem a ser essa vis├úo do produtor rural como vil├úo pelos profissionais da ├írea de meio ambiente e como se d├í essa disputa.
Brasil ├® um pa├¡s ruralista desde que foi descoberto. A legisla├º├úo de Portugal dizia que quem chegava aqui ganhava a terra desde que a explorasse. Para explorar, tire a vegeta├º├úo, tire a mata e ocupe essa terra. A nossa vis├úo cultural sobre a terra ├® de que o mato n├úo presta para nada, atrapalha o desenvolvimento, se tiver mato eu n├úo tenho propriedade. Vou a fazendas que tem centenas de anos. A prote├º├úo ambiental ├® algo muito novo. Manter floresta em p├® ├® muito novo. Se eu tenho uma ├írea aberta com plantio, o valor econ├┤mico chega a ser 30 a 40 vezes maior do que uma ├írea com floresta em p├®.

Veio a partir da d├®cada de 1980 a legisla├º├úo ambiental. Depois se estabelece que a atividade rural precisa de licenciamento ambiental. Enquanto t├¡nhamos ├íreas abertas no Centro-Sul, na Amaz├┤nia o desmatamento est├í avan├ºando para substituir a floresta por ├íreas de uso econ├┤mico. Quando olha-se para a Amaz├┤nia e diz “para tudo” porque ├® preciso combater o desmatamento, o que se faz? Quem est├í abrindo ├írea? ├ë o propriet├írio da ├írea ou grileiro, que vende para algu├®m que vai produzir. ├ë ali que come├ºa o conflito entre meio ambiente e produtor rural.

O produtor rural quer degradar o meio ambiente? N├úo. Quer produzir, quer ganhar dinheiro. A conta ├® muito simples. O que se faz com produtor rural que est├í fazendo desmatamento ilegal? ├ë preciso lembrar porque tem desmatamento ilegal, que eu participei disso no dia a dia. Pede-se para o ├│rg├úo ambiental autoriza├º├úo para supress├úo, isso demora um ano, dois anos, tr├¬s anos, quatro anos, e a autoriza├º├úo n├úo vinha. O que vale mais? Vou ficar esperando ou pago a multa se fizer o desmatamento ilegal? E assim foi feito.

Os órgãos ambientais não estavam estruturados, havia muito medo de fazer autorização de desmatamento e ali se cria o conflito.

“O governador [Caiado] estava a procura de um t├®cnico que tivesse experi├¬ncia. Levaram meu nome ao governador, conversamos, aceitei o convite e aqui estou” | Foto: Divulga├º├úo

Augusto Diniz – A legisla├º├úo veio muito antes de qualquer possibilidade de haver fiscaliza├º├úo.
Exatamente. Fiscalização e as próprias licenças. Se você demora cinco anos para dar uma licença compensa desmatar ilegalmente, pagar a multa e continuar plantando. Cria-se o conflito, porque se houve desmatamento ilegal vem a multa, e são multas milionárias. É imposta uma lista de embargos e não se consegue financiamento bancário porque o nome está na lista.

Foram criadas ferramentas para impedir o desmatamento, ├® importante que se impe├ºa o desmatamento ilegal, mas tem de se lembrar que o Estado tamb├®m contribuiu para isso quando n├úo conseguia dar as licen├ºas regulares a tempo, quando n├úo se tem em muitos lugares uma pol├¡tica de desmatamento – para onde e at├® onde posso desmatar, qual ├® a proposta. Cria-se a cultura de que agricultor ├® o que desmata, ├® o que invade, acaba com o meio ambiente e eu sou o defensor do meio ambiente. Fomos de um extremo a outro.

S├│ que isso ├® uma realidade da Amaz├┤nia, e que o Oeste da Bahia passou por isso nos ├║ltimos cinco anos. Ainda eram ├íreas de cerrado nativo e houve esse movimento. Algu├®m abre a ├írea e vende. Na hora que abre, a ├írea valoriza de tr├¬s a cinco vezes mais. Isso aconteceu e est├í acontecendo hoje no Brasil. Em Goi├ís, esse tipo de conduta, de abertura de ├írea para plantio, o que foi feito j├í foi feito. Como isso se resolveu legalmente ao longo do tempo? Com o C├│digo Florestal, que diz que as propriedades rurais precisam ter ├írea de preserva├º├úo permanente (APP) nas margens dos rios, nas ├íreas de inclina├º├úo e as ├íreas de reserva legal.

O C├│digo Florestal, com todo aquele debate que ocorreu no Congresso Nacional, veio para dizer que quem j├í abriu ├írea antes de 2008 e precisa fazer APP e reserva legal. N├úo tenho porque ficar perseguindo produtor rural dizendo para eles que s├úo bandidos, porque n├úo s├úo. A legisla├º├úo diz que est├í anistiado. J├í quem desmatou a partir de 2008 ├® outra situa├º├úo. O C├│digo Florestal deu esse marco temporal. Em Goi├ís penso que a situa├º├úo n├úo seja diferente. N├úo vou dizer que n├úo haja desmatamento ilegal, porque deve haver, mas a maior parte das ├íreas de plantio do Estado j├í est├í aberta muito antes de 2008.

Agora ├® solucionar a quest├úo dos passivos. O cadastro ambiental rural aqui avan├ºou muito, com 98% dos im├│veis rurais no cadastro. Estamos no m├│dulo de an├ílise para verificar os passivos, em torno de 15% dos cadastros j├í foi analisado ├® h├í um grande n├║mero de passivo. Passivo de APP e reserva legal. Vamos correr atr├ís disso para que o produtor possa cumprir a lei. N├úo temos mais bandido e mocinho. Temos uma lei que tem de ser cumprida.

Augusto Diniz – Qual avalia├º├úo a sra. faz da reformula├º├úo do C├│digo Florestal? ├ë o texto ideal ou h├í algo que precisa ser aperfei├ºoado?
Para a realidade Centro-Sul, para as ├íreas que est├úo em produ├º├úo, o C├│digo Florestal ├® uma boa proposta. Talvez n├úo seja t├úo bom para quest├Áes como a Amaz├┤nia porque ├® uma realidade muito diferente. Para quem j├í est├í com a atividade consolidada, o C├│digo Florestal resolve enormemente a quest├úo ambiental, porque pacifica. Os passivos eram enormes, n├úo se tinha solu├º├úo para os encaminhamentos. O marco legal est├í dado, o Congresso Nacional discutiu isso de forma muito ampla. ├ë uma boa legisla├º├úo para as ├íreas consolidadas.

Marcelo Mariano – O governador Ronaldo Caiado ├® um produtor rural identificado com a pauta ruralista. Como trabalhar a comunica├º├úo da ├írea ambiental para que a popula├º├úo n├úo entenda que possa haver conflito de interesses entre a pasta do Meio Ambiente e o governador, que ├® um produtor rural?
Governador foi muito honesto e franco. Caiado disse o seguinte: “N├úo ├® porque eu venho desse setor que vou pedir ou desejo qualquer tipo de benef├¡cio”. Ele foi muito claro nesse sentido. “Lei est├í a├¡ para ser cumprida. Eu venho do Congresso Nacional e participei da discuss├úo do C├│digo Florestal e acho que legisla├º├úo precisa ser cumprida. Quem cumpre lei muito bem, que n├úo cumpre vai ter de cumprir.”

Marcelo Mariano – Durante a campanha, o site The Intercept Brasil trouxe uma mat├®ria que tratava sobre um eventual risco que a elei├º├úo de Caiado poderia trazer ├á Chapada dos Veadeiros. A mat├®ria traz a situa├º├úo da empresa Rialma, de um primo do governador, que teria a inten├º├úo de construir pequenas centrais hidrel├®tricas (PCHs) na regi├úo da Chapada. Falta apenas a licen├ºa ambiental e que com Caiado isso poderia ser facilitado. Que informa├º├úo a sra. tem sobre os processos de licita├º├úo ambiental pedidos pela Rialma?
Não tenho conhecimento sobre o assunto. Nem o próprio governador falou sobre qualquer pedido de PCH.

Marcelo Mariano – Como a sra. avalia o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros indo para a iniciativa privada?
Isso precisa ser bem entendido. N├úo ├® que o Parque Nacional nem qualquer unidade de conserva├º├úo vai para a gest├úo da iniciativa privada. Isso n├úo acontece. A primeira unidade que houve esse regime foi no Paran├í, fui eu que constru├¡ os editais, as minutas de contrato com os concession├írios, o debate todo sobre viabilidade econ├┤mica. Temos um parque nacional que ├® do tamanho desta mesa aqui.

Em um canto, tenho, no plano de manejo da unidade, que ├® o documento que diz como se faz a gest├úo da unidade de conserva├º├úo, tem as ├íreas que chamamos de ├íreas de uso p├║blico, exatamente porque a legisla├º├úo estabelece que h├í a necessidade de que as pessoas acessem essas ├íreas para que se promovam as a├º├Áes de educa├º├úo ambiental para que haja um envolvimento das pessoas com o ambiente natural, para que os cidad├úos parem de ver as ├íreas protegidas como algo ruim.

As áreas de visitação, que chamamos de uso público, são as que os turistas poderão fazer um passeio de barco, uma trilha ecológica, um centro de visitação, uma aula, um museu para conhecer aquela realidade ambiental. Essas ferramentas que façam com que as pessoas interajam com o ambiente natural naquele contexto da unidade de conservação são as que vão e que podem passar para a iniciativa privada. Porque isso exige manutenção. É preciso ter pessoas dando aula, coordenando. Por exemplo, parques que têm passeio de barco, rafting, como eu coloco um servidor público para controlar essas atividades? É muito difícil gerir isso com a máquina pública.

Para cada tipo de equipamento ├® preciso ter um tipo de manuten├º├úo muito r├ípido. Se h├í passeio de barco ├® preciso ter gasolina. N├úo posso esperar uma licita├º├úo para comprar gasolina. Com a opera├º├úo da m├íquina p├║blica da forma como ├® n├úo ├® poss├¡vel gerir essas ferramentas na opera├º├úo adequada. No ├ómbito federal, decidimos fazer as concess├Áes, que chamamos de terceiriza├º├Áes, para uso p├║blico exclusivamente.

A gest├úo da unidade de conserva├º├úo enquanto tal ├® feita pelo Estado e isso n├úo muda. N├úo se faz uma privatiza├º├úo de uma unidade de conserva├º├úo. ├ë a gest├úo de uso p├║blico. ├ë onde o p├║blico vai acessar com qualidade. Se for feito pelo Estado acaba que n├úo consegue entregar qualidade para uma visita├º├úo tur├¡stica adequada.

Augusto Diniz – O Distrito Federal viveu uma recente crise h├¡drica, Goi├ís viveu um segundo alerta durante as elei├º├Áes de que poderia haver falta de ├ígua na Regi├úo Metropolitana, quando houve o controle das outorgas de piv├┤s nos cursos dos rios. H├í alguma pol├¡tica que foi aplicada durante sua gest├úo como parte do governo do Distrito Federal que poderia ser trazida para Goi├ís?
Isso tem de acontecer em dois n├¡veis. O primeiro ├® um plano de atendimento emergencial. Se tivermos essa situa├º├úo este ano aqui, isso depende muito do regime clim├ítico, quando iniciar o per├¡odo de seca o plano dever├í estar pronto. O plano emergencial passa por v├írias quest├Áes. Vamos falar de um atendimento que possa acontecer em uma situa├º├úo de curto prazo.

Passa pela aloca├º├úo negociada de ├ígua, que fizemos muito na Adasa e tem de acontecer. A legisla├º├úo fala que quem tem outorga depende da ├ígua existir em quantidade suficiente para atender toda a demanda.┬áQuando h├í uma diminui├º├úo da vaz├úo, preciso redistribuir a outorga que havia sido concedida. H├í a necessidade de se alocar para abastecimento p├║blico, uso da agricultura, usos industriais. A legisla├º├úo me da uma prioridade. O abastecimento humano e animal ├® priorit├írio em rela├º├úo a todos os outros. Se eu s├│ tenho ├ígua para o abastecimento humano, ele ├® priorit├írio em rela├º├úo, por exemplo, ao uso econ├┤mico na agricultura com os piv├┤s etc.

A melhor iniciativa que vimos acontecer agora foi negociar, p├┤r todo mundo na mesa, estou disputando a ├ígua e essa ├ígua n├úo d├í para todo mundo e negociar. Discutir a necessidade de cada um e ver a possibilidade de atendimento. Isso foi feito aqui. Nacionalmente, se n├úo mundialmente, as melhores solu├º├Áes sempre passam pela aloca├º├úo negociada. ├ë quando se apresentam solu├º├Áes como a capta├º├úo para a agricultura a noite, quando o consumo humano ├® reduzido. A negocia├º├úo ├® uma das estrat├®gias que mais produz efeito.

A segunda estrat├®gia ├® voltada a quem n├úo tem outorga, n├úo vem para a negocia├º├úo e n├úo quer cumprir o que foi negociado. ├ë quando se aplica a fiscaliza├º├úo. Espero que aqui encontremos um ambiente em que as pessoas entendam que se temos um recurso escasso temos de dividir. E para dividir ├® importante que todo mundo participe. Se n├úo quiser participar vai ter de fiscalizado. Sei que isso aconteceu aqui, casos de pessoas que foram notificadas para tirar as bombas. Na terceira vez tiveram de apreender, multar e o que tiveram de fazer.

“Revitaliza├º├úo do Rio Araguaia foi um pedido do governador na conversa que tivemos”

Secret├íria Andr├®a Vulcanis (Secima) em entrevista aos jornalistas Augusto Diniz e Marcelo Mariano | Foto: Fernando Leite/Jornal Op├º├úo

Augusto Diniz – As queimadas nos parques durante o per├¡odo de seca s├úo uma das grandes preocupa├º├Áes. H├í alguma a├º├úo do Ibama ou aplicada no governo do Distrito Federal que tamb├®m pode ser utilizada pela Secima?
Tanto no Ibama quanto no Distrito Federal, onde esse problema ├® muito comum, h├í os planos de emerg├¬ncia com as a├º├Áes de preven├º├úo de fogo. Os brigadistas e toda a estrat├®gia conhecida. Preciso conhecer o que temos aqui para saber se essa estrat├®gia est├í consolidada. No Distrito Federal isso ├® de praxe. H├í um plano que ├® utilizado quando come├ºa um inc├¬ndio, pelo qual se sabe quem acionar, com a├º├Áes bem organizadas.

Marcelo Mariano – H├í ambientalistas que dizem que o cerrado est├í morto. Quais s├úo as pol├¡ticas que a sra. pretende implementar para o cerrado ├á frente da Secima?
Perguntei na semana passada para a equipe da Secima se temos um invent├írio da vegeta├º├úo nativa do Estado. A informa├º├úo que eu tive ├® que n├úo, de que existem alguns invent├írios do Servi├ºo Florestal Brasileiro (SFB), que tem um levantamento. Entendo o assunto pela seguinte perspectiva: quanto temos, qual ├® a nossa meta, quanto queremos de vegeta├º├úo nativa no Estado.

├ë importante termos amostras representativas. Quanto temos de parques conservados? Quanto dos passivos com APPs e reservas legais nos im├│veis rurais precisam ser de fato ativados em recupera├º├úo para que tenhamos a vegeta├º├úo com uma meta definida? Ainda n├úo tive acesso a esses levantamentos. Se tivermos uma defini├º├úo de meta como pol├¡tica de Estado ├® o que teremos de buscar e alcan├ºar.

Augusto Diniz – A sra. chegou a citar em entrevista a necessidade de revitalizar o Rio Araguaia. Que trabalho seria feito?
Isso foi um pedido pessoal do governador na conversa que tivemos. Caiado tem um carinho muito especial pelo Rio Araguaia. ├ë uma coisa do cora├º├úo do governador. Um v├¡nculo. Disse que havia um compromisso, que j├í conversou com o governador do Mato Grosso no sentido de que fosse promovida a revitaliza├º├úo. O que posso dizer ├® que se tem uma realidade de degrada├º├úo naquela regi├úo ├® preciso fazer um diagn├│stico para verificar como ├® poss├¡vel recuperar e quanto isso custa. Lembrando que o Rio Araguaia ├® um rio federal, que o Estado n├úo tem dom├¡nio exclusivo. ├ë preciso haver um entendimento entre o Estado de Goi├ís, Mato Grosso e governo federal para que possamos falar em revitaliza├º├úo de um rio federal.

Augusto Diniz – A sra. disse que recebeu do governador total liberdade para atuar ├á frente da Secima. H├í alguma orienta├º├úo para que haja algum tipo de alinhamento do que for feito na ├írea ambiental com as a├º├Áes do governo federal?
N├úo vejo como fazer isso de forma diferente. A gest├úo ambiental ├® tripartite. A legisla├º├úo estabelece isso. A Lei Complementar n├║mero 140/2011 diz que a legisla├º├úo ambiental ├® de compet├¬ncia concorrente da Uni├úo, dos Estados e dos munic├¡pios. Para isso, a legisla├º├úo criou o que chama de comiss├úo tripartite, em que toda essa legisla├º├úo, como ├® sobreposta, se eu falo de um parque nacional como a Chapada dos Veadeiros, que est├í dentro do Estado de Goi├ís, preciso negociar com a Uni├úo como essa gest├úo vai acontecer. Isso acontece dessa forma.

N├úo vejo como desalinhar com o governo federal. As a├º├Áes que est├úo adotando, como por exemplo o Conama, um ├│rg├úo muito importante que determina resolu├º├Áes e delibera├º├Áes para que os Estados cumpram, precisamos estar l├í dentro, temos assento no Conama e ├® l├í que s├úo negociadas as pol├¡ticas ambientais. Haver├í, certamente, uma aproxima├º├úo com o governo federal. N├úo ├® nem porque queremos, ├® porque ├® necess├írio, ajuste ambiental n├úo se faz sozinho. Em absolutamente tudo precisamos estar alinhados porque sen├úo n├úo funciona.

Havia muita divergência entre Estados e Ibama. Ibama tinha uma política e o Estado tinha outra. Das últimas que acompanhei, o Ibama chega a um Estado e vai fiscalizar e embargar propriedade sem avisar o Estado. Isso não pode acontecer, precisamos estar afinados com o governo federal e com os municípios.

Augusto Diniz – Qual a opini├úo da sra. sobre a decis├úo do governo federal de transferir a demarca├º├úo de terras ind├¡genas e quilombolas da Funai [Funda├º├úo Nacional do ├ìndio] para o Minist├®rio da Agricultura?
Isso ├® muito delicado. Acredito que seja uma decis├úo muito mais pol├¡tica do que t├®cnica. Prefiro n├úo avaliar enquanto n├úo apresentarem resultados. Pode ser que isso funcione ou n├úo.

Marcelo Mariano – Qual a expectativa da sra. em rela├º├úo ├á gest├úo do ministro Ricardo Salles no Meio Ambiente considerando que talvez tenha sido o ministro que mais tenha se envolvido em pol├¬micas no per├¡odo de transi├º├úo pelos processos que responde?
N├úo o conhe├ºo, n├úo conhe├ºo a gest├úo. Nunca tive a oportunidade de trabalhar ou estar mais pr├│ximo com Ricardo Salles. Mas tenho uma grande expectativa com o governo Bolsonaro. H├í uma frase que vem sendo repetida pela equipe do governo que ├® “n├│s n├úo podemos errar”. Isso vem do presidente, passa por todos os ministros. Temos ouvido isso nas entrevistas. Na entrevista do general Augusto Heleno na GloboNews, ele dizia que ├® a grande preocupa├º├úo do governo.

N├úo acredito que os erros v├úo ser tolerados. Espero que tenhamos no governo federal, e isso se reflete para n├│s nos Estados, um objetivo, um resultado a ser entregue sem erros. Temos grandes oportunidades. O ministro vem do Estado de S├úo Paulo, que ├® uma gest├úo ambiental muito complexa. O Estado de S├úo Paulo tem todo tipo de problema na ├írea ambiental. Salles tem uma grande experi├¬ncia e que pode trazer uma grande contribui├º├úo.

Ao contr├írio do ministro das Rela├º├Áes Exteriores, Ernesto Ara├║jo, Andr├®a Vulcanis diz que o aquecimento global ├® um fato: “Eu acredito na ci├¬ncia” | Foto: Reprodu├º├úo

Marcelo Mariano – O novo chanceler brasileiro, Ernesto Ara├║jo, disse uma vez que o aquecimento global ├® uma grande inven├º├úo, um compl├┤ marxista inventado e incentivado pela China. A sra. concorda com o ministro ou acredita que de fato o aquecimento global existe?
Eu acredito na ci├¬ncia. Vacino meus filhos porque acredito na ci├¬ncia. Me submeto a procedimentos m├®dicos porque acredito na ci├¬ncia. E a ci├¬ncia n├úo ├® uma ci├¬ncia brasileira, ├® uma ci├¬ncia mundial, que aponta que as mudan├ºas clim├íticas n├úo s├úo uma inven├º├úo. Andei muito, fui ├á Europa, Estados Unidos, e vemos que de fato h├í toda uma prepara├º├úo, principalmente na Europa isso ├® muito forte, e alguns estados americanos como a Calif├│rnia, se preparam e ├® uma prepara├º├úo muito forte. Vou dar um exemplo muito significativo. No Sul da Fran├ºa, o abastecimento p├║blico ├® feito a partir do degelo das montanhas. Ano a ano aquelas montanhas diminuem a quantidade de gelo, portanto h├í um risco grave de falta de ├ígua para aquelas popula├º├Áes. Tem todo um conjunto de medidas porque eles sabem que, a medida que n├úo tem a ├ígua, a crise econ├┤mica ├® fatal.

Essa ├® uma realidade, mas ├® uma realidade que tem de ser encarada de forma objetiva. No Brasil, isso tem acontecido de duas formas. Em alguns momentos, a estiagem traz grandes secas, e em outros lugares as enchentes causam grande destrui├º├úo, como vimos na regi├úo serrana do Rio de Janeiro. Aquilo realmente causa grande transtorno para as pessoas, para a economia. Precisamos olhar para isso com seriedade. N├úo acredito que isso seja uma conspira├º├úo, uma inven├º├úo n├úo. Vemos na realidade do dia a dia que isso tem acontecido.

Marcelo Miranda – Como a sra. recebeu, ainda durante a transi├º├úo, que o governo Bolsonaro resolveu n├úo sediar a Confer├¬ncia do Clima das Na├º├Áes Unidas neste ano?
Participei de algumas confer├¬ncias. Quando se est├í em um governo de transi├º├úo, n├úo se tem todos os elementos para se fazer uma avalia├º├úo com mais crit├®rio. Acredito que tenha sido uma decis├úo de precau├º├úo. O custo desses eventos ├® alt├¡ssimo para o governo. Tivemos o 8┬║ F├│rum Mundial da ├ügua, que gera um custo alto de investimento. Em uma fase de transi├º├úo, sem estar com a situa├º├úo brasileira resolvida, acredito que houve um temor de que houvesse algum desgaste internacional.

É uma decisão para um momento de transição. Talvez se isso tivesse acontecido nos primeiros meses do governo, o tempo da decisão pudesse ser outro. Foi em um momento de transição, no qual não se tem todos os elementos, não está com a política do Estado brasileiro definida.

Marcelo Mariano – Se o Brasil sair do Acordo de Paris, a sra. considera que ser├í algo positivo ou negativo?
Acho bem improdutivo. Porque o Brasil s├│ tem a ganhar. Brasil tem uma situa├º├úo diferente dos Estados que produzem muitas emiss├Áes e que t├¬m um d├®ficit que s├úo submetidos a uma situa├º├úo que saem perdendo, o Brasil s├│ sai ganhando. Nosso Pa├¡s tem de usar o Acordo de Paris como uma oportunidade. Temos baixa emiss├úo, que vem especialmente do desmatamento. N├úo precisamos continuar desmatando no Brasil porque n├│s temos ├íreas improdutivas.

S├│ na Amaz├┤nia tem um Estado de S├úo Paulo inteiro de ├írea improdutiva que pode entrar em produ├º├úo. Para n├│s ├® muito f├ícil nos mantermos no Acordo de Paris e transformarmos isso em um ativo para o Brasil porque n├úo precisamos desmatar. Se estiv├®ssemos falando de uma realidade em que fosse preciso desmatar e abrir ├írea porque ├® preciso produzir e gerar economia, mas essa n├úo ├® a nossa realidade.

Nossa realidade ├® que podemos aproveitar, aumentar nossa produtividade das ├íreas j├í abertas. Temos v├írias alternativas. E nosso compromisso como meta ├® reduzir desmatamento. Isso para n├│s ├® muito f├ícil, podemos usar como um ativo.┬áJ├í a maioria dos outros pa├¡ses n├úo, precisam resolver os passivos deles. Est├úo em uma situa├º├úo oposta a nossa.

Marcelo Mariano – H├í quem argumente que uma pessoa aderir a uma dieta vegetariana, em especial vegana, seja favor├ível ao meio ambiente no sentido de diminuir ou tentar incentivar a redu├º├úo do desmatamento. A sra. concorda com esse tipo de argumento?
N├úo se desmata para poder comer ou deixar de comer, mas porque as ├íreas se tornam economicamente mais vi├íveis do que com a floresta em p├®. Temos pouco desenvolvimento cient├¡fico e tecnol├│gico para que a vegeta├º├úo nativa produza economicamente pelo menos em equival├¬ncia com as ├íreas abertas. Essa ├® a quest├úo. Louvo os veganos. ├ë uma vis├úo de mundo muito bonita, mas nossa realidade est├í um ponto ainda antes dessa. Estamos no processo econ├┤mico de como que faremos a floresta em p├® valer dinheiro em equival├¬ncia ├ás ├íreas abertas para que possamos otimizar isso e ter essa situa├º├úo mais equilibrada.

Marcelo Mariano – Como fazer para incentivar uma dieta desse tipo em um Estado em que a cultura da carne ├® t├úo forte como em Goi├ís? ├ë poss├¡vel fazer isso?
Acho muito dif├¡cil. No estado atual da nossa civiliza├º├úo, temos os veganos de um lado, que olham para os animais e para o ambiente, reciclam seus res├¡duos ou que adotam mais do que a reciclagem, nem produzem res├¡duos, at├® aqueles que est├úo no extremo oposto produzindo efluentes e res├¡duos dizendo “eu quero ganhar dinheiro e voc├¬s que fiquem com o preju├¡zo ambiental”.

Estamos em um momento, e quando havia escravid├úo era muito isso, aqueles que eram radicalmente contra e aqueles que eram radicalmente a favor. Na quest├úo ambiental essa ├® a nossa realidade. Nesse momento, entendo que precisamos trazer isso para o meio. Qual ├® o equil├¡brio? Porque temos duas vis├Áes de mundo absolutamente opostas e absolutamente diferentes. Enquanto gestores ambientais, enquanto Estado brasileiro, precisamos trazer essa vis├úo para o meio, o que ├® o razo├ível, nem ├® o extremo de l├í ou de c├í.

O que eu acho, ├® uma suspeita, ├® que a civiliza├º├úo humana caminha mais para o lado de l├í [vegano] do que para o lado de c├í [consumo desenfreado], de continuar produzindo efluentes, de continuar publicizando os danos e recolhendo os benef├¡cios e os lucros. A suspeita que tenho ├® que nossa tend├¬ncia enquanto civiliza├º├úo ├® ter uma rela├º├úo mais harm├┤nica com a natureza. Mas o nosso momento agora ├® de trazer as coisas para um centro de equil├¡brio.

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