“Temos claramente uma onda populista autoritária de direita, quase fascista”

Estudioso do neopopulismo, presidente estadual do PSD classifica o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como representante do populismo surgido como resposta à crise dos líderes populistas de esquerda

Presidente estadual do PSD, ex-deputado federal Vilmar Rocha | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Ex-deputado estadual, federal, presidente do PSD em Goiás, professor de Direito Constitucional e estudioso do chamado neopopulismo, Vilmar Rocha diz que a onda populista de esquerda que surgiu na América Latina no início dos anos 2000 deu lugar a um populismo autoritário de direita. “O populismo é uma estratégia para chegar ao poder e se manter. Não tem conteúdo ideológico, pode ser de esquerda ou de direita.”

Assim como vê nos ex-presidentes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff perfis de políticos populistas, Vilmar Rocha identifica em Jair Bolsonaro (sem partido) o populismo da nova onda de direita que surgiu no mundo. “O que é o populismo? É aquela pessoa que vende para a população soluções fáceis para problemas complexos. Promete coisas que não pode entregar”, descreve.

Euler de França Belém – O sr. esteve no Chile recentemente. Como o sr. interpreta a crise naquele país: é uma crise do Chile ou que está atingindo a América Latina?
Vou uma vez por ano ao Chile. Tenho um amigo [Gutenberg Martínez Ocamica] que foi presidente da Câmara dos Deputados, foi presidente do PDC na época em que o partido era uma instituição e hoje é reitor da Universidade Miguel de Cervantes.

Estive no Chile em janeiro, após a posse de Jair Bolsonaro no Brasil, e ministrei uma palestra em um seminário internacional sobre a realidade política do nosso país. E gravei um podcast para a Fundação Espaço Democrático sobre se é possível repetir no Brasil o que tem ocorrido no Chile. Disse que sim. Não é impossível, mas é pouco provável.

O que ocorreu no Chile chama-se desigualdade. O Estado chileno estava bem: inflação baixa, 4% de crescimento do PIB, país fiscalmente equilibrado, mas o povo mal. E a desigualdade continua muito forte na América Latina como um todo. Uma das causas centrais das revoltas é a desigualdade.

Ton Paulo –O sr. ministrou uma palestra em São Paulo para falar sobre seu livro, “O Fascínio do Neopopulismo”, e falou sobre nomes que têm despontado como populistas na extrema direita e que mostram mais autoritários. O sr. pode explicar isso melhor?
Lancei o livro “O Fascínio do Neopopulismo” em 2007 no Castro’s Park Hotel. Euler estava lá. Me lembro com grande satisfação que estava sem mandato, na planície, isolado. Mandei os convites. 205 pessoas foram. Quatro senadores, oito deputados federais e dois governadores.

Rodrigo Maia (DEM-RJ), atual presidente da Câmara, estava lá. Um político chamada Ronaldo Caiado (DEM), não sei se vocês já ouviram falar, na época era deputado federal. Até me admirei porque andava brigado com Caiado, e o agora governador esteve no lançamento. A senadora Kátia Abreu (PDT-TO), o senador Jorge Bornhausen (DEM). Foi um sucesso.

Em 2007, qual era o panorama político na América Latina? Em 2000, Hugo Chávez foi eleito na Venezuela. Depois vieram Evo Morales e outros. Tinha uma onda neopopulista na América Latina. O atual presidente do México, [André Manuel] López Obrador, foi candidato duas vezes antes de ser eleito. Em uma delas chegou perto de ganhar. E com retórica populista, pois trata-se de um político claramente populista.

No Peru, OllantaHumala, que hoje está preso, tinha uma retórica extremamente populista. Evo Morales, os Kirchner na Argentina, [Luiz Inácio] Lula [da Silva], que é uma liderança claramente populista. Existia uma onda de populismo na América Latina, sobre a qual fiz uma análise. Doze anos depois, o populismo em muitos lugares se arrefeceu. Não desabrochou.

Os populistas sempre terminam mal. Veja a história do Brasil: Getúlio [Vargas], [Fernando] Collor, Jango [João Goulart], Jânio [Quadros]. Lula e Dilma Rousseff. Terminar mal é algo recorrente. Temos agora o caso de Evo Morales. Dizem que o ex-presidente da Bolívia representa os índios. Mario Vargas Llosa publicou na semana passada no Estadão que Evo não é indígena, mas sim um mestiço. Foi uma retórica usada.

Estamos vendo agora uma onda populista de direita no mundo. O populismo é uma estratégia para chegar ao poder e se manter. Não tem conteúdo ideológico, pode ser de esquerda ou de direita.

Rodrigo Hirose – Jair Bolsonaro é populista?
É claramente populista. Chegou ao poder em uma onda populista. O populismo tem níveis, intensidades e características diferentes. O que é o populismo? É aquela pessoa que vende para a população soluções fáceis para problemas complexos. Promete coisas que não pode entregar. Num determinado momento, cria um fascínio nas massas, que normalmente estão em crise, e dizem “este cara vai nos salvar”. E não salva, porque a vida não é assim. É quando os regimes populistas entram em crise.

Temos hoje claramente uma onda populista, não na América Latina, mas mundial, de um populismo autoritário de direita quase fascista. Não sei se já leram um livro da Madeleine Albright, “Fascismo: um alerta”. Um livro muito bem escrito, com linguagem fácil, embora Madeleine seja professora da Universidade de Georgetown. Mas foi secretária de Estado. Ela tem uma visão acadêmica, mas cita a conversa que teve com os líderes políticos. [Recep Tayyip] Erdoğan na Turquia, Donald Trump nos Estados Unidos, Viktor Orbán na Hungria, Vladimir Putin na Rússia, Kim Jong-un na Coreia do Norte e outros.

O livro diz “cuidado” e os chama de quase fascistas. Madeleine ensina no livro a identificar um fascista e diz que o principal perfil é o do valentão. É o político que acredita que resolve as coisas no grito, na força.

Rodrigo Hirose – Por que quase fascista? O que falta para ser fascista?
O fascismo tem de ter muitas características. Não é só um fator. Quando vemos um líder valentão, essa seria uma das características, que acha que resolve as coisas no grito, no tapa, com a força. Um democrata, ao contrário, tem de exercitar o diálogo. Precisamos tirar melhor o conteúdo da palavra diálogo.

Ton Paulo – O sr. disse que os populistas têm um destino ruim. O sr. acredita que o presidente Bolsonaro pode ter o mesmo destino?
Pode ter. Depende se Bolsonaro irá aprofundar esse populismo. Se vai querer aprofundar e se terá condições objetivas no Brasil para isso.

Euler de França Belém – O sr. não acredita que há uma contradição entre o que Bolsonaro diz e o que faz?
O populismo não igual em todos. Tem classificações e intensidades. O cientista político mexicano Enrique Krause define dez características do populismo. Uma delas é que o líder populista tem de manter sua base permanentemente mobilizada. Bolsonaro faz isso. Quando não tem assunto nenhum, o presidente inventa um assunto. Hoje a briga é com o ator Leonardo DiCaprio.

Outra característica do populismo é a necessidade de ter um inimigo interno ou externo. Na medida em que tem um inimigo, o populista caracteriza o mal. Ele é o bem contra o mal. Isso unifica a sua base política e discurso. No caso específico do Bolsonaro, as duas características são presentes. Mas acredito que não haverá uma ruptura institucional no Brasil. Porque temos instituições fortes e muito sólidas.

A primeira instituição é a imprensa, que é independente, forte, diversificada. O populista tem de dominar, controlar ou tutelar os meios de comunicação. Não é o caso específico do Brasil, mas é uma das características do populismo. Como o populista vai comunicar com a sua massa? Hoje isso mudou um pouco por causa das redes sociais. E usa de forma profissional a comunicação de forma bem feita e inteligente.

A imprensa e o Congresso no Brasil têm determinada independência. O Poder Judiciário está bem estruturado. Pode cometer erros em decisões, mas é bem estruturado. Citam o fato de as Forças Armadas estarem no governo. Mas as Forças Armadas estão em outra. Não vejo risco de uma ruptura institucional. Bolsonaro não terá força para realizar uma ruptura. Vai falar em AI-5 e outras coisas para manter sua base unida. Não acredito em uma ruptura.

“Bolsonaro é claramente populista. Chegou ao poder em uma onda populista”

“O cientista político mexicano Enrique Krause define dez características do populismo. Uma delas é que o líder populista tem de manter sua base permanentemente mobilizada. Bolsonaro faz isso. Quando não tem assunto nenhum, o presidente inventa um assunto. Hoje a briga é com o ator Leonardo DiCaprio” | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Euler de França Belém – Mas é estranho o filho [deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)] e o ministro da Economia falarem em AI-5.
Augusto Diniz – E o próprio ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, o general Augusto Heleno, também citou o AI-5. Isso preocupa o sr.?
Incomoda, é inadequado. Mas é retórica dentro da estratégia de manter a base mobilizada e unificada.

Euler de França Belém – Pode ser para assustar os movimentos sociais pelo o que tem ocorrido no Chile?
Não. É mais um discurso para a sua base eleitoral. Não sinto, não há clima no País institucional nem político para isso. Sempre existiu uma direita ou uma extrema direita no Brasil. Era disfarçada e difusa em outros partidos e na sociedade. Bolsonaro criar agora este partido [Aliança pelo Brasil] claramente conservadore de direita. Por incrível que pareça, é uma contribuição à democracia porque dará voz e representatividade a um segmento ideológico da sociedade brasileira, que é de direita ou extrema direita conservadora.

Só que o partido do Bolsonaro terá 15% do eleitorado. É minoritário. Assim como a extrema esquerda é minoritária. Hoje quem é da extrema esquerda é o PSOL, não é o PT. O PT é um partido de centro esquerda, um partido social democrata.

Augusto Diniz – PT nunca chegou a ser um partido de extrema esquerda, nem mesmo na sua fundação. Chegou a ser em algum momento?
Não. Pode ter usado uma retórica em algum momento, mas não foi.

Euler de França Belém – O que o sr. pensa sobre a criação do partido do Bolsonaro, que tem uma ideia de movimento de continuidade?
Os partidos políticos no Brasil são muito desgastados. São desconectados das pautas da sociedade, da pessoa comum. Acresce-se a isso que estamos vivendo uma crise, não só no Brasil, no mundo todo da democracia representativa. Só tem uma coisa: o que colocar no lugar da democracia representativa? Não temos o que colocar. Temos de aperfeiçoar esse mecanismo.

Pouca gente sabe, mas participei nos bastidores da campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB) antes de o ex-governador de São Paulo se tornar candidato. Uma de nossas ideias era a de criar um movimento. Porque o movimento é mais amplo, agrega mais forças e tira a característica de ser um partido. Mas não funcionou. Não deu certo.

É muito comum líderes populistas fazerem esse tipo de movimento. Um exemplo é o movimento popular Jânio Quadros. Era um movimento. Agregava muitas forças que convergiam. De qualquer forma, é bom identificar que determinado partido ou movimento tem um conteúdo de direita conservadora.

PT está procurando todos os partidos de centro. Só que os partidos estão bem cautelosos porque o PT hoje é meio tóxico.

Augusto Diniz – É uma tentativa de anular o Ciro Gomes (PDT) ou de viabilizar um projeto eleitoral?
Acredito que para viabilizar um projeto eleitoral.

Rodrigo Hirose – Não chega a ser uma novidade, porque o PT veio com o MDB. Esteve em 2018 com Renan Calheiros (MDB). Significa que se trata de um partido pragmático.
Quando fizeram a Carta ao Povo Brasileiro, foi para isso. É um partido pragmático que sempre busca a hegemonia do PT. Faz aliança com outros partidos, mas quem manda é o PT.

Rodrigo Hirose–O sr. citou todos os presidentes eleitos a partir da redemocratização como populistas. Por que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) não está na lista?
Não entendo Fernando Henrique Cardoso como populista. Se pegarmos a classificação dos líderes populistas, FHC não encaixa. Outro exemplo é Juscelino Kubitschek. Não foi um líder populista, foi um líder popular.

Ton Paulo – O governador Ronaldo Caiado é populista?
Caiado tem sintomas de populista. No seu discurso e na sua atuação política, Caiado tem sintomas de populista.

Italo Wolff – Como o sr. interpreta a forma como a onda populista de direita tem atingido Goiás?
Goiás é uma sociedade muito conservadora. A formação da maioria das pessoas é conservadora. E pode ter, aqui ou ali, tendências populistas. Muitas vezes os líderes populistas chegam ao poder em determinados momentos de crise profunda na sociedade, seja ética, econômica, financeira. Foi o que ocorreu com Collor e Lula em 1989. O Estado brasileiro estava destruído pela inflação depois do governo José Sarney (MDB). Esse é um campo fértil para surgir esses líderes.

A mesma coisa ocorreu agora. Fui colega de Bolsonaro por 20 anos como deputado federal. Ninguém pensava que Bolsonaro um dia pudesse chegar à Presidência da República. Chegou em função de um momento político histórico de crise, do antipetismo. E isso se repetiu em muitos Estados do Brasil. As pessoas foram eleitas em função daquele momento.

Nossa grande dúvida com relação a 2022 é se no eleitorado ainda estará o mesmo espírito ou se voltará ao bom senso e escolherá nomes responsáveis, equilibrados e mais comprometidos com o centro político e não com os extremos.

Augusto Diniz – Vimos parte do debate eleitoral de 2018 ser retomado a partir da soltura do Lula com a decisão do STF [Supremo Tribunal Federal] a respeito da prisão após condenação em segunda instância. Como essa decisão pode fazer com que o assunto volte a se intensificar?
O Congresso Nacional apoiará uma emenda constitucionale não a mudança do Código de Processo Penal retornando a condenação em segunda instância. Do ponto de vista político, por incrível que pareça, a soltura do Lula será ruim politicamente para o ex-presidente e o PT.

Augusto Diniz – Bolsonaro se fortalece nesse contexto?
Um pouco. Mas será ruim para Lula porqueenquanto estava preso mantinha o mito do líder político preso. Nas ruas, Lula pode ter se surpreendido por só poder falar e circular dentro de sua base política. Lula não tem tido condições de ir ao povo, à sociedade. E gira apenas na base de apoio.

Ton Paulo – Como Lula está inelegível, quem o sr. acredita que o PT deva lançar em 2022?
Não sei quem o PT pode lançar. Possivelmente Fernando Haddad. Mas Haddad tem o carimbo de um líder político sem personalidade.

“Sergio Moro, um juiz que hoje está julgando, e amanhã é político, eu discordo disso”

“Se estivesse no lugar do Sergio Moro, eu não aceitaria ser ministro no governo seguinte contra aqueles que eu estava julgando” | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Rodrigo Hirose – A tendência para 2022 é a continuidade da polarização entre os dois grupos?
Vai continuar, mas estamos formando um conjunto de lideranças, forças e partidos de centro. Estamos trabalhando, reunindo e articulando para que possamos apresentar um projeto político para o País em 2022.

Ton Paulo – Um projeto alternativo?
Um projeto de centro. O que nos falta hoje é um nome para conduzir esse projeto. Lá atrás, conseguimos o Fernando Henrique. Dias atrás, estive com o Fernando Henrique em São Paulo na casa do ex-presidente. Foi uma excelente conversa. Brinquei que estávamos atrás de outro Fernando Henrique, mas que estava difícil encontrar.

Naquela época, Fernando Henrique era considerado um nome de esquerda. E nós, do glorioso PFL, fizemos uma aliança, demos a ele governabilidade e sustentamos aquele projeto de reformas da economia e da sociedade. Foi uma aliança PFL-PSDB.

Ton Paulo – Rodrigo Maia seria um nome de centro?
Acredito que sim.

Augusto Diniz – Mas seria um nome com força eleitoral?
Isso. Temos de ver a densidade eleitoral. Alckmin era um nome claramente de centro com experiência, mas não tinha densidade eleitoral. Temos outros nomes circulando. Nosso projeto político para 2022 é identificar o nome politicamente qualificado e com potencial eleitoral para apoiarmos e eleger presidente da República.

Um nome de centro que possa conduzir novas reformas, conduzir o País com equilíbrio, com diálogo. Uma pessoa comprometida com a democracia, com o Estado democrático de direito, com as liberdades e fazer as reformas que o Brasil precisa.

Augusto Diniz – O sr. disse que o Congresso tende apoiar a PEC que foi aprovada na CCJ da Câmara, que muda o inciso 57 do artigo 5º da Constituição Federal, para tornar possível a prisão após condenação em segunda instância. Essa mudança não pode ser considerada uma medida que venha a ferir uma cláusula pétrea?
Pode. O artigo 5º, que é cláusula pétrea, diz que o sujeito só pode ser preso depois de condenado e a sua sentença transitada em julgado, ou seja, depois de todos os recursos. Mas pode se alterar o processo judicial. Por exemplo, acabar com os recursos, reduzir o prazo dos recursos. Isso é possível. Admitamos uma hipótese: se o sujeito é condenado em segunda instância e tivesse uma regra que em 60 ou 90 dias deveria ter uma decisão de terceira instância no STJ [Superior Tribunal de Justiça] estava resolvido o problema.

Augusto Diniz – Não seria necessário modificar o trânsito em julgado. Modificaria o momento em que se estabelece o início do cumprimento da pena.
Manteria o trânsito em julgado. O grande problema da segunda ou terceira instância é que entre uma e outra são tantos recursos que pode demorar anos. Esse é o problema. Só esse.

Rodrigo Hirose – E quando falam em elaborar uma nova Constituição?
Não vejo possibilidade. O constituinte de 1988 se sentiu inseguro e colocaram a previsão de uma revisão constitucional cinco anos depois. O constituinte se inspirou na Constituição portuguesa, que previa uma revisão e realizou. Em 1993, eu estava na Câmara quando foi realizada a revisão da Constituição. Nelson Jobim, que tinha sido nosso colega na Comissão de Constituição e Justiça, foi designado para ser o relator da revisão constitucional.

Jobim montou uma estrutura grande para realizar o trabalho. Eu mesmo o ajudei muito. Inclusive apresentei uma emenda para instituir o voto facultativo no Brasil. Foi uma das poucas emendas que foi a voto na revisão constitucional. E nós perdemos. O voto continuou obrigatório. Mas aquela revisão se frustrou. Não foi realizada.

E de lá para cá, não se falou mais em uma revisão. Não vejo a médio prazo nenhuma possibilidade de uma nova constituinte ou de uma nova revisão constitucional. Chegará um determinado momento em que nós teremos de fazer uma revisão constitucional. Revisão, não uma nova constituinte, até para ordenar melhor a Constituição. Já temos mais de cem emendas.

Engraçado que as mais de cem emendas não mexeram com o coração da Constituição. Modificaram várias partes da Carta Magna, mas são emendas adjetivas. A Constituição de 1988 foi um pacto político importante feito no Brasil. Me lembro que, na época, era deputado estadual e professor de Direito Constitucional e nos referíamos muito sobre a necessidade de se fazer no Brasil um novo pacto igual ao de Moncloa.

Em 1984 e 1985, fizemos uma transição bem-feita, uma grande engenharia política. Participei diretamente da transição. Mas foi apenas política a transição. A Constituição de 1988 foi mais ampla. O Pacto de Moncloa, que é responsável pela transição na Espanha, é político, econômico e social. As forças econômicas e políticas participaram. Vamos continuar a fazer emendas constitucionais até chegar a um momento em que teremos de fazer uma revisão constitucional. Nova constituinte acredito que seja pouco provável.

Augusto Diniz – A discussão sobre a prisão após condenação em segunda instância levantou um discurso de que a Constituição de 1988 seria muito garantista. Por que surgiu essa linha de análise da Carta Magna?
A Constituição de 1988 é democrática e estabeleceu as bases de um Estado de direito democrático. Não garantista. Cada um dá a interpretação que queira dar. O grande problema de centro é que todos são a favor do combate à corrupção. Mas para combater a corrupção é preciso passar por cima de direitos e garantias que estão previstas na Constituição? Podemos sim combater a corrupção seguindo as garantias individuais que estão na Constituição.

É a lógica do combate ao terrorismo. Há quem diga que para se combater o terrorismo tem de se fazer tortura. Não concordo. Você pode e deve combater o terrorismo sem fazer tortura. O que houve em 1964 foi um dos grandes erros, talvez o erro central: não foi combater os comunistas, processar e prender, mas matar e torturar. Em muitos casos desconsideraram direitos individuais do devido processo legal.

Rodrigo Hirose – O sr. acredita que a Lava Jato fez isso?
Em algum momento fez. É público e notório que fez.

Augusto Diniz – Quando colocamos na balança o que a Lava Jato trouxe de benefícios e as práticas que trouxeram malefícios, o que veio de bom e o que ficou de ruim?
Se colocarmos na balança, vejo muito mais benefícios.Foi muito importante a operação para o País do ponto de vista processual, jurídico e político. Mas não podemos dizer que não houve nada de errado. Houve sim. Há arranhões a direitos e garantias individuais. Mas o balanço é muito mais positivo.

Augusto Diniz – Como o sr. vê o simbolismo e a figura do ex-juiz e ministro Sergio Moro?
Se eu tivesse que dar uma nota para o Sergio Moro na atuação enquanto juiz, daria 8 ou 9 para mostrar que avalio como positiva. Teve alguns arranhões. Sergio Moro, um juiz que hoje está julgando, e amanhã é político, eu discordo disso. Mesmo que não tenha tido nada, passa uma impressão, uma percepção de que Moro usou da condição de juiz para fazer a transição para o processo político.

Se estivesse no lugar do Sergio Moro, eu não aceitaria ser ministro no governo seguinte contra aqueles que eu estava julgando. Hoje temos em algumas funções relevantes da área pública a quarentena. Por exemplo, se você é presidente do Banco Central ou diretor de uma agência reguladora, por lei, você tem de ficar seis meses recebendo o seu salário de quarentena e só depois pode ocupar uma função pública. Isso existe para evitar que você deixe um cargo hoje com informações privilegiadas e amanhã esteja no mercado usando as mesmas informações.

Estabeleço essa comparação com o posicionamento do Sergio Moro. Como hoje eu sou juiz e amanhã – não é depois de amanhã – eu sou político. Deveria ter no mínimo uma quarentena. Moro pode, inclusive, não ter feito nada de errado. Não é isso. Mas passa uma desconfiança. Eu não faria isso. Deveria te no mínimo uma transição.

Euler de França Belém – Essa desconfiança não é do sr.? Porque as pesquisas mais recentes mostram que as pessoas estão inteiramente satisfeitas com Moro.
Pode até ser.

Euler de França Belém – No levantamento realizado pela FSB e publicado pela Veja, Moro é o único político que pode derrotar Bolsonaro em 2022.
Eu sei. Pode ser até uma percepção minha, mas mantenho essa análise.

Euler de França Belém – Na interpretação do povo, a percepção não é de Moro como um político, acreditam que o ex-juiz não se tornou político por ter ido para o Ministério da Justiça e da Segurança Pública.
Pode até ser a percepção popular, mas não é bem assim.

“Dias atrás, estive com o Fernando Henrique em São Paulo na casa do ex-presidente. Foi uma excelente conversa. Brinquei que estávamos atrás de outro Fernando Henrique, mas que estava difícil encontrar”

“Naquela época, Fernando Henrique era considerado um nome de esquerda. E nós, do glorioso PFL, fizemos uma aliança, demos a ele governabilidade e sustentamos aquele projeto” | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Augusto Diniz – Como o sr. percebe essa preferência da população pelo nome de Sergio Moro? O que seria Moro pré-candidato a presidente em 2022?
Do ponto de vista popular, Moro seria muito forte. As pesquisas indicam isso.

Ton Paulo – O sr. concorda com a tese levantada recentemente de que Moro estaria se apequenando enquanto ministro, uma vez que o presidente tem interferido na atuação do ex-juiz no governo, inclusive com a indicação de cargos de chefia na Polícia Federal?
Acredito que não. Moro não tem força política para conduzir de forma eficaz reformas e uma pauta na Justiça e na Segurança. E o Ministério da Justiça, historicamente, é um ministério de Estado, não é de governo. É igual ao Ministério de Relações Exteriores. No Ministério da Justiça, o ministro tem uma precedência protocolar porque foi o primeiro ministério que existiu no Brasil. Falta a Sergio Moro força política, história. Quando se tem um ministro que tem um peso jurídico, histórico ou político, o presidente nomeia o ministro e o ministro escolhe os seus auxiliares.

Já há quem acredite que se Bolsonaro for candidato a reeleição em 2022 com Moro de vice, a chapa será eleita no primeiro turno. Moro está forte, esta é a percepção popular, mas não acredito institucionalmente adequado uma pessoa ser um dia juiz e no outro dia ministro.

Euler de França Belém – O que o sr. quer é uma pureza que não existe em lugar nenhum. É a pureza que cobramos dos outros, mas não cobramos de nós.
Do ponto de vista institucional, a pessoa é juíza hoje julgando casos específicos de uma pare do processo político. Se Moro não tivesse sido específico desse caso e fosse um juiz, ainda vá lá. Mas era o juiz específico desse caso contra uma parte. E no outro dia Moro está na outra parte?

Euler de França Belém – Não concordo. Olha o risco que Moro correu ao deixar o cargo de juiz. Ninguém quer deixar cargo. Mostrou, na minha opinião, ser um grande homem público. Largou um cargo de juiz no qual estava consagrado. A pouco iria a desembargador. Talvez depois ministro do STJ [Superior Tribunal de Justiça] ou do Supremo. Percebo que o brasileiro, cansado de todas as mazelas, o apoia.
A população apoia.

Euler de França Belém – Enquanto isso, estamos naquela de querer bancar os puros da aldeia.
Não é querer ser puro. Não quero ser puro. Estou dando um fato concreto da realidade política e institucional. Deveria ter pelo menos uma quarentena. Não é próprio que um juiz que julga um caso hoje amanhã, não é depois de amanhã, esteja na posição.

Augusto Diniz – Quando o sr. se referiu ao PFL, que depois virou o DEM, o sr. disse “o glorioso PFL”.
Criamos a Frente Liberal em 1984. A Frente Liberal foi importante para fazer a transição democrática no Brasil. Foi aquela dissidência do PDS, que se aliou com o PMDB, impediu a eleição do [Paulo] Maluf [hoje no PP] e elegeu Tancredo Neves. Depois, quer na Constituinte, quer no governo Fernando Henrique, o PFL – que era um partido grande, maior do que PSDB, chegou a ter mais de cem deputados federais – foi uma base importante para fazer as reformas do governo Fernando Henrique.

O PFL ajudou a fazer a transição política e as reformas. Me lembro que muitas vezes na Comissão de Constituição e Justiça, no período das reformas, o grau de coesão do PFL na votação era maior do que a do PSDB. Pouca gente sabe, mas eu fui o relator da PEC da quebra do monopólio do petróleo. Não na Comissão Especial, na Comissão de Constituição e Justiça.

O governo mandava uma PEC, que ia para a Comissão de Constituição e Justiça para fazer a admissibilidade. Era quando se dava o primeiro e o verdadeiro debate. Ao ser admitida, a PEC ia para uma comissão especial julgar o mérito. Fui relator na admissibilidade da quebra do monopólio do petróleo.

Tem um fato que vou colocar no meu livro de memórias. Aprovamos na CCJ a PEC, foi para a Comissão Especial e foi marcado para julgar no plenário em um determinado dia. Na reunião da Executiva Nacional do PFL, disse “sr. presidente, srs. amigos”. Estavam Antônio Carlos Magalhães, Marco Maciel, a turma toda. “Quero comunicar que não estarei aqui no dia da votação da PEC da quebra do monopólio do petróleo no plenário.” Neste dia, meu filho que fazia high school nos Estados Unidos ia se formar.

Nos Estados Unidos, fazem uma festa de formatura de segundo grau. Gostam disso. E é meu filho mais velho. “Já comprei passagem.” Jorge Bornhausen: “Vilmar, faço um apelo a você. Você não pode ir. Vai ser muito difícil a votação e nós podemos perder.” Cancelei a viagem e fiquei para a votação. Almino Afonso (PSDB-SP) e outros tucanos votaram contra. O pessoal mais à esquerda do PSDB votou contra a emenda.

E o PFL veio inteiro a favor. Chegamos a ter na Câmara 105 deputados federais. Maior do que a bancada do PSDB.

Augusto Diniz – Quando a força do PFL começou a ruir e houve a necessidade da mudança de nome?
São dois momentos de enfraquecimento do PFL. O primeiro foi que resolvemos fazer uma transição de geração quando foi criado o DEM. Saímos todos os antigos dirigentes do PFL e passamos para os novos. Só que os novos não deram conta de manter e conduzir o partido do tamanho que estava. Houve uma série de problemas internos.

O problema na base de sustentação do governo Fernando Henrique começou lá atrás. O partido se dividiu, saiu da base, ficou pela metade. Mas durante quase todo o tempo, o partido teve uma coesão muito grande a favor das reformas econômicas que foram importantes e melhoraram o Brasil, como foi o caso do Plano Real.

Euler de França Belém – Agora também com a atuação do DEM de apoio ao governo.
DEM também está apoiando o governo. Embora seja um apoio pela metade.

Euler de França Belém – É um apoio crítico, mas nas reformas o DEM está bem posicionado.
Mas na questão das reformas todos os partidos estão [apoiando], inclusive o PSD. Uma coisa boa que ocorreu foi o posicionamento do Bolsonaro em relação ao Congresso. Isso fortaleceu o Congresso. Como o presidente não tem uma base que o segue para valer, deu protagonismo à Câmara, como foi o caso da Reforma da Previdência e uma série de outras matérias que o presidente manda e o Congresso derruba.

Augusto Diniz – Até que ponto ter dois ministros do DEM no governo Bolsonaro faz com que o DEM se comprometa com a gestão?
Hoje o maior nome do DEM no plano nacional é o [presidente da Câmara] Rodrigo Maia (RJ). Vemos que Maia apoia, mas não se compromete completamente com a pauta do governo. É um apoio crítico, distante.

Euler de França Belém – Maia está indo muito bem.
Está indo bem.

“Como o presidente não tem uma base que o segue para valer, deu protagonismo à Câmara”

“Hoje o maior nome do DEM no plano nacional é o [presidente da Câmara] Rodrigo Maia (RJ). Vemos que Maia apoia, mas não se compromete completamente com a pauta do governo” | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Euler de França Belém – Francisco Jr. é pré-candidato a prefeito de Goiânia pelo PSD. Foi um bom presidente da Câmara de Goiânia e um deputado estadual atuante. É deputado federal há pouco tempo. É um político jovem, bem informado. Poucos políticos estudam tanto a cidade quanto Francisco Jr.. Qual a possibilidade de um candidato que projeta uma cidade planejada disputar uma eleição com um político populista como Iris Rezende (MDB), que já foi governador duas vezes, senador, prefeito quatro vezes? Como derrotar um símbolo da cidade e do Estado?
Não é fácil. Por isso que todas as pesquisas mostram Iris como favorito. Mas concordo com tudo o que você disse. Francisco Jr. tem qualificação, tem uma proposta moderna, trabalha a ideia da cidade inteligente. Uma cidade inteligente não é necessariamente tecnológica. A tecnologia pode ajudar como parte de uma cidade inteligente. Mas não é só.

A agenda administrativa do Iris é uma agenda tradicional: fazer obras. Vamos ver como a população de Goiânia, que sempre foi muito independente, vai julgar isso em 2020. Nós, que temos um perfil não populista, temos dificuldade de ter bons resultados eleitorais. Pode se ter uma densidade política, mas não tem uma densidade eleitoral. Me vejo um pouco assim.

Do ponto de vista eleitoral, quem tem uma proposta mais populista leva vantagem, porque atinge mais as pessoas. Mas isso depende de momentos, circunstâncias. Vamos ver como estará o humor da população em setembro do ano que vem.

Rodrigo Hirose – Todo mundo sabe como é Iris enquanto prefeito. Quando a pessoa vota no emedebista, não espera nada diferente do que tem feito agora. Francisco Jr. ainda não tem uma experiência no Executivo e tem uma proposta mais conceitual. O eleitor tem disposição de trocar o certo pelo conceitual?
Essa que é a questão. O que é mais importante para a população de Goiânia: fazer os viadutos, que são importantes, melhoram o trânsito, ou fazer uma intervenção forte e melhorar o transporte coletivo da cidade? Fazer os viadutos e trincheiras ou fazer uma intervenção forte na saúde básica? Todas as pesquisas feitas em Goiânia apontam o problema do transporte, sobretudo o transporte coletivo, e a saúde básica. É isso que tem de ser colocado e discutido.

Rodrigo Hirose – É isso que o PSD pretende levar à discussão?
O discurso do nosso candidato tem de ir nessa direção.

Augusto Diniz – Mesmo com todos os pontos colocados a favor de uma pré-candidatura de Francisco Jr., há uma discussão sobre a ida do senador Vanderlan Cardoso (PP) para o PSD. Como está o contato do Vanderlan com o PSD?
Acredito que teremos seis a oito candidatos a prefeito em Goiânia. Teremos um do MDB, outro do PT, um do PSD e outros partidos vão lançar candidato.

Euler de França Belém – O sr. acredita que o PSDB lance candidato a prefeito?
Acredito que sim. São esses os partidos que têm interesse em ter candidato, de seis a oito. Nossa estratégia é levar Francisco Jr. para o segundo turno. Acredito que teremos segundo turno e acho que o deputado federal tem chance de ir para o segundo turno. Segundo turno é outra eleição.

Augusto Diniz – E a aproximação do Vanderlan com o PSD?
Conversei muito com Vanderlan antes da eleição de 2018, depois e agora. É público e notório, até porque o senador e seus auxiliares falam sobre o assunto, um desconforto, uma insatisfação, no partido em que Vanderlan está hoje. Nós dissemos ao senador que as portas do PSD estão abertas para ele. Vanderlan disse reiteradas vezes a nós que não pretende ser candidato a prefeito de Goiânia.

Nossa expectativa é a de que o senador apoie Francisco Jr. como candidato a prefeito. E dissemos a Vanderlan mais. Como não temos candidato a governador em 2022 no PSD – eu por exemplo não sou -, o senador teria o espaço do partido para construir uma candidatura a governador de forma muito clara, transparente, sincera. Sinto que Vanderlan confia em nós, no que falamos. Portanto, agora a decisão cabe ao senador tomar.

Euler de França Belém – O que realmente Vanderlan disse ao PSD?
O senador disse que está pensando, analisando. Não disse que virá, mas também não disse que não virá. Fizemos a nossa parte que foi dizer – eu mesmo disse ao Vanderlan – que a situação é essa.

Euler de França Belém – No sábado, 30 de novembro, em Anápolis, Vanderlan disse que vai continuar no PP.
Pois é. Depende da decisão do Vanderlan.

Augusto Diniz – Com base no que o sr. disse, que o espaço está aberto para Vanderlan ir para o PSD e construir a candidatura a governador em 2022, qual é a avaliação do político e da atuação como senador do Vanderlan?
A atuação parlamentar do Vanderlan é boa. É um nome conhecido no Estado, até porque já foi candidato duas vezes a governador, concorreu a prefeito de Goiânia. Como qualidade que teria para construir o projeto para 2022, Vanderlan tem uma experiência na gestão pública, porque foi por dois mandatos prefeito de Senador Canedo, que é uma cidade grande. E o senador foi bem.

Tem experiência como empresário na gestão privada. Tem um grau de independência. É senador por oito anos. Tem qualificações políticas e administrativas para construir a candidatura a governador. Está maduro para ser candidato a governador. Vanderlan tem de, no momento oportuno, mostrar direção, o que pretende fazer.

A eleição de 2018 foi uma eleição de ruptura, mudança. Não foi muito preciso que os candidatos apresentassem nada para a sociedade. “Quem representa a mudança do que está aí? É fulano de tal. Vamos votar.” Acredito que no futuro não será assim, as pessoas vão querer conhecer quais são as ideias centrais, os projetos.

Não será mais uma eleição de ruptura como foi a do ano passado no Brasil e no Estado. Será importante ter propostas, ter projeto, apresentar as ideias, além da qualificação do nome.

Augusto Diniz – Como o sr. avalia, independente dos candidatos, o que vem a ser disputar uma eleição com Iris Rezende?
Iris tem um prestígio político e eleitoral em Goiânia. Já foi governador e um líder do MDB no Estado, mas não tem mais hoje prestígio político nem eleitoral no Estado. Tem em Goiânia. As pessoas, no geral, aprovam a gestão do prefeito, consideram que está fazendo intervenções boas com as obras.

Mas me parece que há um sentimento de “queremos mais, mas queremos uma coisa mais nova, moderna, um discurso diferente”. Parece que, difusamente, há um sentimento assim. Se esse sentimento vai se consolidar ou não, nós não sabemos.

Rodrigo Hirose – Encontrar um perfil assim de candidato está tão difícil quanto o sr. disse sobre o cenário nacional?
Para Goiânia, acredito que Francisco Jr. tem esse perfil. É o que mais se aproxima do perfil de qualificação política, conhecimento da cidade e propostas contemporâneas para a cidade. Digo isso com muita segurança. O problema é a viabilidade eleitoral. Há uma diferença entre prestígio, conceito político de eleitoral.

Euler de França Belém – O sr. não considera Francisco Jr. extremamente conservador? Parece tão fundamentalista quanto o Bolsonaro.
Augusto Diniz – Isso pode ser visto pelo eleitor como uma contradição. Apresenta um projeto contemporâneo, tecnológico, de ver a cidade de forma inteligente, mas ao mesmo tempo é um religioso conservador?
Vejo Francisco Jr. como conservador nos costumes em função da ligação que o deputado tem com a Igreja Católica. Tem um discurso que todos conhecem. Mas do ponto de vista da gestão, político, Francisco Jr. é um progressista.

Ton Paulo – O caráter conservador não pode afetar a gestão?
Acredito que não.

Euler de França Belém – Estamos vendo no Rio de Janeiro o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos). Um horror! Seguiu os passos do Bolsonaro e rompeu com o governador Wilson Witzel (PSC).
Mas perfil do Crivella, do ponto de vista do comprometimento com a igreja, é diferente do Francisco Jr.. Perfil do Francisco na ligação com a igreja é mais light do que Crivella, que é organicamente e fundamentalmente desse posicionamento. Francisco não é fundamentalista religioso como o Crivella.

“Nossa estratégia é levar Francisco Jr. para o segundo turno”

“Vejo Francisco Jr. como conservador nos costumes em função da ligação que o deputado tem com a Igreja Católica. Tem um discurso que todos conhecem. Mas do ponto de vista da gestão, político, Francisco Jr. é um progressista” | Foto: Reprodução/Facebook

Euler de França Belém – O sr. foi convidado oficialmente para ser secretário estadual de Educação?
Não fui convidado.

Euler de França Belém – Nem sondado?
O que você considera sondado?

Euler de França Belém – Chegou a ser citado, houve conversa com o vice-governador Lincoln Tejota de voltar para o PSD?
Lincoln Tejota era do PSD. Saiu e foi para o PROS. No início do ano, o vice-governador queria falar comigo. Lincoln queria voltar para o PSD. Disse: “Lincoln, não. Você voltando agora para o PSD vai nos ligar ao governador. E nós queremos independência em relação ao governo estadual”. O vice-governador entendeu perfeitamente.

Agora, Lincoln voltou a dizer que queria retornar para ao PSD. Voltei a dizer que não. “Se você fosse deputado tudo bem, mas você é o vice-governador.” Segundo Lincoln, há um compromisso com o governador de continuar na chapa. “Ora, Lincoln, se você vem para o PSD, nós nos comprometemos com você na chapa de vice-governador em 2022. E nós não desejamos isso.” Então não.

Lincoln me disse que tinha conversado com o governador e que Caiado não colocava nenhum empecilho a ele ir para o PSD. Disse ao Lincoln que não queremos e pretendemos manter um grau de independência com relação ao governo. E vamos manter isso.

Augusto Diniz – A relação do sr. com o governador Ronaldo Caiado, ainda quando Caiado era deputado federal, ficou muito conturbada a partir do momento da criação do PSD em Goiás. Como está a relação com o governador depois da sondagem para ser secretário?
Ao longo dos anos, eu e Ronaldo fomos do mesmo partido e tivemos muitos atritos políticos e partidários. Não foi só na formação do PSD, vem de antes. Engraçado que não interfere em nada na relação pessoal. Sempre brigamos com lealdade e cara a cara, olho no olho, frente a frente. Quando é assim não fica ressentimento de caráter pessoal. Não tenho nada contra o governador e acredito que Caiado não tenha nada contra mim.

Nós nos encontramos, conversamos, brincamos. Mas do ponto de vista político, temos posicionamentos diferentes.

Augusto Diniz – Mas houve uma reaproximação?
Não digo que houve uma reaproximação. Algum tempo atrás, esteve em Goiânia o senador Jorge Bornhausen, que é nosso amigo da época do PFL. E o governador me convidou para ir a um jantar com o Bornhausen, que estava aqui para ir ao casamento de um filho de um neto do irmão dele. E o governador me convidou para ir lá jantar. Mas eu não estava aqui, estava viajando. Era uma das viagens que fiz com Gilberto Kassab (PSD) pelo Brasil. Agradeci.

Encontro com o governador pessoalmente. “Como que vai? Tudo bem?” Mas nada de caráter pessoal.

Rodrigo Hirose – Como governador, qual avaliação o sr. faz da gestão Caiado?
Todo governo quando entra é natural ter de tomar medidas de mudanças, racionalização. Todos foram assim. Se você pegar a história política de Goiás, sobretudo quando não há um governo de continuidade, é preciso fazer mudança. É mais ou menos quando mudamos de casa. Mesmo que seja uma casa nova, você faz alguns ajustes. Sobretudo no primeiro ano. E está fazendo isso.

Rodrigo Hirose – O sr. foi secretário e esteve ligado ao grupo político que deixou o poder depois de 20 anos. O governo José Eliton, que é uma continuidade do governo Marconi, entregou o Estado realmente quebrado como o governador Caiado diz?
Não. Realmente houve um exagero no discurso com relação à situação do Estado. Todos os Estados brasileiros têm dificuldades financeiras ou desequilíbrios fiscais. Goiás, inclusive, nem é dos piores. Os piores são Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Bastaram medidas de racionalização com a mudança para o Estado ficar equilibrado do ponto de vista fiscal.

Eu disse no início do ano que até o final de 2019 o Estado teria equilíbrio fiscal. Porque um governo novo entra e para as obras, faz uma racionalização, aplica mudanças, faz cortes. E voltou. Afirmo que hoje o Estado está fiscalmente equilibrado.

Italo Wolff – Deputado Lucas Calil (PSD) é uma voz ativa da oposição na Assembleia. O sr. disse que o partido prima pela independência. É feita alguma orientação sobre a posição do partido aos seus parlamentares?
Não. Tomamos uma decisão de deixá-los livres para tomarem as suas posições políticas. Eles que têm mandato e avaliam. Vamos concentrar nas eleições municipais para eleger os novos prefeitos e aí sim vamos nos posicionar em 2022 na sucessão. Mas agora demos independência e autonomia aos deputados e prefeitos para fazerem aquilo que julgam conveniente no momento.

Euler de França Belém – O sr. é amigo do ex-governador Marconi Perillo e conversa com ele com frequência. O que o ex-governador diz sobre próprio futuro político?
Conversamos muito, mas pouco sobre o futuro político do ex-governador. Marconi ainda não tem uma definição, não tem um posicionamento sobre o futuro político dele.

Ton Paulo – Mas Marconi conversa com o sr. sobre as pretensões políticas?
Não. Conversamos mais sobre coisas gerais. Marconi está muito concentrado no trabalho em São Paulo, na família. Falamos muito pouco sobre política de Goiás. E não dá nenhuma indicação sobre o futuro político.

Euler de França Belém – Eu ligo para uma pessoa do MDB de Anápolis, Marconi tinha ligado para essa pessoa naquela semana. Ligo para o presidente da Câmara de Pirenópolis, que está mudando do PSDB para o MDB, Marconi ligou seis vezes para ele. Marconi está conversando com todo mundo.
Engraçado, Euler. Nos quadros do PSD ou com quem eu converso, Marconi liga para cumprimentar pelo aniversário. Para mim, Marconi nunca ligou para falar sobre política. Sei que raramente tem vindo a Goiânia e conversa no escritório. Mas politicamente, não tenho conhecimento. Trabalho para fortalecer o PSD. De forma independente, autônoma. Esse é o meu foco. E Marconi aprova.

“Lincoln voltou a dizer que queria retornar para ao PSD. Voltei a dizer que não”

“Lincoln me disse que tinha conversado com o governador e que Caiado não colocava nenhum empecilho a ele ir para o PSD. Disse ao Lincoln que não queremos e pretendemos manter um grau de independência com relação ao governo” | Fotos: Fábio Costa/Jornal Opção

Augusto Diniz – O sr. tem alimentado há um tempo o projeto de ser senador. É um projeto que está mantido?
Está mantido. Considero que a última eleição que disputei para valer foi a de 2014. Tive um excelente resultado, mais de 1 milhão de votos. Foi uma diferença muito pequena. Cresci muito no final. Ninguém esperava.

Rodrigo Hirose – As pesquisas davam o sr. bem atrás.
Inclusive, naquela época, muito gente me disse que nem houve comemoração do lado de lá porque no final ficaram muito preocupados com meu crescimento na pesquisa. Pouquíssimos políticos brasileiros e goianos já tiveram o privilégio de ter 1 milhão de votos. 40% dos votos válidos. Fiquei muito feliz com aquela votação.

Mantenho meu projeto de uma candidatura a senado porque me preparei, estudei, me formei para ser um senador. Estou preparado para ser um senador. Como é se preparar para ser um senador? Basicamente é uma pessoa que passa a ter uma ação política mais voltada para o Estado do que governo. Essa é a diferença de um deputado federal para um senador.

Acredito que atingi este status de ser um político que tem uma visão de Estado mais do que uma visão de governo. Estou qualificado, gostaria de ser senador. Um mandato de oito anos dá a possibilidade de ter tempo sem preocupar com eleição para formular projetos. É meu grande projeto.

Vou se candidato? Não sei. A eleição é majoritária. Depende muito das circunstâncias políticas do momento. Não sei como estarão as circunstâncias políticas em 2022. Um outro fator, que é da minha personalidade: eu sou desprendido. Não sou cavalo selvagem na política. O que é um cavalo selvagem? É aquele que vai andando e vai escoiceando, mordendo, derrubando, passando todo mundo para chegar ao objetivo. Eu não sou na política um cavalo selvagem. Nunca fiz isso. Não é meu estilo.

Não estou fazendo juízo de valor se é certo ou errado. Disse que não é meu estilo. Não é o meu perfil. Não quero ser senador a qualquer custo. Fui sondado pelos dois candidatos na eleição passada para ser candidato ao Senado. Em especial pelo candidato do MDB [Daniel Vilela], fui convidado e insistido para eu ser o candidato a senador e o PSD fazer uma aliança.

Pensei e falei “não”. “Vou ficar e vou beijar a lona com o grupo que estou junto há 20 anos.” E fiquei. Não quis ser candidato. Poderia. Estão aí todos vivos e podem ser questionados. Eu poderia ser candidato. E poderia até ter chance. Não quis porque entendi que não seria legal.

E tem mais um detalhe. As coisas têm de ser tranquilas. Se for para passar por cima, prefiro não ser candidato.

Euler de França Belém – Qual a motivação da relação muito boa que o sr. tem com Daniel e Maguito Vilela?
Nunca tive essa relação. Minha relação com Maguito é porque fomos deputados estaduais de 1983 a 1987. Conheci o Daniel tenho pouquíssima relação. Maguito quando foi prefeito de Aparecida de Goiânia, eu era o secretário da Casa Civil. Eu era o encarregado de fazer a relação com os prefeitos. Inclusive  tinha um excelente relação tanto com Maguito como com os prefeitos da oposição. Maguito um deles.

Maguito foi muitas vezes ao gabinete me convidar. Insistiu. Peguei todos os auxiliares e fomos à Prefeitura de Aparecida. Maguito reuniu todo o secretariado e me fez as maiores homenagens. Eu destravava muita coisa no governo a favor da educação de Aparecida. Assim como tive uma excelente relação com Antônio Gomide em Anápolis.

A relação de 2018 com possibilidade de uma aliança foi só uma questão política. Uma aliança do PSD com o MDB para a eleição do ano passado fortaleceria do MDB e eu ainda colocaria meu nome como candidato ao Senado. Mas tinha pouca relação com Daniel, uma relação maior com Maguito, mas politicamente foi no ano passado em decorrência das eleições.

Os dois insistiram e me procuraram para que eu fosse o candidato a senador.

Euler de França Belém – Há um comentário que se Vanderlan for candidato a governador em 2022, é possível uma aliança com o MDB. O sr. acredita que seja possível?
Acredito que seja possível. A eleição de 2018 foi o final de um ciclo político. Agora se abriu para a construção de um novo ciclo político. Então há essa possibilidade. Vamos ver daqui até lá o que ocorre.

Augusto Diniz – Quem o sr. considera que seja mais difícil de enfrentar do MDB na eleição em Goiânia: Iris Rezende ou Maguito Vilela?
Iris Rezende. Acredito que seja o candidato mais forte.

Augusto Diniz – Caso se concretize a ida de Vanderlan para o PSD com o projeto de ser candidato a governador em 2022, caberia espaço para o nome do sr. na chapa?
Não sei. Meu foco hoje é fortalecer o PSD no Estado e no Brasil. Kassab, no final do ano passado, fez um convite a mim e ao governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, para ajuda-lo na articulação nacional. Eu aceitei. Colombo aceitou. Nós estamos participando desse processo.

Estamos viajando. Realizamos seis reuniões nos Estados, sobretudo no Nordeste: Bahia, Ceará, Sergipe, Piauí. Meu objetivo é fortalecer o PSD. Até porque trabalho com a expectativa de que, depois da eleição de 2022, devemos ter de seis a oito partidos representativos no Brasil. Nosso projeto é que o PSD seja um dos cinco mais importantes do Brasil. O partido está se fortalecendo.

Em Minas, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, veio para o PSD. Está muito bem avaliado para ser reeleito. Possivelmente será o candidato a governador do PSD em 2022. Está quase acertado que o Antonio Anastasia, ex-governador, virá para o PSD em janeiro ou fevereiro e será candidato a senador.

O partido está forte e vai ser muito forte no Brasil. Estou trabalhando esse fortalecimento. Minhas energias e meu trabalho político estão focados no fortalecimento do partido, tanto no Estado quanto no Brasil.

Augusto Diniz – Qual é a meta que o PSD trabalha para eleger em Goiás no ano que vem?
Está cedo para avaliar isso. Mas estamos batalhando forte para ter candidatos próprios na maioria das cidades, sobretudo nas cidades médias e grandes. Atualmente temos 18 prefeitos. Mas isso vai mudar. Se tivermos um PSD forte em Goiás e no Brasil, estaremos habilitados para sentar na mesa das decisões da eleição estadual e da nacional.

Euler de França Belém – Em São Paulo, o PSD vai lançar candidato?
Já lançou. É o Andrea Matarazzo. Foi vereador, secretário municipal, conhece bem a cidade. Já foi até ministro. É o candidato em São Paulo. Isso está dentro da lógica de lançar candidato nas maiores capitais do Brasil.

Penso que a eleição municipal é muito local. Não é fundamental para as decisões nas decisões para a eleição estadual. E muito menos nacional. É um dado importante, mas não é decisivo por causa da dedicação local. Com a nova legislação que o prefeito pode mudar de partido sem perder o mandato, tudo pode acontecer até 2022.

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