“Tem candidato ao governo fazendo proposta para a educação sem saber a realidade de Goiás”

Um dos principais responsáveis pelo destaque do Estado no ranking do Ideb, o deputado federal e ex-secretário diz que a oposição precisa pesquisar mais para não propor o que já existe

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Assim como o governador Mar­co­ni Perillo (PSDB) demonstrou uma força impressionante para su­perar dois grandes choques durante seu terceiro mandato — a crise ad­ministrativo-financeira do Estado, em 2011, e a crise política com a Operação Monte Carlo, em 2012 — Thiago Peixoto também teve sua prova de fogo como gestor. Depois de, eleito deputado federal pelo PMDB, aceitar a Secretaria de Educação (Seduc) do governo tucano, ele encarou uma das maiores greves do setor, em 2012. O protesto era contra as mudanças paradigmáticas que ele promovia, que incluíam, também, questões bastante polêmicas para os professores, como o fim da gratificação por titularidade.

Por isso tudo, mesmo de volta à Câmara — ele se desincompatibilizou para concorrer à reeleição, agora pelo PSD —, não dá para negar que Thiago teve uma grande vitória pessoal com a notícia de que Goiás se tornou o líder nacional do ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no ensino médio. O resultado é fruto das medidas, muitas delas impopulares para sindicatos e profissionais da área, que foram tomadas em sua gestão.

“Pessoas demoram a admitir mudanças e avanços, o que é natural”, comenta, resumindo a situação entre quem apostou no novo e aqueles que o criticavam. O ex-peemedebista é hoje um dos nomes mais influentes da base marconista e mostra coesão com o pensamento do governador, o que era mais difícil com as lideranças de seu partido de origem. Nesta entrevista ao Jornal Opção, sobraram alfinetadas para ex-correligionários: “Tem candidato fazendo proposta em cima de coisas que já são realidade na educação do Estado. Acabam mostrando um desconhecimento total de Goiás”.

Elder Dias — Goiás foi o melhor Estado no ranking do Ideb. Mas vamos supor que o Brasil fosse uma escola com 27 alunos. Em uma das turmas, o melhor aluno da turma foi Goiás. Só que esse aluno tirou, como o melhor da sala, uma nota 3,8, média insuficiente para passar de ano, para o que é necessário, geralmente, ao menos uma nota 5. A colocação no Ideb é para festejar, sim, em relação aos demais alunos. Mas, e o resultado em si? Não é muito pouco? O sr. pode fazer uma análise da educação no Brasil a partir desse resultado?
Primeiro, é preciso entender que não houve um avanço apenas no ensino médio, mas em todas as fases — nos ensinos fundamental 1 e 2 e no ensino médio. Fora isso, é necessário dizer que o “aluno” goiano não cresceu apenas em comparação aos outros “alunos”, mas também em comparação a ele mesmo, se levado em consideração os últimos três anos. Precisamos melhorar muito mais, mas os resultados mostram que estamos no caminho certo. E percebo que há uma tentativa de desconstrução dos resultados obtidos, o que é extremamente equivocado. Ao fazer isso, há também um trabalho de desconstrução de 1.095 escolas e 29 mil professores. Não foi um esforço pontual, foi na rede toda. Outro ponto importante: o Brasil piorou no Ideb, enquanto Goiás melhorou. Em todos os níveis houve queda e nosso Estado cresceu. É uma vitória importante e um fato significativo.

Elder Dias — O sr. fala de tentativa de desconstrução dos resultados alcançados. Por parte de quem é feita essa desconstrução?
Os fatos não comovem, eles incomodam. Um debate em que todos têm suas opiniões é diferente de apresentar dados, fatos, isto é, a realidade. E foi a apresentação de dados que descontruiu as teses de que estávamos no caminho errado. Teses essas que eram defendidas pelos sindicatos e por muitos acadêmicos, que consideravam que estavam certos e nós, equivocados. Mas pessoas demoram a admitir mudanças e avanços, o que é natural.

Elder Dias — Isso significa que os adversários do governo tentaram desconstruir os resultados e mudaram de tática?
Eles perceberam que, na tentativa de desconstruir os resultados, não estavam atingindo apenas o candidato a governador, mas a educação do Estado, pois todo esse processo teve a participação do secretário e do governador, mas a mudança efetiva ocorreu na sala de aula e foi vivida por diversos servidores e alunos. Logo, ao desmerecer o trabalho dessas pessoas, a educação de Goiás é que é atingida. Então, percebi claramente que pessoas que tinham críticas em relação ao Ideb até recentemente, passaram a admitir que, de fato, houve avanço.

Elder Dias — Qual foi o ponto fundamental no processo que levou aos resultados positivos na educação?
O sucesso do projeto aconteceu exatamente por não ter uma ação específica de destaque. O conjunto de iniciativas foi o que gerou bons resultados. Foi feito um projeto extremamente planejado, que primeiro diagnosticou que o nosso Estado, ano a ano, estava perdendo qualidade. E mostrou isso com dados e índices. A partir daí, foi proposto um projeto de mudança, baseado em cinco pilares e 25 iniciativas, tudo criado tendo como referência boas práticas de outros Estados e outros países.
O Ideb mede duas coisas específicas: a aprendizagem e a evasão dos alunos. Assim, houve alguns destaques: o foco na aprendizagem dos a­lunos, ponto chave de um dos pilares, que tinha como núcleo a criação de novas práticas e métodos, acompanhado de uma política de preparação de tutores pedagógicos e diretores de escolas. Fora isso, agora existe um currículo unificado. Antes, em ca­da sala de aula do Estado via-se um conteúdo diferente. Agora, existe um currículo uno, o que facilita o tra­­­balho do professor e gera trabalhos de referência para todos os alunos. Além disso, há também a presença do programa de reconhecimento da escola e do aluno, que gera uma força de bons incentivos na rede.

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Marcos Nunes Carreiro — O sr. enfrentou muitos problemas à frente de sua gestão como secretário, como paralisações de servidores e greves de professores. Em que momento surgiu a ideia para tecer esse plano chamado Pacto pela Educação?
Já existia um histórico meu como defensor da área, pois estudava muito e buscava informações sobre o tema. Assim, eu tinha uma noção muito clara de que outros lugares estavam avançando e nosso Estado, não. Na primeira conversa que tive com o governador nós conversamos sobre isso. Antes de aceitar ser secretário, perguntei a ele: “O que o sr. pensa sobre educação?” Conversa­mos por mais de duas horas sobre o que ele e eu entendíamos do assunto. Mas não nos baseamos apenas em nossa opinião. Mandamos fazer uma série de estudos.
Por meio do movimento Brasil Competitivo, contratamos uma consultoria e demos respaldo a ela para que pudéssemos desenhar, juntamente com os professores, um plano de reforma do sistema educacional, que partiu do diagnóstico de que nossos alunos estavam aprendendo menos. O grande salto desse plano foi que não quisemos inventar a roda, fomos buscar boas práticas e políticas que já funcionavam em outros lugares e que poderiam revolucionar Goiás. A escola de tempo integral do ensino médio, por exemplo, buscamos em Pernambuco. O trabalho de tutoria pedagógica nós conhecemos em Nova York, quando eu ainda era deputado estadual e que São Paulo também já havia adotado. O Prêmio Aluno foi uma iniciativa que o governador Marconi Perillo conheceu em Minas Gerais, quando Aécio Neves (PSDB) era governador daquele Estado. Ou seja, cada ação que propusemos para Goiás se baseou em práticas que já davam certo em outros lugares do Brasil e do mundo.
Então, tudo foi feito com muito planejamento e gestão. Porém, a mudança naturalmente gera enfrentamento. Eu percebi algo muito claro ao longo desse tempo: as pessoas cobram por mudanças, mas, muitas vezes, preferem conviver com um problema conhecido do que com uma solução desconhecida. Sabem que está errado, mas temem aquilo que pode resolver, porque não conhecem o novo. Então, quando apresentamos um plano assim, isso gerou um enfrentamento. Contudo, era o necessário para que pudéssemos avançar.
Elder Dias — Há críticas em relação às metodologias que levam à nota a­tribuída pelo Ideb. É assim também com outros sistemas de avaliação de ensino e pesquisa, como o da Capes [Co­ordenação de Aper­fei­ço­amento de Pessoal de Nível Su­pe­rior], por exemplo. É, em suma, a bus­ca por um número. E o Ideb tam­bém funciona assim, com base em requisitos…
Dois requisitos: evasão e aprendizagem.

Elder Dias — Mas, para chegar a isso, é necessário algumas metodologias.
Para chegar nisso, o aluno precisa ser mantido na escola e aprender mais.

Elder Dias — Mas “aprender mais” é um conceito subjetivo…
Esse é o problema. Muitos entendem que é subjetivo. Eu acredito que aprender matemática é muito objetivo, assim como aprender língua portuguesa é algo extremamente objetivo. Às vezes, essa subjetividade é usada como desculpa para não ter avanços. É preciso garantir ao aluno a aprendizagem. Não há subjetividade: o aluno aprendeu melhor matemática ou não? Ele escreve melhor ou não? Ele está presente na sala de aula? Isso não é subjetivo, é objetivo. E eu prefiro ser objetivo e pragmático, partindo do conceito de que os nossos alunos tiveram acesso a um melhor conhecimento e tiveram presença garantida na escola.
Nesse contexto, há um ponto importante que precisa ser dito: existia uma forma de oferecer educação em Goiás que comprovadamente não dava resultados. Os nossos alunos não estavam tendo acesso à boa educação. Não estavam aprendendo. Assim, ou permanecíamos nesse processo subjetivo que a academia e o sindicato defendem — e que já tinha se comprovado errado — ou promovíamos a mudança. Não tínhamos opção. E é interessante ver como os fatos incomodam, porque, ao comprovar que teses defendidas durante décadas estavam erradas, vem essa reação, o que é natural.

Marcos Nunes Carreiro — O Brasil tem, historicamente, uma falha na educação básica, que é a de não formar bem seus alunos. E isso gera inúmeros problemas, pois, à medida que avançam no sistema educacional, esses alunos mal formados acabam entrando no ensino superior, que, por sua vez, precisa se adequar à realidade desses alunos. A consequência disso é que tivemos nos úl­timos anos um número bem maior de pessoas com título superior, porém, com uma qualidade de formação baixa. Na última semana, foi divulgado o ranking das melhores universidades do mundo, com base no resultado de uma pesquisa feita pela consultoria britânica QS. O Brasil tem 22 universidades no ranking e nenhuma delas é de Goiás. Isso significa que o Estado tem focado esforços na educação básica para que, a longo prazo, o ensino superior também seja beneficiado?
Existe atualmente uma distância muito grande entre a academia e a realidade das escolas. E isso atrapalha muito a educação básica. O processo de formação do professor é muito mais ideológico do que baseado naquilo que o leve a ser, de fato, um bom professor. E essa falha precisa ser sanada. Precisamos criar um elo mais forte entre a escola pública de educação básica e as escolas de formação de professores. Nesse contexto, o ponto que mais atrapalha o processo é a ideologia.
Outra questão: acredito que esse avanço das fases de ensino é natural e daqui a alguns anos teremos insti­tui­ções de ensino superior com me­lhor desempenho nacional e internacionalmente. Por exemplo, no ensino fundamental 1, somos nota 6, que é considerada pela OCDE [Or­ga­ni­za­ção para a Cooperação e De­sen­vol­vimento Económico], uma nota de países desenvolvidos. No fun­da­men­tal 2, também estamos bem, com nota 4,5. Então, é possível ver que lá na base já tivemos avanços consideráveis, inclusive maiores do que o avanço do ensino médio. Des­sa forma, acredito que, gradativamente, esse crescimento vai subindo pe­lo sistema até chegar às universidades.
Creio que, nos últimos três anos, tivemos um avanço significativo na UEG [Universidade Estadual de Goiás] e teremos mais avanços ao longo dos anos. Entretanto, existe algo que me incomoda nesse conceito de longo prazo: é uma crença de que a educação só dá resultados em longo prazo, o que também vira uma desculpa e do qual eu discordo. Educação dará resultados em longo prazo no que diz respeito a impacto socioeconômico. Do ponto de vista do aprendizado, cada dia de aula conta como resultado. Então, se há garantias de uma aula melhor naquele dia, naquela semana, teremos resultados imediatos que poderão ser vistos no fechar do ano. Ou seja, temos um resultado de curto prazo que melhora a educação e que, em longo prazo, melhorará a sociedade.

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Elder Dias — Existem outros Estados que também têm avançado na educação básica?
Essa é uma tendência nacional. Se fizermos uma avaliação, veremos que as notas têm melhorado, principalmente no ensino fundamental. Em 2005, o Estado com a melhor nota era o Paraná, com 4,98. Em 2013, Minas Gerais estava à frente, com 6,19. Ou seja, já temos vários Estados bem colocados — e Goiás está entre eles — que atingiram a nota da OCDE para países desenvolvidos. Isso é nítido.

Marcos Nunes Carreiro — Uma crítica comum em relação à UEG é por ser uma universidade que nasceu grande demais, o que acabou prejudicando sua qualidade de ensino. Como o sr. enxerga isso?
No meu ponto de vista, temos de garantir a maior quantidade de campi com qualidade. Se foi traçada essa es­tra­tégia de maior quantidade de unidades, tem de se garantir esse crescimento. Seria a mesma coisa, voltando à educação básica, de a gente, manter somente boas escolas e não a­poiássemos as escola mais vulneráveis. Não estaríamos sendo democráticos, não estaríamos oferecendo uma educação de boa qualidade a todos.

“Boas ideias devem ser observadas e buscadas”

Euler de França Belém — Levar curso superior a várias cidades nunca seria um defeito. Nos Estados U­nidos, cidades com menos de 2 mil habitantes têm faculdade. O problema chave pode ser o de que municípios com menos de 30 quilômetros entre si têm os mesmos cursos.
Eu estudei na Universidade da Califórnia, que é uma universidade estadual. Ela tem diversos campi, se não me engano são seis ou sete. Mas cada campus tem sua identidade. Eu estudei em Berkeley, com vocação muito mais voltada para tecnologia e negócios do que o campus de Los Angeles. Essa ordem tem que prevalecer com base nas vocações daquela região, de fato especializando-se em áreas. Isso é importante. Assim, você garante os melhores professores, os melhores estudos de cada área, sendo que cada local tem sua vocação para isso.

Euler de França Belém — Qual é o segredo dos colégios militares, para os quais há uma verdadeira disputa para o ingresso? Qual é o significado disso?
Existe um conceito de disciplina muito forte, que tem uma grande influência nesse processo. Hoje existe uma transferência muito grande dessa responsabilidade da educação não só no aspecto do conhecimento, mas também no aspecto do que as famílias deveriam fazer, para as escolas. Nisso, a escola militar encaixa como uma luva, pois é ela que vai assumir a responsabilidade tanto no aspecto de conhecimento quanto no aspecto de disciplina.

Euler de França Belém — Como é, precisamente, a gestão dessas escolas militares?
Elas seguem o currículo estadual e são financiadas da mesma forma. A única coisa que muda nesse aspecto é que existe um corpo de direção com quadros militares. Daí eles estabelecem métodos que, no meu ponto de vista, são de mais rigor e disciplina, o que faz essa diferença. O grande ponto é esse.

Euler de França Belém — O que o sr. acha de projetos, como o desenvolvido por Eduardo Campos (PSB) quando governou Pernambuco e pelo qual levou crianças para estudar no exterior? Aqui em Goiás se poderia fazer um projeto parecido?
Acho que sim. Essas boas ideias que estão funcionando devem ser observadas e até buscadas. A escola de tempo integral do ensino médio em escolas goianas tem como referência escolas de Pernambuco, que é o Ginásio Pernambucano, uma política adotada por Eduardo Campos. Para as boas práticas — e essa, especificamente —, é sempre bom olhar com atenção, para, se for o caso, trazê-las para o nosso Estado. É positivo, sim, mostrar aos alunos um novo mundo, mais conhecimento e uma nova cultura. Isso é extremamente enriquecedor para qualquer aluno que tenha essa oportunidade.

Euler de França Belém —Qual é a reação das crianças e adolescentes que recebem essas premiações por sucesso?
Há a reação do aluno e a da comunidade escolar, ambas de muito reconhecimento. Muito mais do que a poupança que o aluno ganha, ele passa a ser reconhecido socialmente na comunidade dele, na escola dele. Valoriza-se o bom aluno. Os alunos que estudam mais, dentro da escola, geralmente não são socialmente muito entrosados. A premiação gerou um olhar muito positivopara ele. Entendo que foi uma política fantástica.

Euler de França Belém — O sr. lembra de alguma história específica de um desses garotos?
São 15 mil alunos premiados. A premiação não é feita por um ranking, simplesmente. Em cada escola há de 3 a 12 alunos que vão receber a premiação. Se fizéssemos um ranking dos primeiros 15 mil pelo Estado todo não conseguiríamos incentivar todos os alunos localmente. Da forma que fizemos, em toda escola temos alunos que ganharam o prêmio. Noto que a alegria deles é tão grande com a poupança como com o reconhecimento, que é algo muito forte.

Euler de França Belém —Como é essa premiação?
O dinheiro fica na poupança. O aluno pode sacar parte no ano em que ganha o prêmio e outra parte só ao terminar o ensino médio.

Euler de França Belém — Qual é o valor?
Hoje é de R$ 1,2 mil, sendo que o aluno pode sacar de 25% a 30%. O restante, só quando terminar o ensino médio. Ocorre que ele também tem a oportunidade de ganhar nos anos seguintes, Assim, ele pode chegar ao fim da vida escolar com três a quatro prêmios ganhos. Outra coisa legal é o Prêmio Escola. A unidade que bate meta é reconhecida com essa premiação. É um recurso que vai para a escola para ela decidir sua destinação. A quantia é de R$ 20 a R$ 40 mil.
Outro ponto, que é polêmico, mas deu resultado, foi o bônus dos professores. É interessante como o bônus era mal falado, mas todo mundo queria. E ele mudou a realidade de nossas escolas em muitos aspectos. O bônus não tem por base o resultado, tem como base as tarefas cumpridas. E quais são as tarefas básicas? O professor tem de ser regente em sala de aula — havia muitos professores fora da regência; ele tem de planejar a aula, o que é extremamente básico, mas que percebemos que não era algo que vinha acontecendo da forma com que deveria acontecer; e ele não pode faltar aula. Com isso, geramos a volta do professor para a sala de aula. Nesses três anos conseguimos mais aulas e professores mais bem qualificados. Para mim, foi uma das medidas que mais gerou impacto.
Elder Dias — E a questão da titularidade, como é que é hoje isso está sendo colocado? Que instrumento há para fazer o professor buscar seu aprimoramento a partir dessa gestão?
Hoje a formação mudou muito a forma de ser feita. A titularidade teve um problema no meu ponto de vista — e o professor não foi culpado desse problema: a falta de critérios para a qualificação que o professor buscava ou fazia. O professor, às vezes, lecionava em certa área, mas buscava formação em áreas completamente opostas, que não iriam contribuir com seu trabalho de sala de aula. Isso gerou, no Estado e no Brasil, uma indústria de formações que tinha o objetivo não de formar o professor, mas de dar um jeito para ele ganhar mais.
Essa distorção hoje foi corrigida. A formação passou a ser com base em cada região, em cada escola, nas dificuldades de cada aluno e de cada professor. Passamos a trabalhar muito com diagnósticos e dados. Temos avaliação de dois em dois meses e, com base nela, veremos quais as dificuldades que os alunos estão enfrentando. Veremos que lá em Uruaçu o aluno tem dificuldade em geometria. Então percebe-se que não é só aquele aluno, mas a sala toda. A medida a ser tomada é oferecer a formação para o professor com base nesse diagnóstico, para oferecer uma aula com mais qualidade.
Uma outra política que defendo: pessoalmente, não concordo com aumentos lineares na educação, porque há um nivelamento por baixo. Tanto faz ser um professor dedicado ou não, porque os aumentos são lineares. Isso não valoriza o bom professor e não incentiva aquele que poderia ser um melhor profissional. Penso que o novo passo que o Estado tem de dar é em políticas de mérito nesse sentido. Essa é a forma justa em qualquer área e em qualquer setor. Qual secretário e qual governador não gostariam de pagar um salário muito maior ao professor do que o que ele recebe? A questão não é de força de vontade, é na questão financeira que existe. Isso não é só em Goiás, é em todo o País. Hoje a secretaria tem 96% do orçamento comprometido com folha de pagamento. Há uma margem de 4% para ser utilizada em investimentos, não existe margem para crescer. Temos de buscar novas fontes de financiamento. Primeiro, vai ser o pré-sal, que vai trazer mais investimentos para o setor. O governador Marconi Perillo já assinou um decreto destinando 60% desse recurso para a carreira docente. É um novo dinheiro e um novo financiamento que chega, focado nisso. E o crescimento que vamos ter via PNE [Plano Nacional de Educação], que fará sair de 5,6% para 10% o índice do que o País investe em educação. Vamos gerar novas fontes de financiamento, o que vai dar condições para nossos professores terem uma política salarial melhor. Temos dois caminhos importantes em termos de novas fontes de financiamento.

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Elder Dias — Como o sr. tem visto as propostas dos candidatos a presidente para a área da educação?
Existe uma defesa muito clara de mais recursos, mas fico preocupado porque não basta defender mais recursos, tem de mostrar de onde vêm. É muito fácil assumir gastos na campanha sem apontar as condições para fazer esse investimento. Mas uma coisa boa é saber que esses dois projetos vão gerar mais recursos para a área educacional. Isso é concreto, já é lei.

Elder Dias — O cenário de verbas para educação, então, é promissor?
Eu acho que sim, é um caminho promissor. Mas tão importante quanto o financiamento é a gestão.

Euler de França Belém — Como o sr. avalia a Bolsa Universitária? Muitos críticos dizem que o programa é uma forma de destinar dinheiro público a universidades particulares, em detrimento a investimentos na universidade pública estadual, no caso a UEG.
Educação é um sinônimo grande de oportunidade. A bolsa é um sinônimo muito forte de oportunidade. Você permite a vários alunos que não teriam condição de acesso à educação superior passarem a ter acesso a essa oportunidade. Quem é contra isso mais uma vez entra pelo debate ideológico. Sinceramente, não sei os motivos por que alguém seja contra algo que dá oportunidade a outro alguém. Quem recebe esse dinheiro é a iniciativa privada, mas quem recebe o conhecimento e a educação é o aluno.
Uma coisa interessante é vermos políticas defendidas por candidatos a governador que demonstram não conhecer a realidade. Por exemplo, nessa área especificamente da educação, vi um candidato dizendo que vai permitir que os conselhos escolares decidam sobre a gestão das escolas sobre os recursos. Ora, mas isso já existe. Qual é a grande novidade nesse aspecto? Esse mesmo candidato diz que vai premiar as escolas que tenham um bom resultado educacional. Isso também já é feito. Tem gente fazendo proposta em cima de coisa que já é realidade e acaba mostrando um desconhecimento da realidade do Estado.

Euler de França Belém — Tem candidato falando em reformar escolas. Elas já estão todas reformadas?
Sim, todas as 1.095 unidades estão reformadas.

Euler de França Belém — O déficit de professores nas salas, quando o sr. assumiu a Seduc, era muito alto. Realmente teve uma queda nesse déficit?
Sim, caiu. O que acontecia para o professor não estar na sala de aula? Ocorre que a sala de aula é o local mais desafiador do sistema educacional. Não é o gabinete do secretário, mas, sim, a sala de aula. Mas tanto fazia o professor estar lá na sala como em qualquer outro lugar. Quando a gente criou o bônus — e esse bônus tinha como critério básico essa relação com regência e com o pedagógico —, a sala de aula passou a ser valorizada e ele naturalmente voltou para lá. Hoje, quem não está em sala de aula são basicamente os diretores de escola, coordenadores, instrutores pedagógicos, que são funções muito importantes. Mas conseguimos reduzir muito a ida dos professores para outros órgãos, outros departamentos, outros espaços.

Marcos Nunes Carreiro — Ainda acontece de haver professores formados em uma área, mas lecionando outra disciplina?
Isso acontece, mas temos o cuidado hoje de mantê-los na mesma área. É natural que haja professor de física que vá ensinar matemática. O Estado tem a disposição de contratar, a dificuldade não é essa, mas, sim, a de falta de professores nessas áreas. Há algumas áreas que são críticas, carentes, mas isso não é só em Goiás, é questão nacional.

Marcos Nunes Carreiro — Existe um programa para construção de quadras cobertas nas escolas. Como é que ele funciona?
Houve um fortalecimento muito grande do esporte na gestão de Marconi. Foi criada uma superintendência de desporto que conseguiu avançar muito nos Jogos Abertos de Goiás. O programa para quadras cobertas foi criado dentro de um programa chamado Nossa Escola. Basicamente tem o mesmo mecanismo e a mesma forma que se utilizou para reformar as escolas. Nós enviávamos recursos para a escola e a escola definia que reforma fazer e isso teve um resultado definitivo. As quadras cobertas estavam dentro desse programa. Em torno de 400 escolas já receberam o recurso e até o fim do ano serão até 520. E a própria escola fará a gestão desse recurso. A secretaria dá respaldo — em relação, por exemplo, a ceder o engenheiro para fazer o projeto da quadra —, mas quem vai fazer a licitação e quem vai pagar o vencedor dela será a escola. Ou seja, o mesmo procedimento que foi feito em relação às reformas está sendo agora para a construção das quadras cobertas.

Marcos Nunes Carreiro — Há uma fiscalização da obra?
Sim, a gente tem uma equipe da secretaria de engenheiros e arquitetos para cuidar disso. A complexidade da reforma é bem maior do que a da quadra, porque cada reforma é uma, em particular. Para a quadra há um padrão mais simples, é um processo que, se não é fácil, é mais fácil do que a da reforma.

Frederico Vitor — A gente sabe que mais de 90% da população brasileira hoje reside em cidade. Mas como o Estado trabalha com os alunos que vivem na zona rural? Há algum tipo de parcerias com as prefeituras?
Há uma parceira com os municípios, pela qual o Estado divide as despesas do transporte escolar. Além disso, há a compra de ônibus pelo Estado para os municípios. O governo federal também tem uma política parecida com essa. Instituímos também o apoio às chamadas escolas vulneráveis. São escolas que têm dificuldade de localização e de logística. Então, da mesma forma que tivemos fo­co para premiar as melhores escolas, também houve um programa completo de apoio a essas escolas vulneráveis. Creio que isso foi uma medida muito importante, tanto é que o crescimento no Ideb não foi um resultado pontual: quase 80% das unidades de ensino avançaram, porque existe uma política focada de escola por escola.

Euler de França Belém — Franklin Roosevelt [presidente dos Estados Unidos de 1933 a 1945] foi eleito presidente dos EUA quatro vezes seguidas. As pessoas se perguntavam por que Roosevelt ganhava as eleições. Harry Hopkins [um dos conselheiros mais influentes de Roosevelt], um homem brilhante, embora muito doente, e absolutamente desinteressado de bens materiais, foi o homem que fez a política social de Roosevelt e negociou com Winston Churchill [primeiro-ministro britânico] e com Stálin. No momento da crise norte-americana, Hopkins fez com que Roosevelt vendesse esperança e construção. Assim, foi eleito quatro vezes e, se chegasse à quinta, seria eleito também. Marconi Perillo vai para seu quarto mandato, se eleito. São 16 anos. Como o sr. defende essa permanência de alguém durante esse tempo no governo?
Às vezes, na rotina, fechamos os olhos para os avanços importantes que estamos tendo em Goiás. Por exemplo, o avanço da qualidade educacional que obtemos não é uma ação por acaso: é fruto também da dedicação de um líder político. Da mesma forma, viver em um Estado que, proporcionalmente, é o que mais cresce do ponto de vista econômico é fruto dessa liderança. Assim, também em relação aos investimentos em infraestrutura. É claro que nosso Estado tem de dar novos passos, precisamos avançar mais. Mas quem mais tem condições de garantir isso é o governador Marconi Perillo.
Por que digo isso? Porque ele tem uma visão muito clara e atual do mundo, consegue entender onde devemos investir nossas energias. Não podemos mudar o que está dando certo — é preciso encontrar avanços, mas seguindo o mesmo caminho. Mudar o que está dando certo é optar por seguir o caminho errado. As opções que temos agora em Goiás, por exemplo, na educação estão entre avançar mais em educação ou regredir para voltar ao 16º lugar. É escolher entre ser uma economia pujante ou uma economia que não avança. Por isso, entendo que Marconi é o líder em condições de governar Goiás por mais quatro anos.
Outra questão importante: Marconi não fica preso a seu passado de realizações, ele sempre olha à frente. A impressão que temos ao trabalhar com ele é de que ele está sempre dizendo: “foi bom, mas o melhor ainda está por vir”. O governador não se acomoda, não se conforma, está sempre analisando os próximos passos. Isso é muito motivante. Trabalhar com um líder otimista é algo que eleva o espírito de toda a equipe e é isso que ocorre com quem está com Marconi Perillo.

Euler de França Belém — O sr. é mui­to jovem, mas teve dois grandes líderes políticos: Iris Rezende (PMDB) e Marconi Perillo. Quais são as diferenças básicas entre os dois?
Eu respeito Iris. Respeito sua his­tória e o que ele fez pelo Es­ta­do. Mas, nas circunstâncias que vivemos hoje em Goiás, ele não tem condições de liderar o Estado, não tem sintonia. Basta ver seus projetos e propostas. Iris, que já foi motivado por realizações, hoje é motivado por um mero projeto de vingança. E isso é muito óbvio: basta observá-lo em qualquer programa de televisão, em qualquer discurso. Percebe-se que ele está ali movido não por disposição de fazer mais, mas simplesmente por um projeto claramente de vingança, em minha opinião. Ele não quer ser governador para comandar Goiás, o que ele quer de fato é derrotar Marconi. Isso é estar motivado pela causa errada e creio que a população percebe isso.
Convivi muito com ambos, Iris e Marconi. Respeito muito cada um deles. Mas Marconi é alguém que consegue ter diálogo com as pessoas. Você se senta ao lado dele e sa­be que, a partir daquela conversa, vai ser construído um caminho. Isso é impossível com Iris. Com ele o tratamento é “eu aqui e você aí”. É educado, gentil, mas faz o que se chama de “pôr a pessoa em seu lugar”. Não acho que esse seja o modelo de político de que precisamos. Precisamos de alguém que saiba dialogar e construir as coisas junto.

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Elder Dias — Quando o sr. fala que Marconi sempre olha para frente, está dizendo indiretamente que Iris está basicamente olhando para trás?
Isso. Basicamente, basta ver as pro­postas. Marconi olha os próximos passos a serem dados. Já Iris de­fende um passo dado lá atrás. O problema é que, certo ou errado, esse passo já foi dado. Marconi gera um compromisso com o futuro, com o progresso. Iris, com sua for­ma de fazer política, defende por seu lado um compromisso com o retrocesso.

Elder Dias — O sr. é economista e um dos grandes debates desta campanha presidencial é a questão da autonomia do Banco Central (BC), proposta no programa de Marina Silva (PSB). Na propaganda eleitoral, a equipe de Dilma Rousseff (PT) a­ta­ca esse ponto dizendo que isso seria também a retirada do poder dos bancos estatais — Caixa Eco­nômica Fe­deral, Banco do Brasil e Banco Na­cional de Desenvol­vi­men­to Eco­nô­mico e Social (BNDES) — até para fi­nanciamento de microcrédito e programas sociais como o Minha Casa Minha Vida. Até que ponto is­so pode ocorrer? O que há de positivo e de negativo nessa autonomia?
Autonomia do Banco Central não significa, de forma alguma, que os bancos estatais deixem de financiar projetos sociais. Não há nenhuma influência, nesse aspecto da questão, não há nada de real. A Caixa tem autonomia para fazer sua política e fará o que o governo entender que seja correta.
Essa mudança no BC vai gerar uma autonomia maior de nossa economia. Se observamos as economias que são referência no mundo, o Banco Central de cada um daqueles países é preservado como o guardião da estabilidade, como uma instituição que, acima dos governos, está ali para defender a economia. Eu acho isso positivo, principalmente pelo estágio que hoje alcançamos. Talvez há 20 anos isso não fosse possível, talvez não fosse bom. É interessante observar essa polêmica, porque a presidente Dilma defendeu exatamente isso na eleição passada. Henrique Meirelles [ex-presidente do BC nos governos Lula, de 2003 a 2010] não tinha essa autonomia por decreto, mas tinha total liberdade para atuar. E Dilma defendia essa situação. Então, o argumento que ela e o governo usam hoje é equivocado, em meu ponto de vista. Outra questão: a definição do presidente do BC, mesmo em um cenário de autonomia, será dada com a influência da Presidência da República.

“Reforma política precisa ser feita”

Elder Dias — Então o sr. considera que esteja havendo uma espécie de terrorismo eleitoral contra a proposta?
Sim, eu acho. Vi uma propaganda outro dia e fiquei assustado. No vídeo, diziam que a autonomia do Banco Central iria tirar dinheiro do Bolsa Família e dos programas sociais. É uma propaganda equivocada, errada, terrorista.

Elder Dias — Marina Silva, principal vítima desses ataques, está se comparando a Lula em 1989, que sofreu com esse tipo de terrorismo por parte de Fernando Collor. O PT então estaria usando agora o veneno de que foi vítima?
O PT usa um marketing para reverter uma situação eleitoral de forma equivocada, gerando um uma expectativa errada e um entendimento errado. É propaganda enganosa.

Euler de França Belém — Henrique Meirelles foi escolhido justamente por ser alguém que defendia a autonomia do Banco Central.
Não vou dizer que o PT é assim, como Dilma, até porque Lula não é assim. Mas Dilma, que tem suas qualidades, tem o pior mal que um político pode ter: a presunção. Ela pressupõe que sabe tudo. Assim, ela pressupõe que entende de economia e que Guido Mantega [ministro da Fazenda] tem de seguir suas orientações como presidente. Ela pressupõe que conhece tudo sobre energia elétrica e sobre o sistema energético do País. Assim, ela deixa de ter uma equipe que contribua com seu governo. Ela acredita que sabe tudo, mas não sabe. E repito, para ser justo: isso não é uma característica do PT, porque Lula não é assim, era outro tipo de presidente, outra forma de liderar.

Marcos Nunes Carreiro — O próximo ano é apontado por especialistas como um ano crítico para a economia brasileira. A que o sr. atribui esse temor de tempos difíceis? Seria responsabilidade da presidente, que o sr. aponta como mal preparada para o cargo, ou é algo que extrapola os limites do País?
Há uma série de equívocos na economia. Coisas que já haviam sido corrigidas e voltaram a ocorrer com frequência, como a gestão de preços e o controle de forma equivocada da inflação. Essa perspectiva futura tem como base uma série de análise de dados. Quando estourou a crise mundial de 2008, não sei se vocês se lembram, o presidente Lula foi muito forte ao dizer que no Brasil ela só seria uma “marolinha”. De fato, por aqui, naquele momento sofremos muito menos consequências. Agora, os países que sofreram com aquela crise estão tendo avanços econômicos e estão recuperando sua economia. Pela mesma lógica de Lula, o Brasil teria de estar avançando ainda mais que esses países, mas não é o que ocorre.
A comparação pode ser feita tanto com os Estados Unidos ou com nossos países vizinhos. Temos um cenário ruim e que vai exigir uma série de medidas duras, bom assessoramento, boa equipe e coragem. Tenho dúvidas se a presidente Dilma conseguiria ser bem-sucedida nessa situação.

Marcos Nunes Carreiro — Goiás está se preparando para essa crise?
Entendo que essa crise terá seu foco de interferência muito mais nas questões de macroeconomia — inflação, taxa de juros, por exemplo — do que sobre setores micro ou locais. Dentro dessa perspectiva, nosso Estado vem crescendo, avançando. A crise que o País vai viver será sentida de forma mais tênue em Goiás.

Elder Dias — Essa crise é uma certeza?
Não é certeza, temos de esperar. Mas todos os dados — não falo de opinião — apontam que o ano que vem será muito complicado. São muitos sinais que demonstram isso, mas certeza não há.

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Frederico Vitor — A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), também presidente da CNA [Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil], esteve aqui e disse que teve uma dificuldade tremenda de dialogar com Marina Silva, à época em que ela era ministra do Meio Ambiente. Sabemos que o agronegócio é o motor da economia nacional. Não assusta que chegue à Presidência uma pessoa que tenha tal dificuldade de diálogo com um setor tão importante para o Brasil?
É um alerta, algo preocupante. Mas Kátia Abreu também tinha muita dificuldade de diálogo com o PT e hoje tem o melhor diálogo possível. Não é porque foi de uma forma que continuará assim, as coisas e as pessoas são passiveis de mudança. Conheço pouco Ma­ri­na Silva, mas o que me chama a a­tenção nela é a disposição de pro­mover mudanças, de querer fazer uma política diferenciada, a co­ragem de falar que terá um mandato de apenas quatro anos. No aspecto do agronegócio, Ma­rina terá de ter, de fato, uma mu­dança de posições. Mas entendo que ela será capaz de fazer isso.

Elder Dias — O fenômeno Marina Silva tem muito a ver com o que ocorreu em 2013, com as manifestações do meio do ano. Ela vem para cobrir uma carência que o povo sente. Se com Fernando Henrique Cardoso [presidente de 1995 a 2002] o Brasil teve mudanças importantes na economia — fixação do Plano Real, privatizações, Lei de Responsa­bilidade Fiscal, reforma da Previdência, entre outras medidas —, com os governos do PT houve uma espécie de reforma social — transferência de renda, ascensão do consumo entre as classes mais baixas, maior número de vagas nas universidades e programas sociais diversos, além de outras demandas sociais reprimidas — que trouxe mudança de vida para muita gente. Ficou pendente, porém, a questão política. Parece-me que Marina, instintivamente ou não, enxerga que o importante é essa grande reforma política. Daí, fala em mandato de quatro anos, fala em “mudar o que está aí”. O sr. concorda com essa análise? E, em segundo lugar, como deputado, o sr. acha que ela terá capacidade de executar uma reforma ampla nesse sentido, dentro dos vícios que tem o Congresso Nacional, fatiado em bancadas, dividido por interesses, comandado por coronéis?
Em primeiro lugar, concordo com essa lógica que você descreveu, em relação às reformas econômicas necessárias promovidas por Fernando Henrique Cardoso e as garantias que Lula deu para o seguimento dessa política, além de promover avanços sociais. Dilma voltou atrás em questões da economia, mas seguiu o avanço do social. O próximo presidente, ou a próxima presidente, terá de voltar a garantir esses dois avanços, garantir a volta da economia para o caminho certo, garantir a manutenção social e dar os próximos passos.
Concordo que os próximos passos fundamentais são a reforma política, o que eu colocaria talvez como o mais importante; a reforma tributária, algo também extremamente importante; e uma, da qual ninguém está falando muito e pela qual estou militando, que é a reforma educacional. Precisamos mudar a forma de ver a educação por parte do governo central. A reforma política será extremamente complicada, complexa, exigirá muita habilidade e diálogo para ser feita. Dilma defendeu isso, mas não conseguiu fazê-la nesses últimos quatro anos. E, se ela defendeu e não deu conta de fazer isso, será que conseguirá nos próximos quatro anos?

Marcos Nunes Carreiro — Não conseguiu ou não quis?
Acredito que não conseguiu. Eu tenho dúvidas sobre a reforma que o PT defende, acho-a questionável. Então, primeiro: falta definir qual é a reforma política necessária ao País. Segundo: é necessário ter capital político, força política, para fazer isso. Isso, normalmente, acontece no começo de governo. Dilma estava com muita força no início do governo, mas decidiu não fazer a reforma — ou não conseguiu. Marina Silva tem isso como sua bandeira principal. Ela fala da “nova política”, desse sentimento forte que existiu no ano passado. Ela incorpora isso bem. Ela tem uma história que não se pode desprezar. Marina foi senadora e ministra, e não se ocupa esses espaços sem capacidade para fazer política. No aspecto experiência, Marina tem muito mais experiência que Dilma. Nessa aposta de mudança política, Marina é uma escolha melhor do que Dilma.

Euler de França Belém — Por que Marina se estabilizou nos índices de intenção de voto, até com viés de baixa?
É um processo natural. Ela vi­veu uma onda, toda uma comoção, e agora as coisas estão se acomodando. Pessoalmente, entendo que o caminho que temos de se­guir — e não por uma questão par­tidária, pois o meu partido nacionalmente apoia Dilma — se­ria com um presidente como Aé­cio Neves com condições de fazer articulações com o Con­gresso, com condições de fazer a reforma educacional. Nesse aspecto, nós vemos o resultado de Minas Gerais, extremamente positivo. Nós podemos fazer uma escolha equivocada, apostando naquela que defende uma mudança, mas não tem condições nem capacidade de fazê-la — ou, pelo menos, não demonstra isso. É uma escolha difícil.

Marcos Nunes — Ainda sobre o fenômeno Marina, nós temos visto que há um esvaziamento político na mente da população. Embora isso seja um fenômeno natural, este ano está pior, segundo os candidatos. A população está resistente às eleições, o que levou muitos candidatos a renunciar, por exemplo. Como o sr. percebe isso? A população está mesmo resistente, distante das eleições?
É a terceira eleição que disputo e não vejo nada tão diferente. O eleitor, conforme se aproxima o dia das eleições, passa a pensar mais sobre o assunto, definindo. O político não pode exigir que o eleitor viva a política na mesma intensidade com que ele próprio vive. Agora nós estamos em uma reta final de 15 dias. O eleitor que ainda está indeciso fará uma reflexão durante esse tempo. A discussão, hoje, é muito mais voltada para governador e presidente. As candidaturas proporcionais e ao Senado entram nessa fila. Não dá para falarmos que as manifestações do ano passado — extremamente positivas — não influenciarão as eleições. Vão influenciar, sim. Mas eu não diria que o eleitor esteja mais frio. Talvez, ele vá balizar seu voto em critérios diferentes. O momento para ele decidir isso é agora e não um mês atrás ou quando começaram as campanhas.

Elder Dias — Essa fila de escolhas vai andar até dia 5 de outubro? Como já fui mesário, posso dizer que algumas pessoas chegam, na hora de votar, perguntando “em quem eu voto?”. E são muitas pessoas. Isso não mudou?
Isso não deixará de existir. Terá aquele que na hora, decidirá em qual candidato votar, que vai ligar para o amigo, para saber em quem ele vai votar.

Euler de França Belém — Isso não é do brasileiro, é algo universal.
É, e isso não vai mudar. Mas, também não acredito que vai piorar. Isso é algo natural. Os Estados Unidos têm algo interessante. Lá, o grande esforço dos partidos é para mobilizar as pessoas para ir votar. Lá não é decidir em quem votar, mas sim se vai votar.

Elder Dias — Como está sua campanha para deputado federal? O sr. ficou muito tempo na secretaria e isso, de certo modo, afasta os holofotes de seu trabalho parlamentar. E, se eleito, como o sr. pretende agir? Pode voltar para a secretaria?
Campanha é sempre muito difícil e isso não vai mudar. Basta pensar que, no dia 5 de outubro, 100 mil pessoas terão de acordar, levantar, lembrar-se de meu número e ir votar em mim. Isso não é algo fácil, exige muito trabalho, muita dedicação. Porém, eu gosto. Não é algo que eu tenha que forçar. Eu tenho disposição e gosto disso.
Com relação ao meu futuro, primeiramente, eu dependo da eleição. Dando tudo certo, sendo eleito deputado federal, eu tenho um papel a ser exercido no Congresso. Eu voltei para Câmara este ano e faço parte de duas comissões ligadas à educação e ao conhecimento. Uma é a Comissão de Educação e, outra, a Comissão de Ciência e Tecnologia. Na primeira, eu percebi um distanciamento muito grande entre a discussão que o Congresso faz e aquilo que eu vivi na rotina de secretário. Eu fui um secretário muito presente nas escolas, visitei quase 800 escolas. Portanto, percebo esse distanciamento e isso me preocupa. Eu posso ter um papel importante nessa discussão, para trazer a realidade da educação básica do Brasil, dos reais desafios para o Congresso.
Outra discussão importante na qual quero contribuir é com algo com que sofri muito e não consegui avançar: a falta de financiamento. Espero ter um papel importante em busca de mais recursos para essa área, em que, se se investe bem, os resultados aparecem. Nós somos prova disso. Entendo que meu papel, agora, é como parlamentar, como deputado, é lá que darei minha contribuição. Minha experiência como secretário contribuirá muito com esse meu papel de deputado no Congresso.

Marcos Nunes — O sr. é apontado como potencial sucessor do próprio governador Marconi Perillo. Qual seu projeto para o futuro, pós-eleições 2014?
Com relação à Prefeitura de Goiânia, hoje tenho duas pessoas nas quais acredito muito e que são as indicadas e que, pessoalmente, defenderei como nossos prováveis candidatos a prefeito da capital. Um é Francisco Júnior (PSD), um deputado com quem tenho uma relação muito próxima e que estuda Goiânia, conhece o município a fundo e pode contribuir com a cidade. E outra pessoa, que tem capacidade de gestão, é um grande executivo e seria um grande prefeito, é Jayme Rincón [presidente da Agência Goiana de Obras Públicas]. Para prefeito de Goiânia, eu tenho essas duas opções. Um dos dois representará bem o que eu penso sobre como a cidade deve avançar.
Em relação a daqui a quatro anos, é complicado analisar. Dois anos é mais fácil. Mas, quatro anos, sem nem saber o resultado desta eleição, é difícil dizer quem será candidato. O que eu garanto é o projeto que farei parte, que é o do governador Marconi Perillo. Estarei com os nomes que o nosso grupo entender que representem bem o Estado. Existe um sucessor natural de Marconi Perillo, que é o vice-governador José Eliton (PP), alguém importantíssimo nesses últimos quatro anos e que pode ser muito importante nesse governo. É muito natural que ele venha a concorrer como governador. Meu compromisso é continuar participando da política, não olhando somente para qual próximo cargo eu posso disputar, mas, sim, para como eu posso contribuir para que esse grupo ajude nossa cidade e nosso Estado.

Thiago Peixoto em entrevista a editores e repórteres do Jornal Opção: “Por três anos bateram na questão de infraestrutura e, atualmente, somos o Estado que mais investe em infraestrutura” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Thiago Peixoto em entrevista a editores e repórteres do Jornal Opção: “Por três anos bateram na questão de infraestrutura e, atualmente, somos o Estado que mais investe em infraestrutura” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém — O deputado federal Vilmar Rocha (PSD), candidato a senador de seu partido, está em 2º lugar, com Ronaldo Caiado (DEM) está bem à frente. O sr. acredita em uma virada nesse quadro?
Acredito. Nós viveremos estes 15 dias onde o debate eleitoral, gradualmente, passará a ter outros focos além da Presidência e do governo do Estado. Na hora em que o Senado passar a fazer parte do debate, será muito natural que Vilmar tenha um crescimento. E isso vai acontecer pelas qualidades dele, pelo potencial e bom trabalho que ele faz. Do ponto de vista da análise político-eleitoral, já vi esse fenômeno acontecer outras vezes, em que, na hora de decidir, o eleitor apostar no candidato ao Senado que tem uma relação mais forte com o governador em quem ele votará. Por isso, Vilmar pode ter um crescimento.
Outra coisa importante é que, do ponto de vista lógico, não tem sentido eleger um governador e, ao mesmo tempo, escolher um senador que não tem compromisso com esse governo nesses quatro anos de trabalho, para, em meu ponto de vista, atrapalhar Marconi a governar. O eleitor fará essa reflexão de quem estará no Se­na­do como aliado do Estado e do go­vernador, ou como alguém que apostará no “quanto pior, melhor”.

Euler de França Belém — Voltando a Jayme Rincón, como o sr. avalia o trabalho que ele fez na Agetop, com a recuperação da malha rodoviária do Estado? Na pré-campanha, o discurso do PMDB e do PT era de que Goiás estava todo esburacado. Quando chegou a campanha, sequer lembram que Goiás tem estradas, que agora estão muito boas. Como o sr. julga o trabalho de Rincón como executivo?
Jayme é um bom executivo. Ele teve condições e capacidade de buscar recursos, bem como executar as obras em um ritmo muito forte. Isso é uma marca. Fazer isso no poder público não é trivial, não é fácil. Quem tem condições de fazer isso merece destaque, merece nosso reconhecimento. Jayme representa isso.
É interessante como o discurso vai caindo quando a realidade chega, nada mais duro do que a realidade. Por três anos bateram na questão de infraestrutura e, hoje, somos o Estado que mais investe em infraestrutura. Nós estamos ampliando, duplicando rodovias. É indiscutível o avanço. Não é opinião, é realidade. Acontece a mesma coisa em relação à educação. É possível fazer o mesmo paralelo. Apostaram que o projeto era errado, que as coisas não iriam bem. No dia que saiu o resultado do Ideb, em que colocaram Goiás como referência, o programa da oposição na propaganda eleitoral dizia que Marconi, que nosso governo, destruiria o ensino médio. Naquele mesmo dia, veio o resultado. Nada melhor que o mundo real para destruir as teses políticas que a oposição tentou construir.
Euler de França Belém — Quando o sr. fala sobre Vilmar Rocha, dizendo que ele pode virar a eleição, sua argumentação não é válida também para oposição em relação a Marconi?
É, mas eu vejo uma grande diferença. Faço essa referência a Vilmar, pois o voto dele casado ao do Marconi será muito forte. É um voto natural. Já em relação à oposição, essa sintonia não é possível de ser feita. Não vejo perspectiva, não vejo clima, nada nesse aspecto.

Euler de França Belém — E a bancada para deputado federal? Existe a possibilidade de a base marconista eleger de 10 até 12 deputados federais. Como o sr. avalia esse quadro?
Eu avalio que pela chapa que foi montada, pela qualidade dos candidatos, nós teremos condições de fazer uma grande bancada, que dará respaldo aos projetos de Marconi, o que será importante.
Euler de França Belém — Em 2012, o prefeito Paulo Garcia foi reeleito com base na tese da sustentabilidade. Goiânia é uma cidade em que quase todas as coisas estão prontas. Portanto, sustentabilidade seria um discurso de novidade. No entanto, em seu segundo mandato, ele não tem correspondido a essa ideia. Como o sr. avalia esse quadro?
Eu não vejo nenhuma ação de governo, nenhuma política pública da Prefeitura que tenha como foco a sustentabilidade. Eu não vejo nenhum avanço. E, mais que isso, eu não vejo nada apresentado nesse aspecto. Sustentabilidade, para Paulo Garcia, foi um discurso que não se transformou em ações. Essa é a grande diferença que faz o bom homem público. Tem homem público que dorme com ideias e acorda com ações. Paulo teve ideias, pensou a sustentabilidade e, no outro dia, não houve nenhuma ação que demonstrasse isso. E, mais do que isso, teve a degradação de outras áreas muito sérias e graves de limpeza urbana, de preservação da cidade em muitos aspectos. Eu vejo isso e não é uma análise política, é a visão de quem mora na cidade e encontra isso na esquina.

Euler de França Belém — O sr. é um dos políticos mais interessados na questão do meio ambiente. O que o sr. achou do novo livro de Al Gore [ex-vice-presidente dos Estados Unidos, na gestão de Bill Clinton], “O Futuro”, e o que achou da notícia de que, até 2050, conseguirão recuperar a camada de ozônio?
Meio ambiente é um assunto que, de fato, me atrai muito. Já participei de algumas COPs [Con­fe­rências das Partes], que são conferências que discutem as mudanças climáticas. Eu estive na COP 15, em Copenhague, na Dinamarca; na COP 16, em Cancún, no México. Fiz parte da Comissão Mista no Congresso que discute as mudanças climáticas — onde há dois goianos, eu e o senador Wilder Morais (DEM). Esse ano, a COP é em Lima, no Peru.
Falta, hoje, a mudança climática voltar para uma agenda mais forte. Houve uma agenda ápice de discussão, mas os problemas não acabaram, as dificuldades continuam muito grande, há um descuido com o meio ambiente e a todo o momento temos o resultado disso. O foco no assunto não existe mais e precisamos retomá-lo. Al Gore, especificamente, é um militante disso. Ele, de tempos em tempos, escreve verdadeiros decretos sobre a mudança climática. Esse livro dele trata não só de mudança climática, mas também de uma série de questões futuras — educação, tecnologia, uma série de coisas. Ele é um visionário nessas discussões. O que falta é voltar esse assunto para pauta, como foi em outros momentos. No Brasil, existem muitas coisas que podem influenciar o quadro. Tem a agricultura, que hoje é muito pujante, muito forte. Somos um país com muitas indústrias e isso também gera impactos. E é bom comemorar as boas notícias, principalmente a de que a camada de ozônio está sendo reconstruída.

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Jose Carlos

Conhece algun professor que vota no Tiago Peixoto?