“Se parte da população defende o voto impresso, é porque enxergam uma lacuna de confiança no sistema eleitoral”

O deputado federal Major Vitor Hugo (PSL) acredita que o atual cenário político em Goiás favorece a candidatura de um nome que esteja mais ligado ao presidente Bolsonaro

Elder Dias, Frederico Jotabê e Marcos Aurélio Silva

O político goiano que mais está alinhado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é o deputado federal Major Vitor Hugo (PSL). Ele, que já ocupou por um ano e sete meses a função de líder do presidente da Câmara Federal, agrega em Goiás a simpatia de boa parte dos bolsonaristas. Esse talvez seja o motivo para que ele tenha testado seu nome como um possível candidato ao governo em Goiás. 

Em entrevista exclusiva aos editores do Jornal Opção, o deputado disse não acreditar que possa haver ruptura institucional, embora o presidente tenha usado reiteradamente o tom de ameaça. Major Vitor Hugo é defensor do voto impresso, embora, diferente de Bolsonaro, ele não acredite que tenha havido fraudes em eleições anteriores. 

Marcos Aurélio Silva – Deputado, o senhor está no mandato de deputado federal há dois anos e meio. Foi eleito graças à defesa de pautas conservadoras, que inclusive foi a grande temática em 2018. Hoje o senhor acredita que seus eleitores estão satisfeitos com seu mandato?
Nós nos elegemos realmente, juntos com o presidente Bolsonaro, com uma nova proposta para o País, uma proposta nova também no relacionamento entre o Legislativo e o Executivo. Quando nós estávamos fazendo campanha não tínhamos vislumbrado nem a possibilidade do que ocorreu logo na sequência, que foi eu virar líder do governo na Câmara. entre 513 deputados o presidente da República escolheu um para ser seu representante na Câmara, no Senado e também no Congresso. São três líderes. Se a gente for ver o quadro que tem as fotos dos líderes, se vê que são sempre políticos muito expedientes, com vários mandatos, alguns até ex-presidente da Câmara e ex-Ministros. E o presidente fez uma aposta de confiança. Isso era algo que eu não tinha noção da dimensão que era a função e fui aprendendo com o tempo.

Fiquei na função por um ano e sete meses. Neste período aprovamos várias pautas com impacto nacional e que tenho certeza que chamaram atenção do meu eleitor e dos goianos de modo particular. Como exemplo: aprovamos a Reforma da Previdência, aprovamos a nova proteção social dos militares, o acordo internacional de Alcântara, mais de 40 medias provisórias… depois sobreveio a pandemia e aprovamos auxílio emergencial de R$ 600, socorro aos estados e municípios, aprovamos apoio para manutenção de emprego e também de empresas. E tudo isso eu como líder do governo tendo o papel central na interlocução dos líderes, com o presidente da República, com os ministros de Estado, com os partidos políticos e com o próprio presidente da Câmara. Isso foi um amadurecimento grande para mim e ao mesmo tempo, tenho certeza de que aqueles que votaram em mim e talvez nem imaginassem que eu fosse eleito, depois se surpreenderam com minha ida para a liderança do governo. E agora na liderança do PSL.

Imagine, um deputado de primeiro mandato, assumir a liderança do governo e na sequência a liderança do maior partido da Câmara, com 53 deputados federais, em um momento complexo que vivemos em uma pandemia e também de tensão entre os poderes. É uma função complexa. Em razão dessas funções eu aprofundei minha relação com o presidente, também com ministros de Estado –  vários deles eu conheci em outra fase da vida, por sorte, como o Tarcísio Freitas (Ministro da Infraestrutura) que foi meu veterano na Academia Militar, tem o Wagner de Campos Rosário, da CGU, General Ramos e General Santos Cruz, tantos outros – isso me facilita também levar recursos para Goiás e seus municípios tão necessitados. Eu fiz agora uma viagem, durante o recesso parlamentar. Fui em quase 20 cidades goianas e voltei com mais de mil ofícios com pedidos diversos de pontes, poços d’água, projetos de saneamento, recapeamento asfáltico, custeio de saúde, hospitais… E a gente tem tentado atender tudo isso.

É lógico que sempre o mandato pode ser melhor, sempre em qualquer atividade que a gente faça pode melhorar, mas eu estou bastante satisfeito e espero que meus eleitores também estejam satisfeitos com a nossa situação.

Frederico Jotabê – O senhor vai permanecer na Câmara Federal nos próximos quatro anos, ou pelas mensagens que o senhor tem mandado nas redes sociais, vai ser candidato ao governo?
Essa é uma pergunta que tem que ser respondida com muita responsabilidade e segurança. Nós precisamos esperar o presidente Bolsonaro definir o partido para o qual ele vai para que a gente possa fazer uma projeção deste partido em Goiás. Precisamos esperar também para ver qual vai ser o posicionamento do governador Ronaldo Caiado em relação ao presidente e do DEM em relação ao presidente. Há rumores até de que há possibilidade de formação de um grande partido entre o DEM, PSL e PP. E esse super partido apoiaria o presidente da república. Isso faria, certamente, com que as forças se alinhassem de uma maneira mais natural e essas manifestações do passado, dadas pelo Caiado, vão até esmaecer diante do todo.

“Acho que a direita em Goiás precisa se consolidar e se fortalecer”

Temos que avaliar isso. Acho que a direita em Goiás precisa se consolidar e se fortalecer. O Gustavo Mendanha tem feito sinalizações para o Marconi (Perillo) e também para o campo da esquerda, e acho que há sim uma via aberta para a direita. Mas tudo vai depender destes fatores. Então é importante que a gente aguarde um pouco mais.

Eu fiz, e tenho feito umas sondagens e verificações, tenho conversado com os eleitores, e nas viagem fiz isso também. Para mim, como político, é importante e interessante, já que a imprensa levantou essa possibilidade depois da ida do presidente a Anápolis, há um mês e meio atrás, é importante que minha capilaridade como político aumente, independente de qual cargo eu vá concorrer no ano que vem. 

Marcos Aurélio Silva – Deputado, o senhor já chegou a falar com o presidente Bolsonaro sobre  essa possibilidade do senhor ser candidato ao governo em Goiás? O senhor já trocou uma ideia com o presidente sobre isso? Qual a opinião dele?
Eu não conversei com o presidente sobre isso. Eu acho que isso tem que ser conversado no momento em que algumas outras definições venham acontecer. A escolha do partido pelo presidente é crucial. Se eu disser, por exemplo, que sou candidato ao Senado ou ao governo, a primeira pergunta que fariam pra mim é: por qual partido? Quais são os partidos que iriam apoiar? Qual a coalizão ou coligação que vai estar em torno de uma candidatura como está? E enquanto o presidente não definir o partido essas perguntas não têm respostas. 

Eu não vou procurar o presidente para conversar sobre hipóteses. Ainda é muito remoto e em construção. Mas eu sinto em vários setores goiano as insatisfações com os pré-candidatos que estão postos. Tenho conversado com o setor produtivo que ficou muito ressentido com as medidas que foram impostas durante a pandemia, o agronegócio esperava muito mais porque o governador tem uma ligação histórica com o agronegócio no brasil e em Goiás em particular…. E também em outros setores que vem demonstrando. É importante ir medindo isso.

O governador, me parece, em pesquisas que têm sido feitas, está muito bem posicionado e não se sabe como isso vai evoluir de agora para frente. E tem também o próprio Gustavo Mendanha que tem um grande trabalho em Aparecida, mas essa composição com a esquerda pode acabar jogando ele para uma composição com partidos que, do que eu tenho entendido da política goiana, não são e nunca foram majoritários. A esquerda nunca teve um grande papel na política goiana. Não sei se o Gustavo vai se aliar com a esquerda se vai conseguir esse feito. 

Elder Dias – O senhor considera que o governador Ronaldo Caiado pode estar desgastado com os apoiadores e eleitores de Bolsonaro?
Eu tenho a impressão que sim, porque as falas do governador no ano passado foram de contraposição ao presidente. Por exemplo, quando falou que as ordens do presidente contra a pandemia não adentrariam as fronteiras goianas. Ele falou que o presidente estaria vendendo cloroquina na porta do Palácio do Planalto. Estimulou uma disputa entre patrões e empregados e chamou o presidente de ignorante. Inclusive na época, no ano passado, fui muito cobrado. Porque então eu não me contrapunha ao Caiado naquela oportunidade? Eu via no presidente, que sempre respondia de forma veemente o governador João Dória e o Wilson Witzel (antes de ser Impeachmado), mas nunca vi uma resposta contundente ao Caiado, pelo contrário, sempre procurou contemporizar. Depois o Caiado fez gestos de reaproximação. Até minha própria postura naquele momento, quando fui entrevistado, falei que queria trabalhar como uma ponte, porque dos políticos que defenderam ao longo do tempo as pautas de direita, fizeram contraposição ao PT durante a época que o PT estava no poder e que tem uma admiração mutua, sempre vi nos dois uma relação muito boa.

Naquele momento foi muito ruim quando o governador levou o Luiz Henrique Mandetta para dentro do Palácio das Esmeraldas no auge do conflito com o presidente. Esses foram fatos que aconteceram e que certamente estão na memória dos bolsonaristas goianos. De certa forma existe uma mágoa. É um fator a ser considerado. Eu tenho dito isso, na minha publicação eu falei a respeito disso. Eu acho que esse é o fator de maior desgaste para o Caiado com a Direita, assim como essa ligação do Mendanha com a esquerda – essa indiferença dele na parte ideológica, ao compor com diferentes linhas ideológicas pode ser também uma vulnerabilidade política para ele. Hoje em dia a própria polarização, independente de qual campo se esteja, espera-se que se tome uma posição ou um lado. Independente de ser um gestor local ou regional como o governador. O seu posicionamento sobre o presidente da República ou aos partidos que o apoiam tem que estar muito claro para o eleitor, na minha visão. 

Frederico Jotabê – Neste cenário que o senhor desenha e o perfil que hoje o governador construiu com o presidente, se lá na frente vier ele sair candidato à reeleição sem o Bolsonaro no palanque dele, o senhor defende que o PSL lance um candidato? O senhor se colocaria como nome?
Primeiro, como a gente não tem um partido, muito provavelmente não estarei no PSL. A hora que o presidente definir para qual partido ele vai, é provável que eu vá pro mesmo partido. Temos que fazer só a projeção deste partido em Goiás e tomar a decisão. Mas é pouco provável que eu esteja no PSL. A defesa de um nome do PSL para o governo, pode ser que não. 

Frederico Jotabê –  Reformulando, não é o PSL, mas o grupo do presidente em Goiás…
Ai, neste sentido, se o Caiado apoiar outro candidato, nós não teremos outra opção. Eu tenho certeza absoluta que vou apoiar o presidente. E tem um grupo grande em Goiás que tenho certeza que vai apoiar o presidente. São grupos de políticos, prefeitos e cidadãos em geral, de segmentos, como agro, grande parte do segmento evangélico, a segurança pública e vários outros vão estar com o presidente. Essa é a sensação que tenho, porque apoiaram o presidente em 2018 e a aprovação e apoio a ele tem se mantido constante ao longo deste tempo. Mesmo no auge da pandemia nunca baixou para menos de 30%. Muitos falaram isso, de que o marco de 30% tem conseguido se manter independentemente do momento que esteja vivendo. Então eu acho que esse pessoal tem uma expectativa de que algum nome apareça. Neste momento eu não tenho condições nenhuma de dizer que serei eu, mas eu terei condições de apoiar ou eventualmente, até se houver viabilidade política, se houve o apoio do presidente, se o Caiado não apoiar o presidente ou o presidente não quiser receber o apoio do Caiado… então são muitas condicionantes. Mas eu acho que a direita tem que ter um nome se esse quadro se configurar. 

Elder Dias – O trabalho dos deputados é muito ligado aos prefeitos. E os prefeitos por sua vez dependem dos governadores. Tanto é que a gente sempre vê que o governador que tem o mandato consegue atrair a maioria dos prefeitos, ou boa parte para a própria sigla. Foi assim com Marconi Perillo – em que a maioria era do PSDB –  e agora acontece com o DEM. O senhor considera a hipótese que mesmo que o Caiado resolva ficar neutro em relação a eleição presidencial, que haja um movimento, no estilo “Bolsodória”(Jair Bolsonaro e João Dória), ou “Luma” (Lula e Marconi Perillo), pode ter um “Caiadonáro” ou algo assim? E isso inviabiliza a candidatura mais a direita?
É uma hipótese. Isso pode acontecer. Mas eu acho que se no primeiro turno, que é uma situação diferente de 2018, em que o Bolsonaro era uma possibilidade, e o Caiado manteve uma postura mais reservada até porque o DEM teve um jogo nacional diferente, se não me engano apoiou o GeraldoAlckmin. O Caiado manteve uma postura mais reservada em respeito à posição partidária. E essa é outra condicionante que temos que abordar também. O DEM tem ensaiado lançar à presidência o Luiz Mandetta e o Rodrigo Pacheco. Mandetta é amigo pessoal do Caiado, inclusive participou muito da construção da ida dele para o Ministério da Saúde, e o Rodrigo Pacheco é um quadro importantíssimo do DEM. Presidente do Senado Federal, vem de um estado (Minas Gerais) relevante politicamente e eleitoralmente. Tudo isso torna a situação do Caiado no primeiro turno algo complexo. Como ele vai atuar?

Vai depender também da costura do presidente. Se ele decidir, como ele decidiu em 2018, compor desta maneira, é claro que vamos junto com o presidente. Bolsonaro tem uma visão mais ampla e mais completa do jogo político nacional. E para nós é muito mais importante a eleição do presidente do que qualquer outra eleição. Assim como é importante para nós a construção da base de apoio parlamentar para o presidente Bolsonaro.

Me resumo assim: o presidente vai tomar a decisão dele sobre o partido, vai tomar a decisão sobre apoiar ou não candidatos nos estados, do que eu tenho sentido a prioridade dele é a construção da base parlamentar. O foco não é eleição de governadores. Isso é um fato. Mas a construção de uma campanha para o Senado, que também é majoritária, é importante. O Senado tem um papel hoje, que se o Senado fosse mais altivo ou mais independente, nós teríamos um equilíbrio de poder mais evidenciado no Brasil. Se o Senado fosse Senado de verdade talvez tivesse chegado com mais ímpeto e com mais vontade a ideia dos poderes se autoconterem para andar cada poder dentro de suas atribuições constitucionais. Tendo um Senado, como o nosso agora, que não quer enfrentar esses sistemas, a gente deixa o País refém do desequilíbrio entre poderes. A eleição para o Senado vai ser importante, não só para o governo, mas para o País. 

Por isso estamos em um momento de muita indefinição. Tenho feito sondagens diversas, publicações na internet para evidenciar essas sinucas de bico que cada político está neste momento, e o Caiado em particular. Assim as pessoas podem refletir e a hora que o presidente tomar sua decisão a gente toma as nossas.

Frederico Jotabê –  É interessante para o senhor o presidente ir para o Progressistas? No cenário goiano é interessante para o senhor uma filiação do presidente no PP?
O Progressista, no âmbito nacional, tem uma importância muito grande. O presidente da Câmara, o novo ministro da Casa Civil, é um partido com uma bancada grande aqui na Câmara e está no núcleo do governo federal. Então é um partido importante. Aqui em Goiás eu não teria dificuldade de ir para o PP caso o presidente fosse. Eu não tenho problema com nenhum político goiano que esteja no PT. Alias, tenho uma proximidade grande com o prefeito de Anápolis, o Roberto Naves, tem vários vereadores do PP e prefeitos que são próximos, então não teria dificuldades.

Temos que verificar assim: os políticos já postos nos partidos para qual o presidente pretende ir eles vão concorrer a qual função, para quais cargos nas próximas eleições. O Baldy vai pro Senado ou para deputado federal. Isso vai ser sopesado em qualquer partido que há possibilidade do presidente se filiar. Por exemplo, se o Bolsonaro for para o PP a possibilidade de eu assumir a presidência do partido é remota. O Alexandre Baldy está no PP há muito tempo, é amigo pessoal do Arthur Lira, do Ciro Nogueira. Isso não aconteceria. Caso o presidente vá para outro partido, pode ser que eu consiga chegar à presidência da sigla no Estado, e isso dá uma possibilidade maior de traçar estratégias.

Tem também uma outra condicionante de incerteza no cenário, que são as mudanças da legislação eleitoral. Vamos discutir a instituição do distritão. Estamos analisando a possibilidade real. Temos mudanças no Código Eleitoral. Temos uma série de indefinições que vão certamente condicionar as eleições do ano que vem. Imagina se em 2022 tivermos o distritão, a própria definição partidária perde a importância, porque os 17 mais votados vão ser deputados federais. É um caminho difícil de ser definido porque temos muitas hipóteses e poucas definições. 

Elder Dias –  O senhor é a favor do distritão?
Eu sou favorável. Eu acho que nenhum sistema é perfeito. Todos têm vantagens e desvantagens, mas o distritão para mim parece mais lógico para a população, que entende que os mais bem votados são eleitos. 

Elder Dias – Mas o senhor não teria sido eleito se fosse pelo distritão…
É verdade. Eu também não tive escolha. Eu joguei com as regras que estavam postas. 

Elder Dias –  Na eleição que te elegeu, o senhor escolheria o distritão?
Aquela eleição eu não votaria. Estava eu entrando no jogo político. Eu não tive qualquer escolha.

Elder Dias –  Digo, como candidato o senhor gostaria que já fosse pelo distritão a eleição de 2018?
Sinceramente eu não tinha como avaliar. Na eleição que se está entrando, não tem possibilidade de modificação. Aliás, a única coisa que eu escolhi na minha primeira eleição foi o meu partido. Eu não participei da decisão da coligação que foi a Democracia Cristã, não participarei da decisão da composição da chapa, não tive recursos do partido, não tive tempo de TV e de Rádio, não tive qualquer estrutura de partido, seja de diretórios ou comissões provisórias que trabalhassem para mim. Você tem razão, fui eleito por um sistema que agora pode ser mudado, mas eu não tive qualquer possibilidade de opinar, e não tive possibilidade de opinar sobre as condições pelas quais eu concorreria. 

A minha missão naquela eleição, até diante da postura do Delegado Waldir –  que se mostrava para Goiás como único candidato do Bolsonaro – era ser o segundo lugar da chapa e ter mais de 10% do coeficiente eleitoral, que era a cláusula de barreira. A missão foi cumprida. Se for ver, só teve uma candidata que além de mim fez mais de 18 mil votos, que eram os 10%.

Do partido que elegeu o  presidente da República, eu fiz 31.190 votos, ninguém fez mais do que isso, é sinal de que não houve qualquer apoio do partido, entendeu?

Elder Dias – A gente, com o distritão, quem está no poder ou tenha o mandato, fica com a vida facilitada em relação a quem não tem e quem, como o senhor na última eleição, não tem recursos. Tendo mandato o senhor tem contato com prefeitos, tem as emendas, tem a própria estrutura do partido que se passa a ter um controle maior. E quem não tem fica a reboque. E o reboque é exatamente a proporcionalidade. Sem ela, a gente tem dificuldades muito grandes de renovar os quadros, não é deputado?
Sabe porque eu acho que não? Primeiro o número de candidatos vai diminuir. O partido não vai lançar 25 candidatos, como é o que pode se lançar a federal hoje. Os partidos vão lançar dois ou três candidatos. É o possível para eleger. Fazer a verificação muito clara do jogo e jogar dentro da regra. Quando se lança dois ou três candidatos a população consegue identificar quais são os candidatos que fizeram alguma coisa e quais que não fizeram. A dificuldade que alguém que não está no mundo político de ser eleito existe tanto na proporcional quanto no distritão. Ela existe. Tanto que no partido do presidente, que teve um candidato que foi o Waldir, que fez quase 300 mil votos, só dois foram eleitos. A dificuldade para quem tá fora entrar, existe independente do sistema. A pessoa que vai entrar tem que saber jogar com a regra do jogo, como eu soube jogar com a regra que estava posta para mim naquele momento. Agora, vai tirar um pouco do poder dos partidos porque na verdade os mais bem votados vão, mas o partido ainda assim vai ter que ser estratégico para escolher os melhores candidatos.

“Não acredito que haja qualquer possibilidade de ruptura”

Quando se vê no sistema proporcional a dificuldade é muito grande também para quem tem mandato. A pessoa não quer fazer chapa contigo imaginado que vão trabalhar só para aquele que já tem mandato. Falam: não vou entrar numa chapa onde já tem alguém com mandato. Tem vantagens e desvantagens. Mas é mais fácil para a população trabalhar no universo que tenha 40 candidatos a deputado federal e alguns desses sejam com mandatos e outros não, e assim poder fazer sua escolha, do que trabalhar num mar de 300 candidatos. É difícil para o eleitor se aprofundar na vida e nas propostas que o candidato quer oferecer dentro de seu mandato. 

Frederico Jotabê –  Saindo do distritão para o centrão. Em 2018 a base bolsonarista e o próprio presidente foram eleitos com discurso de crítica ao centrão e a política de coalizão entre Congresso e Executivo. Agora com a entrada do centrão ainda mais no governo, a partir da indicação Ciro Nogueira para a Casa Civil, e a aproximação com o Progressistas, que é para alguns o Arenão, um partido com grandes características de centro. Como vai ser para justificar para o eleitor agora essa aproximação com um partido que virou até paródia para o General Heleno?
Primeiro dizer o seguinte, que eu aprendi com o deputado Paulo  Eduardo Martins (PSC), ele quem publicou isso: a política é igual jogo de xadrez, em nível nacional, onde o presidente tem que jogar com as peças que são colocadas no tabuleiro não por ele. Quem elegeu os deputados e senadores que estão hoje aqui, com virtudes, vicissitudes e problemas é a mesma população que elegeu o presidente. 

Imagina que votaram no presidente 57 milhões de eleitores. Então, se projetar isso para Câmara, teríamos mais da metade dos deputados e talvez a relação do Exército com os deputados seria melhor. Tivemos momentos de grande tensões com o Rodrigo Maia fazendo grave oposição, primeiro velada e depois aberta ao governo. Eu era o líder, eu sentia claramente. Pautas como por exemplo a autonomia do Banco Central, que era uma pauta histórica dele próprio, ele não colocou para votar para não dar a vitória para o governo. Ele se sentou na Reforma Tributária. Só tocou  Reforma da Previdência porque era um clamor social muito grande. Já havia uma base reformista e todos os candidatos que foram derrotados para presidência da República defendiam a reforma previdenciária. Então ele não teve opção. Mas o Maia fez  uma oposição gratuita e evidente ao governo. 

Quando sobreveio a pandemia e houve a necessidade de compor para ter uma base para dar respostas mais eficazes e mais oportunas, e aí o presidente começou a ser criticado por que estava fazendo uma base. Então assim, tem um artigo do Mario Rosa, publicado na Folha de São Paulo, falando que não é possível que o presidente esteja errado a todo momento. Ele está errado quando não compõe e tá errado também quando ele compõe. Os analistas têm que decidir em qual ponto ele está errado. 

E na verdade, no meio de uma pandemia, conseguimos no ano passado aprovar diversas pautas que ajudaram a salvar vidas e proteger os empregos dos brasileiros. Estamos com mais de 100 milhões que tomaram a primeira dose. Mais de 160 milhões de doses de vacinas foram distribuídas. Mais de 140 milhões de vacinas aplicadas. Assim, dá para se ver que o governo está fazendo todo o possível para salvar vidas e empregos e isso passa também por ter uma base de apoio no Congresso, e as peças foram postas pela população. O presidente precisa ter uma base. Tem 130 pedidos de impeachment feitos pela oposição que, se o presidente não tivesse uma base, imagine a instabilidade que poderia ser gerada no país, com reflexos econômicos, sociais… A ida do Ciro Nogueira para Casa Civil consolida essa aproximação com o PP, ao mesmo tempo que reforça a relação do governo com o Senado Federal. Reforça a posição do governo em contraposição a CPI circense, essa CPI do Lula, que no fundo tenta desgastar o presidente.

“Acredito que as eleições vão acontecer no ano que vem. Elas tem que acontecer. Mas eu torço para que elas aconteçam com o voto impresso”

No fundo eu vejo como um movimento natural de um sistema que nos é imposto por uma Constituição. É um clichê falar isso, mas é. Temos uma Constituição presidencialista, que prevê o presidencialismo, mas que foi construída em grande medida com contornos parlamentaristas. Então deixa o presidente muito dependente do parlamento. Então é sim importante que se tenha uma base, e neste aspecto e movimento que o presidente está construindo. 

Marcos Aurélio Silva – Deputado, frente às declarações do presidente Bolsonaro, em que ele disse: “Ou fazemos eleições limpas no Brasil, ou não teremos eleições”, o senhor acredita que haja a possibilidade de ruptura institucional por parte dele?
Não acredito que haja qualquer possibilidade de ruptura, Marcos. Eu torço efetivamente para que a gente supere esse momento de tensão que estamos vivendo. Temos que distensionar. Temos que discutir os temas com desassombro. Não é justo, não é leal e nem honesto com a população brasileira. Nenhum tema pode ser varrido para debaixo do tapete. Se há uma parte da população que defende o voto impresso, é porque enxergam  uma lacuna de confiança no sistema eleitoral vigente, independente de ter tido fraude ou não, de ter prova ou não ter prova, o fato é que existe um gap (palavra inglesa que significa lacuna, vão ou brecha) de confiança na população e que poderia ser suprido com a aprovação do voto impresso. Inclusive já foi aprovado em outras oportunidades, na Câmara e no Senado, depois as duas leis foram invalidadas pelo Supremo. Só três países no mundo adotam urnas sem nenhum tipo de impressão ou outra forma de contagem pública ou auditoria – Só Bangladesh, Butão e Brasil. Outros países com maior capacidade de desenvolvimento de tecnologia ou rechaçam no passado as urnas eletrônicas ou adotaram urna eletrônica com possibilidade de comprovação impressa. 

Não é possível que os Estados Unidos, a Alemanha, Coreia do Sul e o Japão, que tem tecnologia acima da nossa e não adotem o sistema igual ao nosso. Tem uma razão. A razão, na minha visão, tem a ver com esse gap de confiança que poderia ser sim suprido.

Eu tenho convicção de que não haverá uma ruptura institucional, mas acho que os poderes têm que se autoconter em face dos demais poderes, para que nossa República seja efetivamente a união de três poderes harmônicos e independentes. Mas tem que haver uma capacidade de autocontenção. Quando o Supremo Tribunal Federal prende um deputado em razão de uma fala, sendo que a constituição diz que, os deputados são invioláveis civil e penalmente por opiniões, palavras e votos, quando a constituição diz que só pode ser preso por flagrante de crime inafiançável, e não era crime, não era flagrante e se fosse não seria inafiançável, porque esses são crimes taxativamente descritos na Constituição, aí se vê que há um avanço do Supremo em torno do parlamento. 

Quando se diminui a possibilidade de um deputado ou um senador de falar, na verdade se está afetando a representatividade que é a base da democracia. Então é preciso que os poderes se autocontenham para que haja efetivamente harmonia e independência. É o que torço para que aconteça. 

Elder Dias – O senhor não acha também, por outro lado, o presidente fazer uma autocrítica e não dizer mais que se não tiver a eleição do jeito que ele quer, com voto impresso e auditável, que não vai ter eleição? Parece que há também um excesso. Ele extrapola os limites do poder dele nisso também, não?

Eu tenho buscado entender e interpretar essa fala específica do presidente dentro de um contexto maior. Ele falou muitas vezes, e essa é a fala qual quero me voltar e pelo qual me fixo, que se o Congresso Nacional vier a aprovar o voto impresso auditável, numa forma de Proposta de Emenda à Constituição, que são ⅗ (três quintos) nas duas casas em dois turno, isso seria uma demonstração inequívoca de que o parlamento, que é a caixa de ressonância da população brasileira, e que o parlamento e a população, em sua maioria, quer o voto impresso.

A fala que o presidente mais ressaltou é a de que haveria voto impresso se o parlamento aprovasse. Eu me fixo nisso. Eu não acho que vai haver ruptura institucional. Eu acredito que as eleições vão acontecer no ano que vem. Elas tem que acontecer. Mas eu torço para que elas aconteçam com o voto impresso, auditável com contagem pública de votos. Para que ao lado urna eletrônica a gente tenha a possibilidade de comprovação física. É a única forma de ter uma auditoria, ou uma contagem que utilize um sistema diferente. 

É como na época da escola, no ensino de matemática. Eu sempre gostei. E quando eu fazia uma conta de multiplicar, tinha a fórmula de fazer a contraprova. E não se faz contraprova de uma equação é pelo mesmo caminho que se fez. Se fizer pelo mesmo caminho não está comprovando, está reafirmando oque já se fez. Tem que se encontrar um outro caminho, um outro raciocínio para chegar ao mesmo resultado. é a mesma coisa da urna. Se há confiança, se há possibilidade de auditoria, como muitos dizem no âmbito digital, só faz sentido se reforçar a segurança, já que existe esse gap de confiança, se for por um outro sistema completamente diferente. Senão você pensa em fazer uma consultoria digital. Mas se houver um problema ou erro, a auditoria pode não captar. 

É importante que a gente tenha apoio. Essa é uma pauta que vai dominar a semana. Essa é uma pauta que deve ser apreciada na comissão especial, e é importante para o País, demonstrada inclusive nas manifestações, que foram feitas nas semanas anteriores. 

Elder Dias – Deputado, mas ela sendo derrotada no Congresso a discussão acaba? Porque democraticamente, se não é aprovado nem na comissão é sinal que não vai a plenário, e a na democracia a discussão acaba e fica um ponto pacificado. Vai ser assim? A partir de então, vamos passar para outro ponto e esquecer o voto impresso?
Temos ainda uma outra frente de batalha porque existe uma PEC aprovada pela Câmara, em dois turnos com ⅗ (três quintos) dos deputados, e está no Senado Federal que prevê voto impresso. Caso a gente perca na votação da PEC do voto impresso na Câmara, ainda há possibilidade de articulação  para que outra PEC avance no Senado.

Tem algumas coisas que talvez não fosse o caso, não é uma PEC restrita ao voto impresso, mas está lá e já foi aprovada pela Câmara. Talvez até o maior esforço, já que existe uma PEC nessas condições no Senado, pudesse se voltar para lá. Mas não impede que a discussão seja feita aqui na Câmara e a gente vote um texto aperfeiçoado. Eu acho que o texto que está no Senado é mais enxuto, mas resolve o problema. 

O texto que estamos construindo com o Felipe Barros (PSL-PR) –  Relator da PEC 135/19 – que já ouviu dezenas de instituições, conversou com especialistas, tem conversado com a população diretamente, fez audiÊncias públicas e tal, o texto certamente será mais elaborado porque cuida somente do tema do voto impresso.  Vamos em frente na luta e ainda temos até outubro a possibilidade de aprovar no Senado. 

Marcos Aurélio Silva – E quando esse debate sobre o voto impresso acaba culminando no ataque do presidente ao TSE, como vimos agora. Qual sua opinião sobre esse ponto de atrito?
Todas as instituições, todas autoridades, todos homens e mulheres públicos tem que estar abertos a receber críticas. A crítica faz parte dos embates políticos. Eu não vejo as manifestações do presidente como ataques. Eu vejo as manifestações como críticas. Como exposição de certas situações que na maioria das vezes evidenciam decisões que o Supremo e o TSE vieram a adotar e que se enquadrou com o o que a maioria da população brasileira pensa. Por exemplo, quando eu critico a prisão do Daniel Silveira, não é um ataque ao Supremo. É uma crítica. Quando eu critico a decisão do STF que invalidou parte dos decretos das armas, não é um ataque ao Supremo. É uma crítica. Quando eu falo da decisão do Supremo de possibilitar a nomeação do delegado (Alexandre) Ramagem para a Diretor Geral da Polícia Federal, isso também é uma crítica. Quando eu critico o Supremo por ter ampliado a noção do crime de racismo para abranger a homofobia, sem previsão legal, isso é crítica e não ataque. 

O presidente é um dos mais criticados no dia a dia. Eu leio todos os dias o resumo dos principais jornais brasileiros, a Folha, o Estadão, O Globo e as revistas… Todos os dias os ataques ao presidente, muitas vezes desejando a morte dele, muitas vezes chamado dos piores adjetivos, e o presidente resiste calado. Nunca propôs fechamento de nenhum jornal, nunca propôs censura, controle social da imprensa. Isso não foi proposto pelo presidente. Todos nós temos que estar abertos a críticas. Acho que qualquer tema merece discussão. Não há dono da verdade na política, e não é porque alguém foi escolhido para determinada função que ele passa a ser o dono da verdade. todos nós temos que estar abertos a termos nossas posições criticadas. É assim que eu entendo as manifestações do presidente.

Marcos Aurélio Silva – Uma questão mais local… Como está sua relação com o deputado Glaustin da Fokus? Vocês tiveram um atrito por conta de emendas parlamentares…
A minha relação com o Glaustin está zerada. Eu acho que o período eleitoral vai se aproximando e o nervosismo começa a aflorar. As disputas pelas bases, pelo apoio de um prefeito ou de um vereador influente, isso vai aflorando discussões. Está superado isso aí. 

O Glaustin, este ano, na primeira reunião da Comissão Mista do Orçamento, o PSL tinha seis vagas, três suplentes e três titulares. A pedido do Arthur Lira e do líder do Glaustin eu tirei uma vaga do PSL e dei uma vaga para que ele pudesse compor. Isso gerou um desgaste para mim dentro da bancada do PSL. A participação na Comissão Mista de Orçamento é muito desejada, assim como a CCJ por exemplo. O Glaustin faz parte do meu grupo, que eu presido e cujo resolução de criação eu aprovei na Câmara, Grupo Parlamentar de Amizade Brasil. Ele integra essa frente e eu não tenho nenhum problema com ele. Acho que foi superado esse momento de tensão. 

Elder Dias – Deputado, o senhor concorda com o presidente na maioria das questões. Mas eu acredito que o senhor deva ter alguma discordância dele. Ninguém concorda com todo mundo em tudo. Qual a discordância e qual o ponto de vista o senhor diria que tem de diferente em relação a algum posicionamento do presidente Jair Bolsonaro?
Eu discordo veementemente do presidente na pauta que é a seleção rubro negra, e o presidente torce pelo Palmeiras. Isso pra mim é uma afronta. Nesta pauta discordo claramente com ele. Nas demais eu procuro entender. Porque eu procuro entender? Por ser um deputado de primeiro mandato eu não tinha qualquer noção, embora trabalhasse na Câmara –  sou servidor concursado aqui –  mas a dimensão política é muito diferente da dimensão técnica. Eu não tinha noção das pressões que um deputado federal vive e não tinha noção de que um líder de governo e de partido, e extrapolando isso para o presidente da República, que é um nível muito acima, eu não tinha noção do grau de dificuldade que o presidente iria enfrentar para tocar as pautas que ele quer tocar com o apoio da maioria da população.

“Eu não vejo as manifestações do presidente como ataques. Eu vejo as manifestações como críticas”

Ele viveu 28 anos aqui na Câmara em confronto. Porque era ele contra toda a esquerda. Ele tem uma personalidade peculiar, que todos nós conhecemos quando o Brasil o elegeu. E diante de todo o cenário de pressão que ele vive desde 2019, todos os dias de forma ininterrupta, de todos os lados –  da imprensa e de todos os poderes. 

Elder Dias – Um ponto importante, o senhor que acompanha de dentro do Legislativo como um servidor, e acompanha a política como um todo, até pode dever de ofício. O senhor acredita que houve fraude nas eleições em 2014 e em 2018?
A questão das fraudes, em todas minhas manifestações em defesa do voto impresso nunca recaíram sobre essa questão da prova de fraude. 

Elder Dias – Eu estou perguntando se o senhor tem o mesmo posicionamento do  presidente Bolsonaro.
O próprio presidente, e ele falou na última live, que há indícios e não há provas.

Elder Dias –  Ele disse que há indícios e disse que tem certeza que houve fraude…
Ele falou de indícios. Essa polêmica eu não quero entrar. Porque eu defendo o voto impresso… eu vou nesta linha: por conta do gap de confiança. A questão da existência de fraude, existem indícios que ele mostrou, existem uma sensação na população de pode ter havido fraude, que pode haver falha de segurança, e isso para mim já é suficiente para defesa da pauta. 

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