“A Saneago não será uma Celg, é muito mais conveniente como estatal”

Presidente da empresa ressalta seu papel estabilizador como motivo para ficar sob gerência do poder público e garante que cumprirá todas as metas de expansão de água e esgoto

Foto: André Costa/Jornal Opção

Pouco mais de um mês depois de deixar a prefeitura de Goianésia, o empresário Jalles Fontoura já estava de volta à esfera pública: ele aceitou o convite de seu correligionário de partido, o governador Marconi Perillo (PSDB), para ocupara a presidência da Saneago, que viveu meses turbulentos no fim do ano passado, quando a Operação Decantação foi deflagrada e atingiu em cheio a estatal. É a primeira vez de Jalles Fontoura no comando da empresa, mas o que menos se pode dizer dele é que seja um neófito: além de já ter participado do conselho administrativo, ele mesmo ressalta que os dez anos como prefeito o fizeram conhecer todos os meandros da Saneago.

Mesmo se autodefinindo com liberal, o ex-prefeito diz que a Saneago deve continuar sob gestão do Estado, até por tratar de um capital cada vez mais estratégico: a água. “Com uma estatal pode-se, por exemplo, dobrar o fornecimento de água a uma cidade pequena, cuja escala não daria lucro à iniciativa privada”, lembra.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, Jalles também se defende das acusações do prefeito de Goianésia, Renato de Castro (PMDB), que o acusa de ter deixado a administração endividada. Deixei a prefeitura em situação melhor do que quando a recebi dele. Infelizmente, é comum a pessoa justificar as próprias limitações usando o passado”, rebate.

Elder Dias — O sr. está há um mês à frente da presidência da Saneago. Conhece bem a empresa?
Já fui presidente do conselho de administração da Saneago. E também fui prefeito por dez anos. Como a Saneago é uma concessionária das prefeituras, posso dizer que conheço a empresa “de cabo a rabo”, profundamente.

Elder Dias — Muito se fala do uso político das concessões de água e esgoto. Em Goiânia, o prefeito Iris Rezende (PMDB) foi incisivo ao prometer a municipalização da água durante a campanha eleitoral. Agora, os deputados do partido dele o estão pressionando para levar isso adiante, mas ele retrocedeu, depois de uma conversa com o secretário Vilmar Rocha, da Secima [Secretaria do Estado de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos]. O prefeito quer ter uma visão melhor da Saneago e discutir mais a questão. Foi uma evolução de Iris Rezende?
Na verdade, praticamente todos os 225 municípios atendidos pela Saneago discutem a concessão da água nas campanhas. E é uma discussão importante, porque a concessão do serviço de água esgoto — assim como o serviço funerário e o transporte municipal — é vinculado ao município. Naturalmente a discussão aparece e surgem propostas.

Lembro-me de que Iris Rezende, como político, teve participação importantíssima na construção da Saneago — grande parte da área do Ribeirão João Leite foi Iris quem conseguiu, com Altamiro de Moura Pacheco [médico, intelectual e figura histórica da capital] quando foi governador. Sobre a água em Goiânia, é preciso dizer que a capital não está isolada, há uma região metropolitana com vários municípios. Quando um prefeito assume o poder em Goiânia, ele começar a estudar as vantagens da concessão, em termos de redução de custos. Para ilustrar, estive ontem na unidade da Saneago onde são feitos os exames laboratoriais de qualidade da água e de controle de bactérias; a unidade onde é feita a manutenção de bombas centrífugas e outras. A escala para se fazer isso muda completamente a questão dos custos. Falar que o preço da água em Goiânia vai reduzir 30% se municipalizar é completamente fora da realidade.

Augusto Diniz — O sr. também conversou com Iris…
Eu tive uma excelente conversa com o prefeito Iris Rezende, uma conversa técnica, e ele se mostrou contra a terceirização e a privatização. Ocorre que Goiânia tem um sistema maduro de rede de água — ao contrário de Aparecida, que é um sistema em formação — onde não há privatização. Goiânia cumpre estrategicamente o que o prefeito Iris espera da Saneago. A criação da Agência Municipal de Regulação foi feita; o subsídio cruzado é outra questão, porque na metade dos municípios goianos, se não tiver o subsídio cruzado, vai ter de dobrar a tarifa de água e esgoto.

Como resolver isso? São questões que temos de enfrentar, discutir com transparência e objetividade e colocando essas questões de escola. E posso informar que, nas 21 cidades não servidas pela Saneago, o serviço de água e esgoto é muito inferior ao que a Saneago faz (enfático). Prefeitos têm de pensar muito se compensa ter um serviço municipal de água, porque não há escala, não há controle, não há capacidade de dar sequência a um serviço que é melindroso. E, finalmente, imagine politicamente o prefeito mandar duas contas, de água e esgoto, todo mês ao cidadão. Principalmente numa época de desemprego, de crise e recessão, essa conta sempre será cara. A pressão política em cima da prefeitura é enorme. Fui prefeito por dez anos e sei como é isso. Fui prefeito por dez anos e também já sonhei com a municipalização — e veja que Goianésia tem um serviço excelente de abastecimento de água. Acontece que, à frente de uma gestão municipal, é preciso pesar todos os prós e contras e, por isso, quem o faz percebe que é melhor ter um serviço em que o gestor pode participar, fiscalizar e exigir e ver bons resultados, sem ter os sérios ônus que o sistema traz.

Augusto Diniz — É possível apontar qual seria o gasto mínimo de Goiânia para rescindir o contrato de 30 anos com a Saneago e para montar uma estrutura para gerir esse serviço com uma empresa municipal?
Tem nisso toda a apropriação de custos, desde os serviços e investimentos. Por exemplo, no Sistema João Leite, que está sendo concluído agora, já foram investidos R$ 320 milhões e ainda faltam R$ 21 milhões para terminar o serviço. No sistema de esgoto do Rio Meia Ponte, que vai aumentar o nível de tratamento do esgoto — embora não vá aumentar a coleta — são mais R$ 32 milhões. Portanto, esse processo de custos que está nessa questão de patrimônio da Saneago é muito grande. Então, é algo que deve ser discutido. A Saneago tem todos os parâmetros, números, investimentos e demandas por investimento e estamos dispostos a debater isso a qualquer hora, sem nenhum problema. Temos de ter um respeito muito grande pelo fato de a concessão ser municipal. O município tem de ser ouvido. Agora, há outro ponto: a concessão do uso da água é municipal, mas a água é estadual, a não ser as águas que dividem Estados, que são da esfera federal.

No caso de Goiânia, podemos falar, primeiramente, que a Saneago não será uma Celg. Ela é uma empresa estatal que busca sempre a melhoria e permanecer assim já é uma decisão do governador; em segundo lugar, não haverá terceirização em nenhuma esfera; em terceiro, estamos permanentemente abertos para conversar, sem constrangimentos, sobre todos os aspectos. Somos concessionários dos municípios.

Marcos Nunes Carreiro — Goiânia tem 100% de abastecimento de água e 91% de serviço de esgoto. O que falta para universalizar também o serviço de esgoto?
Falta completar investimentos que já estão, inclusive, orçados e projetados. Agora, há ainda outra questão: desses 91%, apenas 74% têm tratamento. Então, temos de completar 100% de esgoto com 100% de tratamento. O que falta é isso. Com 91%, o serviço já está praticamente universalizado e só faltam detalhes, como o AVTO [atestado de viabilidade técnica operacional, uma espécie de alvará atestando a viabilidade de implantação dos sistemas de água e esgotamento sanitário por um empreendedor em determinada área].

O prefeito Iris Rezende falou uma coisa interessante: Aparecida de Goiânia absorveu uma parte grande da economia por suas indústrias e distribuidoras, mas a grande geradora de empregos de Goiânia é a construção civil e precisamos trabalhar em soluções para isso, pois uma grande limitação para a construção civil é a capacidade de a Saneago oferecer água e esgoto. Se isso tiver de ser feito pelas construtoras, o aumento de custo para os empresários é muito grande. O empreendedor faz, por exemplo, um orçamento para 5 mil lotes, como foi o caso de um empresário que me procurou outro dia. Se não houver entendimento, ele terá de providenciar água e esgoto, o que encarece demais uma segunda fase do Minha Casa, Minha Vida, por exemplo. Então, a Saneago tem de ter uma solução para Goiânia e para Goiás com uma gestão profissional, sem aparelhamento político; a empresa precisa continuar investindo em pesquisa e inovação.

Nós temos uma perda de 20% da água de Goiânia, que é uma das menores do Brasil, mas ainda é considerável; em Anápolis é 40%, o dobro de desperdício. Por isso, precisamos trabalhar essa melhoria contínua, sobretudo no controle. Precisamos também superar o nosso “11 de setembro”, que foi a Operação De­canta­ção. Ou seja, há uma série de desafios que precisam ser enfrentados logo. E estamos fazendo, tanto que, no fim da semana passada, o ministro das Cidades, Bruno Araújo (PSDB), já conseguiu liberar vários processos. Está na hora de decantar a Decantação.

Euler de França Belém — Como está a situação de água e esgoto em Águas Lindas, no En­tor­no do Distrito Federal? É uma cidade que cresce muito, com certeza um dos maiores índices de crescimento demográfico da América Latina.
Lá temos o que eu já chamei de sistema em formação. É o con­trário do que ocorre em Goiânia e Anápolis, que têm sistemas consolidados.

Euler de França Belém — Mas falta água frequentemente em Anápolis…
Faltava, este ano não vai faltar mais. Faremos um investimento paliativo e também o investimento definitivo. Já estive com o prefeito [Roberto Naves, do PTB]. Serão R$ 118 milhões nessa obra.

Sobre Águas Lindas, temos dois consórcios com a Caesb [Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal]. Tenho um encontro com o presidente da companhia no início da semana que vem. Vou conhecer a Caesb e vamos seguir para Corumbá e Águas Lindas. Nessa cidade, houve a criação de um sistema até de máfia com poços artesianos. Agora o Estado está recuperando o controle. O consórcio Caesb–Saneago fez o sistema de água que será operado por nós e será entregue neste primeiro semestre. O Entorno do Distrito Federal não tem problemas de falta d’água; o problema existente em relação a isso é no Plano Piloto, em Brasília. O grande desafio da Saneago é o Entorno, com cidades populosas. Entendo que os maiores sistemas da Saneago as regiões metropolitanas de Goiânia e Brasília são desafiadores. Há muito que fazer para universalizar o abastecimento de água e o serviço de esgoto. O Jardim Ingá [distrito de Luziânia que tem cerca de 100 mil habitantes] é o primeiro desafio, pois tem um sistema pesado.

Augusto Diniz — Esse esforço citado pelo sr. envolve o anúncio feito pelo governador Marconi Perillo (PSDB) em relação à intenção de chegar, até o fim de 2018, a 80% de atendimento da população de Goiás pelo sistema de esgotamento sanitário. Atualmente, são 76%. Quais são os problemas a serem enfrentados pela Saneago para chegar o mais próximo possível desta meta?
O abastecimento de água já está re­solvido. O processo agora é de investimento em melhoria de rede e captações que estão no limite, que é o desafio do Sistema Mauro Borges. O desafio enorme que temos é o esgoto. Esse 80% tem a parte que é sistema de captação, mas há também casos de cidades pequenas em que não é necessário fazer o sistema, porque funciona com fossas sépticas e sumidouros. A Secima está nos ajudando nesta questão.

Vamos cumprir as metas para 2018 — aliás, as metas estão sendo cumpridas e até ultrapassamos um pouco os números da PNAD [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios]. Ocorre que, para fazer isso, temos projetos sendo elaborados, mas também temos projetos em plena execução, caso de uma parceria com a Odebrecht Ambiental, que foi vendida para a Brookfield, uma empresa canadense, e para a CCB, que tem 35%. Várias cidades estão nesse sistema, são investimentos que estão acontecendo. Estive em Aparecida de Goiânia, por exemplo, e estudei o sistema inteiro, é uma bela obra de engenharia, que fará Aparecida ficar como Goiânia em relação a água e esgoto. Então, nosso desafio é conseguir recursos para executar essas obras.

Augusto Diniz — O sr. falou em “decantar a Decantação”. Que problemas a operação poderá trazer para a Saneago?
Nenhum. O problema que a operação trouxe foi a perda do “rating” corporativo, que era A e agora é BBB. Isso é sério, porque repercute na área financeira, nos bancos. Teve banco que já comunicou que quer mudar a taxa de juros por causa disso. Não houve roubo, não houve desvio, não houve propina. A acusação que houve foi de sobrepreço, que já está resolvida.

As empresas alegam que elas tiveram de renegociar contratos. Nós vamos ter de ter muito cuidado com o controle disso, porque as empresas renovaram os contratos, mas não a qualidade do material, de bombas etc. Foi uma grande negociação, na qual elas concordaram a reduzir aquilo que gerou a Operação Decantação, que foi a denúncia de uma empresa a respeito de sobrepreço. Elas concordaram com a redução, a Saneago concordou com essa posição e o Ministério das Cidades, também.

O processo foi entregue no dia 8 de março para o ministro das Cidades, Bruno Araújo, que vai remetê-lo à CGU [Controladoria-Geral da União], órgão que identificou o sobrepreço. E a CGU já concordou com esse valor, de redução de R$ 34 milhões para R$ 15 milhões. A CGU, então, devolverá o processo para a Saneago, que o encaminhará para o Ministério Público Federal. Uma vez que tenhamos todas essas instituições concordando com o desfecho — e isso é coisa para esse mês —, os recursos estão liberados.

Eu registro que isso foi motivado pela falta de água em Brasília. Havia a ideia de fazer nova licitação, mas, de repente, a necessidade fez o sapo pular, a gente foi atrás e fizemos esse acordo. E agora que o processo está todo alinhado, com concordância de todas as partes, nós vamos recomeçar as obras imediatamente, depois de um atraso de mais de oito meses. E ainda vamos gastar mais oito meses. Por isso, Brasília ainda vai sofrer em 2017 com a falta de água.

Augusto Diniz — Goiás corre o risco de caminhar no exemplo de Brasília e ter racionamento de água?
Nenhum. Aliás, o grande diferencial da Saneago é ser empresa que tem água. Para ter ideia, o governador foi agora à Arábia Saudita e a Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, e levou com ele o vice-presidente da Saneago, Elie Chidiac. Essa viagem foi muito interessante e proveitosa. Tem um fundo na Arábia Saudita que vai nos financiar, em relação à obra da União para irrigar Aparecida de Goiânia, no valor de R$ 200 milhões. O desafio agora é conseguir quem nos financie — ela já estava financiada, mas o banco Credit Suisse cortou o financiamento assim que surgiu a Operação Decantação. As coisas estão encaminhando. A Saneago começa a andar para cumprir essas metas de melhoria de água e aumentar o sistema de esgoto atingindo os parâmetros projetados.

Elder Dias — O sr. falou sobre o problema de infraestrutura para um loteamento. A expansão urbana é um problema para a Saneago? A empresa pode aderir a métodos alternativos de tratamento de esgoto, como as fossas ecológicas, para localidades mais distantes?
São desafios. Estrategicamente há dois grandes problemas. Um é a redução da água nos últimos tempos. Ao contrário do restante do mundo, ninguém se preocupava com a água no Brasil. E Goiás é o Estado “caixa d’água”, um Estado de nascentes de grandes rios das maiores bacias hidrográficas. O grande patrimônio da Saneago é a água.

Portanto, esse desafio é moderno: a falta d’água chegou ao Brasil, o clima mudou, temos os desafios da urbanização fortíssima que o Brasil teve na segunda metade do século 20. Com tudo isso, a situação ficou mais crítica, exigiu mais. A Saneago conseguiu, ao longo de seus 50 anos — que ela completa este ano —, se posicionar como uma das melhores empresas de água. A empresa tem números e parâmetros muito bons. Não tem risco de se tornar uma Cedae [Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro] ou ser privatizada como as que foram anunciadas pelo governo de Michel Temer (PMDB). Nós não temos esse risco, porque a empresa tem competência, tem expertise. Tem gente propondo levar técnicos da Saneago para outros Estados, como um diretor nosso, que foi convidado insistentemente para ser presidente da empresa do Maranhão.

As formas alternativas estão em discussão. Uma grande característica desta época é que não há verdade acabada, tudo é questão de conversar de forma honesta, correta, respeitando o meio ambiente. Enterrar cano é algo de que político sempre tentou fugir, porque são investimentos muito caros. Mas hoje isso já está mudando. Hoje as pessoas começaram a perceber a importância que água e esgoto têm para a saúde. Isso nos leva a inovar, a termos capacidade de procurar soluções que atentem a esses princípios.

No caso da fossa séptica, é vantagem econômica para uma pequena cidade fazer todo o sistema de captação, canos, de tratamento, interceptores? Ou uma baixa concentração permite uma fossa séptica bem-feita, um sumidouro? Como vai ser a Goiânia pós-João Leite? O João Leite, entre 2035 e 2040 se esgota. E depois? Como será, será com o Rio Caldas [manancial que nasce em Anápolis e deságua no Rio Meia Ponte em Hidrolândia, depois de passar por municípios como Silvânia, Goianá­polis e Senador Canedo? Se for, o Caldas tem de ser preparado desde agora, com a proteção das matas ciliares e de seus afluentes. A Saneago tem a vantagem da escala, que a gente já comentou, e tem a necessidade de se movimentar muito nesse sentido.

Elder Dias — Sobre essa preocupação com as matas ciliares e a água do futuro, como está o projeto Produtor de Água?
O Produtor de Águas é uma novidade, com essa história de pagar um proprietário para cuidar de suas nascentes. A água deixou de sobrar e passou a ser um produto que tem limitações claras. O Produtor de Águas é uma das grandes alternativas. O ho­mem é um grande predador, tem uma capacidade de destruição enorme. E, com essa ocupação de áreas, ele acaba suprimindo as nascentes. Eu passei de avião por cima da barragem do João Leite e é possível ver que, mesmo com todo o cuidado que há, têm áreas de pastagem chegando próximas à barragem.

Euler de França Belém — Quando a Estação de Trata­men­to de Esgoto (ETE) de Goiânia foi construída, a imprensa dizia que o Rio Meia Ponte seria despoluído e houve um clima festivo a respeito disso. Anos depois, o Meia Ponte continua um rio praticamente morto, além de exalar mau cheiro. O que aconteceu realmente? Por que o Meia Ponte não foi despoluído? E por que na área da estação [região norte de Goiânia, entre os setores Urias Magalhães e Goiânia 2] há aquele mau cheio insuportável?
Essa questão dos interceptores que foram paralisados na Operação Decantação é uma das causas do problema. Quando se fala que Goiânia tem 91% de esgoto e 74% de tratamento, essa diferença que há é a poluição. Hoje, inclusive, a legislação está duríssima em relação ao tratamento dos dejetos.

Euler de França Belém — O Rio Meia Ponte é poluído só por Goiânia?
Basicamente por Goiânia. A ETE até leva a culpa por conta também daquela indústria, que era Arisco e agora é Cargill. O investimento que já está programado é para evitar poluir, proteger e, quando devolver a água para o Meia Ponte, isso ocorrer em condições de DBO [demanda biológica de oxigênio] compatíveis com a lei.
É preciso resolver isso de forma urgente, embora isso aconteça principalmente na seca, que reduz muito a água. Com as mudanças climáticas, as secas são muito fortes. Essa redução da água aflora esse problema todo. É uma responsabilidade da Saneago muito grande e esse investimento está sendo feito justamente para melhorar a qualidade.

Euler de França Belém — Por que manter a Cargill naquele lugar, se tem tantos outros querendo indústria e com localização mais adequada?
Essa é uma boa pergunta e uma boa sugestão.

“Marconi tem potencial para disputar a Presidência”

Jalles Fontoura, presidente da Saneago: “Sou a favor da privatização da Celg, dos aeroportos, das rodovias” | Foto: André Costa / Jornal Opção

Euler de França Belém — O governo já fez alguma proposta de mudança de lugar?
Já houve multas de meio ambiente e muita coisa. Creio que essa mudança, com o tempo, vai ter de ocorrer. Hoje Goiânia não comporta mais sistemas que poluem. Cada dia isso vai ser mais cobrado, mais exigido. E já existem até alternativas.

Euler de França Belém — E há também os córregos como o Botafogo, que passa por dentro da nossa cidade. O que fazer? E a poluição dele, que vem também de residências?
Isso lembra o caso do Rio Tâmisa, em Londres, que era extremamente poluído e hoje tem salmão em suas águas. Acho que devemos pensar sobre essas questões. No passado, a sociedade e a economia não davam importância. Hoje, temos números que apontam que a poluição representa uma perda de oportunidades de lucro. Por exemplo: se recolhermos a matéria orgânica do esgoto, ela pode virar adubo, pode dar dinheiro. Portanto, jogar esgoto no rio é antieconômico. Nós temos de pensar em alternativas que façam esse limão virar limonada.

Euler de França Belém — O sr. é um político liberal. Como um liberal pode ser contra a privatização da Saneago? Por qual motivo?
Pelo mesmo motivo que sou a favor da privatização da Celg, dos aeroportos, das rodovias, pois não faz sentido isso continuar sob o domínio do poder público. Agora, quanto à Saneago, há uma questão bem específica: primeiramente, água é vida. Então, uma coisa que é tão fundamental exige mais controle; segundo, se nós não tivermos uma política integrada, a grande maioria dos nossos sistemas de tratamento de água e esgoto se tornarão um problema que o capitalismo terá dificuldade em resolver. Por exemplo, com uma estatal é possível dobrar o fornecimento de água a um município como Guapó, o que a escala não permitiria. No sistema capitalista, terá de haver lucro em um sistema de esgoto e água como o de Guapó, ou de qualquer outra cidade pequena. Então, uma empresa estatal tem um efeito estabilizador. A tarifa única, por exemplo, que é paga até em São Paulo, é mais fácil com uma estatal. Enfim, nós temos características diferenciadas no Estado todo. A contrapartida de se manter o domínio do tratamento de água e esgoto sob uma estatal é a responsabilidade muito grande, como aconteceu no Paraná e em São Paulo. Por isso, a Sanepar (empresa de água do Paraná) e a Sabesp (empresa de água de São Paulo) são dois modelos para nós. Uma estatal precisa ter gestão responsável, uma governança corporativa muito forte. Portanto, a Saneago é mais conveniente como estatal, ao contrário desses outros casos que mencionei.

Euler de França Belém — O grupo político que está no governo completará, em 2018, o total de 20 anos no poder em Goiás. O que dizer ao eleitor goiano tendo em vista as próximas eleições que possa justificar a permanência no poder por 24 anos de um mesmo grupo?
Uma pergunta semelhante foi feita em São Paulo para o governador Geraldo Alckmin (PSDB). E ele respondeu (risos). E lá serão 28 anos. Então, o que falar? Primeiramente, questionar: esse grupo político merece, é capaz de dar respostas aos desafios atuais? É capaz de ser contemporâneo? Acredito que o governador Marconi Perillo tem essa grande característica. Ele tem uma percepção muito contemporânea da política, que talvez seja até um pouco intuitiva. Veja, por exemplo, o caso das OSs [organizações sociais], por exemplo. Depois de Pedro Ludovico [governador de 1930 a 1945 (como interventor) e de 1951 a 1954 (eleito)], quem mais exerceu o poder em Goiás foi Marconi. Então, ele tem tido essa competência. E eu noto, hoje, até em nível nacional, que existem possibilidades de ele exercer o poder, com todas essas dificuldades, desafios e também com potencial de trabalho. Mas é necessário fazer o que precisa ser feito. A Saneago está entre as áreas que necessitam de ações precisas. Outra questão é a privatização. É preciso saber tratar esses conceitos liberais, com competência, com ética, com espírito público.

Euler de França Belém — O sr. acredita que o vice-governador José Eliton (PSDB) é o candidato que pode substituir Marconi? A própria oposição, tendo em tela o PMDB, fala em alternância do poder, mas em 24 anos só teve dois candidatos a governador — Iris Rezende (quatro vezes) e Maguito Vilela (três vezes). Ou seja, ela também não renovou. José Eliton encarna esse substituto de Marconi que a sociedade goiana quer?
Acredito que o José Eliton está se propondo, com o apoio do governador, a assumir este papel. Se Marconi deixar o governo para se candidatar ao Senado — ou à Presidência ou vice-presidência da República —, fatalmente será ele o governador, o que é uma variável importantíssima. E o vice-governador José Eliton é uma pessoa extremamente trabalhadora, tem vontade, dá para ver que ele está se esforçando muito para poder ganhar essa posição. Mas ainda não temos, nas pesquisas, um candidato natural. Eu acho até saudável que outras personalidades políticas se coloquem na mesma posição. Acho que é ainda um momento de abertura e de discussão. Mas José Eliton tem uma certa naturalidade com isso e vai ser o governador em 2018, podendo se candidatar à reeleição. E, podendo ser, passa a ter uma certa posição como candidato natural. José Eliton está caminhando nessa direção. Está procurando, discutindo, participando.

Euler de França Belém — Marconi vai para a disputa do Senado?
Acho que o Senado é o piso, é daí para cima. Eu percebo que Marconi é cogitado pelas cúpulas como um político que tem potencial para estar entre os candidatos a presidente da República, até porque não há candidato natural a presidente entre os quadros do PSDB.

Euler de França Belém — Um aliado político histórico do sr., Vilmar Rocha (PSD), pretende disputar cargo no Senado ou mesmo o governo de Goiás. O que o sr. acha?
Ele é um ótimo candidato. O sonho do Vilmar é o Senado. Mas nós estamos em uma situação política absolutamente imprevisível. Isto está sendo demonstrado nas eleições municipais, que já foram um sinal, por conta da crise e da proibição de doação de pessoas jurídicas. A eleição de João Dória (PSDB) na cidade de São Paulo, por exemplo, é representativa dessa situação. Então, o vice-governador José Eliton está nesse caminho. Eu acho que é saudável ter pessoas se propondo, botando a cara para bater, indo atrás. Acho que é preciso ter isso.

Augusto Diniz — Como o sr. vê a questão dos incentivos fiscais? No momento em que o STF iria julgar o caso, o governador Geraldo Alckmin resolveu adiar momentaneamente essa briga. É algo do poder de diálogo de Marconi com Alckmin ou simplesmente os dois estão visando o projeto eleitoral de 2018?
Isso mostra o talento político de Marconi. Esta ação, especificamente, iria afetar muito a economia de Goiás e pouco afetaria a economia de São Paulo, porque ela não é uma ação nacional, mas local. Além disso, existe um projeto de lei que está em tramitação na Câmara dos Deputados e que en­caminha essa questão. Então, acho que o entendimento político foi básico. A capacidade de convencimento, o respeito e a credibilidade do governador Marconi foram muito importantes para poder se fazer um acordo, respeitando o que a Câmara vai decidir em abril. Um corte simplesmente horizontal iria afetar a economia de Goiás de uma forma arrasadora. Então, o governador Alckmin entendeu que isso não vai prejudicar São Paulo, em função de ter uma solução alternativa bem encaminhada e veio o acordo. E isto é só a política que faz. Esta é a vantagem. A política tem um papel fundamental de diálogo. Realmente existia o risco de a ministra Rosa Weber ter uma posição que prejudicasse Goiás. Melhor, então, a via do diálogo.

Euler de França Belém — O PMDB tem dois pré-candidatos ao governo em 2018: o deputado federal Daniel Vilela e o ex-prefeito de Aparecida Maguito Vilela. Em quem o sr. apostaria?
Daniel Vilela está propondo a ser, em 2018, o novo Marconi, aquilo que o governador foi em 1998. Vejo sua candidatura como forte, o PMDB avançou muito em estrutura, em termos de administrações municipais, o que dá mais competitividade. Já sobre Maguito vejo um projeto muito mais de apoiar o filho, não vejo consistência em ele querer ser candidato.

Euler de França Belém — E em relação à pré-candidatura do senador Ronaldo Caiado (DEM)? O sr. não o vê como alguém que possa repetir o mau desempenho de Demóstenes Torres em 2010 [o então senador (depois cassado em 2012) foi candidato ao governo naquele ano]?
Possivelmente. Ronaldo Caiado teria o apoio potencial do prefeito Iris Rezende, que é um grande eleitor e um líder muito importante. Mas é uma candidatura oportuna, pois ocorreria no meio de um mandato, como ocorreu com De­móstenes, e pavimentaria, mesmo que derrotada, uma reeleição ao Senado. Ou seja, é uma candidatura que tem sentido político, especialmente com apoio de Iris.

Euler de França Belém — Mas Iris já declarou que o PMDB terá candidato. Ou seja, se Caiado quiser o apoio dele terá de se filiar ao partido.
O fato é que a oposição em Goiás tem dois nomes expressivos para o governo: o deputado Daniel Vilela e o senador Ronaldo Caiado.

Euler de França Belém — O nome da senadora Lúcia Vânia (PSB) tem aparecido em pesquisas de intenção de voto como possível candidata. Como o sr. avalia isso?
Eu vejo que o “lado de cá” [se referindo à base aliada estadual], visando os possíveis 24 anos à frente de governo, precisará de um grande sentido de unidade. Dependemos muito da melhoria da conjuntura, especialmente da retomada do emprego. Esse quadro abre todas as possibilidades, não se pode descartar nada nem ninguém. Teremos também uma eleição nacional e tudo muda, por exemplo, se Lula (PT) for candidato, o que está na mão da Justiça, já que ele é um grande líder popular.

Euler de França Belém — Se Lula for candidato, empurra o PMDB para se aliar ao PSDB em uma chapa única.
Por isso digo que todas as possibilidades estão abertas. O ex-prefeito de Anápolis Antônio Gomide (PT), vereador supervotado na cidade, está propondo uma união do PT com o PMDB. Ou seja, não dá para prever nada agora.

Euler de França Belém — E no caso do plano nacional o PMDB se aliaria ao PSDB.
Por isso digo que não tem nada certo. Estamos no mesmo caso do economista prevendo como será o próximo ano, e economista sempre erra na previsão (risos). No meu próprio caso, perdi a eleição em Goianésia não para meu adversário, mas porque o eleitor queria experimentar a mudança. A cidade tem índices espetaculares em vários setores, como na educação, mas tem hora que o eleitor está disposto a mudar, ainda que seja para pior.

A política hoje está imprevisível, mas uma coisa é certa: se não houver a retomada do emprego fica tudo mais difícil, pois é uma questão muito forte.

Euler de França Belém — E como o sr. está vendo a gestão de Michel Temer à frente da Presidência?
Ele está sendo um grande presidente. É uma surpresa para mim, particularmente não acreditava nele, mas o que Temer está fazendo dificilmente outra pessoa, neste ambiente, teria como fazer.

Euler de França Belém — Vamos falar um pouco sobre Goianésia, cidade que o sr. administrou até dezembro. Seu sucessor, Renato de Castro (PMDB), tem dito que recebeu uma administração municipal endividada. Isso procede?
Eu deixei a prefeitura em uma situação melhor, mas muito melhor, do que a condição em que a havia recebido dele [Renato de Castro era vice-prefeito e assumiu a gestão em dezembro de 2012, na última semana de mandato, após renúncia de Gilberto Naves], inclusive no aspecto financeiro (enfático). Infelizmente, é comum a pessoa justificar as próprias limitações usando o passado.

Um problema que tínhamos e que zerei à frente da prefeitura foram os precatórios, que é um problema seriíssimo para administrações em todos os níveis. Tivemos investimentos de R$ 260 milhões, que mudaram a cidade. O resultado do PIB, enquanto fui prefeito, foi de crescimento de mais de 8%, enquanto o Brasil teve queda de 9,1% no mesmo período. Por conta da recessão, houve redução de oferta de emprego na indústria de cana — a Jalles Machado [empresa de sua família] tinha 4,5 mil trabalhadores quando assumi e estava com 3,5 mil quando deixei a gestão. Apesar disso, Goianésia foi uma das cidades que mais geraram empregos. Isso foi fruto dos investimentos públicos e privados — especialmente públicos — que aconteceram na cidade.

Portanto, esse endividamento alentado pelo prefeito não existe, é de uma imaginação febril. A única conta que ficou para trás e que eu não deveria ter deixado foi de R$ 11 milhões, que equivale a um mês de arrecadação. É histórico em Goianésia que os restos a pagar de cada ano varie de um a dois meses de arrecadação. Em nosso caso, isso ocorreu em função de ousarmos com a construção da faculdade de medicina. Fazer essa dívida, no caso, foi algo intencional, mas de forma alguma isso interfere no dia a dia da prefeitura, tanto que todas as folhas já estão pagas, até fevereiro. Essa história da dívida é uma balela, uma mentira sem qualquer base na realidade.

Augusto Diniz — E como está a situação dessa obra?
Têm algumas coisas na cidade que foram além de nosso sonho. Uma delas foi a faculdade de medicina. Eu senti que deveria deixar a obra de forma tal que seu andamento fosse irreversível. Fiz isso de maneira a deixar a estrutura básica pronta, ao custo de R$ 5 milhões, de modo com que não houvesse alternativa que não continuar sua construção, porque infelizmente não há noção da importância dessa faculdade para Goianésia por parte da atual administração.

Outro sonho era a montadora de carros, a Zotye [empresa chinesa], que infelizmente perdemos. Era algo inovador, com carros elétricos e grande perspectiva. O governo do Estado já tinha dado R$ 150 milhões em incentivos, mas a empresa perdeu a confiança no projeto. Imagina o quanto isso valeria para o Estado.

Euler de França Belém — O caso da ciclovia que o novo prefeito resolveu abandonar foi emblemático. Ciclovia é algo moderno em qualquer lugar do mundo…
Moderna demais para o prefeito.

Augusto Diniz — Renato de Castro alega que houve erros de planejamento no projeto da ciclovia.
Isso é uma mentira gigantesca (enfático). Esse projeto, no total de R$ 7 milhões, foi feito com extrema precisão. A verba veio da Caixa Econômica Federal, que foi bastante detalhista e exigente para viabilizar a obra. O projeto é perfeito e está lá. A obra é moderna demais e o problema, de fato, é que Renato de Castro é um conservador de quatro costados. Ele não consegue perceber o que significa uma ciclovia. O que ele fez foi, ao observar que os comerciantes da Avenida Goiás estavam incomodados, achando que a ciclovia reduziria a via — o que não era verdade —, tomou sua retirada como uma plataforma populista de campanha, desconhecendo tudo o que existe no mundo em termos de mobilidade, inclusive o próprio plano municipal. Renato se rendeu ao populismo barato e agora vamos perder R$ 7 milhões em emendas parlamentares e dinheiro que seria liberado. É de um atraso incrível.

Outra medida populista foi a redução em 40% do IPTU. Quando ele fez isso, para que ele realmente cumprisse, eu mandei um projeto autorizativo, de modo com que ele tivesse de bancar. E ele resolveu bancar. São apelos fáceis, populistas. É também o caso que tem a Saneago como alvo, quando candidatos a prefeito prometem municipalizar a gestão da água e do esgoto. Renato de Castro está incorrendo no populismo barato e será, infelizmente, um prefeito totalmente diferente na história da cidade, em que a prefeitura sempre foi a base do desenvolvimento. Pela primeira vez, vamos ter um prefeito alguém puxando a cidade para trás. A propósito, há ações na Justiça, pelo Ministério Público, que questionam a eleição em Goianésia.

Euler de França Belém — Se o prefeito for cassado pela Justiça haverá nova eleição?
Sim, dessa forma terá nova eleição.

Augusto Diniz — Houve uma briga entre o prefeito e seu vice [Carlos Veículos, do DEM], a partir do momento em que eles foram diplomados, depois de aparecer documentos de doações supostamente irregulares para a campanha. Há registro de algo parecido na história de Goianésia?
Não há. Em Goianésia está acontecendo a mesma coisa da chapa Dilma-Temer, em julgamento no TSE [Tribunal Superior Eleitoral]. O vice-prefeito admite o caixa 2, a compra de votos e mostra documentos que provam os fatos. Eles são da mesma chapa. O Ministério Público entrou com essa ação exatamente por perceber isso, que há elementos muito fortes para a cassação. Mas o prefeito não perdeu apenas o vice, perdeu a Câmara também, as comissões. Há um processo de isolamento político em função disso. E para terminar a conversa, ele é prefeito só de direito, porque o prefeito de fato de Goianésia é o pai dele [Manuel de Castro Arantes, o Fião], quem toma as decisões.

Elder Dias — Fião chegou a ser prefeito da cidade?
Não, ele foi vereador na época em que vereador nem era remunerado, no início da década de 1970. Ele é chefe da Casa Civil da Prefeitura e prefeito de fato. Ele tinha o sonho de ser prefeito e realizou o sonho com o filho, praticamente obrigando-o a se candidatar. O filho tem uma dependência completa do pai e da mãe. É uma pena para Goianésia, porque sempre tivemos com nossos prefeitos, independentemente de partidos pelos quais foram eleitos, um poder público municipal que era referência, um grande elemento de transformação da cidade, que coordenava a iniciativa privada. Temos agora, por exemplo, R$ 160 milhões de reais em rodovias. Estou entrando na Saneago podendo dizer que Goianésia tem uma rede de esgoto e de água melhor do que a de Goiânia — são 100% de água e 91% de esgoto. E com a vantagem de que todo o esgoto é tratado.

Euler de França Belém — Não tem poluição nos rios da cidade?
Não. Inclusive, é bom ressaltar, as indústrias lá são todas a jusante dos rios. Goianésia é um padrão acima em nosso Estado.

Euler de França Belém — A produção de látex já tem impacto na arrecadação do município?
O látex tem impacto na geração de empregos, o que é até melhor do que impostos. Impacto em impostos ainda não vemos, porque isso é um processo lento, a atividade demora oito anos para começar a produzir, então enquanto não se industrializar a borracha será pequeno esse impacto.

Euler de França Belém — E em quantidade, há uma produção razoável de borracha?
É uma produção regional. Em Goianésia mesmo não é grande a área plantada. Goianésia coordena a produção de 4 milhões de árvores seringueiras em todo o Vale do São Patrício.

Euler de França Belém — Mas tem mercado?
O mercado existe. Borracha é uma commodity mundial, coisa que o álcool não é — o açúcar, sim, tem cotação na Bolsa de Chicago. O Brasil hoje compra 70% da borracha que consome, somos um grande importador. Por isso, é uma indústria de grande perspectiva. Por exemplo, o que melhora a qualidade do pneu, feito de petróleo em sua maior porcentagem, é o uso da borracha utilizada. A borracha que é um produto nobre.

Euler de França Belém — A empresa de sua família produz?
Sim, produzimos, na parte da extração ainda artesanal, aquela em que o látex é recolhido com o copo na árvore.

Euler de França Belém — E para quem a produção é vendida?
Vendemos para a Michelin [multinacional francesa]. É um desafio até, porque precisamos de uma logística diferenciada, o cheiro da borracha é muito forte e desagradável.

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