Ricardo Barbosa Jr. é um dos jovens egressos da Universidade Federal de Goiás (UFG) que mostram a boa ciência produzida a partir da área de humanas – tão necessária para entender os movimentos atuais no Brasil e no mundo – de uma instituição de ensino superior que é um centro de pesquisa ainda periférico em nível nacional. Doutorando e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e Mestrando em Geografia pela Universidade de Calgary, no Canadá. Ricardo é graduado em Relações Internacionais e Ciências Sociais com habilitação em Políticas Públicas pela Universidade de Goiás, Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e Geografia pela Universidade de Brasília. Sua agenda de pesquisa foca, por um lado, na direita populista radical e, por outro, na dimensão política da agricultura e da alimentação.

Um dos produtos de seu mestrado concluído foi o artigo “Statecraft under God: radical right populism meets christian nationalism in Bolsonaro’s Brazil” (ou, em tradução livre, “Estadismo sob Deus: o populismo da direita radical encontra o nacionalismo cristão no Brasil de Bolsonaro”), escrito a quatro mãos com o cientista político Guilherme Casarões, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador do Observatório da Extrema Direita. Publicado pela Millennium: Journal of International Studies, uma das mais influentes revistas da área de relações internacionais no mundo.

O artigo, disponibilizado em inglês pelo DOI (link acessível em  https://doi.org/10.1177/03058298221110922), não poderia ser mais apropriado aos tempos atuais. A partir da visão dos autores, é possível compreender melhor como tantas pessoas deixaram sua vida convencional para ser absorvidas pelo bolsonarismo radical a partir da própria religiosidade, a ponto de participar de uma tentativa de golpe, como ocorreu em 8 de janeiro. “O populista da direita radical cria a divisão com uma suposta legitimidade de falar em nome do povo contra o que considera uma elite corrupta. Com o elemento religioso, há um ‘sabor’ novo para isso. Não é só o ‘povo’, mas ‘o povo de Deus’, que busca sua salvação contra uma suposta elite corrupta, demoníaca, moralmente corrompida”, diz Ricardo, nesta entrevista ao Jornal Opção.

O Brasil vive dias bastante tensos depois da tentativa de golpe de 8 de janeiro. Dentro de seus conhecimentos e pesquisas sobre a direita radical e a militância bolsonarista, como explicar o que ocorreu?

Nós estamos vivendo aqui o pós-contexto de um governante populista radical de direita. Um paralelo muito evidente de ser traçado a partir disso seria com os Estados Unidos. Aconteceu aqui algo muito similar ao que ocorreu lá. É difícil pensar em um 8 de janeiro de 2023 sem que tivesse existido um 6 de janeiro de 2021. Mas é importante entender que houve algumas semelhanças, mas também diferenças. Lá, o ato buscava ter uma materialidade mais imediata, que era impedir o então vice-presidente [Mike Pence] de chancelar a eleição que elegeu [Joe] Biden, ou seja, a validação do resultado eleitoral que permitiria que a transição de poder pudesse ocorrer – o equivalente à diplomação pelo TSE [Tribunal Superior Eleitoral] no Brasil.

O 8 de Janeiro, em comparação ao caso dos EUA, foi de fundo muito mais performático

Aqui, o 8 de Janeiro ocorreu em um domingo, com uma Brasília vazia. Os parlamentares não estavam lá, o STF [Supremo Tribunal Federal] se encontrava em recesso e mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não estava na capital [o presidente visitava Araraquara (SP), município que fora flagelado por chuvas torrenciais]. Portanto, o caso brasileiro, claramente golpista, foi de fundo muito mais performático, no sentido de não ter um objeto direto. A materialidade, para além da simbologia, ficou nos danos, mas ao mesmo tempo pareceu ser só parte de um concerto maior. Ou seja, de acordo com as evidências que estão surgindo, isso estaria em meio a um movimento mais amplo de afetar o sistema – seja ao interromper o fluxo do transporte e da logística em geral, seja ao afetar matrizes de energia, como redes de transmissão e refinarias etc.

Então, ao mesmo tempo em que há essa comparação com os EUA, é preciso também certo cuidado. No Brasil, outra diferença é que os manifestantes que participaram do ato foram imediatamente presos; nos Estados Unidos, isso ocorreu depois de um tempo de investigação, um processo que passou pelo que é o equivalente a uma CPI [comissão parlamentar de inquérito] como também um processo judicial paralelo.

No caso do 6 de Janeiro em Washington, mesmo que não houvesse uma previsão tão direta de que os fatos poderiam se desencadear da forma com que ocorreram – culminando com a invasão do Capitólio –, o trabalho da segurança foi realizado, ainda que a duras penas, da forma mais intensa possível pelas forças do Estado disponíveis naquele momento. Já no Brasil, havia muito indícios do que poderia acontecer – até porque ficava no ar a ideia de um “segundo ato”, reflexo do que ocorreu nos Estados Unidos há dois anos; havia uma inteligência sugerindo o perigo possível, indicado pela grande quantidade de manifestantes. No entanto, a polícia que ali estava, ou por omissão ou talvez de forma concertada – ou minimamente alinhada, digamos assim, com os interesses ideológicos de quem estava ali protestando –, deu um tratamento diferenciado aos golpistas, agindo de maneira diferente do que deveria agir.

Outra dimensão particular do caso brasileiro é que, além dos golpistas que estavam na Praça dos Três Poderes, há os grupos de interesse que teriam financiado não só o dia da tentativa de golpe, mas os atos em frente dos comandos militares durante esse tempo todo. Isso parece ser um elemento muito importante.

Diante de tudo isso, o que podemos esperar dessa militância golpista radical?

Ela pode ir para uma mobilização contínua, o que dependerá da postura do próprio Bolsonaro, se ele vai voltar ao Brasil e, caso retorne, como se portará. O Estado brasileiro tem buscado responsabilizá-lo como alguém que foi negligente ou até incitador desses atos. Isso pode ser também um elemento importante.

Outra questão é que, mesmo antes do 8 de Janeiro, havia tensões que não foram resolvidas. Algo que faz alguém elegível é a capacidade de conciliação. Esse é um dos grandes debates que está ocorrendo agora: até que ponto essa conciliação é benéfica e, por exemplo, quais seriam os papéis das forças de segurança diante desse tensionamento. É o que temos de ver a partir do desdobramento da relação entre o ministro da Defesa, José Múcio, e o ministro da Justiça, Flávio Dino. Como isso vai se desenrolar? Eu tenho um pouco de dificuldade em fazer afirmações sobre como vão atuar os manifestantes radicais de agora em diante, mas, pensando nessa arquitetura, dá para pensar também nesse tensionamento do lado do governo.

Diferentemente do que ocorreu nos Estados Unidos, cujo levante radical tinha um objetivo imediato, uma necessidade prática que não poderia passar daquela data, como o sr. disse. No Brasil, a tentativa de golpe poderia ter ocorrido em outro dia, como no próximo domingo ou em outro qualquer. Isso significa que esses grupos poderão continuar atuando sem que haja uma previsão e, portanto, colocando as forças de segurança e a inteligência em um alerta contínuo durante um bom tempo?

Essa falta de previsibilidade é um dos elementos e tem certa estratégia, que é semear o caos ou, no mínimo, criar condições de instabilidade. Isto é, se não conseguem tirar o governo, pelo menos que se torne tanto mais difícil possível a governabilidade. No contexto de quem participa dessas manifestações, o ideal é impedir o presidente de governar de fato. Para eles, em suas abstrações golpistas, caso este governo não seja bem-sucedido em suas ações, estaria aberta a porta para que Bolsonaro voltasse ou entrasse um general Heleno [Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo passado] ou alguém assim.

Em tempo, a tentativa de golpe foi em um domingo, mas não em qualquer domingo: foi o primeiro domingo depois do domingo em que Lula foi empossado e de haver uma demonstração massiva de apoio de diversos grupos da esfera política, mesmo fora da esquerda, todos festejando a retomada da democracia. Então, há uma simbologia, para além da questão espacial, em esses grupos fascistas darem essa resposta invadindo os prédios da Praça dos Três Poderes.

De fato, muitos veículos fizeram, como recurso visual em suas páginas, o paralelo entre as duas cenas: a população assistindo e comemorando a posse do novo presidente, no dia 1º; e os golpistas tomando esse mesmo espaço uma semana depois, de forma terrorista.

Sim, e isso é bastante revelador.

Há um ganho de visibilidade no discurso ao nomear esses sujeitos como terroristas

Como o sr. vê o posicionamento de grande parte da mídia e mesmo de pesquisadores da área em considerar esse ato do dia 8 como terrorismo?

Esse termo é muitas vezes utilizado de formas diferentes, por grupos diferentes e por razões diferentes. Eu vejo isso muito nos estudos de segurança. Como recurso discursivo, terrorismo é um termo utilizado para caracterizar um grupo de pessoas que faz uma prática violenta com uma finalidade política. O que tivemos no 8 de Janeiro? Um ato violento com finalidade política. Então, conceitualmente, pode fazer certo sentido.

Em termos de enquadramento legal, seria algo para avaliar. Durante o governo de Dilma Rousseff (PT), foi aprovada uma legislação específica, chamada de Lei Antiterrorismo, que criou condições para enquadrar manifestantes. Naquele momento, a esquerda se posicionou contra esse projeto, porque o grande medo era afetar a mobilização dos movimentos sociais. Agora precisamos ver se haverá dois pesos e duas medidas ou se essa legislação será, de fato, aplicada agora. Mas, mesmo se não for, há um ganho de visibilidade no discurso ao nomear esses sujeitos como terroristas. De qualquer forma, houve o cometimento de outros crimes para os quais há previsão legal, como danificar patrimônio público, a tentativa de tomada do poder com o uso de violência etc.

Em seu artigo assinado com o professor Guilherme Casarões, vocês trabalharam o bolsonarismo como uma derivação da direita radical populista. Como isso se dá?

A grande novidade desse artigo é pegar um termo conceitual já existente, o nacionalismo religioso, que tem certa antiguidade, mas que foi retomado muito recentemente nos Estados Unidos para entender o caso de [Donald] Trump, de uma pessoa que não é tradicionalmente religiosa, que não tem uma vida moralmente conservadora, mas que conseguiu se posicionar e ter uma grande eficácia levando adiante pautas conservadoras e, entre elas, principalmente as religiosas. Se, no Brasil, Bolsonaro teve Hamilton Mourão [como vice-presidente], lá Trump teve Pence. Vemos uma ligação direta entre essa direita populista radical – que tanto Bolsonaro como Trump representam – e os casos de países como o de Índia, Hungria e Polônia, onde esses líderes da direita populista radical estão mais ligados à manifestações religiosas. Nós usamos esse termo conceitual “guarda-chuva”, o nacionalismo religioso, como uma das formas de entender uma particularidade dentro da família dos populistas radicais de direita, diferindo das expressões que têm na Alemanha, na Espanha, na Holanda e assim por diante, porque esse elemento da religião é realmente fundante, tem traços que o definem de forma particular.

E qual seria a novidade desse elemento? O populista da direita radical cria uma divisão, um binarismo com uma suposta legitimidade de falar em nome do povo, em defesa do povo, contra o que considera uma elite corrupta. Com o elemento religioso, há um tom, um “sabor” novo para isso. Não é só o “povo”, mas “o povo de Deus”, que busca sua salvação contra uma elite corrupta, demoníaca, moralmente corrompida – não só uma corrupção política, mas algo que vai além, que abrange também a moral. Isso dá um ativo muito grande a essa figura populista, porque toca as pessoas de uma forma mais íntima, subjetivamente, causando um impacto maior. Também permite traduzir essas ideias, que seriam, digamos, bastante nocivas e pouco palatáveis a um público mais geral.

Se essas pessoas assistissem a um vídeo de black blocks destruindo a porta de vidro de um banco, oito meses atrás, ficariam chocadas

Um dos autores que utilizamos no artigo pontua que o papel da religião dentro da direita populista radical é fazer com que essas ideias fiquem mais acessíveis para o “mainstream”. Ou seja, uma senhorinha, que se vê como cristã, não vai querer falar do outro como inimigo, o que contraria o discurso da própria crença, de irmandade, de dar a outra face. Essa ferramenta religiosa, então, diz que essa outra pessoa não é só diferente, mas também “moralmente corrompido” e “ruim”. Cria-se todo um discurso que leva esses valores adiante mediados por uma linguagem religiosa.

Então, quando nos deparamos com ativistas que se radicalizaram tanto por meio das redes, é preciso entender que essas redes são apenas os espaços em que isso ocorreu. Mas a gramática, o vocabulário, isso foi feito a partir de discursos religiosos. As pessoas não envolvidas costumam rir de cenas como as desses radicais ajoelhados, orando, enquanto os acampamentos eram desmontados. O que vemos, no entanto, é o discurso religioso permeando toda essa cena.

No fim, os golpistas estão com Bolsonaro porque consideram que Deus está com Bolsonaro. Isso os empodera de tal modo que praticam, como vimos, atos que até mesmo violam a legislação vigente. Se você chegasse a essas pessoas oito meses atrás, mostrando um vídeo de black blocks destruindo uma porta de vidro de um banco, elas ficariam chocadas. Não somente eu e Guilherme temos notado, mas todos os que estudam essa direita têm apontado a religião como um elemento que ajuda a radicalizar essas pessoas.

Bolsonaro, ao ser eleito com esse discurso, empoderou autoridades religiosas

E não se pode negar que o ex-presidente entregou, no governo, muito daquilo que essas pessoas queriam…

Bolsonaro fez uso do discurso religioso ao ser eleito e empoderou muitas autoridades religiosas em nível nacional. Um exemplo foi a promessa e a entrega de um ministro [do STF] “terrivelmente evangélico” [André Mendonça, que é pastor e havia sido advogado-geral da União e ministro da Justiça de Bolsonaro]. Também no ministério dele havia diversos nomes conservadores e mesmo ligados diretamente à igreja evangélica, como Damares Alves [ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos] e Milton Ribeiro [ministro da Educação]. Trump, por seu lado, foi eficaz, mesmo não sendo uma pessoa de moral incontestável, por ter colocado uma série de ministros conservadores e jovens na Suprema Corte. O impacto direto disso foi a revogação da lei que assegurava o direito ao aborto.

Em nível internacional, o que tivemos foi uma nova orquestração da política exterior brasileira, com parceiros improváveis. Então, vimos o Brasil votando na ONU [Organização das Nações Unidas] contra direitos de igualdade de gênero estando alinhado a países como o Egito. O Brasil, sob Bolsonaro, se alinhou a Israel e fechou os olhos a violações dos direitos humanos contra palestinos. Da mesma forma, como Trump, Bolsonaro também prometeu mudar a embaixada de Israel para Jerusalém. Vimos também o filho deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) indo várias vezes ao exterior para se reunir com líderes da extrema-direita. Como se pode ter esses líderes, que se dizem antiglobalistas, mas que se relacionam tanto internacionalmente? Nosso argumento é de que a religião cria a possibilidade para esse relacionamento, porque cada um desses líderes mantém sua credencial de nacionalista.

Bolsonaro bate no peito quando o chamam de ‘Trump dos trópicos’

Em seu artigo, há a utilização de uma expressão interessante sobre esse aspecto, que é “antiglobalismo globalizado”.

Exatamente. Não é um termo nosso, mas falamos a partir dele, buscando entender o porquê e como. Apontamos, então, a religião – e principalmente o nacionalismo cristão – como uma das formas de ajudar a explicar esse conceito. Bolsonaro pode falar “Brasil em primeiro lugar”, mas, ao mesmo tempo, se referir a outra pátria diante da qual o País é colocado numa posição de vassalagem. Bolsonaro bate no peito quando o chamam de “Trump dos trópicos”. Há, portanto, diferentes formas desse líder legitimar suas diferentes posturas, no entanto, sempre mantendo internamente sua credencial de nacionalista.

A religião acaba sendo uma boa forma de explicar isso tudo. No concerto que ocorre com o Brasil, ele se encontra entre as nações que são independentes, mas estão alinhadas a partir de um certo etnoculturalismo. Ao mesmo tempo em que se percebe um alinhamento pessoal de Bolsonaro com Putin [Vladimir Putin, presidente da Rússia], há o reconhecimento dos sujeitos que ocupam essa faixa conservadora no nacionalismo cristão de que a Rússia é uma nação cristã. Há, portanto, a possibilidade de identificação a partir desse ponto. Quando se pensa na relação entre Bolsonaro e Modi [Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia], não se pensa mais em dois chefes de Estado que lideram nações em vias de desenvolvimento do Brics [bloco de países de mercado emergente que reúne ainda Rússia, China e África do Sul], mas em dois homens de fé, um representante do nacionalismo cristão e outro, do nacionalismo hindu.

O nacionalismo bolsonarista presta vassalagem aos Estados Unidos, mas também a Israel. Nos perfis dos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais, há a presença frequente da bandeira desses países. Qual é exatamente a ideia por trás dessa conexão com Israel?

A bandeira de Israel é um símbolo religioso e nacionalista específico, que também retoma uma série de valores associados a ela. O caso de Israel traz a demonstração simbólica do que é o Ocidente. Nós temos uma particularidade em relação à Europa e aos Estados Unidos: lá, com a imigração, existem pessoas de outra cor, com outras crenças. A direita aponta para esses estrangeiros e dizem “esses são nossos inimigos”, “se você está desempregado, é porque esses estão roubando seu emprego”. No Brasil a gente não tem isso. Como criar coesão nessa direita? Por meio de uma autoidentificação religiosa, o que cria um pertencimento e dá a possibilidade de apontar um inimigo. Há a criação do antagonismo do Ocidente com o Oriente.

Isso é que deu a uma pessoa como Ernesto Araújo [ex-ministro de Relações Exteriores na gestão de Bolsonaro] – que competência e credenciais para o cargo ele não tinha – a aptidão para assumir um ministério: antes de tudo, havia sido aluno de Olavo de Carvalho [principal ideólogo do bolsonarismo, morto no início de 2022] e, em segundo lugar, havia publicado em 2017 um texto chamado “Trump e o Ocidente”, em que colocava o ex-presidente dos EUA como a única salvação para o mundo ocidental. Para esse povo, a defesa do Ocidente é a defesa de uma certa moralidade cristã que, no imaginário deles, está sendo perseguida. Por isso, falam tanto em direitos religiosos e em cristãos atacados mundo afora. Na maioria das vezes, isso é algo ilusório, conspiracionista, serve muito mais como uma espécie de espantalho – muito eficiente, diga-se – que serve para mobilizar a base.

Os primeiros cristãos não demonstravam medo diante do perigo e da morte. Pelo contrário, a fé lhes dava coragem por saber que a recompensa era a vida eterna e o paraíso. A religiosidade entre os bolsonaristas não causa um efeito parecido, distorcendo a realidade e colocando toda essa conjuntura e militância ativa – e até terrorista – como se fosse uma guerra também espiritual? Isso não vai além do nacionalismo?

Não é somente a religião, mas também a religião, como também o nacionalismo. Bolsonaro junta Deus e a Nação. É um entendimento específico de religião e de nação, colocando quem pertence e quem não pertence a esse universo. Ao mesmo tempo em que se afirma o cristianismo, as outras matrizes religiosas são reduzidas – sejam indígenas, sejam africanas etc.

Não dá para prever como e quando vai ocorrer algo novamente

Como estabelecer um perfil do conjunto de militantes bolsonaristas?

Em termos práticos, é difícil falar. É um grupo relativamente heterogêneo. Há uma confluência de ideologia e posição política, mas com trajetórias variadas. O que podemos dizer é que não são pessoas trabalhadoras, que dependem de bater ponto para receber salário e pagar suas contas. Temos muitos empresários, agropecuaristas, autônomos, servidores comissionados.

O que esperar em termos de futuro do que ocorreu? Qual é o risco de novos ataques golpistas?

Gerar essa instabilidade tem um ganho para os movimentos golpistas. De fato, não dá para prever como e quando vai ocorrer algo novamente. Mas penso que as medidas que serão tomadas para punir quem participou desse primeiro ato vão determinar como as próximas ações desses grupos se darão – ou se não vão ocorrer.

Entre seus objetos de estudo, o sr. também inclui a questão alimentar. Qual é seu foco de pesquisa nessa área?

Primeiramente, é preciso me contextualizar nisso. Eu sou do interior de Goiás, nasci em Inhumas [cidade a 40 quilômetros de Goiânia] e meu avô foi agricultor, tive uma ligação muito próxima com esse universo. O ativismo político e acadêmico, para mim, sempre foi muito ligado à luta pela terra e às políticas alimentares. Entrei na universidade em 2013 e até 2017 minha agenda de pesquisa foi essa. Quando ocorre o golpe em 2016, a ruptura institucional também ocasiona o redirecionamento de prioridades do governo e o orçamento para essas pesquisas acaba sendo cortado. São políticas públicas que passaram a existir somente no papel ou até deixaram de existir.

Com Michel Temer [presidente de 2016 a 2018], houve o fim do MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário]; com Bolsonaro, acabou o Consea [Conselho Nacional de Segurança Alimentar]. Ou seja, aquilo que eu estava estudando e com que eu tinha até mesmo um compromisso político estava sendo aniquilado. Eu, então, quis buscar criar subsídios para entender o porquê de isso estar acontecendo. Tenho duas linhas de pesquisas: uma delas é a dimensão política da alimentação e da agricultura; e a outra é o estudo da direita, na qual trabalho com dois subtemas, um é a religião e outro é a participação política dos militares.

Meus estudos sobre alimentação não pararam, mas, por uma questão prático-política, tiveram menos relevância nos últimos tempos. Espero que isso se inverta, pois o Brasil está de novo no mapa da fome e a promessa de Lula é a de combater a desigualdade.