“Queremos disputar o Senado porque temos projetos a apresentar”

Presidente do PV em Goiás é o nome do partido para a disputa e foca na urgência de o País aprovar as reformas administrativa e tributária

Candidato a prefeito de Goiânia em 2020, o advogado Cristiano Cunha chegou à política após seu então cunhado, Eduardo Zaratz, o convidar para que o ajudasse a “começar” o Partido Verde em Goiás, após uma intervenção nacional no diretório. Zaratz se desfiliou do PV, mas Cunha conquistou a confiança da executiva.

Em meio à montagem da federação, agora homologada, com PT e PCdoB, Cristiano teve de refazer seus planos para o partido nas próximas eleições. Ele havia, por mais de um ano, costurado, com grande número de pré-candidatos, a chamada “chapinha” – nomes com potenciais semelhantes de votação para disputar as vagas – para os cargos de deputado estadual e deputado federal. A federação implodiu esse projeto e ele próprio teve de trocar sua postulação à Assembleia Legislativa por uma pré-candidatura ao Senado, por orientação da direção nacional do PV.

Cristiano Cunha é formado em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e em Direito, “para fazer concurso público”. Acabou chegando à advocacia, com especialização em Direito e Processo do Trabalho. Tem também especialização (MBA) em Gestão Empresarial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nesta entrevista ao Jornal Opção, ele fala sobre seus projetos e diz que se preocupa em especial com a necessidade urgente de o País fazer as reformas administrativa e tributária.

O que levou o sr. a se engajar na política?

Eu entrei para a política em 2011, quando Eduardo Zaratz veio fazer uma intervenção em Goiás, a pedido do diretório nacional do PV. Na época, ele era meu cunhado e, não morando aqui, me solicitou que o ajudasse a “começar o partido” no Estado. Fiquei como secretário-geral e, juntamente com outras pessoas, praticamente geria o PV, porque ele [Zaratz] morava em Brasília. Em 2019, Eduardo Zaratz se desfiliou do partido e voltou para Brasília para fazer parte do governo distrital – depois foi para o governo federal –, e nos seis primeiros meses daquele ano o PV ficou sem ninguém oficializado na direção em Goiás. A nacional me nomeou interinamente nesse período, até ver como tudo ficaria. Em julho de 2019, me chamaram em novamente em Brasília e me comunicaram que eu assumiria de forma definitiva o partido. Nada mais natural, porque eu era, dos quadros mais antigos, o que estava até aquele momento carregando a sigla, mesmo sacrificando a vida pessoal. Então, chegamos aqui, tocando o partido.

O sr. tem afinidade com a pauta ideológica do PV?

Nós buscamos a qualidade de vida, a sustentabilidade, princípios que a gente não tem visto ultimamente.

Profissionalmente, o sr. já teve alguma proximidade com a causa ambiental?

Não, profissionalmente, não.

Quais as disputas eleitorais de que o sr. participou?

O único pleito de que participei foi em 2020, como candidato a prefeito. Chegaram a me perguntar por que eu sairia como postulante à Prefeitura. Expliquei que foi uma demanda da direção nacional, que recomendou que assim fosse. Argumentei que a normalidade dizia que eu deveria ser candidato a vereador e, então, começar a crescer politicamente. Responderam que eu era de família tradicional na cidade, nascido e criado em Goiânia, diferentemente do ex-presidente do partido [Eduardo Zaratz], que não tem raízes goianas. E disseram também que pesquisas apontavam que o eleitorado queria um candidato novo, queria mudança, estava cansado dos tradicionais. Fiquei até surpreso quando, em pesquisas, saí à frente de deputados que iriam disputar a Prefeitura. Mas, depois, a gente sabe como é o jogo político, infelizmente o dinheiro prevalece e isso meu partido não tem.

E como vocês avaliaram o resultado?

Foi uma experiência boa, mas é como eu acabei de dizer sobre a política: sem dinheiro é muito difícil se eleger. As pessoas ainda precisam mudar a própria consciência, porque até hoje elas pensam na troca: “vou te apoiar, mas em que você pode me ajudar?”. Partido pequeno não tem recurso. Fui para uma campanha em que veio para nós um financiamento público, o FEFC [Fundo Especial de Financiamento de Campanha], de R$ 400 mil, sendo que 30% teria de ser destinado às mulheres. E a gente colocou 32% para nossas candidatas. Sobraram R$ 260 mil para a campanha majoritária, mas eu tinha também de fazer material para todos os candidatos, como havia sido prometido. É bem verdade que foi uma campanha totalmente atípica [de setembro a novembro de 2020, quando ocorreu o período de campanha para as eleições municipais, o Brasil ainda estava sob normas de isolamento social por causa da pandemia], então a despesa acabou sendo menor, porque não tinha contratação de cabos eleitorais, nem gastos com carros, combustíveis etc., coisas que pesam muito. Focamos nas redes sociais, na interatividade virtual.

Nem todo partido dá a atenção devida às candidaturas femininas e compõem tudo no limite do que a Justiça Eleitoral determina. Isso restringe a chance de sucesso de muitas candidatas. Dentro do PV, sob sua liderança, como o sr. enxerga a questão das mulheres nas eleições?

Essa questão é muito difícil. Sou totalmente contrário à cota, à obrigatoriedade do preenchimento de porcentual. Em minha opinião, deveria haver a reserva de vagas para as mulheres, o que evitaria candidaturas laranjas. Em 2020, quando estávamos montando nossa chapa, muita gente vinha até mim para dizer que teríamos de oferecer alguma coisa para as mulheres, senão não completaríamos o total. Respondia que não iria fazer como grande parte dos políticos faz, oferecendo vantagens, até porque não prometeria nada que eu não pudesse cumprir. O que tento manter na política é a palavra, porque na política não existe contrato, só existe a credibilidade de sua palavra. Graças a Deus, é algo que tenho conseguido nesse meio. Então, não vou prometer nada que eu não consiga.

“Política não é contrato. Política é palavra”

Tivemos dificuldade para montar a chapa, não prometemos nada. O que fizemos, então? Entregamos o material básico – adesivos, see-thrus [adesivos para carros], santinhos etc. – mais contador e advogado. E, para as mulheres, colocamos uma pessoa apenas por conta delas, para ajudar na comunicação e divulgação nas redes sociais. Houve, sim, um direcionamento para elas. Mesmo assim, algumas ainda vieram pedir dinheiro para combustível, para contratar cabo eleitoral. Não tinha como, foi uma campanha totalmente atípica, foi uma campanha totalmente de internet. As mulheres precisam ter mais interesse na política. Têm algumas que estão interessadas, mas são poucas, ainda. Com a Justiça obrigando partidos a lançar candidatas, infelizmente situações desfavoráveis vão continuar a acontecer.

Partidos menores, chamados de “nanicos”, têm tido uma grande dificuldade para alcançar a chamada cláusula de barreira, que vai sendo endurecida a cada eleição. Existe uma estratégia do PV para superar esses obstáculos e continuar avançando?

Em 2018, o PV foi o último partido a passar a cláusula de barreira. Em Goiás, não conseguimos, mas em outros Estados obtivemos o índice. Para 2022, nossa estratégia foi a federação com o PT e o PCdoB, o que nos garante ultrapassar essa cláusula, mas ainda sendo necessário ter os votos para deputado federal, com vistas a tempo de TV, fundo eleitoral e financiamento público de campanha. Com a federação, ficamos “amarrados” por quatro anos, mas essa questão está superada.

Mas é uma situação interessante? O que há de positivo e de negativo na federação?

Positivo é exatamente isso que estamos falando, sobre não ter preocupação com a cláusula de barreira. O projeto macro do PV é a eleição de Lula (PT) à Presidência. O que estão focados é na eleição majoritária nacional. Quando nos consultaram, expus que em Goiás teríamos grandes dificuldades quanto a isso. Primeiramente, porque vínhamos montando, já havia mais de um ano, o que chamamos de “chapinha” na política, com muitos candidatos com projeção de votação mais ou menos uniforme, para dar chance a todos e, com a média de 10 mil votos para cada um, eleger um deputado federal com algo de 50 mil a 60 mil votos. Com a federação, mudou tudo. Perdemos os pré-candidatos que tínhamos, que eram mais de 20 para deputado federal. É natural, porque todos querem entrar numa chapa competitiva. No PV, tínhamos definido um teto de 7 mil a 8 mil votos nas últimas eleições para quem quisesse entrar na chapinha, que seria bem equilibrada. Não poderia entrar nem quem tivesse mandato nem nomes mais fortes, que pudessem ter de cara mais de 10 mil votos. Seria uma eleição internamente bem disputada e com chance de fazer até dois nomes, se todos tivessem uma boa votação. Com a federação feita com PT e PCdoB, já tem mandatário [Rubens Otoni, deputado federal pelo PT e pré-candidato à reeleição] e teremos outros candidatos fortes. Então, todos os que pensavam nessa estratégia de ser eleito com votação baixa para deputado estadual e federal, saíram para outros partidos. Perdemos toda a chapa para estadual e federal. Vamos ter de analisar o que sobrou dentro do partido para ter candidaturas.

Como o sr. avalia que será a campanha de 2022? Com o atual cenário, ainda serão as redes sociais o meio principal ou o corpo a corpo vai voltar como forte estratégia?

Percebi em 2020 que as pessoas estão acostumadas com o corpo a corpo. A campanha virtual é muito fria, o eleitor gosta de ver o candidato na frente dele, gosta de pegar na mão dele, sentir aquele espírito de eleição. Creio que continuarão as duas formas, vamos explorar muito o virtual para divulgação das propostas, mas o corpo a corpo vai ser essencial.

O PV ainda é, de verdade, um partido verde, existe essa “pegada” ideológica?

Tem, sim. Em nível federal, o PV bateu muito de frente com o ex-ministro do Meio Ambiente [Ricardo Salles] por conta do desmatamento ilegal e das queimadas desenfreadas. O partido foi totalmente contra esse tipo de situação. Da mesma forma, o avanço dentro das reservas indígenas, a liberação de construções em mangues, na região litorânea, são coisas que o PV sempre combateu. A representatividade da sigla ainda está pequena e precisamos ampliar isso. Temos, como exemplo, os países europeus, por conta de o Partido Verde ser um partido internacional: lá, os partidos verdes só crescem e aqui acontece o contrário. E, na vida real, vemos a população sofrendo na pele os efeitos do desmatamento e das queimadas. Tanto é assim que o próprio agronegócio está muito mais consciente. Antigamente, o fazendeiro desmatava até a margem do rio; hoje, sabe a necessidade de preservação, porque se fizer assim, vai sofrer com a erosão e o assoreamento. Da mesma forma, a população também está ficando mais consciente quanto a isso. Então, a tendência é o PV crescer.

Trabalhar com esse discurso em um Estado como Goiás, que é essencialmente ligado à agropecuária, exige maior esforço para romper barreiras?

Sim, são mais barreiras, de fato. Mas ocorre que o agronegócio está abrindo sua visão para esse tipo de problema, como eu disse há pouco. Antigamente, em uma propriedade rural, não havia qualquer preocupação com sustentabilidade, desmatavam tudo, não queriam preservar nada. Hoje, os produtores veem a necessidade de buscar a preservação, de proteger a fauna e a flora.

Na esfera nacional, qual é a avaliação que o sr. faz da esquerda brasileira? Não existe uma dispersão, uma certa falta de compromisso, diante dos desafios atuais?

Estamos passando por um governo de extrema-direita. Nesta conjuntura, o PV é um partido de centro-esquerda que se juntou a PT e a PCdoB, que são de esquerda, com o propósito de lutar não só pela democracia e pela questão social, mas também pelo meio ambiente, que é nossa pauta principal. Precisamos pensar na sustentabilidade e na qualidade de vida. Vemos a dificuldade de, hoje, a pessoa abastecer o carro com a gasolina a quase 8 reais. O quilo da carne está a um preço absurdo. Outro dia, conversando com um amigo do agronegócio, ele me contou que um funcionário dele, conversando com um pessoal da região, disse que só comem carne se for de caça, porque não tem condição de comprar um quilo de carne. Da mesma forma, um botijão de gás, que já custa 10% de um salário mínimo. Portanto, a pauta da esquerda hoje é neste sentido: voltar a dar condições ao trabalhador para conseguir se sustentar e ter qualidade de vida. Atualmente, eles estão sofrendo muito.

E para a direita, quais são as críticas o PV faz, diante do governo atual?

Podemos começar pelas altas taxas de juros. Há também a exploração de nossas reservas naturais, o desmatamento desenfreado, a derrubada de florestas para pastagem, as queimadas criminosas e as vistas grossas que o governo está fazendo para tudo isso. A gente sabe que todos precisam comer, mas também sabe que é possível investir em tecnologia para aumentar a produtividade. Há países por aí que não têm grandes latifúndios, mas têm alta produtividade. Veja o caso do Japão, em um pequeno espaço de terra, produz o máximo. A pecuária moderna não é mais aquela extensiva, que ainda existe no Norte do País, onde ocorre desmatamento para sua implantação. Em Goiás já temos uma forte pecuária intensiva, porque o produtor vê que, se o boi andar menos, ele engorda mais rápido. Isso tem um custo mais alto, mas é preciso ter em vista a produtividade, em como administrar esses aspectos.

Como o PV está se posicionando em âmbito estadual? É oposição ao governo de Ronaldo Caiado (União Brasil)?

Não, pelo contrário, hoje o PV apoia a reeleição do governador Ronaldo Caiado. Esta é uma briga que estou tendo dentro da federação, com essa divergência interna. Já me posicionei diante da executiva nacional do partido, até porque não é só em Goiás que está acontecendo esse tipo de problema, essa falta de alinhamento dentro da federação. E acho até natural que haja algo assim, porque, se é difícil chegar a uma concordância dentro de um partido apenas, imagine ao juntar três, sendo um de centro-esquerda e dois de esquerda. Até hoje não entramos em um acordo, já estou tentando uma nova agenda da federação há duas semanas. A última agenda que tivemos foi em Brasília, com o Guimarães [deputado federal José Guimarães (PT-CE)], que representa o PT na federação nacional. Depois, na semana passada, tentei uma agenda e não tive retorno da professora Kátia [Maria, presidente do PT em Goiás]. Ontem [segunda-feira, 6/6] tentei novamente e também não tive retorno. Conversei com o Honório [Ângelo Rocha, da direção estadual do PCdoB], do PCdoB, para saber se era só comigo ou se ele também não tinha conseguido agenda. Ele me disse que realmente precisávamos nos encontrar, mas que também não tinha tido sucesso nisso.

Qual é sua opinião sobre o governo Caiado? Foi uma gestão interessante para o Estado?

Em seu governo, passamos por uma grande dificuldade, que é esta pandemia. Não esperávamos isso, da mesma forma que o governo federal. Mas creio que os Estados tiveram mais dificuldade ainda, porque ficou difícil desenvolver qualquer projeto. O governo de Goiás teve de ficar focado em lidar com leitos, políticas de isolamento, de abertura e fechamento de comércio, uso de máscara, medicamentos, vacinas, testes, etc. Não tinha como fazer diferente, era o que tinha para o momento que vivemos. Era obrigatório ficar focado na saúde, ainda mais tendo à frente um gestor da área, como é Ronaldo Caiado. Mas é preciso ressaltar, também, os feitos do atual governo na segurança pública. O governo anterior já vinha trabalhando para reduzir a criminalidade e Caiado deu continuidade nisso. Conheço muita gente que vem de fora e que hoje nos elogia, “poxa, Cristiano, aqui em Goiânia é muito tranquilo, a gente pode sair à noite, de madrugada, e não acontece nada”. De fato, o que estamos vendo são algumas ocorrências pontuais mais graves, mas fora da capital. Aqui, graças a Deus, estamos tranquilos na questão da segurança. Ainda vemos muita violência na região do Entorno do DF, onde isso sempre foi um desafio muito complicado. Mas mesmo lá está tendo uma queda nos índices. Creio que o governo precisa de mais quatro anos para trabalhar pontos que já vinha desenvolvendo e que ficaram parados por conta da pandemia.

As pesquisas qualitativas junto ao eleitor mostram, como principais anseios da população, a questão social e a economia. Realmente são temas que devem ter prioridade neste momento?

Creio que isso também seja consequência da pandemia que vivemos. Na questão social, o governo ficou dando o auxílio durante todo esse período, com o índice de desemprego muito alto. As empresas agora é que estão tentando retomar as atividades normais. Mas as taxas de juros estão muito altas e fazer um empréstimo está difícil, porque o crédito está escasso. Isso porque não está fácil ao empresário honrar seus compromissos, os bancos não querem colocar financiamento na mão de qualquer empreendedor, querem ter garantia de sua capacidade de pagamento. Pegam, então, o histórico da empresa, seus últimos balanços, mas como considerar esses dados, se estava tudo fechado? Não tem como. Fica difícil o processo de concessão de empréstimos – isso além da alta taxa de juros. Com isso, o empresário não tem como gerar empregos e, então, temos impacto na questão social, porque tudo isso gera demissões para enxugar a folha, apesar do incentivo que teve do governo. Não dá para fazer isso só com uma ajuda na carga tributária. Com o desemprego e a mais alta taxa de juros, a economia agora é que está voltando a crescer. O governo estadual precisa, então, focar na geração de emprego e renda, estudar algo em conjunto com o governo federal e ver o que consegue para reduzir os juros exorbitantes.

O sr. é pré-candidato ao Senado pelo PV. O que o motivou a entrar nessa disputa?

Isso veio após uma reunião com a executiva nacional. Até então, eu era pré-candidato a deputado estadual, vinha montando essa chapa com perspectiva de ser eleito com algo em torno de 10 mil votos. Então, o projeto mudou totalmente após essa conversa. Com a federação, a decisão seria por uma postulação a deputado federal ou ao Senado. Assim como o PT e o PCdoB têm seu espaço, o PV também tem direito a seu espaço. O PT indicou o pré-candidato majoritário ao governo, que, no momento, é o professor Wolmir [Amado, ex-reitor da PUC-GO], embora ainda não esteja confirmado pela federação. Já o PCdoB indicou o nome da ex-deputada Denise [Carvalho] para o Senado. O PV, então, considerou que não poderia ficar fora também da chapa majoritária e resolver também disputar a vaga ao Senado, porque podemos apresentar nossos projetos. Concordei e meu nome foi colocado como pré-candidato.

Mas existe um plano B? Teria algum problema sair como candidato a deputado federal ou estadual?

Não, eu não teria problema com isso. Um plano B ou até um plano C a gente sempre tem de ter na manga. Meu nome está para o Senado e vamos levar para a federação. Há outros nomes bons, como o de Denise, que já citei. Não sei se Wolmir continuará como nome ao governo ou se sairia também para a disputa ao Senado – na conversa que tive como ele, da última vez, ele confirmou que era para governo mesmo, e que outro cargo não lhe serviria. Por isso, vamos levar tudo para a federação e discutir. Já que estamos em uma federação, temos de pensar no conjunto e estou aberto para conversarmos para fazer o melhor para todos.

Qual sua opinião sobre Wolmir Amado para encabeçar a chapa?

Eu estive com ele uma vez. Só o conhecia de nome e o PT marcou uma reunião para nos apresentar. Adorei a pessoa dele. É uma pessoa leve, carismática, com uma conversa superagradável. Fiquei realmente surpreso positivamente. O que pega é mesmo a questão política: sem nunca ter sido candidato a nada, vir para um cargo de governo estadual. Para mim, é uma questão que pesa nunca ter sido candidato a prefeito ou a deputado e, assim, vir para disputar o governo. Mas, como falei, nunca tinha conversado com ele e gostei muito da pessoa, é alguém espetacular, leve e muito carismático, que demonstra conhecer o Estado e foi reitor da PUC-GO, o que é importante.

Qual nome o PV defenderia ao governo? Vocês apoiariam o nome de José Eliton (PSB)?

Estivemos conversando, sim, com José Eliton, antes de ele retirar sua pré-candidatura. Ele me comunicou pessoalmente que faria isso, por causa desse tempo que o PT havia pedido, até 11 de junho, o que ele achou demasiadamente excessivo, já que todos os pré-candidatos estão em pré-campanha, mas até então a federação não definiu quem seria o nome. Ele se mostrou desapontado com isso e anunciou que estava retirando o nome. Depois disso, não nos falamos mais. O que eu vi, pela imprensa, foi que Elias Vaz [deputado federal e presidente estadual do PSB] estaria tentando convencê-lo a postular o governo novamente. É um nome com o qual o PV já esteve com ele em 2018.

Como o sr. avalia nossos atuais senadores por Goiás?

O País está precisando urgentemente de uma reforma tributária e uma reforma administrativa. Como advogado, eu vejo o que a gente tem aí. Existe, por exemplo, bitributação, o que acabou se tornando um nicho para advogados tributaristas, que ganham muito dinheiro com isso. É preciso ter uma simplificação da tributação, porque hoje se paga um imposto, amanhã já vem outro valor, tudo muda constantemente. É como as eleições, a cada pleito vem uma nova resolução, além do código eleitoral. Tem de haver uma reforma administrativa, também. O número de cargos comissionados existente no País sobrecarrega demais a folha e os gastos com pessoal.

Vivemos momentos de tensão institucional, com falas do presidente Jair Bolsonaro (PL) que dão indicativo para uma ruptura por meio de um golpe. O sr. considera que há o que temer nesse sentido?

Vejo que ele fica muito preocupado em estabelecer o voto impresso. Não sei por que ele foi até a Rússia para fazer uma consulta. Existe aquela conversa de que Putin [Vladimir Putin, presidente da Rússia] teria orientado Trump [Donald Trump, presidente dos Estados Unidos de 2017 a 2021 e que, após derrotado em busca da reeleição, não aceitou a derrota, fez alegações sem provas de fraude eleitoral e incentivou seus apoiadores a invadir o Capitólio, sede do Poder Legislativo nacional, em 6 de janeiro de 2021, episódio com saldo de cinco mortos] nas eleições presidenciais. Existe a conversa de que Putin ajudou a manipular as eleições dos EUA [em 2016]. Não sei o que está acontecendo em Brasília, mas Bolsonaro está muito preocupado com isso e ele mesmo se autossabota como li aqui no Jornal Opção. Têm algumas declarações dele que causam grande estranheza, como dizer que “o povo ainda gosta de mim, mesmo com a gasolina a 8 reais e o botijão a 120 reais”. Falar algo assim, para um político, não faz sentido algum. Imagine, em alguns locais do país, a gasolina já está a mais de 10 reais o litro. Como ele pode ficar feliz com isso, em vez de falar que vai lutar para reduzir? A estratégia política que eu vejo, por parte dele, é zerar a carga tributária da gasolina até o fim do ano para dia 1º de janeiro o litro da gasolina voltar a custar 10 reais? Bolsonaro está abrindo mão de uma receita estimada de R$ 25 bilhões. Ora, alguém vai passar por isso, vão tirar de algum lugar para fechar essa conta, porque tem a LRF [Lei de Responsabilidade Fiscal], não pode simplesmente fazer renúncia de receita. Agora, se ele está fazendo isso só até 31 de dezembro, isso por si já é um golpe. Está realmente preocupado com a reeleição, precisa de alguma coisa, porque não está subindo nas pesquisas. E ele sabe que uma das coisas que está pesando para sua rejeição é a alta dos combustíveis. Pode escrever: ele vai zerar isso só até dezembro e a gasolina, em janeiro, vai estar mais de 10 reais. Vai ter de compensar de alguma forma e o povo vai pagar essa conta.

Em 2018, os eleitores tinham uma expectativa muito grande de que fosse haver um novo momento econômico com um governo Bolsonaro, tendo Paulo Guedes [ministro da Economia] à frente de uma política que se prometia liberal. O que o sr. percebe hoje na classe empresarial, aqueles que geram trabalho e renda, em relação a isso? Estão decepcionados ou ainda apostam na continuidade dessa política?

Eu acho que foi uma decepção nesse sentido, porque o projeto dele era fazer a diferença, ser um presidente diferente, incentivar a economia, fortalecer a geração de trabalho e renda. Isso foi sua plataforma. Não sei o quanto influenciou a pandemia, mas o governo ficou patinando durante muito tempo. Conseguiu finalizar algumas obras, mas patinou bastante e o setor econômico ficou decepcionado, porque as promessas de campanha não aconteceram. Basta ver quantas empresas fecharam.

Como o sr. se posicionou em relação à vacinação contra a Covid-19?

Sou defensor da vacina. Tomei todas as doses necessárias. E vejo que o presidente teria de ser referência nisso, como o governador aqui fez. Caiado foi lá, arregaçou a manga e esticou o braço para se vacinar e incentivar que a população se imunizasse. Hoje a gente vê que está aumentando o número de casos, mas, como a maioria das pessoas já está prevenida, estamos vendo muito poucos de morte. O que está ocorrendo são geralmente sintomas gripais simples em quem se contamina. Eu tive apenas Covid leve, porque tomei a vacina. Então, a vacina realmente protege as pessoas. Bolsonaro tinha de ter feito isso também. Quem obrigou a população a usar máscara foram os Estados, se fosse por conta do presidente ninguém usaria. O que estamos vendo, agora, é que os casos aumentaram porque quase ninguém mais está usando máscara, porque baixaram as restrições e ainda só há alguma exigência para ambientes fechados. Na Assembleia Legislativa, por exemplo, a maioria das pessoas estava usando, mais de 90% dos servidores está utilizando proteção. Já os visitantes, nem tanto. Agora, imagine você se fosse no início da pandemia, sem vacina, quando Bolsonaro trabalhava contra o uso de máscaras? Imagine o número de pessoas que teria morrido. Da mesma forma, o que ocorreria se não tivesse havido a restrição de circulação, o chamado “lockdown”, o que não aconteceria em termos de mortes? Claro, isso afetou e muito a economia, mas, se não fizesse isso, tudo teria explodido, teríamos muito mais mortes. A gente está falando aqui de vidas humanas, isso é muito grave.

Como ficaria sua situação dentro da federação em uma campanha em que Caiado seria, por essa mesma federação, um nome a ser combatido?

Eu já expliquei o caso à direção nacional do partido e falei até mesmo sobre isso para o governador. Uma liberação tem de vir de lá, não tenho essa independência para falar “vou seguir o governador, pronto e acabou”. O que consegui foi passar para a nacional que estamos na base do governo desde o ano passado, que temos compromissos com os quais precisamos arcar. A resposta que obtive era de que seria necessário aguardar a homologação da federação. Depois de protocolado no TSE [Tribunal Superior Eleitoral], com a concretização da federação, o que eu ouvi era que a nacional analisaria a situação de cada Estado, porque, por meio de uma resolução, poderia haver a liberação para que cada diretório apoiasse quem quisesse. Para isso, haverá uma reunião depois do conselho da federação nacional. Portanto, como não marcaram a data dessa reunião, ainda vou ter de aguardar. O que espero é que Goiás fique liberado, por meio de resolução, para poder apoiar a reeleição do governador. Caso contrário, o entendimento será de que teremos de seguir a federação.

A eleição para o Senado tem um gasto muito alto, é cara, pesada economicamente. Isso é uma barreira para sua pré-candidatura?

Sim, claro. É uma barreira para qualquer pré-candidato que esteja em um partido menor, como o PV, apesar de estarmos em uma federação. De qualquer forma, a resolução é clara: cada partido continua com seus recursos. Ou seja, o PV continuará com sua verba pequena, de acordo com a representação nacional. O que pretendemos é fazer uma campanha com a exploração das redes sociais, evitando ao máximo deslocamentos e contratação de pessoal, o que torna os gastos muito mais pesados. Vamos tentar fazer uma eleição enxuta.

Dá para chegar ao interior com essa estratégia?

O que queremos é ampliar a participação do PV no Estado. Nós seguramos muito isso porque, primeiramente, havia a questão da federação. O pessoal do interior tem, por hábito, mais dificuldade para a prestação de contas. Mas o próximo a assumir vai ter de lidar com essa prestação que não foi feita. O que fiz, então, foi segurar essa questão em 2021, não renovando as comissões provisórias nos municípios. Aí veio a proposta de federação e novamente ficamos paralisados, aguardando a definição. Em Goiânia, aconteceu de a maioria do PV sair. Então, o que adiantaria criar uma comissão do partido, por exemplo, em Abadia de Goiás para depois recebermos a notícia da federação, de que estaríamos com o PT e o PCdoB? Como faríamos? Aí quem estivesse lá simplesmente falaria que não queria mais ficar no partido. Seria mais um problema. O que vamos tentar agora é fazer poucas visitas ao interior, mas ainda assim tentar colocar o interior para trabalhar pela eleição ao Senado.

“O País precisa urgentemente de uma reforma tributária”

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