“Prevemos 16 obras na saúde e vamos concentrar força para que elas se efetivem”

Secretário da Saúde, Ismael Alexandrino conta como tem lidado com as dívidas e projeta várias entregas para 2020 no processo de regionalização do atendimento no Estado

Secretário estadual da Saúde, Ismael Alexandrino | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Secretário da Saúde de Goiás, o médico Ismael Alexandrino diz que herdou R$ 728 milhões em dívidas da gestão passada. São recursos que deveriam ter sido pagos para as Organizações Sociais (OS) que gerem os hospitais estaduais, fornecedores de medicamentos e repasses para os municípios, que estavam atrasados há 13 meses no final de 2018.

Segundo as contas do secretário, somente com as OS restam ainda cerca de R$ 70 milhões a serem pagos. Parte da engenharia financeira para fazer os repasses passa pelo encontro de contas com as próprias organizações. O raciocínio é que, se elas não visam lucro, o lógico é que, no caso de superávit, o dinheiro volte aos cofres do governo estadual.

Com a gestão das contas, o secretário espera uma série de entregas para 2020. Entre elas, policlínicas e hospitais. “A regionalização, que é um dos pilares da gestão e está no plano de governo do governador Ronaldo Caiado (DEM),  vai ser consolidada”, diz na entrevista que segue abaixo.

Rodrigo Hirose – O governador anunciou a inauguração da primeira policlínica em Posse. É uma estrutura que foi construída do zero? Qual tipo de atendimento será oferecido na unidade?
O projeto das policlínicas visa preencher uma lacuna no Estado tanto assistencial quanto regional. A saúde é dividida em três níveis: A atenção primária, que geralmente é atribuição do município, secundária e terciária. No nosso Estado nós temos a primária, cada município com a sua, temos a terciária com hospitais estaduais e alguns hospitais municipais mais restritos. Só que o nível secundário, que é o nível também especializado, mas ambulatorial, não existia. E fica um vácuo assistencial.

Do ponto de vista regional, está tudo concentrado na Região Metropolitana. Fizemos um planejamento para que cada região uma das 18 regiões de saúde, exceto a central, tenha uma policlínica inaugurada ao longo de todo o governo. A policlínica de Posse havia um esqueleto de uma estrutura, que é um projeto arquitetônico semelhante ao nosso, com alteração de cerca de 200 metros quadrados apenas. Aproveitamos esse projeto, alteramos o que seria necessário, introduzimos a ressonância nuclear magnética, que foi um pedido do governador.

Posse é muito distante. Era um local completamente desassistido. Você visita a cidade e pensa como as pessoas sobrevivem do ponto de vista de atenção a saúde, como se faz hemodiálise aqui? A pessoa entra em uma van, é transportada por seis horas para Formosa ou Goiânia, fica quatro horas conectada a uma máquina e depois retorna. Isso três vezes por semana. Qual o nível de vida, de dignidade e de cidadania esse cidadão tem? No dia que o morador está em casa, ele descansa para reiniciar o tratamento. É um dos procedimentos que passa a ser oferecido em Posse.

Programamos 19 especialidades médicas e seis especialidades não médicas com o intuito de preencher o vácuo assistencial que tem na região. Quanto mais especializado é o serviço, mais multiprofissional tem de ser. Nas especialidades não médicas temos a enfermagem, a psicologia – porque teremos psiquiatria, e há casos que são para um, outro ou para os dois -, a fisioterapia, a odontologia, a parte de assistência social, que é fundamental – tem muita coisa que não é orgânica, tem a ver com a inserção da família na sociedade, algum desarranjo, dificuldade financeira – e a fonoaudiologia.

Citarei algumas especialidades médicas, como a cardiologia. Boa parte da cardiológica, como, por exemplo, hipertensão mais simples se resolve na atenção primária. Nos casos não resolvidos, o paciente ficava em um hiato. Quando o caso complicava, o paciente ia para a UTI. O que queremos é atender na cardiologia, nefrologia, endocrinologia, ortopedia, a parte de ginecologia, sobretudo com a prevenção do câncer de mama, do colo de útero, com um diagnóstico mais precoce para dar mais chances de cura. A psiquiatria, a pediatria.

Fizemos questão de colocar Médico de Família e Comunidade. A área técnica questionou se médico de família não seria área de atenção primária. É. Só que se você não coloca um médico de família na unidade especializada, o paciente sai para tratar da cardiologia, é compensado, gosta tanto daquele atendimento que não volta para a atenção primária. Chamamos de efeito velcro.

Todo paciente que passar por alguma especialidade é encaminhado no final para o médico de família em comunidade, volta para sua estrutura municipal para ser acompanhado pela equipe de saúde da família. Também teremos otorrino, a parte de oftalmologia. Hoje mesmo recebi as fotos do equipamento de oftalmologia. Cada coisa que chega ficamos felizes ao ver a concretização do programa.

Outra especialidade oferecida é neurologia. É uma miríade de especialidades que era impensável de ter. Isso ocorrerá em Posse e em inúmeras outras cidades.

Rodrigo Hirose – O mesmo modelo será levado para as outras 16 unidades?
São outras 16 unidades, com algumas peculiaridades. A estrutura é muito similar. Seis terão estruturas praticamente idênticas. Dez terão estrutura idênticas e uma um pouco diferente. Algumas serão meramente clínicas, outras mistas entre clínico e cirúrgico e outras com perfil cirúrgico, com duas salas de cirurgia para fazer operações menores, que não precisam ser feitas em hospital.

A única unidade que terá ressonância é a de Posse. As demais vão até tomografia. Estamos falando de tudo de exame complementar em diagnóstico de exame e imagem: raio-X digital, mamografia, ultrassonografia, densitometria óssea, tomografia computadorizada, endoscopia, colonoscopia, todos os exames oftalmológicos, audiometria. É um pool significativo de exames que o médico terá à disposição.

Na parte de cardiologia teremos o ecocardiograma, teste ergométrico de esforço, esteira, Mapa [Monitorização ambulatorial de pressão arterial] e Holter. E na parte de laboratório todos os exames necessários. De fato dará uma resolutividade de diagnóstico e de tratamento muito robusta, muito diferente da realidade atual.

Rodrigo Hirose – Qual será a capacidade de atendimento quando toda a rede estiver pronta? Qual será o impacto na prática da chamada ambulancioterapia?
O impacto será diminuir muito essa prática da ambulancioterapia a medida em que as policlínicas forem construídas e estruturadas. A unidade de Posse, que está no Nordeste do Estado, no início será a única da região. A abrangência será em torno de 1,3 milhão de pessoas com as regiões Nordeste 1, Nordeste 2 e Entorno Norte.

Depois que a segunda unidade for para a região, tudo indica que será a cidade de Campos Belos, essa população já é um pouco dividida. A unidade de Campos Belos só não terá ressonância. Quando vamos um pouco para o Norte e chegamos em Porangatu…

Rodrigo Hirose – Esse é o cronograma inicial de instalação das policlínicas?
O cronograma inicial é Posse, Goianésia, Quirinópolis, Formosa, São Luís de Montes Belos e cidade de Goiás. Mas as demais, que ainda não foram anunciadas, provavelmente serão Campos Belos e Porangatu. São duas cidades que estão praticamente definidas. Pegamos a faixa Norte completa e assistimos o Estado com especialidade, diagnóstico e terapêutica.

Qual o impacto disso na ambulancioterapia? O paciente da cardiologia ou da endocrinologia que teria uma diabetes compensada, consegue compensar na região. Não precisa chegar à fase de cetoacidose diabético, coma diabético, para ser transferido para uma Unidade de Terapia Intensiva. Para fazer uma tomografia ou a densitometria óssea não precisa lotar uma van, marcar uma data e realizar o exame na capital. Faz na policlínica. É bem mais digno.

Para o Estado, isso significa menos custo. O exame que se faz na capital inclui o custo do transporte. Uma tomografia em Posse em uma unidade privada, a prefeitura paga R$ 500. A tabela SUS paga em torno de R$ 138. O custo da nossa tomografia ficará em torno de R$ 138 ou um pouco mais pelo custo agregado de rateio de energia e outros detalhes. Com o laudo, o valor é pago pelo Ministério da Saúde. É um valor que sai do Tesouro da prefeitura.

Direta e indiretamente, o Estado está ajudando o município. A diferença de R$ 500 para R$ 138 o município não tem que pagar mais. Multiplique isso por mil exames.

Rodrigo Hirose – Em 2020, outra policlínica será inaugurada?
Estão previstas mais duas unidades. Goianésia, que o chamamento é junto, com CNPJs diferentes, e Quirinópolis, no Sul do Estado.

Rodrigo Hirose – A administração continua a ser feita por Organizações Sociais (OSs)?
Sim.

Rodrigo Hirose – O sr. reviu alguns contratos com OSs, inclusive com a troca de gestoras, como no caso do Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). Como está a questão das parcelas em atraso em repasses para as OSs? Quanto foi quitado e quanto ainda falta a ser pago? Quantas Organizações Sociais foram trocadas? Qual avaliação o sr. faz das alterações?
Tínhamos uma dezena de OSs. Algumas com prestação de bom serviço e outras deixaram a desejar. Na avaliação de todas a as Organizações Sociais, as que prestam serviço no HGG, Crer e no Hugol foram consideradas pela administração e pela prestação de contas como OSs que mereciam a renovação do contrato, mas com preços mais ajustados tendo em vista que a modalidade que se precificava ficava muito cara.

Quando assumimos o Hugol, a unidade tinha 382 leitos e custava aproximadamente R$ 22,5 milhões. Em abril atingimos 444 leitos. E agora em 512. Se fôssemos considerar o crescimento linear da quantidade de leitos, chegaria a R$ 31,5 milhões. O governo passou a entrar na logística e ajudar a OS a pensar a dinâmica no hospital, o que faz com que o preço per capita fique mais barato. O contrato atual é de R$ 23,7 milhões. Há um ganho significativo de leitos, produção e redução per capita do contrato, apesar do reajuste do valor.

Acrescentamos leitos de UTI. Para chegar aos 512 leitos, começaremos a realizar a cirurgia cardíaca, que era uma dificuldade do Estado. Não tínhamos unidade estadual pública que fazi cirurgia cardíaca. Começaremos com a cirurgia cardíaca neonatal, pediátrica e adulta. As equipes estão contratadas, os insumos adquiridos e a triagem dos pacientes foi realizada. No final desta semana já devemos ter paciente começando a ser operado.

O que acrescentamos aqui é alta complexidade, a parte mais cara de um hospital. Mesmo assim conseguimos racionalizar o custo. É exequível. Não é algo que estamos fazendo de baixa qualidade. No caso do Hugol [Hospital de Urgências da Região Noroeste], que não era acreditado pela organização internacional, pedimos a avaliação ONA 1 no final de 2019. A avaliação foi feita e concederam ONA 2 ao entenderem que o processo no ano passado amadureceu muito. Em fevereiro, também descerraremos uma placa de ONA 2. O que para nós é muito significativo. Não há unidades hospitalares privadas com esse nível de acreditação, com essa robustez. São 512 leitos. Não temos hospitais privados desse tamanho.

Dos 512 leitos, 96 são leitos de UTI. A maior UTI do Centro-Oeste. Com qualidade. Houve um grande avanço. No caso do HGG [Hospital Geral de Goiânia], fazíamos em torno de 450 a 500 cirurgias. Chegamos a fazer até 840 cirurgias a depender do mês. Entramos na parte operacional e sugerimos algumas mudanças. Por exemplo, a proporcionalidade de leito clínico com leito cirúrgico. Em tese, o leito clínico é uma falência do sistema. O paciente foi no postinho, no Cais [Centro de Atenção Integrada à Saúde], na UPA [Unidade de Pronto Atendimento] e não teve seu caso resolvido. Corre para a porta do hospital e nada. O estado avançou e precisou ser internado.

Com exceção do HDT [Hospital de Doenças Tropicais] e outros específicos, um hospital deveria servir para internações que sejam cirúrgicas e de UTI. Aumentamos um pouco a proporção de leitos cirúrgicos. Passamos a fazer horário estendido da sala. Antes só operava durante a manhã. Agora são realizadas operações até o início da noite e aos sábado, o que aumentou bastante.

Outros contratos foram modificados e abrimos chamamento. E outros serão abertos nos próximos dias. Dos que já estavam prontos e tínhamos mais necessidade de agilizar o chamamento, que são os casos do Hugo [Hospital de Urgências de Goiânia] e Hutrin [Hospital de Urgências de Trindade], estavam em contratos emergenciais e não poderiam ficar daquela forma.

No Huana [Hospital de Urgências de Anápolis], apresentamos a nova modelagem à OS que estava à frente da unidade, que era a Fasa. Inicialmente a OS aceitou, mas depois discordaram e informaram que concentrariam os esforços na Santa Casa. Estamos fazendo um novo chamamento. Os três chamamentos foram com uma nova dinâmica. Hutrin agora é gerido por uma OS de São Paulo que não tinha atuado no Estado.

Percebemos em quatro meses sensíveis melhoras, como o tempo de espera na porta, que girava em torno de 3 horas e 20 minutos a 3 horas e 30 minutos, caiu para 1 hora e 10 minutos até 1 hora e 19. O quantitativo de cirurgias eletivas aumentou significativamente: mais de 200%. Nas consultas também houve aumento. Antes não trabalhavam? Trabalhavam, mas a concepção era um pouco diferente.

No Hutrin, passamos a dar uma vocação pra a unidade. Antes era um hospital geral pequeno, com resolutividade baixa, que tinha atuação só na cidade de Trindade. Nosso entendimento é de que os hospitais estaduais precisam ter um impacto estadual ou, no mínimo, macrorregional. Definimos o escopo de atividades do Hutrin. A porta continua aberta para os casos vermelho e laranja, mas a parte eletiva definimos que a unidade precisa operar cirurgias ginecológicas, laqueadura, mioma, vesícula, hérnia para o Estado inteiro.

No primeiro momento, o próprio pessoal não entendeu. Sobrava vaga. Abriram para microrregional. Abriram a regulação para regional e continuou a sobrar vaga. Orientei a abrir para o Estado. Em um dos meses do final do ano, tínhamos 80 vagas de laqueadura e apareceram 32 pacientes. Que é uma realidade diferente da que percebo no interior quando viajo e recebo pedido de 50 a 100 pacientes. Fui a uma rádio e disse que estávamos com vaga aberta. Foi quando começamos a operar um pouco mais.

Outra coisa que se fazia nos contratos anteriores, que considero um grande equívoco, estabeleciam metas, muitas delas modestas, incluíam urgência e emergência. Faz sentido ter meta de urgência e emergência?

“As demais [cidades a receber policlínicas], que ainda não foram anunciadas, provavelmente serão Campos Belos e Porangatu”

“O cronograma inicial é Posse, Goianésia, Quirinópolis, Formosa, São Luís de Montes Belos e cidade de Goiás” | Foto: Hegon Correia

Rodrigo Hirose – Creio que não, porque depende da demanda. Pode até ter uma série histórica.
Justamente. A série histórica serve neste caso para planejamento. Não serve para bater meta. Quando começamos a discutir a situação, disseram “não, doutor, é hospital de urgência”. Respondi que o fato de ser um hospital de urgência não significa que não fará cirurgia eletiva. Tem de fazer cirurgia eletiva. Quando fui diretor do Hospital de Base, tínhamos 16 salas de cirurgia. Utilizávamos duas para urgência e emergência. Quando tinha um acidente maior, como com um ônibus, usávamos três.

Hospital que tem 14 salas de cirurgia, como é o caso do Hugol, não fará ao mesmo tempo 14 operações de urgência e emergência. Não existe essa demanda. Utilizará duas ou três e o resto deve ser destinado a cirurgias eletivas. O que fizemos? Hoje temos metas de cirurgias eletivas. E precisamos enxergá-las. Qual é a meta de urgência e emergência? O paciente foi corretamente regulado? Se o perfil do paciente for do Hugo, o hospital tem de receber. Essa é a meta.

No caso das cirurgias eletivas, passamos a considerar essa questão, o que possibilitou um aumento de 17% nas cirurgias eletivas no Estado. A fila começou a andar. Uma dificuldade que ainda temos de romper a fila de cirurgias eletivas é que, exceto em seis municípios, a regulação ainda é municipal. No caso de Goiânia, a maior cidade do Estado, o município ainda concentra a regulação. Temos dificuldade em fazer com que o paciente chegue e mensurar o número.

No ano passado, antes mesmo de assumir o cargo, disse na primeira entrevista que concedi que um dos desafios é trazer a regulação para o âmbito estadual, no mínimo em sua visão global. Não necessariamente a gestão. Não é tomar do município. Porque um paciente que precisa de Unidade de Terapia Intensiva, por exemplo, em Catalão, município com o qual já fizemos convênio, e tem vaga na cidade, será regulado para Catalão. Se não houver vaga de UTI em Catalão, mas nós tivermos vaga em Ceres ou Goiânia, já estruturamos nosso serviço aeromédico para buscar o paciente.

É melhor colocar em uma UTI em outra cidade e o paciente ser assistido do que morrer na fila. Só o Estado consegue enxergar isso. Goiânia não consegue ver a necessidade de Catalão.

Rodrigo Hirose – Como está a situação da regulação em Goiânia? A Secretaria pretende assumir a regulação?
A ideia é trazer a regulação para o Estado. Mas compreendemos, principalmente pelo entendimento da Secretaria Municipal de Saúde, que existem fases intermediárias. Esse processo não ocorre de uma hora para outra. Não é uma medida antidemocrática, que o Estado chega e toma o serviço. Precisa ser pactuado, votado.

Criamos o Complexo Regulador Estadual (CRE), que é uma instância que está se preparando para assumir a regulação. Enquanto não assumir a regulação, essa unidade intermedeia a regulação de Goiânia. O paciente que precisa de vaga em Catalão, mas o município não tem, o Complexo Regulador Estadual é informado e entra em contato com Goiânia ou qualquer outra cidade e comunica a necessidade da vaga. Por enquanto, faz o papel de intermediador.

É um processo mais demorado porque é preciso subir a informação para voltar e haver o convencimento das unidades. Se fosse apenas o Complexo Regulador, ao surgir a demanda, o órgão gestor da regulação verificaria onde tem vaga e encaminharia o paciente. Isso não exigiria a pactuação com o município, o que chamamos de PPI, que é defasada, de 2012. É a pactuação integrada, que não faz mais sentido.

O Ministério da Saúde começa a ter essa visão, que pretende deixar de utilizar o cartão SUS e passar a identificar o paciente pelo CPF. Isso acabaria com a duplicidade.

Rodrigo Hirose – Municípios que têm mais cartões do que habitantes.
Goiânia tem 1,5 milhão de habitantes e aproximadamente 4,5 milhões de cartões. A partir do momento que o município centraliza a regulação, a cidade paga o preço. Ele paga a conta dos menores. Antes da implantação do CRE, demorávamos quatro dias para dar destinação ao paciente. Destinação que já demorou para 12 horas. Antes, demorava para o Estado ter o conhecimento do paciente em torno de 12 horas. Isso passou de 8 a 9 minutos.

Só que isso precisa amadurecer. Que bom seria se pactuássemos na comissão intergestores bipartite. Ao longo do ano, tecemos essa discussão. Mas não percebi clima na Secretaria Municipal de Saúde para colocar em pauta para votação. A outra instância seria se houvesse uma recomendação do Ministério Público. Tivemos diversas reuniões, mas seria até um pouco agressivo. E a outra possibilidade é legislar sobre o tema.

Existe em tramitação na Assembleia Legislativa um projeto de lei para que a regulação venha para o Estado. E praticamente todos os municípios, exceto Goiânia, têm essa percepção de que com o Estado a regulação seria melhor.

Rodrigo Hirose – Qual é a alegação da Secretaria Municipal de Saúde?
Existe uma pactuação chamada PCEP, que é a pactuação entre municípios. O Estado, no passado, abriu mão ao municipalizar a gestão. Cada município tem a sua obrigação e a prerrogativa de fazer a gestão da sua saúde. No caso de atenção terciária, a atribuição é do Estado, ou seja, os hospitais são do Estado. Como fazer uma atenção e gestão municipal se o município não tem hospital? Qual é o hospital do município? Não tem. Tem maternidade, e terá mais uma agora.

O que os municípios fazem? A gestão da regulação dos hospitais estaduais, o que fica um tanto quanto contraproducente em termos de operação. Imaginemos que no HGG uma determinada cirurgia demore quatro horas e o médico ficaria seis horas no hospital. Muitas vezes, o entendimento na regulação é de que a cirurgia de quatro horas, como a reconstrução de colo, que é a cirurgia que o presidente Jair Bolsonaro fez, que o intestino fica fora e depois tem de ser recolocado.

O médico não consegue fazer duas em seis horas. Mas consegue fazer uma de quatro horas e uma de duas horas. Ou duas de um hora que sejam mais simples, como uma vesícula, uma hérnia. Pedimos o mix dos pacientes na lista da regulação. Só que a lista dos pacientes na regulação não é uma lista indiana. Aqui tem vesícula, aqui tem hérnia, aqui tem outra doença. A lista tem de ter a de vesícula, a de hérnia, a de reconstrução de trânsito e o hospital indicar a capacidade desse mix naquele dia.

Do ponto de vista de planejamento, estou convencido de que a dinâmica atual não é melhor a dinâmica para a gestão, na questão assistencial, nem financeira ou para os municípios. Só que sou muito da conciliação. Se não dá para ser completo por enquanto, vamos para o estágio intermediário para amadurecer o processo, chamamos o município para o diálogo, com aproximação para evoluir.

2019 foi um ano de extremos desafios. Pegamos R$ 728 milhões de dívidas. Do total, R$ 328 milhões com Organizações Sociais. Aproximadamente R$ 150 milhões com municípios, com 13 meses sem repasses. Mais R$ 100 milhões em medicamentos. Outros R$ 50 milhões de equipamentos e o restante de contratos menores. No início do ano, tínhamos indicativo de fechamento de vários hospitais. Para a mídia foi apenas o caso do Hospital Materno Infantil, mas em cerca de dez hospitais as Organizações Sociais estavam para entregar a chave da unidade.

Contornamos a situação. Sentei com todo mundo olho no olho. Não prometi nada que não pudesse ser cumprido. E fizemos a gestão necessária, com busca de ajuda federal. Em janeiro, já tínhamos conseguido pagar em torno de R$ 80 milhões da dívida com todas as Organizações Sociais, o que deu um fôlego. O que prometi às OSs foi garantir o fluxo de caixa de janeiro a dezembro de 2019.

Até dezembro honramos em absoluto os pagamentos em dia. Isso não era nem realidade, não existia. Chegamos em novembro e dezembro com o pagamento efetuado no início do mês. A concepção de um contrato de gestão é de que a verba seja de fomento. Em tese, a Organização Social não pode ter fim lucrativo. Se não tem fim lucrativo, não tem caixa. O Estado tem de passar o dinheiro no início do mês para que a OS seja fomentada e gaste.

No mês de fevereiro, reuni todos e falei “não tenho essa condição ainda, vou pagar dentro do mês”. Começamos dividindo em quatro vezes. Passava recursos na primeira semana, na segunda, terceira e quarta durante três meses. Depois reduzimos para duas parcelas, para duas até chegar em uma só vez em novembro e dezembro. Em novembro, o pagamento foi feito no início do mês. Já dezembro pagamos no último dia útil de novembro.

Rodrigo Hirose – O sr. disse que foram quitados R$ 80 milhões em dívidas com as OSs. São R$ 80 milhões das dívidas herdadas. Faltam aproximadamente R$ 250 milhões. Como está essa negociação?
Algumas nós chamamos de encontro de contas. A Organização Social não tem fim lucrativo. Se sobra dinheiro no caixa, a OS tem de devolver ou pedir autorização para investimento. A visão, inclusive da maioria das OSs, é de que se o Estado deve restos a pagar de R$ 10 milhões e a Organização Social tem do caixa de 2019 R$ 2 milhões, é feito o abatimento. Se tiver em caixa R$ 12 milhões, não tenho dívida nenhuma. Tenho R$ 12 milhões de crédito. Há um fundo de 3% de provisionamento de questões trabalhistas.

A dívida certamente não é em torno de R$ 250 milhões. Hoje deve estar em torno de R$ 70 milhões. Como conseguimos honrar os pagamentos de 2019, várias OSs estão com saldo nos balancetes. Algumas estão com bastante dificuldade. Reunimos o saldo para poder equalizar também outras dívidas. Estamos muito próximos de fazer a quitação.

Italo Wolff – Gostaria de entender melhor o que impede a gestão eficiente das filas das cirurgias eletivas.
Hoje não está na mão do Estado. Então o município manda o paciente quando quer e no tempo que quer. E nem sempre isso está casado com a capacidade operacional do hospital. Me parece um pouco irracional o hospital ser do Estado, o custo hospitalar ser do Estado, quem banca a Organização Social é o Estado, quem faz a gestão operacional é o Estado e quem coloca o paciente é o município. E não é só o caso de Goiânia.

Nós estabelecemos a meta. Por exemplo, é preciso ter cem cirurgias. Se os pacientes não chegam, a OS não bate a meta. Vamos punir a Organização Social. Só que de quem eu cobro: do município que não colocou o paciente ou da OS que não fez porque o município não mandou o paciente?

Não é racional, do ponto de vista de gestão, essa modelagem. Óbvio que em algumas coisas precisamos de segregação de função. Neste caso não. O que queremos é que as filas estejam sob o domínio do Estado e publicadas, respeitando a privacidade de cada paciente, mas as iniciais do paciente e qual é a situação. Fila existe em qualquer lugar do mundo que se propõe a fazer atendimento público. No Canadá tem fila. Mas a fila é publicizada. Se você precisa fazer uma cirurgia de hérnia, você sabe mais ou menos quando será atendido porque você acompanha o andamento da fila e vê que ninguém furou a ordem de espera.

Italo Wolff – Um médico que entrevistei recentemente diz que é preciso um acompanhamento do que as OSs fazem com os repasses. Como que o acompanhamento é feito?
Era um pouco solto. O Estado havia aberto mão da governança da relação com as Organizações Sociais. É cômodo. Você solta a gestão e eles se viram. Só que é um erro grande abrir mão da governança de qualquer modelo de gestão. Me perguntavam se eu era contra ou a favor das Organizações Sociais e sempre respondia que essa fase eu já superei.

OS para mim não é uma questão de ser a favor ou contra. Para mim, como gestor, nada mais é do que uma ferramenta de gestão que tem determinados recursos. Fundação pública de direito público é uma ferramentas de gestão. Fundação pública de direito privado é outra. Serviço social autônomo é outra. Assim como administração direta. Gosto da modalidade Organização Social como ferramenta de gestão.

Mas se o Estado abre mão da governança, a coisa degringola. Na reforma administrativa, criamos a Superintendência de Performance, na qual existem duas gerências: uma só para avaliar o desempenho das organizações sociais e outra para avaliar o desempenho da administração direta e dos conveniados.

Hoje ficou muito mais claro para a OS o que vamos cobrar. E vamos cobrar. Hoje está claro para a OS o custo. Levantei tudo isso e sei quanto custa a lavanderia do Hugo, do Hugol, do Crer, do Huapa, do Huana e consigo comparar uma com a outra. Se não houver uma justificativa plausível da diferença de preço, chamamos a OS e dizemos “isso aqui poderia ser diferente”.

Não dá para comparar o custo per capita do Hutrin, em Trindade, que tem 46 leitos, com o custo per capita do Hugol, no qual se ganha em escala. Mas os serviços ficaram comparáveis. E as OSs entenderam que o Estado não vai abrir mão da governança. As prestações de contas, que antes muitas vezes eram anuais, agora são mensais para um acompanhamento mais amiúde. Não temos a visão de que a OS estaria prejudicando o Estado.

Quando o Estado renegocia os contratos e deixa isso bastante próximo do que operacionalmente se entende que era suficiente, tiramos a margem de ocorrência de tais possibilidades. Precisamos ainda fazer alguns chamamentos que estão próximos de sair, como o do HDT, Materno Infantil, Huapa, que é em Aparecida de Goiânia, da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, do Hurso, em Santa Helena, do hospital de Jaraguá e Pirenópolis. Lançaremos em breve os chamamentos porque entendemos que a simples conversa não foi o suficiente para otimizar os custos.

“Para a mídia foi apenas o caso do Hospital Materno Infantil, mas em cerca de dez hospitais as Organizações Sociais estavam para entregar a chave da unidade”

Secretário estadual da Saúde, Ismael Alexandrino, em entrevista aos jornalistas Rodrigo Hirose e Italo Wolff: “Contornamos a situação. Sentei com todo mundo olho no olho. Não prometi nada que não pudesse ser cumprido. E fizemos a gestão necessária, com busca de ajuda federal. Em janeiro, já tínhamos conseguido pagar em torno de R$ 80 milhões da dívida com todas as Organizações Sociais” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Rodrigo Hirose – Os chamamentos para substituição de OSs são casos apenas de custo de gestão ou foram detectados casos de prestação de contas irregulares?
A partir do momento em que é detectada uma prestação de conta irregular, é feita uma tomada de conta especial, o que impede a renovação do contrato. Então vamos abrir chamamento para as unidades citadas. E também para otimizar custos. A gestão, de alguma forma, acomodou conosco.

É impossível fazer a transição em todas as unidades em um só ano. Fizemos três e já foi difícil, apesar de considerar todas extremamente exitosas. No caso específico do Hugo, apesar de ser um hospital grande, foi uma transição relativamente tranquila. O que precedeu não, mas a operação sim. Tiveram muitas reclamações de funcionários que foram demitidos ou recontratados.

Mas o Hugo tinha uma prática de 12 horas de trabalho por 60 horas de descanso na escala de trabalho. E os demais são 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso. E nós mensuramos 12 por 36. Era preciso fazer o funcionário trabalhar mais. Se não for assim não é sustentável. Não é absurdo trabalhar 12 horas, folgar 36 horas e 12 horas. Isso não é desumano.

Rodrigo Hirose – Na escala anterior, um profissional trabalhava dois dias por semana com plantões de 12 horas.
Isso não é sustentável. Se todo mundo olhar só para isso e defender, fica impagável a saúde. Nunca vou defender fazer saúde de baixa qualidade e para isso justificar baixo custo. Não é fazer uma saúde porca e uma medicina porca. Mas o sistema precisa ser sustentável. E o discurso de que a saúde não tem preço. De fato não tem, mas tem custo. Para manter de qualidade tem custo.

Se não racionalizarmos, não colocarmos preços de mercado. E a OS que entrou se propôs a pagar tudo que é praticado para a categoria com os acordos anuais de reajuste sindical. Mas não dá para inflacionar o preço. O Estado de Goiás chegou a um momento que a relação ficou um pouco distorcida. Isso gera ruído.

Outro ruído que foi gerado também, e que considero natural na transição, é o do desconhecido, da incerteza. “Eu fico, não fico, como vai ser?” Só que depois da troca da OS, quem está na unidade em sua atividade profissional hoje diminuiu a preocupação. Esse ruído diminuiu drasticamente na primeira semana e a tendência é diminuir cada vez mais. Os processos estão se ajustando. A Organização Social já sinalizou que os equipamentos estão antigos.

Conseguimos uma verba com a bancada federal de R$ 39 milhões para reequipar os nossos hospitais. Temos um período de transição. A transição não é só a virada da chave. É um período de até 120 dias de adaptação. Estamos falando de um contrato de um contrato longo, de 48 meses, que é uma característica dos novos contratos de chamamento. Os antigos todos eram de 12 meses.

12 meses não dá segurança para ninguém na operação hospitalar. Todo ano ter que negociar contrato de novo e fazer aditivo é um soluço administrativo. E precisamos de energia para gastar com outras coisas. Com policlínicas, convênios e outras iniciativas. Todos os novos contratos são de 48 meses renováveis. Renovar quando? Na gestão de quem entrar para me substituir. Se entenderem que a OS presta um bom serviço e tem conta regular renova. Caso contrário, faz-se um novo chamamento.

Rodrigo Hirose – Durante 2019, houve muitas críticas ao HDT, reclamações de pacientes e, por parte dos servidores, denúncia de desmantelamento das instalações. O que a Secretaria da Saúde fará para resolver a situação, pois trata-se de um hospital de referência com perfil único no Estado?

É um dos únicos 12 do Brasil com esse perfil [de atender pacientes de doenças tropicais]. O HDT talvez tenha sido o hospital que mais gerou ruído para a secretaria em 2019. No começo do segundo semestre, houve demissão de alguns profissionais. Salvo engano, cinco médicos. A Organização Social tem autonomia para fazer demissões.

Na prática, não houve diminuição de atendimento. Havia historicamente a média de três profissionais na porta, um deles, um pediatra. O pediatra foi mantido, junto de mais um para cuidar dos adultos.

O intervalo entre os atendimentos, em 24 horas, era maior que uma hora. Um pediatra, por exemplo, chegava até a 48 horas sem nenhum atendimento – mas tem de ter [um pediatra].

A parte física do HDT é muito precária. No final do ano, descentralizamos uma verba para a Goinfra para fazer uma reforma global.

Acredito que haverá um novo ruído, porque vamos fazer o chamamento de uma nova OS para o hospital. O ruído inicialmente era dos profissionais, passou para os pacientes e talvez agora seja da própria Organização Social.

Rodrigo Hirose – Por que a Organização Social do HDT será substituída?
Nós entendemos que nos últimos sete anos poderia ter havido uma gestão um pouco mais adequada. A própria estrutura física é um exemplo. Se a Organização Social detecta que há necessidade de melhoria, existe uma portaria que permite que seja requisitado à secretaria uma verba para fazer a reforma.

Ao longo desses sete anos, a engrenagem poderia ter sido mais redonda. Acreditamos que o HDT pode entregar mais serviços que hoje, tanto de consultas quanto de exames. O hospital tem uma UTI que é a mais cara per capta do Estado. Não é culpa deles, mas isso poderia ter sido modificado ao longo dos anos.

Lá há apenas quatro leitos. Se faz conta de UTI de dez leitos, porque o tamanho da equipe é o mesmo. A equipe que cuida de 11 [leitos de UTI] é a mesma que cuida de 20. Não é muito racional ter uma UTI de quatro leitos.

Tudo isso foi se acumulando e gerando desgaste ao longo tempo. Entendemos eu ele [o hospital] tem condições de entregar mais do que ele está entregando. Mais internações, mais consultas. O novo chamamento prevê esse acréscimo.

E também será feita a reforma. Já descentralizei a verba e nos próximos dias será lançada.

Mas há muita falácia, plantam que o HDT será transformado em hospital geral, que vai ser extinto. Em nenhum momento passou pela gestão e em nenhum momento vai acontecer a mudança do escopo do HDT. Ele continuará sendo um hospital específico de tratamento de doenças tropicais, com a especialidade que ele tem e inúmeros profissionais especialistas e capacitados na área.

A busca que estamos fazendo pela vocação de cada hospital não se aplica ao HDT. A vocação do HDT está bem definida e não há porque mexer nisso. O que queremos mexer é na otimização da gestão.

Italo Wolff – O Hospital Geral de Goiânia [HGG] tornou-se referência em transplantes, recebendo pacientes, inclusive, de outros Estados. Isso é um problema para as contas do hospital?
Se não fosse ajustado, sim. O SUS [Sistema Único de Saúde] é universal, não posso fechar as portas para nenhum paciente. O que existe são dispositivos de gestão disponibilizados pelo Ministério da Saúde. Um deles é o TFD, que é o tratamento fora do domicílio. Atendo o paciente e cobro do Estado [de origem].

No caso dos transplantes, estamos procurando outro dispositivo, que é a habilitação junto ao ministério. Se o paciente é do Tocantins ou da Bahia, se está habilitando, a verba federal não sangra o tesouro.

Avançamos muito na questão do transplante. O HGG é referência nacional. Aumentamos muito a capacidade de transplante renal, credenciamos e fizemos transplante hepático. Estamos planejando o transplante de pâncreas e estamos na iminência de começar o transplante de medula óssea. Já fizemos tudo o que precisava do ponto de vista de gestão e de adequação técnica de transplante de medula óssea, que vai ser um avanço fantástico no nosso Estado.

Já está habilitado o transplante cardíaco, mas ainda não foi feito nenhum, pois estamos focando a parte cardíaca muito mais no Hugol.

A taxa de sucesso de transplante renal [no HGG] é absurda. A coordenadora nacional de transplantes, dra. Daniela Salomão, me disse que Goiás puxou a taxa de transplante do Brasil para cima. Saiu de 16º para o 6º maior transplantador. Isso é bastante significativo.

Rodrigo Hirose – E em relação ao CRER, haverá alguma mudança?
O CRER é um orgulho do Estado de Goiás. Ele é reconhecido nacionalmente. Tivemos a condição de aumentar 20 leitos no ano passado e estamos com planejamento de aumentar mais 20 de Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica.

Focando na inovação, dentro em breve teremos um novo equipamento, fruto de uma emenda federal do deputado Major Vitor Hugo, chamado Lokomat. É como um exoesqueleto que se adapta ao paciente que têm lesão de medula e não consegue mexer as pernas. O paciente que tem dificuldade ou não tem a marcha, pode evoluir. Será o terceiro aparelho desse no Brasil. Seremos os pioneiros a ter um equipamento desses em hospital público. É um aparelho caro, que custa em torno de R$ 1,5 milhão, o local já está adequado e o pessoal está nas tratativas finais para trazê-lo da Suíça.

Será um salto de qualidade, porque ele simula o movimento real da marcha. Quando ele se adapta ao paciente, que começa a fazer a marcha, a coisa é tão real que o cérebro entende que é o paciente que está fazendo a marcha e, como nosso sistema nervoso é muito plástico e adaptável, esse estímulo resgata a memória que tinha da marcha. É mais um dos tratamentos de excelência do CRER.

Rodrigo Hirose – Goiás fechou 2019, novamente, como um dos Estados com maior número de casos de dengue no País. Por que Estado e sociedade não conseguem diminuir a incidência dessa doença?
A dengue tem quatro sorotipos. Uma vez que um sorotipo circula em um ano, no ano seguinte ele impacta menos. O que circulou no ano passado foi o sorotipo 2, que é o mais letal. O Brasil terminou 2019 com 488% de casos a mais, Goiás aumentou em torno de 49%. É abaixo do Brasil na proporcionalidade, mas é [um aumento] significativo. Mas, mesmo com o sorotipo 2, que é o mais letal, tivemos menos mortalidade que nos anos anteriores, o que mostra eficiência no atendimento.

A dengue depende de ações conjuntas, não é só o Estado ou só os municípios. Cada ente tem a sua participação. O município, com o agente de endemia, que visita as casas e fiscaliza os quintais. Oitenta por cento dos criadouros estão em nossos quintais. O Estado atua mais no aspecto de treinamento, distribuição e monitoramento, não é muito mão na massa nessa responsabilidade. O ente federado [a União] é responsável por adquirir os larvicidas e inseticidas.

E a população também tem responsabilidade. Se não tem criadouro, não tem mosquito. Se não tem mosquito, não tem dengue. Não estou falando isso para eximir a participação de nenhum ente federado. Mas, para ajudar os municípios, fizemos um convênio com o Corpo de Bombeiros para também entrar nas casas.

Todos os municípios goianos são monitorados e classificados em alto, médio e baixo risco. O único município [goiano] que está com alto risco é Montes Claros, com casos acima da média.

Goiás ficou fora da previsão de surto para 2020 porque já tivemos contato com o sorotipo 2 muito significativo este ano. Os tipos 3 e 4 não temos detectado a circulação.

O ente federado [a União] tem a obrigação de adquirir os inseticidas e larvicidas. Em 2019 inteiro ficamos sem o envio. Agora começou a chegar e começamos a distribuir para os municípios. Compramos bombas costais para aplicação pois, desde 2015, não é prática mais em Goiás o uso do fumacê, pois a taxa de efetividade é muito baixa e há o risco de desencadeamento de doenças respiratórias.

“Acreditamos que o HDT pode entregar mais serviços que hoje, tanto de consultas quanto de exames”

“A busca que estamos fazendo pela vocação de cada hospital não se aplica ao HDT. A vocação do HDT está bem definida e não há porque mexer nisso” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Rodrigo Hirose – O produto usado nas bombas costais é o mesmo que era usado nos fumacês?
Sim, só que a aplicação é mais focada e eficiente. E como agora temos georreferenciamento onde estão os focos, conseguimos saber até o lote em que existe foco e podemos controlar com mais facilidade.
Mas a guerra contra a dengue é conjunta. Precisa haver uma conscientização nossa, como população. Uma tampinha é suficiente para haver centenas de larvas [do mosquito Aedes aegypt]. Uma bromélia pode ser suficiente, uma folhinha seca que está virada e acumulou água é suficiente. É uma questão de vigilância.

Temos conversado com a secretária da Educação, Fátima Gaviolli, para que as crianças sejam conscientizadas. Muitas vezes os pais esquecem, mas a criança, quando aprende, não esquece. Ela toma isso como desafio.

Rodrigo Hirose – O sr. falou em comportamento das pessoas. Atualmente há um movimento mundial de rejeição à vacina. O argumento dessas pessoas é que não se vacinar ou não vacinar é um direito individual, que deve ser respeitado. Esse raciocínio tem algum sentido?
Minha análise pessoal como médico e secretário da Saúde é de que essa visão é absolutamente egoísta e irresponsável. A não vacinação de um filho não é uma decisão individual. Você está arbitrando e deixando de prover para uma pessoa que não tem condição ainda de decidir.

E não é só ela, caso a pessoa tenha essa visão egoísta e estreita. Ela [a criança não vacinada] é vetor para uma população gigantesca. A responsabilidade é coletiva. Do ponto de vista de evolução civilizatória, é um retrocesso de pensamento.

Quanto mais se vacina, doenças são erradicadas. Até 2015, o sarampo era uma doença erradicada no Brasil. Houve um relaxamento, baixamos a taxa nacional de vacinação e o sarampo voltou. Em 2019 foram quase 5 mil casos no Brasil, cinco deles em Goiás. [O sarampo] mata pouco, mas gera muita comorbidade, febre, desconforto e celeuma na população.

Além disso, vírus sofrem mutações. Se o vírus circulante não é tão letal, em algum momento ele pode sofrer uma mutação e passar a ser.

No ano passado, a meta de Goiás era de 90% de vacinação. Conseguimos 108% porque vacinamos pessoas de outros Estados. O Ministério da Saúde deu reforço, levamos vacina para os 246 municípios. Mas é um movimento que não pode relaxar. Não é porque batemos a meta em 2019 que não vamos vacinar em 2020.

Rodrigo Hirose – Há pouco tempo a Polícia Civil fez uma operação que envolveu o Ipasgo, o Hugo e o Ingoh. O que foi descoberto?
A investigação não passou tanto pela Secretaria da Saúde. Obviamente que as informações compiladas pela Secretaria da Saúde e que foram solicitadas pela Secretaria da Segurança Pública foram ofertadas todas.

O que foi detectado pela Secretaria da Segurança Pública é que teria havido fraude, como administração de possíveis subdoses [de medicamento], quanto, do ponto de vista financeiro, de robôs [virtuais] que ignorariam algumas glosas. Isso foi o que a gente soube, não estou fazendo juízo de valor.

O gestor do Ingoh era, na oportunidade, o representante da Organização Social que fazia a gestão do Hugo, antes da transição. Tanto que, logo após a transição, fizemos um boletim de ocorrência porque os HDs de computadores que estavam em uma das salas do Hugo foram subtraídos. Era uma sala que ficava fechada. Não sei o que tinha nesses HDs, mas informamos à Secretaria da Segurança Pública, que está tomando as devidas providências.

O que a Secretaria a Saúde tem de dado compilado, forneceu. Não só quanto a isso. No primeiro semestre do ano passado, houve duas operações relacionadas à regulação. Agentes estariam dentro dos hospitais fazendo venda de vagas e cirurgias.

Condenamos qualquer tipo de prática nesse sentido. O que a SSP precisar de subsídio, vamos dar.

Rodrigo Hirose – Há suspeita ou denúncias de que esquemas semelhantes funcionem em outras unidades de saúde do Estado?
Não que tenha chegado a nós. O que percebemos e que apontamos são contratos que fogem dos preços de mercado ou que estão sobrepostos, contratos diversos escritórios de advocacia para litigar com o próprio Estado. Não faz muito sentido. O que precede uma relação judicial é a relação administrativa. E a relação administrativa da secretaria, hoje, é muito tranquila, transparente e acessível. O que a Organização Social pede de informação a gente dá, o que a gente pede é importante que eles deem também.

Italo Wolff – A Secretaria de Saúde tem passado isso à Secretaria da Segurança Pública?Tudo o que a gente detecta que talvez haja algum tipo de irregularidade, de não republicanismo, é repassado à Secretaria da Segurança Pública. A SSP criou uma superintendência anticorrupção e tem sido bastante atuante.

O que vai dar muita transparência é que, na Secretaria da Saúde, serão unificados os sistemas, de forma que a extração dos dados seja no próprio sistema. Não será preciso digitação de dados e planilhas.

Mais uma vez sem juízo de valor, mas uma linha de planilha que se esquece, ou que se modifica, intencionalmente ou não, altera-se tudo. O que queremos é a fidedignidade dos dados. Se tenho dados fidedignos, extraídos da fonte, dentro de um sistema integrado, esse é o mesmo dado que vou reconhecer, que vou mandar para o ministério [da Saúde] e pelo qual serei remunerado ou pelo qual vou pagar.

Não dá para ter três números, um para a Organização Social, um para a Secretaria da Saúde e um para o ministério. Estamos trabalhando forte nesse primeiro semestre para integrar essas plataformas. O prontuário passará a ser único. O prontuário é do paciente e não do hospital, que só faz a guarda. Mas não dá para fazer a guarda só de um pedacinho. Se o paciente foi atendido no Hugo e depois foi para o Hugol, ele tem de ser visto no Hugol também.

A saúde custa muito caro. Se não tivermos dados fidedignos para tomarmos decisões corretas, ela fica impagável. Aí o SUS, que é uma grande conquista democrática, vai para o ralo. Já temos a emenda constitucional 95 que freia os gastos da saúde por 20 anos. Há uma discussão no Ministério da Economia, do ministro Paulo Guedes, que quer tirar o piso da educação e a saúde. São movimentos que nos preocupam. A garantia de um piso para a saúde é que teremos um mínimo para investir.

Este ano conseguimos cumprir a vinculação. O governador Ronaldo Caiado nos deu o total apoio, investimos mais que os 12% constitucionais, repassamos para os 246 municípios, ordinariamente, de janeiro a dezembro, tudo o que deveria ser repassado. Não era uma prática das gestões anteriores. Havia 13 meses em atraso.

Finalizamos o ano com a quitação do fornecimento de medicamentos, que vinha às vezes de 2012 a 2018, e de equipamentos. E finalizamos o ano com R$ 101 milhões em caixa. No finalzinho do ano o governador Ronaldo Caiado nos apoiou muito nesse sentido junto ao Ministério da Saúde e aos parlamentares. Ao longo do ano, a gestão estadual conseguiu junto à gestão federal em torno de R$ 357 milhões.

Isso nos deu um grande fôlego, pois, se consigo pagar os fornecedores, consigo ter credibilidade no mercado, obter menores preços e não ter desassistência. A gestão orçamentária-financeira foi muita ajustada durante o ano.

Hoje, permanece a dívida dos municípios dos 13 meses passados, mas o ordinário temos passado, são R$ 150 milhões. Remédios não devemos nada, equipamentos, zero, Organizações Sociais em torno de R$ 70 milhões. Estou muito próximo de pagar de R$ 50 a R$ 53 milhões [às OS] com remanejamento de balancetes positivos de outras.

Do ponto de vista de gestão, avançamos muito, o que possibilitou avançar em abertura de leitos de UTI e convênios no interior, abrimos mais de 70 leitos. Fizemos convênio com o Araújo Jorge de R$ 1,8 milhão, com a Santa Casa de R$ 2 milhões, com Catalão de R$ 800 mil, com a Santa Casa de Anápolis de R$ 600 mil, Hospital Padre Tiago de Jataí de R$ 937 mil, Hospital Pedro Alcântara de R$ 837 mil.

Do ponto de vista da regionalização, também conseguimos avançar. Retomada da construção para finalização do hospital de Uruaçu, com 240 leitos. O de Águas Lindas, estamos tomando providências administrativas porque a empresa [responsável pela obra] está muito lenta.

O Norte, que hoje é desassistidos, além das policlínicas passa a ter o Hospital de Uruaçu. O Entorno do DF, [contará com] o hospital de Águas Lindas. O hospital de Formosa está com processo em tramitação para ser estadualizado e o município também terá uma policlínica. Hoje lá não existe nada e passará a ter dois equipamentos importantes.

Em Jataí, o Hospital das Clínicas será estadualizado, a tramitação está sendo concluída até o final do semestre. Em São Luiz de Montes Belos está previsto [a construção de] uma policlínica e a estadualização do hospital com unidade de terapia intensiva.

Apesar do arrocho financeiro, conseguimos avançar muito e quitar muitas coisas. Acredito, portanto, que 2020 será um ano de muitas entregas. No final de janeiro, vamos inaugurar a totalidade dos leitos do Hugol, com início das cirurgias cardíacas e mais UTIs. Em fevereiro, o Hugol receberá a [acreditação] Ona 2; e o Hurso [Hospital de Urgências da Região Sudoeste] receberá a Ona 1. Estamos pleiteando uma acreditação europeia para o HGG, acredito que conseguiremos.

No final de fevereiro, provavelmente no dia 28, inauguraremos a Policlínica de Posse, ao mesmo tempo estão sendo concluídas as de Goianésia e a de Quirinópolis. Talvez em março ou abril [inauguraremos].

Em maio entregaremos o Hemocentro da Avenida Anhanguera, em Goiânia. A estrutura hoje é muito precária e terá ampliada em 65% a sua capacidade. Retomando forte [as obras] de Águas Lindas acho que conseguiremos entregar no fina do ano.

A regionalização, que é um dos pilares de nossa gestão e está no plano de governo do governador Ronaldo Caiado, vai ser consolidada.

Rodrigo Hirose – E o hospital de Santo Antônio de Descoberto, será retomado?
É uma obra que começou a 19 anos. Decidimos colocar nossas forças naquilo que temos condição de entregar. O hospital de Santo Antônio do Descoberto, se ficasse pronto hoje, do jeito que ele está, seria inadequado e não teria aprovação da vigilância. Para o Entorno [do DF] nós focamos em Águas Lindas. Não vamos prometer aquilo que não temos condições de entregar.

Estamos prevendo 16 obras na saúde e vamos concentrar muita força para que elas se efetivem.

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