“O povo vai pagar meio trilhão de reais pela irresponsabilidade do BNDES”

Deputado federal ex-tucano mostra preocupação com o rombo na instituição e diz que hoje tem boa relação com Marconi Perillo, mas se considera “independente”

Na foto Alexandre Baldy

Na foto Alexandre Baldy | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Ainda no segundo semestre de 2012, o procurador da República Helio Telho alertou, em entrevista exclusiva ao Jornal Opção: “Vamos ter um escândalo de corrupção ainda maior do que o da Petrobrás. E será no BNDES”, dizia o título. Sobre o que de fato ocorre no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o deputado federal Alexandre Baldy (PTN) pode falar com propriedade: ele participou da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apurou irregularidades na instituição. E, da investigação, não traz boas notícias aos brasileiros.

O relatório final foi aprovado em fevereiro, mas todo o trabalho sofreu, segundo Baldy, com a blindagem política e administrativa arquitetada pelo governo (agora afastado) de Dilma Rousseff (PT). Mesmo assim, o deputado é taxativo em afirmar algo realmente preocupante: “O povo brasileiro vai pagar esse meio trilhão de reais nos próximos 45 anos por causa da irresponsabilidade do BNDES”, diz. O período de maior aprofundamento da dívida ocorreu entre 2007 e 2016 na gestão de Luciano Coutinho, que agora dá lugar à economista Maria Silvia Bastos Marques.

Nesta entrevista, Baldy fala também sobre as perspectivas do governo do presidente interino Michel Temer (PMDB), das perspectivas de seu partido para as próximas eleições e de questões gerais da política goiana, dizendo-se “independente” em relação à administração do governador Marconi Perillo (PSDB), de cujo partido saiu na última janela para mudança de siglas.

Euler de França Belém — O procurador do Ministério Público Federal junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), Júlio Marcelo de Oliveira, disse que o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] foi utilizado como fonte de financiamentos subsidiados em larguíssima escala. Segundo ele, “foram R$ 500 bilhões em seis anos”. O novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse que vai abrir a caixa preta do BNDES. Quinhentos bilhões de reais soa quase como uma quantia improvável. O que significa isso?
Foram dívidas que o Tesouro Na­cional contraiu para poder fo­mentar o BNDES. Então, na realidade, o povo brasileiro vai pagar esse meio trilhão de reais nos próximos 45 anos por causa da irresponsabilidade do BNDES. Quando o procurador Júlio Marcelo diz isso — ele que é um cidadão que eu respeito muito, e já conversei com ele e com outros procuradores de contas sobre essa questão —, entendemos que o BNDES é realmente uma caixa preta.

Cezar Santos — O sr. integrou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do BNDES. Qual foi o trabalho para tentar abrir essa caixa?
É uma situação difícil. Na CPI do BNDES eu tentei fazer um aprofundamento de investigação, mas a blindagem política e administrativa era muito forte [o relatório final do deputado José Rocha (PR-PA) foi aprovado no dia 25 de fevereiro deste ano, apontando problemas nas práticas adotadas pelo banco na concessão de empréstimos, mas sem nenhum pedido de indiciamento]. Mas agora a investigação pode andar, com essa mudança de governo, lembrando que o ministro da Fazenda era do conselho da J&F, da família Batista. Também deve facilitar a investigação a saída de Luciano Coutinho, que presidiu o banco de 2007 a 2016 [no dia da entrevista, o presidente Michel Temer nomeou a economista Maria Silvia Bastos Marques para a presidência do BNDES], o período de maior aprofundamento da dívida do BNDES. Isso se deu para fomentar a economia, mas com a ocorrência de desvio da finalidade desse recurso, que teve parte injetada em campanhas eleitorais e em empresas como as do pecuarista José Carlos Bumlai [preso nas investigações da Lava Jato por envolvimento em negócios suspeitos de irregularidades com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)]. Eu acusei Bumlai desde o início, fui o responsável pela convocação dele à CPI, mas infelizmente ele ficou calado, por ter sido preso no mesmo dia. Coloquei no meu requerimento todas as provas que hoje pesam contra Bumlai e que ele já delatou. Ou seja, tínhamos as provas necessárias para indiciá-lo e puni-lo.

Cezar Santos — Carolina de Oliveira Pimentel, mulher do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), também aparece no caso do BNDES…
No caso da esposa do governador Fernando Pimentel [a empresa dela, a Oli Comunicação, recebeu pagamentos milionários de empresas que firmaram contratos com o BNDES], o meu relatório e meu voto em separado eu entreguei ao procurador do Ministério Público Federal em Goiás, Helio Telho, que é um conhecedor da matéria BNDES, como também entreguei à força-tarefa da Lava Jato, que hoje investiga as contas do BNDES no Ministério Público Federal em Brasília. Vamos ter essa história mais esclarecida no curto e médio prazos.
Mas o resumo de tudo isso é que nós, cidadãos brasileiros, nos endividamos no valor de meio trilhão de reais para poder fomentar o BNDES. Se a dívida pública brasileira é de R$ 4 trilhões, meio trilhão foi entre 2008 e 2015, para fomento do BNDES.

Euler de França Belém — Esse dinheiro foi usado para financiar obras em Angola, Moçambique e outros países?
Para tudo. Quando defendem que o BNDES era importante para os financiamentos internacionais, eu questiono o seguinte: mas isso foi perguntado ao povo brasileiro? Porque isso é imposto que o povo paga, isso é caro. Hoje o BNDES toma recurso emprestado a 14,25% e empresta para à Venezuela a 2,50%, para Cuba a 4%. Além de pagar juros muito maiores para financiar obras em outros países, ainda toma prejuízo contábil e de caixa efetivo no juro real, no spread entre o que se toma e o que se empresta.
E para quê precisamos disso? Eles dizem que acompanham os juros da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico]. Eu não quero saber de acompanhar o juro internacional, eu quero saber o seguinte: precisamos de dinheiro no Brasil? Precisamos de dinheiro para fomentar nossos pequenos empresários? Nossa indústria está bem? Nosso produtor está bem? A infraestrutura brasileira está maravilhosa? Não precisamos de dinheiro para nada no Brasil?
E estamos emprestando dinheiro mais barato para Angola, Moçam­bique, Venezuela, Cuba, Argentina e outros países, do que emprestamos aos empreendedores brasileiros. Isso é ridículo, é dinheiro do povo sendo desvirtuado de sua finalidade. A sigla BNDES significa “Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social”. Não é banco internacional, interamericano ou mundial.

Cezar Santos — Isso tem nome: é crime de lesa-pátria, e está previsto na Constituição.
E outra, qualquer empréstimo internacional tem de ter aprovação do Senado. Eles desviaram a finalidade do BNDES. Os empréstimos são nacionais e foram feitos em dólar, para não precisar passar pelo Congresso Nacional, que tem de ser respeitado. Então, a presidente Dilma cometeu mais esse crime contra a nação brasileira (o entrevistado faz pausa silenciosa).

Euler de França Belém — Chega a ser espantoso.
E para quem está lá dentro é muito mais. Como se viu no caso das empreiteiras, em que aditivos eram contratados na Petrobrás para fazer doações políticas legais. Isso significa que a corrupção no BNDES será difícil de ser encontrada. Eu fui investigador do BNDES e vi que essa corrupção se desdobra pela cortina de fumaça que é a propina por meio de doações eleitorais.

Cezar Santos — O fato de o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ser ex-integrante do conselho da J&F não pode ser um complicador nas investigações?
Acredito que não. O ministro Meirelles é uma pessoa ilibada, de grande reputação, foi presidente do Banco Central por oito anos, não precisa disso para viver, tem patrimônio suficiente para garantir o resto de sua vida. Não acredito que ele blindaria uma investigação como essa no BNDES por conta de A ou B. Ele tem uma reputação a ser preservada, é o homem forte da economia brasileira e se, porventura, for exitoso no ministério, pode sonhar mais alto.

Euler de França Belém — Os economistas dizem que Meire­lles está sendo realista, ao dizer que em 2016 não haverá crescimento, mas que as medidas serão importantes para tentar crescer em 2017 e 2018. As medidas produzirão resultados já para 2017? É preciso lembrar que alguns fundos americanos agora já se mostram dispostos a investir no Brasil.
Esse é o ponto primordial. Eu disse ao presidente Michel Temer (PMDB) que ele estava vivendo os melhores dias de vida dele, antes de assumir definitivamente a Presidência. Isso porque o melhor é a expectativa do poder, a expectativa da me­lhora, da mudança. A mudança de governo gera ânimo no setor produtivo, nos investidores nacionais e internacionais. A partir de agora temos uma política econômica distinta, a saída de um go­verno centralizador do qual a pre­sidente se mostrou incompetente e sem habilidade política e administrativa. Sai um governo que faliu tanto o governo quanto o País.
Quando se muda o go­verno, traz a perspectiva de me­lhoria. Falei na tribuna da Câ­ma­ra que agora temos oxigênio no­vo, a possibilidade de uma vida nova. Eu não torço pelo sucesso do governante, torço pelo sucesso do País. E nesse caso, o sucesso do País necessariamente vai passar pelo sucesso do governante. Quero que o Brasil dê certo e para isso dependemos de políticas públicas eficientes e coerentes com o momento.

Na foto Alexandre Baldy Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Na foto Alexandre Baldy Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Cezar Santos — Questionam a legitimidade de Michel Temer para assumir a Presidência. O que o sr. diz?
O que Temer vai fazer será desafiador ao extremo, mas ele é consequência do processo de impeachment, da mudança. Poderia ser outro, mas ele é o vice. Michel Temer recebeu os mesmos votos que Dilma recebeu nas urnas em 2014. O PMDB deu estrutura partidária suficiente para que ela se tornasse a presidente. Com Temer subindo à Presidência, os maiores fundos de investimentos do mundo têm a perspectiva de que o governo brasileiro agora é aberto ao diálogo, aberto a discutir os marcos regulatórios. Veja o setor de mineração, que parou. Estamos aí discutindo a questão da Votorantim em Goiás [em janeiro, a empresa anunciou suspensão das operações no município de Niquelândia], no Norte do Estado, mas no Médio-Norte goiano empresas mineradoras internacionais pararam de investir, desmobilizaram seus investimentos. A Yamana Gold chegou ao ponto de dizer “já investimos R$ 200 milhões e o governo federal quer questionar a legalidade da nossa licença, da nossa portaria de lavras”. O governo Dilma era insano (enfático), para não dizer irresponsável, questionava o marco regulatório que ele próprio criou. O Brasil, além de estar parado, ainda questionava os marcos que possibilitavam os investimentos para ele sobreviver, não era nem para a vinda de novos investimentos. A nossa indústria hoje está em menos de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Hoje, ninguém tem confiança de fazer investimento no País. Quem está empregado não arrisca consumir por medo de perder seu emprego amanhã. O cidadão comum também está desconfiado e não se arrisca a trocar seu carro, comprar seu eletrodoméstico. A consequência disso é menor tomada de crédito, menor consumo. O banco está com dinheiro represado, as empresas não têm coragem de tomar financiamento e o cidadão também não tem coragem de acessar o crédito.

Cezar Santos — Michel Temer terá de tomar medidas duras. Ele terá apoio do Congresso para isso, considerando que a bancada do PT vai torpedeá-lo de todas as formas, votando contra qualquer medida que seja boa para o País?
É difícil falarmos em hipóteses. Não sabemos qual é o tamanho do buraco (fiscal) efetivamente. Qual­quer medida impopular que sugere o aumento de tributos terá de vir ancorada em demonstração clara e transparente das contas públicas. Se o presidente de República e o ministro da Fazenda quiserem aprovar um aumento de tributo — como vinha sendo feito amplamente pela presidente Dilma, que aumentou os impostos sobre ganho de capital e em outras áreas muito sentidas pelos empreendedores —, eles terão de demonstrar a necessidade. Temer terá de abrir essa caixa para que o povo saiba e o Congresso reconheça. Alguns ministros dizem que o buraco é mais embaixo, que o rombo (fiscal) é muito mais profundo. O PSDB apoia o governo Temer, tem ministérios, e foi contra o aumento de qualquer tributo durante o governo Dilma, vejo que será difícil para o partido agora apoiar um aumento ou recriação de imposto. É um desafio.

Euler de França Belém — Fala-se na volta da CPMF, mas economistas di­zem que seria apenas um paliativo.
É uma possibilidade, mas qualquer hipótese que se fale agora é precipitada, não sabemos como se dará a recuperação da economia, se voltam os investimentos, se volta a confiança por parte dos cidadãos, se volta a tomada de crédito e o consumo, se as pessoas vão sentir que seu emprego está garantido. O mais importante é dar ao cidadão a garantia de que a economia não vai piorar. Que os 11 milhões e 200 mil desempregados de hoje se tornem 12 milhões no mês que vem, 15 milhões no final do ano. Quem faz a economia girar é o cidadão, não é o governo. Governo não produz nada, são os empreendedores, o empresário, o industrial que fazem o imposto entrar. Governo não gera arrecadação, ele administra a conta, recebe o imposto e dita a política pública, mas o cidadão é que sustenta a economia. Governo é caro e tem de ser minimizado.

Euler de França Belém — Parcerias público-privadas vão funcionar com Michel Temer?
As parcerias funcionaram com Dilma, que privatizou os maiores aeroportos, as maiores rodovias, estava privatizando os maiores portos brasileiros. E fez isso porque o governo se mostrou incapaz, ineficiente para administrar.

Cezar Santos — E não privatizou mais porque não deu conta, porque fez exigências absurdas.
Ela não foi competente para dar segurança aos investidores, porque o marco regulatório era muito questionado. Como privatizar uma companhia energética, por exemplo, se toda hora se mexe no ambiente regulatório dessa companhia? Eu não posso questionar o quanto o investidor vai ganhar. Isso é problema do investidor que vai correr o risco, vai expor o capital dele. Se vai ganhar menos ou mais é pela competência. O governo tem de fiscalizar, fazer com que a política pública naquele investimento seja coerente e que o cidadão, que é o cliente do governo, pague menos por aquele serviço, que tem de ser bem feito.

Euler de França Belém — Isso vai avançar com Michel Temer?
Temer é uma peça, é o presidente, o que lidera todos os demais. Creio que ele montou uma equipe com figuras competentes, que têm conhecimento notório sobre os assuntos pertinentes. Então, ele tem melhores condições em relação a Dilma, por ser aberto ao diálogo, franco. E Temer tem condições de dar todas as notícias ruins, porque ele não tem compromisso egresso das urnas. Novas eleições neste momento, seja quem fosse eleito — PSDB, PT PMDB, qualquer partido —, dividiria o País. Nesse ambiente em que a economia vai muito mal, o desemprego é absurdamente crescente, onde a confiança é mínima por parte de todos — produtor, consumidor, investidor etc. —, uma eleição dividiria esse País, que já está em frangalhos. Veja a obra da BR-153, que foi privatizada: está parada, depois de privatizada.

Euler de França Belém — Mas não seria culpa da empresa, a Queiroz Galvão [investigada na Operação Lava Jato] e sim do governo?
É culpa do governo. Mas por que o governo não chamou outra empresa para assumir? É culpa de quem?

Euler de França Belém — Mas a Queiroz Galvão não teria de desistir da concessão?
Existem regras que precisam ser assumidas.

Euler de França Belém — E o que vai acontecer com a BR-153. Na semana passada, a Queiroz Galvão estava fazendo operação tapa-buracos em uma parte da rodovia que virou terra. A bancada goiana vai fazer alguma ação?
Eu tomei frente desse assunto durante muito tempo. Mas o governo da presidente Dilma não dava respaldo para nenhum investidor que quisesse assumir. A Lava Jato é um problema para a Queiroz Gal­vão, mas o maior problema é a confiança de manter o contrato. Essa obra virou um problema para quem vai para o Norte do Estado. Ela sai de minha cidade e vejo o quanto é perigoso viajar por lá, principalmente à noite. Mas, fazer o quê? Tem de ter solução, passar para o próximo. Mas em um momento de desconfiança, quem vai assumir aquilo?

Cezar Santos — Na verdade, o Brasil estava sem governo.
O poder não tem vácuo. Na falta de um presidente da República, o Executivo inexistiu. Com a falta de força dos presidentes das Casas legislativas [Câmara e Senado], quem assumiu o poder? O Judiciário.

Marcos Nunes Carreiro — Temos visto o governo do Estado fazer parcerias público-privadas (PPPs) nos últimos anos, em várias áreas. Isso tem funcionado em todos os casos?
Eu vou lhe responder com outra pergunta: na área da Saúde em Goiás, você acredita que as OSs [organizações sociais] funcionaram? Se você observar como era o Hospital de Urgên­cias (Hugo) de Goiânia antes e agora, você diria que elas funcionaram, a título de exemplo? Se você me disser que elas funcionaram, temos então um exemplo de sucesso. Não quer dizer que a mesma fórmula vá servir para todos os casos. Também não quer dizer que haverá, em todos os casos, a mesma facilidade de implantação. Vai haver resistência, maior ou menor, de acordo com o setor impactado. No caso da Educação, tem maior resistência.
Para construir os estádios da Copa do Mundo foi criado o Regime Diferenciado de Contra­tação (RDC), porque a Lei 8.666 [Lei das Licitações] torna o Brasil burocrático, ineficiente e incapaz de fazer uma obra que atenda ao País de forma célere, a contento de realizar um evento desses. Por que o governo não fez isso para construir presídios? Qual é a importância de um estádio de futebol e qual é a “não importância” de uma penitenciária? Isso é um problema social do dia a dia, é a segurança pública deixada de lado. Então, vemos que, para buscar o que é viável eleitoral e po­liticamente, é dada uma função e uma solução. Mas o mesmo não ocorre para o que não é tão eleitoralmente importante. Vamos deixar mesmo isso do jeito que está?

Marcos Nunes Carreiro — A teoria do Estado mínimo funciona, em sua opinião?
No Brasil já observamos que o Estado se demonstrou incompetente para gerir a coisa pública. Foi tamanha a burocracia que foi criada para impedir o desvio de finalidade e de recursos, enfim, a corrupção, que o Estado ficou inoperante e incompetente. Isso é resultado das administrações terceirizadas. Quem é o maior fiscalizador? O povo, que é o usufrutuário, aquele que paga para receber a obra e o serviço. Ele tem de ser o maior fiscalizador. Se não funciona o posto de saúde, a escola pública, se a segurança não presta, a culpa é de quem? É do Estado. E não tem distinção entre município, Estado ou União, todos são culpados. O que temos de interpretar é a parcela de culpa: a União arrecada 70% dos impostos que o povo paga, então porque seria menos culpada do que os demais entes? Por que, no caso da segurança pública, o Estado — responsável por ela — então seria o maior na falta dela?

Marcos Nunes Carreiro — A questão da revisão do pacto federativo vai ser colocada em pauta?
Participei da Comissão do Pacto Federativo da Câmara dos De­pu­tados em 2015 e foi um aprendizado enorme, realmente muito produtivo, sob a presidência do deputado Danilo Forte (PSB-CE). Será um marco para o Brasil, essa reforma do pacto federativo. Como eu disse há pouco, nós pagamos impostos, não interessa para quem, mas não recebemos de volta os serviços e as obras públicas na mesma proporção. O prefeito, que é quem administra as localidades que recebem os benefícios, tem 10% do tributo que se paga; os governos estaduais, grosso modo, têm 20% do total; e a União, o governo federal, fica com 70%. E nada tem sido retornado a contento.
O presidente Michel Temer tem condições de fazer reformas profundas — seja no pacto federativo, seja na Previdência ou em outros temas — exatamente por não ser egresso das urnas. Isso é um fator positivo para as grandes e profundas reformas. No início, ele tem capacidade de fazer tudo, além de não estar preocupado com reeleição, já que se pronunciou dizendo não ser candidato. Ele tem condição de fazer história e o pacto federativo é essencial para a sobrevivência dos governos estaduais e municipais, que estão falidos ou à beira da falência, insolventes ou prestes a isso. Se não houver a reformulação dos entes federativos, o Brasil, que já está um caos, vai parar. Ninguém vive no governo ou na União, a gente vive na cidade, onde tem educação, saúde, transporte, segurança, enfim, as condições de obras e serviços de que eu preciso estão no meu município. E o prefeito é o maior culpado hoje pela falta dessas obras e serviços, porque a população culpa aqueles que estão mais próximos, que são prefeito e vereadores. Quando se transfere parte dessa responsabilidade, o governador também sente uma parcela, principalmente no caso da segurança pública. E é bom dizer que, quan­do a Constituição prevê que a segurança seja responsabilidade do Estado, não necessariamente significa que seja o “Estado-membro”, o governo estadual, mas algo entre União, governo estadual e governo municipal. Na interpretação, porém, a União jogou para os governos estaduais a responsabilidade pela segurança pública, que é um dos problemas mais graves que a população sente hoje.
E eu pergunto: será que seria interessante terceirizar a Polícia Militar? É claro que não, em minha opinião não funcionaria. Mas seria exitosa a transferência da gestão dos presídios? Em minha opinião, sim.
Isso faz parte da mudança de cultura do cidadão. Não adianta cobrar algo e passar na frente de outra pessoa na fila da farmácia, ou dar uma cotovelada para entrar primeiro no ônibus. É preciso dar exemplo para que seja feito, naquilo que for possível, da forma que o povo cobra.

Euler de França Belém — Há várias ideias sobre pacto federativo. Qual é a que o sr. defende?
Defendo que haja equilíbrio entre as esferas de Poder para que a arrecadação e a entrega de serviços e obras públicas seja harmoniosa. A União arrecada a maioria dos impostos e faz a minoria das obras públicas. O que ela faz é transferir recursos para o gestor municipal ou estadual que, obviamente, diante da conjuntura político-partidária, fica à mercê da boa vontade do gestor do governo federal. Temos de criar um pacto federativo que dê harmonia e equilíbrio entre os Poderes das esferas. Sou a favor de que tenhamos obras e serviços bem executados, porque o cidadão paga caro por isso. Se será a União, o governo ou o município, não interessa.
O modelo que está, porém, não funciona. Temos de descentralizar. Quantas escolas públicas realmente funcionam? Quantos postos de saúde? A média geral é péssima. Ou seja, esse modelo que está aí faliu, temos de mudar. Se serão mais recursos para o governo estadual ou o municipal não sei o formato ideal. O que eu sei é que o maior fiscalizador é o cidadão.

Euler de França Belém — Parecia que o Brasil não tinha ministro da Justiça. Agora parece que teremos um, de fato — se as palavras e declarações forem aplicadas. Como o sr. tem avaliado essas primeiras declarações de Alexandre de Moraes?
São declarações coerentes, mas ainda vou mais longe: a solução para a segurança pública está em um conjunto de medidas e ações. Não será o governo federal que dará a so­lução para o problema. Obvia­mente, como o maior arrecadador tributário entre as esferas, ele vai dar a maior parcela de contribuição para minimizar esse drama. O contingenciamento de recursos provocou o que temos hoje. O Brasil não produz cocaína nem grande quantidade maconha. Mas como essa droga entra? Com a falta de política de proteção às fronteiras. O porcentual expressivo de homicídios ocorre pelo tráfico ou pelo uso de drogas. Se tivermos uma estrutura forte das polícias, principalmente a judiciária, para identificar e dirimir os inquéritos, bem como tivermos uma Polícia Militar ostensiva, nas ruas. Mas se não tivermos condição de acolher o preso nos presídios, o delegado ou o juiz verá o presídio superlotado e não vai encaminhar. Tem sujeito que chega a ser preso três vezes no mesmo dia e fica solto, por essa conjuntura.

Euler de França Belém — Diz-se da possibilidade de se instalar células terroristas no Brasil. Há um professor da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] que supostamente teria pertencido à Al-Qaeda. Como o sr. vê essa situação?
Não tenho informação sobre esse terrorismo, mas creio que o pior terrorismo que vivemos no Brasil é o que o cidadão vive todos os dias ao sair de casa. Se na Síria morreram, em 2015, por causa da guerra, cerca de 50 mil pessoas, aqui em nosso País vimos 60 mil brasileiros serem assassinados no mesmo período. Creio que a preocupação com o terrorismo no aspecto da política internacional tem de ser muito menor do que a que deve haver em termos de responsabilidade com o cidadão brasileiro diante do terror da falta de segurança.

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Cezar Santos — Como integrante da Comissão de Segurança, o que o sr. diz sobre a unificação das polícias? Como está esse debate?
Existe uma comissão especial provisória discutindo a unificação das polícias. É ainda um assunto polêmico, porque o corporativismo das instituições envolvidas ainda é extremamente desafiador. Temos de amadurecer muito para pensar nessa solução. Neste momento, é muito mais importante colocarmos outras saídas do que pensar na unificação das polícias. Não vejo esse como o problema mais grave. Se dermos condições de trabalho melhores para a Polícia Militar e para a Polícia Civil, teremos um sistema de segurança pública que funcione — obviamente, com um sistema penitenciário passível de acolher novos punidos. Há soluções mais simples, do ponto de vista corporativo, do que pensar nessa unificação.

Euler de França Belém — O sr. esteve com o vice-governador, José Eliton, que é também secretário de Segurança Pública. Foi para discutir sobre segurança ou sobre política?
Sobre segurança pública. O governador em exercício [no dia da entrevista, José Eliton estava como governador do Estado, devido à viagem de Marconi Perillo aos Estados Unidos] reuniu toda a cúpula de segurança pública para que a gente pudesse discutir quais são as ferramentas e os assuntos importantes do ponto de vista de cada membro da cúpula para contribuir com o andamento dos projetos que tramitam na comissão, na Câmara dos Deputados e, princi­pal­mente, no governo federal. É um governo que chega agora ao poder e vamos contribuir não só com os membros da cúpula da segurança pública do Estado, mas com todas as pessoas que vivem o tema para que possamos melhorar a segurança de forma real, quer seja de Goiás ou do Brasil.

Euler de França Belém — A segurança pública melhorou depois que o vice-governador assumiu a secretaria?
Na primeira reunião deliberativa da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, eu fiz questão de convidar o vice-governador e secretário de Segurança Pública para estar presente. E foi unânime entre os deputados sobre a demonstração que o governo de Goiás dá uma importância diferenciada à pauta da segurança ao escalar o seu segundo homem na hierarquia do Executivo para assumir a secretaria, além da coragem do próprio vice-governador em assumir uma pasta tão difícil e desafiadora diante da população.

Euler de França Belém — O Estado não tem ninguém no primeiro escalão do governo federal, a não ser Henrique Meirelles, que não está lá por ser de Goiás?
Para nós, cada membro do primeiro escalão está lá por um atributo, seja pela articulação política e partidária ou pelo mérito pessoal. Eu digo que Anápolis, e Goiás, estão representados pelo homem mais poderoso do primeiro escalão.

Euler de França Belém — Mas ele não está lá por ser de Goiás. Ele mora em São Paulo.
Ninguém deve ser escolhido para o primeiro escalão por estado de origem, cor ou sexo.

Euler de França Belém — São Paulo está bem representado.
Quem foi atendido foi São Paulo ou os líderes do PSDB? Se formos observar, o presidente prestigiou o governador de São Paulo [Geraldo Alckmin], como líder do PSDB. O mesmo ocorreu com o senador José Serra [ministro de Relações Exte­rio­res], que indicou a ele mesmo, e com o presidente do partido, senador Aécio Neves, que indicou a pessoa mais ligada a ele na bancada tu­cana, que nem é mineiro, mas pernambucano [Bruno Araújo, ministro das Cidades].

Euler de França Belém — Faltou força política a Goiás?
Não digo que faltou força política, mas que os escolhidos mereceram os atributos dentro de um contexto de política partidária ou de sua articulação. Excede, pela importância e o peso econômico e político, a força de São Paulo. Faltou força política a Minas Gerais? Seu líder maior, Aécio, não indicou um mineiro.

Euler de França Belém — Qual a diferença entre Dilma e Temer?
Inteligência e habilidade. Se Dilma fosse inteligente, não teria sido afastada; se fosse habilidosa, não teria perdido.

Euler de França Belém — Lula ainda tem futuro na política?
Espero que o futuro do Lula seja designado pelo juiz Sergio Moro. Essa é minha esperança.

Euler de França Belém — O sr. acha que é possível Lula ser preso?
Acho que seria justo com o Brasil. O procurador da República fala que ele é chefe do esquema; o senador Delcídio do Amaral foi preso por obstrução à justiça e diz que o fez a mando do Lula. Fora isso, há as ligações telefônicas interceptadas. Precisa de mais provas para que um sujeito como esse tenha o seu futuro definido por Sergio Moro?

Euler de França Belém — Por que o sr. deixou o PSDB e foi para o PTN?
Vi no PTN uma proposta de mudança político-partidária. O partido vai mudar o seu nome após as eleições e não o fez ainda devido à impossibilidade jurídica e eleitoral. A grande maioria dos deputados que foram para o PTN é de primeiro mandato. E ali eu percebi que as nossas habilidades possam ser melhor aproveitadas no dia a dia da Câmara. Não tenho nenhum problema com o PSDB. Saio de cabeça erguida e com um excelente relacionamento, mas as oportunidades que percebi no PTN são de que eu possa construir um partido que tenha identidade com o cidadão. Hoje, os partidos estão com suas funções e delineações deturpadas diante da população.

Marcos Nunes Carreiro — Qual o nome que o partido vai assumir?
Ainda não se definiu.

Cezar Santos — A prefeitura de Anápolis ainda está em seu radar?
O PTN tem três pré-candidatos à prefeitura. O processo eleitoral vai se deflagrar depois que o impeachment tiver ocorrido. Agora nós temos esse desafio que é a presidência da Câmara dos Deputados, que não era um problema esperado. Mas creio que o PTN, no momento adequado, vai definir se tem candidato próprio ou se vai apoiar alguém para trabalhar aquilo que é melhor para a população anapolina e que atenda ao anseio do povo de Anápolis.

Marcos Nunes Carreiro — Esperar todo esse processo de impeachment passar não pode atrapalhar uma campanha possível campanha à prefeitura de Anápolis? Não fica tarde?
Depende do nome. Anápolis é uma cidade que tem uma população extremamente politizada e apta a receber a questão política e eleitoral. Creio que o desgaste dos políticos atualmente é muito grande. É óbvio que esse momento de pré-campanha é muito importante porque as eleições diminuíram seus prazos, mas pessoas que apresentam seus nomes como pré-candidatos e que trabalham no dia a dia para obter apoio, não tenho dúvida de que possa surpreender pela receptividade da população. Isso é uma questão discutível. Quem estiver desempenhando a sua função, o seu papel, de maneira adequada e que tenha o reconhecimento por parte da população, será reconhecido na urna. Anápolis tem uma campanha extremamente politizada, tem propaganda na TV, e não acredito que mesmo quem suja como um nome novo tenha alguma dificuldade de se apresentar e de ser recebido pelo povo.

Cezar Santos — A ida do deputado Carlos Antonio para o PSDB criou algum tipo de desentendimento com o sr.?
Nenhum. Inclusive, fui designado pelo governador Marconi para concluir a ida do deputado para o PSDB. Meu último ato no partido foi receber a filiação do deputado Carlos Antonio, que é o pré-candidato pelo PSDB. Hoje, eu posso responder pela posição do PTN.

Euler de França Belém — Há um comentário na cidade de que o PTN pode compor com o DEM, de Pedro Canedo, e com o PMDB, de Eli Rosa. E o sr. teria participado da reunião com Eli. Procede?
Não. Não participei da reunião com Eli Rosa e tudo que surge como notícias, agora, é infundado e ainda precipitado. Não há nada concretizado. O PTN pode ter candidato próprio ou apoiar alguém, sem que isso seja fruto de direcionamento. Nós temos que ter um nome a apresentar à população que seja capaz de ser bem recebido pelo povo, que é quem elege. O partido é um mero instrumento de tornar legal uma candidatura. Agora, eu vejo que foram feitos trabalhos interessantes por parte de grupos que se aliaram, mas eu respondo pelo meu partido, que em Anápolis é dirigido por Vander Lúcio Barbosa e que decidiu não se posicionar neste momento. Então, eu acho precipitado em se falar na posição político-partidária para tenhamos resultados efetivos no período eleitoral.

Euler de França Belém — O PTN tem três pré-candidatos, mas quem tem maior estatura política é o sr. Disputar a prefeitura de Anápolis é uma oportunidade política, pela importância da cidade, mas ficar na Câmara Federal, em um momento como esse, também é uma oportunidade de enriquecimento político.
Para ser muito sincero: só tem um compromisso ao qual eu devo satisfação, que é o voto que recebi para ser deputado federal. Estou deputado e não tenho que me preocupar em ser candidato ou pré-candidato a uma eleição de Anápolis, porque meu país passa por seu pior momento econômico dos últimos 100 anos e pelo pior momento político desde 1992. Então, não posso ser egoísta e limitado a me preocupar com meu futuro político e minha base eleitoral a ponto de deixar de lado aquilo que me confiaram, que foi o voto para deputado federal. Tenho que me preocupar em ter habilidade política suficiente para passar pela dificuldade que o Brasil vive. E a Câmara é fundamental para isso. Foi fundamental para o impeachment e será para o projeto de governabilidade para o país, não para o governante; e será fundamental também para a melhoria das cidades brasileiras. Em nenhum momento eu fiz compromisso em ser ou não candidato. Serei candidato se for importante para o meu município. Agora, meu compromisso é com meu mandato de deputado federal e se faltar com ele, a qualquer momento, serei injusto com aqueles que me elegeram. O Brasil precisa disso e não deixo de atuar por isso.

Euler de França Belém — O sr. ainda pertence à base do governador Marconi Perillo?
Me considero independente, mas com uma excelente relação com o governador Marconi Perillo. Excelente relação, mas tenho independência para atuar com a coerência que a população demandar.

Euler de França Belém — Qual o seu projeto para 2018?
Nenhum. Tenho projeto para atuar, hoje, como deputado federal. Não me vejo, neste momento, disputando uma eleição em 2018.

Euler de França Belém — O sr. uma vez disse que tem o sonho de ser governador do Estado. Ainda tem esse sonho?
Eu tenho 35 anos de idade. Tenho, se Deus quiser, até os 100 anos para realizar qualquer sonho que eu tenha. l

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Adalberto De Queiroz

Uma entrevista dessa poderia sair n’O Estadão ou n’O Globo, na íntegra…Bravos, ao Baldy e aos entrevistadores.AQ