“O governo deveria colocar como prioridade uma força-tarefa para estudar a fosfoetanolamina”

Médico goianiense com especialização nos EUA diz que é preciso que o Brasil pesquise mais e lamenta que a cirurgia de cura da diabetes, do goiano Aureo Ludovico, não esteja permitida 

Renan Accioly/Jornal Opção

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Aos 39 anos, Alessandro Rios Stival Moreira é um goianiense diferenciado, por assim dizer. Seria ainda melhor tratá-lo como um brasileiro diferenciado. Médico com formação em cirurgia-geral, ele trabalhou, praticamente toda sua vida profissional, com cirurgia do aparelho di­ges­tivo para obesidade e diabetes. Fez especialização no Brasil, mas seguiu para os EUA para uma pós-graduação também na mesma área — passou pela Emory University, em Atlanta.

De volta ao Brasil, ele se tornou mais do que apenas um médico gabaritado. Ele montou uma empresa com o colega endocrinologista Sérgio Vencio, a Vencio & Stival Médicos Associados. É também um pesquisador e fabricante de novos medicamentos, o que o leva a esse outro patamar dentro do padrão nacional: “O brasileiro não tem o costume de lidar com o desenvolvimento do novo, com o alto grau de desenvolvimento de pesquisa. Acos­tumou-se a importar a tecnologia e não a fazer a tecnologia. O que é a nossa indústria farmacêutica? Uma fazedora de genéricos”, resume.

Em entrevista ao Jornal Opção, Alessandro Stival falou especialmente sobre dois temas polêmicos: a fosfoetanolamina, desenvolvida pelo pesquisador e químico Gilberto Chierice na Universidade de São Paulo (USP), cujo uso foi aprovado pelo governo federal sem que se passassem as fases necessárias de teste; e a cirurgia contra a diabetes de outro goiano, Aureo Ludovico, que chega a curar da doença 75% dos pacientes, conforme se comprovou agora com resultados de estudos apresentados nos Estados Unidos.

Só em Goiás, existem 381 mil pessoas com diabetes, doença intimamente ligada aos índices de obesidade, que só crescem e também é assunto nas próximas páginas.

Mas por que, com tanta tecnologia, não investem mais na cura do câncer e da diabetes, com essas “ferramentas” à disposição para serem desenvolvidas? Não seria por conta do poderio econômico das grandes indústrias farmacêuticas? Stival dá uma resposta triste e aterradora: “Não tenho como provar, mas essa é a realidade. Ve­mos isso em diversas si­tuações. Há filmes que mostram isso. Acontece to­dos os dias”.

Marcos Nunes Carreiro — A presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que autoriza o uso e a comercialização da fosfoetanolamina sintética, mesmo sem a liberação da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e sob os protestos de várias entidades. Como o sr. vê isso?
O momento vivido pela presidente, de pressão extrema, precisa ser analisado. Tudo o que ela puder fazer para melhorar sua popularidade, ela fará. Mas isso é algo à parte, um momento que vivemos. O papel chegou às mãos dela neste momento; se chegasse há seis meses, talvez sua decisão fosse diferente. Com certeza, essa questão popular interferiu.

O debate parte muito do pressuposto da luta pelo que é moral e ético. Nós queremos solução e a pílula pode ser essa solução, mas estão passando por cima do que acontece na ciência geralmente. Então, tudo o que acontece fora do trâmite comum, causa estranheza e gritos de um lado e outro. Há uma comoção, até porque não estamos falando de uma esclerose lateral amiotrófica ou de alguma outra síndrome rara que acomete poucas pessoas do mundo. Estamos falando de uma doença muito prevalente, que é o câncer. Então, ou existem centenas de milhares que têm a doença, ou milhões que têm ou conhecem quem tenha e sabe o sofrimento que é passar por algo desse tipo. Por isso, o clamor que existe em cima disso é muito grande.

Eu acho que a ciência tem de ser seguida porque fazer o protocolo aceito mundialmente nos protege como seres humanos, mas também não podemos fechar os olhos para eventos importantes que sejam de saúde pública. Não temos conseguido diminuir a incidência de câncer; na verdade, ela tem aumentado. Claro que existe a questão do diagnóstico precoce, assim como novos métodos para identificar problemas, que antes não existiam, mas é uma doença que interfere bastante na saúde pública. As pessoas têm muito contato com isso, o que balança as decisões de quem está com a caneta na mão. A decisão foi tomada, primeiro pelo Congresso e agora pela presidente, por causa do clamor da população.

Elder Dias — E essa decisão foi correta?
É muito complexo analisar uma nova medicação. Um novo fármaco é desconhecido, então não se sabe o que ele vai fazer no organismo agora, daqui a cinco dias, ou daqui a 10, 20 anos. Por isso, internacionalmente, seguimos uma linha. É necessário fazer estudos pré-clínicos para analisar se o elemento é estável, se é ligado com alguma outra coisa. Para dar uma dipirona para um paciente, é preciso ter um expediente. Como levar o medicamento para o organismo? Podemos colocar na veia, por via enteral, por via inalatória. Então, é preciso testar para saber como aquele fármaco vai chegar disponível no organismo. Às vezes se dá pela boca, mas o ácido corrói o medicamento. Não adianta.

Cezar Santos — Não houve falha do governo por não procurar investir no estudo do medicamento desde que se começou a propagar a existência dele?
Esse é o meu ponto. Descobriu-se algo interessante, promissor, que pode ajudar muita gente? Então, “vamos para dentro”. (enfático) O governo deveria agir assim. Ora, estamos falando de saúde pública. Teriam sempre de fazer uma força-tarefa quando se tratasse de uma das doenças que acometem milhares de pessoas: câncer, diabetes, obesidade, doenças infectocontagiosas. Isso precisava ter sido feito já tempos atrás — e não estamos falando de uma instituição qualquer, mas da maior instituição produtora de eficiência do Brasil, que é a USP [Universidade de São Paulo]. Então, todos vacilaram e agora estão querendo reparar.

O que acontece em outros países? Quando surge algo promissor em algum laboratório pequeno, eles transportam isso para o governo. Nos Estados Unidos isso é muito comum. O Instituto Nacional de Saúde, o NIH [sigla em inglês para National Institutes of Health], em casos assim, financia as pesquisas e coloca seus melhores pesquisadores para ajudar, porque assim tudo sairá bem feito e de maneira certa. Eu sou um incentivador da inovação, porque é meu ramo de trabalho. Eu tenho patente de novos remédios, então sei das dificuldades, pois as pessoas no Brasil não têm a cultura da inovação. O governo não pega as pesquisas e levam para um grande laboratório para saber se a droga é produtível em larga escala.

Um número seco de uma pesquisa no papel não significa nada. Em pesquisas eleitorais, a amostragem é tudo. Onde foi feita a pesquisa? Com quem? Então, para ler os resultados de uma pesquisa, é preciso saber a amostragem. Tem de tirar aquilo que está confundindo o processo, e isso é complexo. É difícil interpretar os resultados, pois, às vezes, pode-se achar que um resultado é bom, quando na verdade é ruim.

Cezar Santos — A USP encerrou a produção da fosfoetanolamina exatamente por ser alvo de muita pressão. Então, o que será feito, agora que o governo liberou o uso? Quem vai produzir?
Não sabemos. Existem coisas mínimas que devem ser buscadas. Se nada foi feito dentro dos padrões normais, não dá para saber o próximo passo.

Marcos Nunes Carreiro — O que precisa ser buscado minimamente?
A segurança do remédio. Alguém disse, nesse meio tempo, se o remédio deve ser tomado uma ou quatro vezes por dia?

Elder Dias — A pesquisa diz algo nesse sentido? O pesquisador Gilberto Chierice não pode dar um direcionamento sobre a questão?
Esse é o problema. Não foram feitas todas as etapas para se che­­gar­ a esse resultado. É empírico. O processo para se chegar até esses resultados é complexo. Primeiramente, é preciso entender se o elemento é estável, buscar saber a farmacodinâmica do remédio. Isso é feito em laboratório. Descobre-se que o elemento é estável e suas combinações possíveis. Aí começam os estudos pré-clínicos, que são feitos antes de chegar a humanos. Esses estudos são, geralmente, em animais, para saber a biodisponibilidade. Por exemplo: dá uma dose, espera um tempo e se colhe o sangue depois de meia hora, quatro horas, oito, doze para ver a concentração. São testes complexos e variados, como concentração mínima e tempo de excreção.

Elder Dias — A família da pessoa doente, às vezes em estado terminal, não aceita a espera dos estudos, pois lhe darão respostas daqui a um ano. Só que esse paciente pode morrer no próximo mês. Por outra via, médicos e pesquisadores querem cumprir todo o procedimento necessário para os testes do remédio e se sentem incomodados com o populismo da aprovação. Como transitar entre essas duas pressões?
Às vezes, é angustiante, pois se quer resolver o problema e se tem algo na mão que pode ser uma ferramenta importante para isso, mas existem entraves e processos que atrapalham. No dia a dia, isso ocorre várias vezes. O brasileiro tem a falta de costume de lidar com o desenvolvimento do novo até no alto grau de pesquisas. Acostumou-se a importar a tecnologia e não a fazer a tecnologia. O que é a nossa indústria farmacêutica? Uma fazedora de genéricos. Eles pegam medicamentos cuja patente já caiu e vão fazer um similar ou genérico. O único laboratório que desenvolveu um remédio feito no Brasil foi o Aché. Mesmo assim, é um anti-inflamatório, algo comum para os laboratórios internacionais, pois é com isso que eles ganham dinheiro. Mas, claro, por trás disso há um gigante de pesquisa. Por que um só comprimido pode chegar a custar 50 reais? O comprimido, em si, custa centavos, mas o custo envolve todos os anos de pesquisa.

Marcos Nunes Carreiro — Como assim?
Veja, eu falei dos estudos pré-clínicos. Nessa fase, mais de 90% de todos os novos fármacos “caem”. Então, de dez, apenas um segue adiante. Na fase 1, que é o primeiro teste em humanos, com pequenos grupos de até 50 voluntários sadios para ver a toxicidade do remédio, caem mais 90%. No fim, de mil novos fármacos, apenas um chega ao mercado para ser vendido. Por isso a Anvisa grita quando aprovam algo assim, sem os devidos trâmites. A visão no exterior também não vai ser boa.

Mas entendam: não sou contra a pílula. Pode ser uma ótima saída. Entretanto, precisava que uma força-tarefa fosse feita para realizar os estudos, até porque muitas dessas fases podem ser realizadas em paralelo. O problema da Anvisa é que, muitas vezes, se coloca um pedido de aprovação de um remédio, mas às vezes se passa dois anos sem que ninguém sequer pegue nisso, porque tem um pilha de pedidos e eles analisam um por um. Em um caso de saúde pública como esse, eles deveriam tê-lo como prioridade e dizer: “Ao invés de durar seis, sete anos de estudos, vamos fazer em um ou dois anos”. Não é deixar de fazer, ou evitar que as pessoas usem o remédio, mas colocar nisso a importância que ele realmente tem.

Cezar Santos — Quais são os benefícios da fosfoetanolamina?
Não posso entrar muito em questão de resultados e do mecanismo de ação dela, porque isso também faz parte dos estudos que precisam ser feitos, tanto que o grande questionamento dos oncologistas é que o mecanismo de ação não foi totalmente elucidado. Uma pergunta, por exemplo: para que câncer ela vai funcionar?

Elder Dias — Muitas pessoas acham que o câncer é uma doença só, enquanto existem carcinomas, linfomas, sarcomas, melanomas etc.
Exatamente. A célula que faz o nariz faz também a boca? Faz o cabelo? Não são as mesmas células. Uma célula forma cabelo e outra forma coração. Tudo bem que existam proliferações. O câncer, para sobreviver, precisa de sangue e outros detalhes. Então, se o mecanismo de ação da fosfoetanolamina focar em uma raiz da questão e puder, realmente, chegar a algo que aja de forma mais espalhada, em termos de resultados, ótimo (enfático). Por isso, volto a dizer: o governo deveria colocar isso como prioridade. Já deveria ter colocado para não precisar entrar pela porta dos fundos. Mas ainda estamos em tempo. Basta colocar isso em pauta e fazer uma força-tarefa, escolhendo as instituições sérias do País para pesquisar. E a USP não pode sair disso, até porque tudo nasceu lá dentro. Porém, é preciso vincular cientistas, gente do próprio Ministério da Saúde. É uma força-tarefa para ver se o remédio realmente pode ajudar e no menor prazo possível.

Elder Dias — Existe em outros países algo que se assemelhe à fosfoetanolamina, algo que dê esperança de cura do câncer, em outro lugar — na China, no Japão, na Europa, por exemplo?
Não tenho conhecimento, pois isso nos chega de alguma forma. A fosfo agora que está chegando ao exterior. Isso porque chegou à mídia e, assim, se propagou. Eu não tenho qualquer informação sobre alguma pílula ou medicamento que esteja sendo estudada em países desenvolvidos ou subdesenvolvidos que diz do tratamento para o câncer.

Cezar Santos — Mas, pesquisas em outros países, têm?
Pesquisas, sim.

Elder Dias — É um caso único, então, o da fosfoetanolamina?
Não podemos dizer isso, pois às vezes estas informações ficam locais. É como a fosfo que só agora, recentemente, começou a sair do Brasil. Há poucos meses que alguns pesquisadores tiveram esse entendimento, por meio da mídia. Agora é que as discussões no exterior começarão.

Cezar Santos — O pesquisador da fosfoetanolamina tem alguma patente ou garantia para si, por descobri-la?
Pelo entendimento que tive, os direitos são universidade. O pesquisador é reconhecido como desenvolvedor, mas a patente não está em nome dele; até porque, como a universidade fomenta a pesquisa, a patente e proteções são dela. Diferentemente do meu caso, em que nosso grupo trabalha de modo privado. Faz-se apenas o registro no Instituto Nacional de Pro­priedade Industrial (Inpi), e existem categorias. No Inpi, registra-se quem são os inventores e quem é o dono da patente. Uma coisa é o inventor, outra, a patente. O próprio Inpi já faz essa distinção.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. diz que o Brasil tem dificuldades para criar novos medicamentos. Em termos reais, no que, de fato, o País avançou em relação ao tratamento de câncer? É certo que temos alguns centros de referência, como Goiânia e Barretos.
Sim, houve avanços no tratamento das doenças oncológicas no Brasil, mas usando o que já existe. É claro que existem alguns cirurgiões brilhantes no Brasil, que desenvolveram novas técnicas para fazer uma retirada, uma coisa diferente; e eles são protagonistas no mundo. Mas isso é totalmente diferente quando falamos de tratamento de drogas.

Elder Dias — Então, temos no Brasil instituições com tecnologias que se aproximam às já existentes no mundo.
Exatamente. Atualmente, é necessário sair menos de seu Estado ou mesmo do País para tratar de câncer, pois o tratamento é muito semelhante ao dos Estados Unidos, da Europa ou do Japão. Antiga­mente, era muito mais frequente ouvir que uma pessoa foi fazer tratamento para o câncer em Chicago, nos Estados Unidos.

Elder Dias — Um exemplo nos anos 80 foi o general João Baptista Fi­gueiredo, então presidente do Brasil durante a ditadura militar, que foi se submeter a uma cirurgia em Cleve­land, nos Estados Unidos, quando teve problemas cardíacos.
Sim. Atualmente, em termos de linhas de tratamento, nós nos aproximamos dos melhores centros do mundo. Temos excelentes profissionais e centros. O Hospital Araújo Jorge é um excelente centro de tratamento e tem muitos bons profissionais. E nos outros hospitais, dependendo do tipo de câncer, temos pessoas de referência. Ou seja, nós temos recursos. Antigamente, não chegavam equipamentos de última geração; hoje, às vezes, temos maquinários que nem chegaram aos Estados Unidos porque, em alguns aspectos, o Brasil consegue liberação mais rápido. Claro, o contrário também acontece, mas o fato é que não estamos mal em relação a isso. O problema é que ainda não conseguimos chegar a medicações para fazer o combate. Isso, até agora, sempre veio de fora. Por isso, às vezes, colocam uma pecha ruim no pesquisador brasileiro. É porque o brasileiro, infelizmente, ficou mal falado. Mas temos de nos respeitar.

Cezar Santos — É mais uma questão financeira?
As dificuldades financeiras são grandes demais. Vou dar um exemplo: fiquei cinco anos em pesquisa nos Estados Unidos, na Emory University, que é ligada ao CDC, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos [no original, Center for Disease Control], o maior centro de pesquisas de doenças infectocontagiosas do mundo, em Atlanta, no Estado da Geórgia. São instituições centenárias. A Emory tem mais de 150 anos. Lá eles entendem — o que precisamos entender no Brasil —, que a única coisa que pode desenvolver o país é a educação, a pesquisa. No campo de desenvolvimento de tudo — remédios, automóveis, enfim — está a pesquisa.

Quem não investe em pesquisa não vai se desenvolver, não descobre as doenças e não saberá como tratá-las. A pesquisa é base para tudo, até no comércio, em que se pesquisa onde se coloca um produto para que o cliente compre mais. Quando cheguei aos EUA, cirurgião de formação em aparelho digestivo — trabalho com cirurgia laparoscópica desde o início, final de década de 1990, começo dos anos 2000 —, vi instrumentais muito caros, que nem tínhamos no Brasil. Para operar uma hérnia inguinal laparoscópica, aqui os convênios não pagavam um taker, um sofisticado instrumento para fechar a hérnia. Era muito caro e muitas vezes tínhamos de pedir que o paciente custeasse aquilo para ser usado na cirurgia dele. Era uma dificuldade. Pois quando cheguei aos EUA, no primeiro ou segundo dia, um dos pesquisadores simplesmente pegou um taker numa caixa grande e usou como grampeador para fixar um papel no quadro de avisos. Embaixo, tinha uma mesa cheia de caixas fechadas com takers (risos). Eu pensei, meu Deus, que diferença da gente no Brasil!

Isso ilustra o fato de que o investimento deles em pesquisa é tão grande que materiais não são problema. Lembro-me de que, naquela época, de 2005 para 2006, eles receberam na ordem de US$ 350 milhões de doações para pesquisa.

Elder Dias — Dos chamados beneméritos?
Sim, a Coca Cola, que também é de Atlanta e surgiu mais ou menos na mesma época da Emory, doou uma porcentagem da empresa para a universidade. Um dos maiores recursos financeiros que a universidade tem é de ações da Coca-Cola, uma renda gigantesca garantida anualmente para pesquisas. É assim em diversas áreas: em direito, em administração, na medicina, em engenharia, tudo. A pesquisa tem de ser fomentada em todas as áreas.

Elder Dias — É uma questão cultural também, porque no Brasil, o sujeito se forma na USP, por exemplo, e depois não se sente nada comprometido com a instituição.
É, não há esse comprometimento nem por interesse pessoal. Nos EUA, o cidadão banca uma reforma, ou a construção de uma nova biblioteca, por exemplo, com dezenas, centenas de milhões de dólares, mas quer o nome dele, ou da mãe, do pai, colocado na obra. Tem muito disso lá, o sujeito se torna o benemérito da instituição, fica registrado na história dela, perpetuado culturalmente. Muitas faculdades levam o nome de seus beneméritos. É uma homenagem justa. Veja que interessante: ficar perpetuado numa coisa boa, muito melhor que ficar com nome em rua, em praça.

“Nós já somos um país com mais pessoas obesas”

Na foto ALessandro Stival

Na foto ALessandro Stival

Elder Dias — Na indústria farmacêutica, a indústria tem mais ou menos o controle do que deve ou não virar remédio, por isso elas investem nas pesquisas. Por exemplo, dizem que a cura do câncer já poderia ter acontecido há muito, mas as indústrias multinacionais controlam isso para ganhar dinheiro com a venda de remédio que não curam, mas “tratam”. É por aí mesmo?
Eu não tenho como mostrar a prova disso, mas isso está aí. Infelizmente, isso é uma realidade que vemos em diversas situações. Há filmes que mostram isso.

Cezar Santos — Por que acontece isso?
Porque o poder econômico é muito grande. Exemplifico com números na minha área. A indústria de medicamentos para diabetes no mundo fatura US$ 400 bilhões por ano. É o PIB de muitos e muitos países juntos por aí. O interesse econômico é gigantesco e onde há muito interesse econômico, há manipulação, isso é fato. Por mais inacreditável que muitos achem, eles podem fazer isso. E podem fazer indiretamente também, não realizando os estudos necessários, bloqueando um estudo que começou agora. Eles simplesmente compram o direito.

Cezar Santos — Quando não compram o próprio laboratório que está desenvolvendo uma pesquisa.
Sim. Um pesquisador de uma pequena empresa, de uma universidade, tem uma ideia, mas não tem condições de desenvolvê-la. Quando ele chega até uma grande indústria para negociar o desenvolvimento, ela compra a ideia dele, esse pesquisador pode até ficar muito bem financeiramente, mas aquela ideia vai para a gaveta. Aquilo poderia resultar na pílula contra o câncer, por exemplo — não sei se já tem, mas poderia ter tido. Isso acontece todos os dias.

Cezar Santos — A cirurgia contra diabetes desenvolvida pelo cirurgião goiano Aureo Ludovico se enquadra nesse caso, de feroz resistência da indústria farmacêutica?
Sim, aqui em Goiás, a cirurgia desenvolvida pelo dr. Aureo Ludovico para a diabetes é uma luta inglória contra interesses de empresas muito grandes. Isso porque vai tirar faturamentos gigantescos de gente muito poderosa. A cirurgia foi feita em várias pessoas, com sucesso.

Há poucos dias, as empresas tornaram a reclamar dele. Lá atrás, o governo deveria ter entrado e estabelecido fiscalização, para ver se o procedimento era correto ou não, eleger centros de estudos para acompanhar. Já as instituições privadas que têm uma visão mais aberta querem ir adiante. O Hospital Sírio-Libanês colocou pesquisadores deles para estudar a cirurgia de Aureo. Pegaram pacientes e fizeram do jeito que tem de ser feito: tomaram um grupo de 75 pacientes e, cegamente, os dividiram em três subgrupos de 25 indivíduos cada, separados por sorteio. Todos eram diabéticos, com índice de massa de grau não muito avançado de obesidade — o popular “gordinho”, de obesidade grau 1. Para o primeiro grupo, fizeram a cirurgia do dr. Aureo Ludovico; para o grupo 2, o procedimento foi o mais clássico para obesidade, o “by-pass”, com grampeamento de estômago e desvio de parte do intestino, uma cirurgia padrão; o grupo 3 foi mantido tratado apenas com medicamentos e exercícios físicos, ou seja, com orientação clínica.

Neste mês, saíram os primeiros resultados do estudo, iniciado em 2013: os pesquisadores foram a um congresso mundial de endocrinologia nos Estados Unidos e apresentaram o relatório parcial de um ano — o resultado foi tão surpreendente que já publicaram por lá. Aqui ainda não saiu em lugar algum, mas os americanos já se interessaram.

Cezar Santos — E qual foi o resultado?
Em um ano, o grupo 1 — o da cirurgia de Aureo — teve resultado de 100% para melhora da diabetes; o grupo 2, com a cirurgia padrão, teve 46%; e o grupo 3 ficou com 8% de melhora. Quanto ao resultado de resolução da diabetes — ou seja, quando os exames não acusam mais a doença no paciente — o grupo 1 ficou com mais de 75% de positividade; o grupo 2 (procedimento padrão) teve 20% e o grupo 3 teve 0% de resolução.

Interessante é observar que essa cirurgia nem leva o nome de Aureo Ludovico, porque na verdade ele aplicou uma técnica já existente e a qual ele resolveu adotar para atacar a diabetes. Ele calculou os efeitos possíveis e deduziu que seria eficiente para o combate à doença.

Elder Dias — Então era uma cirurgia já existente, ou seja, já homologada?
Sim, e é por isso que o dr. Aureo ganhou todas as batalhas no campo judicial. Por isso também que a Câmara Técnica do Conselho Federal de Medicina foi a seu favor. O problema é que seria necessário que o plenário do conselho homologasse o procedimento. E o plenário é político.

Lembre-se então do que falávamos: de que seria um absurdo operar pacientes mais magros. Mas o que o grupo de estudos do Hospital Sírio-Libanês descobriu? Que o paciente da cirurgia feita por Aureo Ludovico perdeu, em média, 18 quilos no pós-operatório. Já o paciente da cirurgia padrão perdeu 22 quilos. São quatro quilos de diferença, o que dá mais de 30% de diferença. O que isso quer dizer, ao fim? Que o paciente teve uma resposta metabólica muito melhor com uma perda de peso muito menor. Ou seja, aquela ideia que Aureo tinha — de que seria possível realizar essa cirurgia com pacientes mais magros — está sendo provada agora. É um procedimento que expolia muito menos o paciente do que o convencional.

O que isso significa? Que ao final, lá fora, vão provar que a ideia de Aureo era a correta. Ou seja, vamos ter atrasado algo de que poderíamos estar usufruindo desde 2009 ou 2010, que foi quando surgiu a polêmica. Perde­mos de seis a sete anos. E as pessoas que morreram de diabetes nesse período? Porque as pessoas que estão doentes não querem saber se isso vai fazer mal no futuro, porque daqui a tantos anos ela não estará mais viva. O mesmo vale em relação à fosfoetanolamina, em relação à qual poderíamos estar num estágio bem mais avançado, em termos de pesquisa. Porque, se for bom, precisa começar a usar logo, para impactar o mais rápido possível na vida das pessoas.

Cezar Santos — A cirurgia de Aureo Ludovico é considerada experimental?
Não é que ela seja considerada experimental, é que o CFM não chegou a homologá-la. Foi algo somente por conta de interesse de alguns. Existe um princípio básico em relação às pesquisas: não se pode adicionar risco aos pacientes. Ou seja: se houve um estudo de segurança sobre a fosfoetanolamina no Japão, eu não devo repeti-lo no Brasil. Afinal, por que colocar pacientes em risco aqui se lá já se provou, por meio de estudos oficiais, o que precisava ser testado? Vamos nos lembrar de novo que a ciência caminha para frente. O que já foi resolvido não de deve repetir; pelo contrário, passa-se para uma fase seguinte. Nessas próximas etapas, há inúmeras pesquisas que podem ser feitas. Na fase 4, por exemplo, a dipirona é estudada até hoje. De que forma? Por exemplo, a Novalgina é comparada ao Tylenol. O que não se pode é repetir os estudos que já foram superados, isso é até antiético.

Em toda essa celeuma da cirurgia do dr. Aureo, o que será realmente doloroso é se daqui a 10 ou 15 anos para verificar que era aquela mesma a solução e darem um prêmio para ele. Mas até lá quantas pessoas terão morrido? A cada cinco anos, as mortes de quem foi diagnosticado com diabetes são 25 vezes mais numerosas do que a da população sadia. Participei de um estudo mundial sobre a liraglutida, um dos poucos remédios que foram feitos a partir das cirurgias bariátricas. Eu sou um cirurgião, mas quero que, no futuro, tenhamos um remédio que simule o efeito da cirurgia. Por quê? Porque se mil cirurgiões operassem pacientes todo dia, durante um ano, teríamos centenas de milhares de pessoas. Mas quantos diabéticos temos no mundo? Dez por cento da população. São cerca de 750 milhões de pessoas. Como ajudar todo mundo com cirurgia? É impossível. Agora, imagine o que poderíamos alcançar com um remédio?

Elder Dias — Isso vale para o câncer também.
Exato, embora o câncer tenha uma incidência menor, dezenas de milhões no mundo. Ou seja, precisamos ter grandes centros de referência para cirurgias, mas é essencial que tenhamos também grandes centros de pesquisa, para chegar aos medicamentos que vão mudar a vida de milhões e milhões de pessoas.

Cezar Santos — Ou seja, a medicina alcançar mais gente com um custo menor.
Sim, com um custo muito menor.

Cezar Santos — A obesidade está relacionada mais a hábitos alimentares — ou seja, comida em excesso, comida ruim — do que ao sedentarismo?
São fatores que se somam. É uma doença extremamente complexa, mas pouco reconhecida dessa forma. A obesidade foi banalizada. Um exemplo do meu dia a dia: o dia em que um paciente vier a mim com a intenção de tratar a obesidade e já me disser que quer fazer determinada cirurgia, eu já lhe responderei: “O senhor está falando com a pessoa errada”.
Para uma doença complexa, o tratamento também é complexo. Um tratamento que pode ser bom para um pode não ser para outro. Para cirurgia de obesidade há seis ou sete procedimentos diferentes. A pessoa pensa que a cirurgia bariátrica é “tudo a mesma coisa”, mas não é. São seis ou sete procedimentos: pode ser o balão; a gastrectomia vertical; o by-pass; a derivação biliopancreática horizontal; a derivação biliopancreática com duodenal “switch”; e a cirurgia gastrectomia vertical com interposição ileal, que é a usada pelo dr. Aureo.
Dependendo do tipo de obesidade, portanto, tem-se que estudar muito qual procedimento será utilizado. Tem gente que é obesa por causa da alimentação mais fator comportamental. Mas tem obeso que é extremamente ativo, vai à academia todo dia, mas pesa 150 quilos. Tem um que tem o problema baseado em comida de sal; tem outro que é por causa de doce, não come muito arroz, muito feijão, mas o cara vive comendo leite condensado e sorvete, coisas que são altamente calóricas. Se eu fizer para esse paciente a mesma cirurgia que faria para um cara que come muito sal, por exemplo — muito pão, massa, pão de queijo etc. —, uma das duas vai falhar. Tem paciente que precisa usar expediente de desabsorção no intestino, tem outro que não vai precisar disso.

Elder Dias — Como fazer, então?
Aí entramos na causa: será que o sujeito está comendo demais ou isso é porque ele é um sedentário? Será que ele tem uma inflamação no hipotálamo? Uma linha de pesquisa hoje muito interessante diz que criança que come mal vira obesa no futuro, mas não é só por isso: é que um alimento com alto grau de gordura poli-insaturada, por exemplo, vai inflamando o hipotálamo. Com os anos se passando, na fase adulta de repente aquele homem vira um “balão”, não consegue mais emagrecer. Mesmo sem comer não emagrece, porque o metabolismo é cerebral e existem enzimas liberadas pelo organismo que queimam, mais ou menos, aquilo que a gente come. É complexo, esse mecanismo.

Como a origem é complexa, então o tratamento também tem de ser complexo — é o mesmo que vale para o tratamento com remédios. Por isso que, voltando à pílula do câncer, os oncologistas a questionam muito. Afinal, ainda não se sabe para que tipo de câncer a pílula possa ser efetiva. A mesma coisa, então, quando se trata o obeso de sal ou de doce, ou tratando um obeso por inflamação do hipotálamo ou por insuficiência da tireoide. O tratamento depende de cada paciente. É obvio que se eu conseguisse um tratamento ou um remédio que pudesse tratar a doença desde a raiz, não importa qual tipo de obesidade, seria uma maravilha. Ocorre que a obesidade é uma doença sem dono: sua mãe, sua tia, a vizinha, você mesmo, todos sempre têm uma dieta, um tratamento, um tipo de exercício, uma simpatia, para tratar a obesidade. Já a diabetes têm “dono”: há os remédios, a insulina etc. Mas isso resolve? Não, não resolve. Sabe por quê? Porque a cada dia mais descobrimos em estudos que a diabetes é uma doença multifatorial. A diabetes de um é diferente do outro. A diabetes do obeso é diferente da diabetes do magro. A diabetes tipo 1 é completamente diferente da diabetes tipo 2 e as causalidades são múltiplas: pode ter um excesso de glicose circulante; uma falta de insulina do organismo, ou seja, o pâncreas a produz em pouca quantidade; ou pode, ainda, ter uma resistência à insulina — o corpo produz insulina, mas é resistente a ela. A doença tem “dono”, mas tem um monte de remédios para diabetes. São dezenas de remédios, porque um age na secreção da insulina e outro na resistência à insulina, por exemplo.

Elder Dias — Então, se popularizam a cirurgia do dr. Aureo Ludovico, acabam com esse mercado todo…
É que essa cirurgia altera a maior gama desses fatores causais. Aumenta-se, por exemplo, o GLP-1, que é um hormônio produzido na célula do íleo, a parte mais baixa do intestino delgado. Só o GLP-1 tem duas funções: uma delas é que ele é um hormônio de saciedade, que chega ao cérebro e “avisa” que chegou comida ao intestino e a pessoa já pode se sentir satisfeita. Mas por que tem gente que come demais? Porque, como o íleo é a parte mais baixa do intestino, até o trato alimentar chegar naquele ponto, a pessoa continua comendo. Por isso que a mãe da gente fala: “menino, coma devagar!”. Ao comer devagar não se engordar, não é brincadeira, porque aquela primeira parte da refeição já estará chegando ao íleo quando se estiver na metade do prato — ou seja, o GLP-1 já vai enviar a informação de que chegou comida.

Outra função do GLP-1 é ir ao pâncreas e estimula as células beta a produzir insulina. Isso porque o organismo é inteligente; então, se chegou comida, quer dizer que também vai chegar glicose. E o que metaboliza a glicose? A insulina. É óbvio, portanto, que deveriam ser enviadas duas informações. O GLP-1 tem de falar ao cérebro que chegou comida e ao pâncreas também, para o órgão jogar insulina no organismo, para a metabolização.
Quando se faz o procedimento cirúrgico, no estômago há um centro que produz grelina, naquela “barriguinha” do estômago. Ela é o hormônio da fome. Quando o estômago murcha, libera a grelina. Quando, na cirurgia, tira-se a grelina, diminui-se a sensação de fome e aumenta-se a saciedade. Ou seja, o GLP-1 também aumenta a saciedade — ou seja, já são três os fatores. Quando a cirurgia põe o íleo mais acima, logo depois que a comida sai do estômago chega a informação de saciedade ao cérebro, enviada pelo GLP-1. Ou seja, a cirurgia ganha da maioria dos remédios porque ela age em mais coisas.

Cezar Santos — O Brasil já é um país obeso?
Sim. Mais da metade da população brasileira — 52%, para ser exato — está acima do peso. Hoje já somos um país mais de obesos do que de não obesos.

Cezar Santos — Estamos então, no mesmo ritmo dos Estados Unidos, em relação a isso…
Sim, e isso é terrível. Sabe por quê? Nós antigamente tínhamos uma alimentação mais saudável a um custo bem mais baixo. Íamos à Ceasa [Central de Abastecimento, que concentra a produção dos hortifrutigranjeiros] e comprávamos uma caixa de verduras ou frutas, batatas, cenouras etc., com o que seria equivalente a 20 ou 30 reais hoje. Agora, para comprar 1 quilo de tomate pagamos 8 reais. O que acontece? Comer no McDonald’s, quando veio para cá na Praça do Ratinho, era algo caro, chique. Só quem tinha dinheiro ia lá para comer. A família saía no domingo à noite para fazer um lanche, era um programa quase solene. Hoje em dia lá se faz promoção com sanduíche a 5 reais. Com esse valor não se faz uma boa refeição de jeito nenhum (enfático). Acontece, então, o mesmo do houve nos EUA anos atrás. Por que os Estados Unidos são um país “gordo”? Porque a comida é ruim e barata e os mais pobres comem aquilo. O paladar é gostoso — batata frita, sorvete, sanduíche. Morei cinco anos nos Estados Unidos e vi sorvetes que só me apareciam em filmes vendidos a 1 dólar e 50 centavos. Então, as pessoas de menor capacidade financeira vão ao supermercado e compram tudo que tiver desse tipo de comida, porque é barato. Vai encher a barriga e engordar.

Basta comparar essa realidade com a que tínhamos quando a nossa geração era criança: refrigerante era só no fim de semana e um litro para dividir entre todos. Em Piracicaba, para onde fui fazer faculdade, uma vez fui com a família de um amigo a um restaurante e um irmão dele pediu um segundo guaraná. Aquilo para mim era absurdo, porque fugia da minha realidade tomar dois guaranás. O mesmo valia para o iogurte, que hoje está tão popularizado também.

Elder Dias — Com quais patentes o sr. trabalha?
A principal delas é um medicamento cuja patente não é de um novo fármaco. Existem duas coisas para remédios novos: eles podem ser advindos de uma nova molécula — o caso da fosfo, por exemplo — ou da associação de moléculas já existentes. Isso é o que existe para produzir remédios novos. No nosso caso, é uma associação de remédios já existentes.

Cezar Santos — E pra que será esse medicamento em que seu grupo trabalha?
É um medicamento para obesidade. Os caminhos são semelhantes, portanto, mas para novas moléculas ele é mais longo, pois as moléculas que já existem, nos já as conhecemos, já as estudamos e não as estudaremos novamente. Então, não é preciso passar por todas as etapas que uma nova molécula teria de passar. O caminho é mais curto, portanto. Se temos um novo remédio, logo ou ele é uma nova molécula ou é a associação de moléculas já existentes.

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Marcos Nunes Carreiro — Como surgiu o interesse da empresa do sr. por pesquisa aqui em Goiás?
Trabalhei com cirurgia bariátrica, obesidade e diabetes e me apaixonei por isso. Quando fui para os EUA, percebi que existia campo de pesquisa no Brasil. Existem inúmeras publicações pelo mundo sobre isso, mas aqui não há pesquisas. Quando me juntei com um grupo aqui em Goiânia — um deles Sérgio Vencio, um endocrinologista e com visão semelhante à que eu tinha —, nós vimos muitos o progresso de muitos pacientes de cirurgia bariátrica do dr. Aureo e percebemos que era preciso pesquisar isso, saber o que acontecia com eles.

Nós nos unimos, então, com uma empresa goiana, o Instituto de Ciências Farmacêuticas, que é o maior laboratório de pesquisa em bioequivalência de remédios da América Latina — observe, isso está aqui e tem muita gente que não sabe. É um grupo que uniu as empresas Teuto, Neoquímica, Vitapan e uma equipe da Univer­sidade Federal de Goiás para testar e produzir genéricos. Para tanto, é preciso realizar os testes de bioequivalência, mostrar que seu remédio, por exemplo, a dipirona, é equivalente à Novalgina, do laboratório Sanofi, um dos maiores do mundo e que teve a patente. É preciso fazer os estudos que a Anvisa regulamenta e, então, colocar o genérico à venda no mercado. Então, eles criaram este grupo e, vendo que era necessário pesquisar, eu me juntei a essa empresa, que era a única que exercia isso com regularidade e que tinha campo. Eu e Sérgio Vencio nos juntamos e, já com diversas ideias e alguns resultados do dia a dia, topamos a empreitada. Aquilo de juntar remédios acontece muito; você usa um remédio que tem determinada ação, outro tem uma ação diferente e, precisando de uma terceira, acabo unindo-os. Claro que é preciso ter um nível de sensibilidade e pesquisa para realizar isso com propriedade. Nós vimos que este é um campo extremamente aberto no Brasil.

Começamos, então, nós dois em uma empresa, com pesquisas internas, chegando a algumas associações. Afinal, qual seria a nossa capacidade de criar uma nova molécula? Aí se incorre no que eu disse: é preciso ter muito dinheiro ou muito investimento de uma entidade. Aqui no Brasil, nem a USP fez isso para o pesquisador que tinha uma possível solução. Então, partimos para associação de remédios que já existiam. Dentro dessa linha, conseguimos alguma coisa e requeremos a patente. O Inpi gasta anos avaliando a situação e, muitas vezes, o remédio já está no mercado, mas a patente ainda não saiu, é apenas uma patente requerida. A partir da ideia, nós fomos em busca de parceiros e, dentro do ICF e do Advance, um laboratório que está dentro da UFG, fomos começando a desenvolver uma farmacodinâmica, percebendo se os remédios juntos continuavam estáveis. Nós chegamos agora na fase em que temos uma pílula. Já temos o incipiente, fizemos o estudo e o que precisa agora? De uma empresa grande que faça uma parceria conosco ou que pegue os direitos para levar a pesquisa adiante.

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