“O futuro do Jardim Botânico deveria ser decidido pelas próximas gerações e não por nós”

Arquiteto e professor da PUC-GO diz que Setor Pedro Ludovico não suporta megaoperação imobiliária, ressalta importância de um Iplan para Goiânia e fala que Nexus é um caso de insensibilidade de seus construtores com a cidade

Foto: Alexandre Parrode

Foto: Alexandre Parrode

A história de Luciano Caixeta com a Pontifícia Univer­si­dade Católica de Goiás (PUC-GO) é longa. Co­me­çou como aluno do curso de Arquitetura e Urbanismo na então Universidade Católica de Goiás (UCG), onde ingressou como professor em 1989. Atual­mente, leciona Arquitetura para o curso de Engenharia Civil. Ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), ele ressalta a luta da categoria para criar o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), mas faz algumas observações sobre a forma da atual gestão em Goiás conduzir os debates sobre a cidade. “É preciso ser mais incisivo”, diz.

De sua parte, nesta entrevista ao Jornal Opção, Caixeta mostrou-se categórico em vários pontos, especialmente em relação à Operação Urbana Consorciada (OUC) Jardim Botânico, um megaempreendimento que pretende mudar a paisagem da região da maior área verde de Goiânia, ao lado do Setor Pedro Ludovico. O adensamento previsto incluiria ali mais 300 mil pessoas, o que ele considera um absurdo. “É praticamente o crescimento de Goiânia nos últimos 20 anos. Imagina colocar tudo isso em uma região apenas. A estrutura do local não tem como suportar, tudo se torna inviável.”

Críticas parecidas ele tem em relação ao mercado imobiliário em geral, que age de forma “voraz” — termo que usou com insistência durante a conversa com o editor Alexandre Parrode. Para Luciano Caixeta, a questão parece ser pensar a lógica da cidade em prazo mais longo e realmente sustentável. Uma sensibilidade que os empresários e donos de construtoras não vêm tendo, como no caso do Nexus, que ele cita. O professor da PUC-GO também critica em Goiânia a falta de um instituto de planejamento como o extinto Iplan, cuja recriação foi vetada por Iris Rezende (PMDB) em seu governo.

Alexandre Parrode — Sobre a Operação Urbana Consorciada (OUC) Jardim Botânico, eles querem mudar a paisagem da região. Mas temos exemplos de intervenções em áreas assim que são extremamente danosas. Por exemplo, o lago do Parque Cascavel secou, por conta dos empreendimentos imobiliários, depois que rebaixaram os lençóis freáticos. Como o sr. vê esse tipo de situação?
Houve um “afogamento” das nascentes. Quando se começa a impermeabilizar o solo no entorno de nascentes, as fontes que irrigam essa “esponja” — é como chamamos, pois o subsolo é uma esponja —, a água vai penetrando e ele vai se encharcando. Aos poucos, é como se espremesse a esponja e as nascentes são isso. Quando se diminui a água de interferência, de abastecimento, o volume de água diminui, sensivelmente; e, ao longo do tempo, que é o que está acontecendo com a maioria das nascentes de Goiânia: a quantidade vai diminuindo até secar completamente.

Quanto ao Cascavel, o grande problema foi este? Rebaixou-se o lençol freático, impermeabilizaram em volta e o volume de água não au­menta mais?
Isso. Não tem mais jeito.

Mas por que isso não aconteceu, por exemplo, com o Parque Flam­boyant; lá era um brejo e eles o “revitalizaram” — uma palavra bo­nita que sempre se usa para essas situações — e construíram um tanto de prédios. Por que lá não secou o lago?
Porque lá ainda não está completamente ocupado, só em volta do parque. A área de percolação do Parque Flamboyant — local de uma das nascentes do Córrego Botafogo, que também faz parte do Jardim Botânico — ainda está permeável, dá para a água penetrar, já que não é apenas no entorno da nascente, é um raio de 500 metros. Se você observar as quadras acima, verá que o Jardim Goiás ainda não está totalmente adensado. Têm prédios, mas têm muitas praças, muitas áreas vazias, no que é muito diferente do Cascavel. Aliás, falando desse tópico, a quantidade de prédios que subiram em Goiânia nos últimos anos é inacreditável, sem contar as pavimentações.

No Parque Flamboyant, ainda “mina” água no asfalto.
Sim, ainda. Mas no Flamboyant tende a acontecer da mesma forma com que aconteceu no Cascavel. Ou seja, secar. A tendência é essa.

E o Parque Vaca Brava, que é totalmente adensado e que veio a partir da polêmica do Goiânia Shopping, erguido em cima de uma nascente? Construíram o shopping em cima de nascente — hoje temos mais um, que é o Passeio das Águas.
É uma discussão que temos a fazer em relação ao Jardim Botâ­ni­co. Ele está preservado e é o último dessa forma dentro da cidade. Nós temos o direito de ocupar esses espaços como fizemos com o Vaca Bra­va, com o Cascavel, com o Bu­ritis, com o Flamboyant e como es­ta­mos fazendo ao longo do Ri­beirão Anicuns, com o projeto Macambira Anicuns. Nós temos esse direito? Em nome de quê? Pois, o que se mostra no projeto da Prefeitura, em uma operação consorciada — que não passa de uma PPP [parceria público-privada] — é um discurso de que podemos ter um estoque imobiliário e uma organização do espaço que poderão ajudar Goiânia nos próximos 20 anos.

Precisamos, então, fazer algumas perguntas. A primeira é sobre o local: o Jardim Botânico deve ser preservado ou ocupado? É uma pergunta que temos de fazer inicialmente, pois, se nós achamos que temos o direito de fazer isso agora, então temos de discutir por mais tempo; e também não nos seduzir pela primeira ideia. Porém, se nós não temos o direito e devemos deixá-lo preservado o máximo possível para que as próximas gerações decidam o que fazer — o que é mais generoso de nossa parte, já que ocupamos mal o espaço urbano —, é melhor sim deixarmos isso para que a população de daqui a 20 ou a 30 anos decida o que fazer com aquilo ali, da forma que ache mais inteligente. A educação ambiental das próximas das gerações deve avançar e elas terão condições de avaliar melhor, sem o olhar da pressa que temos hoje.

Nos últimos anos, tivemos um boom no mercado imobiliário, principalmente depois da crise de 2008, com crescimentos exponenciais.
Precisamos agregar a essa crise à aprovação do Plano Diretor de 2007, que foi a porta de entrada desta aceleração agressiva do setor imobiliário. Se quiser um retrospecto, uma fonte interessante é buscar o que havia antes de 2007 quanto ao preço do apartamento em Goiânia, em média, não era mais do que o dobro do preço do metro quadrado do CUB [custo unitário básico] da construção. Hoje, isso passa de três vezes. Com a vinda das grandes construtoras para Goiânia, o preço mais do que dobrou. Antigamente, se comprava um apartamento por R$ 2 mil a R$ 2,5 mil o metro quadrado, hoje isso passou para R$ 4 mil ou R$ 5 mil. Ou seja, agregaram valor a uma situação de mercado a qual não se consegue reverter. E as construtoras que cresceram — as nossas, co­mo a TCI e a Consciente, que eram médias —, viveram este boom e agora não conseguem diminuir. Souberam crescer, estão em um tamanho gigante, porque é fácil crescer, todo mundo acha isso agradável. Mas reduzir o tamanho é difícil. É uma operação de gestão mais difícil ainda. Hoje estão com dificuldade por causa disso. Antes poderiam, se tivessem feito de maneira planejada, reduzir o tamanho e voltaríamos ao mercado que tínhamos antes, mas não dá mais, devido ao tamanho que se alcançou. E isso é ruim para essas construtoras.

Mas o que fazer quando tomam lugares onde não havia ou não há prédios, como o Jardim Botânico? Falamos de deixar para a próxima geração decidir, mas nesse caso a maioria dos imóveis em torno foi comprada pelas grandes construtoras. São urbanos os espaços vazios e tenebrosos, é só dar uma volta por lá. São muitos os espaços lá.
Mesmo que essas áreas não estejam nas mãos das construtoras, é difícil para elas resistir à tentação — é disso que estamos falando. Quando se resolve fazer uma intervenção dessa magnitude em volta daquele parque (Jardim Botânico), por exemplo, em uma situação hipotética, o que significa uma especulação privada de um pequeno proprietário de imóvel, em relação a uma construtora? Não significa nada. Ele deixa de ganhar R$ 400 mil, que é o valor de um lote hoje, em média, e passa a ganhar o dobro. Isso diluído pelo número de apartamentos também não é nada. Para elas, o importante — e isto é uma visão de mercado, e quem trabalha com engenharia e arquitetura sabe muito bem — é que, quando você faz um empre­endimento, do primeiro ao último andar, seja o trigésimo o que for, o valor da diferença da construção é muito pequeno, não chega a 10%. Mas o valor de venda quadruplica ou quintuplica, quanto mais alto for, com uma vista melhor e é isto que eles querem. Uma construtora enxerga diferentemente o mercado, enxerga o valor de venda.

Para elas, então, subir um ou dois andares não muda quase nada?
Nada, quase nada; isso até dilui o valor que está sendo pago pelo imóvel, pois é insignificante ao que será diluído pelos apartamentos. Mas o que vale é a vista, o panorama, a paisagem.

E eles, às vezes, nem pagam por estes lotes. Muitas vezes eles oferecem um apartamento em troca, algo como “daremos dois apartamentos a você”, por exemplo.
Sim, e eles oferecem, geralmente, os dos primeiros andares. Isso é muito negociável. Hoje, as construtoras estão muito capitalizadas e conseguem comprar.

Participei de uma audiência pública da operação urbana consorciada (OUC) do Jardim Botânico e o que vi foi o pessoal da Prefeitura fa­zer projeção de slides. Isso não é uma discussão, é uma apresentação. Apre­sentam o empreendimento com todas as vantagens. Mas, na hora de discutir, como fica?
O que está contido naquela apresentação são ações que não temos como verificar. Dizem que o setor empresarial vai gastar R$ 600 milhões nos próximos 20 anos. De onde se tirou isso e por que vale tudo isso? De onde virá esse dinheiro? Eles vão gastar primeiro e usufruir do uso do solo depois? Como será?

É o mesmo problema dos parques Flamboyant e Cascavel, onde prometeram maravilhas, prometeram serviços, mas cadê tudo isso hoje?
Mas, depois, de quem chamar a responsabilidade? Das empresas? Deve ter algo escrito nos contratos, ninguém faz coisas assim só “de boca”. Tem de ter garantias.

Mas quem deve ir atrás disso?
O Ministério Público é responsável por garantir que o contrato seja cumprido, é obrigação do MP. Aliás, o órgão deve até intermediar uma operação desse tamanho, tem de haver um TAC [termo de ajustamento de conduta]. Não é possível ficar isso de boca. No Parque Cascavel, a participação deles (construtores) se encerrou quando entregaram o parque. Como pode? Quem está pagando são os usuários, de novo. É o que pode acontecer no Jardim Botânico.
O problema do Parque Cascavel é que o córrego secou e ninguém tem explicação para isso. A Prefeitura diz que fez as intervenções necessárias, mas agora não tem mais como “brotar” água lá. Como ficam os investidores, que compraram imóveis lá? Conheço quem comprou apartamento por R$ 100 mil naquele local, mas hoje não vale mais que R$ 60 mil. Só que quando venderam o apartamento prometeram valorização.

Mas secou o córrego. E a valorização seria em função da paisagem, é disso que estamos falando: a paisagem é que é cara. Estamos falando de um parque que tem um valor comercial enorme e o que temos de discutir não é isso. Por que está no Estatuto da Cidade, no nosso Plano Diretor e que em algumas cidades deram certo? Primeiramente, tem de haver interesse da Prefeitura e não dos empresários que querem ocupar — então, já começou errado por aí. A Prefeitura tem de resolver determinadas situações, chamar as imobiliárias, os incorporadores, e dizer: temos aqui um bom negócio, podemos abrir mão de algumas coisas, como o uso do solo, para que vocês ganhem dinheiro, mas desde que vocês também resolvam o problema da cidade. Essa é a contrapartida.

Por exemplo, a Rua 44, na região da Feira Hippie, cuja situação é degradada, não totalmente porque durante a semana há certa organização. Mas no final de semana vira um caos total, porque mistura a Feira Hippie com camelôs na rua e tudo se torna uma bagunça. Mas aquilo, sim, pode ser resolvido com operações consorciadas, criando shoppings verticais com garagens, já que a vocação da região é comercial. Ou seja, tem de organizar o espaço. E existem outras situações, como abandono de vários imóveis na Avenida Anhanguera, que também está degradada do ponto de vista urbano. Pode-se, através de liberação de uso do solo fazer empreendimentos. Já temos ali um corredor funcionando, pronto, não tem de preocupar com mobilidade das pessoas. Ali existe um potencial muito grande que a Prefeitura pode explorar com contrapartida. Por que os empresários das imobiliárias querem benefícios, mas não querem participar da construção da cidade?

Mas essa contrapartida é algo que os empresários do setor imobiliário topariam?
Voltando ao Parque Cascavel, quem garante que daqui a 20 anos toda a contrapartida exigida terá sido cumprida? Não será. (enfático) Tiram o corpo fora, apenas aproveitam do que os favorece e caem fora. Agora, com relação a essa operação na Avenida Anhanguera, lá de imediato eles deveriam investir, mas teriam retorno. E isso seria bom para a cidade. O mesmo se diz sobre a Rua 44 e em outras regiões — em Campinas, por exemplo, que está muito degradada e precisa de intervenções da Prefeitura. Mas para eles (os empresários) isso não é um pote de ouro como é o Jardim Botânico, onde há um potencial quase ilimitado: imagine quantos lotes não poderiam ser explorados? Seria um Parque Flam­boyant potencializado. E tem um agravante lá, porque é divisa com Aparecida. Por que não chamam a Prefeitura de Aparecida para conversar? É um absurdo isso. Estamos em uma cidade núcleo de uma região metropolitana, tudo que se faz em Goiânia reverbera nas outras, ainda mais com divisa próxima, como é o caso de Aparecida.

Nós defendemos, desde quando se fez o Plano Diretor, que tudo fosse feito pensando em região metropolitana. Agora estamos vendo que a fu­ga das pessoas para condomínios mais isolados está refletindo diretamente na mobilidade de Goiânia. Fa­lamos isso há 10 anos, que é preciso pensar na região metropolitana como um todo. Se pensarmos só no núcleo, o que se faz fora reverbera aqui muito mais intensamente que o contrário, estamos sofrendo as consequências.

A própria Prefeitura se queixa. Dizem que, por exemplo, em Aparecida não nasce uma criança há 40 anos, porque lá não tem maternidade, os bebês só nascem em Goiânia. É uma crítica na área da saúde.
É verdade, isso envolve todo o sistema. Goiânia passou o Buriti Shopping para a arrecadação de Aparecida para incentivar essa região conurbada. Mas há a questão do ISS [Imposto Sobre Serviços] de A­pa­re­cida, que tem alíquota menor: então, as indústrias ficam ali na divisa, instalam-se lá, o dinheiro fica lá e o problema fica para Aparecida. Então, tudo tem de ser pensado de forma co­letiva. Há uma decisão do STJ [Superior Tribunal de Justiça] a respeito disso, que diz que todas as deliberações da região metropolitana têm de ser feitas por meio de um colegiado. Isso já foi publicado e já venceu o prazo para a instalação, mas Goiânia não se mexe mais. Não é só a Prefeitura de Goiânia, o Estado também, obrigatoriamente, tem de participar.

Existe algo assim no sistema de operação do transporte público, na gestão da CMTC [Companhia Metro­politana de Transportes Coletivos].
Mas o Estado se eximiu, passou para a Prefeitura — o que não deveria ter sido feito, pois naquele momento já havia a decisão da Justiça — e esta não consegue resolver. Agora imagine nas outras políticas, principalmente na mobilidade. Por isso, tudo tem de ser de forma colegiada.

E quais seriam as consequências graves em médio e longo prazos de uma ocupação como a do Jardim Botâ­nico? Qual é o grande problema?
Vamos então deixar de lado a parte não visível para a população, essa parte mais técnica. Segundo dados apresentados, dos quais eu até duvido, haveria a incorporação de mais de 300 mil habitantes. O que ocorre, então? A população se amplia, mas as ruas não conseguem ser ampliadas, porque o traçado já está engessado — a não ser que haja uma reestruturação inesperada de Goiânia, como Barcelona fez, abrindo as ruas e algo totalmente diferente. Mas como fazer algo num país pobre como o nosso — porque parecíamos desenvolvidos, mas de novo nos vemos pobres e falidos como Nação. Como fazer isso sem recursos? Não tem jeito.
Pois então, coloquemos 300 mil habitantes no Jardim Botânico. Se pegar a população de Goiânia, isso significa mais ou menos a população incorporada da capital nos últimos 20 anos — o crescimento de 2012 para 2013 foi exagerado, quase 70 mil pessoas em um ano, talvez fruto do crescimento do Brasil. Então, seria pegar o crescimento populacional dos últimos 20 anos e colocar tudo na região do Jardim Botânico. Como organizar isso em termos de espaço e circulação de veículos? Não vai acontecer, não tem como. (enfático)

Não previram isso na OUC? Uma via não será alargada, outra não vai ficar só para pedestres?
Só tem uma via prevista para ser comercial. Não existe um plano de mobilidade, o que é obrigatório em algo assim. Mas o local não comporta, se fizer um estudo correto vão perceber que não é possível. É como se dissessem que Goiânia agora só vai crescer no Setor Pedro Ludovico, é o caos. Lembrando que o Pedro Ludovico é um setor geograficamente bem localizado, passagem em praticamente todas as situações daquela região. Então, como essas 300 mil pessoas vão sair para as vias arteriais e depois voltar? Não vão conseguir, é praticamente impossível.

Quem fez esse tipo de plano não conhece o Setor Pedro Ludovico. Exemplo: moro lá há apenas oito anos, então não conheço tanto quanto gostaria, mas conheço bem mais do que quem se apresentou à Prefeitura para esse empreendimento. Todo fim de semana, dia sim, dia não, os esgotos no Pedro Ludovico estão estourando. Mas a Saneago não tem equipes pra fazer esses reparos no fim de semana, então aquilo fica escorrendo direto para as bocas de lobo, ou seja, caindo nos córregos. Isso é crime ambiental.

Em março, fotografei um es­go­to do Hugo [Hospital de Ur­gên­cias de Goiânia] estourado; ora, isso é esgoto de hospital jogado diretamente na boca de lobo, pra­ticamente na nascente do Córrego Areião. Quantos milhares de litros de esgoto indo para o córrego. (enfático) Fui à Saneago, mas eles não têm equipes de plantão nos finais de semana. E quando conserta um esgoto, estoura outro. Ando muito de bicicleta e ali perto, já há alguns anos, vejo constantemente um bueiro que transborda e joga dejetos para todo lado.

As pessoas são humildes naquela região. Não denunciam, mas convivem com essa situação. Estamos falando de uma estrutura urbana que está esgotada e nem me refiro à energia elétrica, que é mais fácil de redimensionar, mas que já está também no limite. Mas em relação ao esgoto é dificílimo fazer esse remanejamento. Temos um sistema de drenagem em que a boca de lobo é primária, é insuficiente pela quantidade de ruas que têm. Quando chove, as ruas viram piscinas. Deveria ter bocas de lobo suficientes para captar essa água ou percolá-la, para que fosse para os córregos tranquilamente. Como não se faz isso, mistura-se o esgoto à água. Mas, cadê a opinião da Saneago para falar a respeito da capacidade da estrutura de esgoto? (enfático)

Diz um mito que, se todos no Setor Bueno derem descarga ao mesmo tempo, o sistema de esgoto explode.
A verdade é que a rede de esgoto estava dimensionada para 1980. Hoje, não suporta mais. Quem vai pagar essa reestruturação do esgoto? É o morador da região noroeste, do Urias Magalhães, é o imposto de todo mundo. E quem vai usufruir desse empreendimento aqui? Só meia dúzia de pessoas. Nenhum crescimento deve ser acima da expectativa, a não ser que haja um plano em longo prazo, vigoroso, pensado e acompanhado. Ou seja, se foi detectado que há um crescimento em tal região, a Prefeitura deve fazer uma intervenção, estimular a vocação local, para atender isso. Não é alguém decidir e aí a Prefeitura vai atrás, está tudo errado. Isso não é planejamento.

O lençol freático também vira um problema com a intervenção no Jardim Botânico?
Para a engenharia, não; mas, para o meio ambiente, é péssimo.

O que pode acontecer com as nascentes se subirem essa quantidade de prédios e fizerem as intervenções previstas?
Mesmo que o projeto preveja o afastamento de uma quadra em relação ao parque, se esquecem de que a maioria dos imóveis daquela região — Setor Pedro Ludovico, Jar­dim das Esmeraldas, Bairro Santo Antônio etc. — não tem es­critura, são posses. Vai acontecer a impermeabilização do solo e, com isso, a diminuição da percolação ao longo dos próximos 30 anos.

“Goiânia é a única capital sem instituto de planejamento”

IMG_5833Mas o próprio morador, hoje, pode cimentar todo seu terreno. Como controlar isso?
Se a prefeitura trabalhasse com ferramentas tecnológicas, como fotos de satélite a cada dois meses, poderia fiscalizar. Uma fiscalização mais tecnológica detectaria o início de uma obra e se poderia mandar o fiscal. A pre­feitura não faz isso por não ter interesse. A Secretária Muni­cipal de Planejamento só trabalha em função de atender demandas específicas, principalmente do Plano Diretor. Acho que é a única capital, se não es­tou enganado — até Aparecida — que não tenha um instituto de planejamento que pense na cidade 24 horas por dia. A discussão do Plano Diretor de Aparecida está muito mais amadurecida.

Em Goiânia já estão falando em nova expansão urbana. Como o sr. vê isso?
Quem fala em expansão urbana aqui não conhece o Plano Diretor. Fazemos alguns recortes para chegar a essa conclusão. Hoje, na área habitada de Goiânia, poderíamos, no mínimo, ocupando esse mesmo espaço, triplicar a população de Goiânia. Como está hoje. Imagine, então, que poderíamos ter três milhões, facilmente. Então, a pergunta é: para que pensar em expansão urbana, se temos um estoque em potencial para fazer habitação pelos próximos 50 anos? Não dá para entender. Se a compreensão for de fazer uma cidade compacta, então não há de se falar em expansão urbana pelos próximos 30 ou 40 anos. Não faz o menor sentido, a não ser que haja uma ideia por trás que não esteja sendo falada para a população.

Foi comprovado que existiram pelo menos 200 empreendimentos liberados pela Prefeitura de forma irregular para esse mercado imobiliário voraz. Como falar em seguir o Plano Dire­tor, se nem mesmo este, quando este foi aprovado, teve o respeito das construtoras?
Eu participei intensamente da elaboração do Plano Diretor, porque eu era, na época, presidente do Instituto dos Arquitetos (IAB) — não na Câmara, mas em sua concepção, na Prefeitura. É uma briga voraz entre os que querem o melhor para a cidade e aqueles que só têm interesses. Ora, pessoas ou associações que têm interesse comercial em determinadas situações do Plano, deveriam se sentir eticamente impedidas de participar das decisões. Como vou participar de algo no qual tenho interesse direto?

Houve uma discussão muito pesada sobre tudo. Para ter ideia, do Plano Diretor anterior para este, aumentaram em mais de 40% as áreas destinadas a grandes empreendimentos, principalmente verticalizados. Foi uma liberação geral. Se um empreendimento começa e para, ele continua legalizado por anos. São dois anos para começar a subir, prorrogáveis por mais um ano. E a Pre­fei­tura ainda concedeu mais dois meses depois de o Plano entrar em vigor para que pudessem ser aprovados de acordo com as regras anteriores.

O então prefeito Iris Rezende (PMDB) lançou mão de um decreto para dar esse prazo extra, para que as construtoras corressem com tudo para aprovar.
Havia um artigo no Plano Diretor que obrigava a Prefeitura a recriar o Instituto de Planejamento Urbano em, no máximo, um ano. Na primeira reforma administrativa, com quatro ou cinco meses, Iris cortou esse artigo. Ficamos sabendo disso depois, tudo correu na calada da noite. Ou seja, revogou-se um artigo que obrigaria a Prefeitura a remontar esse instituto. Os empresários são importantes para a cidade? Claro que são. Mas estamos falando de meia dúzia de pessoas que é voraz e não enxerga o mal que fazem.

O que nos deixa mais chocados é que há arquitetos envolvidos nessa situação. Como um profissional dessa área assina autorização para um empreendimento — e agora eu quero dar nome — como o Europark, no Parque Lozandes, com tantas torres, em uma área imensa? É praticamente uma cidade. São pelo menos 5 mil pessoas lá, mais do que 20% das cidades goianas.
Uma crítica que se pode fazer é à inexperiência ao pessoal que assumiu o CAU nos últimos anos. Fui presidente do Instituto dos Arqui­tetos nacional e percebo que o CAU deveria agir com muito mais força, como esse projeto do Europark, porque tem condições internas e deveria se posicionar rapidamente para defender a sociedade. Se um projeto como esse é bom, que diga que é bom; ou o contrário. Não pode ficar em cima do muro.

Por exemplo, há uma lei que diz que só arquitetos podem assumir posição de chefia, de gestão ou de administração de pastas ligadas à área de arquitetura e urbanismo. No entanto, o prefeito coloca um advogado ligado a construtoras e o CAU não se posiciona. O que o CAU deveria ter feito? Entrar no Ministério Público no outro dia e parar a Prefeitura, não deixar aprovar nenhum empreendimento. É lei, tem de ser obedecida. Por que não há um posicionamento mais forte do CAU? Eu realmente não entendo. Quando nós lutamos pela criação do CAU, queríamos que sua atuação fosse muito mais incisiva. Foi para isso que o conselho foi concebido.

Até porque era a crítica que se fazia à presença dos arquitetos no Crea [Conselho Regional de Engenharia e Agronomia], já que esses ficavam “reféns”, em uma parcela esquecida na entidade. Então, a CEI das Pastinhas, por exemplo, evidenciou a presença de vários servidores. Eu mesmo já questionei pessoas do CAU-GO da seguinte forma: “Cadê os processos disciplinares do conselho contra esses arquitetos que assinam determinados projetos, os enviam à Prefeitura e depois eles mesmos os aprovam, como técnicos da própria Prefeitura?”. Ora, quem é que vai rejeitar um projeto assinado por ele mesmo?
Eticamente, quem trabalha em uma prefeitura está impossibilitado de exercer a profissão de arquiteto, enquanto exercer a função pública. Deveria se afastar, e que receba um bom salário — era algo que deveríamos defender. Quando o prefeito Paulo Garcia (PT) tomou a frente da gestão — na época estávamos no Crea —, nós o procuramos para discutir a questão salário. Ele nos falou “eu vou pagar”, mas depois a discussão ficou parada. Não se consegue pagar o mínimo digno para o profissional exercer sua função sem precisar fazer qualquer tipo de aventura, digamos assim.

Temos um conselho novo, são apenas quatro anos, é uma entidade que está se firmando ainda. Foi uma luta que conseguimos vencer no último dia da gestão de Lula, depois de passar por várias comissões, deputados, senadores. Mas, enfim, foi algo bom para a sociedade. Hoje o CAU já começa a mostrar suas posições. No momento, só acho que o CAU deveria ser mais incisivo.

Como o sr. avalia o posicionamento das faculdades e universidades, enfim, da classe acadêmica em geral, com relação aos problemas de Goiânia? Esse debate existe na academia?
Existe, sim. No caso da aprovação das mudanças no Plano Diretor em 2013, no caso da regularização da Hypermarcas, por exemplo, houve um posicionamento de vários setores da academia. Eu estive lá e vi outros professores de arquitetura, mas também da geografia e de outros cursos, inclusive da pós-graduação, que foram taxativos no sentido de fazer com que a Prefeitura não levasse adiante aquele projeto. No caso agora do Jardim Botânico [a implantação de uma operação urbana consorciada (OUC) para mudar o entorno da reserva ambiental], vi alguns professores, como o colega Everaldo Pas­to­re [professor do curso de Arquitetura da PUC-GO e ex-presidente do Partido Verde em Goiás], figuras que resistem e se posicionam. Dentro da academia há discussão nos corredores. Mas seria interessante, realmente, que criássemos um fórum externo que pudesse dar posições para a sociedade, formado por pessoas com conhecimento científico e pesquisas elaboradas. Creio que a academia pode colaborar mais, realmente.

Quando as pessoas vão começar a perceber os danos de algo tão permissivo como esse Plano Diretor? Toda a cidade está sendo afetada com obras que deveriam ser contestadas — setores Marista, Bueno, Nova Suíça etc.
Vivemos uma cultura individualista, isso é do Brasil. O brasileiro prefere gastar 30% do salário e andar de carro dentro do ar-condicionado e esquecer-se do mundo que existe lá fora. É falta de cultura. Em países da Europa, nos Estados Unidos e em outros, as pessoas têm senso de coletividade. As pessoas sabem que existe um limite e que existe um próximo para se preocupar. Isso se reflete no transporte coletivo. Se as pessoas andassem mais de transporte público, a concepção de cidadão seria muito melhor. Mas ele quer pagar caro e resolver o próprio problema.

É uma falta de cultura não só do goianiense, mas do brasileiro. Nós aqui em Goiânia temos hábitos terríveis, como o de colocar o carro em cima de carro. Isso é falta de cidadania, e um processo que vai levar anos e anos para a gente superar. Não temos senso de coletividade. Goiânia é uma cidade ainda jovem, mas tem um fator que tem retardado nossa noção de civilidade: de 2007 para cá, a migração para nossa capital foi muito grande. Nesses últimos anos houve um crescimento acima da curva, basta pegar os dados do IBGE. Quando a pessoa vem de fora, essa relação fica ainda mais evidente e, com a migração, esse jeito goianiense de ser fica ainda mais difícil de apurar por conta dela.

É como se a pessoa viesse para cá, observasse a situação e dissesse “ah, aqui é desse jeito”?
Exatamente, a pessoa acaba por se comportar assim e o erro fica perpetuado. Goiânia tinha tudo para ter um transporte coletivo eficiente. Há corredores de ônibus em potencial que estão aí há muitos anos — Anhanguera, 85, Rio Verde, T-63 e outras vias — e que somente agora a Prefeitura tem olhado para isso como uma coisa boa para a cidade. Mas isso está no Plano Diretor desde 2007.

Mas está havendo problema para instalar o corredor da T-7, os donos de lojas não aceitaram…
Vai acontecer o mesmo que ocorreu com a Avenida Anhanguera, com as lojas fechando. E não é de agora, mas de muito tempo. Se não houver atenção às mudanças do uso do solo com esse tipo de intervenção, isso acontece. Por isso é importante um instituto de planejamento, que detectaria rapidamente a mudança de perfil. Ora, ninguém vai parar em uma loja que não tenha estacionamento. Então, se há uma mudança, a Pre­feitura teria de incentivar o novo tipo de empreendimento ali para que a região pudesse reagir rapidamente. Mas como fazer se não há alguém pensando a cidade? Não tem jeito.

A cidade é dinâmica. Eu costumo compará-la a uma grande bolha de plástico. Qualquer intervenção repercute no todo, então essa bolha precisa ser acompanhada. A Prefeitura teria de estar sempre alerta, atenta. E não temos um corpo de técnicos preparados e treinados para pensar e reagir a essas ocorrências.

Em relação à legislação, como pode ser aprovado um projeto residencial não precisar de um Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) nem passa por obrigação de medidas mitigatórias? No Setor Nova Suíça, vão colocar um prédio de 45 andares perto de uma rotatória que já congestiona todo dia. Qual a diferença para o impacto de um empreendimento comercial?
Porque no Estatuto das Cidades, a habitação é tratada como prioridade, pela função social — mesmo sendo de empreendimentos assim. Mas outra pergunta que você poderia fazer é: as pessoas que já moram no entorno desses empreendimentos, quando se mudaram para lá provavelmente fizeram isso em busca de um lugar tranquilo. Agora, em função de um mercado voraz e de agressividade desnecessária, sua vida vai mudar completamente. Não tenha dúvida de esses empreendimentos causam impacto, mas a diferença é de questão de prioridade, de que o Estatuto das Cidades trata.

E eu opino em relação a essa a­gressividade imobiliária em relação aos corredores: isso vai piorar nos próximos anos se a gente não fizer na­da. Na primeira audiência no Paço para discutir os ajustes no Pla­no Diretor, a proposta era de colocar altura máxima para os prédios. Ora, isso seria uma maravilha, perfeito! Só que na segunda au­diência essa discussão não voltou mais. Lógico, os interessados em que isso não fosse implantado de­vem ter conversado lá e solicitado que esse tema não entrasse em pauta.

Mas, em suma, quem disse que essa forma de adensar é que é a boa para a cidade? Por que não diluir, por que não pensar na cidade como uma bolha que ouve suas variadas regiões, algumas até com mais potencial de mobilidade e estrutura em geral? A pergunta é: por que esse sujeito está fazendo esse empreendimento aqui, em vez de fazê-lo em outro lugar, até com mais segurança de retorno financeiro, se for mais estratégico? Eu não entendo é essa insistência. Deve ter mais coisas que eu não percebo, mas isso faria muito mais sentido, tanto para a cidade como para os próprios empresários.

Em relação à habitação como função social, não seria melhor zonear? Estipular uma regra de que não seria necessário fazer Estudo de Impacto de Vizinhança se o empreendimento estiver fora do Centro de Goiânia e com valor do imóvel variando, no máximo, a 10% do valor do Sinduscon?
Ou que a unidade habitacional não passasse de 100 metros quadrados.

Concordo que seja direito à moradia, mas não vejo nada de direito social em um empreendimento como o Zeus, que tem 20 andares, sendo um apartamento por andar, perto do Parque Vaca Brava, e que só beneficia famílias milionárias.
Também não vejo. Mas há brechas. Outro empreendimento como esse ao qual você se refere é o da Associação Médica. Aquilo é uma aberração para a cidade. O tamanho da massa daquele prédio.

O Órion?
Sim, é a mesma situação: não conseguiram comprar um lote, que ficou lá envolto pela quadra inteira. E aquela massa mudou a paisagem completamente, acabou a paisagem horizontal totalmente. É uma aberração para a cidade, que fica comprometida. O Plano Diretor tinha de repensar isso.

O Jornal Opção denunciou o caso do Nexus. Mas precisou de o Ministério Público, por meio de um promotor, dizer que não acreditava que o projeto do empreendimento, que tem quatro torres, tenha sido aprovado sem os estudos necessários. Como isso acontece?
Nem a Prefeitura, nem a própria incorporadora conseguem ex­plicar isso. Qualquer estudo de im­pacto de vizinhança que se fizer na­que­la região [Marista], vai-se constatar que a construção vai comprometer o trânsito não só nos horários de pico, mas também nos in­ter­mediários. E de forma grave. (en­fático) Estamos falando de uma região que já teve seus problemas contornados ou amenizados, mas que ainda tem problemas, devido aos empreendimentos, inclusive da mesma construtora e na mesma rua.

Empreendimento este que já está quase pronto.
Precisaremos ver como a região vai se comportar após a sua inauguração. Nos horários de pico, quem passa pela região sabe que isso vai comprometer; ainda mais no entroncamento [das avenidas D e 85]. Então, foi um equívoco da Prefeitura e outras opiniões vão dar conta de que o Marista não é lugar para um empreendimento daquela envergadura, que não faz bem para a cidade. Se não faz bem para a cidade, deve-se dizer: não deve ser construído. Agora, tem que ter um corpo, um preparo, para saber disso. Não é o prefeito ou o secretário que deve dar a palavra final, pois eles não têm o conhecimento para isso. Talvez, se dizerem uma pesquisa dentro da Prefeitura com os técnicos, vai-se detectar que a grande maioria dos técnicos — arquitetos, engenheiros de trânsito — estarão contra esse projeto, contrariando o que você disse. Não acredito que a Prefeitura esteja tão contaminada assim. Conheço muitos técnicos que trabalham na Pre­feitura e que são pessoas decentes. Isso é meia dúzia de pessoas que se contaminam e fazem esquemas, porque aprovar um projeto comercial de pequeno porte é difícil na Prefeitura, imagine um empreendimento dessa envergadura.

Por que demora tanto para que a Justiça — existe uma ação — aja? É tão difícil ver que aquele projeto é inviável para o local?
O que me admira nesse caso é a falta de sensibilidade do próprio incorporador de entender que ele terá dificuldade em vender os imóveis. Se é ruim para a cidade, é ruim para ele também. Hoje, a opinião pública é devastadora. Basta ver as redes sociais pedindo isso de forma tão rápida e feroz. Eles deveriam ter a sensibilidade de dizer: “Esse imóvel não vai para frente. Será um elefante branco”. Quem incorpora deve ter essa sensibilidade de perceber o que é bom para a cidade, mas também par ao seu negócio. Para ele ser um empreendedor de sucesso, ele precisará estar livre de qualquer pressão. Eu não sei por qual valor ele comprou a área, mas ele pode ter ali empreendimentos de menor porte e que podem dar retorno. Hoje, as pessoas estão fu­gindo do Setor Oeste e indo para as periferias, ou mesmo para os con­domínios, para fugir da péssima mobilidade. Então, acho que é uma questão de troca. Pessoas que têm interesse comercial deveriam participar das discussões do que é bom para a cidade. Eticamente, não é bom para própria empresa. Mas no Brasil…

A Encol comprou em uma área no Goiânia 2, no entroncamento dos rios João Leite com Meia Ponte, e insistiu durante muito tempo em construir lá uma outra cidade. Insistiu até que conseguiu aprovar. Seria uma cidade para 50 mil habitantes, com prédios. E é uma área de alagamentos e brejo. A Encol investiu tanto dinheiro, que chegou a construir uma ponte para dar acesso ao Goiânia 2. O que aconteceu? Quando foi contra as questões de crescimento para o lado Oeste, criou-se uma imagem negativa e a Encol faliu por causa desse empreendimento. (enfático) Nos últimos anos, até que começaram a surgir mais prédios ali na região do Itatiaia, mas por muitos anos isso ficou parado. Então, a construtora não teve a sensibilidade à época e isso pode ser a derrocada também dessa construtora do Nexus. É o jogo. Existe um livro famoso do Carlos Nelson que diz: “a cidade é como um jogo de cartas”. Tem um tabuleiro, os jogadores e as regras. É preciso perceber. Quem faz parte desse jogo tem que ter a maior sensibilidade para perceber o movimento dos outros jogadores, se quiser continuar no jogo. Nesse caso, quando a construtora perde a sensibilidade, ela perde a chance. O blefe pode dar errado por não ter a opinião pública do lado dele. Ao invés de ser uma pessoa do bem, que está gerando emprego e renda, ela passa a ser uma pessoa que está prejudicando a cidade. Ninguém está falando, aqui, contra as construtoras. Elas são importantes para a cidade, mas desde que haja regras claras e que quem faça o controle do solo seja rígido e independente. O papel dela não é interferir, como vemos nesse caso do Jardim Botânico, mas de ser parceiro.

Neste ano, com a proibição do financiamento privado de campanha, teremos uma relação menos promíscua entre construtoras e candidatos.
O pior não é o dinheiro que, mes­mo sendo propina, é depositado na conta do partido. Esse é o menor pro­blema. O problema é o dinheiro sujo, que entra e não é contabilizado. Es­se é o que faz o candidato A ser mais visível que o B. Como controlar esse dinheiro? Isso é o que tínhamos de pensar.

Essa eleição será mais complicada.
Essa eleição será mais justa porque o prefeito não pode concorrer.

Mas tem outro candidato que mais beneficiou as construtoras.
Na época da construção do viaduto da T-63, eu fiz uma conta. É muito simples: o custo da obra foi R$ 27 milhões. A estrutura não tem elevador, parte hidráulica ou mesmo elétrica; é muito simples. R$ 27 milhões equivalem a seis torres de dez andares e quatro apartamentos por andar. Esse viaduto custa isso? É só fazer a conta. São valores desproporcionais. Como o Ministério Público não foi atrás disso? É uma questão de conta. Estamos falando de prédio, que tem azulejo, piso, elevador, partes elétricas e hidráulicas; tem tudo. Aquele viaduto não tem nada. Para que ornar aquilo? Que exponha, mas sem gastar dinheiro com placas de metal caríssimas. Para justificar o quê? Seis torres de dez andares com quatro apartamentos por andar. (enfático) Como pode? E depois que construíram as estruturas metálicas foi que pensaram que escadas internas não tinham sido feitas para dar manutenção. Depois que foram construir.

As obras da Prefeitura de Goiânia são bem feitas?
O caso do viaduto [da Avenida 1988], que foi o último. Eu trabalho na PUC, então passo lá todo dia.

Houve um problema lá.
Principalmente na parte de cá, que foi praticamente feito com brita e cimento. Então, não foi planejada e gastou-se demais sem necessidade. Estamos em uma cidade e discutimos: é necessário construir viadutos com dez metros de altura? 90% dos viadutos de Brasília são para carros e, no máximo, para ônibus. São viadutos baixos e rápidos de serem construídos, para desafogar. Aqui em Goiânia são viadutos enormes e sem necessidade. Para quê? Caminhão, que tem altura, não passa lá. Viadutos mais baixos ficaria mais em conta e não atrapalharia tanto o trânsito. Mas não há discussão; o projeto chega pronto para ser construído.

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