“Não vou mais sacrificar o futebol do Goiás. Vamos voltar à Série A de qualquer jeito”

Depois de amargar o rebaixamento à segunda divisão brasileira, o presidente do maior clube do Centro-Oeste exalta estar com contas saneadas e diz que o momento agora é de investir no time

Sergio Rassi- André Costa (1)

Foto: André Costa

Sérgio Rassi não é um cartola comum no futebol. Aliás, ele nem se considera um “cartola” — termo que se aplica ao dirigente de clube, mas que acaba tendo uma conotação de alguém que vive do esporte. Pelo contrário, o presidente esmeraldino é multiprofissional: médico cardiologista atuante, é também professor universitário e dono de um hospital.

Durante a semana, depois de terminar o dia de trabalho pessoal, dá expediente na Serrinha, sede do clube. Foi lá que recebeu a equipe do Jornal Opção, vindo diretamente do aeroporto, após viagem para fechar negociação com o novo fornecedor de material esportivo para o Goiás.

Com uma política de austeridade fiscal e financeira, marcou seu nome positivamente na imprensa nacional — o comportamento correto do Goiás em relação a suas finanças foi ressaltado em várias mesas-redondas de futebol —, mas se desgastou diante da torcida, que queria uma equipe forte e, ao contrário, assistiu ao segundo rebaixamento da equipe em cinco anos para a Série B.

Mesmo sob pressão, Rassi não cedeu em seu intuito de sanear as dívidas do clube. Chegou a dizer que fazia o “trabalho sujo” para que outro, então, assumisse seu lugar, a partir deste ano. Várias vezes disse que não buscaria a reeleição. Mas, como confessa, o rebaixamento o fez mudar de ideia. “Se o time não tivesse caído, eu sairia tranquilamente. Como isso infelizmente não foi possível, me sinto na obrigação, como torcedor, de devolvê-lo a seu devido lugar, a Série A.” E ele garante: nenhuma energia será poupada para esse objetivo.

Elder Dias — Mal comparando, o sr. ficou dois anos no Goiás com uma gestão de ajustes, assim como o País, sem tanto sucesso, tem passado no momento. O sr., ao contrário, parece que conseguiu sanear o clube. Para isso, fez no futebol algo que não é comum, em termos de transparência e de ações fiscais-financeira, mas também na forma de lidar com a torcida e se expor mais que um diretor de futebol. Na linguagem popular, o sr. “deu a cara para bater” e se desgastou. Isso ficou mais grave porque o time passou por dificuldades em campo que culminaram com o rebaixamento à Série B. O sr. chegou a dizer que não continuaria na direção do clube, mas resolveu ficar. Foi o rebaixamento que o motivou a ir para um segundo mandato?
Em primeiro lugar, nossa gestão é diferente porque eu nunca fui cartola, dirigente. Sou um neófito nessa função. Claro que agora me sinto muito mais preparado para ser presidente do clube sem fazer coisas que talvez não tenham sido adequadas para um dirigente de futebol. Não sei exatamente se foram erros, mas foram inadequações, certamente.
Não sendo cartola, não sendo dirigente, não dependendo do futebol para viver, você passa a conviver única e exclusivamente movido pela paixão de torcedor, e às vezes é preciso tomar muito cuidado para que esse torcedor não fale mais alto que o gerenciador. No aspecto financeiro, Paulinho [Paulo Lopes, ex-presidente de 1995 a 1998 e funcionário de carreira do clube, hoje superintendente financeiro] e eu administramos esse clube como se fosse a casa da gente, sem jamais gastar mais do que se arrecada. E quando digo “Paulinho e eu”, estou dizendo só nós dois mesmo. Quem gerenciou isso aqui nestes dois anos fomos só nós dois. (enfático) Pedimos auxílio político, social, comercial, industrial etc., de todo jeito tentamos encontrar algum tipo de auxílio, mas não conseguimos.
Então, administramos o Goiás como se fosse a casa da gente. Na minha casa eu nunca gasto mais do que arrecado. Jamais. (enfático) Eu ainda brinco, e não acreditam quando falo isso: eu nunca entrei em cheque especial, nunca deixei de pagar cartão de crédito em dia e nunca peguei dinheiro emprestado. E na hora que começamos nosso mandato no Goiás, encontramos um caos. Um caos que não se faz ideia.

Elder Dias — O sr. não fazia ideia disso?
Nunca. (enfático)

Elder Dias — Mesmo o sr. tendo sido vice-presidente?
Nunca. Eu não lidava com a parte financeira. Como sou apaixonado por futebol, deixamos bem claro no início como seria: erámos Bosco [João Bosco Luz, presidente que antecedeu Rassi], Adriano e eu. Bosco e Adriano ficariam mais na parte financeira e eu, na parte de futebol. Minha praia é futebol. Foi um baque muito grande quando tomei posse — e talvez o próprio Bosco não soubesse de toda a situação que deixou. É o fato de entregar a gestão em dezembro e o novo presidente assumir em janeiro, precisando arcar com férias, 13º, rescisões de contrato — ainda mais se houve contratos de valores muito altos, como foram feitos na gestão anterior. Isso mais os impostos, alguns deles não recolhidos. Então, tudo isso cai no colo do novo presidente, que precisa lidar com aquilo com uma receita que já seria deficitária mesmo se não houvesse essas dívidas. Mesmo se tivéssemos começado do zero a zero em janeiro de 2014, teríamos um déficit de R$ 500 mil a R$ 600 mil reais por mês.

Elder Dias — De quanto era a dívida quando o sr. assumiu em 2014?
De cara, R$ 11,8 milhões. No dia que entramos aqui, Paulinho e eu fomos ver o caixa do Goiás. Tinha esses R$ 11,8 milhões de saldo negativo, fora as dívidas. Estou falando de balanço da empresa na virada do ano, não de dívidas trabalhistas. A sorte foi a venda do Thiaguinho [volante Thiago Mendes, vendido ao São Paulo no fim de 2014], que amenizou um pouco as coisas.
Marcos Nunes Carreiro — E o que foi feito para conseguir sanar essas dívidas?
Nós fechamos as torneiras. Fechamos as torneiras de forma que só eu e Paulinho abríamos, se necessário. Limitamos os salários e não pagamos nada para empresários nas negociações. Uma série de medidas que, no meio do futebol, são inadequadas. Eu ainda penso que deveria ser sempre assim, mas não vou conseguir mudar o futebol sozinho. Mas, futebolisticamente falando, não vou mais sacrificar o Goiás. Chega. (enfático) Agora teremos de nos adaptar, infelizmente, a essa realidade do futebol, que é suja — “pagar” empresários e salários acima do achamos que o atleta merece. Mas se não fizermos isso, o atleta vai para outro clube e nós ficamos apenas com a rebarba.

Elder Dias — Eu já disse, inclusive ao sr., que o Goiás estava sendo administrado de maneira sueca. Imagine um clube da Suécia jogando um torneio administrado pela CBF. Agora o sr. diz que o Goiás terá de se adequar à realidade. Uma adequação que, porém, não deveria fazer o clube voltar a uma situação financeira precária. Como equilibrar isso?
É realmente quase uma inadequação essa forma de pensamento. Eu já tinha deixado bem claro para mim que, se o Goiás não fosse rebaixado, eu não pegaria a presidência novamente. Eu já me sentiria realizado, com a missão cumprida, e outro daria seguimento ao que fizemos. Como fomos rebaixados, e sendo um torcedor apaixonado como sou, não poderia deixar o clube assim. Não vou carregar isso para o resto da vida. Nós vamos subir para a Série A de qualquer jeito nesse ano. De qualquer jeito, mas com a cabeça pendurada no pescoço, sem fazer loucuras. Agora nós temos condições de fazer algo mais. Começamos o ano “redondinho”. Paulinho [já então acompanhando à entrevista] é testemunha disso, pois é quem faz os balanços do clube. Há quanto tempo não temos uma situação de transição de um ano para o outro como temos agora? Vamos fechar o mês de janeiro com superávit. Ainda não temos o valor, mas é o primeiro superávit.

"O Serra Dourada é um dos maiores problemas a impedir o torcedor goiano de acompanhar futebol no estádio. o estádio está realmente muito sucateado” Foto: reprodução

“O Serra Dourada é um dos maiores problemas a impedir o torcedor goiano de acompanhar futebol no estádio. O estádio está realmente muito sucateado”
Foto: reprodução

Elder Dias — E como foi o fechamento do ano?
Com um déficit de R$ 4 milhões. Mas tivemos a venda do Erik, que já sabíamos que receberíamos agora, e pedimos um empréstimo ao banco, que vamos pagar neste mês. Mas veja: fazendo tudo o que fizemos, ainda fechamos com um déficit de R$ 4 milhões. Agora, tivemos de pagar tudo para entrar no Profut [Programa de Modernização do Futebol Bra­sileiro, objeto de lei sancionada que permite a agremiações parcelar seus débitos em até 20 anos, com 70% de redução no valor das multas, 40% dos juros e 100% dos encargos legais]. Primeiro aderimos ao Refis [Programa de Recuperação Fiscal], depois ao Profut.
As únicas antecipações ou empréstimos que fizemos — de R$ 4 milhões e outro de R$ 8 milhões — foram para entrar nesses programas, pois era exigido que antes quitássemos as dívidas. Não pegamos um centavo para comprar jogador ou fazer festa. Neste ano não tivemos confraternização de fim de ano para os funcionários. Infeliz­mente, porque eles não têm culpa de nada. Demos até uma boa cesta de Natal para cada um, mas não tivemos festa.

Elder Dias — Os cortes administrativos tiveram de ser nesse nível mesmo, de cortar até festas?
Sim. E dispensas. Fizemos várias rescisões. Não vou dizer que no Goiás existiam pessoas sem função, mas tinham pessoas excedentes para uma mesma função, ou não devidamente habilitadas para ela, ou ganhando desproporcionalmente. Corrigimos 90% dessas situações. Mas ainda há remanescentes.

Elder Dias — O Goiás chegou mesmo a ter funcionários fantasmas?
Não. Havia um funcionário de TI [tecnologia da informação] que trabalhava aqui e em outra empresa. Todos aqui batem ponto. Como ele não batia ponto, disseram que era fantasma. Mas não era.

Marcos Nunes Carreiro — São quantos funcionários no quadro do clube?
Com os atletas, 260 pessoas.

Frederico Vitor — O sr. falou que é uma missão para este ano retornar à Série A. O planejamento começa desde agora, antes do Campeonato Goiano?
Exatamente. É a coisa que deve ser feita. Agora, graças a Deus, podemos dirigir um clube de futebol pensando em futebol. Até então estávamos dirigindo deixando o futebol em segundo plano.

Elder Dias — Tanto que muitos torcedores qualificaram o Goiás como escritório de contabilidade.
Concordo. Contabilidade e advocacia. Agora chegou a hora de parar de fazer o torcedor sofrer tanto. Pedíamos a compreensão do torcedor, mas acho que nem eu entenderia, se estivesse do lado de lá. Quando se vive aqui, aí sim, é possível entender; do outro lado do muro, a realidade é diferente. Acham que é o presidente que está com má vontade. Não é isso, é uma im­possibilidade mesmo. Então, neste ano vamos cuidar de futebol. E como se faz isso? Primei­ramente, é preciso ter um gestor e um treinador competentes. Se não houver isso, já começou errado.

Elder Dias — O sr. admite que Harlei, ao se tornar diretor de futebol depois de encerrar a carreira de goleiro, foi um nome errado para a hora errada?
Acho que ele pode, futuramente, estar no lugar certo na hora certa. Infelizmente, ele acabou sendo sacrificado. Pegamos o maior ídolo da história do Goiás e pedimos que ele ocupasse uma função, acima de tudo, de confiança. Qual foi a primeira qualidade que exigimos de um gestor? A confiança. Em segundo lugar, que seja uma pessoa do meio. Achávamos que isso pudesse ser suficiente. Mas não foi.

Elder Dias — O humorista Chico Anysio se casou várias vezes e dizia: “Quem é casado há 40 anos não entende de casamento. Quem entende sou eu, que casei seis vezes”. Harlei se casou com o Goiás por 16 anos, então ele conhece muito do clube, mas não conhece de futebol em si. Não faltou pesar isso na hora de colocá-lo no cargo?
Entre os equívocos de que falei, esse foi um. Foi ruim para o Goiás e ruim para Harlei. Ele foi desgastado. É muito mais vítima do que réu, pois pegou o time em uma situação dificílima. Qualquer outro dirigente talvez dissesse “me chame ano que vem, arrume outro para agora”. Mas ele topou. Fizemos vários treinadores virem para cá, em uma troca excessiva de profissionais. Cada um trazia sua perua cheia de jogadores, geralmente não do quilate que o Goiás merecia, e isso foi se acumulando. Veja que, de 18 contratações, apenas 3 corresponderam às expectativas: Bruno Henrique [atacante, ex-Itumbiara/GO], Fred [zagueiro, ex-Novo Hamburgo/RS] e Patrick [volante, ex-Caxias/RS]. É um número pequeno. Se foi o treinador quem trouxe, isso não importa, porque quem autoriza é o gestor. Treinador nenhum põe jogador sem aval do gestor. Nisso também faltou pulso para Harlei. Inexperiente na função, ele permitiu esse tipo de fato, deixou que isso acontecesse.

Elder Dias — Houve um teto salarial de R$ 50 mil, muito contestado. Não seria melhor colocar o teto por elenco em vez de ser por jogador?
É o que estamos fazendo neste ano, embora não seja exatamente um teto. Teremos um orçamento destinado, que já passamos para o departamento de futebol. Começa mais baixo no Campeonato Goiano e subindo para o Brasileiro. Foi a primeira coisa que fizemos. É possível manter o mesmo teto de R$ 50 mil, mas contratando um de R$ 80 mil e outro de R$ 20 mil. A média continua.

Elder Dias — E esse orçamento para o futebol corresponderá a quanto da receita total do Goiás para o ano?
Acredito que de 30% a 40 %.

Elder Dias — Sobre uma receita prevista de R$ 55 milhões?
Essa receita nós não podemos falar. (risos) Mas esse valor é excessivo, não é tudo isso. É preciso considerar as antecipações e empréstimos que fizemos, fora os impostos envolvidos. É bem menos que isso.

Elder Dias — Seria 60% disso?
Por aí.
Elder Dias — Uns R$ 30 milhões?
Algo em torno disso.

Elder Dias — Então, 40% desse valor daria algo em torno de R$ 12 milhões para o departamento de futebol.
Mais ou menos.

Elder Dias — Não é pouco?
É preciso lembrar que tivemos a venda do Erik, que não está nesse cálculo. É claro que não vamos “torrar” tudo com futebol, mas a grande prioridade é essa, embora tenhamos de reformar a concentração e queiramos fazer uma arena para os jogos do Goiás. Essas são duas metas prioritárias do ponto de vista de nossa estrutura.

Elder Dias — A construção da arena começará em seu mandato?
Espero que sim, e gostaria que também terminasse nele.

Elder Dias — E como seria a viabilização para essa obra? Admi­nistração direta?
Estamos atrás de um parceiro, embora seja um momento inoportuno para fazer essas cooperações com grandes empresas. Estamos mexendo os pauzinhos. Uma arena mais simples não seria algo de tão alto custo como se pode imaginar. Se conseguíssemos, todo ano, vender um ou dois jogadores poderíamos nos autossustentar, até porque já temos o gramado e os vestiários prontos. O restante seria uma estrutura relativamente nem tão cara, desde que setorizada.

Elder Dias — Qual seria a capacidade de público para a arena?
Hoje o Estádio Hailé Pinheiro tem 8 mil lugares. A ideia inicial é de 33 mil lugares, já que 33 é um número simbólico para o Goiás. Com 25 mil, porém, já temos permissão para jogos de Campeonato Brasileiro na Série A. Então, creio que será algo entre 20 mil e 35 mil de capacidade.

Marcos Nunes Carreiro — Uma arena resolveria o problema da torcida do Goiás em relação ao Serra Dourada, hoje sucateado. O sr. também vê dessa forma?
O Serra Dourada é um dos maiores problemas a impedir o torcedor goiano de ver futebol no estádio. Está realmente muito sucateado. Se tivéssemos uma setorização dos lugares, haveria como cumprir as medidas de segurança com muito mais praticidade.

Elder Dias — O sucateamento do Serra Dourada prejudicou o Goiás nestes últimos anos?
Creio que sim. A questão da redução do público é multifatorial. O porquê de o torcedor esmeraldino não estar mais indo aos jogos tem várias respostas. A primeira é a falta de identidade com o clube. O esmeraldino não quer mais ser campeão goiano, não quer mais título de Copa Centro-Oeste — que nem existe mais, e quando existiu ganhamos todas as três de que participamos — não quer mais chegar às quartas-de-finais ou semifinais de uma Copa do Brasil ou de uma Sul-Americana. Ele quer algo mais. O torcedor do Goiás quer, agora, ser campeão ou da Série A ou da Copa do Brasil ou da Sul-Americana. E é o que a gente também quer. Mas o torcedor se cansa com tantas decepções.

Elder Dias — Um amigo que sabia que eu faria essa entrevista me intimou a lhe perguntar e esta é a hora: o Goiás vai querer ser campeão de um grande título assim? Aliás, entre as possibilidades, este ano só tem como se vier pela Copa do Brasil.
Vamos apostar pesado na Copa do Brasil. Abrimos mão da Copa Verde [torneio que reúne equipes do Norte e do Centro-Oeste] e o grupo está sendo montado desde já, no Goiano, para a Série B e a Copa do Brasil. Não haverá um time para o primeiro semestre e outro para o segundo, será um time para o ano inteiro. Claro que, ao decorrer, vamos trazer as peças que forem necessárias, mas o elenco está sendo moldado agora. Os jogadores que estão vindo têm muita qualidade, são escolhidos a dedo, diferentemente dos últimos anos, principalmente 2015, em que ficamos com a sobra.

Marcos Nunes Carreiro — Esse é um problema sério com os times goianos: monta-se um time para o Estadual e outro para o campeonato nacional. Isso nunca deu certo.
Exatamente. Já na primeira reunião que tivemos com o gestor de futebol Felipe Ximenes e o técnico Enderson Moreira essa foi a pauta. Tem a questão do teto, que agora é móvel — a bem da verdade, ele continua em torno de R$ 50 mil, mas quando se faz a média. Vamos nos permitir, de quando em quando, um “excesso”, para trazer um ou outro jogador.

Elder Dias — Um elenco com 40 atletas de R$ 50 mil, em média, teria um gasto mensal de R$ 2 milhões.
A ideia é termos um grupo mais enxuto, com 32 ou 33 atletas.

Elder Dias — Enderson Moreira foi o treinador que mais conquistou seu nome a partir do Goiás desde Hélio dos Anjos. Con­quistou três títulos em dois anos e por pouco o clube não voltou à Libertadores. É um técnico que trabalha muito e busca se atualizar. Agora, depois de dois anos, volta à Serrinha. Foi o melhor profissional que o clube poderia ter trazido para o cargo?
Sou suspeito para falar, sou fã de carteirinha dele.

Elder Dias — Por que o sr. é fã de Enderson?
Convivi com vários treinadores no Goiás, mesmo antes de ser vice-presidente. Tive uns oito anos de convivência com técnicos do clube e sou daqueles sujeitos um tanto inconvenientes, que vão ao treino, escutam preleção, descem ao vestiário. Acompanho de perto mes­mo o trabalho e pego informações em vários setores do clube. Sei definir o perfil de cada um dos treinadores que passaram por aqui durante esses oito anos, enumerando suas qualidades e seus defeitos.
Por isso tudo, posso afirmar: o profissional que me fascinou, entre todos, foi Enderson Mo­reira. É alguém que tem conceitos modernos de futebol, que não é preguiços, que tem um trabalho de vestiário muito forte e também sabe exercer sua função à beira do gramado. É bem verdade também que ele é ranzinza e tem sua maneira própria de fazer seu papel: não admite palpite de dirigente em termos de contratação ou de esquema de jogo, não aceita interferência de espécie alguma em seu trabalho. Se isso ocorre ele diz “melhor me mandarem embora”. Ender­son é do tipo que considera que o clube pode procurar o nome que quiser para compor o elenco, mas se dá o poder de vetar esse ou aquele jogador. Da mesma forma, também nós podemos vetar. Tudo isso já foi conversado para a vinda dele neste momento.

 

“É preciso acabar com o coronelismo no futebol”

Marcos Nunes Carreiro — O futebol brasileiro está em crise há muito tempo, e isso não tem nada a ver com o fracasso na Copa do Mundo. Tem faltado conceitos modernos ao futebol por aqui? E o que o sr. entende por essa expressão?
Esse é um assunto que eu gos­to muito de debater. A primeira coisa que precisa ser feita é acabar com o coronelismo que há tanto nos clubes como nas federações. Ouvi um comentário muito correto esses dias, de alguém que disse que há alguns dirigentes que se prolongam no poder mais do que um papa. É um absurdo. Onde não há rotatividade, onde não existe um elemento novo, se cai numa situação que propicia a ocorrência de coisas erradas. Daí vemos como surgem os esquemas de propina, suborno, subversões de todos os aspectos. Então, a primeira coisa a se fazer é limitar o período de gestão de qualquer presidente de clube. É algo que felizmente agora está previsto em lei — limite de quatro anos para mandatários, salvo engano — e que espero que seja estendido também para as federações. Se houver rotatividade nessas entidades, veremos mentes novas tendo oportunidade de mu­dar a maneira de gerir.
Outra questão: por que o Cam­peonato Brasileiro tem de ser gerenciado pela CBF? Por que não por uma liga? Às vezes apontam o exemplo do fracasso do Clube dos 13 [liga que uniu os principais clubes do Brasil, mas que acabou se dissolvendo], mas foi algo que ocorreu na época do coronelismo no futebol. Não falo em “coronéis” no sentido negativo, às vezes são pessoas que têm de ter o busto no clube e ser reverenciadas pela torcida, mas que não podem se perpetuar no poder, porque não se modernizam, deixam uma gestão engessada.
Conheci, outro dia, o presidente do Bahia, Marcelo Sant’Ana. É um rapaz com quem fiquei encantado, tem ideias maravilhosas. Uma pena que seu clube não tenha subido da Série B para a A, mas creio que isso deva acontecer este ano. E torço para que isso ocorra, pois ele está fazendo a coisa certa por lá.

Frederico Vitor — O calendário do futebol brasileiro não precisaria de alguns ajustes? Não está muito pesado para clubes e atletas?
Já melhorou, era pior. O Cam­peonato Goiano tinha 30 datas, o Brasileiro tinha sempre jogos toda quarta e todo domingo. Estamos copiando, nessa questão, o futebol europeu e já temos, no começo do ano, as agendas de todos os jogos do ano. Mas ainda podemos melhorar ainda mais nessa questão.

Fotos: André Costa / Jornal Opção

Fotos: André Costa / Jornal Opção

­Elder Dias — Estamos entrando em um novo tempo no futebol brasileiros, com tópicos obrigatórios como a adequação ao Profut e o chamado “fair play financeiro”. Com a “tarefa de casa” dura que fez o ano passado — e que causou até a queda para a Série B —, o sr. considera que o Goiás se antecipou a tudo isso?
Com certeza, exatamente isso.

Elder Dias — Olhando para outros clubes e pela forma com que são administrados hoje, o sr. acredita que muitos “grandões” do futebol nacional vão sofrer com a nova legislação?
Pode ter certeza, não tenha a menor dúvida disso (enfático). Hoje, se o dirigente não pagar salário — e isso inclui também o direito de imagem, o recolhimento de impostos, de FGTS, acerto de rescisão etc. —, o clube vai ser penalizado. Até por isso, entramos com o mandado no STJD.

Elder Dias — Por que o sr. resolveu optar por essa medida judicial? Não creio que fosse para beneficiar o Goiás, já que isso seria algo bem difícil. A impressão que me deu foi de que foi para dar visibilidade a esse aspecto da nova lei.
Na verdade, até poderia ser possível beneficiar o Goiás, porque é errada a interpretação de que, com a eventual desclassificação de algum time, subiria automaticamente um time da Série B. O que haveria seria uma nova classificação: se houvesse algum time irregular acima do Goiás na tabela, ele iria lá para baixo e nós subiríamos uma posição. Claro, o da Série B também subiria. É uma “escadinha”, portanto teria, teoricamente, uma chance de ficar na Série A. Mas nós não pensamos em nenhum momento nisso como prioridade.

Elder Dias — A questão, então, era mesmo colocar isso essa questão em evidência?
Eu acho que é preciso mostrar seriedade. Ora, o Goiás foi penalizado por pensar e por agir assim, de acordo com a lei. Nós tivemos de nos adequar a essa realidade, mas os clubes irresponsáveis não fizeram isso. Nós queremos que o que está escrito no regulamento, e o que fala o “fair play financeiro” [regra pela qual serão punidos os clubes que não mantiverem situação regular em relação aos direitos trabalhistas dos atletas], uma lei de 4 de agosto de 2015, que foi colocada em vigor no dia seguinte. Mas se não quiserem seguir a lei, o regulamento do Campeonato Brasileiro fala a mesma coisa: que estes times têm de mostrar todas essas quitações. Nós fizemos nossa parte e então perguntamos: os outros times estão apresentando esses documentos, CBF?

Elder Dias — Quantos apresentaram a quitação?
Somente o Goiás.

Elder Dias — Mas a CBF não exigiu?
Ela deveria ter exigido. Mas, es­pon­taneamente, o único que a apresentou foi o Goiás.

Elder Dias — Na verdade, a CBF não cumpre o próprio regulamento.
O regulamento está pregado na parede e sujo de lama, porque não se executa nem se cumpre o regulamento.

Elder Dias — O sr. não teme que o Goiás sofra alguma represália por esse tipo de ação judicial?
Não, porque nós vamos recorrer no âmbito da Justiça Des­portiva, jamais iremos para a Justiça comum. Isso é uma ação no Superior Tribunal de Justiça Des­por­tiva (STJD). Se perdermos, fica claro que o futebol continuará imoral, como sempre foi, mas não vamos recorrer à Justiça comum. Correríamos o risco de uma represália se recorrêssemos à Justiça comum, e até poderíamos fazer isso, estamos embasados para isso. Mas nós não vamos fazer.

Elder Dias — O sr. tentou fazer um primeiro mandato de forma bastante transparente. Se o poder público tem uma dificuldade de controlar a corrupção, a empresa privada tem um problema ainda maior. Mas no futebol isso é pior ainda. O sr. entende que o futebol brasileiro consegue ser pior do que a política brasileira?
A política tem me surpreendido nesse sentido ultimamente (risos). Fazendo um paralelo entre futebol e política, qual o brasileiro esperançoso, cumpridor de suas obrigações, honesto, correto, que não depositou todas as suas fichas no PT? Eu apostei no PT e votei no PT nas primeiras eleições (enfático). Era a mudança de tudo, era acabar com aquilo tudo que havia até aquele momento. Mas o que aconteceu? O PT suplantou a quem havia sucedido. Aquele que diz “não rouba e jamais roubarei”, mas rouba, é o pior de todos.
Então, a política hoje consegue ser pior do que o futebol. Falei isso em um programa da Rádio CBN, em que queriam saber sobre essa ação judicial do Goiás. Agora, quem sabe se o futebol, tão debatido e criticado, tão pejorativamente conceituado, quem sabe esse mes­mo futebol não sirva de início para o Brasil se moralizar, servindo de exemplo para outras instâncias do País? As leis nós temos, basta que as façamos cumprir.

Elder Dias — O sr. acha que a Copa do Mundo de 2014 foi benéfica para o País?
A Copa do Mundo foi a de­monstração mais clarividente de que o futebol brasileiro precisa ser mudado. Vimos jogadores que não tinham patriotismo no semblante, milionários e bem resolvidos, todos em times do exterior. Se eu fosse treinador da seleção brasileira, convocaria apenas os que jo­gam no Brasil, que “falam português”. Os técnicos brasileiros seguem a cartilha ultrapassada e ultraconservadora da CBF, não têm nenhum modernismo em sua conduta, agem como “dinossauros”. E recontratam para o comando da seleção ex-jogadores ou treinadores que fizeram sucesso dez ou mais anos atrás, achando que vai dar certo. Não conseguimos fazer isso nem no Goiás, aliás tivemos no ano passado dois treinadores com esse perfil um tanto defasado — não vou citar nomes — e vimos que não deu certo. Erramos da mesma forma, então. Enfim, a Copa do Mundo mostrou que nós temos de nos modernizar. Se aquela tragédia no Maracanã contra o Uruguai entrou para a história em 1950, esse 7 a 1 no Mineirão agora a superou.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. acha que pegaria mal para a seleção brasileira ter um técnico estrangeiro?
Não. Temos de ter é um treinador competente e atualizado sobre os novos conceitos de futebol. Hoje o esporte é técnica e tática. Tem o complemento do craque? Claro que tem. Mas isso não é nada sem as partes tática e física. Precisa ter o casamento dos três fatores. Se tivermos apenas um ou dois, não seremos bem-sucedidos.

Elder Dias — É difícil termos hoje algo equilibrado como era no passado, entre um time brasileiro e um europeu, como já ocorreu entre o Santos de Pelé e o Milan, entre o Flamengo de Zico e o Liverpool. O que vemos hoje é que um time brasileiro, para tentar ganhar de um europeu, ter de se retrancar.
Hoje o futebol moderno não deixa o craque jogar. Se um marcador tiver a compleição física avantajada, o craque não vai fazer nada em campo. O futebol hoje é uma ciência e nossos treinadores não se atualizaram. Com exceção de Tite [treinador do Corinthians], que é razoável nesse sentido, e de Enderson Moreira não vejo no Brasil nenhum treinador com conceitos modernos, como há na Europa. Preste atenção ao futebol dos Estados Unidos, como vão evoluir por lá a partir de agora. Eu garanto que eles chegarão à semifinal da próxima Copa do Mundo, em 2018, isso se não forem campeões. Lá fazem a coisa com comprometimento e know-how, com conhecimento de causa. Mandam buscar o melhor preparador físico do mundo, o melhor treinador. Descobrem e buscam.

Frederico Vitor — Outro lugar que vem se destacando por contratar jogadores e treinadores celebrados no Brasil é a China. Podemos dizer que também é um futebol em expansão?
Sim, mas lá as coisas ainda são bagunçadas. O despertar do futebol da China é muito mais no sentido de “boom” econômico do que aspecto técnico.

"A Copa mostrou que temos de nos modernizar. Se a tragédia no Maracanã contra o Uruguai entrou para a história em 1950, o 7 a 1 no Mineirão a superou” | Foto: Reprodução/Reuters

“A Copa mostrou que temos de nos modernizar. Se a tragédia no Maracanã contra o Uruguai entrou para a história em 1950, o 7 a 1 no Mineirão a superou” | Foto: Reprodução/Reuters

Elder Dias — E o legado da Copa para o Brasil fora de cam­po, foi positivo?
Eu temia coisa pior. Mas o brasileiro é tão versátil que, perante uma dificuldade, consegue não sair tão mal assim. Teremos outro teste nas Olim­píadas este ano. Essa versatilidade faz o brasileiro ser sui generis. Esperava coisa pior na Copa, mas não tivemos tantos problemas como se temia — o caos nos aeroportos, assaltos, estradas congestionadas. Na realidade, não houve muito esse tipo de acontecimento.

Frederico Vitor — Agora uma pergunta um tanto passional, como torcedor esmeraldino. Tenho 30 anos, 20 deles como torcedor do Goiás. Será que vou morrer sem ver meu time campeão brasileiro?
Eu espero que eu também não morra assim (risos). Mas creio que o pior já passou. Vocês não têm noção do que nós passamos nestes últimos dois anos no clube, aliás, a partir de 2010. Nós tivemos uma reerguida em 2012. Era para manter o ajuste firme, mas estávamos na Série B e tínhamos que voltar para a A. Então, gastou-se muito e agora caímos de novo.

Elder Dias — O time que foi campeão da série B em 2012 — com Walter, Ricardo Goulart e Egídio, entre outros — seria, com certeza, um dos melhores da Série A naquele mesmo ano.
Concordo. Mas quero falar de nossa base financeira agora, para este ano. É mais firme, dá para fazer coisa melhor. Talvez não de imediato, mas com uma sequência progressiva.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. enxerga que seria bom, para o futebol do Estado, ter todos os principais times jogando a Série A do Campeonato Brasileiro?
Claro que sim. Veja o que aconteceu com Santa Catarina, nestes anos, e com o Paraná, em tempos atrás. Ambos os Estados colocaram vários times na Série A e o futebol local cresceu. Nem falarei de São Paulo e Rio de Janeiro, basta ver o futebol catarinense.

Elder Dias — Este ano na Série B, Goiás terá o maior número de times no campeonato [três equipes], juntamente com Santa Ca­ta­rina. Nem São Paulo terá esse número de clubes.
Nas reuniões que temos com a TV Globo, dizem o seguinte: olha, a Série B está chegando ao nível da Série A. Ou seja, não há mais uma diferença tão grande como havia antes entre as duas divisões. Em outras palavras: se um time da 1ª Divisão jogar e perder para um da Série B não é coisa de se assustar. O desnível, que já foi muito grande, agora é menor. Claro que se gasta mais na série A. Por isso digo: talvez — não entendam mal o que vou falar, mas dentro das circunstâncias —, talvez para o que Goiás está montando agora, com essa filosofia de ressurgimento sólido, seja melhor partir da Série B. Se partíssemos da A iríamos gastar muito.

Elder Dias — O sr. é professor da Universidade Federal de Goiás, médico cardiologista e empresário, dono de hospital. Além de tudo isso, presidente do maior clube do Centro-Oeste. Como é possível conciliar essas atividades com esse cargo?
Primeiramente (dirigindo-se a Paulo Lopes), eu tenho esse cara bom do meu lado, sozinho eu não daria conta. Paulinho está aqui, se preciso, 24 horas por dia. Eu chego no fim da tarde, somente na sexta-feira tenho como chegar mais cedo. Às quartas-feiras, venho pela manhã e não à tarde. Então, quando se tem uma equipe “engrenadinha”, a coisa funciona. Não fosse assim, eu não daria conta nunca. Vivo da minha profissão. No Goiás, para que vocês saibam, ninguém da diretoria é remunerado, apenas os gestores. Portanto, é um tipo de sacrifício, de fato, mas é também uma “cachacinha” de que nós gostamos, porque somos apaixonados. O complicado é ser apaixonado por isso e o time ir mal, o torcedor estar longe dos estádios e ter críticas, às vezes, de quem não vê os dois lados. É preciso acolher a crítica, mas penso que ela tem que observar os dois lados antes de ser elaborada. Dizem “ah, colocou teto baixo, contratou errado”; poxa, mas venha ver por que tivemos de fazer isso. Não fazemos algo desgastante simplesmente porque queremos. Ninguém quis rebaixar o Goiás. Esse era meu pe­sadelo e eu o estou vivendo, confesso isso. Só vou sair desse pesadelo quando voltarmos para a A e, quem sabe, adquirirmos um título da magnitude de que já se falou aqui.

Elder Dias — Entre os possíveis er­ros de seu primeiro mandato, podemos colocar aquela promessa de título nacional, até divulgada em vídeo pelas redes sociais?
Não, aquilo foi distorcido, editado. Na verdade, a conversa foi mais ou menos assim: “O Goiás está fazendo um time para quê? Para disputar um campeonato, para ter uma participação em outros campeonatos como coadjuvante, como ele sempre foi, ou ele busca um título?” Essa era a questão. Então, eu disse que o Goiás sempre entrava em toda competição para ser campeão. É como disputamos o Campeonato Goiano, a Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro: para ser campeão. Se conseguiremos ou não, isso é outra história, mas temos de lutar sempre. Houve uma frase mais ou menos assim: “Eu prometo que vou lutar para ser campeão”. Então, me perguntaram: “Então, o sr. promete?”, e eu disse que sim, que iria lutar para ser campeão. Não que seria campeão — afinal, não tem como prometer uma coisa que não depende apenas de você. Portanto, prometi lutar que levaria isso a cabo. Mas fizeram uma edição e isso virou piada.

Elder Dias — Falando das categorias de base, o Goiás está há três anos com pouco sucesso na Copa São Paulo de Juniores, a principal competição, depois de ser vice-campeão em 2013. A questão de modernizar o futebol não passa pela profissionalização da gestão das categorias de base?
Sem dúvida.

“O craque Garrincha, hoje, morreria de fome”

Elder Dias — O Goiás vai fazer isso?
Sem dúvida. Temos um garoto que está crescendo muito, Rafael Barreto [treinador da categoria sub-17, e que, dias após a entrevista, foi promovido para a categoria sub-20 em lugar do ex-treinador Augusto], que fez vários cursos de formação e aprimoramento. Quando Julinho Camargo [treinador do Goiás entre julho e setembro do ano passado] esteve aqui, deixou bons ensinamentos, nos falou exatamente isso. “Dr. Sérgio, a base não pode ser tão divorciada do time profissional. Eu estou pegando jogador profissional que subiu da base e pedindo para executar um fundamento, mas não entendem, ficam voando. Não sabem o que é uma linha de 4, uma diagonal.” E citou também outros fundamentos, que os jogadores não sabiam o que era. Por quê? Porque lá na base não houve essa “catequese”, que tem de vir desde o começo. O jogador tem de saber todos os fundamentos, para chegar ao profissional preparado. Do contrário, vão falar que ele é apenas “craque”. Mas isso não é tudo, como eu disse há pouco. Ele tem de ter fundamentação tática, preparo físico e talento, tudo junto.

Elder Dias — Não tem como ser um Garrincha mais?
Não, Garrincha hoje morreria de fome, ainda mais não se cuidando fisicamente. Iria passar batido.

Elder Dias — Por falar em preparo físico, como fica a questão de Walter [ex-atacante que foi o grande destaque do clube em 2012 e 2013]. É um jogador talentoso, parece ser um desejo do Goiás ainda, mas pouco profissional, com dificuldade de adequação física, sempre acima do peso. Como seria tê-lo em um ambiente “profissionalizado”?
Em minha opinião, a vinda de Walter hoje ao clube não é adequada. É um momento de reerguimento, de valorização de princípios, de doação, de comportamento correto do atleta. Portanto, do ponto de vista pedagógico, não seria bem-vindo seu retorno.

Elder Dias — Então, não é quanto a ele, mas sim quanto à situação, o momento?
O Walter é daquele jeito que sabemos. Então, se quisermos um jogador para moldá-lo à semelhança de um atleta exemplar, não podemos ter Walter como referência.

Elder Dias — Os jogadores que estão chegando para o Goiás este ano têm qual perfil?
Têm perfil guerreiro, de comando. São trabalhadores e têm liderança. É isso que queremos.

Elder Dias — O sr. fez uma viagem agora para tratar de contrato com a nova fornecedora de uniformes do Goiás, a Dry World. Pelas notícias, será a primeira vez que o clube vai receber uma contrapartida também financeira. Em que bases se dá esse contrato?
Até então, na história do Goiás Esporte Clube, sempre houve um sistema de permuta com os fornecedores: a empresa fabricante dá o material ao clube, que por sua vez se compromete a usar esse material e expor a marca da empresa. A parceria se dava nesse sentido. Mas o futebol vai se modernizando, tomando outros rumos e praticamente todos os grandes times do mundo hoje, além dessa parceria na troca de material pela exposição da marca no uniforme, têm também um bônus financeiro. Nunca tivemos esse bônus, embora tivéssemos os royalties na venda das camisas e outros materiais que levassem nossa marca. Mas até então nunca tínhamos recebido qualquer valor nesse modelo de contrato.
Agora veio a oportunidade com a Dry World, uma empresa canadense, de propriedade de dois ex-jogadores de rúgbi [espécie de futebol jogado com as mãos e os pés, com bola oval, muito popular em vários países do mundo], que está querendo entrar forte no mercado brasileiro. Ela está iniciando no Brasil com três times — Fluminense, Atlético Mineiro e Goiás — e tem o compromisso de não pegar mais de um time do mesmo Estado. É uma parceria bastante interessante.

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Presidente do Goiás, Sérgio Rassi, em entrevista ao Jornal Opção: "Nossa base financeira para este ano é mais firme que a do ano passado, então temos condições para fazer coisa melhor" | Foto: André Costa / Jornal Opção

Presidente do Goiás, Sérgio Rassi, em entrevista ao Jornal Opção: “Nossa base financeira para este ano é mais firme que a do ano passado, então temos condições para fazer coisa melhor” | Foto: André Costa / Jornal Opção

Frederico Vitor — Como se deu essa aproximação?
É uma história até curiosa. No fim do ano passado, estava em Goiânia o empresário representante da empresa, que por coincidência também empresaria nosso goleiro Renan, pela Life Pro. Ele veio defender alguns in­te­resses do jogador e ouviu uma conversa de nosso então diretor de futebol Harlei, em que este dizia que não estávamos satisfeitos com a parceria feita com a Kappa por meio de sua representante, a Filon, por uma série de acordos não cumpridos. Esse empresário então perguntou a Harlei se tinha alguma chance de o Goiás trocar o fornecedor de material. Harlei, que estava justamente conversando com outra empresa interessada, respondeu que sim. Ele disse então que mandaria uma proposta oficial, como representante da Dry World no Brasil, que estava atrás de um terceiro time, já que tinha fechado com Fluminense e Atlético Mineiro. Nosso diretor de marketing, Elias Júnior, entrou no circuito e, então, as conversas se desenrolaram e acabou dando tudo certo.

Frederico Vitor — O sr. pode detalhar esse processo, já que houve uma rescisão envolvida?
Na verdade, o que houve foi uma triangulação. Havia o Goiás, a Dry World e a Kappa, com quem não podíamos simplesmente rescindir o contrato. Pri­mei­ramente, nós nos asseguramos com o departamento jurídico de que podíamos rescindir o contrato, acusando o não cumprimento de várias cláusulas por parte da Kappa. Fizemos todos os comunicados de desistência do contrato com a Kappa, eletronicamente e por correio — embora eles tenham alegado não ter sido notificados, nós temos os comprovantes. Só depois fechamos com a Dry World.

Elder Dias — O descumprimento do contrato, então, foi por parte da Filon, a empresa que representa a Kappa?
Sim, essa quebra de contrato foi da Filon.

Elder Dias — Mas o que ocorreu, ou não ocorreu, para que o contrato fosse rompido?
São várias cláusulas descumpridas pela Filon. Por exemplo, a questão de prazos para entrega de material; a terceira camisa que não saiu; a entrega de material para a escolinha, as camisas com assinaturas dos sócios-torcedores, que até hoje não chegaram; a criação de quiosques nos shoppings — que não foi feita, em­bora já tenhamos feito a terceirização necessária, eles não cumpriram sua parte. E há outras coisas.

Elder Dias — O novo contrato, com a Dry World, já foi por meio do diretor Elias Júnior?
Sim, passamos a incumbência ao nosso diretor, e ao mesmo tempo acionamos o departamento jurídico, para termos segurança na quebra de contrato com a Filon. Com o parecer favorável à nossa intenção, fomos adiante. O processo foi bem tranquilo e transparente.

Elder Dias — Durante esse período da transação, a Filon estava ciente do que estava acontecendo?
Não sei, nós não falamos sobre isso. Mas eles estavam cientes de que estávamos extremamente insatisfeitos com o trabalho deles. Todos os dias nós cobrávamos alguma coisas e recebíamos, da parte deles, muita embromação. O que podemos garantir é que não houve prevaricação nem antecipação; fizemos as coisas no tempo certo, como devem ser feitas. De qualquer forma, devemos lançar uma nota oficial sobre isso.

Marco Nunes Carreiro — Essa parceria com a Dry World já tem uma data para ser formalizada?
Sim, será dia 31 de janeiro. Vamos fazer o primeiro jogo do Campeonato Goiano, contra o Vila Nova, já com o material novo. A patrocinadora vai nos apresentar vários modelos para escolhermos. É um material de excelência. O nome da empresa, Dry World, se inspira no fato de que o atleta não passa a transpiração para a camisa, que fica seca. É um material essencial para o rúgbi, uma tecnologia importante que eles estão transferindo para o futebol. Eles nos mostraram que essa camisa aumenta a performance do atleta por causar menos desgaste de transpiração. O jogador perde menos eletrólitos e, assim, desidrata menos. É algo bem funcional.

Elder Dias — O Goiás terá os mesmos benefícios contratuais que Fluminense e Atlético Mineiro?
A patrocinadora se baseia na venda de camisas para distribuir os bônus. No nosso caso, também mantivemos os royalties das camisas e a certeza de que teremos os quatro pontos de quiosques nos shoppings estrategicamente localizados em Goiânia, além de manter a nossa loja própria. Portanto, são cinco pontos de vendas.

Marco Nunes Carreiro — Quais os shoppings que vão abrigar os quiosques do Goiás?
Serão os shoppings Flamboyant, Goiânia Shopping, Passeio das Águas e Buriti. Na verdade, não definimos ainda se serão quiosques ou lojas convencionais instaladas nos shoppings, como a que tem o Corinthians [Poderoso Timão] no Passeio das Águas. l

Uma resposta para ““Não vou mais sacrificar o futebol do Goiás. Vamos voltar à Série A de qualquer jeito””

  1. Avatar Pedro disse:

    Parabens pela entrevista Elder… bom trabalho! Tocou em vários assuntos que faltavam um esclarecimento do rassi. Torço agora que a nossa arena dê certo.. será a cereja que falta no nosso bolo pra buscarmos algo maior.

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