“Não é possível governar sem as OSs, mas precisam ser muito bem fiscalizadas”

Em sua primeira candidatura, médico recebe a terceira maior votação entre os deputados federais eleitos por Goiás

Zacharias Calil | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Zacharias Calil (DEM) é um nome que dispensa apresentações. Médico cirurgião pediátrico lembrado pelos procedimentos de separação de gêmeos siameses, o goianiense de 64 anos será um dos estreantes na Câmara dos Deputados. Com 151.508 votos, Calil foi o terceiro mais bem votado na lista dos eleitos a deputado federal e o melhor colocado entre os novatos. Suas três principais metas, além de não aceitar qualquer convite para ocupar cargos no governo de Ronaldo Caiado (DEM) a partir de janeiro e assumir o mandato, são combater a corrupção, viabilizar a construção do Hospital da Criança e do Adolescente e destinar emendas para a saúde.

Vilma Barbosa – Quais são os projetos do sr. para nossas crianças e adolescentes?

Quero ser um combatente da corrupção. Todo brasileiro almeja um deputado que combata e que não aceite esse tipo de comportamento dos políticos. Meu segundo maior projeto é a construção do Hospital da Criança e do Adolescente. Muitos me perguntam por que adolescente. Os hospitais pediátricos atendem o que é recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, que são crianças de até 12 anos. Fora do Brasil, os pacientes são atendidos até 21 anos por pediatras. Se você tem um filho adolescente, aonde você vai levar? Ele não tem onde ser atendido, não é atendido pelo pediatra nem clínico. É uma fase difícil de estruturação física e mental. Hoje existe a especialidade do adolescente. Quero trazer emendas para a área da saúde. Principal­mente para a saúde da criança.

Euler de França Belém – Com o Hospital Materno Infantil (HMI) em funcionamento, não é um projeto redundante a criação do Hospital da Criança e do Adolescente?

Não. Materno Infantil é um hospital que já ultrapassou todos os limites de atendimento e infraestrutura. É um hospital antigo. Em 1980, quando era estudante do quinto ano de Medicina, fiz internato no Materno Infantil. Naquele ano, Goiânia tinha 650 mil habitantes e já existia o Hospital Materno e Infantil. Hoje a grande Goiânia tem cerca de 2,5 milhões de habitantes e o hospital continua do mesmo jeito. Se um médico for fazer uma cirurgia complexa que envolva a utilização de muitos equipamentos, até a energia cai no centro cirúrgico.

Euler de França Belém – Mas o Materno Infantil não tem gerador?

Tem um gerador, mas não suporta. A fiação é deficitária. Quando há uma chuva forte, determinadas áreas do hospital ficam inundadas. E é um hospital pequeno. Não tem cirurgia cardíaca, neurocirurgia, exames de imagens que são necessários. Se uma criança internada na UTI neonatal precisa de uma tomografia computadorizada, não temos isso no Materno Infantil, que é um exame simples de ser realizado. Qualquer clínica de imagens em Goiânia tem um aparelho de tomografia. É preciso programar um horário para levar a criança a uma clínica, chamar uma ambulância UTI, tirar um médico da UTI, uma enfermeira e um técnico de enfermagem do hospital para acompanhar a criança correndo o risco neste trânsito maluco que temos na cidade.
Temos casos de crianças respirando por aparelhos que precisam ser deslocadas para fazer um exame de imagem e retornar ao hospital. Um hospital no qual são feitas cirurgias de separação de siameses e procedimentos complexos, mas na hora que precisa de um exame é necessário levar o paciente para outro lugar? É frequente ver pessoas recorrerem ao Ministério Público ou aparecerem na televisão com pedido de ajuda porque são operados em outros hospitais. Hospital Lúcio Rebelo, que fazia cirurgia, fechou. Hospital Santa Genoveva também fechou. Hospital São Francisco está há muito tempo sem receber repasses públicos. Só tem o Hospital da Criança fazendo esse tipo de procedimento.
Paciente do SUS tem de ser operado em hospital do SUS. Não deve ter atendimento em hospital da rede particular conveniado com o SUS, porque são unidades que não têm muito interesse. O valor pago é muito baixo. É preciso colocar uma válvula em uma criança com problema neurológico. Tem de tirar a criança do Materno Infantil. Enfrentamos um grande problema que pouca gente sabe. A UTI pediátrica do Materno Infantil tem hoje de seis a dez pacientes crônicos. São crianças que têm problemas neurológicos graves, com paralisia cerebral, que respiram através de aparelhos, se alimentam por sonda e não têm onde ficar. Ficam de seis a oito meses internados no hospital ocupando um leito que poderia salvar a vida de uma criança que necessita de um procedimento de urgência.
Com o Hospital da Criança e do Adolescente, nós poderíamos fazer uma unidade de terapia intermediária. Se tivéssemos uma solução domiciliar, as crianças poderiam ficar em casa. Mas é algo que exige uma estrutura muito grande. É preciso ter uma enfermagem especializada, gerador para evitar que o aparelho para a criança respirar não pare se faltar energia, alimentação especial. E o hospital teria uma unidade intermediária exclusiva para essas crianças, o que seria mais fácil e deixaria as outras unidades para crianças que têm um trauma ou um problema mais agudo, como um problema respiratório.

Euler de França Belém – O sr. sabe quanto custaria a construção do hospital e como seria feito?

Podemos fazer até através de consórcios e convênios com a Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg). Esse seria o modelo mais rápido. Há duas áreas em Goiânia que poderiam ser utilizadas para construir o hospital. O Hugol [Hospital Estadual de Urgências da Região Noroeste de Goiânia Governador Otávio Lage de Siqueira], um hospital daquele porte, que tem uma UTI pediátrica para atender, é um exemplo de como podemos construir o Hospital da Criança e do Adolescente. Há uma área em frente ao Hospital Santa Genoveva com mais de 5 mil metros quadrados que é do Estado. Toda a área do Materno Infantil poderia ser utilizada para construir esse novo hospital. São projetos que podemos fazer por meio da Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop).

Euler de França Belém – O funcionamento do Materno Infantil gerido pe­la Organização Social (OS) melhorou?

Melhorou. Isso é algo que tem de ser reconhecido. Quando era apenas gerido pela Secretaria Estadual de Saúde (SES), na hora de fazer uma cirurgia de separação de siameses precisava fazer uma lista gigante de material e passar para a diretoria, que repassava para a SES abrir licitação, o que durava de três a quatro meses para providenciar tudo. Hoje, quando aviso que vou fazer uma cirurgia, de três a quatro dias antes aviso o material que preciso para realizar a cirurgia e no dia do procedimento o que eu preciso está disponível. Houve melhoras significativas na reforma da UTI, da UTI pediátrica, do centro cirúrgico. O que vejo de re­­clamação é que só não ficou me­lhor porque os repasses não são feitos pelo governo no tempo correto.

Marcelo Mariano – O sr. defende que o modelo de OS na saúde deve continuar?

Deve continuar porque não é possível governar sem as OSs. Mas as OSs precisam ser muito bem fiscalizadas. Para isso existe o Ministério Público, os conselhos municipais, estadual e federal. Isso tem de ser fortalecido para saber aonde o recuso vai e de que maneira está sendo gasto. Houve muito questionamento da área médica por não haver o programa de cargos e salários. Como se presta um concurso? Não há mais concurso para médico, enfermagem, farmácia, laboratório. Não existe mais isso. É tudo terceirizado, o que é ruim.
O governador Ronaldo Caiado (DEM) falou durante a campanha em criar o médico de carreira do Estado, como é para o promotor ou juiz. É algo importante. Tenho isso por ser aposentado pelo governo do Distrito Federal (DF) como concursado, onde há o plano de cargos e salários. Recebi um e-mail de um colega médico que dizia “quero seguir os seus passos”. Investi muito no serviço público, que é muito bom na área da saúde. Nunca me preocupei com o que estou ganhando.

Euler de França Belém – O sistema do HGG [Hospital Estadual Geral de Goiânia Dr. Alberto Rassi] funciona bem? O 3º Turno deu certo?

No HGG funcionou, mas para mim não. Trabalhei no 3º Turno de maio até 22 de agosto e até hoje não recebi. Todos os cirurgiões pediátricos paralisaram o serviço porque não recebemos. Não conheço o sistema no HGG, mas os comentários são de que deu certo na unidade. HGG ficou um hospital muito bem estruturado com a OS. Tive a oportunidade de operar um caso adulto muito complexo, que inclusive será veiculado no Discovery Channel.

Euler de França Belém – Que caso é esse?

No primeiro diagnóstico era hemangioma enorme na cabeça de uma sra. de pouco mais de 50 anos e que chamou a atenção da comunidade científica. Como sou referência na área de hemangiomas, segui o caso e operei a paciente no HGG. O caso era do HGG e o hospital comportava a operação de um paciente adulto. Fiquei muito impressionado com a estrutura do centro cirúrgico. Muito boa a anestesia, os equipamentos, medicamentos. Não faltou nada. Pelo o que vi, funciona muito bem. Não conheço o hospital muito bem, mas pelo o que andei e vi, a estrutura física do hospital está muito bem. Muitos me disseram que eu deveria atuar no HGG, e não no Materno Infantil. Na área que eu atuo, de hemangiomas, com equipamento de laserterapia, os adultos são muito prejudicados porque não têm atendimento no Materno Infantil.

Euler de França Belém – O sr. ficou com a imagem de um cirurgião que opera siameses, mas seu trabalho não se resume a isso. Mas no tratamento de siameses, quantos você já operou?

Foram 18. Todos aqui. Fui ao Mé­xico porque me pediram ajuda em um caso. Conversei com o embaixador do México para que intermediasse porque o SUS não permite que pacientes de outros países tenham atendimento no Brasil. A não ser o caso de um africano que veio de Angola com uma malformação no braço, porque existe um acordo de cooperação entre Brasil e Angola e por isso ele foi atendido pelo SUS. E foi um sucesso porque conseguimos preservar o braço do paciente.
Me chamou muita atenção na semana passada o caso do INPI [Instituto Nacional da Propriedade Industrial] e é algo que quero encarar na Câmara. O pesquisador no Brasil não tem valor nenhum. INPI para mim é uma carta de crédito. Como um profissional, um pesquisador, um cientista como eu que desenvolvi um medicamento que beneficia milhares de pessoas e demorei 15 anos para conseguir uma patente pagando anualmente. Se deixar de pagar um real a patente é negada. Vou bater firme nisso.

Euler de França Belém – E qual é a patente?

Do tratamento de hemangiomas e linfohemangiomas. Foram 15 anos de luta no INPI. Inclusive fui até maltratado ano passado. É preciso que esse processo seja agilizado e demore apenas um ano para que se consiga autorizar uma patente.

Euler de França Belém – Os norte-americanos conseguem registrar patentes com muito mais rapidez do que os pesquisadores brasileiros.

Muito mais. Reclamei que o pagamento é para manter o prédio luxuoso no Centro do Rio de Janeiro. Escrevi uma carta à ouvidoria dizendo que o INPI não precisa de um prédio daquele. No dia que bati de frente com as farmacêuticas, disse “viajei 2,4 mil quilômetros de Goiânia ida e volta para vocês me atenderem em 15 minutos e nem saber do meu trabalho?”.

Euler de França Belém – O que de fato acontece nessa área? O recurso falta ou não chega ao órgão responsável?

O dinheiro chega, mas antes de chegar à fonte o recurso esparrama. Há um problema de gestão. Há uma lista de medicamentos fornecidos pelo SUS e sai um novo medicamento. Enquanto o que está incluído na lista do SUS custa R$ 20, o novo medicamento custa R$ 1 mil. O governo alega não ter o medicamento, que é preciso abrir licitação para comprar. Ministério Público recomenda a compra do remédio. Há uma situação muito complexa em volta dessa questão.

Euler de França Belém – Como foi exatamente o tratamento do paciente angolano?

Ele tem uma malformação benigna, que é um linfohemangioma, mas com características de malignidade porque invade, destrói, causa deformidade nos tecidos e causa até impotência do membro, que foi o caso dele. O paciente viajou a vários países e a indicação de todos os médicos era amputar. Com a amputação, que é o procedimento mais fácil, o profissional se livra da patologia. Mas desenvolvemos o tratamento que reduz o tumor e opera em melhores condições. Foi o que aconteceu no caso do angolano.

Marcelo Mariano – O que aconteceu no caso com o embaixador mexicano, o paciente foi trazido para o Brasil?

O embaixador não conseguiu trazer o paciente. O embaixador inclusive foi muito frio comigo e não teve o menor interesse. Quem ficou mais sensibilizado foi o chefe de gabinete do embaixador, que foi uma pessoa extremamente indiferente. Estávamos beneficiando um paciente do país dele, Saí de casa de manhã, marquei uma audiência com o embaixador, fui por conta própria no meu carro. Cheguei a Brasília, me atendeu em 20 minutos e nunca me retornou ou ligou. Foi extremamente mal-educado comigo. Não teve a menor sensibilidade em ajudar alguém do país dele.

Euler de França Belém – Dos casos de siameses que o sr. operou, quantos sobreviveram?

Tivemos uma sobrevida de 50%. A média é 20%.

Euler de França Belém – O sr. voltou a ver esses pacientes depois de operados?

O tempo todo. Ficamos amigos. O relacionamento se torna algo muito grande.

Euler de França Belém – O sr. batizou um dos pacientes?

Sou padrinho da Larissa. Ela mora em Santo Antônio. Estive com ela antes da eleição. O sonho dela é fazer medicina. Disse que a ajudaria.

Euler de França Belém – Larissa tem quantos anos?

Larissa é de 1999, está com 19 anos. Sobreviveram as duas. Infeliz­mente a Lorrayne morreu porque tinha uma doença cerebral grave e não conseguiu sobreviver. Conversei com um amigo, que é dono da Faculdade de Medicina de Araguari (MG) – Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos (Imepac) –, que respondeu que o vestibular está aberto e se a Larissa conseguir passar em fevereiro ganhará bolsa de estudo. Ela vai fazer o Enem agora. Temos de esperar. Como ela quer fazer medicina, temos de ajudar. Se a Larissa se tornar uma doutora, a história de vida dela será uma coisa maravilhosa por superar todas as dificuldades e deficiências. Larissa só tem uma perna, metade da bacia. Mas a vida dela é muito boa, tem namorado. Fico emocionado de ver como ela está hoje.

Euler de França Belém – O paciente angolano ficou satisfeito?

Demais. Ele me manda mensagem quase toda semana. Quando voltou para Angola, todas as emissoras fizeram entrevista com ele, saiu no jornal. Foi algo muito legal.

Euler de França Belém – Discovery Channel já gravou mais de um programa com o sr.?

Já saíram quatro episódios e farão o quinto agora. É um novo episódio que se chama “Anomalias Raras” com o caso do tumor de cabeça que operei no HGG.

Euler de França Belém – O sr. pensa em documentar toda essa história em um livro

Penso. Tenho uma história de vida muito semelhante a um neurocirurgião pediátrico chamado Ben Carson.

Marcelo Mariano – Ben Carson foi pré-candidato a presidente?

Exato. Foi pré-candidato a presidente, apoiou Donald Trump e hoje é secretário e trabalha na área de cidadania. Quando vi o filme dele, me senti na história. Quando fizemos a primeira cirurgia de siameses aqui, ele fez a primeira de separação de cabeça, que é o caso mais grave e complexo. Carson se tornou uma sumidade nos Estados Unidos, as faculdades brigavam por ele, que hoje está aposentado. No Brasil, infelizmente vejo que não temos esse reconhecimento que o médico americano tem. Tanto é que ele virou filme, vários livros que escreveu. Talvez os americanos sejam mais valorizados do que nós. Tenho uma documentação fantástica. Não só de siameses, mas de hemangiomas e outros tratamentos que fiz. Talvez esse seja o momento da minha vida de fazer um livro.

Euler de França Belém – Converso muito com um infectologista que está muito espantado com a expansão do HPV em Goiânia e o aumento de casos de HIV e sarampo entre adolescentes e idosos. Ele e outros médicos dizem que o governo se despreocupou da comunicação com a população na área da saúde.

Caiado disse algo muito interessante sobre o governo gastar milhões e milhões em propaganda, mas não nessa área. Caiado disse que a propaganda de governo tem de existir, mas voltar para a área de conscientização da população, de uso de camisinha e cuidados que devemos ter. Caiado vai focar a propaganda de governo na educação, saúde e segurança. Devemos cobrar como deputado do governo federal as ações básicas da medicina preventiva. E descuidou porque as pessoas esquecem. É preciso jogar isso sempre na mídia para que as pessoas não se esqueçam.

Euler de França Belém – O que um deputado pode fazer, por exemplo, para combater a máfia das próteses?

É o que vou descobrir na Câmara como atuar. Trata-se de um papel de fiscalização, de acompanhar e combater esse tipo de ação por parte das empresas. Um exemplo é o lobby dos laboratórios e das seguradoras, que joga pesado para eleger determinado deputado. Preciso descobrir como atuar para impedir que isso aconteça. Em Brasília há um hospital que passa por uma situação dificílima pelo problema das próteses. É um hospital de ortopedia que tem seu proprietário passando por uma situação complicada. O Ministério Público é combativo e desvenda junto com a Polícia Federal. Tomara que acabem com isso.

Euler de França Belém – O que fazer para combater o financiamento de congressos médicos por laboratórios, um problema que é mundial?

Os laboratórios querem mostrar o lançamento de um medicamento e levam os médicos, que são formadores de opinião, e trabalham esse modelo.

“Sou uma pessoa muito conhecida, mas poucos sabiam que eu era candidato”, diz Calil

Euler de França Belém – Não é algo muito errado?

Totalmente errado. Não vemos mui­to isso em Goiás. Falo pela mi­nha especialidade. Não vemos em cirurgia pediátrica e pediatria ninguém fazer esse tipo de procedimento.

Euler de França Belém – A família do sr. é de qual país?

Meu pai veio da Síria. Minha mãe é filha de sírios. Tenho nome do meu avô, Zacharias Calil, que era uma pessoa muito influente em Ribeirão Preto (SP), onde fui criado. Sou goiano, mas fui embora cedo. Chegando a Ribeirão Preto há um viaduto chamado Dr. Zacharias Calil, que é uma homenagem ao meu avô. Eu herdei a coragem do meu avô, que veio fugido da Síria depois de matar um guerrilheiro que estuprava as mulheres das aldeias. Meu avô não se conformou com aquilo e matou esse guerrilheiro.

Marcelo Mariano – O sr. sabe de qual região da Síria seu avô fugiu?

Minha família veio de Kafrum para Ipameri e Catalão.

Marcelo Mariano – Qual a orientação religiosa do sr. e da família vinda da Síria?

Católicos.

Euler de França Belém – O avô do meu pai era sírio-libanês porque na época as duas nações não eram separadas.

Perguntei ao meu tio que veio da Síria qual a diferença entre sírio e libanês. Ele disse “o sírio quando chega no Brasil é pobre, se ficar rico é libanês”.

Euler de França Belém – O sr. vai apoiar Jair Bolsonaro (PSL) para presidente?

Caiado participou da decisão do DEM nacional, que decidiu se manter neutro e liberar seus filiados para declarar apoio de forma individual. Como o senador declarou apoio a Bolsonaro na quarta-feira, 10, devo acompanhar Caiado no apoio ao candidato do PSL.

Rafael Oliveira – O sr. foi o terceiro mais bem votado para deputado fe­deral em Goiás e o que recebeu mais votos entre os que foram eleitos pela primeira vez. A proximidade do sr. a Cai­ado durante toda a campanha ajudou na grande votação que o sr. teve?

Houve uma ajuda mútua. Fize­mos uma campanha muito forte no corpo a corpo e nas redes sociais. Isso foi fundamental na minha campanha. Sou uma pessoa muito conhecida, mas poucos sabiam que eu era candidato. A aproximação que tive com Caiado foi de muito apoio, mas não de transferência de votos. Não me afastei de Caiado porque estava onde ele estivesse em Goiânia. Considerei muito importante ter Caiado ao meu lado, assim como o governador eleito também fez questão da minha presença nos eventos de campanha ao lado dele. Nossa campanha foi baseada nas pessoas que conhecem o meu trabalho e nas redes sociais.

Marcelo Mariano – O sr. não precisa da política para viver, é uma pessoa bem sucedida. O que motivou o sr. a entrar na política?

Sempre tive vontade de entrar na política. Em um discurso que tenho gravado do papa Francisco, ele diz que a política é um meio social, é um meio de caridade que é preciso de se fazer. Você vai usar do seu poder para fazer caridade para as pessoas, doar o seu trabalho. Acho isso muito importante porque sempre agi assim na minha vida. Sempre trabalhei focado a quem eu posso beneficiar com o meu conhecimento, tratar e trazer alegria às famílias, como fizemos muitas vezes em vários procedimentos cirúrgicos. Operei muitas crianças no serviço público. Essa campanha foi muito importante porque vi vários pacientes que nem sabia quem era mais. Crianças que operei com 2 anos de idade e os vi novamente agora com 35 anos, já com suas famílias constituídas. É um trabalho muito gratificante.

Marcelo Mariano – O sr. pensa em fazer carreira na política?

Não penso em fazer carreira. Devo ficar apenas um mandato. Não sabemos do futuro, mas pelo que já discutimos na minha casa, se eu conseguir fazer o meu projeto como parlamentar, a intenção é ficar mesmo apenas um mandato.

Marcelo Mariano – Em 2016, o sr. chegou a ser pré-candidato a vice-prefeito. O sr. pensa em disputar a eleição municipal em 2020?

Não me passa pela cabeça. A situação de Goiânia está muito difícil. Vemos as denúncias nos meios de comunicação, as dificuldades apresentadas. Tenho de assumir o papel de parlamentar, fiscalizar e cobrar dos nossos governantes posições sobre os problemas existentes.

Marcelo Mariano – O que poderia ser feito para melhorar a saúde de Goiânia?

Tem muita coisa que sentimos na pele trabalhando no serviço público. O grande problema é de gestão. O município tem a regulação e a gestão plena da saúde. O Estado fica mais com a alta complexidade. É preciso descobrir o que está acontecendo? São coisas que o Brasil todo precisa melhorar muito. A saúde tem de ser uma coisa imexível. Saúde e educação são áreas de projeto de longo prazo. Basta mudar de prefeito ou governador que se altera a educação e a saúde e atrapalha tudo que está funcionando.
O novo programa de computador para resolver o problema do chequinho fez uma bagunça no sistema de marcação de consultas e exames. Encontrei pessoas nas ruas aguardando de um a dois anos. Um paciente me disse que está há dois anos e meio tentando marcar uma consulta comigo no Materno Infantil e não consegue. O que está acontecendo? A saúde precisa de planejamento de longo prazo igual nos países de primeiro mundo: é preciso seguir o planejamento determinado.

Euler de França Belém – O que fazer para melhorar os Cais em Goiânia?

É um problema de gestão da Secretaria Municipal de Saúde. O que aconteceu em Goiânia foi uma coisa muito desagradável. No início tivemos um impacto da sociedade médica contra a secretária e a secretária contra os médicos e o sindicato. Ao invés de essas pessoas se unirem, começaram a medir força. Naquele momento, a secretária se perdeu, perdeu a autoridade, perdeu o respeito. Houve uma imposição do próprio prefeito em relação a ela. O prefeito peitou todo mundo em prol de uma pessoa. A saúde continua do mesmo jeito. Não sei qual é o interesse do prefeito, qual é a equipe da secretária, mas estamos vendo o que está acontecendo. Ninguém quer trabalhar na prefeitura.
A prefeitura não tem pediatra. Não são valorizados. É uma classe que ninguém quer fazer a especialidade. E é uma classe fundamental nas noções básicas de saúde, na formação da criança, do adolescente e do adulto também. Porque uma criança que não é sadia vai se tornar um adulto doente. Peitaram os pediatras. Não só pediatra como clínico, que são das ações básicas de saúde. É preciso fortalecer as ações básicas para que as crianças não vão para o Hospital Materno Infantil. Hugo e Hugol, que são hospitais de referência, só atendem determinados pacientes. O Materno virou porta de entrada para tudo.
O principal problema da população hoje é a saúde. Quando você tem uma criança doente, cria-se um transtorno familiar. Você não tem onde deixar, tem de ir você ou sua esposa para o hospital com outras crianças pequenas em casa. Pai tem de trabalhar. Como fica?

Rafael Oliveira – O sr. defenderia o fim da reeleição?

Já existem projetos nesse sentido. Isso não passa porque a maioria quer continuar. Sou adepto ao fim da reeleição. Talvez no máximo dois mandatos fosse o suficiente e depois não pudesse mais ser candidato.

Marcelo Mariano – O sr. apoia essa ideia também para o Legislativo?

Sim. O poder não é cabide de emprego. Você se acomoda e se sente dono. O caminho não é esse. É preciso tentar cuidar da sua vida de outras maneiras. Há quem tenha nove mandatos ou mais.

Aline Jaime Rodrigues – Qual é o projeto do sr. para diminuir o tempo de espera para marcação de cirurgia pelo SUS?

Este é um projeto de governo estadual. E o governador Caiado disse que tem 55 mil pessoas na fila de espera. É o projeto principal do Caiado, por ser médico e saber das dificuldades, acabar com a fila de espera. Além de instalar as policlínicas, tanto em Goiânia quanto nas regiões mais afastadas para que os pacientes diminuam a distância do deslocamento. Não é difícil fazer um exame de ultrassonografia. Hoje qualquer clínica tem e é um serviço barato. Tenho certeza que Caiado vai resolver esse problema. Além das policlínicas, Caiado deve continuar a construir os hospitais regionais que ainda não estão concluídos, mas que já foram iniciados.

Marcelo Mariano – O sr. disse que não assumiria a Secretaria Estadual de Saúde de forma alguma. Por que não?

Porque fui eleito para deputado federal, meu sonho era ser representante na Câmara Federal. Não fui eleito para almejar cargos no Estado. Secretaria da Saúde é uma pasta muito pesada, que exige muito. Não é o meu perfil. Na Câmara eu poderia fazer e cobrar muito mais do que sendo secretário. Não só a Secretaria de Saúde, mas nenhum cargo. Se eu não tivesse sido eleito e você me oferecesse a Secretaria de Saúde ou qualquer outra pasta, eu não aceitaria.

Marcelo Mariano – Se Caiado pedisse para o sr. indicar um nome para assumir a Secretaria da Saúde, quem o sr. indicaria?

Isso é uma questão muito pessoal. Acredito que Caiado não vai me pedir isso. Talvez até possamos discutir alguns nomes juntos. Mas não posso indicar porque a Secretaria de Saúde tem de ser uma cota pessoal do governador.

Marcelo Mariano – Mas Caiado pede a opinião do sr.?

Nunca falamos nada sobre isso. Conversamos muito. Nem na campanha ouvi ninguém falar, não só na Saúde, mas qualquer outra secretaria. Caiado não tocou nesse assunto com ninguém. Não tenho o menor interesse, já descartei. A minha família também descartou. É algo pessoal.

Marcelo Mariano – O sr. acredita que Silvio Fernandes (DEM) seria um bom nome?

Conheço o Silvio há muitos anos. É um bom nome do nosso partido, não há nada que desabone a sua conduta, mas é uma cota pessoal do governo. É preciso que o secretário de Saúde tenha o perfil do governador. E é uma área muito sensível. O secretário de Saúde é uma vidraça, porque envolve a sociedade. Caiado vai pensar muito para escolher uma pessoa que possa responder às expectativas que almeja como governador.

Rafael Oliveira – A coligação do Caiado conseguiu eleger muitos deputados federais e estaduais. Isso indica que o democrata não terá muita oposição ao governo?

Oposição existe em todo lugar. Não temos de ver os interesses políticos, mas sim os interesses do Estado. Como médico, trabalho em equipe, Caiado também, e conseguimos ver o que é o bem comum, que é o paciente. E o bem comum é o Estado. Quem for da oposição tem de pôr a mão na cabeça e analisar o que beneficia a população. Não há o que discutir quando o assunto é o bem comum. Acredito que a política do toma lá dá cá não irá existir. Caiado foi bem claro em todos os discursos. Eu também. Fiz uma campanha limpa. Não fizemos dobradinha, não prometi nada para ninguém nem fiz compromisso com ninguém. Meu compromisso é com Goiás. Quero trabalhar com independência. E Caiado também vai trabalhar com independência. Não haverá secretário dono de secretaria.

Marcelo Mariano – Nos próximos quatro anos, o sr. pretende conciliar as atividades de médico e deputado federal?

Durante a campanha, continuei trabalhando normalmente no Hospital Materno Infantil nas minhas 20 horas pela OS. É possível trabalhar na segunda e na sexta-feira se houver um caso de gêmeos siameses ou mais complexo de outra patologia estarei aqui sim.

Marcelo Mariano – O sr. terá de tratar também dos temas nacionais, alguns polêmicos, como o aborto. Há a discussão para se ampliar até a 12ª semana de gestação. O sr. é favorável?

É um tema muito polêmico que envolve muita coisa. É difícil até de dar uma opinião. Tudo que for dentro da legalidade, da minha consciência e do meu compromisso moral e ético como médico, irei votar. Posso falar sim ou não, mas sou uma pessoa muito moderada.

Marcelo Mariano – Tem se discutido a legalização das drogas, de trazer para o âmbito da saúde pública, não mais da segurança pública. Como o sr. vê esse assunto?

Temos acompanhado fatores positivos e negativos. A cannabis em determinadas patologias neurológicas tenho visto como médico um resultado positivo. É algo que precisar ser tratado no bom senso, sem nada radical. É uma situação nacional que envolve muitas outras coisas. Sabemos muito bem o que está por trás.

Euler de França Belém – O Credeq [Centro Estadual de Referência e Excelência em Dependência Química] funciona bem?

Não conheço.

Euler de França Belém – Mas e a ideia do Credeq?

A ideia é ótima.

Marcelo Mariano – Caiado falou durante a campanha sobre os Hospitais de Almas, que seriam a substituição dos Credeqs. O sr. considera uma boa ideia?

É uma boa ideia.

Euler de França Belém – O sr. quase foi para Harvard?

Tive contato com o pessoal da fundação que trabalho nos Estados Unidos. Conheci alguns profissionais, que ficaram muito impressionados com o meu trabalho das malformações, do hemangioma. Nunca recebi um convite oficial.

Euler de França Belém – Que fundação é essa que o sr. trabalha?

Sou referência no tratamento dos hemangiomas da fundação americana Birthmark Foundation. Na página (birthmark.org) com os experts americanos, acredito que eu seja o único da América Latina, sou referência mundial no tratamento. Se você estiver em qualquer lugar da América Latina e escrever para a fundação pedindo ajuda, a Birthmark manda entrar em contato comigo. Apre­sentei o meu trabalho, que foi muito bem aceito.

Euler de França Belém – A revista da Fapesp traz uma matéria sobre hospital de câncer para crianças. O sr. acredita que caberia uma proposta dessa para Goiânia?

Temos o Hospital Araújo Jorge, que tem um poder de resolução muito grande. Na unidade do hospital de referência que pretendo viabilizar a construção, talvez não comporte essa patologia, porque é direcionada para o Hospital do Câncer, que tem verbas para isso.

Euler de França Belém – Como o sr. vê a proposta encampada pelo vereador Jorge Kajuru (PRP) do Hospital do Diabético?

Uma boa ideia. Diabetes tem crescido no mundo inteiro com esses erros alimentares.

Euler de França Belém – O que o sr. pensa sobre a redução da maioridade penal?

Sou a favor. É outro assunto polêmico. Mas acredito que a pessoa tem de ser punida de alguma maneira. Se coloca uma pessoa em um lugar que é uma fábrica de maldades, o que pode ser ainda pior. Mas é preciso ter uma punição mais rigorosa. É alguém que destrói uma família. Muitos utilizam o adolescente, o jovem, para cometer um crime e o maior ficar impune. É preciso ter uma pena maior para quem estimula a violência do menor. Talvez o menor sozinho não teria essa maldade.
Um projeto que discuti com o pessoal do esporte e que acho interessante é tirar as crianças desse meio para que se possa oferecer uma atividade esportiva e outras alternativas. As crianças hoje ficam no videogame e essa má influência de celular. Acho isso terrível. Outro dia vimos um aluno arremessando uma bolsa em um professor dando aula. Os pais trabalham o dia inteiro e não têm tempo para ficar em casa. Essas crianças ficam jogadas na rua, matam aula, fazem outras coisas. O adolescente tem de ter uma formação familiar mais rígida.

Cirurgião pediatra e deputado federal eleito pelo DEM, Zacharias Calil concede entrevista aos jornalistas Marcelo Mariano, Rafael Oliveira e Euler de França Belém: “O Brasil tem imposto demais”

Euler de França Belém – O sr. é contra ou a favor da CPMF?

Totalmente contra. O Brasil tem imposto demais.

Marcelo Mariano – O sr. é contra ou a favor ao porte de arma?

É um assunto muito polêmico, mas a princípio sou contra. Nós não temos uma educação ainda para ter porte de arma. Para isso a população precisa estar muito consciente. Vivemos em um país que a violência está muito alta. Eu jamais teria uma arma na minha casa. Você quer comprar uma arma? É preciso fazer um curso de capacidade técnica, psicológica, para ter uma arma. Ou você vai ter licença para matar?

Euler de França Belém – A questão é justamente essa. Será que o cidadão comum vai sair mantando por ter uma arma?

Semana passada estava na Avenida T-7, um motorista em uma caminhonete fechou outro carro e puxou a arma para atirar no outro motorista no meio da rua às 9h30. Já pensou que loucura é essa? Você sai de casa e não sabe se vai voltar.

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