Maguito Vilela: “Goiânia comporta uma gestão ousada”

Candidato a prefeito de Goiânia, ex-governador Maguito Vilela (MDB) diz ser possível pensar em uma administração desburocratizada, tecnológica e focada em bons projetos

Ex-governador de Goiás e candidato a prefeito de Goiânia, Maguito Vilela (MDB) diz que experiências à frente do Estado e da Prefeitura de Aparecida de Goiânia mostram que é possível avançar na capital | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Maguito Vilela (MDB) teve sua mais recente experiência de gestão pública à frente da Prefeitura de Aparecida de Goiânia. De cidade-dormitório, a vizinha da capital passou por um processo de modernização, com captação de recursos nacionais e internacionais que geraram aumento de empregos e arrecadação ao município. Maguito saiu bem avaliado e fez seu sucessor, o prefeito Gustavo Mendanha (MDB).

Candidato a prefeito de Goiânia, o emedebista quer trazer a experiência vivida em Aparecida para a capital. Larga em terceiro nas pesquisas de intenção de votos, mas diz que enfrenta dois candidatos conhecidos do eleitor goianiense porque estavam na disputa em 2016. “Com o desenrolar da campanha, tudo muda. Toda pesquisa começa de uma forma e termina de outra completamente diferente.”

Augusto Diniz – A pesquisa Serpes/O Popular do dia 26 de setembro mostra que o sr. está em terceiro lugar na pesquisa estimulada de intenção de votos em empate técnico com a segunda colocada, a deputada estadual Adriana Accorsi (PT). Como o sr. analisa os números?
Com muita naturalidade. Tanto a deputada Adriana Accorsi quanto o senador Vanderlan Cardoso (PSD) disputaram as últimas eleições. Os dois têm um recall bem alto. É a lembrança que o eleitor da última eleição disputada. Há muito tempo não disputo eleições em Goiânia. A última foi há 14 anos. Meu nome é pouco lembrado.

Mas, com o desenrolar da campanha, na qual teremos a televisão, o rádio, os jornais, as mídias sociais e a campanha nas ruas, tudo muda. Toda pesquisa começa de uma forma e termina de outra completamente diferente. Depois que toda a cidade souber que realmente sou candidato, conhecer meu plano de governo e minhas ideias para Goiânia, o que pretendo fazer pela capital, o resultado da pesquisa deve mudar muito.

Patrícia Moraes Machado – Quando o sr. deixou a Prefeitura de Aparecida de Goiânia, há quase quatro anos, a cidade estava completamente modificada. Aparecida teve a sua identidade modificada em oito anos. Era uma cidade-dormitório e hoje é um município que gera economia para o Estado. O sr. irá utilizar Aparecida como vitrine a ser apresentada para Goiânia?
Não é só Aparecida. Também fui um governador muito bem avaliado. Sempre fiquei entre primeiros lugares do Brasil em gestão e popularidade. Mostrarei a Goiânia que fiz um governo voltado para a industrialização e geração de emprego. Trouxe para Goiás a Perdigão, a Mitsubishi, a Manz, a Hering e muitas outas indústrias. A Perdigão é hoje a maior empregadora de Goiás, que gera o maior ICMS [Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação] de todas as empresas.

Enquanto governador, fiz programas sociais do leite, do pão, da isenção da água, da energia, da cesta de alimentos, que depois se transformou em cartão. Me preocupei em cuidar das pessoas. O social levou muita vantagem no meu governo. Construí o Centro Estadual de Atenção Prolongada e Casa de Apoio Condomínio Solidariedade para pessoas com HIV. Firmei parcerias importantes com todas as entidades filantrópicas, como a Vila São Cottolengo.

Como governador, estava atento à questão do empreendedorismo, da geração de emprego e renda, mas me preocupava também com as pessoas que sofriam, estavam desempregadas, que passavam fome, com as crianças abandonadas. Tive um olhar diferente e realmente cuidei das pessoas que precisavam do apoio do poder público naquela época.

Em Aparecida não foi diferente. Ajudei a cidade a se industrializar. A cidade tinha 6 mil CNPJs quando assumi a prefeitura. Hoje são 36 mil CNPJs ativos. O asfalto chegou a mais de cem bairros. Construímos 33 CMEIs [Centros Municipais de Educação Infantil], 29 UBSs [Unidades Básicas de Saúde], três UPAs [Unidade de Pronto Atendimento] e o Hospital Municipal. Dos hospitais públicos de Goiás, a unidade de Aparecida é a mais moderna.

Levamos uma unidade da Universidade Federal de Goiás (UFG) com cinco cursos de engenharia e um Instituto Federal de Goiás com curso de engenharia e cursos profissionalizantes. Dois cursos de medicina se instalaram no município. Nenhuma cidade do Brasil passou por tantas transformações em todas as áreas.

Fizemos eixos estruturantes, como o Norte-Sul, que liga Goiânia ao Centro de Aparecida às margens da BR-153. Construí 35 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas. Aborizamos a cidade. Cuidados e fizemos parques e muitas praças. Aparecida recebeu mais de R$ 1 bilhão em investimentos no meu governo.

O prefeito Gustavo Mendanha (MDB) manteve as realizações da minha gestão e fez ainda mais por Aparecida, com grande investimento em tecnologia. A cidade passou a contar com o Centro de Inteligência Tecnológica, que monitora toda a cidade, tanto o setor público quanto o privado. É uma revolução tecnológica. Aparecida foi preparada e entrou no segundo estágio, que é o da modernização e da inovação por meio da tecnologia.

Augusto Diniz – Como o sr. avalia a gestão da capital? O que planeja fazer caso seja eleito prefeito?
Goiânia tem sido muito bem administrada, com obras fantásticas, como as trincheiras, pontes, viadutos, travessias ao longo da cidade e o BRT Norte-Sul. Goiânia tem recebido obras de recapeamento em praticamente toda a cidade. Tenho andado pela cidade e vi centenas de ruas recapeadas, com asfalto novo nos bairros. O prefeito Iris Rezende investiu em todas as áreas. Umas mais e outras um pouco menos em decorrência das prioridades. Mas houve bastante investimento em mobilidade.

Queremos continuar este trabalho extraordinário e incluir Goiânia em uma nova fase. Por exemplo, implantar eletrificação subterrânea. É preciso tirar este amontoado de fios da cidade e coloca-los embaixo do chão. Instalar luminárias inteligentes, com aparelho que meça o ar e a água. Luminárias com câmeras de videomonitoramento interligadas em rede com as imagens dos sistemas de câmeras de residências, prédios, comércio e indústria. Esta ação irá gerar uma prevenção muito grande à criminalidade.

Para implementar estas ações, é preciso ter uma internet rápida. Exigiremos das operadoras que instalem antenas em todos os pontos necessários. As operadoras são obrigadas a instalar as antenas e cabe ao poder público colocar as linhas de fibra óptica. Fizemos em Aparecida, que hoje tem mais fibra óptica do que todas as cidades de Goiás juntas. E vamos fazem em Goiânia.Existem cidades que já contam com wi-fi em todo lugar. A pessoa acessa a internet de qualquer local que estiver com o wi-fi da cidade. É algo que facilita a vida das pessoas. Colocaremos Goiânia neste segundo estágio de modernidade, que é o futuro, algo que todas as cidades grandes começaram a fazer.

Visitei o Parque Tecnológico Samambaia, da Universidade Federal de Goiás (UFG). É perfeito. Precisa de parcerias com o poder público. São necessárias obras de arruamento, asfalto, rede de esgoto. É o que pretendo fazer juntamente com a UFG. A prefeitura não terá de construir um novo parque tecnológico. Basta ser parceira da Universidade Federal para resolver o problema. São várias as empresas no Parque Tecnológico Samambaia que geram tecnologia.

Com boas parcerias, o parque da UFG é uma iniciativa que será muito ampliada. É uma ação que facilitará a vinda de indústrias limpas para Goiânia, não poluentes. Um exemplo é a indústria de drones. Goiânia é o centro do País, é o centro da América do Sul. Imagine Goiânia com fabricação de drones para venda a outros Estados do Centro-Oeste, do Norte e do Sul. Drones utilizados no monitoramento de lavouras, queimadas e a segurança pública das cidades.

Goiânia é o local ideal para a instalação de uma fábrica de aviões agrícolas. Em 1995, fui à Polônia tentar trazer para Goiás a indústria de aviões agrícolas que, à época, a mais moderna. Goiás é o segundo Estado em montagem de aeronaves. Pode ter na capital a montagem de aeronaves e a industrialização de peças. Goiânia tem esta vocação.

Vamos buscar indústrias de placas fotovoltaicas, que é outra questão importantíssima. A energia solar é uma realidade. Tive a oportunidade de ver em Aparecida uma árvore tecnológica com tomadas para carregar o celular, ouvir um som, com o aparelho que mede a temperatura, a iluminação pública. É algo impressionante! Tudo com captação de energia solar, que é transformada em energia elétrica.

É um projeto que vi na Feira de Barcelona, com tecnologia da Huawei, empresa da qual a Prefeitura de Aparecida de Goiânia adquiriu quase toda a tecnologia. A Huawei é uma das maiores empresas do mundo em tecnologia. Goiânia comporta uma gestão ousada. É preciso tirar a BR-153 do centro. Que o novo traçado saia do posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Anápolis e vá até o postão em Hidrolândia. E a avenida pode ser transformada com paisagismo, com urbanização, instalação de mais universidades, hotéis, restaurantes, artesanato no trecho onde hoje a BR-153 está no perímetro urbano.

“Mostrarei a Goiânia que fiz um governo voltado para a industrialização e geração de emprego”

“Dá para avançar muito além dos serviços básicos” | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Patrícia Moraes Machado – Até porque os prédios públicos estão sendo transferidos para aquela região.
O projeto está pronto. Basta unir forças. Não é tão caro realizar o desvio da BR-153.

Euler de França Belém – A proposta do sr. não é trazer todo tipo de indústria para Goiânia.
Não. Os prefeitos passados acertaram. As indústrias tinham chaminés, poluíam muito, emitiam muito barulho.Hoje isso acabou. São indústrias limpas, que nem barulho fazem mais. Temos um comércio e um setor de serviços fortes. Mas é preciso ter indústria. Porque são as indústrias que geram empregos e promovem o desenvolvimento.

Augusto Diniz – O sr. propõe ir além do debate feito na eleição de 2016, quando Vanderlan apresentava a criação dos polos regionais e Iris dizia que não queria na capital indústrias poluentes? Há quatro anos, a realidade era de serviços paralisados, como a coleta do lixo.
O problema do lixo precisa ser resolvido com a transformação dos rejeitos em energia, carvão ou outra finalidade. Não podemos mais ter aterros como os que existem hoje. Precisamos dar uma destinação correta ao lixo. É algo que procuraremos resolver.

Dá para avançar muito além dos serviços básicos. A questão dos semáforos pode ser resolvida com softwares modernos para sincronizar os cruzamentos e criar linhas verdes em avenidas. Isto já ocorre nas grandes cidades. Em Goiânia, é uma situação fácil de resolver. Já existe um início de trabalho, não com softwares tão modernos quanto os existentes, mas é preciso aprimorar o sistema.

Euler de França Belém – De onde o sr. irá tirar dinheiro para fazer estas ações?
Com desburocratização. Iris avançou na gestão municipal. Desburocratizou. Criou o Alvará Fácil e o Uso do Solo Fácil. Mas temos de desburocratizar todas as secretarias. Todas são amarradas. Não só aqui, no Brasil inteiro. Quem quer construir um prédio não pode esperar um ano e três meses. Hoje a vida é supersônica. É preciso ter a liberação do alvará em poucos dias para se construir um prédio ou instalar uma indústria. A prefeitura tem de ser tão ágil quanto a iniciativa privada. Por que a prefeitura tem de ser amarrada? Receber qualquer coisa na prefeitura é tanto processo, tanta burocracia. Se tiver de pagar, é preciso pagar logo. Com a diminuição da burocracia, todo mundo ganha.

Euler de França Belém – O sr. disse que o prefeito Iris Rezende priorizou algumas áreas, o que ocorreu em decorrência dos recursos. O sr. apresentou muitos projetos. Onde o sr. irá conseguir dinheiro para implementá-los?
É uma pergunta muito interessante e inteligente. Quando disse que faria um programa social para todo o Estado, todo mundo duvidou e nós fizemos. Quando anunciamos que levaríamos luz à zona rural, todo mundo duvidou. Consegui um empréstimo em um fundo japonês. Hoje quase todas as propriedades rurais têm energia e tecnologia. Todo mundo perguntava onde eu buscaria dinheiro? Eu sabia, fui e busquei.

Em Aparecida, a experiência foi igual. Não tinha um centavo no caixa. A cidade não tinha caminhão coletor de lixo ou ambulância. Recursos existem no Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], CAF [Corporação Andina de Fomento], Banco Mundial. Tem dinheiro. Mas é preciso ter bons projetos. Além de bons, os projetos têm de ser convincentes.

Visitei a presidência do CAF e apresentei os projetos que pretendia implementar em Aparecida. Conseguimos empréstimo com pagamento em 20 anos e juros infinitamente menores do que os praticados pelo mercado. Os eixos estruturantes são obras que geram melhorias para o bairro, que começa a ter um pequeno comércio, como cabeleireiro, panificadora e supermercado e enriquece a região. São empresas que geram recurso para a prefeitura, que realiza obras e consegue aumentar a arrecadação de ICMS e ISS [Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza]. Os fundos internacionais estão dispostos a emprestar dinheiro. Tem dinheiro de sobra no mundo inteiro.

Buscamos os recursos, fizemos as obras, a cidade e a qualidade de vida do povo melhoraram muito, a arrecadação triplicou nos oitos anos em que estive à frente da prefeitura.O PIB [Produto Interno Bruto] mais do que triplicou. As agências bancárias foram para Aparecida. A cidade foi completamente modificada.

Criei em Aparecida uma secretaria de elaboração de projetos e captação de recursos. Foi a minha salvação. Uma estrutura com arquitetos, engenheiros e advogados para elaborar bons projetos e captar recursos. Fui a todos os ministérios e ao BNDES. O prédio fantástico da Prefeitura de Aparecida foi construído com R$ 40 milhões em recursos do BNDES. Farei o mesmo em Goiânia, a criação de uma secretaria exclusivamente para elaborar os projetos e ir buscar os recursos.

Fui a Brasília inúmeras vezes. Perdi as contas que quantas vezes fui ao Rio buscar recursos. Estive em Barcelona para negociar. O gestor tem de se virar. Nada cai do céu. Juntando forças da Prefeitura de Goiânia com a Prefeitura de Aparecida, a Assembleia e o governo do Estado, faremos tudo que for preciso ser feito.

Augusto Diniz – A criação da Secretaria Especial de Projetos e Captação de Recursos foi beneficiada de alguma forma pelo bom trânsito que o sr. tinha nos governos petistas à frente do Palácio do Planalto? O que muda na busca de recursos com bons projetos diante do governo Bolsonaro?
Nada disso interfere. Tanto que muitos prefeitos do PT não conseguiram recursos com os ex-presidentes Lula [da Silva]e Dilma [Rousseff]. Talvez não tivessem bons projetos ou não souberam articular e provar a importância das propostas. Não é só através do governo federal que podemos financiar as iniciativas, temos inúmeros fundos internacionais.

O governo federal terá de retomar o incentivo à economia depois da pandemia. O País não pode ficar parado. Tem de se investir mais no agronegócio, produzir mais alimentos sem derrubar uma árvore. Podemos dobrar a produção de alimentos no Brasil sem derrubar árvore. Basta calcariar as terras, colocar o adubo necessário.

Muita gente não produz porque não tem condição de melhorar a condição de plantio na sua terra. O mundo precisa muito de alimentos. O Brasil será o grande celeiro. É preciso investir para haver o retorno. Os gestores públicos terão de ser ousados. Se não houver ousadia, a economia ficará estagnada, o desemprego continuará a crescer, o problema social se agravará, o que gerará fome. Hoje já temos milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza. Quero participar do incentivo à retomada do desenvolvimento.

Patrícia Moraes Machado – Uma das queixas da sociedade é o serviço prestado de fornecimento de energia elétrica. Governos passados culparam o sr. por dificuldades enfrentadas pela Celg a partir da venda da Usina de Cachoeira Dourada. Como resolver a questão da distribuição de energia?
Este foi o maior blefe do mundo. Pouquíssimos Estados têm geradora de energia. O que dá dinheiro em energia é a comercialização, não é a geração. O próprio Tribunal de Contas do Estado (TCE) mesmo foi claro sobre a questão. A Enel ainda não investe a todo vapor, mas o serviço já melhorou bastante. Quero crer que irá investir muito mais.

Patrícia Moraes Machado – Para que os projetos que o sr. apresentou saiam do papel, será preciso contar com um bom serviço de fornecimento de energia. O sr. irá buscar a Enel para firmar parcerias?
É preciso ser parceiro. Não adianta falar mal da empresa. É preciso firmar parcerias. Não só a Enel, mas iremos buscar parceria com todas as empresas importantes.

“Queremos continuar o trabalho extraordinário de Iris e incluir Goiânia em uma nova fase”

“Iris avançou na gestão municipal. Desburocratizou. Criou o Alvará Fácil e o Uso do Solo Fácil. Mas temos de desburocratizar todas as secretarias” | Foto: Divulgação/Prefeitura de Goiânia

Augusto Diniz – A gestão Iris conseguiu um empréstimo de R$ 780 milhões para troca do asfalto das ruas e avenidas da cidade. O sr. sabe quanto do recurso ficará disponível?
O dinheiro do recapeamento está em caixa. O dinheiro da maioria das obras também está em caixa. Daremos continuidade a todas as obras. As que não forem inauguradas da gestão Iris, caso eu seja eleito, quem fará as inaugurações será o prefeito Iris Rezende, até por uma questão de justiça. Iris foi o responsável por captar, projetar e licitar as obras.

Por isso Iris será a pessoa a inaugurar em homenagem à história do prefeito. Se eu concluir, será uma conclusão de obras que estão quase prontas. Em alguns momentos, a pandemia atrapalhou um pouco. As chuvas também podem atrapalhar um pouco. Mas ficarão recursos em caixa para o recapeamento e o asfalto novo.

Patrícia Moraes Machado – O sr. concorda com a decisão do prefeito Iris Rezende de retirar de tramitação o projeto de revisão do Plano Diretor de Goiânia?
Iris entendeu que o período eleitoral não é o momento de votar alterações no Plano Diretor. O momento de analisar o Plano Diretor é na calmaria. É preciso estudar bem cada emenda. A cidade precisa de um Plano Diretor correto. No período eleitoral, um vereador pode conseguir passar uma emenda que não seja ideal para a cidade.

Patrícia Moraes Machado – O sr.a ler o projeto de revisão do Plano Diretor?
Não. Só o que foi divulgado na imprensa. Mas não tenho conhecimento profundo do texto da revisão do Plano Diretor. É uma discussão muito importante que talvez precise mesmo de aguardar o momento certo de votação.

Augusto Diniz – Um dos motivos que fez com que o prefeito retirasse o projeto da Câmara foi a identificação dos vereadores que assinaram uma emenda coletiva para ampliar a expansão urbana de Goiânia em 32%. Como o sr. se posiciona sobre a discussão da expansão urbana na capital?
Existe certa lógica, mas até determinado ponto. Não pode haver uma expansão que incentive dobrar a população de Goiânia de repente sem o devido planejamento e a infraestrutura adequada. Mas se for uma proposta de expansão urbana para a instalação de um polo industrial, por exemplo, na Região Noroeste. No caso de se optar por polos industriais, o ideal é que se faça em todas as regiões.

São mais de 300 mil habitantes na Região Noroeste. Levar para aquela região indústrias limpas que geram empregos, que diminua o deslocamento do funcionário nos ônibus superlotados. Se a região contar com UPA, UBS e escola próximas à casa daquela pessoa, a vida é facilitada. Isto tudo tem de ser muito bem estudado. Não pode ser votado com rapidez. É preciso avaliar de forma criteriosa.

Euler de França Belém – O sr. sabe quantas pessoas em Goiânia estão abaixo da linha da pobreza?
Aproximadamente 24 mil famílias em Goiânia estão abaixo da linha da pobreza. Reuni as entidades filantrópicas para discutir a situação. Prevejo uma situação muito delicada após a pandemia. É importante ter um olhar diferenciado para o social, principalmente nos momentos de muita aflição, que é o pós-pandemia. Os governos precisarão estar muito atentos. O auxílio emergencial irá acabar. A distribuição de cestas básicas feita por empresas tende a ser encerrada. É quando a área social da prefeitura precisará atender estas demandas.

Augusto Diniz – Há algo específico que o sr. pensa em apresentar para o momento de pós-pandemia?
Ouvi todas as entidades e estou reunido com a equipe de elaboração do plano de governo para estudar um programa de enfrentamento a esta situação. A questão ainda não está fechada.

Euler de França Belém –O sr. irá discutir a criação de subprefeituras?
Não.Com as ações que discutimos, teremos condições de ter Goiânia na palma da mão com o celular. Criar subprefeituras é uma forma de gerar cabide de emprego, o que aumentará ainda mais o custo do já inchado setor público. É preciso modernizar a gestão. Não vejo com bons olhos a criação de subprefeituras.

Os vereadores estão todos os dias nos bairros, conhecem os problemas da cidade e levam as demanda à prefeitura. Hoje você chama um motorista por aplicativo, compra comida pelo celular e resolver qualquer problema pelo smartphone. Isto é modernidade. Criação de subprefeitura é coisa arcaica.

Euler de França Belém – O sr. pensa em ter uma atuação mais forte na área de transporte público?
O problema do transporte está em estudo junto com nossa equipe. É uma questão que precisa ser estudada com muito cuidado. Visitarei algumas cidades que deram certo, a exemplo de Curitiba (PR) e Medellín (Colômbia). Em algumas cidades, o transporte coletivo é muito avançado e deu certo. Terei a humildade de conhecer experiências bem sucedidas e trazer para Goiânia. Não posso dizer que resolverei o transporte de determinada maneira sem antes conhecer profundamente o problema.

Euler de França Belém – Por que o prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), decidiu não apoiá-lo? Sobretudo, ao não apoiá-lo, fica a sugestão de que, indiretamente, estaria a apoiar Vanderlan Cardoso (PSD).
De forma alguma. Em várias oportunidades, o prefeito Iris manifestou a neutralidade. Não irá apoiar qualquer um dos dois. Isso está muito claro. Importante é que o partido do prefeito, o MDB, me apoia de forma unânime, todo o secretariado e os demais escalões da prefeitura também. Por ter decidido encerrar a carreira, o prefeito decidiu, por enquanto, não fazer qualquer manifestação.

Mas o MDB, com toda sua estrutura e seguidores, nos apoia. Lógico que se o prefeito fizesse uma declaração em apoio à minha candidatura seria uma maravilha! É algo que depende única e exclusivamente do prefeito, não quero causar qualquer tipo de constrangimento ao Iris.

Euler de França Belém – O sr. não ficou insatisfeito com a posição do prefeito?
Não. É preciso respeitar a decisão dos companheiros e dos amigos. É uma virtude saber compreender a posição daqueles que são seus amigos. No caso do prefeito Iris Rezende, meu companheiro há 40 anos. Por isso, entendi perfeitamente.

Euler de França Belém – Acredita que o prefeito Iris Rezende irá votar no sr.?
Tem tudo para isso ocorrer. Mas como o voto é secreto, difícil afirmar.

Patrícia Moraes Machado – Pode-se dizer que a entrada do secretário municipal de Governo, Paulo Ortegal, na campanha do sr. seria um bom sinal?
Paulo Ortegal, Agenor Mariano [ex-secretário municipal de Administração], pastor Wilson Rocha Baleeiro Júnior [chefe de gabinete do prefeito] e todos os secretários. Nos reunimos e todos manifestaram apoio.

“Até aquele momento, o governador não havia definido aliança alguma. Era natural que procurássemos o DEM”

Maguito Vilela, ex-governador e candidato a prefeito de Goiânia, em entrevista aos jornalistas Patrícia Moraes Machado, Euler de França Belém e Augusto Diniz: “Se Vanderlan tivesse se mantido na oposição, havia a chance de o senador se tornar um candidato muito mais forte em 2022” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Patrícia Moraes Machado – A base do prefeito na Câmara Municipal está com o sr. na campanha?
Todos os 23 vereadores que apoiam o prefeito estão em nossa campanha. É um sinal extremamente bom para o partido e para mim.

Augusto Diniz – É possível dizer hoje que, mesmo sem Iris Rezende na campanha, toda a prefeitura apoia a candidatura do sr.? Há alguma resistência ao seu nome na disputa?
Que eu saiba, não há qualquer resistência à minha candidatura.

Euler de França Belém – O sr. buscou apoio do governador Ronaldo Caiado (DEM) para disputar a Prefeitura de Goiânia. Qual foi a motivação desta negociação?
Não é uma questão de buscar apoio do governo, mas buscar alianças com todos os partidos. A democracia enseja a busca de aliança com todo e qualquer partido. Por isso, fomos até o DEM e conversamos com o governador. Até aquele momento, o governador não havia definido aliança alguma. Era natural que procurássemos o DEM. Todos os candidatos procuraram os outros partidos, conversaram com todos, como recomenda o regime democrático.

Augusto Diniz – Qual o peso o sr. avalia que Caiado teria na sua campanha? E qual peso tem na candidatura de Vanderlan Cardoso?
O interessante das eleições municipais é ter suas próprias peculiaridades. Em Goiânia, o governador nunca elegeu prefeito. Lembro-me que era um governador muito bem avaliado, mas não consegui transferir os votos necessários para a eleição do Luiz Bittencourt em 1996. Foi uma disputa acirrada, apoiei verdadeiramente a candidatura de Bittencourt, mas não conseguimos vencer as eleições.

Vi muitos governadores forçarem apoio ao candidato a prefeito na capital e, mesmo assim, não dar em nada. Governador, geralmente, não interfere nas eleições municipais. Cada cidade tem as suas características e peculiaridades. Houve muitos líderes locais com influência no pleito municipal, não líderes estaduais ou federais.

A mesma coisa ocorre nos Estados. De nada adianta um presidente da República tentar eleger governador. Os Estados que elegem, sem interferência do presidente. Muitas vezes, a interferência acaba por ser negativa. Raramente um presidente consegue influenciar o resultado das eleições estaduais, mas é difícil.

Patrícia Moraes Machado – O MDB construiu uma aliança com o senador Vanderlan Cardoso em 2018 e formava um novo grupo político em Goiás. Havia um acerto para caminharem juntos, mas a aliança não se concretizou para a disputa da prefeitura. Por que a união iniciada em 2018 não foi mantida em 2020?
Justamente porque os partidos entenderam que era hora de lançar candidatos. Até então, o senador Vanderlan Cardoso não era candidato a prefeito. O nome do PSD era o deputado federal Francisco Jr., que já havia sido lançado e sabatinado. O governador ainda não tinha lançado um nome para disputar a Prefeitura de Goiânia. Ventilou-se o nome do deputado federal Zacharias Calil (DEM), que também não vingou. O MDB esperava que Iris fosse candidato a reeleição. Não foi. Houve uma verdadeira mudança em todo o quadro.

O MDB está à frente da gestão em Goiâniae realiza um trabalho espetacular com nosso líder Iris Rezende. Entendi que o partido não poderia ficar sem candidato na capital e me lancei à disputa. O sonho do governador de lançar um candidato não se concretizou. E o senador Vanderlan entendeu que deveria deixar o Senado com dois anos de mandato para disputar a eleição de prefeito. Foi uma reviravolta geral no quadro político. São decisões partidárias. O PSD quis ter candidato, o PSDB quis lançar um nome, o PT também, o MDB da mesma forma. Assim como outros partidos.

Patrícia Moraes Machado – Há versões que dão conta de um desentendimento entre o sr. e Vanderlan.
Na realidade, não há desentendimento político. Apoiamos o governador Ronaldo Caiado para o Senado em 2014, que apoiou Iris Rezende para a prefeitura em 2016. A questão ficou no zero a zero, um não deve coisa alguma ao outro em questão de apoio. Vanderlan apoiou Daniel Vilela ao governo e o MDB o apoiou na disputa ao Senado em 2018. Vitória de Vanderlan com os méritos do senador e a ajuda do MDB.

Não tínhamos e não temos compromisso com ninguém para 2022. Como acredito que PSD e DEM não tenham compromisso para as eleições estaduais. Ao menos não é do conhecimento público. Entendo que está tudo em aberto. Por isso, não temos dificuldade em dialogar com o governador, o senador ou qualquer outro candidato. Vamos disputar as eleições municipais de forma tranquila, propositiva, em alto nível, sem qualquer problema.Sou amigo de todos.

Augusto Diniz – Em entrevista ao Jornal Opção, Vanderlan disse que só entrou na campanha a partir do momento que o sr. e o MDB passaram a negociar com o governador. A partir daquele momento, o senador afirma que percebeu que ficaria sozinho no quadro de alianças políticas e precisava entrar no jogo. O sr. concorda que Vanderlan entrou na disputa em Goiânia porque o MDB negociou com Caiado?
Não existe lógica neste raciocínio. Você pode até pensar que o apoio de um governador ou de prefeitos é importante em uma eleição, mas às vezes pode deixar de ser. Um exemplo é a eleição do governador Ronaldo Caiado em 2018, que chegou ao governo praticamente sem apoio de prefeitos e líderes importantes. Foi praticamente sozinho. Se Vanderlan tivesse se mantido na oposição, havia a chance de o senador se tornar um candidato muito mais forte em 2022.

Patrícia Moraes Machado – O sr. é conhecido pela longa história na vida pública em Goiás – já foi prefeito de Aparecida de Goiânia, senador, governador – como um político agregador. Tem como identidade a união e o diálogo. Já o ex-deputado Daniel Vilela (MDB) é mais combativo, parte para o enfrentamento. A diferença de posturas entre o sr. e Daniel no MDB pode prejudicar a sua candidatura na construção de alianças?
De forma alguma.São arroubos da juventude. Daniel às vezes é um pouco mais afoito, mas é completamente compreensível. Todas as críticas feitas por Daniel são pertinentes. São coerentes. E são feitas também em alto nível. Daniel não critica alguém de forma pessoal, não vai para o baixo nível. É uma característica que vejo como correta. Sou mais conciliador até por uma questão de natureza. Já passei por tantos cargos públicos, devo tanto a muitos líderes e eleitores. Por que passaria agora ao com determinado político? Não faz sentido.

O principal é que já tenho o entendimento de que os políticos conciliadores beneficiam muito mais o povo, sua cidade, Estado ou país do que aqueles que discordam, discutem ou brigam muito. É algo que não soma. O governo municipal tem de unir forças com o governo estadual e o governo federal. É preciso unir forças com o Congresso Nacional, com a Câmara Municipal e com a Assembleia Legislativa para trazer recursos e benefícios com a sociedade. Se começar a brigar com os outros poderes, não conseguirá beneficiar o povo. Política é a arte de bem administrar uma cidade, um Estado ou um país, levar benefícios e atender os pleitos da sociedade.

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