Luciéliton Mundim: “Não há nada em que a IA não consiga superar o ser humano. Já superou em muitas coisas e vai nos ultrapassar até nas características humanas”
03 janeiro 2026 às 21h00

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Com quase três décadas de experiência acompanhando de perto as transformações tecnológicas, Luciéliton Mundim construiu uma trajetória que começa nos tempos da internet discada e chega ao atual debate sobre o uso estratégico da Inteligência Artificial (IA). Empresário há mais de 20 anos e à frente de uma empresa com cerca de 50 colaboradores, ele atua na interseção entre tecnologia, gestão e segurança digital, com foco em tornar a IA uma ferramenta prática, eficiente e alinhada à realidade de cada negócio.
Fundador da NOX5, empresa que nasceu há 15 anos no suporte e manutenção de computadores e hoje tem a cibersegurança como principal área de atuação, o empresário acompanha de perto tanto os avanços quanto os riscos trazidos pelas novas tecnologias. Em entrevista ao Jornal Opção, Luciéliton Mundim fala sobre o crescimento do uso da IA por empresas e também por grupos criminosos. Ele defende que o diferencial não está apenas em “usar” a ferramenta, mas em saber aplicá-la de forma consciente, segura e estratégica, respeitando o perfil do público, os processos internos e os objetivos de cada organização. Para ele, a IA já trouxe vários benefícios à sociedade, principalmente, nas áreas da Saúde e Educação e que caminha para superar o homem até nas características humanas.
Ainda durante o bate-papo, o especialista, que também ajudou na criação do curso de cibersegurança do Senac e do Senai, fala sobre a evolução da Inteligência Artificial, seus impactos no mercado de trabalho, casos práticos de aplicação em empresas brasileiras e os desafios que surgem quando a mesma tecnologia pode ser usada tanto para ampliar a eficiência quanto para alimentar golpes, fraudes e ataques cibernéticos. Além disso, destaca o futuro da IA, a importância do aprendizado da tecnologia desde cedo e os desafios para manter profissionais da área no mercado local.
Como você se tornou especialista em Inteligência Artificial?
Eu comecei há 30 anos, ou seja, em 1995, em uma época de computadores com internet discada. Eu acompanhei todas as revoluções tecnológicas. Eu entendo que especialista é aquele que usa a Inteligência Artificial e entende como ela vai te atender, resolver os problemas, explorar os potenciais da ferramenta. Muitas pessoas falam que usam a IA para isso ou aquilo, mas será que estão sabendo utilizá-la de maneira efetiva no seu trabalho ou no dia a dia? É neste momento que eu entro: eu analiso a empresa, entendendo de maneira bem minuciosa o que é feito, e trago uma proposta com quais IAs vão ajudar você a ser mais ágil e assertivo perante o seu cliente, gastando menos recursos.
Inteligência Artificial já é uma realidade para todas as empresas?
Não. É um mercado ainda que está engatinhando e que tem grandes possibilidades. Todo mundo já utilizou pelo menos o básico da IA. Dentro de uma empresa, por exemplo, eu acredito que vários colaboradores, de alguma maneira, têm um determinado nível de acesso à tecnologia. As questões que surgem são: a utilização é institucionalizada? Como as empresas estão extraindo valores nisso? Não adianta ter um funcionário utilizando com mais frequência e outro menos. Então, eu faço essa institucionalização. É entender os processos, colocá-los dentro da IA e obter resultados que vão ajudar na empresa.
Alguns especialistas falam que a IA pode acabar com algumas funções, inclusive com a dos jornalistas. Até que ponto ela pode ameaçar o mercado de trabalho?
Em nenhum ponto. Isso é uma lenda urbana. O mercado de trabalho nunca acaba, ele sempre se transforma. Quando a internet chegou, disseram que era o fim do jornal impresso. Em outras situações, diziam-se que o computador também iria acabar com várias profissões. Mas o que aconteceu de fato: milhares de outras profissões foram criadas. Entendo que hoje não tem mais cursos de datilógrafos, por exemplo, porque a máquina de datilografia foi uma tecnologia para uma determinada época. Com o passar do tempo, surgiram novas. As pessoas precisam entender que elas são indispensáveis. Enquanto jornalista, você pode pegar essa entrevista, colocar em uma IA e pedir para que ela faça um resumo em tópicos, transforme em clickbait ou colocar em um formato que chame atenção do seu leitor. Mas o crivo final de saber se isso casa ou não com a linha editorial do jornal é seu. É com ofeeling que você adquiriu com o tempo de profissão. O que ela vai fazer é melhorar o seu material.
Com o avanço da Inteligência Artificial em diversos setores, é importante que haja uma atualização por parte das gerações? Há o risco de, em caso contrário, essas pessoas se tornarem analfabetos digitais?
Totalmente.
A IA terá de ser ensinada na formação inicial da criança, para que ela entenda como isso pode agregar no conhecimento dela e se proteger de certo modo.
O ensino tem mudado porque, na maioria dos casos atuais, o aluno sabe usar mais a IA do que o professor. Então, como o educador pode utilizar as ferramentas a seu favor? Como eles podem trabalhar juntos? E como será essa capacitação? São várias perguntas, mas uma certeza é que o conhecimento sobre IA consegue entregar muitas coisas positivas. Várias áreas já estão sendo beneficiadas. A saúde é um grande exemplo disso. Nós temos peptídeos que estão sendo criados, como o Mounjaro, que foi criado em conjunto com a OpenAI. É o primeiro grande sucesso da medicina com o auxílio da IA.
Na sua visão, a IA foi pensada para se tornar, aos poucos, o que ela é hoje?
A IA foi uma explosão. Chegou de maneira muito rápida nas empresas, nas vidas das pessoas, quando é comparada com outras tecnologias: rádio, televisão e internet. É um paradigma bem interessante porque houve esse momento da virada. Antes, a IA consistia na análise de dados e, de repente, veio um raciocínio. Eu entendo que há muita especulação e lendas urbanas sobre uma das indústrias mais ricas do mundo, que é a farmacêutica. Criam-se teorias de que já existe cura para determinada doença, mas que vir à tona não é interessante financeiramente falando.
O fato é que, com a IA, esse raciocínio acaba sendo mais acessível para pequenos e médios laboratórios, que, possivelmente, conseguirão competir com os grandes. E, se efetivamente a cura de determinada doença já existir, eles vão ter que soltar ao público. Os grandes centros de medicina, como a França e os Estados Unidos, já estão utilizando a IA, em conjunto, para buscar, principalmente, a cura do câncer. Dessa forma, no ritmo que estamos indo, com uma visão externa, não de um especialista em saúde, mas de TI, eu digo que alguns tipos de câncer vão deixar de existir em cinco anos.
A conceituada revista Sciencetrouxe uma reportagem em que uma espécie de guru afirma que, após 2030, ninguém iria mais morrer de doenças por causa dos avanços proporcionados pela IA. Para você, essa afirmação é verdadeira?
Isso é um fato. A pessoa que vai viver com saúde até os 150 anos já nasceu e está entre nós. Se você conseguir se cuidar até cinco ou dez anos, sem entrar no mérito do financeiro para se ter acesso à tecnologia, que é outro ponto a ser abordado, sem dúvida chegará aos 150 anos, com mais saúde, restaurando células e curando doenças que matam.
Mas é fato que isso gera um monte de outras implicações. A Terra vai ficar superpopulosa, terá impacto na economia, na agricultura… São temas que ainda não sabemos como serão resolvidos, mas o fato é que atingir essa idade será algo possível.

O filme 2001 – Uma Odisseia no Espaçotinha o personagem HAL 9000, que era uma Inteligência Artificial que controlava a nave espacial em que estava a tripulação. Ao longo do filme, ele vai se mostrando o grande vilão do enredo, se colocando inclusive com o objetivo de eliminar as pessoas. Com essa premissa, há possibilidade da IA jogar contra e se tornar um mal para a humanidade?
Sem dúvida. A IA tem um lado mau-caráter. Esse é um perigo e leva a algo que também precisa ser debatido: como será a regulamentação da Inteligência Artificial.
O cinema, nesse sentido, é assombroso. O próprio Matrix é um dos desenhos mais caóticos sobre o que a IA é capaz de fazer, e foi lançado em 1996. Mesmo tendo todo o cuidado e colocando gatilhos para que ela não seja racista, antissemita, ela é um perigo. A IA vem sendo usada em guerra, por meio de drones que não têm GPS, não têm controle local. É simplesmente uma IA com uma visão e uma meta raciocinada, pois ela foi programada para isso. Então, se no meio do caminho estiver um míssil, ela vai desviar, se tiver um muro, ela vai contornar, até atingir o objetivo: eliminar o alvo.
O que mais chama a sua atenção sobre o avanço da IA?
No atual momento, onde eu vejo que ela traz mais benefícios do que malefícios, é na saúde. Hoje, o que a IA está fazendo e vai fazer pelo nosso bem-estar e recuperar doenças que fazem tantas pessoas sofrer não está escrito. Outro ponto é que a IA tem sido utilizada em cálculos sociais: como é que eu posso diminuir a fome na África, por exemplo. Ela vem sendo trabalhada para essas possibilidades, mas sempre aliada à ação humana.
Olhando em uma perspectiva mais regional, falando do trabalho que a gente já consegue entrar hoje em Goiânia, nós conseguimos levar automação em praticamente tudo o que está repetitivo. Ou seja, muito além de um bot de WhatsApp, a IA conversa com o cliente com o intuito de fazer a captação do seu cliente, conhecido como SDR (Sales Development Representative).
O profissional que fazia isso perdeu o emprego. O que ele pode fazer neste caso?
Ele pode olhar como essa IA está fazendo o trabalho dele, estudar e começar a implementar isso para trazer como solução. Ele vai se tornar um especialista em SDR para a empresa utilizando IA. Uma coisa bacana a se destacar é que IA é fácil de aprender. Com isso, será mais fácil levantar leads para o cliente e acelerar o processo de venda, atingindo o público-alvo mais rápido.
Eu sou empresário, trabalho com isso há mais de 20 anos e tenho cerca de 50 colaboradores. E entendo que cada pessoa terá as suas nuances, suas dificuldades, suas vidas. Um escritório de advocacia contratou a minha empresa. O target deles são pessoas de mais idade, em todo o Brasil, para saber se elas têm ou não direitos a benefícios sociais.
Uma pesquisa constatou que a maioria das pessoas entra pela internet às 5h, 6h da manhã — período em que acordam — e depois das 18h e 19h e, às vezes, no domingo. Diante disso, seria necessário ter uma pessoa abordando clientes neste horário, que já não é mais comercial. Isso seria difícil para um profissional CLT. A IA atua 24 horas por dia, sete dias por semana.
Em que a IA não consegue e talvez nunca consiga superar o ser humano?
Eu vejo que não há nada em que a IA não consiga superar o ser humano. Ela já superou em muitas coisas e vai nos ultrapassar em breve nas artes, na medicina e até nas nossas características humanas, como a empatia. Isso já está sendo mapeado e quem diz que isso nunca vai acontecer, já adianto que é besteira.
Eu ainda não sei te responder sobre o que será de nós. Hoje, há muito mais perguntas do que respostas sobre a Inteligência Artificial. Mas o que tem de certo é que ela irá nos superar e já vem nos superando em vários aspectos. Se eu tenho um peptídeo hoje que foi criado por uma IA, e que o ser humano estava por anos tentando, demonstra que aconteceu alguma limitação para que ele não tivesse esse resultado com certa antecedência em relação à tecnologia.
O que ainda não temos por parte da IA é que ela ainda não descobriu algo do zero. O que ela tem feito até o momento é compilar e condensar coisas que já existiam, mas esse momento ainda vai chegar.

Vou te dar um cenário: um juiz precisa tomar uma decisão sobre um determinado caso. Ele poderá passar essas informações para a IA para que ela decida sobre a situação? Ou seja, ela poderá agir como um juiz?
É semântica. Ela já tem essa capacidade. Agora, a permissão disso entra em uma questão social. Enquanto seres humanos, teremos que decidir, seja por meio de votação ou regulamentação, se isso é pertinente e ético. É uma situação similar ao carro autônomo. Eu posso colocar um dentro de Goiânia? Não sei, mas ele já existe no mercado. A tecnologia está posta.
Ainda na área jurídica, a advocacia é uma das áreas em que a IA está mais atuando. Minha esposa é advogada e ela tinha receio de utilizar a tecnologia, pois acreditava que nada poderia substituir a sustentação oral. Até o momento, não, mas a IA tem ajudado na construção de muitas delas. Eu apresentei a ela várias IAs, como Manus, ChatGPT e Gemini. Hoje, ela coloca uma para ser a defesa, a outra faz o papel da acusação e outra o juiz, e montam uma peça. Depois, ela faz a análise. Isso está acontecendo todo o santo dia. A grande questão é que há advogados que confiam tanto que nem leem o que foi gerado e apenas protocolam esses resultados. E já houve diversos casos de a IA colocar jurisprudência que não existia.
Por outro lado, há escritórios de advocacia aqui em Goiânia que já têm visto isso com outros olhos, com uma análise de colocar o negócio à frente do mercado. Institucionalizar para vender mais, para atender o cliente com mais agilidade e dar uma posição mais célere. Tenho uma cliente que usa a IA para fazer a prospecção de clientes. Com isso, a pessoa manda uma foto, ela consegue analisar. Se a pessoa mandar um áudio, a resposta será em áudio. Dentro desse ecossistema, ela já analisa se aquele cliente pode ou não ter direito àquelas solicitações e analisa todos os prazos. Hoje, ela consegue analisar 150 clientes por dia, chegando à mesa dela e dos demais advogados do escritório em média de 30 contratos de prestações de serviços devidamente assinados – e feitos pela IA – todos os dias para que eles começem a trabalhar.
Nós estamos vivendo a quarta revolução industrial. Olha o que a internet fez com a sociedade. Eu, que já sou um pouquinho mais velho, eu sou de uma época em que não existia internet, e olha o que é que o celular fez. Muita gente ainda não entendeu o impacto que a IA tem e ainda vai ter.
Steve Jobs dizia que a quinta revolução consistiria na união do homem com a máquina. Você concorda com isso? Isso realmente vai acontecer?
Concordo, e isso já está acontecendo. A empresa responsável é a Neuralink, que também pertence a Elon Musk. O projeto consiste na implantação de um chip no cérebro humano, e já existem testes em andamento. É natural que esse tipo de tecnologia avance a partir de um apelo social, e eles foram estratégicos nesse aspecto. O funcionamento ocorre da seguinte forma: a pessoa recebe o chip e, se for cega, pode voltar a enxergar; se for surda, pode voltar a ouvir. A lógica inicial é sempre a de devolver um benefício.
Mas é possível avançar ainda mais. Por exemplo, uma pessoa que não sabe inglês poderá passar a falar o idioma. Acredito que ficaremos mais inteligentes, assim como outras tecnologias ao longo do tempo ampliaram nossas capacidades. A inteligência artificial tornou o conhecimento mais acessível e, hoje, só permanece alheio quem opta por não absorvê-lo.
É possível, por exemplo, usar o ChatGPT como um professor de inglês, orientando a ferramenta a auxiliar no aprendizado do idioma. O usuário pode informar o destino de uma viagem, pedir a criação de um plano de estudos de acordo com essa necessidade, solicitar correções, explicações sobre os erros e dicas para se expressar melhor. Há, inclusive, pessoas que utilizam a IA como apoio psicológico.
Você atua como um vetor entre a IA e as empresas, mas, caso a tecnologia trouxesse, de forma inesperada, mais pontos negativos do que positivos, como você se sentiria?
Todo empresário que se propõe a fazer algo entende que nada terá 100% de assertividade. Todo negócio e toda proposta envolvem sempre um nível de acerto e de risco. Para mitigar isso, eu, como empreendedor, busco ter o máximo de conhecimento possível para oferecer proteção ao cliente e garantir que a tecnologia realmente agregue valor ao negócio. Hoje, essa é a grande questão do uso da inteligência artificial. Muitas pessoas pagam por ferramentas como o ChatGPT, mas não sabem como aplicá-las de forma estratégica dentro da corporação.
Para se ter uma ideia, já existem IAs capazes de analisar os seus e-mails. Elas observam como você responde ao longo de um determinado período, identificam o seu padrão de escrita e o seu perfil e, a partir disso, passam a responder automaticamente às mensagens recebidas. Quando o conteúdo exige uma decisão pessoal, a IA pode sinalizar ou filtrar aquilo que não consegue resolver sozinha. Se alguém envia um e-mail apenas agradecendo, por exemplo, ela mesma pode dar esse retorno ao cliente.
A tecnologia também pode atuar nas redes sociais da empresa, como o Instagram, conversando com clientes captados pela plataforma, enviando links, criando demonstrações de produtos e conduzindo o atendimento inicial. Tudo isso tem como objetivo melhorar a experiência do potencial cliente com a marca e tornar os processos mais eficientes.

E a sua empresa faz isso? Conte um pouco sobre a NOX5 e quais são as perspectivas para um futuro próximo.
Faz, sim. A NOX5 tem 15 anos de atuação e nasceu como uma empresa de suporte e manutenção de computadores. Com o tempo, evoluímos para a área de cibersegurança, que hoje é o core do negócio. Atuamos em tudo o que envolve firewall, gestão de segurança e proteção para evitar invasões e ataques às empresas.
Atualmente, estamos estruturando um núcleo específico voltado para a Inteligência Artificial. Isso porque, dentro da cibersegurança, a IA é utilizada tanto para o bem quanto para o mal — inclusive por hackers. Antes, para criar uma página falsa ou aplicar golpes virtuais, como o phishing, era necessário ter ao menos um conhecimento básico de programação, desenvolver códigos maliciosos e enviá-los para obter acesso indevido ao celular ou ao computador da vítima. Hoje, a IA é capaz de fazer tudo isso. E aqui eu não falo apenas das IAs mais conhecidas, como ChatGPT ou Gemini. Existe um verdadeiro submundo das inteligências artificiais, voltadas para ataques hackers, produção de materiais pornográficos e outras práticas ilegais. São ferramentas que fazem absolutamente de tudo.
E qual a sua avaliação do Brasil quando falamos em cibersegurança? Quais são as nossas fragilidades?
Quando falamos em uma guerra cibernética, nós temos excelentes hackers, tanto para o bem quanto para o mal. Estamos falando da ocupação do terceiro ou quarto lugar em um ranking mundial de hackers. Nós temos um sistema bancário que é um dos mais seguros do mundo e, mesmo assim, ainda sofremos ataques. A maioria deles é dirigido aos usuários do banco. Eles são vulneráveis a ataques de engenharia social. Então, nós somos frágeis na educação. No fato de ensinar desde as nossas crianças até os idosos quais são os cuidados reais que eles têm que ter com o celular ou o computador. Por mais que os nossos sistemas sejam seguros — e não estou dizendo que todos são, porque eles têm as suas vulnerabilidades —, uma prova disso foi o ataque hacker que desviou cerca de R$ 1 bilhão de recursos mantidos no Banco Central em julho do ano passado.
E falando de Goiás: em que nível o nosso estado se encontra quando falamos da relação IA – cibersegurança?
Temos um paradigma muito interessante. Nós formamos excelentes profissionais para todo o mundo. Eu atuei em conjunto com outros professores na criação do curso de cibersegurança do Senac e do Senai e fui docente durante 10 anos. Então, tenho amigos e ex-alunos que se tornaram exímios profissionais que, ao saírem da academia, foram para o mercado e se mudaram de Goiânia. Nossa capital não consegue reter esses talentos por causa de salários. Mas estamos vivendo uma espécie de êxodo desses profissionais. Eles estão retornando, mas não por conta dos salários melhores, e sim pelo fato de conseguirem trabalhar em home office para empresas de fora.
Ao mesmo tempo, nós estamos muito bem colocados. Goiás tem uma consciência bacana do setor. Porém, o agro, que é a mola mestra do nosso país e que coloca Goiás como um dos primeiros, não vê muito valor na cibersegurança. E o produtor tem sentido os efeitos disso: dados criptografados vazados ou invasão de contas. Quase todos os empresários do agro, que têm um certo nível de consciência sobre cibersegurança, aprenderam pela dor. Ou tiveram invasão nas contas, ou um ataque no e-mail que gerou um boleto, que foi replicado aos clientes e fez com que ele fosse lesado.
Durante o tempo da nossa conversa, qual a quantidade de ataques hackers que ocorreram no Brasil.
São milhões. Eu sou responsável pelo datacenter do Sicoob aqui em Goiás. São dois data centers e, em média, são 150 mil ataques por hora que eu recebo. Eles são realizados de várias localidades do mundo e, geralmente, não são feitos por pessoas. São IAs, bots, scripts que ficam escaneando endereços IPs para encontrar vulnerabilidades nos sistemas.
Como você e sua equipe trabalham para evitar esses ataques?
São várias técnicas de mitigação. Não existe uma bala de prata quando falamos em cibersegurança. Para você ter uma ideia, nós vamos atrás de IAs que ajudem a proteger de ataques realizados pela própria Inteligência Artificial. Eu entendo que é uma luta que nunca terá fim, porque, a partir do momento que eu desenvolvo um novo mecanismo de segurança, já existe uma contramedida dos hackers para tentar atacar.
E a forma de ação também mudou: com um sistema financeiro cada vez mais digitalizado, ninguém mais anda com dinheiro em espécie. Tudo migrou para o digital. Antes, o criminoso ficava na porta do banco para ter acesso ao dinheiro. Hoje, eles estão dentro do condomínio fechado e, de lá, lançam esses ataques.
Goiás é um hub de tecnologia em cibersegurança?
Estamos longe de ser um hub de tecnologia em cibersegurança porque não há um trabalho em conjunto. São polos e, atualmente, temos ações isoladas, cada uma por si. Ações interessantes que, no momento, não estão conversando entre elas. Não se tem uma escola para ação de cibersegurança. Goiás e o Brasil precisam acordar para isso. Não dá para se ter ações em uma determinada localidade, sendo que temos bons profissionais em todo o Brasil. Em Goiânia, por exemplo, já teve uma empresa de cibersegurança que não está mais aqui. Foi para o Vale do Silício, na Califórnia.
Na área da Inteligência Artificial, a mesma coisa. Têm ações ocorrendo para se criar a própria IA, e isso é urgente, mas acredito que isso não vai para a frente por falta de apoio governamental. Nos Estados Unidos, as empresas conseguem desenvolver isso sem apoio do governo, mas aqui no Brasil isso só é possível por meio de incentivo. Nós temos bons profissionais que, inclusive, estão em território americano ajudando neste desenvolvimento. Por que não trazer esse povo para cá? E essa falta de incentivo, infelizmente, não é algo particular da IA. Vimos isso acontecer durante o desenvolvimento de chips, de sistemas operacionais e, pelo jeito, com a IA será a mesma coisa.
O atual governo de Goiás tem apostado muito em incentivo de conhecimento sobre IA, mas, na sua visão, o que ainda precisa para que a tecnologia seja vista como algo prioritário, até mesmo para investimentos?
É muito louvável a ação que o governador Ronaldo Caiado tomou aqui com relação a datacenters, que é uma dor na IA, devido à grande corrida sobre processamento de dados e que esbarra na questão de geração de energia, provocando uma bola de neve. Mas eu vejo que, às vezes, o governo do Estado peca por não envolver o setor privado em todos os níveis de conversa. A minha empresa tem 15 anos, mas a gente fica sabendo de determinados eventos por meio da mídia. Nunca fui convocado. Meus concorrentes, pois mantemos um diálogo, também não foram chamados. Então, falta isso, mas ainda está em tempo de trazer o setor privado para conversar com o setor público.

Mas não tem faltado uma ação por parte do setor privado para que isso aconteça?
Sim. Pode ser uma falha nossa também, mas nós já tentamos fazer algumas outras ações em conjunto, como a abertura de um hub para formação de pessoas e as empresas contratam esses profissionais para fomentar o mercado local. Buscamos incentivos para as empresas, até mesmo fiscal, que estiverem ajudando, mas esbarraram em negativas do governo e isso vai esmaecendo a gente. Se a porta for aberta, nós vamos. Não conseguimos começar um processo dessa magnitude pela falta do nível financeiro necessário para abraçar esse tipo de ação. Outro fator que esbarra nesse processo é a briga política. O governo federal pode olhar para uma ação estadual bacana, mas, por não ser de um aliado político, e, principalmente, por ser um ano eleitoral, acaba podando.
Quais outros segmentos aqui em Goiás correm risco sem a cibersegurança? Onde falham?
Todos nós estamos suscetíveis a sermos atacados em ambiente virtual. Não tem A ou B, porque não se escolhe a vítima de um ataque de cibersegurança, salvo o fato de que o ataque seja focado em um objetivo específico. Mas por que ocorrem milhões de ataques por hora? Porque ele é automatizado. O ataque, às vezes, nem está voltado para sua empresa, mas, se encontrar alguma vulnerabilidade no seu servidor, ele vai entrar.
A IA é a queridinha do momento, mas a sua empresa também é especialista no Cloud Computing. O que é isso e por que ela está se tornando cada vez mais necessária para as empresas?
A grosso modo, Cloud Computing atua como um servidor dentro de uma nuvem. Antes, você guardava tudo no CPD da sua empresa, onde gastava energia e ainda precisava trocar esse servidor entre 5 a 7 anos, porque ele ficava defasado. Então, em algum datacenter do mundo, há vários computadores ligados, e seus dados estão lá. Inclusive, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) destaca alguns pontos sobre isso, de que não se pode armazenar dados sensíveis nacionais em servidores fora do Brasil, por exemplo.
Mas tem algumas vantagens ao se usar a Cloud: se acabou a energia da sua empresa, se não tiver gerador, você fica com a produção parada até tudo se normalizar. Hoje, quase todas as empresas dependem, em níveis cada vez mais exigentes, de computadores. Só que eu posso colocar isso na Cloud, que é a nuvem, e tenho acesso a essa informação de qualquer dispositivo, seja celular, computador, tablet, televisão; basta ter acesso à internet. Vale destacar que a Cloud é uma facilidade e acessibilidade. Ela não garante segurança, e muitas pessoas confundem isso, mas dá para unir cibersegurança e a Cloud.
Todas as etapas são importantes, mas uma das coisas mais valiosas em todo esse processo são as pessoas. Elas são os principais vetores de ataque; não é o firewall, não é a minha Cloud. A maioria dos vazamentos de informações ocorre porque não foi atendido um critério de criação de senha ou porque a vítima clicou em um link ao ser induzida ao erro. Por isso, prevenir sai mais barato do que remediar na grande maioria dos casos.
Então, podemos afirmar que os ataques cibernéticos ocorrem, na maioria dos casos, por falha humana?
Sem dúvidas! Eu represento algumas empresas de firewall e, recentemente, houve a invasão em uma grande empresa no segmento, que não era meu cliente, mas que era do mesmo tipo que eu vendo. Eles entraram em contato, e eu fui até eles. O firewall era novo, havia sido comprado recentemente, mas houve uma falha na configuração. Tinha uma porta que era para um determinado IP, mas estava aberta para vários outros caminhos. O ataque encontrou uma brecha e entrou. Ou seja, por mais que se tenha um equipamento de última geração, mas não faça a instalação de maneira correta, você terá problemas. E foi um fator humano que determinou essa invasão.
De 0 a 10, qual a média de preparo desses profissionais em Goiânia e no Brasil para você?
Em Goiânia, eu coloco uma nota sete. No Brasil, cinco. A gente ainda tem muito chão.
O filósofo israelense Yuval Harari descreve, em seu último livro, que, em cinco anos, a humanidade vai estar completamente dependente da IA. Você concorda com essa afirmação? Até que ponto estaremos dependentes dentro desse prazo?
Eu não discordo dele, se nada for feito. Tecnologicamente, estaremos neste nível. Agora, quais serão as travas que vamos colocar enquanto sociedade, ser humano, humanidade, para que isso não aconteça? Mas eu olho para tudo isso com uma perspectiva positiva. Eu acredito que não tenha volta, mas eu sou um entusiasta com a IA. Eu acho que ela vai nos proporcionar muitas discussões e que isso vai ser um diferencial até mesmo governamental. Imagine um cenário em que um estudante consegue pagar mensalmente um ChatGPT e outro que não tem nem tablet. Como é que eles competem entre si? Haverá uma segregação e, desse modo, entram as políticas públicas, da mesma forma como se tem para levar acesso à água e esgoto.
Até mesmo para que esse aluno entenda que ele pode utilizar a Inteligência Artificial para mudar a realidade dele e não ser manipulado, pois, se ela for bem aplicada, poderá ser um diferencial social, e isso tem que ser uma medida governamental. Caso contrário, vamos aumentar ainda mais o penhasco do analfabetismo tecnológico, que já é existente no Brasil.


