“Eu tenho história, perfil, propostas e nome limpo para ser senador por Goiás”

Um dos pilares do governo Marconi, o deputado e ex-chefe da Casa Civil mostra otimismo para reverter a vantagem que tem Ronaldo Caiado na disputa pelo Senado

vilmar rocha

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

No meio da tarde de uma quarta-feira, em plena corrida eleitoral, o Vilmar Rocha (PSD) que chega à sede do Jornal Opção não parece estar em campanha. Tranquilo, de bem com a vida, ele mesmo diz que não está sentindo o estresse. “Posso dizer que estou com um reduzido grau de ansiedade”, afirma.

O motivo é óbvio: agora, nesta eleição, o deputado federal está fazendo exatamente o que queria fazer, um sonho acalentado há anos: lutar por uma cadeira no Senado. Ele superou as disputas políticas da base aliada de Marconi Perillo (PSDB) e, com seu jeito conciliador e avalizado pelo governador, foi praticamente aclamado como candidato. No caminho, liderando as pesquisas, continua Ronaldo Caiado (DEM), um antigo adversário desde os tempos em que ainda eram correligionários.

Vilmar reconhece que ainda é pouco conhecido no Estado, apesar de sua trajetória política. “Nunca disputei eleição majoritária e isso pesa num primeiro momento da campanha.” Nada que os programas na TV e no rádio não possam dar jeito, ele aposta. “Estamos no caminho certo, que vai nos levar à vitória”, acredita ele, que se vê “preparadíssimo” para representar o Estado na Câmara Alta do Congresso. Professor de Direito Constitucional na Universidade Federal de Goiás (UFG) — ele lecionou para Marina Sant’Anna (PT), hoje também sua concorrente ao Senado —, o deputado apresenta nesta entrevista três propostas para diminuir a criminalidade no País.

Frederico Vitor — Seu nome oscila entre a 2ª e a 3ª colocação nas intenções de voto ao Senado. Como o sr. considera que está sua campanha?
A campanha começa agora, com o horário de TV e rádio. Meu grande desafio é que sou pouco co­nhecido. Nunca disputei campanha majoritária, ao contrário de meus principais adversários, e tenho um perfil político não mi­diático. Não forço a barra para a­pa­recer na TV ou nos demais meios de comunicação. Sou um po­lítico mais discreto e, talvez por isso, menos conhecido. Meus prin­cipais assessores dizem que, com dez dias de televisão, vou ficar bem mais conhecido no Estado.

Patrícia Moraes Machado — O sr. praticamente abriu do mandato de deputado federal para ficar no governo, ocupando a Casa Civil. Isso não pode tê-lo prejudicado?
Em 2006 tive 74 mil votos, fiquei entre os mais votados, mas, por causa de questão de legenda, eu fiquei fora da Câmara dos Deputados, embora tenha ajudado a eleger aquele que hoje é meu principal adversário. Ele precisou de meus votos. Em 2010, fui eleito e hoje sou deputado federal. Licenciei-me para vir para a Casa Civil. De certa forma, o fato de estar aqui e não em Brasília talvez tenha tido um impacto. Só que, por outro lado, foi uma ótima decisão. Já tinha sido convidado, em outros governos de Marconi Perillo, para ser secretário, mas não aceitei. Agora, sim, e foi uma decisão correta. Por quê? Porque considero que fiz um curso de doutorado sobre Goiás na Casa Civil. É um cargo muito estratégico, todos os assuntos — saúde, educação, segurança etc. — passam por lá. E eu tinha muita autonomia para me aprofundar em todas as áreas. Isso me preparou bastante para ser senador.
Vou dizer uma coisa que às vezes as pessoas não percebem: deputados representam um ou mais segmentos, ou uma cidade, uma região, uma classe, uma parte da sociedade. Já o senador representa o Estado, precisa ter uma visão global dele e de sua administração. Na Casa Civil, além de coordenar o governo, tem uma interlocução muito forte com a sociedade — mídia, federações, sindicatos, associações, universidades etc. Hoje estou aberto para conversar com vocês sobre qualquer assunto estratégico para o crescimento e a qualidade de Goiás, tudo em função da experiência muito intensa que eu tive na Casa Civil. Isso é um diferencial que eu tenho em relação aos demais candidatos ao Senado: hoje tenho um conhecimento muito mais profundo da realidade goiana, tanto na área pública como mesmo em meio à sociedade. Ou seja, foi uma decisão correta, me preparei para esse perfil que é o de senador.
No meu jingle de campanha tem uma frase que eu gosto muito e é do meu perfil: “saber ouvir para saber falar”. Em um país jovem como o nosso, em formação, plural, diferenciado, colorido, com interesses e expectativas tão diversos, é preciso ter muita sensibilidade e uma visão global de tudo. Não pode ser uma pessoa segmentada. Pode parecer cabotinismo de minha parte, mas não: por isso tudo, por essas razões, eu me julgo o melhor perfil e o mais preparado para ser senador.

conexao.qxd

Elder Dias — O sr. agora, em campanha, estaria então fazendo um “pós-doutorado”, rodando o Estado, intensificando esse processo de andar por todas as cidades? O que essas caminhadas e viagens estão acrescentando ao sr.?
Meu primeiro mandato foi em 1982. Já se vão mais de 30 anos. O que noto, andando pelo Estado — e é sincero o que eu vou falar — é o grande avanço na qualidade de vida, no desenvolvimento, sobretudo nas cidades do interior. Em cidades que eu visitava há muitos anos e às quais eu volto hoje, é visível a melhor infraestrutura. Todas têm acesso por asfalto. Há problemas, claro, mas a qualidade de vida é melhor e estão mais bem estruturadas. Quando comecei na vida pública, eu chegava nesses municípios e não via organização, não tinha estrutura e, do ponto de vista social, havia muita gente sem dente, maltrapilhos, descalços, muita gente anêmica. Hoje não se vê mais isso em Goiás. Você pode falar que isso é no Brasil todo, mas há uns quatro ou cinco anos visitei o interior da Bahia e fiquei impressionado com a pobreza, que me lembrava muito esse Goiás do passado.
O projeto, de agora em diante, em termos públicos, é focar na qualidade do serviço. É fazer bem feito nas áreas da saúde, da educação e da segurança. Vou apresentar uma proposta que não é nova — aliás, está no Plano Nacional de Educação (PNE): temos de colocar de pé, de maneira forte, a ideia da escola integral. O PNE prevê que, em dez anos, 50% das escolas públicas do Brasil serem de tempo integral. Minha proposta é de que consigamos isso aqui em Goiás na metade do prazo, ou seja, em cinco anos.

Elder Dias — Qual é a porcentagem de escolas em tempo integral que temos hoje?
Das 1.090 unidades do Estado, temos algo entre 10% e 15%. O ho­rário em tempo integral nas es­colas, sobretudo em regiões periféricas e de baixa renda, tem um pa­pel que vai além da educação: também combate a criminalidade. Na região do Entorno do DF, é muito grande o número de jovens fora da escola que estão também desempregado. Ah, isso é uma isca muito forte para o crime! (enfático)

Patrícia Moraes Machado — Essa radiografia é algo que não é novidade. Mas qual seria um salto qualitativo que teríamos com o sr. no Senado, diante de todo o quadro da saúde, da educação, da segurança em Goiás?
O senador tem, primeiramente, o papel de votar leis e de criar condições legislativas para tanto. Em segundo lugar, ele pode influenciar politicamente a administração federal para essas prioridades, bem como também o governo estadual para a direção dessas políticas que consideramos ser importantes, como essa questão das escolas de tempo integral.
Tenho um exemplo que considero interessante. Em uma situação em que tenhamos de sacrificar um elefante, o difícil não é exatamente matá-lo, mas remover o corpo. Levando isso para a área da gestão, uma coisa é estabelecer uma prioridade, outra coisa — o “remover o corpo” — é colocar isso de pé. De qualquer forma, é preciso ter uma convicção, ter essa prioridade, porque não se pode fazer tudo ao mesmo tempo. Essa, então, é minha prioridade no campo da educação.
Já no setor da segurança, tenho três propostas claras. Todos estão falando muito sobre segurança, em Goiás e no Brasil. É uma prioridade da sociedade. Mas quem está apresentando propostas consequentes e bem estudadas? Quem tem condições efetivas de implantá-las? Vão aparecer propostas de tudo quanto é jeito, mas é preciso apresentar algo viável e ter condições de executá-lo.
A primeira proposta que tenho é uma mudança institucional: pôr a União como corresponsável pela segurança pública no Brasil. É preciso fazer uma proposta de emenda constitucional (PEC) para efetivar isso.

Elder Dias — Mas já existem projetos nesse sentido…
Sim, já existem. Já existe projeto para tudo. A questão é chegar com o peso de um senador articulado e reforçar isso, trabalhar por isso — é o mesmo caso da escola de tempo integral, um tema para o qual já há várias propostas.
Em relação a essa corresponsabilidade da União no setor, defendo a criação do Ministério da Segurança Pública. Vocês podem dizer, “mas, deputado, já temos 39 ministérios”. Então, que extingamos 20 deles, mas que criemos o da Segurança Pública. Há ministério para a educação, para a saúde etc. No plano federal, a segurança é uma secretaria do Ministério da Justiça, que mexe com tudo: Funai [Fundação Na­cional do Índio], Polícia Federal e tudo o mais, e tem um departamentozinho que cuida da segurança pública. A criação do ministério não resolve, mas é uma sinalização da entrada da União como corresponsável pelo setor.
A segunda proposta que tenho é a da mudança da legislação pe­nal. Estou com um projeto pronto para isso — justificado, analisado, discutido. É preciso fazer mu­danças pontuais na legislação alterando a Lei de Execução Penal, para tapar o seguinte buraco, que é o que todo mundo reclama: o sujeito vai preso e logo é solto, para responder o processo em liberdade; então, ele comete outro crime e consegue sair novamente.

Elder Dias — O sr. vai atacar as brechas…
Exatamente. Se hoje alguém comete um primeiro crime, certamente vai responder em liberdade. Se então comete um segundo crime e se a sentença do primeiro não foi transitada em julgado, ele vai responder também pelo segundo em liberdade. A lei estabelece que seja assim. Como o julgamento final sempre demora muito, ele continuará solto, mesmo com dois crimes nas costas. O que estou propondo que seja alterado? Se a pessoa cometer um crime já estando respondendo a uma ação penal ou ter um inquérito policial por homicídio, isso já é considerado maus antecedentes e ela terá de responder pelo segundo crime preso, mesmo se for apenas um inquérito policial pelo segundo.
Elder Dias — Isso lembra a lei para atingir os fichas sujas na política.
Claro! (enfático) Essa foi uma discussão de natureza jurídica: como impedir alguém de se candidatar se a sentença não foi transitada em julgado ainda? E a presunção de inocência? Chegou-se então a uma posição de que, se houver condenação de segundo grau ou por um tribunal colegiado passa a haver a presunção de que ele seja ficha suja e, portanto, ele passa a ficar impedido de ser candidato. Isso fecha uma porta importante.
Fala-se muito da redução da maioridade. Eu sou a favor, mas nas seguintes condições: homicídio, reincidência ou crimes graves. Vocês sabiam que, de todos os crimes praticados por jovens, só 6% são de homicídio? O restante são furtos, roubos etc. Mas agora vem uma questão interessante, que nem eu sabia, mesmo sendo professor de Direito, embora não da área penal: sabiam que há uma série de privilégios para quem comete crimes e está na faixa dos 18 aos 21 anos? Se alguém está nessa faixa e é condenado, em primeiro lugar, não pode receber pena máxima — o juiz, obrigatoriamente, tem de proceder a redução da pena. Em segundo lugar, o prazo de prescrição da pena é a metade do prazo dos presos de outra faixa etária. Eu quero eliminar esses dois privilégios. Não tenho estatísticas, mas presumo que a quantidade de crimes praticados por quem tem de 18 a 21 anos é maior do que a quem tem menos de 18 anos. Temos de fazer mudanças na legislação penal para, de forma pontual, endurecer contra o crime.
O terceiro item que proponho para a segurança não diz respeito a mudança institucional ou de legislação. É questão de gestão. O que é preciso fazer na gestão da segurança para fazer a diferença? Agregar tecnologias novas, inteligência e informação, o que hoje é muito precário. Precisamos reforçar as polícias técnico-científicas. Isso é gestão. Associadas essas três questões, podemos, aí sim, reduzir a violência no Brasil.

conexao.qxd

Elder Dias — E o sr. prevê que, implantadas essas propostas, os efeitos surtiriam efeitos em quanto tempo?
No governo Marconi — e isso é um aspecto de gestão —, foram tomadas algumas medidas na área de segurança que, em curto prazo, darão resultados. O que é “curto prazo”, “médio prazo” e “longo prazo” em um país como o Brasil? Eu vejo como até cinco anos, de cinco a dez anos e acima de dez anos, respectivamente. Em um país mais estável esses prazos seriam maiores. Acredito que, em até cinco anos, poderemos mudar significativamente esse panorama em Goiás. Mas é preciso tomar medidas de curto prazo como, por exemplo, o aumento do efetivo. O que o governador fala não é conversa: aumentamos em 4 mil o número total de policiais.

“Caiado quis, sim, ser candidato da base”

Patrícia Moraes Machado — A senadora Lúcia Vânia (PSDB) tem dez anos de Senado, em vários projetos. Por exemplo: depois de anos de luta pelo Ato Médico, foi aprovada uma proposta “Fra­nkens­tein”, negativa para a classe médica. O sr. falou sobre a questão da segurança em plano nacional. Mas o que um senador pode fazer diretamente para o Estado?
O senador é senador da República, precisa pensar no Brasil. Então, essas mudanças na segurança são medidas importantes não só para Goiás, mas para todo o País. Com relação especificamente ao Estado, o senador pode lutar por verbas e recursos do governo federal para o setor de segurança. Aí podem perguntar: mas por que vão conseguir isso agora, se não conseguiram no passado? A questão é que tudo depende do momento.
Não quero fazer propostas apelativas. Pelo contrário: as propostas que eu tenho são palpáveis. Todo mundo pode estar, e está, apresentando propostas para segurança. Mas quem tem algo estudado, realmente planejado, embasado, consistente? Outra questão: quem tem condições de efetivamente implantar a proposta? Será sempre alguém que esteja realmente comprometido com a causa. A prioridade que se dará à segurança existirá porque a sociedade está de fato muito preocupada, pedindo por isso, a violência está em grau muito alto. A aprovação de uma boa proposta deverá ser muito mais fácil e rápida, se houver consistência.

Elder Dias — Independentemente de estar na situação ou na oposição?
Sim, porque são ideias que não interferem na gestão de governos. Como o assunto é muito demandado pela sociedade, terá um apoio maior, independentemente da coloração partidária. Mas, obviamente, será preciso ter capacidade de articulação e convencimento para fazer isso acontecer.

Elder Dias — Seu partido, o PSD, tem proximidade com a presidente Dilma Rousseff (PT) — embora o sr. tenha uma posição pessoal de oposição —, o que, em tese, facilitaria a aprovação de propostas de seus parlamentares. O sr. acredita que sua capacidade de articulação é maior do que seria a de seus concorrente hoje ao Senado?
Não tenho a menor dúvida disso, e vou dar conteúdo ao que estou falando. Em primeiro lugar, o Senado não é casa de enfrentamento. Pelo contrário, é a casa do convencimento, não adianta chegar lá quebrando vidraça. Eu tenho esse perfil de convencimento. Segunda questão: apoio Aécio Neves (PSDB) para presidente, acho que esgotou a fase do PT no governo, é preciso haver uma mudança. Quem tem, para mim, o melhor perfil é Aécio, mas para qualquer que seja o eleito para a Presidência, é preciso ter capacidade de diálogo, em função dos interesses do Estado. Essa capacidade — de diálogo, articulação, convergência — está de acordo com o perfil de um senador da República e pode facilitar tanto a aprovação desses projetos no Congresso quanto a defesa dos interesses de Goiás perante o governo federal, qualquer que seja o partido que esteja no poder, pois não sou radical.

Elder Dias — A oposição no Senado é diferente da oposição na Câmara?
É diferente, completamente diferente. Não só a oposição, mas também a situação. Isso porque o Senado é uma Casa de revisão das leis. Tem de ter gente com uma visão muito mais ampla da sociedade, com mais prudência, mais tolerância, com mais capacidade de diálogo e de entendimento. A Câmara dos Deputados representa as diferentes forças da sociedade, interesses específicos; no Senado, é preciso uma visão mais ampla. Tenho mais facilidade para isso, por meu perfil, pelas forças a que estou associado, para defender os interesses do Estado.

Frederico Vitor — Ainda na questão da segurança, temos algumas distorções, como o fato de o policial militar de Brasília ganhar muito mais do que um de Goiás, atuando em uma área vizinha e muito mais problemática, como é a do Entorno do DF. Esse Mi­nistério da Segurança Pública viria também para tentar equilibrar essa questão salarial entre as unidades federativas?

Elder Dias — Seu concorrente, o deputado Ronaldo Caiado (DEM), esteve aqui e disse que ele foi quem indicou o relator da PEC 300, que trata justamente da isonomia salarial dos PMs no Brasil pelo parâmetro do Distrito Federal.
Temos de caminhar para ter carreiras de Estado para setores essenciais, como é o caso de médicos, professores, policiais etc. No caso específico da educação, há um projeto do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) há um projeto de federalização do ensino fundamental. No caso da segurança, esse seria um papel desse futuro Ministério da Segurança Pública, que defendo: ser um sistematizador das políticas públicas do setor não na parte de execução, mas, sim, na área de gestão e planejamento. A partir daí, poderíamos evoluir para uma política nacional de segurança com unificação de salários melhores. Temos de caminhar para isso no Brasil. Porém, eu não faço uma proposta assim, não em curto prazo. Não vejo viabilidade — a não ser que o governo federal coloque dinheiro — para elevar em nível nacional o padrão salarial dos policiais ou de outras categorias ao nível do de Brasília por uma diferença fundamental: toda a segurança e o Ministério Público do GDF são bancados pelo governo federal. Os Estados, hoje, não têm como igualarem os salários com Brasília, pois nós todos sabemos que 70% do dinheiro do Brasil está com a União. Portanto, não podemos fazer isso. Inclusive, não podemos prometer isso, pois não seria exequível em curto prazo, os Estados não conseguem fazer isso. Não é apenas o caso de Goiás, mas, sim, de todo Brasil, que não paga os salários de Brasília. Entretanto, o problema do Entorno não é do DF nem de Goiás. É um problema do Brasil. Por quê? Porque ali, no Entorno, há uma população formada por brasileiros de todo o País, principalmente do Nordeste que foram para aquela área e têm sua demanda — casa, saúde, transporte etc. A rigor, é preciso ter uma forte fiscalização para enfrentar os problemas do Entorno do DF, de Goiás e da União. Os mecanismos que foram criados até agora são insuficientes para isso. Por exemplo: se amanhã a União dissesse “bem, nós já pagamos os salários dos policiais do DF e pagaremos os salários dos policiais do Entorno”. Ótimo, excelente. A melhoria salarial é reinvindicação geral de todas as categorias, inclusive da polícia. Porém, você tem de ser responsável. Não basta propor algo que saiba que não é exequível em curto prazo, fazer isso apenas como propaganda eleitoral. Eu não faço isso.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Frederico Vitor — Goiás tem 246 municípios. O efetivo da PM, atual, é de aproximadamente 13 mil militares. O Distrito Federal, que é dezena de vezes menor do que o território de Goiás, tem um efetivo de 15 mil a 16 mil militares, apenas na PM.
Não tenho esse dado, porém, é claro que precisamos aumentar o efetivo da PM. Por isso eu estava falando que, só nesse ano, nós aumentamos em 4 mil nosso efetivo total. Da Polícia Civil são quase mil, entre agentes, escrivães e delegados — apenas delegados foram mais de cem novos. Nós também convocamos todos os concursados da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros e implantamos o Simve [Serviço de Interesse Militar Voluntário Estadual], que é um projeto novo, pioneiro no Brasil e que deu certo, até agora. São mais de 1,2 mil homens e é interessante, pois tem um aspecto, um critério, de que só podem ser egressos das Forças Armadas, da Marinha, da Aeronáutica e do Exército, então já se tem uma formação, uma capacitação. Portanto, recebemos alguém quase pronto, preparado. Claro que tem treinamento para colocá-lo nas ruas, mas é mais barato para o Estado. É um projeto novo, pioneiro, que está dando certo. Com ele, aumentamos o policiamento ostensivo e temos um projeto em andamento de policiamento comunitário. Eu até penso, como senador, de fazer essa proposta do Simve em nível nacional.

Patrícia Moraes Machado — Não tem como comparar o Distrito Federal a Goiás, pois no DF quem banca a polícia é a União.

Frederico Vitor — Sim, mas é um déficit de efetivo que o próprio governo admite.
Sim. Nós precisamos aumentar o efetivo e já aumentamos nesse governo. Às vezes gosto de me autorreferir como “o professor” e não “o político” Vilmar Rocha, para revestir algo de confiança e não dizerem algo como “ah, parece que é estatística” (risos). Pois bem, falando como professor, foram, aproximadamente, 3,8 mil novos efetivos, apenas nesses quatros anos. É um número significativo e nós temos de continuar aumentando o efetivo. Agora, para aumentar o efetivo precisa ter dinheiro. Por isso estamos querendo a criação do ministério, pois nós precisamos do dinheiro federal do Brasil, da União, para o setor de segurança pública.
São duas coisas para fazer isso. A primeira seria a vinculação constitucional. Vamos supor — como tem na educação e na saúde pública —, 5%. A segunda seria você criar um fundo. Vocês, então, podem me perguntar “deputado, hoje já existem convênios e qual é a diferença?”. O convênio é uma transferência voluntária de recursos. E, depois, existe toda uma burocracia para conseguir esse dinheiro. Já o fundo é estável, pois você sabe com quanto vai contar aquele ano e, assim, você pode fazer um planejamento, e ele não é voluntário. Você pode fazer como o Fundeb [Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação Básica] ou como o FPM [Fundo de Participação dos Municípios]. Pode ser feito um critério, na área de segurança, proporcional ao que o Estado invista. Então, a União investiria uma determinada quantia. Porém, tem de haver uma suplementação de recursos da União para os Estados enfrentarem os problemas da segurança. Recursos estáveis e fixos, não voluntários e que dependam da boa vontade do governo federal. Com isso, você pode aumentar o número de efetivos e melhorar a qualidade da gestão.

Patrícia Moraes Machado — Vilmar, o sr. participa da base aliada do governador desde o início, em 1998. Qual a diferença desta eleição com as anteriores?

Elder Dias — Os candidatos não mudaram muito. Portanto, essa não é a diferença. (risos)
Certo, essa não é a diferença. Eu não vejo mudança significativa. Podem existir algumas nuances, pois as coisas mudam, mas eu não vejo grandes diferenças.

Patrícia Moraes Machado — Em 1998, a base propunha um discurso de mudança. E agora, qual a diferença da base governista para esta eleição? Como ela está “vestida” e o que propõe para esse Estado que vem sendo construído por vocês há 16 anos?
Primeiro, atualmente, nós propomos basicamente a continuidade como inovação. Nós achamos que estamos no caminho certo e temos de dar continuidade. Tivemos em 2011 e 2012 muitas dificuldades e as superamos, fazendo um enorme esforço de renovação e de inovação. Isso significa você estar aberto às ideias novas. A principal crítica que fazemos a nossos adversários não é a de que estão velhos na idade, mas, sim, na prática, na política. Nós consideramos que Iris Rezende (PMDB) e Ronaldo Caiado (DEM) representam o velho Goiás e não estão abertos, politicamente — não é nada pessoal — para entender e interagir com essa nova sociedade, com os novos problemas, com o contemporâneo. Eu dou um exemplo concreto com Fernando Henrique Cardoso [PSDB, presidente da República de 1995 a 2002]. Eu não sou macaca de auditório dele, mas ele está com 83 anos e pode se dizer que ele está velho? Não, porque ele está com ideias contemporâneas, está discutindo o novo, está estudando, pesquisando, reinventando. O velho é aquele que se fecha para essa renovação. Por exemplo, no caso, Fernando Henri­que está discutindo hoje a liberação do uso da maconha. Eu sou contra, acho que não é o momento propício para isso no Brasil, acho que nós ainda temos um grande número de jovens em formação, fora das escolas, desempregados e há muitas dúvidas dos efeitos do uso. É um momento instável e nossa sociedade ainda tem muitas desigualdades, disparidades. Então, não sou a favor, mas respeito que se discuta esse tema, que se debata esse que é um tema atual e do mundo real. Isso Fernando Henrique está fazendo. Já nossos dois adversários representam o passado e o velho. Não é idade, é que estão com as velhas práticas e visões formadas no passado.

Patrícia Moraes Machado — Quais seriam essas práticas?
Não são democráticos. Tanto não são que impuseram suas candidaturas, contra a vontade da maioria de seus partidos. Destruíram seus partidos para impor candidaturas em um processo político claramente pessoal. Nós temos de estar abertos para isso. Eu tenho citado muito, neste nosso discurso que é a continuidade com inovação, o caso do Vapt Vupt. Nos governos anteriores do Marconi, esse foi o programa mais bem avaliado de todos. Só que precisamos dar outro passo no Vapt Vupt. Sabe qual é? Aumentar fortemente o e-governo. Ou seja, colocar tudo na web. A relação do cidadão com o Estado que temos hoje conta com instrumentos e ferramentas que podem facilitá-la via web. Não faz o menor sentido você entrar em uma fila para fazer um requerimento para, só então, retirar uma certidão. Isso tem que ser tudo pela internet, como já é na Receita Federal, como é também nos bancos e em muitos outros setores. Veja, estamos tratando de um programa nosso, de nosso governo e de um projeto que é inovador, bem avaliado, mas no qual temos de avançar. Por isso, a continuidade com inovação. Até porque renovação não quer dizer mudar tudo. Muitos valores você tem até de conservá-los, pois são importantes para a sociedade. Nós, atualmente, temos como principal adversário alguém que não tem projeto para Goiás. É apenas um projeto pessoal de desforra política. Ele teria enorme dificuldade para formar uma equipe e não tem ideia alguma para esse novo Goiás. (enfático)

Patrícia Moraes Machado — Por que, então, essa obsessão de Iris Rezende em relação a Marconi Perillo?
Por uma questão de orgulho pessoal. Ele acha que é um homem importantíssimo. Minha avaliação é de que, na política de Goiás, ele vê que “não pode” ser derrotado por outro homem, que ele é o “maior”. Eu digo isso, mas tenho boa relação pessoal com Iris, respeito seu passado político. Ele tem serviços prestados ao Estado, mas não tem mais propostas para o futuro e o nosso desafio é este: reinventar, nos renovar, nos reciclar, estar aberto para as ideias novas e isso, para a administração, é muito importante.

conexao.qxd

Patrícia Moraes Machado — O sr. tem uma história com Ronaldo Caiado desde muito tempo. Uma história de divergências, mas, aquele com quem nós mais divergimos talvez seja quem mais conheçamos. Como o sr. interpreta Caiado?
Como você disse, nós conhecemos desde muito tempo, mas sempre em divergência. Ele tem qualidades, foi um bom deputado, mas não tem perfil para ser senador. Ele era representante, e foi um representante eficiente, de uma agenda do passado para o agronegócio. Ele representava a defesa da propriedade, sobretudo da grande propriedade e dos pecuaristas que deviam ao Banco do Brasil. E ele os representou com eficiência. Porém, hoje, o agronegócio tem outra agenda, outra pauta: é tecnologia, logística, pesquisa, comércio internacional. Hoje, já há novas pessoas que representam esse moderno agronegócio. Um deles é José Mário Schreiner (PSD), que é candidato a deputado federal. E, além disso, nós temos uma visão diferente da sociedade. Essas são as diferenças. Nossas divergências não são pessoais.

Patrícia Moraes Machado — Como o sr. o avalia hoje, ao lado de Iris Rezende?
Isso é uma grande incoerência. Primeiro, porque mudou de lado e, depois, porque fez isso por interesse político pessoal, para ser candidato.

Patrícia Moraes Machado — Ele tentou realmente, junto à base do governo, ocupar a vaga de candidato que hoje é do sr.?
Sim.

Elder Dias — Ele diz que não.
E o que vocês acham?

Patrícia Moraes Machado — Como foi essa articulação?
Não sei, eu não participei de articulação.

Patrícia Moraes Machado — Mas como o sr. afirmou, com convicção, que ele fez isso.
Sim, afirmo porque tenho elementos, informações e avaliações sobre isso. E vocês sabem que sim.

Elder Dias — Caiado disse que foi convidado por Aécio Neves (PSDB) para integrar a base de Marconi e que ele, pessoalmente, não teve nenhuma conversa com a base aliada.
Uma coisa é não ter conversa direta, outra coisa é haver interlocutores a pedido dele ou para atender os interesses dele. Claro que teve. Ele queria ser candidato. Então, eu acredito que sim, que ele queria ser candidato pela base.

Elder Dias — O personagem Nerso da Capitinga representou, na eleição de 1998, um sentimento concreto que existia em relação ao PMDB. Ele volta agora, principalmente na internet, falando sobre a figura do “dinossauro”. Naquela época, esse “dinossauro” representava uma coisa e agora representa outra, mas sempre em referência ao PMDB e seus aliados. Quando o sr. coloca essa questão de continuidade com inovação, fica claro que esse símbolo quer representar não o lado que está há 16 anos no governo, que diz que quer se renovar e inovar, mas aquele outro lado, que não consegue pensar algo moderno.
É isso mesmo, exatamente. Essa é a interpretação do novo e do velho, que eu tentei formular aqui. Conheço gente de 20 anos que tem cabeça de alguém com 80, que está fechado para a inovação, para a renovação, para a vida e para uma nova prática política. Essa é a diferença fundamental. Nós nos esforçamos para inovação, para renovação, para reciclagem, para identificar, compreender, interpretar os impulsos novos da sociedade, tanto na política quanto na gestão.

“União da base foi habilidade do governador”

Patrícia Moraes Machado — A escolha do atual senador na chapa do governador, assim como a do vice José Eliton (PP), sofreu, antes de ser confirmada, uma resistência da base. E veio o governador dizendo que manteria essa chapa, justamente por reconhecer os aliados que estiveram ao lado dele. Pessoas que, em momentos críticos da administração e da política sempre estiveram ao lado dele. O sr. realmente é uma delas. Isso realmente aconteceu? Essa escolha foi por isso, apenas por gratidão, ou também por uma convicção do governador de que o sr. agregará alguma coisa ao Estado?
Primeiramente, essas divergências são naturais de uma base aliada grande, com 16 partidos, um número grande de candidatos que eram deputados estaduais e federais e outros novos. Ou seja, é um universo amplo e muito diversificado. Portanto, essas divergências na época de convenção são naturais e nós tivemos a habilidade e a competência para administrá-las e chegamos à convenção absolutamente unidos. Agora estamos trabalhando para manter esse grau de coesão, de uma base com vi­sões diferentes, o que é natural. Nós tivemos capacidade de superá-las e estamos aumentando essa u­nidade, que é a nossa força. Ao contrário, nossos adversários não tiveram a competência para manter a unidade interna em seus partidos. Tanto o DEM como o PMDB estão divididos e rachados.

Patrícia Moraes Machado — Houve realmente muita habilidade do governador para manter uma base aliada tão grande.
Exatamente isso. Por isso, diferentemente, a união é nossa força e demonstra a habilidade do governador e de nossa base em manter isso. Superamos coisas, ainda que laterais ou pequenas, tivemos diálogo para superá-las, diferentemente de nossos adversários.
Outro ponto é que eu tenho uma história política. Nessa história, nos últimos anos, dei muitos pontos de sustentação política a esse projeto do governo, inclusive nos enfrentamentos que eu tive no DEM. Sempre impus essa linha de sustentação, dentro desse projeto. Hoje eu sou feliz com isso. O resultado foi positivo. Nós sempre fomos vitoriosos nas três últimas eleições, ou seja, a maioria da população goiana apoiou e aprovou nosso projeto e estou confiante de que vamos eleger pela quarta vez Marconi Perillo — e hoje já vejo a oportunidade de ele ser eleito no primeiro turno.

Patrícia Moraes Machado — Vocês podem levar essa eleição no primeiro turno mais pelo acerto de vocês ou pelos erros dos adversários?
As duas coisas. Temos hoje cerca de 60% a 70% de chance de ganhar já no primeiro turno. Eles contribuíram bem para isso com os erros. Eu estou feliz, pois nessa gestão, nós contribuímos para a melhoria de Goiás, na infraestrutura, no desenvolvimento social. O Estado melhorou e foi positiva a nossa ação. Com erros, insuficiências, deficiências, nem tudo foi maravilhoso. Mas o resultado foi positivo.
Eu trabalhei e coloquei meus mandatos à disposição politicamente a favor desse projeto. Eu fui escolhido candidato a senador pela lealdade e pelo companheirismo ao governador e a esse projeto — até porque companheiro bom é aquele que está junto nas horas difíceis e não só nas horas fáceis. E passamos juntos muitos momentos difíceis. Mas quero dizer que a escolha não foi só por isso, não: eu tenho história, tenho conteúdo, tenho propostas, tenho nome limpo. Portanto, fui escolhido para disputar como senador também por minha história, por meu conteúdo, por minhas qualidades políticas, pela capacidade de diálogo e, assim, ser senador e agregar ao Estado.

Patrícia Moraes Machado — E quanto à crítica de que o sr. não tem eleitor e que não agregaria à base, nesse sentido?
Com relação à densidade eleitoral, existem duas dimensões. Uma, a do prestígio político, da qualidade política; e outra, a da densidade eleitoral. Realmente, a densidade eleitoral para uma eleição majoritária é meu passivo, pois sou pouco conhecido, já que nunca disputei uma eleição para senador ou para cargo do Exe­cu­tivo. Então, quando me disseram isso, eu respondi que minha densidade eleitoral baixa para uma eleição majoritária era porque sou pouco conhecido. Então, minha expectativa é de que, quando as pessoas conhecerem minha história política e pessoal, aí virá essa densidade eleitoral.

Patrícia Moraes Machado — O sr. acredita que se não tivesse ocupado uma secretaria e tivesse ficado no Congresso, assim como Ronaldo Caiado e Marina Sant’Anna [ambos concorrentes de Vilmar ao Senado], esse posicionamento, hoje, em frente ao eleitor, não seria diferente?
Poderia ser diferente, mas foi mais importante eu estar na Casa Civil, mesmo que eu tenha tido menos espaço lá para ter uma visibilidade eleitoral. O ganho que tive na Casa Civil, em termo de preparo para o exercício do mandato de senador, foi muito maior que se eu ocupasse o mandato no Congresso. Respon­dendo concretamente, a densidade eleitoral virá quando eu me tornar conhecido. Essa densidade eleitoral seria, vamos dizer, um passivo meu para a eleição majoritária. Quando eu obtiver essa popularidade, vou ter essa densidade eleitoral.

Patrícia Moraes Machado — Nessa reviravolta positiva que o governador teve em sua imagem, e que ocorre há um ano, o sr. também teve participação, na Casa Civil. A que o sr. acredita que se deva essa mudança na imagem? Por que o governador e o governo conseguiram mudar essa imagem, hoje e está com 41% de aprovação?
Isso veio com trabalho, ousadia, capacidade de superação, ha­bilidade para se relacionar com a sociedade, com o povo, e muita determinação, além da capacidade de gestão. Superar essa crise não foi fácil. Em outros Estados muita gente não conseguiu superar casos assim. Marconi, sim, porque tem essa enorme qualidade, essa habilidade para superar crises, algo que é importante para um homem público, saber conviver com as crises e saber superá-las. Hoje, estou convencido de que a sociedade goiana compreende que ele é um bom gestor, um bom governador, que é corajoso, trabalhador, eficiente e que será reeleito.

Patrícia Moraes Machado — Marconi recebeu dois golpes diretos. De um governo que já vinha com prejuízos financeiros seriíssimos do governo do Alcides e, depois, veio a crise política da imagem. Como foi isso na intimidade do Marconi?
Foi muito difícil. E eu estava diretamente acompanhando isso, pelo posto que eu ocupava. Nos anos de 2011 e 2012, em termos de gestão, nós comemos o pão que o diabo amassou. Foram difíceis a crise financeira do Estado e a crise política, muito fortes, mas superamos, o que é o mais importante. Isso veio pelas habilidades e qualidades do governador e pela coesão do grupo, da equipe e da base. Eu participei diretamente disso. Ele sempre teve uma maioria estável na Assembleia, firme com ele, e teve coesão forte no governo, não houve defecções. Juntando isso à habilidade de ele superar as crises, tivemos êxito, com muito trabalho. Eu julgo que fui importante nisso, para dar, nos momentos mais difíceis, tranquilidade, serenidade, diálogo e credibilidade ao governo.

Patrícia Moraes Machado — O sr. e José Eliton conseguiram reter os políticos que podiam debandar. José Eliton puxou o PP para si e o sr. criou o PSD, trazendo a parte do DEM que estava incomodada. Isso é mérito de vocês dois. Como foi a criação do PSD? Em que momento que o sr. percebeu que criar esse partido em Goiás iria interferir diretamente na política de sustentação do governo?
Em primeiro lugar, na verdade não mudei de partido. Uma coisa é sair de um partido e ir para outro. Eu saí de um e enfrentei o risco de criar uma nova sigla, com todos os desafios que isso implica, é diferente. Ninguém nunca me criticou por ter formado um novo partido. Muitos me diziam que eu demorei a sair do DEM, todos sabem das minhas divergências internas lá e o que aconteceu. Houve duas intervenções no diretório estadual contra o meu grupo no DEM, além de outros fatos. O PSD foi registrado no dia 27 de setembro de 2012, e o último prazo para filiação para a eleição de 2012 era dia 5 ou 6 de outubro, eram dez dias para filiar candidatos. Mesmo assim, criamos a terceira força partidária de Goiás e a segunda da base aliada. É pouca coisa do ponto de vista político? Claro que não! (enfático) Foi um movimento político muito forte e, com isso, muita gente que ficava dependente do cartório partidário se libertou, inclusive nossa aliança.
Agora, desta vez, o PSD tinha tempo de TV para oferecer, que é importante para agregar, quase o dobro do DEM, por exemplo. Tínhamos o maior número de prefeitos, de vereadores, de deputados estaduais e federais. Criamos uma força político-partidária para dar sustentação ao projeto do Tempo Novo sem ficar dependendo, como no passado, do cartório eleitoral de outros partidos. Foi o movimento mais importante para dar sustentação ao Tempo Novo neste mandato de Marconi. Acreditamos e queremos continuar neste projeto, sem exigências de caráter pessoal.

Deputado federal e candidato ao Senado Vilmar Rocha em entrevista aos editores Patrícia Moraes Machado e Elder Dias e ao repórter Frederico Vitor: “O eleitor rejeita político que muda de lado” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Deputado federal e candidato ao Senado Vilmar Rocha em entrevista aos editores Patrícia Moraes Machado e Elder Dias e ao repórter Frederico Vitor: “O eleitor rejeita político que muda de lado” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias — O sr. não tinha discordância apenas com o DEM local, mas também com o nacional, que é uma sigla em declínio, que parou no tempo, o que se comprova até pela mudança de nome.
Eu digo que nunca fui DEM, eu sempre fui PFL. Quando mudou o nome, meu coração não estava lá mais. Mas isso é passado. Falar só no passado empobrece.

Elder Dias — Sim, mas falar no passado, neste caso, mostra que o sr. é um político que busca se reinventar. A criação do PSD mostraria a percepção de que é preciso insistir na inovação?
Concordo. Foi um gesto ousado, arriscado. Churchill [Winston, 1874- 1965, estadista britânico] tem uma frase para isso: “Mudei de partido para não mudar minhas convicções.” É um pouco isso, eu não tinha mais como exercer o meu mandato dentro de um partido que tolhia meu trabalho, minha luta. Mas vamos mudar de assunto, falar de outras coisas.

Elder Dias — O sr. disse que houve erros no Tempo Novo. Qual foi o maior deles?
Acho que não houve um erro capital, central. Têm nuances, aspectos na gestão. Outro aspecto de que não podemos nos desviar, na mi­nha avaliação, é que governo bom é governo que cuida de gente mais do que de obras. As obras de infraestrutura são fundamentais, necessárias, mas a prioridade é o ser humano. Fizemos muito isso, mas temos de aprofundar mais, por exemplo nas prioridades da educação.

Elder Dias — O grande erro do chamado Tempo Novo não foi ter entregado o governo a alguém que não teria capacidade de gestão para quatro anos, como Alcides Rodrigues?
Concordo. Do ponto de vista da gestão política, o período de Al­cides Rodrigues foi um buraco ne­gro em termos de contribuição ao nosso projeto. Você lembrou bem: realmente foi um erro político que nós cometemos, o de eleger um companheiro que estava desqualificado politicamente e em termos de gestão para dirigir o Estado. Assino embaixo, isso é verdade.

Patrícia Moraes Machado — Mas esse grupo de Alcides formou-se como uma nova equipe, não é o mesmo grupo de Marconi Perillo.
É verdade, mas nós cometemos o erro de eleger Alcides. Eu defendi a unidade do Tempo Novo, tí­nha­mos maioria no diretório regional, mas as forças do DEM foram a Brasília e fizeram uma intervenção aqui e impuseram a candidatura de Demóstenes Torres (então no DEM), que foi um fiasco eleitoral em 2006. Eu estive no sacrifício, o que acho que é coerência, porque perdi, mas não mudei de lado. O tempo revelou que nós erramos em apoiar Alcides como candidato, porque ele não tinha qualificação. Foi talvez o maior erro político nosso.

Frederico Vitor — Com a cassação de Demóstenes Torres, ficou um buraco de representatividade de Goiás no Senado, uma presença de peso nacional. Os goianos querem novamente essa eloquência no Senado? O sr. é essa pessoa?
O eleitor sente orgulho de ter um político representativo, respeitado, coerente, que tenha articulação nacional. Eu me credencio para esse papel, em primeiro lugar pelo meu passado.
Eu não sou um político de casos, sou um político de causas. Na minha história política, me orgulho de três momentos. Num primeiro momento, como deputado estadual, participei de um movimento nacional de criação da Frente Liberal e depois do PFL, em 1985. Viajei o Brasil to­do nisso. Esse movimento foi primordial para fazer a transição política no Brasil, do regime militar autoritário para a democracia, com baixíssimo custo político. Eu estava lá, participei disso ao lado de outras lideranças estaduais e nacionais.
Em segundo lugar: me orgulho muito de ter participado das grandes reformas do período Fernando Henrique Cardoso, sobretudo na área econômica, com o Plano Real, a quebra de monopólios, a abertura da economia, a Lei de Respon­sa­bi­li­dade Fiscal, todas aquelas mu­danças estruturais que fizemos na economia. Eu era deputado federal, presidente do importante Instituto Tancredo Neves, que era o órgão formulador do partido, e naquela época a bancada do PFL era a maior da Câmara. Fiz parte disso, à minha maneira, discretamente, mas participando de uma articulação parlamentar e política, no Con­gresso, para a aprovação dessas reformas. Vocês não sabiam, mas foi o deputado Vilmar Rocha o relator, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), da PEC [proposta de emenda constitucional] para quebra do monopólio da União sobre o petróleo no Brasil. Conto uma historinha pessoal. A votação da PEC coincidiu com a formatura de meu filho nos Estados Uni­dos, em Pittsburgh. Comprei a passagem e avisei: “Vamos votar a quebra do monopólio do petróleo, da qual eu fui relator, na semana que vem, mas quero dizer que não vou estar aqui. Por quê? Porque eu tenho um filho que mora nos Estados Unidos que vai formar e eu vou estar lá.” O presidente da executiva na­cional do PFL, Jorge Bor­nhausen fez um apelo em nome da executiva nacional, ao dizer que não havia segurança da aprovação daquela PEC. E ele me disse: “Em nome da executiva nacional, faço um apelo a Vossa Excelência para que não vá aos Estados Unidos na formatura de seu filho e fique aqui para a votação da PEC.” Uma jornalista do “Correio Brazilien­se” publicou uma nota com esta história, quando não fui aos Estados Unidos. Escrevi uma carta para meu filho explicando, chorei muito. Mas o que quero dizer com isso? É que eu engajei nessas reformas importantes do Brasil! (enfático)
O terceiro momento é o presente: participei do processo de modernização de Goiás juntamente com Marconi Perillo.

Patrícia Moraes Machado — Estamos falando muito de coerência e este é o seu perfil, ou seja, de muita coerência. Como o sr. avalia essas alianças políticas no Brasil inteiro?
Isso é um pouco da realidade política do Brasil e de Goiás. Há um grau de ambiguidade dessas alianças em função da realidade política e partidária. Mas me meio a esta realidade, temos de lutar para ser coerente e sempre procurei a ser coerente. Ser coerente é não mudar de lado. Sobretudo, não mudar de lado em razão de interesses políticos pessoais. Às vezes você pode até mudar quando se há justificativa, argumentos e fundamentos para mudar. Não dá para mudar apenas para ser candidato.

Patrícia Moraes Machado — Nessas caminhadas que o sr. está fazendo tem percebido que o eleitor está ciente das questões de coerência política?
O eleitor está ciente. Há críticas fortes em relação a isso. A sociedade e a população bem informada rejeitam político que muda de lado, sobretudo por interesses políticos pessoal.
Patrícia Moraes Machado — Enquanto as reformas que o Brasil precisa, como reforma política e tributária?
É a grande crítica central que nós fazemos ao Lula e ao período do PT. (enfático) Primeiro, eles aparelharam o Estado. Caiu demais o nível de gestão e cresceu a corrupção por conta do aparelhamento da máquina pública. Pela conivência do aparelho do Estado com o malfeito. Lula sempre passou a mão na cabeça dos que faziam o malfeito, e isso é grave.
Em segundo lugar, Lula não avançou nas reformas estruturais. Tanto na área econômica quanto na área política e da gestão. Quando falo que tive orgulho de ter sido parte do período anterior é porque fizemos reformas estruturais que melhoraram o Brasil. Algumas, inclusive, impopulares. Quer um exemplo? A reforma da Previdência. Sou professor universitário, uma pessoa da classe média e, na época, houve uma enorme rejeição a minha pessoa, por causa da reforma da Previdência, e ela era necessária. Era insustentável aquele modelo. Fizemos tudo que era necessário? Não, mas paramos a bomba-relógio que era a Previdência. Mas diga: qual a reforma estrutural que o PT fez durante todos esses anos, tanto na área de economia quanto na área política? Qual? Nada! Não fizeram mudança significativas. O PT tem erros e acertos de gestão? Sim, tem erros e acertos. Eu mesmo considero esse projeto Minha Casa, Minha Vida é um projeto, mas não houve mudança estrutural.
Nós temos de retomar as mudanças estruturais do Brasil, na economia, na política, na gestão, temos de fazer essas mudanças. O Senado é um posto bom para isso, pela estabilidade do mandato. O Senado é bom para quem quer fazer política de Estado e não de governo. Por isso o Senado é uma Casa para pessoas mais maduras, experientes. O projeto do senador deixa de ser eleitoral, por conta das políticas de Estado que são desenvolvidas. Eu me amadureci, eu me preparei, estou pronto para fazer política de Estado. Sozinho? Não. Fazer isso tem de ser articulando, convencendo, influenciando. Não tenho a menor dúvida: estou preparadíssimo. Um senador não pode ser inimigo do governador de seu Estado. Como isso pode? Temos de ter um senador que tenha diálogo com o governador, com os prefeitos, acima dos partidos. Esse é o perfil do senador, não pode ser radical. Ele representa os interesses do Estado e tem de ter diálogo com todos da sociedade.

Elder Dias — O que o efeito Marina Silva pode provocar na eleição?
Acho que, com a morte de Eduardo Campos e a candidatura de Marina, confirmou-se o segundo turno no Brasil. Nós vamos ter segundo turno. Ela terá um desempenho eleitoral melhor do que o de Eduardo, o que provoca o segundo turno. Outra coisa: eu ainda acredito que o segundo turno será entre Dilma e Aécio.

Elder Dias — “Ainda”?
Tira o “ainda”. (risos) Acredito que será entre Dilma e Aécio. A estrutura político-partidária de Aécio vai pesar a favor dele. A pesquisa Datafolha divulgada nesta semana tem um componente emocional que favorece Marina. O eleitorado do Centro-Sul — mais especificamente os mineiros, paulistas, gaúchos e paranaenses — sabem que Marina não tem perfil para ser presidente do Brasil. Não podemos ter fundamentalismo, nem alguém monotemático no poder. Em um país como o nosso, precisamos de um presidente com capacidade de dialogar com todo mundo e diferentes setores e interesses da sociedade.

Deixe um comentário