“Esperamos que Goiás cresça nos próximos 2 anos com as medidas que tomamos no governo”

Nome da alta cúpula da gestão de Marconi Perillo, o titular da Secima confirma que o Estado está em situação bem melhor que outras unidades federativas

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Vilmar Rocha é, sem dúvida, um dos personagens de maior peso na política goiana das últimas duas décadas. Com mais de 1 milhão de votos ao Senado em 2014, mostrou que tem força, ainda que não tenha alcançado o mandato. É com esse gabarito que ele se cacifa para avaliar como será a segunda metade do governo de Marconi Perillo (PSDB), de quem é fiel aliado.
O objetivo é que Goiás tenha capacidade de investimento em 2017 e 2018. Para isso, mesmo em meio ao caos na política e à crise na economia, ele aposta na prática de ajuste fiscal que o Estado adotou. “As medidas tomadas no início do governo foram positivas e nos fizeram chegar até agora relativamente em dia com nossas contas”, analisa.

Como titular da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos (Secima), ele tem acompanhado de perto as pautas ambientais e, nesta entrevista, faz um relato do que apreendeu na Cúpula Mundial do Clima em Marrakesh (COP-22), no Marrocos, realizada em novembro. Ele fala sobre polêmicas de sua área de atuação no governo, como a ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, e também faz um prognóstico de como ficará a Celg depois da privatização.

Cezar Santos — Encerra-se, agora, a metade do mandato do governo estadual, em um momento ruim, de crise no País. Qual balanço o sr. faria dos primeiros dois anos e que podem dar alguma perspectiva para os próximos anos?
Mesmo com a crise econômica nacional, que também repercute em Goiás, as medidas que o governo estadual tomou no início do ano — com a redução da máquina e do número de secretarias — surtiram efeito. Realmente, o investimento foi pequeno neste período e sofremos muito na secretaria, por não ter dinheiro. Mas Goiás está em situação muito melhor do que a dos outros Estados do Brasil. Pelo menos aqui, nós estamos com a folha de pagamento em dia e com as despesas de custeio de manutenção da máquina relativamente em dia.

Esperamos agora, como a situação está mais ou menos equilibrada, melhor do que em outros Estados, em 2017 e 2018 ter capacidade de investimento. As medidas de austeridade que foram enviadas à Assembleia — não gosto da palavra “austeridade”, mas concordamos com as medidas — são necessárias. O que se pode discutir pontualmente são algumas coisas que podem ser melhoradas ou alteradas. Mas, no conjunto, elas vão nos dar capacidade de investimento em 2017 e 2018. Não só para o Estado, mas também para apoiar as prefeituras.

A privatização da Celg é um ponto, essas medidas são outro, assim como os recursos da repatriação vão ajudar. Vamos buscar outras fontes de financiamento. Queremos ter capacidade de investimento em 2017 e 2018. Eu, como secretário, o que não poderia ser diferente, mas também como político e presidente de partido, apoio essas medidas e acredito que elas sejam importantes e necessárias para que Goiás saia na frente dos Estados com capacidade de investimento.

No início de 2015, conversei com Marconi no dia que ele foi anunciar meu nome. Sugeri a ele que não lançasse novas obras, mas que concluisse as que estavam em andamento. Estaria bom demais se o governo conseguisse concluir as obras em andamento nesse mandato. E é o que o governador está fazendo. E não foi só por sugestão minha, ele mesmo decidiu isso. Concluímos o Hugol [Hospital de Urgências Governador Otávio Lage, na região oeste], o Estádio Olímpico, o Credeq, estamos concluindo uma obra importante em março, que é a ponte de Cocalinho [entre Aruanã, em Goiás, e Cocalinho (MT), sobre o Rio Araguaia]. A ideia é concluir as obras em andamento. Estamos otimistas com relação a 2017 e 2018, o Estado vai ter capacidade de fazer investimento. Não vamos ficar apenas na manutenção da máquina. O quanto será, podemos ver, mas isso vai colocar Goiás em uma posição diferenciada do resto do Brasil. Não é trivial a privatização da Celg, de quase R$ 1 bilhão, além dos R$ 3 bilhões que serão investidos.

As medidas tomadas no início do governo foram positivas e nos fizeram chegar até agora relativamente em dia com nossas contas. Com mais essas medidas, a privatização da Celg, com o aumento da nossa capacidade de financiamento, com os recursos da repatriação, a gente espera que o governo federal também volte a ter algum espaço de investimento nos próximos dois anos, e esperamos ver uma retomada do crescimento em Goiás e no País.

Cezar Santos — A recuperação da capacidade de investimento será suficiente para que o governador faça seu sucessor, considerando que serão 20 anos de quando ele foi eleito pela primeira vez ao governo, o que gera um desgaste natural?
A formatação política de 2018 no Brasil ainda não está definida, mas a definir. Em Goiás, haverá uma mudança na nossa base política. Qual será a mudança ainda não está definido, mas ela vai acontecer. Temos de ver a extensão e a profundidade desse novo redesenho da disputa de 2018, mas em nossa base haverá mudanças.

Acredito que, com essa medidas e com a capacidade de investimento, melhora a condição de a gente fazer o sucessor. Mas não é só isso; só isso não faz o sucessor. Vamos ter de fazer um redesenho da disputa de 2018, que vai ser diferente. Como vai ser, a gente não sabe ainda dizer, nem em nível estadual nem em nível nacional.

Cezar Santos — Em Goiás, o grande adversário será mesmo o PMDB?
O grande adversário será o PMDB mais o DEM, ou parte do PMDB e parte do DEM. Nossos adversários hoje são o PMDB e o DEM. São os dois grandes partidos de oposição. Só que eu acho que pode haver um processo de divisão. Assim como a base aliada pode não chegar inteira em 2018, também não acredito que o PMDB vá chegar inteiro.

Augusto Diniz — O sr. acredita que a aliança entre Iris Rezende (PMDB) e o senador Ronaldo Caiado (DEM) possa ser rompida até 2018?
Não digo algo entre Iris e Caiado, mas algo como Iris/Caiado versus Maguito. O grupo de Maguito Vilela [prefeito de Apa­recida de Goiânia] hoje é um grupo muito forte no PMDB.

Cezar Santos — O sr. vê a possibilidade de sair da base uma defecção que se fortaleça a ponto de constituir uma terceira via? Quem sabe, o PTB ou o próprio PSD?
É possível. Acredito que o nosso grupo foi muito competente politicamente para ganhar cinco eleições majoritárias em Goiás nesses 20 anos. Quatro eleições com Marconi e uma com Alcides Rodrigues. Pode-se até analisar Alcides separadamente, mas ele foi eleito pela base. Isso é uma prova de competência política. Em 2018, queremos ganhar de novo, mas talvez tenhamos de mudar o conteúdo dessa base.

"Ao lançarmos francisco júnior candidato a prefeito conseguimos torná-lo referência do psd como liderança jovem em Goiânia” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

“Ao lançarmos francisco júnior candidato a prefeito conseguimos torná-lo referência
do PSD como liderança jovem em Goiânia” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Augusto Diniz — E após a eleição municipal, como o PSD ficou em Goiás?
O PSD se consolidou como a terceira força político-partidária de Goiás. Se somarmos, nas eleições majoritárias, os prefeitos e os vices, o PSD ficou atrás apenas do PSDB e do PMDB. O PSD e o PP fizeram igualmente 42 prefeitos e vices, mas nós fizemos mais vereadores e somamos mais votos nas eleições para prefeito, além de mais votos na eleição de vereadores, também. Estendendo essa imagem política, o PSD fez dois vereadores em Goiânia, o PP não fez nenhum; o PSD tem dois deputados estaduais, o PP não tem nenhum; na Câmara Federal, o PSD tem dois deputados eleitos e o PP só um, Roberto Balestra, que de certa forma é um dissidente do partido.

Analisemos o Senado, tecendo um comentário político: o PP tem um senador, o Wilder Morais, que não foi eleito pelo partido, mas, sim, como suplente [de Demóstenes Torres, pelo DEM, em 2010] e o PSD teve Vilmar Rocha como candidato ao Senado em 2014, com mais de 1 milhão de votos. Então, quer no resultado da eleição municipal, quer na análise política, o PSD é a terceira força partidária de Goiás.

Um segundo ponto: o governador Marconi Perillo é o nosso líder. Reconhecemos seu talento, sua inteligência, sua ousadia. Ele é alguém que sempre soube conduzir a base. Mas o governador não poderá mais ser candidato a governador em 2018; ele será candidato ou a presidente da República ou vice-presidente ou, ainda, a senador. Em quaisquer circunstâncias, seja qual o cargo que Marconi disputar, o PSD de Goiás estará com ele, eu vou estar com ele. Sou muito grato a Marconi Perillo, porque ao longo desses 20 anos de relacionamento político, ele sempre foi muito correto comigo e igualmente eu com ele. Estamos “zerados”. Mas ele não será mais o candidato a governador. Então, o PSD se reserva o direito de analisar a quem apoiar para governador. Esse redesenho não está pronto. O PSD é um partido, uma força política e tem o direito de discutir quem será o próximo candidato a governador.

Cezar Santos — E qual a meta do PSD goiano em 2018?
Ter um nome na chapa majoritária, eleger quatro deputados federais e seis deputados estaduais. Essa é a nossa meta e vamos trabalhar para isso.

Elder Dias — José Eliton é o candidato natural da base aliada governista?
Não. (enfático) O governador já anunciou que José Eliton é o candidato do PSDB, e nós respeitamos isso. Marconi, como sempre, foi muito correto e disse isso, que José Eliton é o candidato do PSDB, não falou que era da base, que ele não definiu, algo que será feito mais à frente. Hoje, José Eliton não é o candidato do PSD, mas do PSDB. Seria até bom que todos os partidos da base apresentassem seus nomes para que em 2018 fizéssemos uma avaliação de quem seria o melhor. Afunilaríamos então, nesse momento. Isso é o que eu penso, não sei se está certo ou errado.

Augusto Diniz — Na eleição em Goiânia, a base foi com dois candidatos e perdeu. Que avaliação o sr. faz, também, do fato de o PSD ter apresentado um nome que acabou não sendo o candidato da base?
Em primeiro lugar, recordo que, com um ano de antecedência, anunciamos o projeto de o PSD ter candidato próprio em Goiânia. Honra­mos esse compromisso, mesmo com a maioria dos agentes políticos e da imprensa não acreditando nisso, achando que no final não teríamos candidato próprio. Mas tivemos, sim. Fizemos algo coerente: como havia dois nomes pleiteando [os deputados estaduais Virmon­des Cruvinel (hoje no PPS) e Francisco Júnior], fizemos uma pré-convenção antes de finalizar o prazo para a mudança de partido, seis meses antes da eleição. Francisco Junior ganhou a pré-convenção e Virmondes optou por sair do PSD, o que achei um erro. E eu disse isso a ele, falei “você errou”, mas falei isso olhando para ele, também dizendo que não haveria nenhuma recriminação em relação à saída. Fizemos a pré-convenção exatamente para que pudesse sair quem quisesse sair. Isso foi tranquilo. Mas acho que Virmondes errou. Ora, disputar uma indicação, perde e então sai? Mas foi tranquilo, tanto que nosso relacionamento com ele é bom.

Cezar Santos — Mas, qual foi a estratégia do PSD ao ter candidato próprio em Goiânia?
Tínhamos três objetivos com a candidatura própria. Primeiro, divulgar o partido e o número, porque pela primeira vez teríamos um grande espaço na TV. E fizemos isso. Francisco Júnior e o PSD tiveram divulgação no Estado todo no tempo de TV. Foi bom, porque somos um partido novo.

O objetivo dois foi mostrar que somos um partido autônomo, que estamos numa aliança, mas temos personalidade e pretensão de poder, e temos bons quadros. Cumprimos esse propósito. O terceiro objetivo foi promover uma liderança jovem em Goiânia, que foi o deputado Francisco Júnior, que saiu da campanha muito maior do que entrou. Ele se tornou nossa referência em Goiânia. Ter um quadro assim é bom, cumprimos esse objetivo. E eleição em dois turnos dá oportunidade para lançar um nome e depois, no segundo turno, reaglutinarmos a base. Então, no segundo turno, apoiamos Vanderlan Cardoso (PSB).

Elder Dias — Falando sobre o quadro nacional, o PSD continua firme no apoio ao governo de Michel Temer, que já começa a sofrer críticas até mesmo de apoiadores?
Sou bem claro sobre isso, eu, Vilmar Rocha, defendo a manutenção do apoio ao governo de Michel Temer. Isso porque, se tirar Temer, quem vamos colocar no lugar dele? E tem mais: o governo Temer é, claramente, um governo de transição. Fernando Henrique Cardoso [ex-presidente da República, de 1995 a 2002] usou uma imagem interessante, ao dizer que o governo atual é uma “pinguela” para chegarmos a 2018. Existe o ideal e o real, e o real é que, nas circunstâncias de hoje, com todos os problemas, interessa ao País manter esse governo de coalizão para chegarmos a 2018. Tirar Temer agora, fazer uma mudança neste momento, seria muito complicado para o País.

Elder Dias — No governo de Itamar Franco [1992-1994], após a queda de Fernando Collor [presidente da República de 1990 a 1992, quando sofreu impeachment], também num período de dois anos de transição, o resultado foi melhor…
A situação é diferente, naquela época tínhamos uma crise política, mas não tínhamos crise econômica nem ética. Pedi minha assessoria que fizesse um levantamento do PIB brasileiro de 1901 até 2016, e vimos que somente em dois momentos na história do Brasil sofremos dois anos seguidos de PIB negativo: 1930 e 1931, em função da quebra da Bolsa de Nova York em 1929; e 2015 e 2016, pelo desastre do governo do PT. Então, a crise econômica agora é um complicador. E digo mais: a desmoralização da classe política é perigosa, se pensarmos em quem tem responsabilidade com o País; já quem não tem responsabilidade não está nem aí.

Elder Dias — Mas o governo Michel Temer está cercado de pessoas incriminadas…
Isso é verdade e é outra coisa. Temer hoje não é o presidente, é um primeiro-ministro. No presidencialismo que temos, de cooptação — infelizmente, essa é a verdade —, o presidente só se sustenta se conseguir aprovar as medidas no Congresso. Na história do Brasil, nenhum presidente se sustentou após perder o apoio do Congresso: Jango [apelido de João Goulart, presidente de 1961 a 1964, quando foi deposto], Collor, o próprio Getúlio Vargas [presidente de 1930 a 1945 e depois de 1951 a 1954, quando se suicidou], em circunstâncias diferentes, e agora Dilma Rousseff. Então, pode-se gostar ou não da PEC do Teto, mas foi aprovada, abriu perspectivas para o País. A reforma da Previdência será aprovada? Será diferente do que a que ele mandou, mas alguma coisa vai avançar e para isso precisa ter apoio do Congresso.

Elder Dias — Então, o projeto de reforma da Previdência como está hoje não passa no Congresso?
Não. Acho até que muitas coisas foram colocadas estrategicamente como “bodes na sala”, ou seja, sabendo que depois serão tiradas nas negociações. Mas alguma coisa vai avançar na reforma da Previ­dência. Como avançamos — e eu apoiei como deputado federal — a primeira e segunda geração da reforma da Previdência no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Augusto Diniz — O sr. disse que a desmoralização da classe política é perigoso. Que avaliação o sr. faz da Operação Lava Jato? Vai passar o Brasil a limpo?
Vai passar, sim, já mudou o País. Não se viam grandes empresários e grandes políticos na cadeia. Agora essa gente está sendo presa. E vai ter mais coisas, e precisa ter mesmo. Acho positivo. Gosto de dizer que o que está em crise na política é a má política, não a boa política. A Lava Jato está cumprindo seu papel. Mas é preciso que se diga: estão havendo abusos! (enfático) Não é hora de votarmos a lei de abuso de autoridade, mas vamos ter de chegar a ela, porque está havendo abusos.

Elder Dias — Seria melhor esperar terminar a Lava Jato para então aprovar essa lei do abuso de autoridade?
Acho que sim, temos de discuti-la com serenidade, com responsabilidade em outro momento, num ambiente menos tensionado. Mas uma coisa boa que está acontecendo no Brasil é que política virou assunto de boteco, a sociedade está indo para as ruas e a internet tem seu papel, embora ocorram exageros e abusos. Mas todos estão discutindo política e isso é bom. Isso é muito bom, a sociedade está viva, não está indiferente ao que acontece. Mas cabe aos políticos relevantes ter equilíbrio nessa hora. Eu fiz uma declaração a este jornal, que deu enorme repercussão, dizendo que a decisão do Supremo sobre manter Renan Calheiros na presidência do Senado foi correta.

Não conheço Renan, nunca estive com ele, mas ele é o presidente do Senado, foi eleito pelos senadores e cabe ao Senado aprovar a indicação dos ministros do STF. Ora, como, por meio de uma decisão liminar, monocrática [do ministro Marco Aurélio Mello], se tira o presidente do Senado? Quem elege o presidente do Senado são os senadores. Não se trata da pessoa de Renan Calheiros, eu penso na instituição.

Augusto Diniz — Caso a decisão monocrática de Marco Aurélio Mello fosse mantida, haveria risco de judicializar a República?
Está na Constituição: equilíbrio e harmonia entre os poderes. Se afastassem Renan, perderíamos o equilíbrio e estaríamos à beira de uma crise institucional, que é diferente de crise política. Essa crise política que está aí é ótima, o que não podemos é chegar a uma crise institucional. Naquele momento, correríamos o risco, porque seria um poder claramente interferindo no outro, tirando o presidente do Senado. Geraria uma instabilidade institucional. Por isso, a decisão do Supremo, nesse caso, foi correta. Temos de cuidar do respeito às regras fundamentais da Constituição. Mas tem muita gente que age com emoção, vai na onda e joga para a plateia. É gente sem responsabilidade.

Elder Dias — O sr. esteve em novembro na cúpula do meio ambiente em Marrakesh (COP-22). Dizem que as cúpulas tem muita discussão, mas pouca efetividade. E o meio ambiente costuma ser algo periférico nas preocupações das pessoas e dos governos. Em particular para Goiás teremos alguma medida objetiva em relação ao que discutido?
Teremos, sim, acho que vamos efetivar algo de Marra­kesh em Goiás. Mas, antes de responder, é bom dizer que também estive na cúpula de Paris (COP-21), em 2015. A COP de Paris foi politicamente mais expressiva que a de Marrakesh — participaram 195 chefes de Estado, na primeira e apenas 60 na do Marrocos. Paris foi a grande concertação, o grande acordo. Os 197 países do mundo assinaram o protocolo do clima. Isso não é trivial: China, Estados Unidos e todas as nações relevantes assinaram. Chegaram ao acordo para algumas metas.
A COP de Marrakesh — a segunda naquela cidade, a primeira tinha sido a COP-7, em 2001 — já tinha a lógica de ser mais operacional, de se saber o que seria colocado em prática. A próxima será em Bonn, na Alemanha.

“Queremos atrair dinheiro para conservar o Cerrado”

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Cezar Santos — Mas, do que foi decidido no Marrocos, o que pode ser aplicado em Goiás?
Quando vamos a um evento assim temos três objetivos. O primeiro é ficar antenado com o que está acontecendo no mundo, em termos de tendências e novas informações; o segundo é fazer um grande networking [estabelecimento de uma rede de contatos], já que temos gente do Brasil — cerca de 300 pes­soas — e do mundo inteiro ali; em terceiro lugar, podemos identificar coisas que o Estado pode acessar para ir atrás.

Vou dar um exemplo concreto. Na COP-21 foi aprovado o Fundo Verde do Clima, que vai repassar US$ 100 bilhões até 2020 para ser aplicados em projetos na área ambiental. No Brasil temos o Fundo da Amazônia, que pode ter acesso a esse fundo internacional. Uma alternativa que temos é criar o Fundo do Cerrado, que é um bioma muito importante.

Elder Dias — E um bioma desprezado, inclusive pela legislação.
Você tem toda razão. É um bioma de muita diversidade e por isso queremos ver se podemos acessar esse dinheiro para um fundo assim, para aplicação de projetos de conservação no Cerrado.

Elder Dias — A Amazônia, a Mata Atlântica e o Pantanal são protegidos inclusive pela Constituição, como patrimônio nacional. Já o Cerrado — assim como a Caatinga e os Pampas — não tem essa proteção. A criação de um fundo não poderia ser prejudicada por essa falta de legislação?
Não acredito nisso. O Cerrado é um bioma reconhecido internacionalmente e nada impede que obtenhamos esse fundo.
A grande mudança que temos de fazer no mundo para proteger o clima é em relação à matriz energética. É só essa. Ou seja, deixar de usar carvão e petróleo e passar a usar as energias renováveis. Onde estão esses projetos e quais são eles? Em primeiro lugar, a energia solar. Em Goiás, estamos desenvolvendo um projeto nesse sentido. Ocorre que apenas 0,1% da energia produzida no Brasil é solar. Em Goiás, até o momento, é praticamente zero. Em minha casa eu produzo energia solar.

Esse foi um grande tema lá: energias renováveis. Uma coisa que vocês podem anotar sobre o futuro: o carro elétrico vai dominar o mundo. A Dinamarca já fixou uma data (para ter 100% de carros elétricos), a Alemanha está fixando. Em Marrakesh houve a apresentação de vários e vários veículos assim. Tem tecnologia para isso e a estão aperfeiçoando cada vez mais. Vamos ter de trocar o carvão e o petróleo pela energia solar, eólica e de biomassa. Em Goiás, temos um estudo sobre o teor de insolação e de calor, que é quase igual ao do Nordeste, é um dos melhores índices do Brasil.

Na COP-22, havia uma planta de energia solar no deserto do Marrocos, imensa. Para ter ideia, na Alemanha 15% da energia produzida é de energia solar — e lá quase não tem sol. É uma energia abundante, renovável e gratuita, além de limpíssima. O que é caro, hoje, são os equipamentos — placas, inversores etc. Mas esse preço vai cair.

Marcos Nunes Carreiro — E como fazer para baratear esses equipamentos, para que toda a população tenha acesso?
Promovido por mim, Goiás foi um dos três primeiros Estados no Brasil a aderir a um acordo do Confaz [Con­se­lho Nacional de Política Fazendária] pa­ra isentar de ICMS a energia solar pro­duzida para micro e minigeração de energia solar. Isso quer dizer que hoje, se alguém for montar uma geração de energia solar em casa ou em um comércio isso não vai ser tributado. O que é preciso fazer agora é conseguir baixar o preço dos equipamentos que compõem a produção de energia solar. Os governos estadual e federal estão trabalhando com isenção tributária e fiscal.

Outra questão é o financiamento. Eu cheguei a implantar energia residencial, mas somente em um terço dela, porque na casa toda ficaria muito caro. Só a parte que implantamos — fiz isso por sugestão de minha filha — ficou em R$ 33 mil. Financiei em seis vezes e agora posso mostrar para as pessoas.

Augusto Diniz — É possível que, neste cenário de crise que vivemos, o governo facilite o financiamento da adoção de energia solar em residências e pequenas empresas?
Sim, claro. Têm famílias que se en­di­vidam por anos para financiar os filhos, por exemplo. E isso é bom ou ruim? Claro que é bom! (enfático). Um crédito dessa forma não é tarefa para tecnocratas ou financistas. Esses, no geral, não têm visão ampla da sociedade e focam em números. Burocratas não veem as pessoas, mas as estatísticas. Política econômica é dosagem e credibilidade. Uma dose excessiva pode levar à paralisia e reduzir a arrecadação. É preciso pensar em médio e em longo prazos.

O que precisamos analisar é no que é mais importante para a sociedade em determinado momento histórico, político e social. Então, pensar no retorno disso no decorrer do tempo. A poderosa Alemanha deu subsídios fiscais para a implantação da energia solar e agora estão revendo isso, depois de dez anos. Todos os países usam e devem usar a política tributária para ativar políticas públicas desenvolvimentistas com resultados em médio e longo prazos. Portanto, dar isenção tributária para ampliar e aprofundar o uso e a produção de energias renováveis é algo necessário. Se der déficit, que seja assim, porque ter déficit às vezes é necessário. Qual o problema do déficit? O importante é a qualidade do déficit. Então, eu acho, sim, possível, até porque não vejo que haveria uma repercussão muito marcante na arrecadação. O subsídio é uma política fiscal que o mundo inteiro usa, para que o governo possa incentivar determinados setores estratégicos para a sociedade.

Cezar Santos — Na COP-22 houve alguma novidade em relação à questão do agronegócio?
Houve vários painéis sobre agronegócio. Em um deles estavam presentes dois de nossos ministros, Blairo Maggi [Agricultura] e Sarney Filho [Meio Am­biente], em meio a representantes de vá­rios países. O tema era o reaproveitamento dos resíduos da agricultura. Outro tema discutido foi o chamado “etanol de segunda geração” [fabricado a partir da palha e bagaço da cana, enquanto a matéria prima do etanol de primeira geração é o caldo de cana]. Goiás é o segundo maior produtor de etanol do Brasil, atrás apenas de São Paulo — em relação à produção de açúcar, nossas usinas nos colocam em 4º lugar.

Abrindo parênteses, essa colocação no ranking nacional foi conseguida em grande parte por conta dos incentivos fiscais. Se essa estratégia é boa ou ruim podemos discutir, mas o fato é mudamos a composição de nosso PIB [Produto Interno Bruto], que era basicamente do primeiro setor, agrícola — que continua com participação muito importante —, e à qual incorporamos uma matriz industrial. Hoje a participação do PIB industrial é muito alta em relação a 20 anos atrás. Basta dizer que só tem seis Estados com montadoras de automóveis e Goiás é um deles. Isso gera emprego e gera renda.

Elder Dias — Qual seria a viabilidade, hoje, para a instalação de uma grande indústria em Goiás que utilizasse apenas energia solar? Seria uma montanha de dinheiro, não?
Sim, seria. Mas, além dessas medidas — simplificação do processo de licenciamento, estudo de um sistema de financiamento, políticas fiscais etc. — estamos tentando trazer para Goiás duas novidades: uma é trazer indústrias de equipamentos na área de energia solar, como placas e inversores. Goiás vai implantar, de forma pioneira, energia solar nos conjuntos do programa Minha Casa Minha Vida, por inspiração minha. As residências hoje já têm esse tipo de energia para aquecimento da água (do chuveiro). Então, fui procurado por uma empresa chinesa que está querendo produzir um tipo de inversor pequeno para vender para essas casas.

A segunda questão é que foi inaugurada em Piracicaba (SP) uma grande indústria de painéis solares. Estamos tentando trazer uma dessas para cá, para fabricar os equipamentos aqui em Goiás. A ideia é a de instalar usinas solares aqui. Além disso, conversei com a Kyocera, que é o quarto maior grupo de produção de placas solares do mundo. É um grupo japonês. Queremos fazer, tão logo, cinco usinas solares e uma já está definida: será em Morrinhos. Por quê? Porque lá está perto da transmissão, então fica mais fácil. Será uma sociedade de projeto específico entre essa empresa e a Celg GT [Geração e Transmissão].

Elder Dias — Há três pautas importantes, relativos ao meio ambiente em Goiás, e que dizem respeito à pasta que o sr. ocupa no governo estadual: a questão dos resíduos sólidos, a ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e o avanço das fronteiras agrícolas em Goiás. O que o sr. tem a dizer sobre esses temas?
Vamos nos ater primeiramente a resíduos sólidos. É preciso saber, primeiramente, que é um tema de competência dos municípios. O Estado não tem nada a ver com isso, embora possa atuar suplementarmente; mas a competência, repito, é do município, onde deve ser feita a política de resolução dos problemas. O que aconteceu é que foi votada uma legislação que dava um prazo até agosto de 2015 para que os prefeitos fizessem seus aterros sanitários.
Ocorre que 80% dos municípios, de Goiás e do Brasil, não conseguiram isso; só tem lixão — e até mesmo em Brasília. Foi dado entrada, então, em um projeto que prorrogaria esse prazo e que foi parar no Senado, quando a então Dilma Rousseff estava viajando, eu não sei por qual razão. Com Michel Temer como presidente em exercício, foi feito um novo projeto de prorrogação dos prazos. Esse projeto foi aprovado no Senado e nas comissões da Câmara, inclusive com minha interferência, e está pautado para ir para o plenário da Casa, dando prazo máximo conforme classificações. Por exemplo, para grandes cidades e regiões metropolitanas, o prazo é até 2017; depois para cidades de até 100 mil habitantes, até 2018; outros, um pouco menores, até 2019; e ainda outros, nessa escala, até 2020 e 2021. A grande maioria dos municípios de Goiás vai ter prazo até 2021, pois são municípios pequenos.

Só que isso ainda não foi aprovado na Câmara e aqui em Goiás o Ministério Público entrou com uma ação contra os atuais prefeitos. Eles vieram me procurar para dar um jeito nessa situação. Falaram sobre a questão do lixo, que não teriam condições de executar. Eu convidei a secretaria a dra. Suelena [promotora Suelena Carneiro Caetano Fernandes Jayme, da área ambiental do Ministério Público Estadual], o dr. Lauro [procurador-geral de Justiça de Goiás, Lauro Machado Nogueira] e o dr. Juliano [promotor Juliano de Barros Araújo, também da área ambiental do MP-GO] e eu disse que reconsiderassem essas ações, porque ninguém tinha dado conta de efetivar. Mas o que fica, de fato, é que quando for aprovada a lei, os processos perderão o objeto e vão para o arquivo. Ou seja, a solução é aprovar o projeto.

Eu liguei para a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados e o projeto estava lá. O deputado federal Átila Lira (PSB-PI), que foi colega meu na Câmara, o aprovou lá e o enviou para a Comis­são de Constitui­ção e Justiça. Fiz gestões nessa segunda comissão de Justiça e, novamente, o projeto foi aprovado. Em seguida, eu mesmo escrevi uma carta ao então presidente da Câmara, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que hoje está preso, pedindo que o projeto entrasse em pauta, o que não aconteceu. Estamos agora pressionando para que haja essa aprovação na Câmara. Depois, vai para o presidente, para que ele a sancione. Creio isso ocorrerá no próximo ano.

"Uma grande quantidade de terras foi devastada para fazer pastagem e agora está desertificada. precisamos replantar essas áreas”

“Uma grande quantidade de terras foi devastada para fazer pastagem e agora está desertificada. precisamos replantar essas áreas”

Elder Dias — Mas 2017 não é um prazo muito curto para as regiões metropolitanas?
Você tocou no ponto certo, estamos em um dilema. Se for aprovado como está o projeto, é um tempo curto até 2017. Mas se alterarmos a lei, ela terá de voltar para o Senado, o que vai fazer com que tudo demore muito mais. E talvez seja o caso de fazer isso, de voltá-lo para o Senado. Se votar uma mudança na lei, tem de aumentar o prazo. E por que não aconteceu nada até agora? Porque já estávamos nesta fase que estamos vivendo na política.

Elder Dias — E o projeto está lá com data limite para 2017 desde o ano passado, 2015.
Isso, e agora não dá mais. Mas o que estamos tentar fazer no Estado? Quando eu estava na Casa Civil, observei que só tem um jeito de resolver esse problema que, por meio dos consórcios de municípios. Como chefe da Casa Civil, eu puxei uma articulação em Brasília para a região do Entorno do Distrito Federal, que foi um consórcio que hoje está estruturado sob a presidência atual do governador de Brasília [Rodrigo Rollemberg (PSB)] e, a partir do ano que vem, passa o controle para o governador de Goiás. Esse consórcio dará soluções para Brasília e para as cidades do entorno.

Estamos agora estruturando um consórcio da região metropolitana de Goiânia. Deveremos contratar uma consultoria — estamos em negociação para que o BNDES [Banco Nacional de Desenvol­vimento Econômico e Social] para que o banco pague essa consultoria — para termos uma empresa que assessore os prefeitos na implantação de planos assim.

Elder Dias — Esse consórcio seria para executar um aterro coletivo de todos os municípios da região, inclusive Goiânia? E como se passaria uma negociação política que atendesse a todos os prefeitos dos municípios?
Sim, seria para todos esses municípios. Mas agora vai uma informação em primeira mão: estamos fazendo uma refundação da região metropolitana de Goiânia, que só existe hoje no papel em relação à área do transporte público. Queremos incluir, entre os assuntos metropolitanos — além do transporte, que já faz parte — temas como água e esgoto, drenagem, resíduos sólidos e ocupação do solo urbano, que são assuntos que passariam a ser tratados e decididos na instância metropolitana, sendo isso previsto em lei.

Augusto Diniz — Essa estratégia tem a ver com o plano para a região metropolitana que está sendo feito pela UFG?
De certo modo, sim. Mas o que eu trato é sobre a reestruturação jurídica e institucional da região, inclusive adaptando a legislação goiana ao novo Estatuto da Metrópole, que é de 2015, e a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que diz que todos os assuntos novos têm de estar sob a governança metropolitana.

Já o plano para a região é outra coisa. Nós estamos fazendo esse plano com a UFG. No ano passado, eu paguei a primeira parcela [para o plano] e, neste, paguei a segunda — o que dá em torno de R$ 300 mil no total, de algo de mais de R$ 2 milhões e tanto. Portanto, teremos uma reestruturação jurídica e institucional, que está nessa lei, e também teremos o plano. E já temos aprovado — também algo executado, e muito bem, pela UFG — um plano estadual de resíduos sólidos. Nós o enviaremos para a Assembleia no início do ano, estamos apenas esperando os novos prefeitos tomarem posse para então aprová-lo.

Já temos, então, entregue a nós, o plano estadual de resíduos sólidos; estamos à espera da votação na Câmara dos Deputados da lei dos resíduos sólidos que aumenta o prazo para concluir os aterros sanitários; e estamos com um projeto muito bem estruturado por nós, já na Casa Civil, para que haja um redesenho da lei metropolitana. E anotem: vai dar problema político. Quer um exemplo? Lá vai: caso os municípios da região metropolitana queiram tirar da Saneago a concessão, isso terá de passar por essa instância metropolitana.

Elder Dias — O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, na Região Nordeste do Estado, já teve originalmente uma área de mais de 600 mil hectares…
Isso foi em 1961, criado pelo Juscelino Kubistchek.

Elder Dias — Exato, quando ainda se chamava Parque Nacional do Tocantins. Hoje, o parque tem apenas 10% dessa área [são 64,8 mil hectares atualmente]. Há uma negociação para aumentar bastante essa área atual, embora ainda bem menor que a original. Mas a proposta do governo de Goiás é menor que isso. Como vai ficar, enfim, a nova configuração do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros?
Havia uma reivindicação de que a área passasse de 65 mil para mais de 200 mil hectares [o projeto é para uma área de 235 mil hectares]. Nós fizemos uma contraproposta, em uma nota técnica — muito bem elaborada — para aumentar a área atual em 90 mil hectares. Assim, o parque ficará com mais de 155 mil hectares. Um aumento de 150%, bastante considerável. Acordamos esses 90 mil hectares por já serem terras tituladas. Nas condicionantes do acordo, colocamos que o governo federal terá de pagar indenização para os proprietários. Seria maldade desapropriar e não pagar indenização — e isso acontece frequentemente com o poder público.

Mas, e o restante dos milhares de hectares do projeto original de am­pliação? Esses são de terras não tituladas; são famílias pequenas, médias e grandes de agricultura familiar. Eles têm a posse, mas não o título. Então, como desapropriar? Se, para quem já tem título, o governo não paga, imagina aos que não têm.

Elder Dias — E como essa área restante, de mais de 60 mil hectares, poderá ser incorporada ao parque depois?
A ideia é que, como está na nota técnica, haja o acréscimo de 90 mil hectares agora e, depois da regularização fundiária, o restante da área seja incorporado. Para a área restante, já foi feita a discriminatória, transitada em julgado pela Justiça, depois de muitos anos de tramitação. Como isso foi feito? Quando eu era chefe da Casa Civil, no mandato anterior, disse a Marconi que um Estado que tem 1 milhão de hectares de terras devolutas não poderia ser um Estado moderno. Foi montada uma comissão, que tem trabalhado bem, e que conseguiu discriminar essas terras. A discriminatória diz que as terras agora são públicas. Do ponto de vista jurídico, isso significa que agora o Estado tem de fazer a regularização. Será feito em alguns dias um leilão para contratar uma empresa de georreferenciamento que identifique quem é quem. São 238 famílias, com os marcos.

Depois, o Estado vai emitir os títulos para os posseiros. Depois da posse, tudo bem, se quiser desapropriar, é possível saber o que será pago de indenização. Nós somos a favor de que a desapropriação ocorra, porque é uma região de vocação para a conservação e o turismo. Sabemos disso, mas é preciso fazer tudo de forma legal e sustentável juridicamente. Para ter ideia, em 2013 essa ampliação foi feita, mas na Justiça ela caiu.

Elder Dias — E como fica a briga com a União, no caso? O governo federal quer a desapropriação.
O governo federal jogou a “bomba” estrategicamente para cima de nós, porque, se for para pagar 90 mil hectares, será que teria dinheiro para pagar? Não, porque não pagaram ou pagaram pouca coisa sobre os 65 mil que existem hoje. Então, querem atender os ambientalistas, mas o governo federal passa a imagem de que Goiás é que não quer. Tem uma coisa importante: a Constituição Federal diz que só os Estados podem regularizar terras devolutas. Não é da competência da União. E estamos fazendo isso, regularizando tudo. O prazo para fazer a regularização é de sete meses, por que não esperar?

O conceito central de sustentabilidade tem três vetores: o ambiental, o econômico e o social. Nós não podemos fazer nada sem regularizar as 238 famílias que vivem na região. Somos a favor da ampliação, mas podemos fazer a primeira parte e, depois, fazer a outra, assim que regularizar. Mas convenhamos: 90 mil hectares é muita coisa. Na região, nós aprovamos ainda o plano de manejo da APA [área de proteção ambiental] do Pouso Alto, uma briga histórica entre ruralistas e ambientalistas, que determina o que se pode e o que não se pode fazer. O Estado tem o grande Parque Estadual de Nova Roma e uma série de outras iniciativas na região nordeste do Estado. Mas considero que fazer uma ampliação de 90 mil hectares para o parque nacional é um grande avanço.

Elder Dias — Nós temos um processo de mudanças climáticas no Brasil muito ligado à questão hídrica do Cerrado, pelo fato de o bioma ser o berço das três grandes bacias hidrográficas do País. E o Cerrado sempre foi desprezado pelo tipo de vegetação que tem, que parece mato e é fácil de derrubar e de transformar área de pastagem. A fronteira agrícola está bem avançada em Goiás comparada a outros Estados. Como vai ficar isso?
Chamam o Cerrado de “a caixa d’água do Brasil”. Não tem mais como fazer desmatamento em Goiás. O que tinha de ser desmatado já foi.

Augusto Diniz — Mas ainda não há cerca de 40% de Cerrado original remanescente no Estado?
Grande parte do desmatamento já foi feito, sobretudo na Região Su­doeste de Goiás. Mas nós temos um problema, que é uma grande quantidade de terras que foram devastadas para fazer pastagem e que agora estão desertificadas. O que é preciso fazer é tomar essas terras que foram desmatadas e replantar. Temos um forte projeto na Secima, que já está em execução, que conta com milhares de mudas de árvores para replantio.

Elder Dias — Replantar talvez seja fácil. O difícil é plantar Cerrado de novo.
Mas não é árvore. Nós usamos milhares de mudar, todas de espécies do Cerrado.

Elder Dias — Mas reconstituir um bioma complexo como o do Cerrado não se faz somente plantando árvores. Existe toda uma cadeia de biodiversidade que é bem característica e única. Desmata-se o Cerrado para plantar soja, por exemplo, e isso exige uma correção do pH do solo, que é originalmente ácido, para ter terra cultivável. Depois, como existir de novo o Cerrado nessa área? Parece inviável.
Hoje o desmatamento é pouco. É diferente da Amazônia. Estamos executando um enorme projeto de replantio de nascentes. É um trabalho feito fortemente. Distribuímos milhares de árvores a prefeituras, ONGs e entidades. No início de dezembro nós assinamos um convênio com o IF Goiano [Instituto Federal Goiano] de R$ 500 mil para recuperar nascentes.

“Não vamos pulverizar o dinheiro da venda da Celg”

 

Vilmar Rocha: “Falta planejamento. A Ferrovia Norte-Sul já foi inaugurada três vezes e não está funcionando” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Vilmar Rocha: “Falta planejamento. A Ferrovia Norte-Sul já foi inaugurada três vezes e não está funcionando” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Elder Dias — Como fica a situação da Celg GT depois da privatização da Celg D?
É sobre isso que quero chamar a atenção: nós privatizamos, e muito bem, a Celg D [Celg Distribuição]. Mas temos a Celg GT, que é 100% estatal, enxuta e capitalizada, além de ter muitos negócios em parceria com o setor privado em Goiás e fora daqui. Então, a Celg GT faria parcerias com empresas para a construção de usinas de placas solares, a Celg GT com uma parte e as empresas com outra. Mas não queremos ter o controle, ficariam 49% com a Celg GT e 51% com o setor privado. A ideia, portanto, é atrair empresas que queiram fazer usinas solares. Já temos uma usina bem adiantada, que fica em São Luiz de Montes Belos, e temos uma em Itapuranga. Fizemos recentemente um grande evento com 41 pequenas empresas que fazem instalação de energia solar em Goiás e estava presente o secretário-executivo da Absolar [Associação Brasileira de Energia Solar Foto­voltaica]. Então, a ideia é transformar Goiás em um Estado de referência na produção de energia solar no Brasil. Esse é o caminho.

Então, falamos até aqui de Fundo da Amazônia, do Fundo do Centro-Oeste, de energias renováveis, em especial a solar, e do agronegócio, sobre como ele pode afetar as mudanças climáticas, como acessar novas tecnologias e novas informações para essa área. Na COP-22 estava uma representante da União da Indústria de Cana de Açúcar (Única), além de muitos produtores de etanol, assim como muita gente ligada ao agronegócio. Da mesma forma, estavam lá representantes da ANA [Agência Nacional das Águas]. Então, essas coisas são um processo. Foi feito o acordo, que agora precisa ser implementado. É aquele velho conceito, pensar globalmente e agir localmente. Em suma, acho que avançamos. São passos.

Euler de França Belém — A Celg D foi bem vendida?
Bem vendida. (enfático) Venho lutando pela privatização da Celg há muitos anos. Talvez, se ela fosse privatizada antes, o Estado não teria de ter investido tanto para pagar suas dívidas. Quando Maguito Vilela [governador de Goiás de 1995 a 1998] privatizou Cachoeira Dourada, eu era deputado federal. Era 1997 e escrevi um artigo aprovando a venda, mas criticando o uso dos recursos. Por coerência, sempre apoiei a venda da Celg D. Acho que, nas atuais circunstâncias, foi muito boa a privatização. Sabe por quê? Porque a Enel [empresa italiana que atua na geração e distribuição de energia elétrica e de gás natural e que arrematou a Celg D] tem dinheiro para investir, conhece o mercado goiano — já é dona de Cachoeira Dourada —, é concessionária da Coelce [Companhia Energé­ti­ca do Ceará] há muito tempo e é tam­bém concessionária da Ampla E­nergia, no Rio de Janeiro. Além disso, ela conhece o mercado brasileiro e tem experiência em distribuição no Brasil e no mundo. A Enel está fazendo um grande investimento em energias renováveis na Bahia e tem muita sensibilidade. Por tudo isso, o perfil da empresa é muito adequado. Além do mais, tem um ágio de 28% no valor [o preço da venda, em lance único, foi de R$ 2,187 bilhões]. Ou seja, a Enel tem um perfil muito bom.

Euler de França Belém — A empresa considera que recuperará a Celg D em quanto tempo?
Em três anos.

Euler de França Belém — E quanto será investido?
A Enel vai investir R$ 3 bilhões: R$ 1 bilhão em 2017, mais um em 2018 e mais R$ 1 bilhão em 2019. Mas — e até já falei ao governador — nós estamos interessados mesmo é nos investimentos que a empresa vai fazer e em como esse investimento será empregado: linhas de transmissão, subestações etc. Só investindo é que a empresa conseguirá melhores tarifas. Além de tudo isso, vamos ter mais uma

Elder Dias — Como ficará a eletrificação rural?
Tivemos uma boa conversa com o governador Marconi Perillo. Estávamos eu, Ana Carla Abrão [secretária estadual da Fazenda], Fernando Navarrete [presidente da Celg G e T e secretário da Fazenda a partir de janeiro, em substituição a Ana Carla Abrão], Sinval Gama [presidente da Celg D] e os representantes da Enel. Nós temos ainda cerca de 17 mil ligações a se­rem feitas e pedi à Enel prioridade so­bre isso. Eles prometeram dar pri­oridade. O Estado deve R$ 5 bi­lhões, mas nós vamos pagar. En­tão, nós pedimos três pontos de pri­oridade: energia rural, investimentos em energia renovável e a co­locação de energia nos conjuntos habitacionais Minha Casa, Minha Vida.

Elder Dias — Mas esses compromissos não constam em um contrato?
Isso é um pedido. Mas é bom lembrar: toda empresa que está instalada no Estado precisa muito do governo. Às vezes não é questão de recursos financeiros, mas de certificação — para um licenciamento am­biental, por exemplo. O Estado tem como pressionar. Outra coisa são dívidas em relação ao ICMS. Ou seja, é preciso dialogar com o governo.

Euler de França Belém — Os 1,9 mil servidores da Celg são um quantitativo alto para uma empresa. Uma estatal pode ser inchada, mas uma empresa privada não pode. Como fica essa situação?
Fernando Navarrete, que vai para Secretaria da Fazenda, é muito inteligente. Ele disse a eles que têm 200 servidores que já podem aposentar. E o quadro da Celg de 1,9 mil servidores, é muito qualificado, de maneira geral. E a estratégia da Enel não é de demissão em massa, nem de PDV. Eles vão avaliar e analisar para, então, fazer os ajustes. Eles darão tempo ao tempo e verão alternativas. Nesse contexto foi que Fernando Navarrete falou dos 200 que podem aposentar.

Euler de França Belém — Qual a garantia para que os recursos da venda da Celg não sejam pulverizados?
O governador definiu isso, e até concordando comigo, que não pulverizará os recursos. O dinheiro da Celg, esses R$ 800 milhões, só entrará em fevereiro, pois só no dia 30 de janeiro que será assinado o contrato. Eles já estão participando do período de transição, pegando informações, conversando e tudo o mais, mas oficialmente é só em fevereiro, depois de assinar o contrato, que vem o dinheiro. Então, tem tempo de, daqui até lá, analisar e saber onde serão feitos os investimentos. O que o governador definiu é de não pulverizar e de selecionar projetos de infraestrutura e estratégicos para aplicar os recursos. Ele está consciente que não pulverizará.

Cezar Santos — O governo federal tem dificuldades para implantar alguns de seus projetos. Grandes parques de energia eólica foram feitos no Brasil, no governo do PT, e foram abandonados. Faltou planejamento. Como o sr. vê isso?
Sim, é preciso resgatar a ideia de planejamento e prioridades no Brasil. Veja a Ferrovia Norte-Sul, que já foi inaugurada três vezes. É um absurdo, pois ela está pronta até Palmas, faltam apenas alguns detalhes. Eu tenho um projeto: em 2017, como secretário de Infra­es­trutura, vou pressionar o governo federal a respeito da ferrovia, pois ela interessa a Goiás. No serviço público há muita burocracia e um controle exagerado. Se o gestor não pegar o projeto e insistir nele, nada sai do papel. É o que eu chamo de técnica gestão do cachorro pitbull, aquela de pegar algo e não largar de jeito nenhum. É revolucionária, vou apresentá-la até em Harvard. (risos) Então, vou atrás até o fim para ver se conseguimos colocar a ferrovia para operar, pois nos interessa. Daqui até o Pará foi feita uma concessão para a Vale [mineradora multinacional brasileira e uma das maiores operadoras de logística do País], mas de Palmas a Anápolis não existe concessão. Os trilhos estão feitos. O que faltam são os locais de armazenamento. E o trecho que vai de Anápolis a Estrela d’Oeste (SP), está 85% pronto. Ou seja, só faltam 15%. O que devemos fazer: concluir a construção do que falta e fazer a concessão.

Euler de França Belém — E como fica a duplicação da BR-153?
Foi feita a concessão para a empresa Galvão Engenharia, que não cumpriu o contrato, assim como a grande maioria das empresas concessionárias de rodovias com a ANTT [Agência Nacional de Transportes Terrestres]. Assim, os ministérios públicos de Goiás e Tocantins entraram com uma ação civil pública para cancelar o contrato. Recentemente, fui procurado pela ANTT e pelo Ministério dos Transportes para integrar uma comissão. Fizemos algumas reuniões e me disseram que a Galvão tinha uma proposta de alteração de contrato que era aceita pelo ministério e pela ANTT. Só dependeria do Ministério Público. Aí pediram que eu os acompanhasse ao Ministério Público para fazer uma reunião e nós fomos. O Ministério dos Transportes fez um relatório perfeito, dizendo que, se a rodovia fosse devolvida, o ministério não teria dinheiro nem para arrumar os buracos. Então, apresentaram o plano de alteração no contrato para que a Galvão continuasse. A proposta não estava referendada e não deu certo. Existe o impasse e, como o governo está fazendo novas concessões, acredito que a rodovia deva voltar para que uma nova concessão seja feita. Porém, com o Brasil vivendo essa fase de transição, temos de ver o que vai acontecer.

Euler de França Belém — E sobre os chineses em Goiás?
Eu confesso que tinha uma preocupação de os chineses ganharem o leilão da Celg.

Elder Dias — Como assim?
No fim de 2015, eu estava de férias no Rio de Janeiro e fui a uma livraria perto de Copacabana e comprei um livrinho chamado “Piratas e Corsários”. Fui ler sobre as quatro grandes incursões de piratas no Brasil. Uma foi em Santos, outra no Rio e duas no Nordeste, uma em Recife e outra em Olinda. Há uma diferença entre piratas e corsários: piratas grupos para piratear; corsários, ao contrário, formavam empresas protegidas pelo governo. Eu visitei a China há 15 anos chefiando uma missão parlamentar. Fiquei 10 dias na China. O que os chineses querem fazer: criar outra China fora da China para servir a economia chinesa. Então, é preciso ter muito cuidado com investimentos chineses dentro de uma estratégia de País.

Elder Dias — E como fica a China no mundo, nesse contexto da eleição de Donald Trump para o governo dos Estados Unidos?
Vou dar uma interpretação que não ouvi de ninguém: Trump não tem nada de bobo, ele gosta, sim, de aparecer, mas sabe jogar. A declaração sobre Taiwan [Donald Trump, no dia 5/12, telefonou para a chefe de Estado do país e criou incidente diplomático com a China, que ainda considera Taiwan sua província] — na verdade tem pouco a ver com Taiwan. Ele quiser era dizer para a China: “Não vem que não tem”. Ou seja, ele quer baixar o protagonismo da China no mundo.

Euler de França Belém — Foram reclamar para ele da Rússia e ele disse que o adversário dos EUA já não é mais a Rússia.
Um chinês, um dos grandes ideólogos que ouvi falar na COP, comentou: “Não existe Taiwan. Existe a China. E nós vamos incorporar Taiwan de alguma maneira. Isso pode demorar 100 ou 200 anos, mas vai ser assim. Nós não aceitamos Taiwan independente.” Isso mostra que, para os orientais, o investimento que eles fazem é sempre pensando em longo prazo. Contam que chegaram a um dos grandes pensadores chineses e perguntaram a ele qual opinião tinha sobre a Revolução Francesa. Ele respondeu dizendo que não podia dar opinião alguma, pois a revolução só tinha 200 anos e era “muito nova”, e portanto não tinha condições de emitir opinião (risos). Eles pensam como um país que tem 5 mil anos. É uma vantagem que eles têm, de pensar tudo em médio e em longo prazos. E a estratégia deles com o Brasil é de fazer assim, como em vários outros lugares do mundo. Não obstante o que os Estados Unidos queiram, eles têm trilhões de dólares em fundos americanos. É a estratégia deles. l

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Martins Luiz

Sempre temos que elogiar e parabenizar as iniciativas inovadoras e com esperança de mudanças e resultados mesmo que a longo prazo.
Parabéns Secretário, que no ano de 2017 continue com essa certeza de que é possível mudar…
Goiás sendo a cada dia um estado exemplar.