Elias Vaz: “O transporte tem de ser uma política pública estratégica”

Deputado federal e candidato a prefeito de Goiânia diz que capital tem duas áreas que precisam ser corrigidas com urgência: a saúde e a mobilidade

Candidato a prefeito de Goiânia, deputado federal Elias Vaz (PSB) defende mudanças na gestão da saúde e do transporte coletivo na capital | Foto: Alex Malheiros/Fieg

Elias Vaz (PSB) chegou ao cargo de vereador em Goiânia em 2001 depois do destaque na luta pela implantação do transporte alternativo na capital. Ficou 18 anos no Legislativo municipal, de onde saiu para se tornar deputado federal em 2020. Candidato a prefeito, o parlamentar diz que a cidade tem dois problemas graves. “A saúde foi um ponto bem negativo na gestão do prefeito. Sem falar no transporte público, que não é um problema só do Iris, mas dos prefeitos da Região Metropolitana e o governador, que têm sido omissos.”

Relator do Plano Diretor aprovado em 2007, o pessebista vê como acertada a decisão do prefeito Iris Rezende (MDB) de retirar o projeto de revisão da Câmara para que a proposta seja avaliada com calma. “É muito ruim contaminar o debate do Plano Diretor com a discussão política partidária. O Plano Diretor precisa ser colocado como uma questão suprapartidária”, observa.

Como o sr. avalia o resultado da primeira rodada da pesquisa Serpes/O Popular, em que seu nome aparece em quatro colocado? Com 28 dias até o dia da votação, é possível chegar ao segundo turno?
É possível. A campanha é rápida, mas também a decisão do eleitor. Na última campanha, vimos isto ocorrer em todo o País. Vários candidatos começaram com índices bem menores de intenção de votos foram vitoriosos. Não tenho dúvida de que o cenário em Goiânia está aberto. Não temos um candidato que podemos dizer que é o favorito. Há uma abertura. Sinto isto nas ruas. Estou em campanha. A receptividade está muito boa. Tenho a convicção de que há espaço para um crescimento real, o que começaremos a sentir no meio da campanha.

O que o sr. tem percebido no contato com o eleitor? O que a população diz que espera do próximo prefeito de Goiânia?
Estabeleci dois contatos com o eleitor. Um é pelas redes sociais, com divulgação de conteúdo e conversas, até pela realidade de restrições sanitárias. Na rua, tenho feito pequenas carreatas. Por meio de gestos, as pessoas se manifestam. É quando percebemos, como um termômetro, como a cidade tem se sentido. Importante o quadro que a rua nos dá, que é muito animador. As manifestações são positivas. São manifestações de receptividade. Vejo um espaço muito grande para nossa candidatura crescer.

Qual é a avaliação que o sr. faz da gestão Iris Rezende (MDB) à frente da Prefeitura de Goiânia?
Eu já falei em outras oportunidades sobre o prefeito Iris Rezende, inclusive para o Jornal Opção.O prefeito chegou a me ligar, mas não conseguiu falar comigo. Depois conversei com o secretário de Governo, Paulo Ortegal, que me informou que Iris queria me agradecer pela declaração que dei no momento em que o prefeito ainda poderia ser candidato. Pensava que o prefeito concorreria a reeleição. Disse que Iris era um candidato que tinha de ser respeitado porque o prefeito tem qualidades que não podem ser ignoradas.

Não mudei meu discurso. Mantenho minhas críticas. Particularmente, foi um equívoco muito grande o prefeito ter mantido a secretária Fátima Mrué na Saúde. Entendo que a titular não tem qualificação para ocupar a pasta. A saúde em Goiânia está muito ruim. Demonstramos a situação em vários momentos. Na pandemia, ficou claro o problema de falta de UTIs em Goiânia. A secretária pegou os recursos para combate à Covid-19 e, ao invés de construir novas UTIs, resolveu alugar.

Recife, que já tinha uma quantidade razoável de leitos de UTI, criou novas 300 vagas. Uma capital que tem uma população parecida com a de Goiânia, com 1,7 milhão de habitantes. Vieram para Goiânia R$ 76 milhões do governo federal. Ao invés de aproveitar para estruturar a rede com a criação de novas UTIs, preferiu alugar. O que mostra que a secretária não tem capacidade para gerir. A saúde foi um ponto bem negativo na gestão do prefeito.

Sem falar no transporte público, que não é um problema só do Iris, mas dos prefeitos da Região Metropolitana e o governador, que têm sido omissos. O transporte público virou um problema entre as empresas e o usuário, como se fosse uma questão empresarial. E não é. É uma questão de política pública. O prefeito não pode ficar isento desta crítica. A prefeitura tem sua responsabilidade pela omissão. É uma falha bem clara da gestão do prefeito Iris Rezende.

O que o sr. pretende melhorar ou mudar na saúde de Goiânia?
Precisamos ter mecanismos eficientes de gestão, que hoje é muito mal feita. Verificamos o desperdício na Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Saúde. Identificamos em um almoxarifado dez aparelhos de raio-X parados há dois anos na caixa enquanto a prefeitura alugava equipamentos velhos. Foram gastos quase R$ 14 milhões neste período. É dinheiro jogado no ralo do desperdício e da corrupção. Vimos vários problemas de gestão.

É preciso estabelecer metas na saúde.Temos de estabelecer prazos para exames de no máximo 15 dias, para consultas de no máximo 30 dias, mesmo as consultas de especialidades, e para cirurgias eletivas. Precisamos interromper a fila. A fila é desumana e encarece o sistema. A fila é desumana e burra. É óbvio que quando você tem um problema de saúde, quando mais rápido for feito o tratamento, maior é a chance de ser curado. Também é mais barato. Quando a prefeitura permite o paciente ficar um tempo significativo a espera do tratamento, o serviço ficará mais caro para o município. Por isso precisamos ter uma meta clara, que é evitar as filas.

Fortalecer o sistema de saúde primária, principalmente o Programa Saúde da Família (PSF), que hoje tem um índice muito pequeno de cobertura em Goiânia. Se compararmos com outras capitais, o PSF, que visa identificar o problema de forma precoce para poder tratar a doença ainda no início, ainda é muito incipiente em Goiânia. É preciso estruturar o PSF na capital.

Não adianta identificar a doença se não tiver sequência. O que ocorre hoje é a equipe de agentes comunitários de saúde identificar o problema e a prefeitura não dar o devido seguimento para tratar as doenças constatadas. É preciso focar na prevenção e nas metas para que possamos trazemos melhor qualidade à saúde, mas, inclusive, baratear o sistema de saúde.

O que o sr. pretende apresentar como solução para a questão do transporte coletivo?
A Prefeitura de Goiânia passará a participar da gestão do transporte público. Claro que com diálogo com os prefeitos do entorno e com o governador. A segunda proposta que temos para o transporte é retirar a arrecadação. Ficaremos na discussão se tem ou não caixa preta no transporte? Precisamos acabar com esta discussão. Quem tem de centralizar a arrecadação é o poder público e a CMTC [Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos].

A partir de então, modificar os contratos de pagamento por passageiro, mas por quilômetro rodado. Quanto melhor o serviço que as empresas prestarem, mais irão receber. Com o pagamento por quilometragem, as empresas farão mais viagens e terão interesse em prestar um melhor serviço. Como hoje as empresas recebem por passageiro, restringem a quantidade de ônibus para rodar o mais lotado possível e aumentar a lucratividade. Com o pagamento por quilometragem, não fará diferença para a empresa se o ônibus irá circular com dez ou 40 passageiros.

Iremos transformar a realidade do transporte público realmente em uma política pública, não mais uma relação de interesse empresarial à qual a população tem de se submeter. Vamos quebrar a relação estabelecida para criar um novo modelo. Tenho certeza de que colocaremos a base do sistema público de transporte para funcionar na Região Metropolitana de Goiânia.

Quando foram descobertas as emendas coletivas com propostas de expansão urbana de 32% na revisão do Plano Diretor, o prefeito preferiu retirar o projeto da Câmara para que seja discutido após as eleições. O sr. concorda com a decisão de Iris Rezende?
Lamento que o Plano Diretor tenha sido vítima deste tipo de emenda. Não há interesse público nesta forma de expansão urbana. A prefeitura deveria ter trabalhado melhor a construção da revisão do Plano Diretor com a sociedade. Não só com a Câmara. O diálogo não foi consistente. O prefeito retirar o projeto diante deste quadro, talvez seja interessante para deixar a análise ser feita com mais tranquilidade. É muito ruim contaminar o debate do Plano Diretor com a discussão política partidária. O Plano Diretor precisa ser colocado como uma questão suprapartidária. Eu fui relator do Plano Diretor que está em vigência. Aprovamos por unanimidade.

Na época, o prefeito era também Iris Rezende. Conseguimos fazer um debate muito profundo com a sociedade. Através de um debate com muita transparência, não houve críticas. O Plano Diretor foi aprovado e elogiado nacionalmente como um projeto muito progressista, avançado e profundo. Infelizmente, várias questões abordadas no Plano Diretor não foram implementadas.

O maior problema no Plano Diretor aprovado em 2007 foi a ausência de efetividade do que estava previsto naquele ordenamento. Foi uma experiência muito interessante que tivemos. Organizei mais de 40 audiências públicas temáticas. Conseguimos fazer um debate muito profundo com a sociedade, o que foi positivo. Talvez o que tenha faltado neste momento tenha sido um debate mais consistente com a sociedade. O ruim seria, de repente, termos uma surpresa de surgir algo que não tenha sido suficientemente discutido com a sociedade.

O que não ocorreu no Plano Diretor de 2007. Tudo o que foi discutido e implementado veio de forma muito transparente. E evitamos a expansão. O que colocamos foi o imposto progressivo para os vazios urbanos da cidade. Mas as gestões seguintes não efetivaram o imposto progressivo e não tiveram coragem de encarar a especulação imobiliária. Para termos uma cidade mais barata, precisamos fazer como que a propriedade tenha uma função social e não fique à serviço da especulação imobiliária. Não são poucas. São mais de 70 mil propriedades que encarecem o custo da cidade.

Deveríamos ter uma política mais efetiva, o que não foi efetivado ao longo dos anos. O imposto progressivo ficou só na lei. Os administradores não quiseram implementar. Como vereador, cobrei várias vezes. Mas infelizmente não houve vontade política em peitar aqueles que continuam a especular com suas propriedades na cidade de Goiânia.

“Ninguém deixa o carro em casa com um transporte de péssima qualidade”

“A Prefeitura de Goiânia passará a participar da gestão do transporte público” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

50,2% dos eleitores de Goiânia aprovam a gestão Iris Rezende, de acordo com a primeira rodada da pesquisa Serpes/O Popular.Qual é a dificuldade que os número trazer ao sr., um candidato de oposição, a fazer críticas mais contundentes à prefeitura? Os candidatos de oposição têm pesado menos as críticas à administração do emedebista?
Não. Continuo com o mesmo discurso que adotava antes. O que a população não admite é a política do tudo está errado ou tudo está certo. Não dá para ser assim. Uma prática errada é um prefeito ou governador vencer uma eleição e não continuar as obras do governante que encerrou seu mandato. Todas as obras que ficarem inacabadas, qualquer que seja o prefeito eleito – trabalhamos para sejamos nós os eleitos – tem de firmar o compromisso de terminar o serviço.

Neste ano, o prefeito Iris Rezende também me ligou para agradecer porque consegui emendas para ajudar Goiânia. Inclusive na compra de caminhões da coleta seletiva. Vi que a prefeitura estava com dificuldade com a falta de caminhões. Eu destinei emenda para a compra dos caminhões. Quando o prefeito soube, me ligou para agradecer. É assim que faço política. Mas você pode dizer que estou a ajudar o prefeito a se fortalecer. Não vejo assim. Se pensarmos desta forma, faremos a política menor. A política da mediocridade.

Temos de fazer política grande. O que o prefeito Iris Rezende fez de correto tem de ser continuado. Aquilo que não conseguiu avançar, nós temos de avançar. É assim que temos de enxergar uma administração. Não sou apoiador do governador Ronaldo Caiado (DEM), mas se fosse uma gestão do Caiado nós teríamos de continuar a fazer aquilo que não foi concluído. Aquilo que entendermos que não foi legal, precisamos aprimorar. Entendo que precisamos significar um passo adiante. Tenho uma concepção que acumulei ao longo de 18 anos, a compreensão dos principais gargalos da cidade, sei onde estão os principais problemas. Estamos prontos e temos condições de contribuir para a cidade.

Fui extremamente crítico à gestão do prefeito Paulo Garcia (PT). Mas algo que Paulo começou e precisa ter sequência, que são as ciclovias e ciclofaixas. É um projeto muito interessante que eu sempre elogiei. Não podemos fazer oposição para dizer que está tudo errado. Não podemos ter medo de dizer, mesmo que seja um adversário, de outro partido político, que determinada iniciativa está correta. É assim que fazemos a boa política. Aquilo que eu criticava, continuarei a criticar. E o que entender que for bom, continuarei a elogiar.

Se o goianienses lhe der a oportunidade de ser eleito prefeito, as obras que não forem concluídas até dezembro serão continuadas?
Tem de ser continuadas. Citei o projeto das ciclovias e ciclofaixas, que precisa ter continuidade. Se ficar obra parada da gestão Iris Rezende – ao que tudo indica, irá ficar –, o meu compromisso como candidato é de dar continuidade.

Como será a sua relação com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e com o governador Ronaldo Caiado, já que a prefeitura depende recursos nacionais e estaduais?
A relação de um prefeito tem de ser institucional. Fiz questão quando fui eleito deputado federal de estar com o governador Ronaldo Caiado e dizer que aquilo que pudesse fazer por Goiás eu iria ajudar. O governador sabe que eu tenho ajudado. Já me agradeceu várias vezes. Não importa se o governador é de outro partido, tenha uma história de direita e eu de esquerda. Na hora de ajudar Goiás, a relação tem de ser institucional. Quando se é prefeito de uma cidade como Goiânia, é preciso se relacionar com o governador, seja de qual partido for. Tem de se relacionar com o presidente da República, seja de qual partido for. Faz parte do processo democrático.

Assim como tem de ser o prefeito, precisa agir o presidente da República. Não é presidente das prefeituras que são politicamente ligadas a Bolsonaro. Não é presidente dos governadores dos Estados aliados. É presidente da República, é presidente do País. Da mesma forma, o governador. É governador do Estado. O prefeito não pode ter um olhar sectário de não querer dialogar de forma institucional, administrativa. A questão política é outra história. Cada um tem a sua.

A partir do momento que se é prefeito de Goiânia, a pessoa é mais do que um representante do partido, representa uma cidade. E uma cidade que tem muitas faces. Não é um bloco só. É uma cidade que representa várias opiniões. Tem necessidades concretar e o prefeito tem de brigar para que as políticas públicas efetivamente sejam realizadas. Não faremos da Prefeitura de Goiânia um local de bandeira política. Temos, acima de tudo, que exercer a função de prefeito. Tenho muita maturidade para entender que uma coisa é a política partidária e outra é um gestor que tem de resolver os problemas da cidade.

A primeira eleição do sr. para vereador veio da liderança do movimento do transporte alternativo na capital. É uma questão que está superada em Goiânia? O CityBus atendeu bem a demanda do transporte alternativo?
Por isso quero mudar o regramento que temos hoje de pagamento no transporte coletivo. Tem situação de transporte, inclusive o seletivo, que pode ser estratégico para tirar veículos de circulação. Não é um problema apenas de ganhar dinheiro. Para a cidade, é importante. É uma forma concreta de melhorar a mobilidade. Trânsito se melhora com bom transporte público. O transporte tem de ser uma política pública estratégica para termos bom desempenho da mobilidade.

Muita gente que utiliza carro acredita que transporte público não tem nada a ver. Tem tudo a ver. Os dados do transporte público de Porto Alegre (RS) apontam que 40% dos usuários são proprietários de veículos. Com o transporte seletivo, a cidade tirava veículos de circulação. Ninguém deixa o carro em casa com um transporte de péssima qualidade. Se o transporte for bom, muita gente deixa seu veículo em casa. O transporte seletivo tem de ser inserido dentro de um programa estratégico para que possamos retirar veículos de circulação.

O sr. citou as diferenças da campanha impostas pela pandemia da Covid-19. Na economia, ainda temos incertezas sobre a continuidade do auxílio emergencial na forma do Renda Cidadã. Como prefeito, o que pode ser feito para enfrentar o cenário econômico a partir de 2021?
Foi muito importante o auxílio emergencial. Muita gente não compreende o alcance desta ação. Em Goiânia, o auxílio emergencial de R$ 600 injetou na economia da cidade R$ 270 milhões por mês. Não é qualquer coisa. Sou contra a redução para R$ 300 porque é necessário manter o auxílio em R$ 600 até o final do ano para cuidar das pessoas que necessitam. Sobretudo, para manter as atividades econômicas. A quebradeira não foi geral porque a injeção de R$ 270 milhões só na cidade de Goiânia salvou muitas empresas.

Por isso defendo que votemos no Congresso a Medida Provisória 1.000/2020, que institui as quatro parcelas de R$ 300 do auxílio emergencial, mas há uma articulação do Centrão que não quer colocar a MP em votação. Querem votar só depois para que os candidatos a prefeito ligados ao Centrão não sofrerem desgaste. Apresentei uma emenda para voltar o valor para R$ 600. Sempre questionam de onde o dinheiro será tirado. Tem de onde tirar.

Há pouco tempo, o Conselho Monetário Nacional (CMN) realizou uma reunião e transferiu R$ 320 bilhõesde lucros do Banco Central sobre a ação do controle de câmbio para o Tesouro Nacional. Ministro Paulo Guedes (Economia), que é um homem ligado aos banqueiros, quer usar o dinheiro para pagar dívida pública com os bancos. No momento em que a população precisa, o ministro quer usar o dinheiro para ajudar banco. E o valor é suficiente para pagar seis meses de auxílio emergencial. É preciso que tenhamos conhecimento de um problema que ocorre na esfera federal e que influencia o dia a dia da população goianienses.

Em 2021, precisaremos ter alguns zelos, como uma política de isenção de impostos para pessoas de baixa renda. Outra medida é criar uma política de microcrédito para geração de emprego e renda. É preciso ter uma ação ostensiva por parte do poder público municipal para que tenhamos uma atenção muito grande com a questão da geração de emprego e renda, que vai desde um convênio com o sistema S, que tem hoje know-how na capacitação da formação profissional, um dos problemas do desemprego, até uma política de microcrédito e de isenção de impostos para famílias de baixa renda.

São políticas claras que precisaremos ter para contribuir no fortalecimento principalmente dos elos mais fracos da sociedade para passar por esta situação tão grave, que são os efeitos do coronavírus em todo o mundo. Em Goiânia não é diferente.

“Não mudei meu discurso. Mantenho minhas críticas”

“É preciso estabelecer metas na saúde” | Foto: Chico Ferreira

Cabe nas contas do Paço Municipal propor uma política de isenção fiscal?
A questão fiscal tem de estar vinculada a uma estratégia de gestão. Não adianta fazer uma pessoa que enfrenta muita dificuldade financeira pagar o IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano] se precisará de ajuda da prefeitura. Depois irá bater à porta da prefeitura porque não tem uma cesta básica. É uma política social que evita tirar o dinheiro da pessoa. Você tira o dinheiro daquela família hoje, mas terá de atendê-la com uma política social.

Quando se usa recursos para fomentar a economia como a criação de um banco para o microcrédito, a prefeitura gasta, mas cria condições de geração de emprego e renda. É importante porque retorna depois para a prefeitura e isenta a administração da carga de ter de criar políticas sociais mais profundas porque os problemas foram atenuados. Precisamos olhar a questão tributária não apenas com o olhar arrecadatório. É uma medida muito mais qualificada que evita que a prefeitura depois tenha de gastar. Deixo de arrecadar, mas depois não preciso gastar tanto.

É absurdo imaginar uma pessoa que está desempregada, em uma situação financeira difícil, sob o efeito da economia, ser obrigada a pagar imposto. Depois, a pessoa irá bater à porta da prefeitura, que terá de gastar para socorrê-la. Precisamos arrecadar sem comprometer as famílias que estão em situação de vulnerabilidade.

Em algum momento, o eleitor pode questionar o sr. por que foi eleito vereador em 2016 e deixou o Legislativo da capital para se candidatar em 2018 a deputado federal. Agora o sr. pretende deixar o Congresso se for eleito prefeito. Por que deixar o cargo de deputado federal para gerir a Prefeitura de Goiânia?
É por isso que temos defendido o casamento das eleições. Meu partido tem uma posição clara sobre a questão. Senão ficamos sempre nesta situação. As pessoas diziam “você deixa de ser vereador para se tornar deputado federal”. Não tem como ser diferente, não há coincidência entre as eleições. Precisamos fazer uma reforma política e realizar eleições de quatro em quatro anos. Acabar com eleições a cada dois anos. Enquanto isto não for possível, teremos de deixar de ser candidato para concorrer na próxima eleição?

Se eu quisesse ser candidato a prefeito, na próxima eleição para deputado federal não posso ser candidato, ficar dois anos sem participar da política eleitoral para poder ser candidato a prefeito? É preciso ter uma coincidência das eleições, o que resolveria o problema.

Os candidatos que estão mais bem avaliados nas pesquisas de intenção de votos tiveram muita ou alguma experiência no Executivo. Como é convencer o eleitor que espera experiência do candidato sendo um nome que ainda não passou por um cargo majoritário?
Quem passou 18 anos a discutir os problemas de Goiânia tem melhores condições para apresentar soluções para as questões enfrentadas pela cidade. Tem muito candidato que está preparado para resolver o problema de Aparecida de Goiânia, outro está preparado para resolver os problemas de Senador Canedo, mas Goiânia quem está preparado sou eu.

No seu plano de governo, a construção das propostas está aberta a aperfeiçoamento com a participação da sociedade. O texto abre com a frase “por uma Goiânia criativa, inclusiva, transparente e participativa”. O que significa a capital que o sr. propõe ao goianiense?
Na questão participativa, consideramos que ninguém é dono da verdade. É possível termos boas ideias, dialogar com a sociedade e estabelecer um processo permanente de diálogo. Temos instrumentos riquíssimos que precisam ser aprofundados, que são as redes sociais e a internet, com as quais podemos aprimorar muito a participação da sociedade nas decisões da prefeitura.

Sobre a economia criativa, temos uma proposta que chegou a ser apresentada como projeto de lei na Câmara. O texto foi aprovado, mas o prefeito Iris Rezende vetou. Eu propus a discussão sobre os espaços vazios de Goiânia. O ITU [Imposto Territorial Urbano] tem alíquota muito alto. Propus que fossem cobradas alíquotas menores do que as de IPTU caso se desse uma destinação de função social da propriedade. Colocamos duas possibilidades. Uma seria a produção de alimentos orgânicos sem o uso de agrotóxicos. Um alimento que poderia inserir parcela da sociedade em situação de vulnerabilidade. É uma atividade que poderia movimentar a produção de alimentos em Goiânia.

A outra possibilidade era permitir que um proprietário de um terreno possa fazer uma área de convivência devidamente definida pela prefeitura. O proprietário manteria a área como uma espécie de uma praça. Enquanto o local for mantido pelo proprietário, o imposto seria menor. São exemplos de medidas que podem ser estabelecidas de forma criativa. Na época, discuti o assunto com o secretário de Finanças, que questionou se 20 mil lotes fossem usados com a medida. Se os proprietários de 20 mil lotes adotassem uma função social para seus terrenos, o prefeito Iris Rezende teria de dar entrevista para o mundo inteiro pela referência que a cidade se tornaria.

A prefeitura deixa de arrecadar, mas deixa de gastar. Arrecadar não pode ser um fim. A gestão tributária é uma ferramenta de organização da cidade. É uma medida que gera emprego e renda, alimentos e espaços urbanos sem gastos públicos. É uma economia criativa transformar os espaços vazios, que são um problema, enfeiam e encarecem a cidade e geram transtorno na segurança e na saúde, em grande solução.

Em 2016, a discussão sobre os polos industriais não prosperou. Neste ano, vários são os candidatos que adotaram a proposta. O sr. chama em seu plano de governo de arranjos produtivos locais. Qual modelo o sr. imagina como o ideal para Goiânia estimular os arranjos produtivos locais?
O Plano Diretor de Goiânia trouxe um grande avanço em 2007 com a lei de zoneamento, que define as atividades econômicas por grau de incomodidade. Significa que a atividade econômica não precisa estar restrita a um bairro ou região. Se não gera qualquer tipo de incomodidade, como um consultório odontológico ou um escritório de contabilidade, pode ser feito no bairro onde a pessoa mora. Isto é bom para a mobilidade urbana e para tirar as atividades informais e levar à formalidade.

Teve um problema. No grau de incomodidade, praticamente não há permissão para indústrias. É preciso que tenhamos polos. Defendemos que sejam próximos a rodovias estaduais e federais – GOs e BRs – para que gerem menos impactos à mobilidade urbana, com todos os problemas que estes tipos de equipamentos, que são complexos, podem trazer. Do jeito que está, o Plano Diretor praticamente impossibilitou o nível de investimento na área de desenvolvimento industrial. É uma falha que precisa ser corrigida e que faz parte do nosso plano de governo.

Como o sr. acredita que a prefeitura pode atuar na área da segurança pública?
É importante ter um diálogo maior com as forças policiais existentes. A Guarda Civil Metropolitana tem de se comunicar com a Polícia Civil e com a Polícia Militar. Em reunião com a União Goiana dos Policiais Civis (Ugopoci) e com a Associação dos Delegados de Polícia do Estado de Goiás (Adpego), me fizeram uma proposta que julguei muito interessante: “Que tal fazermos um gabinete de segurança pública?”. Termos representantes na prefeitura da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Guarda Civil Metropolitana que se comuniquem e tenham estratégias concretas para potencializarmos uma ação coordenada das forças policiais em Goiânia.

Um dos grandes problemas que temos na segurança pública, apesar de ser uma questão do Estado, é a falta de uma comunicação mais efetiva. No Mapa da Violência, temos problemas que não estão relacionados a uma política de segurança pública efetiva, como na área social, o que aumenta a importância da comunicação. Por isso podemos fazer um trabalho para que o diálogo possa se intensificar, com ação mais coordenada das forças existentes, que podem atuar de forma mais organizadas e apresentar resultados muito mais interessantes.

Que outra área o sr. acredita que precisará de uma atenção da prefeitura no ano que vem?
A prefeitura precisará ter uma atenção muito especial à enorme desigualdade que existe no País e em Goiânia. Goiânia sempre é apontada como uma das cidades em que a desigualdade social é muito forte. É preciso que a prefeitura tenha uma atenção especial para atenuar esta realidade. Uma das formas concretas é garantir políticas públicas para a população mais vulnerável.

Efetivamente, são pessoas que sofrem muito com a desigualdade. Principalmente nas políticas mais essenciais, como educação e saúde. É preciso ter uma atenção especial, mas com uma visão muito clara de qual olhar a pessoa que estiver à frente da Prefeitura de Goiânia deve ter. O olhar tem de ser muito voltado às pessoa que estão em situação de vulnerabilidade.

Caso o goianienses lhe dê a oportunidade de ir ao segundo turno, o sr. está aberto ao diálogo com todos os partidos e candidatos que disputam o primeiro turno ou há resistência a algum nome ou legenda?
Não fizemos esta discussão. É uma decisão que certamente faremos de forma coletiva, com quem fecharemos apoio e estaremos no segundo turno. Hoje a nossa meta é ir para o segundo turno. Nunca discutimos apoiar outro candidato. No segundo turno vamos compor com quem? Irá depender de quem estiver disposto a compor conosco. O trabalho hoje é de levar a nossa candidatura ao segundo turno.

Mesmo com as críticas que o sr. fez à gestão do prefeito Iris Rezende e ao PT no debate da Acieg [Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás], há dificuldade em dialogar com os dois partidos?
Estando no segundo turno, iremos estabelecer o diálogo com todos que quiserem conversar. Sem problema algum. Mas dependerá de uma decisão coletiva. A priori, não adotaremos postura arrogante de não aceitar apoio de qualquer força política.

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