“Confaloni poderia muito bem estar entre os artistas do desenvolvimento da arte visual no Brasil”

aSuperintendente executivo de Cultura da Seduce afirma que Goiás ainda não entendeu muito bem a grandiosa obra de Frei Confaloni, que não deve nada aos ítalo-brasileiros

PX Silveira | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Conhecido por seu trabalho com biógrafo de artistas plásticos e galerista, PX Silveira aceitou o desafio de assumir a Superintendência Executiva de Cultura da Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) na reta final da gestão 2012-2018. Mesmo com pouco tempo para colocar em prática uma agenda audaciosa para o setor cultural no Estado, o novo integrante da pasta diz acreditar ser possível fazer muito em quase seis meses.

Euler de França Belém – Quando eu vim para Goiânia em 1969, o Jardim América era um bairro muito pobre e tomado pelo matagal.

Antônio Poteiro, quando se mudou da Vila Brasília para o Jardim América, falava “quando eu vim para o Jardim América isso aqui era um poeirão danado, pessoal andava de cavalo, de carroça. Hoje em dia é tão asfaltado que o pessoal anda de carro e ainda vem reclamar da vida”.

Augusto Diniz – E o que foi feito da casa do Poteiro no Jardim América?

A esquina é onde ele pintava, que tem uma casinha simples. E a casa de cima é do filho dele, que o Américo Poteiro construiu. Acompanhei o assunto porque fui testamenteiro do Poteiro. Ele me chamou porque os dois filhos estavam brigando, cada um apresentando para o pai um testamento. Poteiro fez com que eu fizesse um testamento para ele assinar do jeito que ele queria. Aquela casa da esquina ficou para a filha dele, Sueli. O que eu fiquei sabendo é que a casa foi vendida. O Américo não me falou quem. É uma pena, porque ali era um museu-casa prontinho.

Até tinha sugerido na época de se fazer um museu-casa, porque ali tinha o sofá com a marca da bunda dele, onde ele sentava para ver televisão, a televisãozinha, os quadros na parede, tinha uma biblioteca, o quartinho dele, o local onde ele pintava, a cozinha. Tudo ali montadinho daquela maneira muito simples. Era um museu-casas por excelência, prontinho. Acho que o Américo é o grande culpado porque podia ter segurado a Sueli. A Sueli não tem dinheiro nenhum, é desesperada para vender e converter tudo em dinheiro. Américo não, ele tem uma situação boa. E deixou a casa escapar, que foi vendida para um particular. Uma pena!

Augusto Diniz – Como o sr. avalia a obra do Américo comparada com a do pai?

A obra do Américo está indo por um caminho similar, mas é um caminho dele. Ele está conseguindo realizar uns achados que são dele. Américo enquanto filho está realizando um papel muito negativo para o pai. Você acessa o site do Antônio Poteiro e vê uma foto do mesmo tamanho do Poteiro e do Américo Poteiro. Américo acha que é tão quanto o pai. Existe aquela coisa de Édipo de querer anular o pai. É uma tese mais profunda para desenvolvermos, mas no fundo Américo se acha mais importante do que o próprio pai.

Euler de França Belém – O sr. não acha que seja diferente e que a intenção do Américo seja querer vender quadros ao se comportar como duplo do pai?

Mas um duplo que quer superar o pai.

Euler de França Belém – O mais grave talvez seja que todo mundo quer virar Poteiro em Goiás. Quando chegamos em algum lugar temos a impressão de que todos os quadros são do Poteiro.

Tem essa ilusão de que basta pintar e qualquer coisa pode ser vendida a um preço exorbitante. O filho dele pinta e acha que o preço dele tem que começar na metade do pai. É um absurdo! Américo não é conhecido, não tem uma carreira que justifique um preço que seja metade do preço do pai dele. Mas há a questão da influência. Nós somos influenciados, as novas gerações são influenciadas. O Poteiro, pelo sucesso que teve, falou muito para os artistas e para quem queria ser artista. Aquela pintura que ele fazia era uma pintura ínsita. É uma pintura que todo mundo pode fazer, que está dentro da gente. Pessoal fala primitivo, outros falam naïf, mas é o artista ínsito, que tem a coisa dentro dele. Claro que você consegue pintar, você tem uma coisa ínsita que é só botar para fora, sem se preocupar com técnica, história.

Cezar Santos – Haveria um excesso de artistas ou pretendentes a artistas indo para esse lado da pintura naïf por considerar que seja uma pintura mais fácil?

É uma primeira manifestação.

Edival Lourenço – O pintor naïf não precisa sofrer as repreensões da educação formal. Ele solta o que tem?

Exatamente. Alguns se tornam mais formalistas, fazem uma coisa mais elaborada. Mas o Poteiro não. Ele fazia coisa borrada. Ele dizia assim; “O pessoal fala que artista é doido. Eu não acho que artista é doido. Doido é quem vem aqui e paga R$ 10 mil nesse quadro que eu estou fazendo”.

Euler de França Belém – Há uma cubana que diz que Frei Confaloni é uma espécie de Picasso do Cerrado. Procede essa crítica?

Acredito que seja a Daylalis Perdomo. Confaloni é o artista que permanece oculto em toda sua força. Nós ainda não entendemos muito bem o que o Confaloni fez, o que ele representou. isso devido até à nossa maneira de perceber as coisas, que ainda somos muito pelo modismo, as cores, a facilidade da emoção, sem procurar muito a razão. Porque quando acordarmos para a história de Goiás nas artes, como ela se desenvolveu, veremos que tivemos aqui um artista que foi fenomenal. E nos deu uma oportunidade de ver diretamente da fonte europeia – porque naquela época o Brasil inteiro bebia da fonte europeia, nas década de 1940. 1950 e 1960.

O Confaloni nos deu isso sem termos que passar pelos grandes centros, pelos artistas de São Paulo e do Rio, que bebiam da fonte europeia e depois achávamos bonito aqui. Nós, em vez de pegarmos de segunda mão, pegamos de primeira mão por meio do Confaloni. É um artista que se morasse em São Paulo ou no Rio estaria junto com os artistas italianos que foram fenomenais para a cultura e para o desenvolvimento da arte visual no Brasil, como o Alfredo Volpi, que nasceu em Luca, na Itália, Lina Bo Bardi, Pietro Maria Bardi, Luchio Visconti, Maria Anna Bonomi.

Temos de 12 a 15 nomes de artistas italianos que são muito importantes para o desenvolvimento da arte no Brasil e que são reconhecidos, pelo mercado também. Os preços estão lá em cima. Waldemar Cordeiro. Todos italianos que vieram para cá. O próprio Portinari, que nasceu em Brodowski (SP), mas é filho de mãe e pai italianos. Ele tem toda a ascendência italiana, só nasceu aqui. O Confaloni está ali, ombreado com eles. Por ter vivido aqui, você encontra tela dele por uma ninharia.

Euler de França Belém – Uma ninharia significa quanto?

Vou citar o Siron Franco. Acho um absurdo vender uma tela de tamanho médio do Confaloni por menos de R$ 100 mil. Siron faz essa análise tendo em vista outras figuras de outras regiões do Brasil, que são importantes e não tão conhecidas. É uma análise pé no chão. Você encontra Confaloni por R$ 20 mil, R$ 30 mil.

Augusto Diniz – Ao mesmo tempo temos obras do Confaloni que poderiam ser abertas diariamente para visitação pública que estão na Estação Ferroviária, na Praça do Trabalhador. O sr. tem acompanhado o trabalho de reforma daquele espaço?

Isso ainda não foi anunciado na imprensa. Vou até furar o Kleber Adorno [secretário municipal de Cultura de Goiânia]. Ali deverá ser o Museu Frei Confaloni, aproveitando a duas imagens em afresco que foram feitas em 1954. São dois painéis de 4 metros de altura por oito metros de largura, com os bandeirantes antigos e modernos. É o local ideal, muito adequado, para que seja instalado o Museu Confaloni. Já tem duas obras fenomenais. Kleber deve anunciar isso em breve. Isso já foi conversado com o prefeito [Iris Rezende (PMDB)]. Kleber nos levou em comissão ao prefeito, que bateu o martelo. Iris disse que o local é o ideal. Serão feitos alguns ajustes. A reforma que está em andamento está prevista para terminar em janeiro. Em 2019 teremos o Museu Confaloni em Goiânia.

Edival Lourenço – O sr. disse que se Confaloni tivesse vivido em São Paulo ou Rio, a obra dele teria uma outra dimensão. Parece que vivemos em um Estado periférico, de cultura pouco valorizada. Um grande artista, de qualidade, mas que não chega a atingir essa grandeza, nos grandes centros, quando morre, a obra dele parece crescer ainda mais. Nos centros periféricos, um grande artista quando morre, sua obra, que deveria se tornar mais relevante, vai desaparecendo. Isso dificulta a criação de um mercado firme de arte, porque com um artista que está em evidência o trabalho dele ganha um valor, que com sua morte passa a desvalorizar. O sr. acredita que vivemos uma tirania geográfica por sermos considerados periferia e uma obra, por mais importante que seja, não terá o reconhecimento necessário?

Sua análise está perfeita. Tenho dois exemplos para citar além do próprio Confaloni, que ficou esquecido. Eu sou biógrafo do Confaloni, um trabalho que sempre foi apoiado pela família dele na Itália. E que é um trabalho insuficiente, porque é feito por mim com ajudas e apoio. É uma coisa que ainda não pulverizou. Os exemplos que quero citar são do D. J. Oliveira e do Cleber Gouvêa. São excelentes artistas, de reconhecida atividade enquanto criadores e professores, estabelecidos no mercado com valores baixos, mas localmente relevantes, que quando morreram o preço de suas obras diminuíram o preço.

Cezar Santos – Há muita falsificação da obra do Poteiro, Siron Franco, Ana Maria Pacheco? Como está o trabalho dos galeristas em Goiás?

Falsificação é uma realidade há muito tempo. No livro que o Poteiro ditou para mim, “Poteiro na Primeira Pessoa” [Editora Kelps, 2011], ele conta “um dia eu fui convidado para almoçar na casa de um delegado que vivia me convidando e eu vivia falando que não ia, mas esse delegado era bom demais. Aí eu fui. Cheguei lá ele quis me mostrar um quadro que ele tinha meu na parede que era o orgulho da família, mulher, filhos. ‘Olha, eu tenho um Poteiro aqui'”. Quando o Poteiro foi ver o quadro, bateu o olho e viu que era falsificado. Eu perguntei “e aí, Poteiro?”. E ele “bom, eu não falei nada, deixei ele comemorar e saí de lá sem falar que era falso”. Tem que tomar cuidado. Tem muito quadro do Poteiro sendo falsificado.

Marília Noleto – Como o Poteiro não está mais entre nós, pode ser que essa situação piore.

E faz com que o falsificador seja um pouco melhor, porque além de falsificar ele tem de criar uma parte para mostrar que faz algum tempo que aquela obra foi feita. Mas existem falsificações às vezes grosseiras que o pessoal não percebe. No caso do Poteiro, estão fazendo gravura post mortem. Cada gravura dele tem um bom preço, a partir de R$ 1,2 mil, com uma tiragem de 100, geralmente varia de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil. Estão fazendo agora gravura post mortem em que junto com a gravura imprimem a assinatura. Quem não conhece pensa que é uma gravura do Poteiro. Mas não, é uma impressão que leva também a assinatura. Porque geralmente o artista pinta e depois assina na parte de baixo, coloca o número da tiragem. Estão fotografando e fazendo isso. E você acha nas melhores lojas. Não sei se é porque o pessoal é enganado ou se está enganando.

Euler de França Belém – Marcelo Solá é um grande pintor?

É. E está vivendo num limbo entre o que seria uma falsificação e o que seria uma imitação. Existe um artista chamado Sando Gos no Facebook. O nome dele verdadeiro é Odom. Odom é um personagem interessante. É um caso psicológico para observarmos e tirarmos várias conclusões. Ele imitava Poteiro. Tem talento. É barbudão, tinha aquela barba do Poteiro, só que preta, porque é muito jovem. Ele imitava o Poteiro com uma perfeição. Fazia coisas muito mais bonitas do que o Poteiro fazia. Aquelas esculturas, ele fazia com a técnica melhor. Poteiro nunca se preocupou com técnica, o negócio era a expressão. Odom não, termina a coisa, faz um acabamento, fica mais bonito. No entanto, ele assinava Odom. Ninguém podia falar que era uma coisa falsa. Seria uma influência, uma homenagem, uma cópia, mas não era uma falsificação.

Depois de passar oito anos imitando o Poteiro na escultura e na tela, Odom encarnou no Solá. Ao encarnar no Solá ele criou esse nome, Sando Gos. Ele faz as coisas do Solá que você olha e fala “puxa! Solá”. Você vai ver é Sando Gos. Chegou ao cúmulo da Casa Cor de 2016 ter no salão principal vários Sando Gos. Eu não entendi como um pessoal como o da Casa Cor, que faz um evento que é em cima da criatividade, para realçar o novo, aloja uma situação dessa, que eles sabiam serem obras que mais do que lembram decalcam o próprio Solá, no ambiente da Casa Cor. Como também tem a Molduraria Minuto, ao lado da P de Pizza. Uma vez estacionei lá e falei “esse cara tem tanto Marcelo Solá”. Quando fui ver era tudo Sando Gos. E ele está entrando agora no Rio de Janeiro e São Paulo.

Marcelo está vivendo um inferno astral com isso. E ele não sabe o que fazer. Não sabe se divulga, se divulgar pode ficar pior. Não pode denunciar, não é caso de polícia.

Marília Noleto – Pode ser uma questão financeira. As pessoas podem ter um Marcelo Solá por um preço mais acessível.

Coitado do Solá. Onde fica a criatividade? Onde fica a história do artista? Porque o Solá para chegar nesse resumo em que ele chegou vem de vários ensaios que fez. Foi para cá, foi para lá, fazia só preto e branco, depois lidou com cores, fez opção pelo papel. Solá foi pisando, reconhecendo e construindo um caminho. Você pode observar isso. Aí chega um cara, depois de ele ter construído toda essa linguagem dele, e se apropria disso.

Edival Lourenço – Pirataria é isso, ela não percorre o mesmo caminho, ela chega na obra pronta.

Marília Noleto – O sr. tem acompanhado o trabalho das novas gerações da arte em Goiás? Quem o sr. destaca como os novos expoentes e nomes a serem acompanhados?

Eu sou bastante preguiçoso com relação a ficar pesquisando, indo atrás. Eu não diria que sou uma pessoa atualizada com os novíssimos artistas. Mas o que percebemos no geral é que a linguagem do grafite, a linguagem da rua, está tomando conta das galerias. O artista novo que não está afinado com isso está deslocado do tempo dele. Esses artistas têm um enorme vocabulário para desenvolver e temos bons representantes, bons grafiteiros. Temos artistas que fazem a transição entre o grafite e a arte de galeria, como o Pitágoras [Lopes Gonçalves], por exemplo. Mas temos artistas novos como o Eduardo Aiog, do Beco da Codorna, um cara que tem um domínio do grafite, faz uma coisa muito interessante.

No aspecto dos artistas de galeria, eu chamaria a atenção para o trabalho do G. Fogaça. É um trabalho que ainda é pouco conhecido em Goiânia, que tem uma produção intensa, mas que mostra muito pouco a obra dele de pintura sobre tela. Fogaça constantemente aceita o desafio de se aprimorar e tem feito exposições fora do Brasil de duas a três por ano. Ele estava na Espanha, vai para os Estados Unidos no segundo semestre, tem agenda na Itália. Na América do Sul já fez Argentina, Chile, Venezuela. É um artista que busca muito essa exposição, mas em um outro patamar.

“Tem gente na prefeitura querendo trazer o Kobra (SP) e pagar R$ 200 mil para pintar o viaduto da T-63. É um absurdo! Com a qualidade dos grafiteiros que temos aqui”

Augusto Diniz – O sr. citou que a arte de rua tem invadido as galerias. Qual é a sua avaliação sobre o grafite? 

É uma coisa muito interessante, que primeiro faz com que todo mundo se sinta artista. Você pode pegar um spray e sair por aí, o que retoma a questão do ínsito. Todo mundo tem uma coisa dentro dele. A primeira expressão do ser humano é desenhar. O bebê rabisca. Essa coisa do grafite eu vejo como uma primeira abordagem na expressão da pessoa. É muito positivo e temos gente muito bacana fazendo arte. Binei [Hubner Miashiro] é muito bom.

Tem pessoas que realmente nos fazem pensar que é absurda a ideia que nos sugeriram. Aquele viaduto da Avenida T-63 com a Avenida 85, onde estão reformando as placas, queria que se trouxesse o [Eduardo] Kobra (SP). Um absurdo! Tem gente na prefeitura querendo trazer o Kobra, pagar R$ 200 mil para ele. É um absurdo tendo em vista a qualidade de gente que temos aqui. Tem muita coisa ruim? Tem. Mas em qualquer lugar que você vai você vê coisas ruins. Estava em Nova York no mês passado e vi coisas ruins. E vê coisas muito boas. Goiânia tem esse pessoal.

Vou fazer um chamado específico para eles porque vamos completar 30 anos do Centro Cultural Martim Cererê. Quando foi instalado o Martim Cererê, pude participar da instalação. Foi o Kleber Adorno que criou. Na época eu estava fazendo um projeto chamado Galeria Aberta, que era pintura das fachadas, da empenas cegas dos edifícios da Avenida Goiás. Conseguimos pintar 26 empenas.

Augusto Diniz – Sobrou alguma coisa?

Tem ali onde é o Banco Itaú dos dois lados, tem outro que está escondido por um prédio. A do Cleber Gouvêa, no prédio do Ipasgo, ainda está lá. Sobrou pouca coisa. Chegamos a ter uma galeria aberta fenomenal em Goiânia. Naquela época a propaganda ainda não tinha essa tecnologia de reproduzir grandes fotos. O pessoal ficava muito impactado com as coisas que a gente fazia.

Quando abriu o Cererê há 30 anos, eu coordenei uma ação de pintura nos muros internos com os artistas que tínhamos contato. Agora quero fazer com os grafiteiros e aproveitar para conhecer melhor o que eles estão fazendo. Chamar esses grafiteiros para pintar os muros do Martim Cererê e comemorar os 30 anos do espaço.

Fernanda Garcia – Como o sr. vê políticas como a Cidade Limpa, em São Paulo?

Fotos: Fábio Costa/Jornal Opção

São Paulo radicalizou. Eu estava lá na época do Cidade Limpa. Gilberto Kassab (PSD) foi muito duro, tirou inclusive arte e pintou de cinza. Para enquadrar todo mundo na lei, a cidade ficou cinza. Uma coisa boa foi tirar as propagandas visíveis da cidade de São Paulo. Tudo. Imagine como ele foi forte! Não tinha mais outdoor. Tirou todas as placas. Disciplinou a fachada das lojas, que reduzia o percentual que poderia ser utilizado. Mas isso levou a arte junto. Agora já está voltando a ter umas coisas interessantes, estão deixando a arte aparecer.

Fernanda Garcia – É impossível controlar a arte de rua.

São muitos pedidos. Uma coisa que veio forte também são as instalações de jardins verticais nos prédios, que são bonitos. Pensar uma lateral toda ela coberta por samambaias. É uma coisa que também é muito interessante. Não é pintura, mas é um paisagismo de vanguarda.

Euler de França Belém – O sr. parece que tem atuado em parceria com a Prefeitura de Goiânia, do forma positiva, sem atrito.

Sim. Não tem isso com o Kleber Adorno não. O cara realmente funciona em outro plano. É uma pessoa fenomenal. Assim que ele assumiu, começamos a conversar sobre ações, me pediu para pensar a bienal que fizemos há mais de 15 anos. Desenvolvi algumas ideias que o Kleber deve lançar agora. Sempre pensando no resultado dos procedimentos. É um excelente parceiro, uma pessoa que recebe uma ideia e potencializa aquilo.

Às vezes eu penso “será que ele vai topar isso, o negócio é meio louco?”. Kleber vai e faz. Percebe as coisas rapidamente. Não só na arte. Quando trabalhei com Kleber na prefeitura… Trabalhei com ele no Estado, depois fui trabalhar com ele na prefeitura, Kleber era secretário do falecido prefeito Darci Accorsi. Kleber me colocou na área de turismo de Goiânia. “O que eu vou fazer como coordenador de turismo?”

Pensando assim me veio a ideia de criar uma feira. Seria a Feira da Lua, porque já existia a Feira do Sol. Levei a ideia para o Kleber de fazer uma feira na Praça Tamandaré ocupando só aquela pista interna. Porque aí fecharíamos a praça, o ônibus contornaria e continuaria seu trajeto, não teria problema nenhum com o trânsito. Uma coisa fácil de aplicar. Kleber topou na hora. Mas ele mudou a proposta para fazer em volta de toda a praça. Quando lançamos a ideia do “venha se escrever pessoal do artesanato, da culinária”, a gente queria uma coisa voltada para a arte.

Quando saiu o anúncio, a fila dava volta duas vezes no quarteirão. Naquele momento as pessoas estavam deixando a atividade principal para fazer uma atividade secundária, que era ser barraqueiro de feira. Foi um sucesso estrondoso logo na primeira semana. Deu problemas de controle porque as pessoas queriam demais essa segunda atividade, que se tornou a primeira deles. A Feira da Lua surgiu assim. Eu levei uma ideia e o Kleber aumentou.

Euler de França Belém – Raquel Teixeira foi chamada para conversar no Palácio Pedro Ludovico Teixeira. O sr. sabe se ela vai reassumir a Seduce?

Raquel tinha me falado há dois meses que voltaria em julho se não concretizasse a oportunidade de ela ser incluída na chapa majoritária. Raquel disse que não tinha interesse em disputar eleição proporcional [Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa], está disponível para compor uma chapa. Se isso não se concretizasse, ela falou que voltaria neste mês para a Seduce. Se ela voltar ao cargo de secretária, abrirá mão do projeto de ser vice de José Eliton (PSDB) ou suplente de Marconi Perillo (PSDB).

Euler de França Belém – As pessoas dizem que a biblioteca do Centro Cultural Oscar Niemeyer virou a Ferrovia Norte-Sul das bibliotecas. Houve erro de cálculo na construção do prédio? Essa é uma pergunta que já foi feita para todos secretários e ninguém responde de forma precisa. O que aconteceu?

O Centro Cultural Oscar Niemeyer é uma obra muito ousada. É um centro cultural que prevê várias ações.

Euler de França Belém – A impressão que passa é de que se trata de um projeto ousado com um patinho feio no fundo.

De acordo com a conversa que tive com a diretora do CCON, Guaraciaba Rosa de Oliveira, o problema que acontece é que a instalação pretendida requer um cuidado maior. É uma instalação que prevê que você possa pegar um livro e devolver sem conversar com ninguém, uma vez cadastrado, similar ao serviços das bicicletas que você aluga na rua. Obviamente que com outra maneira. Mas você entra, pega um livro, sai, volta, entrega o livro.

Tem essa questão da novidade tecnológica a ser implementada, o que dificulta um pouco, porque não é aquela coisa conhecida. E tem a questão da aquisição do acervo. Fui informado de que a biblioteca já tem cerca de 8 mil livros sendo catalogados e com a previsão de chegar mais 15 mil livros ainda este mês. E outros mais depois de ser paga uma segunda parcela para o fornecedor.

Euler de França Belém – Quando abre a biblioteca?

Ela poderia ser aberta de uma maneira alternativa, provisória. A informação que a Guaraciaba me deu é de que a biblioteca será aberta com todos esses dados, com um bom acervo…

Euler de França Belém – Resolveu o problema da infiltração?

Resolveu.

Euler de França Belém – O cinema não vai mais ser instalado? Será preciso fazer nova licitação?

Houve uma tentativa do empresário que foi ao Oscar Niemeyer, chegou a fazer algumas obras e depois abandonou a ideia alegando que não tinha viabilidade financeira. Eu tinha um encontro na semana retrasada com o João Batista Silva [secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura] em Brasília (DF), mas ele pediu demissão dois dias antes. A questão a ser discutida eram os recursos que o Ministério da Cultura irá investir na área do cinema neste ano. O valor anunciado é de mais de R$ 1 bilhão. Não só de produção, mas de formação de plateia e instalação de salas. Tem recurso no Ministério para ser repassado ainda em 2018.

Pedi à Guaraciaba que me apresentasse o projeto do cinema do Oscar Niemeyer. Ela me levou a planta baixa, com o desenho que foi feito na época desse empresário. São coisas para serem resolvidas. Estão sendo encaminhadas. Não está parado não.

Augusto Diniz – A obra do Centro Cultural Oscar Niemeyer está parada?

A obra está sendo finalizada com ritmo mais lento com finalização prevista para os próximos meses. Está muito avançada. Bastante coisa já foi feita.

Augusto Diniz – O que sempre se falou sobre o Oscar Niemeyer, desde que ele foi inaugurado, é que se trata de um espaço público subutilizado, com poucas exposições, poucas atividades culturais, com os festivais de música. O que será feito para que o centro cultural se torne um marco efetivo da cultura em Goiânia?

Sim. Com certeza. Com a instalação do que é projetado, o cinema, a Biblioteca Isanulfo Cordeiro, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) voltando a funcionar de forma contínua. O espaço já havia se tornado um ponto da população aos domingos. Foi uma coisa bem espontânea que surgiu, o que demonstra a carência que temos de equipamentos culturais. O Oscar Niemeyer está sendo muito bem administrado pela Guaraciaba. É uma técnica que sabe encaminhas muito bem esses processos.

Acredito que até a primavera [começa em 22 de setembro] o Oscar Niemeyer vai abrir completamente com todas as suas frentes. Talvez ainda não o cinema. Mas com a abertura da biblioteca, o funcionamento do museu e do Palácio da Música Belkiss Spenzièri, com a liberação aos domingos para a comunidade, volta a ter aquela efervescência no espaço.

Augusto Diniz – Mesmo com a reforma, uma das atividades que havia sido mantida era o Café de Ideias, mas recentemente foi suspensa. Qual foi o motivo da suspensão?

O Café de Ideias aconteceu até recentemente. É um projeto muito bom que vamos manter no próximo ano. Inclusive estamos colocando no plano de governo do governador José Eliton. É um projeto que tem de continuar. Foi idealizado pelo Lisandro Nogueira e Nasr Chaul.

Marília Noleto –  A companhia de dança Quasar, que suspendeu as atividades em 2016, discutia a continuidade do trabalho gerida por uma Organização Social (OS). Mas nunca mais o assunto foi tratado. Em 2017, o deputado federal Thiago Peixoto (PSD) realizou um audiência pública para discutir o assunto, mas sem evolução. Como está essa questão?

Ainda tenho pouca informação sobre o caso. Mas o edital de chamamento da OS será lançado em agosto. Está a cargo do departamento que cuida dessa situação da contratação de OSs. Com isso, espero que a OS vencedora seja do agrado da Vera Bicalho. Me parece que a Vera já poderia ter solucionado essa questão se ela tivesse, lá atrás, aproveitado o ímpeto do governador Marconi, que queria resolver isso logo.

Marília Noleto – Houve uma demora muito grande.

Vera quis que o grupo dela montasse uma OS. Ela não quis se associar a uma OS já existente. Sei que houve conversações nesse sentido com a Elysium Sociedade Cultural, que é uma OS, para se associar com a Vera para entrar no chamamento. Ele preferiu esperar um pouco, por opção dela, montar uma OS para competir, porque ela não tem a certeza de que a OS dela vencerá o chamamento.

Marília Noleto – Vera montou uma OS?

Agora sim. Como vai ser lançado o edital, ela vai poder participar. Vamos ver se outras OSs vão participar, e espero que participem, para finalizar isso. Será o Corpo de Balé do Estado.

Cezar Santos – Apesar de aportar à equipe de governo já no final da gestão, o sr. é uma usina de ideias. Seu ingresso na equipe é apenas para dar continuidade ao que está sendo feito ou vai surgir coisa nova?

Essa foi a pergunta que eu fiz para o governador quando me chamou. Eu falei “vamos fazer coisas ou é só para atuar sem muito destaque?”. José Eliton respondeu “quero realizar, quero fazer novas coisas”. Baseado nisso, fui a campo reunir com as entidades de literatura, culturais, a UBE-GO [União Brasileira de Escritores Seção Goiás], Academia Goiana de Letras (AGL), Academia Feminina de Artes e Letras de Goiás (Aflag), Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

Nos reunimos para encontrar um evento que entre no calendário de Goiás como existe para o cinema o Fica [Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental], para o teatro o TeNpo [Mostra de Teatro Nacional de Porangatu], para a música o Canto da Primavera [Mostra Nacional de Música de Pirenópolis]. Fizemos duas reuniões e surgiu a ideia da Feira Internacional do Livro e da Leitura da Língua Portuguesa.

Essa feira tem a felicidade de – se de fato ocorrer, como a gente quer e como é desejo do governador – ser a maior feira do mundo. Porque é um nicho que não é explorado. Não existe uma feira do segmento da língua portuguesa. É um achado fazer essa feira em Goiás. Vamos chamar cerca de 40 convidados, com 20 de fora e 20 daqui. E ela vai ser a maior do mundo. Espero que cause um impacto favorável e entre para o calendário dos eventos da cultura.

Fernanda Garcia – Seria realizada aqui em Goiânia?

Aqui em Goiânia.

Augusto Diniz – Foi discutido quanto será preciso de dinheiro para realizar essa feira?

Chegamos a um valor baixo com o qual seria possível fazer a feira, que seria de R$ 600 mil. O último fica foi R$ 3,5 milhões. É um valor bem pé no chão.

Euler de França Belém – Já tem o local definido para ser realizada a feira?

O governador sinalizou que deseja movimentar a Praça Cívica, que é um espaço nobre que ele considera subaproveitado. A ideia seria instalar na praça toldos e dentro pudéssemos fazer esses eventos. Temos a intenção de trazer ao menos um autor de cada um dos nove países da língua portuguesa. Estamos negociando a participação do ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, para que ele faça aqui um encontro de ministros da Cultura dos países da língua portuguesa durante a feira.

Teremos a participação dos embaixadores. Pretendemos convidar os organizadores do Prêmio Camões, que é o maior prêmio da língua portuguesa. Há um campo enorme a ser explorado na língua portuguesa. O próprio acordo ortográfico, que tem muita gente que fala mal até hoje, que não foi implementada da forma certa, que tem muitos problemas.

Augusto Diniz – Já tem data prevista para a feira?

Não. Governador me ensinou uma coisa interessante. Fui todo empolgado conversar com ele depois da segunda reunião, com as ideias. Levei quatro ideias e José Eliton gostou das quatro. Falei para o governador “vem aí o batismo cultural de Goiânia, vamos aproveitar e lançar isso”. Governador respondeu “muito interessante, quero efervescer a área da cultura, quero sentir as coisas acontecendo, mas o que temos aqui é o caldo, até conseguirmos a rapadura teremos de penar um pouco”. Estava se referindo aos encaminhamentos burocráticos. José Eliton deu o autorizo, mas tenho todo um procedimento a percorrer dentro do Estado.

“Nem se imaginava que teríamos R$ 40 milhões por ano para investir em projetos culturais em Goiás”

Aos jornalistas Marília Noleto, Fernanda Garcia, Augusto Diniz, Cezar Santos, Euler de França Belém e ao escritor Edival Lourenço, PX Silveira diz que “a Feira do Livro e da Leitura da Língua Portuguesa será a maior do mundo no segmento” | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Euler de França Belém – Quais são essas quatro ideias?

A Feira do Livro e da Leitura da Língua Portuguesa é a primeira. Nessa formação de eventos culturais, está faltando para as artes visuais. Pensamos o Prêmio de Artes Visuais Goiás e o Salão dos Salões. A ideia de salão e bienal no Brasil é algo que já está muito desgastado. É só o modo de falar. Na verdade não traz mais novidade. É difícil renovar nesse aspecto, porque é preciso fazer o feijão com arroz, mas também é preciso sair daquela ideia repetitiva. O Salão dos Salões premiará curadores e propositores de exposições, o que não inclui só o curador profissional.

Vamos premiar dez curadores com suas propostas de exposições. Eles ganham um valor para montar a exposição que foi apresentada como ideia. E pode ser em qualquer lugar do Estado. Não precisa ser em Goiânia, não precisa ser no Oscar Niemeyer, no Museu de Arte Contemporânea, não precisa ser em um equipamento do governo. Qualquer lugar que a pessoa apresentar. Entre o grupo da proposta apresentada terá de incluir artistas goianos, o que pode misturar também.

Mas que seja de diversas tendências, seja arte sacra, indígena, devotos de Trindade, acervo do Museu Zoroastro Artiaga, por exemplo. É um universo muito grande que esses curadores podem utilizar para nos trazer essas propostas. Esperamos receber coisa que a gente nem imaginou. Com as propostas premiadas, montam-se as exposições e fazemos o Salão dos Salões.

Uma das ideias é fazer o livro do Fundo de Cultura para mostrar os projetos que já aconteceram. Mesmo sendo da área, nós não temos conhecimento. Edival, que é da literatura e da criação, não tem conhecimento de coisas que acontecem no interior ou de circulação que estão ocorrendo. Falta dar visibilidade para isso. O livro mostrará as atividades culturais que estão acontecendo no Estado. Acaba por acontecer muita coisa, mas com pouca visibilidade. O livro vai se chamar “Cultura e Desenvolvimento – o livro do incentivo cultural em Goiás”, dando conta desses projetos.

A última ideia, que eu chamo de Expedição da Cultura, é um projeto com deslocamento para o interior de Goiás. Porque essa expedição seria o pessoal do interior vir para Goiânia conhecer em dois a três dias de atividades os equipamentos culturais da capital, seu funcionamento e os bastidores da cultura. Desde a política de funcionamento à área de gestão. Estou desenhando essa ideia para cem pessoas, com a participação de algo em torno de 60 municípios, com seus agentes culturais.

Esses agentes culturais virão indicados pela prefeitura ou representantes de algum órgão ou entidade cultural. Não será uma atividade voltada apenas para agentes públicos, mas agentes de cultura de forma geral, com atividade comprovada. Que eles venham para Goiânia e participem de palestras na parte da manhã e a tarde saiam para conhecer conforme o interesse.

Imaginemos que o interesse seja música. Então irá conhecer o Teatro Goiânia, o Teatro Rio Vermelho, outros equipamentos que não sejam do Estado, fazer uma grade de visitas. Se o interesse é entidades culturais levaremos para conhecer a UBE-GO, ver como funciona essa associação de escritores, como eles se reúnem.

Vamos escalonar visitas técnicas na parte da tarde e a noite sempre uma apresentação cultural. No dia seguinte essa rotina se repete. Pela manhã palestras, a tarde visitas técnicas e a noite momentos de visitação artística. Com isso queremos identificar os agentes, contribuir para que se forme uma rede de agentes culturais, fortaleça-se a circulação no interior. Que eles se aprimorem também e saibam o que pedir, como travar conhecimento e levar isso para lá, trazer de lá para cá. Fazer uma convivência de realidades.

Edival Lourenço – A UBE-GO tem vários associados no interior. A reclamação é de que a Lei Goyazes e o Fundo de Arte e Cultura dão pouca oportunidade para quem não é de Goiânia. Existe o interesse em tornar os editais mais receptivos ao interior?

Existe uma cota para o interior que estamos ampliando. Vamos lançar o edital da Lei Goyazes em agosto e do Fundo em julho. Os dois vêm com cotas para o interior, não para prefeituras, mas para agentes culturais. Talvez o que falte mais não seja o problema da previsão de participação e sim a participação efetiva.

Edival Lourenço – Faltam pessoas capacitadas na elaboração, envio e acompanhamento de projetos. Há uma dificuldade em acessar as leis de incentivo.

Essa expedição servirá também para que eles conheçam o Fundo e a Lei Goyazes, falar com quem organiza, com o Sacha [Eduardo Witkowski Ribeiro de Mello, chefe do Núcleo de Fomento à Arte e Cultura] no Fundo de Arte e Cultura, com a Fabrícia [Campos Freire, chefe do Núcleo de Incentivo à Cultura] na Lei Goyazes. Que os agentes culturais do interior tenham a oportunidade de conversas e ter acesso às informações, iniciar o contato com essas pessoas.

Edival Lourenço – Até para saber como monta um projeto, como fazer para que ele tenha chance de ser aprovado.

Está faltando essa instrumentalização, capacitação, do agente cultural do interior.

Augusto Diniz – O deputado Thiago Peixoto disse em entrevista recente ao Jornal Opção que o ministro da Cultura tem trabalhado para aperfeiçoar as leis nacionais de incentivo do setor. Qual é a realidade dessa política de incentivo em Goiás?

A Lei Goyazes e o Fundo de Arte e Cultura de Goiás estão bem melhores do que a Lei Rouanet nos procedimentos. A Lei Rouanet tem um passivo muito grande de prestação de contas que está dando problema. A prestação de contas dos projetos realizados é encaminhada a um departamento que tem só três ou quatro pessoas. São milhares de prestações de contas que não andam no ritmo certo. Isso criou um passivo muito grande para o Ministério da Cultura.

Estão descobrindo coisas de cinco anos atrás. Erros que até a própria imprensa alardeia como pagamento de casamento com dinheiro da Lei Rouanet. Essas coisas existem, mas não são exclusivas da Lei Rouanet. Existem em todo tipo de lei de incentivo, que é a malversação de recursos públicos. Para isso tem de existir penalidades e controle. Ministro Sérgio Sá Leitão está implementando isso, tentando reduzir esse passivo.

Por outro lado, o ministro fez uma nova instrução normativa da Lei Rouanet que privilegiou os Estados das regiões Centro-Oeste e Norte. São Estados que têm captado muito aquém do esperado. Goiás, por exemplo, do cômputo geral da captação da Lei Rouanet, está com 2%. Imagine! Somos a oitava economia nacional com apenas 2% de participação. Ficamos na frente somente da região Norte, que é pouco mais de 1%. Essa atualização já melhora um pouco. Há mais coisas a serem melhoradas, mas o ministro já trouxe essas novidades.

O Fundo de Arte e Cultura de Goiás e a Lei Goyazes não têm esse passivo que o governo federal tem na prestação de contas. Tanto o Fundo quanto a Lei em Goiás mantêm atualizadas suas prestações de contas. Quando acontece algum problema, logo é detectado, não espera-se passar tanto tempo para que seja solucionado.

Augusto Diniz – São constantes as reclamações de quem consegue ter seus projetos aprovados, tanto na Lei Goyazes quanto no Fundo de Arte e Cultura, do atraso de repasse. Como está essa situação?

Esses atrasos são uma realidade. Às vezes são decorrentes do fôlego que a lei tem. Este ano vamos lançar o edital do Fundo em julho e o edital da Lei Goyazes em agosto. Os valores não estão totalmente definidos, mas deverá ser um total de R$ 40 milhões para o setor. São valores inéditos para a área cultural que às vezes o próprio governo não consegue executar devido à amplidão disso. Há cinco anos ainda não tínhamos o Fundo. Nem se imaginava que teríamos R$ 40 milhões por ano para investir nas atividades-fins em Goiás.

É inegável que o avanço ocorreu. A Lei Goyazes e o Fundo aportam um valor muito grande para a área cultural, e isso tem impacto na cadeia criativa da atividade econômica, tem impacto na sociedade no âmbito cultural. É uma coisa de grande relevância.

Edival Lourenço – Os editais da Lei Goyazes e do Fundo que já estão com projetos aprovados têm um cronograma de liberação de recursos?

Foi estabelecido com o secretário da Fazenda que serão liberados em julho R$ 5 milhões e depois no mês subsequente. Sacha está fazendo a distribuição através do cronograma de cada projeto. Se o autor do projeto colocou que vai receber em dezembro, ele receberá em dezembro. Quem colocou para julho e agosto recebe antes. Isso não era regra, mas é a maneira que encontramos de criar um critério para solucionar o problema de a verba não vir na sua totalidade.

Fernanda Garcia – Como está o projeto do circuito cultural da Praça Cívica?

O circuito cultural é uma ideia muito interessante de readequação dos prédios, com reforma e volta aos modelos originais. Tudo isso feito de forma integrada com o ambiente da Praça Cívica. É uma ideia fantástica. O arquiteto responsável, Marcílio Lemos, desenvolveu uma apresentação em 3D que é de deixar qualquer pessoa encantada. Isso não deve ser feito esse ano, é um projeto que exige bastante fôlego. Vai ser incluído no plano de governo da campanha de reeleição do governador José Eliton para ser implementado a partir de 2019.

Implementado finalisticamente, porque o projeto arquitetônico está pronto. Falta amadurecer a questão finalística dos locais. Assim que eu assumi o cargo, convoquei uma reunião com os agentes de cultura e as entidades para conhecer e divulgar o projeto e esperar sugestões. Por incrível que pareça, uma coisa que notei é que o circuito cultural da Praça Cívica não tem um nome. Se fosse, por exemplo, Circuito Goiás Cultural, seria um nome. Mas circuito cultural não é nome, é um aposto. Há uma coisa que deveria vir antes. Falta um nome.

Estamos com a ideia de fazer um concurso para batizar o projeto, até como forma de divulgar a ideia para a população, que começaria a sentir a implementação do projeto, trazer sugestões do ponto de vista do enchimento. Porque o corpo arquitetônico não tem novidade, é o que existe construído com restauração. A parte do recheio disso é que ainda podemos colaborar bastante. A começar pelo nome.

O escritor Bariani Ortêncio sugeriu que, como várias cidades goianas têm seus nomes formados por anagramas, poderia ser tirando sílabas de uma coisa e outra. Ele citou a cidade de Itaguaru. As pessoas pensam que Itaguaru é uma palavra indígena. E não é nada disso. Quem criou o nome do município tirou o “Ita” de Itaberaí, “gua” de Jaraguá e “ru” e Uruana, porque ela é equidistante dessas três cidades. Bariani cita os anagramas como uma tradição goiana.

Augusto Diniz – Qual trabalho foi realizado no Museu Pedro Ludovico, reinaugurado na semana passada?

O museu estava fechado desde agosto do ano passado. Foi fechado para passar por algumas reformas estruturais. A principal ação foi a instalação de uma manta impermeável embaixo do telhado. Tirou todo o telhado do museu, que agora é blindado. Pode até quebrar a telha de cerâmica que não vai causar infiltração. Passou também por uma reordenação e limpeza do acervo. E foi aberto na quinta-feira, 5, que coincide com a data do batismo cultural de Goiânia. Pedro Ludovico fez o batismo cultural da capital em 1942, mesma data na qual reabrimos o Museu Pedro Ludovico.

Marília Noleto – O Instituto Gustav Ritter terá de sair do local em que está instalado, em Campinas? A escola teria perdido o lugar?

Perdeu sim. Mas o Gustav Ritter vai cair para cima. O diretor Edmar Carneiro conseguiu negociar que, o prédio onde está instalado o instituto só será devolvido aos redentoristas, que são os donos do imóvel e haviam cedido ao Estado, quando a sede do Gustav Ritter for construída. A nova sede do instituto ficará na Avenida 24 de Outubro. Já existe o projeto, o governo já tem a área. Realmente o Gustav Ritter vai sair de lá, mas para um local melhor, que será construída para ser escola de arte e será o primeiro equipamento cultural do Estado em Campinas.

Augusto Diniz – Ainda não há previsão de quando ficará pronta a nova sede do Instituto Gustav Ritter?

Não. Mas é coisa rápida, porque a construção é simples, de baixo orçamento. O projeto já está sendo desenvolvido. Edmar tem uma visão bem segura a respeito disso. Se tudo correr conforme a ideia do diretor, em no máximo dois anos o instituto estará em seu novo endereço. Muito melhor, maior, com auditório, salas especiais. E não é uma construção cara.

Marília Noleto – Há a questão do patrimônio, da memória de Campinas.

Tem uma tradição. O pessoal de Campinas se orgulha do espaço.

Augusto Diniz – O que muda entre sua atuação na arte na iniciativa privada para a função no governo?

A grande diferença é que você faz coisa que não é para você. Quando se está na iniciativa privada, você pensa e faz para você. Aqui, há um grande prazer em fazer coisas que são multiplicadas e que são para o coletivo. Batista Custódio [Diário da Manhã] uma vez definiu muito bem essa situação que é você tirar terra do seu quintal para colocar na praça pública. E é verdade. Você se doa, doa seu tempo. Eu gosto de fazer isso.

Fui gestor na década de 1980 na Secretaria de Estado da Cultura, superintendente de patrimônio, assessor técnico, diretor da Funarte [Fundação Nacional de Artes], do Ministério da Cultura, em São Paulo, durante todo o período do [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso [1995-2002] e fui também da prefeitura. É uma coisa que gosto de fazer. Me anima muito. Sinto grande prazer de fazer isso, poder ter ideias e influenciar. Posso dizer que criei a Feira da Lua. Não quero isso para o meu currículo, mas é legal saber que muitas pessoas vão lá e ficam felizes. Nem sou do ramo, mas foi uma ideia que vingou.

Como o projeto de levar pintura para a população através da Galeria Aberta, pintura nos ônibus. Na época a Globo se interesso e veio captar várias imagens de nossos ônibus para colocar nas novelas. Esse caminho de Goiânia para Trindade, que tivemos a ideia e implementamos com a arte do Omar Souto. Queremos fazer de Goiânia para Brasília começando de Goiânia para Anápolis. São coisas que a gente fica pensando. Às vezes conseguimos fazer, outras ideias não. Me sinto um peixe dentro d’água por estar onde estou.

Augusto Diniz – Essa ideia do caminho de Goiânia para Brasília no modelo de Goiânia para Trindade seria parecida, com a pintura de painéis?

Seria algo parecido. Talvez não com aquelas praças como tem, não com recuos, mas o projeto tem um nome provisório de Vi-A-Arte. Penso mais em esculturas do que pinturas. Viabilizado por meio da iniciativa privada. A primeira ação será mapear os locais que seriam possíveis de instalar isso.

Edival Lourenço – Dentro da faixa de domínio da rodovia?

Não, porque teria uma complicação legal naquela faixa de 50 metros de recuo. Mas, por exemplo, daqui até Anápolis, o Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco (Peamp), que é um área do governo, não agredindo o meio ambiente e respeitando a legislação ambiental, seria um local excelente para instalar duas a três esculturas, iluminadas com energia solar.

Outra ação que tenho feito questão de fazer é empoderar o Conselho Estadual de Cultura, que estava muito desanimado. É composto por pessoas da área, com representantes do cinema, da literatura, da dança, e que participam muito pouco. É preciso fazer com que eles decidam quanto na Lei Goyazes, por exemplo, vai para cada área. Isso antes era feito por burocratas na Secretaria. Que isso seja decidido pelo Conselho, com a professora Nancy Araújo, que é a presidente, que tem toda competência para estar mais presente da Seduce.

Os membros do Conselho atuam mais como jurados, que selecionam os projetos. Mas além de jurados, acredito que eles tenham de atuar também como elaboradores da formação da política, por serem pessoas da área. Os burocratas na Secretaria querem definir isso, sendo que temos um conselho que é muito mais gabaritado. Vamos empoderar o Conselho de Cultura para que ele possa participar mais das decisões da Secretaria.

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