Presidente do pP em Goiás diz que Caiado será beneficiado com um número maior de candidatos ao Senado concorrendo pela base governista

Alexandre Baldy – Foto Fernando Leite/Jornal Opção

O ex-deputado federal Alexandre Baldy é um dos nomes que devem protagonizar a política goiana pelas próximas décadas. Isso se deve ao fato de ser ainda jovem, mas já com muito estofo nas articulações políticas, ao ponto de influenciar nas decisões sobre emendas para o Estado mesmo sem estar mais com mandato – de janeiro de 2019 a outubro de 2021 ele foi secretário estadual de Transportes Metropolitanos em São Paulo, no governo de João Doria (PSDB).

Como presidente do partido Progressistas (pP) em Goiás, Baldy sabe exatamente o tamanho do espaço que ocupa. E, também, o espaço que deseja ocupar. Dessa forma é que se lançou pré-candidato ao Senado Federal, em uma disputa ferrenha com vários outros postulantes da base do governador Ronaldo Caiado (União Brasil). Nesta entrevista ao Jornal Opção, ele diz que a disputa deve ser dura e chega a usar para ela a expressão “como uma supereleição para deputado federal”.

Nielton Soares dos Santos – Como estão as chapas do Progressistas (pP) para as eleições deste ano? Com a saída do deputado federal Professor Alcides, ainda há a possibilidade de eleger mais de um nome para a Câmara?

Na verdade, com a saída do Professor Alcides, criamos uma maior expectativa para outros pré-candidatos. Eles passaram a se sentir mais estimulados. Temos pré-candidatos como Sandes Júnior [vereador por Goiânia]; Leandro Ribeiro [vereador por Anápolis]; Nixon das Casinhas [vereador por Luziânia]; Flávia Cunha [liderança de Rio Verde]; a vice-prefeita de Iporá, Maysa Cunha. Ou seja, temos bons pré-candidatos à Câmara em todo o Estado, isso além de nossos dois atuais deputados federais, Adriano do Baldy e José Nelto. Uma chapa praticamente fechada, com a perspectiva de que a gente consiga eleger três deputados federais.

Nielton Soares dos Santos – Ficou alguma rusga entre o sr. e o deputado Professor Alcides?

Nenhuma. Foi uma decisão pessoal, ele estava com desejo de apoiar a pré-candidatura ao governo do ex-prefeito Gustavo Mendanha (Patriota) e percebia nossa disposição em apoiar a pré-candidatura à reeleição do governador Ronaldo Caiado (União Brasil). Foi mais nesse sentido do que em qualquer outro.

Nielton Soares dos Santos – E o pP já está fechado com Caiado?

Não podemos dizer que está, porque a convenção não é hoje. Se fosse, eu diria que sim.

Nielton Soares dos Santos – E como está a chapa para deputado estadual?

Temos também uma chapa completa para deputado estadual, com 48 nomes, dos quais vamos perceber os que estão de fato comprometidos até a convenção e escolhê-los para o registro das candidaturas. Temos nomes expressivos, como a primeira-dama de Formosa, Caroline Marques; a primeira-dama de Anápolis, Vivian Naves; a vereador de Anápolis, Thais Souza; Luciano Lima [candidato a prefeito de Jataí nas últimas eleições]; Rosângela Rezende, que foi secretária de Saúde em Mineiros, filha do ex-governador Agenor Rezende; o vereador Samuel Queiroz, presidente da Câmara de Iporá; e Marcos Cabral, o nome mais forte do Meio-Norte de Goiás entre todos os partidos, hoje assessor especial do governador. Temos também para essa chapa nomes por todo o Estado, com candidaturas bem expressivas, que nos dão a previsão de termos cinco cadeiras na Assembleia Legislativa (Alego).

Nielton Soares dos Santos – O sr. tem obtido apoios importantes para sua pré-candidatura ao Senado, como o do prefeito de Catalão, Adib Elias (PSD), a prefeita de Pires do Rio, Cida Tomazini (UB); e também do deputado José Nelto. O sr. acredita que o fato de ter vários nomes da base do governo torna a disputa mais difícil?

Toda disputa é disputa, independentemente de como a chapa esteja. Nas configurações atuais, do modo com que a lei foi alterada, acredito que a eleição para o Senado será uma supereleição para deputado federal. Assim, acredito que não fará diferença se houver três ou quatro candidatos na mesma chapa ou em diferentes chapas. Todos serão candidatos, da mesma forma.

Nielton Soares dos Santos – Mas não é ruim dividir votos?

Cada um vai fazer seu trabalho. A interpretação de que ter um candidato único, que segue o candidato a governador, e poderia, então, um tipo de candidato oficial ao Senado, isso mudou bastante. Nós teremos uma eleição com uma nova formatação legal e, por isso, não vejo diferença alguma se tivermos três nomes da base mais um ou dois ou três da oposição. A disputa é a mesma e cada um vai disputar o voto das mesmas pessoas contra os mesmos adversários, independentemente de onde eles estejam

Alexandre Baldy  fala aos jornalistas Euler de França Belém, Nielton Soares dos Santos, Marcos Aurélio Silva e Ângela Moureira | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Nielton Soares dos Santos – Se o sr. não for o candidato oficial do governo, partirá para uma candidatura avulsa?

Eu trabalho postulando concorrer ao Senado. O que eu preciso é do partido que eu presido e das pessoas que queiram estar comigo em meu projeto. Portanto, estaremos apoiando o governador Ronaldo Caiado em sua pré-candidatura à reeleição, é uma decisão tomada em nosso partido. Quem quiser assumir pré-candidatura ao Senado que faça seu trabalho. O meu estou fazendo.

Ângela Moureira – O que faria o pP e o sr. serem o partido e o candidato escolhidos pelo governador para o Senado? O que os diferencia dos demais postulantes?

Para mim, hoje, não há diferença nenhuma. Por isso, acredito que o governador não deverá um nome, a não ser que haja uma convergência entre os próprios pré-candidatos. Vivencio a política em diversos Estados do Brasil e já vi essa situação várias vezes e os resultados dela. Por isso, posso dizer que tem sido muito difícil para os pré-candidatos à reeleição ao governo em seus Estados essa escolha por um único nome para o Senado. Posso relatar vários Estados que passam pelo mesmo processo que vemos aqui e vou garantir que os governadores não têm condições de escolher algum nome, porque vão escolher um e preterir outros. Por isso, eles vão deixar com que cada pré-candidato se consolide e seja, então, o mais forte.

Euler de França Belém – A chapa oficial de Caiado, por exemplo, poderá ter apenas os nomes do candidato a governador e a vice?

Na verdade, pode haver coligação para governador e vice-governador com nomes dos partidos que estejam oficialmente na aliança. Como exemplo, o União Brasil (UB) pode ter um pré-candidato ao governo, um a vice e um ao Senado Federal. Para a vaga do Senado, não há coligação entre partidos que tenham candidaturas independentes – elas não são avulsas, mas, sim, independentes, porque coligam na majoritária para governo e vice e não coligam para senador. A legislação permite que haja candidaturas dessa forma para o Senado. Para deputado federal e para deputado estadual, não há coligação.

“Eu não acredito em comodidade, acredito em política. E quanto mais políticos existir apoiando um candidato, certamente o resultado é que seu nome será mais falado em mais locais e para mais pessoas”

Euler de França Belém – Mas não é obrigatório que haja um candidato oficial ao Senado na chapa?

Não, nesse caso não terá. O que haverá são os partidos coligando com ele na candidatura ao governo e a vice e os partidos que não tenham candidato ao Senado.

Marcos Aurélio Silva – Esse formato de eleição para o Senado traz mais tranquilidade ao governador Caiado em relação às articulações e negociações para compor uma aliança ampla? Traz mais comodidade?

Eu não acredito em comodidade, acredito em política. E quanto mais políticos existir apoiando um candidato, certamente o resultado é que seu nome será mais falado em mais locais e para mais pessoas. Uma eleição se ganha com gente pedindo voto. Em 2018 tivemos uma eleição atípica e completamente atemporal, algo que ocorre de tempos em tempos. Esta próxima eleição não será da antipolítica, nem dos outsiders, muito menos de quem não seja militante. Portanto, quanto mais estrutura política tiver o candidato, maior expressividade e musculatura eleitoral ele terá e, obviamente, maior chance de vencer a eleição.

Marcos Aurélio Silva – Nesse campo de estrutura política, o pP se destaca na composição formada em torno do governador?

Eu garanto que o Progressistas se destaca, depois do partido do próprio governador, diante de qualquer outro partido. Depois do partido dele, nós somos o que mais elegeu prefeitos e prefeitas em todo o Estado. Somos o que mais teve crescimento proporcional na eleição de vereadores e vereadoras. Portanto, após o partido do governador, o nosso é o que mais tem musculatura política. Fora do partido, temos ainda várias prefeituras que nos apoiam, como Mineiros e Valparaíso, bem como prefeitos e prefeitas como Adib Elias [Catalão], Cida Tomazini e Dione da Famóveis [UB, prefeito de Itumbiara]. Portanto, podemos andar por todo o Estado e dizer que nossa pré-candidatura tem musculatura, força política e competitividade na disputa eleitoral.

Nielton Soares dos Santos – Quando Gustavo Mendanha esteve buscando filiação por um partido maior, ele procurou o pP. O sr. chegou a participar dessas articulações?

Não, não participei. Gustavo esteve algumas vezes em Brasília, com o ministro Ciro [Nogueira, da Casa Civil], presidente nacional de nosso partido, acompanhado do deputado Professor Alcides, fazendo essa articulação.

Euler de França Belém – Mas o sr. chegou a conversar várias vezes com o ex-prefeito, recebendo-o em seu apartamento…

Várias vezes.

Euler de França Belém – O que vocês conversaram nesses encontros?

Todas as vezes foi no sentido de que a filiação dele não se justificaria, já que temos dois nomes no partido cujo projeto também é uma eleição majoritária.

Marcos Aurélio Silva – As eleições proporcionais parecem ser o grande foco dos partidos, no caso, principalmente as chapas para deputado federal. É algo que representa muita coisa, principalmente em relação ao fundo partidário. Como o sr. vê o pP em relação na preparação para essa campanha, em específico?

Creio que, de nossa política local, dois partidos hoje tenham influência nacional: o União Brasil, com o governador Ronaldo Caiado à frente, depois da fusão de DEM e PSL, do qual ele foi um dos protagonistas, juntamente com ACM Neto [ex-prefeito de Salvador e primeiro vice-presidente do UB]; e o Progressistas, pela relação que tenho com Ciro Nogueira, o presidente do partido, e Arthur Lira [presidente da Câmara dos Deputados], hoje a figura mais proeminente da articulação política nacional. Fui coordenador da articulação política do partido para a filiação dos aliados na Câmara e no Senado e ainda continuo fazendo esse papel.

Dentro desse aspecto, temos condições e influência para colaborar a que esses partidos, em Goiás, sejam contemplados com muito recurso de fundo eleitoral e fundo partidário. É bom lembrar também que, recentemente, fomos o segundo a mais destinar ônibus escolares. Tudo isso é força política para trazer benefícios para o Estado.

Nielton Soares dos Santos – O sr. tem esse trânsito livre ainda, sem o mandato, para trazer esses recursos para o Estado?

Estou recebendo pancada toda semana por conta disso.

Marcos Aurélio Silva – Embora sem mandato e, portanto, sem ter como participar como autor de emendas impositivas, o sr. participa de inauguração de obras no interior e está sempre junto com os prefeitos. São obras conquistadas quando o sr. foi ministro das Cidades ou é pelo trânsito com o ministro da Casa Civil?

São muitos os fatores, mas posso afirmar que sou o parlamentar que mais trouxe recurso federal para o Estado no exercício de um mandato, na história de Goiás. Foram quase R$ 4,5 bilhões em recursos para infraestrutura urbana, tais como asfalto, recapeamento, meio-fio, pavimentação de calçamento, praças públicas, reforma e construção de escolas e creches, ônibus escolares, execução de tratamento de água e esgoto. Só na Funasa [Fundação Nacional de Saúde] foi quase R$ 0,5 bilhão; no Ministério [das Cidades], foi R$ 1,5 bilhão, para o abastecimento de água de cidades como Anápolis, Aparecida de Goiânia, do entorno da usina de Corumbá 4. Para aquela obra ser inaugurada agora, eu coloquei no orçamento de 2018 mais de R$ 200 milhões, para que pudesse ter sua execução retomada e com garantia de ser concluída. Tenho obras para inaugurar ou em execução em mais de 200 cidades do Estado. É por isso que eu visito, entrego obras, ajudo ainda outras a ser desencadeadas. Continuo a ter como trazer recursos porque, quando fui ministro, rodei as 27 unidades federativas da Nação e ajudei a levar recursos para todas. Isso faz com que hoje, quem pode nos ajudar, faz isso de modo recíproco para Goiás, pela relação que eu tenho com o ministro Ciro, com o presidente Arthur Lira e com toda a bancada do pP e outras bancadas.

Marcos Aurélio Silva – Por que o sr. acha que Ronaldo Caiado merece um segundo mandato?

Acredito que ele esteja fazendo um governo de luta, rico e de restruturação do Estado. Passamos por momentos difíceis, desafiadores. O governador foi o único a conseguir inserir o Estado no Regime de Recuperação Fiscal (RRF). O Rio de Janeiro, que hoje está inserido, sequer respeita nem executa a recuperação fiscal como deveria ser. Eu votei e fui, inclusive, partícipe de uma emenda que reduziu a dívida de Goiás – ajudando o então secretário da Fazenda, Simão Cirineu – e a recuperação fiscal do Rio em quase meio bilhão de reais por ano.

Então, se a gente perceber que o governador reestruturou o Estado, promoveu a reorganização de um endividamento que estava em situação falimentar, o modo com que recuperou as carreiras e as reformas que ele fez – previdenciária e administrativa –, vai ver que ele é merecedor, sim, de mais um período, para que ele possa fazer de verdade. Porque, até agora, ele não teve como fazer, precisou colocar a casa em ordem para que então tenha como realizar o desejo de todo político: realizar obras e levar benefícios e benfeitorias à população que nele confiou.

Marcos Aurélio Silva – A renegociação das dívidas e a reorganização da casa seriam os pontos fortes desta gestão?

Com certeza, foi um governo de restruturação do Estado de Goiás.

Nielton Soares dos Santos – O pP fez parte do governo Caiado e saiu. Esse conflito já foi superado?

Eu nunca tive conflito com o governador. No momento que o Progressistas deixou o governo foi um desejo pessoal dele. Em nenhum momento eu mencionei que haveria qualquer diferença com ele. Foi uma questão de eleição da mesa da Câmara Federal de que, por nosso lado, não houve qualquer rusga ou situação que nos pudesse deixar constrangido.

Euler de França Belém – O pP hoje está de volta ao governo, com o secretário de Indústria e Comércio. Há mais algum outro cargo?

Não, apenas na Secretaria de Indústria e Comércio, ocupada por Joel Braga Filho.

“Cuidar do transporte público de mais de 10 milhões de passageiros diariamente foi a mais agressiva experiência que eu tive no serviço público até hoje. Imagine, ser responsável por isto: se 1% dos usuários não estiverem satisfeitos e reclamarem, são 100 mil passageiros”

Marcos Aurélio Silva – Qual a avaliação que o sr. faz de sua passagem pelo governo de João Doria (PSDB), como secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo?

Foi uma experiência formidável. Cuidar do transporte público de mais de 10 milhões de passageiros diariamente foi a mais agressiva experiência que eu tive no serviço público até hoje. Imagine, ser responsável por isto: se 1% dos usuários não estiverem satisfeitos e reclamarem, são 100 mil passageiros. Isso me deu uma capacidade de conhecer de forma única e profunda o transporte público – seja ônibus, trem ou metrô – e tive a oportunidade de retomar todas as obras que estavam paradas, o que era o grande gargalo dos governos que por lá passaram nos últimos 20 anos. Hoje há sete obras simultâneas no metrô e nas linhas ferroviárias de São Paulo, coisa que nunca aconteceu antes. Estão lá a maior, a segunda maior e a quinta maior obra do Brasil, tudo de forma estruturada, organizada e transparente. Outro ponto foi a pandemia, que realçou muito esse desafio, tornou-o mais difícil.

Euler de França Belém – João Doria fez um governo muito bom, de acordo com os dados. O crescimento de São Paulo chegou a 7%, um índice quase chinês. Além disso, ainda foi responsável por iniciar a vacinação no País. Ao mesmo tempo, a popularidade dele é baixa. Como se explica isso?

Eu participei do governo durante 30 meses. Durante esse período, a avaliação da gestão do governo e a avaliação da gestão do governador sempre foram descoladas. Isso se acentuou ainda mais a partir de meados da pandemia. Então, eu vejo que o governador João Doria foi um comunicador que não soube fazer com que sua comunicação fosse interpretada e absorvida pelas pessoas. Isso acabou causando esse descolamento negativo da imagem dele, em um governo que foi de gestão com atitude, de restruturação, de geração de emprego, de retomada de obras, de crescimento, de conquista da vacinação.

Euler de França Belém – O sr. foi secretário de Doria juntamente com Henrique Meirelles [secretário da Fazenda], cuja pré-candidatura ao Senado por Goiás desapareceu tão rápida quanto apareceu. Qual foi o motivo da desistência dele?

O desejo dele era ter uma candidatura em um ambiente menos conturbado, até por sua idade avançada, pela questão da pandemia diante disso. Meirelles acreditava que o cenário de uma pré-candidatura ao Senado seria menos conturbado e não foi assim. Creio que em São Paulo ele vá tentar um caminho que seja mais adequado.

Euler de França Belém – Ele pode ser vice na chapa do governador Rodrigo Garcia (PSDB)?

Acho que ele tem chance de ser, sim.

Euler de França Belém – E Rodrigo Garcia, tem chances de ganhar, estando agora em 4º lugar nas pesquisas?

Eu acredito que sim. Se a gente avaliar que Márcio França (PSB), na convenção que o colocou como candidato ao governo de São Paulo em 2018, tinha 5%, mas acabou indo para o segundo turno e quase venceu João Doria, há essa possibilidade. Com a máquina bem trabalhada, isso pode acontecer.

Euler de França Belém – Não seria Tarcísio de Freitas (Republicanos) aquele que pode surpreender na eleição paulista?

Não acredito. Eu fui o goiano que caiu em São Paulo, cuidando do sistema de transporte mais agressivo e gigantesco da América do Sul. Para conhecer os problemas do Estado e falar sobre eles, não é fácil. Tarcísio é um guerreiro, será um ótimo candidato, mas não acredito que ele tenha chances de vencer as eleições.

Euler de França Belém – O segundo turno ficará, então, entre Fernando Haddad (PT) e Rodrigo?

Sim. Até porque o eleitor paulista, diferentemente do paulistano, é conservador. Nisso, se assemelha ao nosso, de Goiás. Ele acaba preferindo a continuidade do governante que esteja fazendo um trabalho bom ou razoável. E a pandemia realçou esse conservadorismo. Isso será um ponto importante aqui em Goiás e também lá em São Paulo, se Rodrigo Garcia conseguir se identificar com os eleitores como aquele que é o dono desse patrimônio de uma boa gestão.

Marcos Aurélio Silva – O pP nacional apoia a reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL). O sr. estará no palanque dele em Goiás? E como será montado esse palanque?

Estarei no palanque do presidente Bolsonaro, independentemente do candidato que ele escolher ao governo do Estado. O coordenador de campanha será o presidente do meu partido, o ministro Ciro Nogueira, portanto certamente vamos formatar juntos esse palanque. E, sem dúvida alguma, da mesma forma que eu falei que o governador Ronaldo Caiado é beneficiado por um número maior de candidaturas ao Senado, eu creio que o presidente Bolsonaro não vai rejeitar nenhum candidato ao governo que desejar apoiá-lo. O mesmo vale para candidatos ao Senado, a federal ou a estadual. Ele será beneficiado por todos os que estiverem no palanque com ele ou pedindo votos para ele.

Marcos Aurélio Silva – O que tem favorecido a ascensão de Bolsonaro nas pesquisas?

A eleição presidencial é movida, majoritariamente, pelo sentimento econômico. A eleição municipal é de zeladoria, na qual as pessoas querem perceber se o prefeito consegue deixar a rua pavimentada, a praça arrumada, a limpeza urbana realizada, a iluminação pública funcionando. Já a eleição para o governo de Estado é mista, em que a população julga a segurança pública, parte da saúde pública – sobretudo em Goiás, onde há ainda do poder público municipal realizando esse serviço, o que não ocorre em outros Estados –, e também a economia. Já para presidente, tudo fica pautado, quase que totalmente, pela economia. Findando a pandemia, creio que vamos ver que o governo tem tomado atitudes assertivas quanto à retomada econômica.

“Quando as pessoas entenderem que o Lula do PT é o mesmo da Gleisi Hoffmann, do José Dirceu, do José Genoino, do Delúbio Soares, é o Lula do MST, vão entender que o Lula do PT, com essa companhia toda, é algo de que a gente não tem saudade”

Claro que tudo ainda precisa de ajustes, mas, diante de uma crise sanitária que nunca havíamos vivenciado, colocou em execução o auxílio emergencial e agora o Auxílio Brasil. Portanto, fez o que deveria ser feito para que a pandemia acabasse e executou um plano de ajuste de retomada econômica para que as empresas não quebrassem. Hoje, elas estão conseguindo recuperar fôlego. Creio que o sentimento dessa melhora dia a dia faz com que haja a recuperação por parte do presidente Bolsonaro. E vai fazer com que essa saudade do período Lula – não do PT – passe. Quando as pessoas entenderem que o Lula do PT é o mesmo da Gleisi Hoffmann [deputada federal pelo Paraná e presidente nacional do partido], do José Dirceu [ex-ministro do governo Lula, condenado pelo mensalão], do José Genoino [ex-deputado federal], do Delúbio Soares [ex-tesoureiro do partido, condenado pelo mensalão], é o Lula do Movimento dos Sem Terra, sobretudo aqui em Goiás vão entender que o Lula do PT, com essa companhia toda, é algo de que a gente não tem saudade.

Marcos Aurélio Silva – Como o sr. avalia o desempenho do presidente Bolsonaro em relação à saúde pública?

Todos têm suas posições pessoais. Mas o importante é que no fim o governo federal bancou a imunização no Brasil com vacinas assertivas, escolhendo todas elas. Na China, não escolheram a vacina com a tecnologia mRNA [baseada no RNA mensageiro e utilizada contra a Covid-19 em imunizantes como o da Pfizer e o da Moderna], o que pode ser uma das causas do desencadeamento dos surtos atuais que estão acontecendo por lá. No futuro, saberemos. Mas o importante é que o governo foi aberto para bancar todas as vacinas, o que amenizou nossa situação e a saída desse quadro de crise sanitária.

Da mesma forma, fez aporte de recursos para os Estados e municípios enfrentarem a pandemia. Todos estavam quebrados e nunca receberam tanto recurso para dar as respostas adequadas na área da saúde – ressaltando que o governo federal não executa, apenas leva recursos para que os municípios, especialmente na atenção básica, e Estados e municípios, em procedimentos de baixa, média e alta complexidade, os utilizem.

Em relação às posições pessoais do presidente, é preciso respeitá-las, assim como a de qualquer indivíduo. Mas o trabalho que o governo federal do presidente executou, sem dúvida alguma, foi o que desencadeou tudo o que vivenciamos no Brasil. No fim da pandemia, estamos vivendo um momento muito melhor no Brasil do que o da China.

“O pP terá candidato próprio a prefeito em Goiânia, em Aparecida e em Anápolis”

Nielton Soares dos Santos – Por que o pP não tem uma estrutura forte em Aparecida de Goiânia, o segundo maior eleitorado do Estado?

O pP elegeu um deputado federal em 2018 em Aparecida de Goiânia [Professor Alcides]; elegeu também um senador da República [Vanderlan Cardoso]. A decisão do Professor Alcides em sair do partido é ainda bem recente. Vamos criar estrutura em Aparecida, indiscutivelmente. Mas a estrutura lá não vai visar a eleição estadual, agora, mas a eleição municipal, daqui a dois anos. E garanto desde já: o Progressistas terá candidato a prefeito competitivo em Aparecida de Goiânia em 2024. Mas isso será discutido após as eleições deste ano. Os diretórios municipais neste momento não são objeto de discussão, no tempo certo vamos encontrar líderes e lideranças que sejam de fato comprometidas para que possamos ter – e teremos – um candidato a prefeito em Aparecida de Goiânia.

Ângela Moureira – E em Goiânia, o pP pode ter candidato também?

Terá candidato. Não é “pode”, o pP terá candidato a prefeito de Goiânia.

Nielton Soares dos Santos – E pode ser o sr.?

Não, sou anapolino, eleitor de Anápolis.

Euler de França Belém – Pode ser Sandes Júnior?

Nós temos nomes expressivos, pré-candidaturas como a de Sandes e a de Joel Braga Filho, que é eleitor goianiense, e outras que podem aparecer neste período, sobretudo a partir do ano que vem. Mas já posso garantir aqui: o pP terá candidato próprio a prefeito em Goiânia, em Aparecida e em Anápolis.

Nielton Soares dos Santos – A ausência de líderes como Iris Rezende e Maguito Vilela muda algo na política em Goiânia?

Não só em Goiânia, mas em Goiás como um todo. A política no Estado está mudando muito rápido, por causa dessas trágicas perdas. Estamos vendo acontecer uma mudança de geração.

Euler de França Belém – Quais pautas o sr. vai levar para discutir no Senado, caso se eleja?

Pretendo dividir o tempo, mesmo com os horários caóticos de Brasília. Quando fui deputado, tinha atuação firme no Plenário e nas comissões, usando toda disciplina do mundo para sobrar oportunidade de ir aos ministérios buscar recursos. Então, a agenda tem de ser preenchida com temas sérios, para valer cada minuto do mandato. Os assuntos que venho debatendo mais são a burocracia, em cujo combate gastei muito tempo, as energias limpas e o empreendedorismo.

Euler de França Belém – Seu tema de energia limpa é alfinetada em alguma empresa?

Não, até porque o meu enfrentamento à péssima distribuição de energia elétrica em Goiás eu faço é de peito aberto. Ela consegue deixar um tirador de leite sem energia durante três, quatro dias. Sou produtor rural no Norte de Goiás e lá o pessoal parece até que esqueceu outros assuntos: a Enel domina todas as conversas.

Euler de França Belém – Será que ela vai ser vendida?

Eles desmentiram a venda, mas o cidadão goiano voltou a fazer aquela conta cruel. Como é que o Estado gastou R$ 6 bilhões numa empresa, depois arrematada por R$ 2 bilhões, Goiás ficou com R$ 1 bilhão e agora ela está sendo comprada por R$ 10 bilhões sem investir os R$ 2 bilhões em suas operações? É o que está no contrato. A energia precisa ser um fator de atração de investimento, não de repulsa do empresariado. Estamos vivendo o contrário.

Euler de França Belém – O sr. saiu da iniciativa privada e pouco depois já estava no Ministério das Cidades. É verdade aquele velho discurso de que empresário que vai para a política é para perder dinheiro?

Política não é para render dinheiro mesmo, não. Quem se candidatar ou aceitar um cargo com esse propósito, está começando errado. Mas eu gostei demais de me reaproximar dos ideais do meu pai [o procurador de justiça aposentado Joel Sant’Anna Braga]. Você não tem ideia do que é entregar as chaves de uma casa para uma família que morava de favor ou debaixo de um viaduto. Felizmente, passei por isso diversas vezes e todas as vezes ficava emocionado. Nosso ritmo no Ministério das Cidades foi de 1,2 mil casas e apartamentos por dia. Fizemos 53 mil em Goiás, se você somar os imóveis para classes média, C e D. Se todas essas moradias tivessem sido construídas numa mesma cidade, seria do tamanho de Rio Verde. Dar um teto para 250 mil conterrâneos seus que precisam… E o enredo parece o mesmo, porque a dona da casa dá um jeito de chegar perto de você e agradecer. É uma realização que não dá para esquecer.

Marcos Aurélio Silva – O que o sr. acha que deve ser feito com o pessoal que não está conseguindo pagar as prestações dessas casas?

Sou contra tomar as casas, deixar as famílias na rua. Uns falam em segurança dos contratos de banco. Banco está lucrando no Brasil mais que em qualquer lugar do mundo. Ainda mais os bancos públicos, um tomando terra de produtor rural, a outra tomando casa de família pobre. Sai o balanço dos bancos e eles lucraram bilhões. Banco tem que lucrar e quem faz dívida tem que pagar. Certo. Mas é certo que a mesma regra valha para quem tem condição e quem não tem?

Euler de França Belém – É certo?

É errado. A casa é asilo inviolável do indivíduo, está na Constituição. Um banco público não pode desabrigar as famílias.

Euler de França Belém – Por essa filosofia sua, os bancos não vão mais querer financiar imóveis para classe baixa…

Os bancos públicos têm só essa utilidade, mais nenhuma. Se não servir para dar uma casa a uma família, não serve para nada. Se eles derem prejuízo, e já deram muitas vezes, a população vai arcar com parte do rombo. Por que quando quem está em dificuldade é o devedor ele tem de ser enxotado da casa?

Marcos Aurélio Silva – Qual seria a saída?

Cada caso deve ser estudado por assistente social, alguém que investigue se realmente aquela família não pode pagar. Para esses vulneráveis, o governo deve arcar com o pagamento, porque a moradia é um direito social, também está na Constituição. Todo mundo tira um artigo da Constituição para justificar medidas injustificáveis, por que na hora de beneficiar o morador humilde de uma casinha lá no Jardim Cerrado o banco público não respeita o direito social dele?

Euler de França Belém – Então a casa deve ser doada, sem qualquer contrapartida?

Para determinada faixa de público, deve sim. Quando contei para o meu pai que iri00a assumir o Ministério das Cidades, o primeiro detalhe que ressaltei foi o da política habitacional. Fiz de lá um ministério social. Todas as casas de famílias realmente pobres devem ser doadas, as próximas, e perdoadas as dívidas de quem já está morando. Isso não vai quebrar o banco, não vai quebrar o País, não vai quebrar nada. Disseram que o Auxílio Emergencial dado pelo presidente Jair Bolsonaro ia acabar com a economia nacional, porque algumas pessoas receberam até R$ 1,8 mil de cada vez. A economia melhorou, porque quem recebe R$ 1,8 mil deixa R$ 900 em impostos de mercadorias que consome, gira o comércio, que gira a indústria, que gera empregos. Tenho outras ideias para esses residenciais.

Euler de França Belém – Por exemplo?

Em vez de tirar a família da casa ou do apartamento porque ninguém dali tem emprego, cabe ao poder público criar as condições de esse pessoal voltar a ter renda. O Cinturão da Moda, que o governador Ronaldo Caiado está implantando na Região da 44, poderia absorver essa mão de obra sem o pessoal sair de casa. Os governos poderiam treinar o pessoal dos Jardins Cerrado, por exemplo, ceder as máquinas de costura e os empresários das confecções encomendariam as facções. Em vez de tomar a casa, faz dela uma MEI e a pessoa passa de desempregado a empregador, nem que seja só dele mesmo e dos familiares.