“A educação é sempre a grande saída para o crescimento de um país”

O militante histórico em Goiás é pré-candidato ao Senado pela “caçula” UP e ainda se considera “um jovem rebelde” aos 71 anos

Elder Dias e Italo Wolff

O professor Reinaldo Assis Pantaleão tem uma história de paixão pelo lugar onde vive, mas, principalmente, pelo jeito com que vive: é um militante histórico que nunca abriu mão de seus ideários de esquerda, mas sempre foi amado por seus ex-alunos não importando a ideologia de cada um. Aliás, materialista que se diz, é na dialética que ele crê para o progresso da civilização.

A trajetória de vida do menino Pantaleão começou a se formar a partir da entrega de bilhete a mando de seu pai, militar, a um amigo, comunista. Era o período de tensão que levaria ao golpe de 64 e ele conheceu aquele homem, o “seu” Brice, de quem acabou recebendo farta literatura socialista. Aposentado, “mas na militância até hoje”, o historiador coleciona várias candidaturas, inclusive uma para prefeito, em 2012, pelo PSOL. Agora, é o nome da Unidade Popular, o mais novo dos partidos, para a disputa do Senado.

Enquanto ainda há negociações com outros partidos de esquerda, o professor Pantaleão concedeu esta entrevista ao Jornal Opção para falar de sua trajetória e do que pensa sobre educação, seu tema preferido e que se confunde com sua vida.

Elder Dias – O sr. é pré-candidato ao Senado pela UP. Como está se desenvolvendo essa negociação?

Estamos conversando com o PCB e o PSOL, que fechou uma federação com a Rede Sustentabilidade. O PSOL quer lançar a candidatura do professor Wesley Garcia ao governo e tem mais duas pré-candidaturas ao Senado. O PCB tem a professora Helga Martins, da Universidade Federal de Jataí, como pré-candidata ao governo de Goiás, também. Estamos querendo que PSOL, UP e PCB lancem um candidato ao governo e um candidato ao Senado – que espero que seja eu. Tem de ser uma conversa franca, sadia, sem medo de falar o que quer ao outro para definir tudo. Se não fechar, vamos procurar quem poderá ser nosso nome ao governo pela UP.

“Brice se transformou em um guru ideológico para mim. É uma figura que marcou minha vida”

Elder Dias – Como o sr. se interessou por política?

Eu digo que comecei minha vida política e ideológica com 13 anos. Era de 1963 para 1964 e meu pai, o velho comandante Pantaleão [Odorico Pantaleão], era policial militar, tinha sido assessor de Pedro Ludovico e Mauro Borges. Ele sempre teve uma relação política com o PSD, o partido da família Ludovico criado por Getúlio Vargas junto com o PTB no fim da ditadura do Estado Novo. Meu pai, curiosamente, às vezes chegava em casa e falava para mim “menino, pega esse bilhete aqui e vai lá na casa da esquina e entrega para o velho Brice. E não é para abrir”. Eu, claro, obedecia e chegava lá, chamava pelo “seu” Brice e entregava.

Um dia eu fiquei encabulado, porque cheguei lá até a casa e vi muita gente conversando com ele e logo chegou a polícia levando todo mundo. Fiquei impressionado e perguntei à mulher dele o que tinha ocorrido. Ela me disse que Brice havia sido preso por ser do Partido Comunista. E completou: “Aqueles bilhetinhos que você sempre me trazia aqui evitaram muitas vezes a prisão dele”. É que os papeizinhos eram de uma pessoa ligada ao governador Mauro Borges, que mandava recados para eles saírem de onde estavam.

Eu tinha saído de uma escola franciscana e fui para o Colégio Pedro Gomes. Com 13 anos, meu sonho era jogar futebol, como todo menino. Logo que o “seu” Brice saiu da cadeia, comecei a ter mais amizade com ele. Sempre ia à casa dele, que me emprestava alguns livros, dos quais não entendia muita coisa. Era “O Capital”, as teorias de Lênin, tudo muito complicado naquele momento para mim. Mas Brice se transformou em um guru ideológico para mim. É uma figura que marcou minha vida. Hoje ele é nome de uma escola na Vila Itatiaia [Escola Municipal Brice Francisco Cordeiro], onde eu moro e onde reside também parte da família dele. E fiz a ele também uma homenagem no nome de meu filho Marcelo Brice.

Italo Wolff – E como foi o início da militância propriamente dita?

Já com as nuances do golpe de 64, fui estudar no Colégio Estadual Pedro Gomes, que tinha uma movimentação secundarista muito grande, assim como era no Lyceu de Goiânia, no IEG [Instituto de Educação de Goiás], no próprio Ateneu Dom Bosco. O movimento estudantil estava muito forte. Eu tinha uma simpatia por um grupo do PCB, mas, com Marighella [Carlos Marighella, político e escritor baiano que se tornou guerrilheiro e fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN), sendo executado em 1969], passei a ter uma simpatia não orgânica – porque não fui ligado à ALN –, mas a suas concepções.

Com o endurecimento da ditadura, cheguei a ter de me afastar de Goiânia para não ser capturado. Foi o começo das minhas atividades político-partidárias. Da clandestinidade passei para a realidade e fui me filiar ao MDB.

Os jornalistas Elder Dias e Italo Wolff entrevistam o professor Reinaldo Pantaleão na sede do Jornal Opção | Foto: Cilas da Silva Gontijo

Elder Dias – Isso ocorreu em que ano?

Isso foi de 1965 a 1975. De 1973 a 1974, tive de sair daqui, depois que meu pai foi orientado por um amigo, que também era militar. Ele disse “manda seu filho embora, porque ele está em uma lista que o deixa numa situação delicada, se o pegarem”. Nessa época, prenderam Honestino Guimarães, Marco Antônio Dias e Ismael Silva de Jesus [líderes estudantis desaparecidos e mortos em Goiás entre 1972 e 1973]. Ismael foi preso e assassinado no antigo 10º Batalhão de Caçadores de Goiás [depois 42º Batalhão de Infantaria Motorizada e, desde 2003, 1º Batalhão de Ações de Comandos].

Elder Dias – O sr. estava nessa mesma lista dos que foram presos?

Sim, assim como um punhado de pessoas que militavam no movimento estudantil. Como minha ala política não era do PCB, mas era simpática a Marighella, a coisa iria complicar.

Elder Dias – Qual era o nome dessa ala?

Juventude Marighellista. Não éramos um grupo orgânico, mas simpático aos ideais, mesmo sem contato com a ALN. Ou seja, mesmo sem isso, nós nos dispusemos a ser marighellistas. Era puro romantismo bolivariano. Mas em 1974 eu voltei e entrei na faculdade, no curso de História.

Italo Wolff – E qual tinha sido o destino do sr. na fuga para se proteger?

Fui para a região do Bico do Papagaio, no que hoje é o norte do Tocantins. Em plena Guerrilha do Araguaia, fui para lá me esconder da repressão, o que é uma ironia. Ocorre que lá, na verdade, fui encontrar com um professor, Osmar. Fiquei entre São Sebastião do Tocantins, Araguatins, Marabá (PA). Fui orientado a não falar sobre guerrilha, então, quando alguém falava sobre desse assunto, eu dizia “não, o que é isso?”. Fiquei lá quase dois anos e voltei. Aí, então, na universidade, comecei a militar no MDB, com nomes como João Divino Dornelles [ex-deputado federal], Derval de Paiva, os irmãos Romualdo, Adhemar e Henrique, Tobias Alves, entre outros.

“A história, quando não lembrada com autenticidade, pode dar espaço para uma repetição de erros”

Elder Dias – E quando foi sua primeira candidatura?

Foi a vereador em Goiânia, em 1976, com o apoio da dissidência do PCB, que era clandestino, na época. Fui até bem votado, mas quem ganhou apoiado pelo PCB foi Sebastião Vieira de Melo, jornalista que hoje está no Tocantins. É bom ressaltar o papel histórico importante que o MDB teve nesse período, inclusive que deveria ser mais motivo de pesquisas, porque as pessoas não dão tanta importância. É que o MDB, na realidade, era uma frente, incluindo gente de direita, de esquerda e de centro, e de lá saíram nomes importantes que levantaram as bandeiras da anistia, da Constituinte etc. Nomes que não podemos esquecer, como o de Fernando Cunha [deputado federal por cinco legislaturas, de 1971 a 1991] que morreu anos atrás [em novembro de 2011], um deputado brilhantes e que, na Comissão de Minas e Energia, fez uma denúncia gravíssima sobre os projetos das usinas Angra 1, 2 e 3; como os irmãos Santillo e também João Divino Dornelles, Derval de Paiva e Jacinto e João Campos Neto, de Catalão. Precisamos resgatar um pouco dessa história, porque a história, quando não lembrada com autenticidade, pode dar espaço para uma repetição de erros.

“No CPG, fizemos em Goiás uma das maiores greves de professores do Brasil”

Italo Wolff – E depois de graduado em História, como o sr. atuou?

Continuei a luta por meio de minha profissão. Como professor, passei a participar do CPG [Centro de Professores de Goiás], liderado pelo professor Niso Prego, entre 1977 ou 1978. Fizemos, sem exagerar, talvez uma das maiores greves de professores no Brasil.

Elder Dias – O CPG, para os mais novinhos, é o que deu origem ao Sintego [Sindicato dos Trabalhadores da Educação em Goiás].

Exatamente. Antes existia a Associação dos Professores Primários (APP), que deu origem ao CPG e, por fim, o Sintego. Isso ocorria por mudança na lei, já que antes, no período da ditadura, os sindicatos foram extintos. As greves que fizemos, de 1978 até o fim do governo Iris Rezende [no primeiro mandato, Iris governou até 1985, quando se tornou ministro da Agricultura]. Foi uma época de grande envolvimento, greves extraordinárias, até emocionante, porque a população em peso do Estado deu apoio à greve. Nossos salários foram cortados – eu era professor da rede pública e da rede privada – e, quando a gente ia para o interior, o povo ajudava com almoço, janta, hospedagem, tudo. Era a coisa mais linda do mundo. E foi um movimento basicamente de valorização da profissão de professor – com busca de concurso, de carreira, estabilidade, carga horária etc. –, todo aquele processo administrativo e educacional. Infelizmente, apenas no governo Santillo [1987-1990] algumas conquistas foram obtidas, como aumento salarial, plano de carreira profissional etc. Depois, Iris voltou a ser governador e desmantelou tudo novamente.

Esse processo precisa ser resgatado na memória, porque o Brasil sempre tratou a educação como projeto da elite, como dizia o grande antropólogo Darcy Ribeiro [ministro da Educação (1962-1963) e da Casa Civil (1963-1964) de João Goulart e senador de 1991 a 1997]. Educação sempre é lembrada em época de eleições. Todo candidato diz que a prioridade é educação, saúde e segurança, basta ver a propaganda eleitoral. Mas como, prioridade, em um País em que há um índice ainda violentíssimo de analfabetismo; um País que tem um pedagogo respeitado no mundo todo, mas aqui achincalhado pela direita, que é Paulo Freire; um País que teve outras grandes figuras estudiosas da educação, como Anísio Teixeira e o próprio Darcy Ribeiro.

Como professor, sinto que precisamos resgatar tudo isso. Mas, claro, não sou nenhum ingênuo para ficar remoendo o passado para simplesmente lamentar. Porém, penso que é preciso mostrar tudo isso para a juventude que não conhece isso, que não sabe o que foi nossa violenta e perversa ditadura nem o processo de como se deu o desenvolvimento da educação brasileira. A manipulação sempre existiu, mas durante a ditadura isso se tornou um controle violentíssimo. Uma vez disse num debate da UFG e alguns se assustaram: a ditadura cassou, exilou, baniu, torturou e matou, mas conseguiu outra coisa que ninguém prestou tanta atenção, que foi acabar com nossa educação. As leis foram todas para tolher a liberdade nas escolas e principalmente acabar com a participação em grêmios e centros acadêmicos.

O pulmão de um país são a pesquisa e a educação. Qual país, em qualquer lugar do mundo, de qualquer ideologia, teve desenvolvimento sem mexer na raiz da questão, que é a educação? Não sou nenhum iludido de que a revolução vai acontecer pela área da educação, ela é apenas uma parte de todo o processo. Só que, sem ele, não se cria a condição para conscientização da sociedade. Como participei ativamente dessa luta, falo com certa emoção e posso afirmar que foram grandes momentos de minha vida, tanto nos aspectos ideológicos e políticos, para combater o golpe, como no aspecto profissional para dar minha contribuição para a educação na história de Goiás e, por que não dizer, no Brasil.

Elder Dias – A esquerda esteve no poder com o PT por 13 anos. Embora não tenha tido de fato um projeto de esquerda, optando mais pela estratégia da conciliação, a esquerda não fez muito pouco pela educação como um todo, no sentido de projetar o futuro nessa área? Olhando para trás, dá a entender que se fez algo para o ensino superior, mas não pelo ensino básico. Não foi uma decepção para o sr.?

Vou fazer um preâmbulo aqui, porque precisamos de uma recordação histórica: quando do governo João Goulart, tínhamos o projeto das reformas de base. E a reforma agrária, é bom ressaltar, nada tem a ver com socialismo, é algo característico do capitalismo, uma coisa é reforma agrária, outra revolução agrária. Goulart propunha uma taxação da dívida externa, por conta dos juros exorbitantes, e a educação de base, por meio do Método Paulo Freire. Esse projeto, obviamente, não agradava à elite nacional nem à internacional.

A partir daí, sustentaram a narrativa de que João Goulart era comunista, ligado a Cuba e tantas bobagens que disseram para justificar aquilo que fizeram em 1964. O projeto da reforma de base e da educação que se pensava era o de usar o Ministério da Educação para popularizar e alfabetizar. Isso não se faz de uma hora para outra, educação não é assim. A educação tem passos em curto, médio e longo prazos. Paulo Freire foi exilado e seguiu para a África. Hoje, se você for a qualquer país africano, ele é idolatrado; em qualquer universidade dos países capitalistas desenvolvidos, ele tem todos os títulos de doutor honoris causa. Aqui, tinha se tornado nada mais que um subversivo.

O golpe tinha seus estudiosos. Golbery do Couto e Silva [general e ministro-chefe da Casa Civil de 1974 a 1981, nos governos de Ernesto Geisel e João Figueiredo] era seu grande ideólogo e pensador, que tem um livro de geopolítica que a esquerda precisaria ler, para não ficar xingando por xingar. Outro nome era o general Beira Mattos, que se tornou interventor após a queda de Mauro Borges, tinha um projeto sobre o que fazer com a educação universitária. Fomos para a rua contra o acordo do governo brasileiro com os Estados Unidos, que queriam, por meio da Fundação Ford, fazer com que as universidades se tornassem fundações. As pesquisas, então, seriam apropriadas por eles.

“A política de cotas é algo importantíssimo e teria de ser ampliada ainda mais”

Há um livro, que acho que não tem mais para comprar, chamado “Projeto Camelot”. É uma obra interessantíssima, que li e reli, mas emprestei e não me devolveram. Nele está o planejamento do governo dos Estados Unidos, mais precisamente da CIA [agência de inteligência estadunidense], para o monitoramento das riquezas do Brasil. Quando vejo esses grandes tráficos sobre nossas riquezas naturais, sempre me lembro desse livro. Da mesma forma, havia um projeto para acabar com a educação. E conseguiram, porque a ditadura implantou suas leis, como o Decreto 4.777, que proibia as manifestações dos estudantes universitários, a Lei 5.692, com a profissionalização do 1º e 2º grau, uma cópia da educação dos EUA. Os campi universitários foram colocados distantes dos centros urbanos para isolar os estudantes da comunidade e evitar que eles se manifestassem. Tudo isso veio dos Estados Unidos, criamos a cópia aqui. A ditadura, então, conseguiu o que queria: acabar com nossa educação.

Enfim, chegamos ao PT no poder. Poderia ter feito mais? Não tenho nenhuma preocupação de falar a verdade, tenho várias críticas ao PT e quem me acompanha sabe muito bem. Acho que os projetos do PT foram muito importantes. A ampliação do Fies [Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior, criado em 1999 pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB)], claro, foi para atender o mercado, mas não deixou de ser interessante.

A política de cotas é algo importantíssimo e teria de ser ampliada ainda mais, porque a universidade brasileira tem de atender à comunidade, à sociedade. As universidades públicas são consideradas de ótima qualidade. Fico ouvindo as besteiras da direita dizendo que estudante só vai para a faculdade para fumar maconha e beber cachaça, uma grande bobagem. Vimos, durante a pandemia, aqui e no mundo todo, o que as universidades fizeram para combater a doença.

O que eu lamento é que o ensino básico, principalmente o ensino fundamental, não foi priorizado durante o governo do PT, embora eu considere que Fernando Haddad [ministro da Educação no governo Lula] tenha sido uma pessoa preparada no cargo. Isso não significa que teria de abandonar a universidade, o ensino superior, mas a base precisa ser valorizada.

Italo Wolff – E como fazer isso?

Primeiramente, a partir de salários. Só ter escola integral, pagando o que se paga hoje, é uma piada, uma brincadeira. Leonel Brizola, quando foi governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro: ele deu condições para a educação se desenvolver. Entre os gaúchos, é considerado até hoje o melhor governador para a educação. E o projeto dos Cieps [centros integrados de educação pública, também chamados de “brizolões”] foi muito interessante, não dá para negar.

Luiza Erundina, hoje deputada federal pelo PSOL de São Paulo, quando foi prefeita da capital paulista pelo PT, eleita em 1988, colocou como secretário de Educação ninguém menos do que Paulo Freire. Sua secretária da Cultura? Marilena Chauí [filósofa também escritora de obras importantes em sua área]. O secretário de Planejamento? Paul Singer [economista e também autor de obras de referência]. Ela pegou projetos para colocar em prática. Hoje, Erundina sempre se reelege sem dinheiro e sem esquemas, com 300 mil votos, porque todos a respeitam, porque fez um trabalho de valorização dos professores, com carga horária e plano curricular, que nenhum prefeito tem como tirar.

A esquerda, portanto, não pode ter um projeto apenas voltado para um lado. Precisa de projetos amplos, para acabar com o atraso. Isso passa pelo incentivo à pesquisa, algo que vai ao encontro da necessidade de o País crescer com sua indústria nacional. A educação sempre é a grande saída.

Vi recentemente uma ótima matéria com um professor da USP [Universidade de São Paulo], sobre a necessidade de se qualificar a mão de obra para o setor da reciclagem. É um projeto fantástico. Mas o que temos hoje? O lixo é recolhido e vai para onde? Para encher o aterro, enquanto poderia gerar renda. O Estado precisa dar condições a esses trabalhadores de se qualificar. Faço essas observações como professor, hoje aposentado, mas sigo na militância. Não se pode repetir esse erro voltando ao poder.

Elder Dias – O sr. foi filiado ao PT durante quanto tempo?

Eu fui um dos fundadores do PT, em 1980. Minha ficha nacional era a de número 102 – estou bom de memória, hein? (risos). Participei das eleições de 1982, como candidato a vereador; depois em 1986, como candidato a deputado estadual e a vereador em 1988. Tive, então, um atrito interno no partido e fiquei quase um ano no PCdoB, mas pulei fora quando resolveram apoiar Marconi Perillo (PSDB). Voltei ao PT e, juntamente com Mauro Rubem e Pinheiro Salles, fiz parte da Tendência Marxista (TM).

Elder Dias – Que alguns chamavam de “Tendência do Mauro”… (risos)

Isso, Mauro Rubem, que hoje é um vereador atuante e uma figura muito boa da nossa política.

Elder Dias – E como o sr. se sentiu quando Lula finalmente ganhou a Presidência?

Participei de todas as campanhas de Lula desde 1989, na medida do possível, porque eu lecionava em várias cidades – aqui, em Anápolis, Catalão, Uberlândia, pelo contrato que eu tinha com o Sistema Anglo de Ensino e também pela rede pública. Mas quando Lula nomeou Henrique Meirelles para presidente do Banco Central (BC), eu repensei tudo aquilo. E me desfiliei. Para dizer bem claro, não tenho atrito pessoal com ninguém do PT, se tem alguém lá que não gosta de mim, é problema dele. Todas as festas que há do partido sou convidado, tenho amizades e muito respeito pelos camaradas que ficaram lá. Mas saí, porque achei que a nomeação de Henrique Meirelles – que tinha sido eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás gastando uma fortuna incalculável – para ser o homem-forte da economia junto com Antonio Palocci [ministro da Fazenda] no governo Lula – havia sido uma imposição do mercado internacional. Aliás, em minha opinião, foi George W. Bush [então presidente dos EUA] quem o nomeou.

Italo Wolff – E a partir daí, como foi sua trajetória?

Em 2005, o PSOL estava nascendo e me engajei. Foi candidato a deputado federal em 2006, depois a vereador em 2008; a deputado estadual, em 2010; a prefeito de Goiânia, em 2012; a deputado estadual novamente, em 2014; vereador, em 2016; e a deputado federal em 2018. Das últimas eleições, em 2020, eu não participei porque já tinha me desfiliado do partido e também precisava cuidar de meu filho, Pablo, que estava doente [ele faleceu em 31 de julho do ano passado, após anos com uma doença degenerativa]. Para a Prefeitura de Goiânia, acabei apoiando a UP [o candidato a prefeito foi Fábio Júnior], mas sem estar filiado.

“A UP conseguiu se registrar como partido em 2019. Conseguiu isso com um trabalho de rua, uma militância aguerrida, com o que eu chamo de “a minha juventude rebelde”. Eu, com meus 71 anos, me considero também um jovem rebelde”

Italo Wolff – Ao sair do PSOL, o sr. escreveu uma carta na qual expõe uma certa discordância com a corrente identitarista, que hoje parece concorrer com a luta de classes. Há uma dificuldade de união dos diversos setores da esquerda, de forma mais pragmática?

Minha saída do PSOL se deu por problemas de ordem política e, diria eu, falta de paciência de alguns setores. Minha posição sempre foi muito clara e falo para você, sem preconceito: todo comunista que começou sua militância lá nos anos 60 rezou pela cartilha de Stálin. Quem falar o contrário, está mentindo, porque havia um partido centralizado e não se sabia dos crimes dele denunciados depois por Kruschev, que o sucedeu – Marighella, inclusive, chorou feito criança quando soube daquilo, não queria acreditar no que estava lendo e que era verdade sobre Stálin. Como professor de História, eu digo: não dá para colocar panos quentes. No PT e no PSOL há várias correntes. Eu era identificado como alguém que respirava um ar stalinista, uma bobagem.

Nunca existiu país comunista, é outra idiotice que às vezes escutamos. O que houve foram experiências socialistas, como na antiga União Soviética, no Vietnã, na Coreia do Norte, em Cuba, tudo com seus erros e seus acertos. Sobre o identitarismo, eu penso que vivemos em uma sociedade com várias camadas de identificações. Se fechamos em torno de uma parte, acaba isolando outra. Grandes pensadoras, como Angela Davis e Simone de Beauvoir, escrevem sobre a emancipação da mulher, que, para elas, na sociedade capitalista, se dá junto com a do homem. Coletivamente, não individualmente. Então, é preciso ter cuidado com isso.

Elder Dias – A UP é hoje o partido mais novo do País. O que levou o sr. a optar pela filiação a esse e não a outro partido de esquerda?

A UP conseguiu se registrar como partido em 2019. Conseguiu isso com um trabalho de rua, uma militância aguerrida, com o que eu chamo de “a minha juventude rebelde”, por meio de um processo histórico, com garotos e garotas batalhadores, professores, estudantes, trabalhadores, todos sempre na luta em acampamentos e sindicatos. Eu, com meus 71 anos, me considero também um jovem rebelde.

Passei pela dissidência do PCB, pelo PCdoB, pelo PT, pelo PSOL e você pode me perguntar o que me levou à UP, já que poderia ir para qualquer outro partido, pela trajetória anterior. Na verdade, o projeto da UP tem inspiração na Unidade Popular do Chile de Allende [Salvador Allende, presidente chileno em 1973 quando foi vítima do golpe militar do general Augusto Pinochet e acabou morto]. A ideia é fazer um partido de massa em que haja as bases científicas do marxismo-leninismo, mas sem cair no sectarismo, mais parecendo uma seita, e discutindo sempre com a sociedade. Não há mudança de uma sociedade no sistema capitalista sem que se mostre para ela o que é uma sociedade capitalista, é uma utopia.

Lênin já dizia claramente que é preciso participar das eleições burguesas porque é um momento pedagógico, para estabelecer a relação com as massas. Eu tenho 44 anos de Vila Itatiaia e, desde que minha companheirinha [a mulher, Marilene] era viva adoro fazer feira. Lá, você percebe o que o feirante está falando, suas reclamações, como se dá a relação com a Ceasa [Central de Abastecimento] onde ele compra de um atravessador que é realmente quem ganha, à custa do feirante. É um absurdo, né? A Ceasa vira um entreposto.

Em visita ao Uruguai quando José Mujica era o presidente, fiquei encabulado sobre como o setor agrícola funciona para o povo. Existem feiras diversificadas todo dia, com tudo – frutas e legumes – trocados de um dia para o outro. Ora, uma fruta não se perde de um dia para o outro, nem o legume. Mas eles pegam aquilo e fazem o famoso “sopão” e entregam as frutas para as pessoas que estão precisando mais. A consciência das pessoas lá é assim, porque elas têm sua chácara, sua fazendinha, então veem que têm de ajudar quem tem menos. É um projeto a se pensar e a UP se propõe a fazer esse tipo de debate, sem impor nada a ninguém, mas mostrando ao trabalhador que é ele quem produz.

É evidente que na UP ninguém tem a ingenuidade de fazer, por meio da eleição, um processo revolucionário e, assim acabar com o capitalismo. Isso é óbvio. A ideia é sempre participar da eleição. A revolução é um processo histórico no qual é preciso mostrar como se dá o capitalismo, na mão de poucos que detêm os meios de produção. Como distribuir renda assim? Por que não discutir taxação das grandes fortunas, enquanto tantos países capitalistas a têm? É a contradição da contradição.

Por isso tudo, minha opção pela UP. E, é claro, dos 13 anos aos 71, tenho trilhado o mesmo caminho: o caminho da esquerda.

Elder Dias – Diz uma frase atribuída ao francês Anselme Batbie que “um homem que não seja socialista aos 20 anos não tem coração e que esse mesmo homem, sendo socialista aos 40, não tem cabeça”. Como o sr., aos 71 anos, julga essa frase?

Cheguei aos 71 depois de ter buscado entender o comunismo desde os 13. Espero viver até os 191 ou 291 comunista. (risos)

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