Não há a menor dúvida de que Hélio Rocha (1940-2024), que viveu 83 anos, foi um dos maiores jornalistas do Brasil. Ele brilhou nas páginas de “O Popular” e “Diário da Manhã”. Foi correspondente da revista “Veja” e no jornal “O Globo” em Goiás. Foi também colunista do Jornal Opção — por sinal, um dos mais lidos, ao lado de Irapuan Costa Júnior e da coluna Bastidores. Um de seus textos, sobre a morte do filho de um político num acidente de avião, teve mais de 400 mil acessos.

Se quisesse, Hélio Rocha poderia ter brilhado na imprensa nacional, pois recebeu vários convites, inclusive de Adolpho Bloch, da revista “Manchete”, mas optou por ficar em Goiânia — sua Ítaca.

Pré-Google, Hélio Rocha era uma espécie de Google informal, pois sabia tudo sobre a história de Goiás, do Brasil e mesmo do mundo. Quem o visitava costumeiramente o pegava lendo algum livro em inglês — sua segunda língua. Era um homem do mundo e conheceu dezenas de países, ao lado de sua mulher, Jane Lousa.

Hélio Rocha era jornalista, escritor e pesquisador — um historiador não acadêmico, mas rigoroso. Biografou, por exemplo, Pedro Ludovico no livro “Tu És Pedro”. Escreveu “JK Para a Juventude” sobre o presidente Juscelino Kubitschek. Entre outros livros.

“Os Inquilinos da Casa Verde”, de sua autoria, é um clássico no sentido de que é uma referência segura sobre todos os governadores de Goiás pós-1930 — de Pedro Ludovico a Ronaldo Caiado. Trata-se de uma pesquisa meticulosa, objetiva e não partidária. Há bons estudos sobre a história do Estado, mas quase não há livros de referência, de caráter enciclopédico.

Agora, os jornalistas Ana Cláudia Rocha e Bruno Rocha — respectivamente, irmã e filho de Hélio Rocha — lançam uma nova edição, revista e ampliada de “Os Inquilinos da Casa Verde”. Trata-se de um livro incontornável para aqueles que pesquisam a história de Goiás nos séculos 20 e 21.

Ana Cláudia Rocha e Bruno Rocha concederam a entrevista na redação do Jornal Opção, em Goiânia. A seguir, de cerca de 60 mil caracteres, os leitores poderão saborear quase 37 mil caracteres (com espaço)— uma síntese da deliciosa entrevista. Os dois são jornalistas categorizados.

Hélio Rocha: jornalista, escritor e pesquisador | Foto: Álbum da família

Herbert MoraesComo surgiu a ideia de escrever um livro sobre os governadores que ocuparam o Palácio das Esmeraldas?

Bruno Rocha — Entre 1996 e 1997, percebendo uma lacuna a respeito da história dos governadores de Goiás — os que ocuparam o Palácio das Esmeraldas, os inquilinos da Casa Verde —, meu pai teve a ideia de escrever um livro. Acatei a dica e começamos a fazer a pesquisa. Na época, o governador era Maguito Vilela, que nos recebeu muito bem.

Herbert MoraesComo se deu o trabalho de pesquisa?

Bruno Rocha — Dos 16 ocupantes do Palácio das Esmeraldas, de 1937 a 2026, nós entrevistamos 12. Participei de todas as conversas e a experiência foi magnífica.

Herbert MoraesO que mais chamou a atenção de vocês?

Bruno Rocha — A entrevista de Mauro Borges, talvez a última, foi interessantíssima. Ele estava lúcido. Meu pai entrevistou Pedro Ludovico Teixeira, governador de Goiás e pai de Mauro Borges, em 1974, na fazenda do fundador de Goiânia. Trata-se de uma entrevista histórica, da qual não participei, pois só tinha 9 anos. A entrevista foi feita por Hélio Rocha e Jackson Abrão e publicada em “O Popular”.

Herbert MoraesA entrevista de Pedro Ludovico foi o ponto de partida para o livro?

Bruno Rocha — Sim, foi. Uma vantagem é que os ex-governadores estavam todos lúcidos.

AVC do presidente em audiência com goiano

Otávio Lage, na década de 1960 | Foto: Reprodução

Herbert MoraesComo é a história da audiência de Otávio Lage com o presidente Arthur da Costa e Silva?

Bruno Rocha — Governador de Goiás — eleito —, Otávio Lage estava em audiência com Arthur da Silva e Silva, em agosto de 1969, quando o presidente teve um AVC. A entrevista do líder político do Vale do São Patrício, notadamente de Goianésia, impressionou meu pai. Assim como a de Pedro Ludovico e a de Mauro Borges. [Leia mais adiante]

Herbert MoraesHá alguma entrevista que foi feita só por você e Ana Cláudia Rocha?

Bruno Rocha — Sim, a do governador Ronaldo Caiado, do União Brasil. Porque meu pai havia falecido. Trata-se de uma boa entrevista.

Costa e Silva sentado no Congresso Nacional: general do AI-5 | Foto: Roberto Stuckert

Herbert MoraesQuais entrevistas mais impressionaram Hélio Rocha? Ele admirava quais governadores?

Bruno Rocha — A entrevista do Mauro Borges o marcou muito. Foi feita em três dias — três sábados. Tendo sido governador e senador, Mauro tinha muitas histórias para contar. Por exemplo: ao lado de Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, o goiano de Rio Verde garantiu a posse de João Goulart na Presidência da República, em 1961. Ele era filho de Pedro Ludovico, que construiu Goiânia e inaugurou um novo ciclo na política de Goiás, a partir de 1930, com a revolução que levou o aliado Getúlio Vargas ao poder em nível nacional.

Em 1964, tendo contrariado a linha dura militar, o governo de Castello Branco derrubou Mauro Borges do governo de Goiás.

Herbert MoraesPor que a entrevista do Mauro Borges impactou Hélio Rocha?

Bruno Rocha — Mauro Borges, que fez um governo planejado em Goiás — criando a Metago, por exemplo —, tinha o que contar. Como tinha boa memória, seus relatos são interessantes do ponto de vista político e histórico. Era um visionário. Um político que tinha uma visão de estadista.

Herbert MoraesEstadista em que sentido?

Bruno Rocha — No governo, entre 1960 e 1964, Mauro Borges estava modernizando Goiás — tanto que contrariou setores conservadores do PSD, partido que o apoiava. Então, Goiás perdeu com o fato de não ter concluído seu governo. As empresas e órgãos que criou — Cerne, Crisa [atual Groinfra], Iquego — ainda existem, alguns com nomes diferentes. A Metago fez um grande mapeamento das zonas minerais de Goiás. O Plano MB contribuiu para a modernização da economia goiana. Trouxe ideias e pessoas da Fundação Getúlio Vargas para ajudá-lo a governar.

Leonel Brizola e Mauro Borges: os governadores do Rio Grande do Sul e de Goiás impediram o golpe em 1961 e garantiram a posse do presidente João Goulart | Foto: Reprodução

Herbert MoraesNotaram algum ressentimento em Mauro Borges pode ter sido impedido pela ditadura civil-militar de ter concluído o governo?

Bruno Rocha — Eis uma pergunta boa. Mauro Borges não tinha ressentimento. Ele tinha um entendimento amplo da política.

Herbert MoraesMauro Borges era um coronel do Exército. Castello Branco foi padrinho de seu casamento?

Ana Cláudia — Sim, era um militar que, sendo filho de Pedro Ludovico, engraçou-se com a política. Hélio Rocha conhecia toda a família e tinha informações dos bastidores da política — o que contribuiu para gerar uma entrevista muito boa.

Herbert MoraesVocê se lembra do que Hélio Rocha dizia de seu contato com Mauro Borges?

Ana Cláudia — Hélio Rocha sempre tinha uma notícia exclusiva, que ele tinha ouvido ou captado. Muita coisa fica na memória. Tenho muita lembrança. Mas não se lembra de tudo. Por que não gravei? Por que não escrevi?

Bruno Rocha e Ana Cláudia Rocha e Herbert Moraes Jornal Opção 04
Herbert Moraes, o entrevistador, e Ana Cláudia Rocha e Bruno Rocha, os entrevistados | Foto: Jornal Opção/2026

Bruno Rocha — Como repórter, meu pai cobriu o governo de Mauro Borges, no Palácio das Esmeraldas. Por isso, sabia tanto sobre a gestão do político do PSD. A entrevista de Irapuan Costa Júnior foi feita na sede do BBC — um banco. Meu pai comentou: “Irapuan fala tão correto, com tanta precisão, que, ao transcrever sua fala, não é preciso mudar uma vírgula”.

Herbert MoraesHélio Rocha tinha vontade de dar continuidade à obra?

Bruno Rocha — Sim, mesmo antes da pandemia da Covid-19. Hélio Rocha queria que o livro chegasse às mãos dos estudantes do ensino médio de Goiás. Porque o livro é quase uma história didática do Estado, uma fonte de consulta tanto para leigos quanto para pesquisadores. Mas o custo de editar um livro é muito alto. Só governos têm condições de bancar uma grande tiragem.

Herbert MoraesEntão, foi muito difícil republicar a edição ampliada?

Bruno Rocha — Nós, eu, Ana Cláudia e a família, não tínhamos condições de viabilizar a edição atualizada de “Os Inquilinos da Casa Verde”. Dois advogados que admiravam meu pai — Felicíssimo Sena e Demóstenes Torres — viabilizaram a edição. Quando era procurador-geral de Justiça de Goiás, Demóstenes Torres dizia: ‘Sempre leio os textos de seu pai. Gosto do texto dele’. Acrescento que pai admirada os dois.

Apresentamos o projeto, e Felicíssimo Sena e Demóstenes Torres o aprovaram na hora — o que foi decisivo para a publicação.

Herbert MoraesHélio Rocha escrevia muito bem e era uma referência do jornalismo goiano e brasileiro. Era um estilista, não é?

Bruno Rocha — De fato, Hélio Rocha tinha um estilo especial. Era um jornalista que sabia escrever como escritor. De um livro para o outro — como “Tu És Pedro” (biografia de Pedro Ludovico) —, percebe-se um estilo, fluência verbal. Por isso, foi difícil manter o estilo na nova edição

Ana Cláudia — Hélio Rocha escrevia muito bem. Seu texto era saboroso e muito bem informado. Ele era uma enciclopédia sobre Goiás, o Brasil e o mundo. E de uma gentileza rara: apreciava compartilhar o seu saber.

Herbert MoraesEntão, vocês imprimiram o estilo de vocês à obra?

Ana Cláudia — Pelo menos pode-se sugerir que foi desafiador. Bruno me procurou e, rapidamente, decidimos fazer a nova edição. Num ano, reorganizamos a obra e a publicamos.

Bruno Rocha — Meu pai e eu queríamos fazer a nova edição do livro. Então, convidei a Ana Cláudia para editarmos juntos.

Ana Cláudia — Aceitei o convite na hora. Até pela paixão que eu tinha pelo livro e pelo fato de ser uma homenagem ao Hélio. Parei o que estava fazendo e disse ao Bruno: ‘Vamos fazer’. Produzimos o livro em menos de um ano.

Herbert MoraesUm ano após a morte de Hélio Rocha?

Ana Cláudia — Hélio faleceu no dia 5 de março de 2024, há quase dois anos.

Herbert MoraesNão deixa de ser curioso que ele trabalhou no jornal “Cinco de Março”.

Ana Cláudia — Hélio Rocha tinha apreço pelo detalhe curioso e preciso. Fatos e datas tinham de ser rigorosamente apurados. O que ajudou a formular e escrever “Os Inquilinos da Casa Verde”. E, insistindo, o texto dele era muito bom.

Herbert MoraesO livro é obrigatório para quem pesquisa a história de Goiás de 1937 a 2026, não é?

Ana Cláudia — Jornalistas, por exemplo, ganharão muito se consultarem “Os Inquilinos da Casa Verde”. Para a nova edição, a gente pensava: vamos tirar isto e acrescentar aquilo. Há uma leveza — que é uma riqueza — na pesquisa e no estabelecimento do texto do Hélio Rocha. Ele era preciso na questão da história, das datas. A conversa com Hélio era sempre muito instrutiva — aulas informais e saborosas. Ele tinha informação a respeito dos assuntos mais profundos e até dos triviais. Tinha na cabeça um quem é quem da política e da vida social de Goiás — e até da história brasileira. Sempre tinha um gancho para falar e contar. O que ele relatava era informação de primeira linha.

Herbert MoraesPor que Hélio Rocha decidiu chamar o Palácio das Esmeraldas de Casa Verde? Sim, a cor das paredes é verde. Mas há algum outro sentido?

Bruno Rocha — Porque, dada a cor verde, as pessoas chamavam o Palácio das Esmeraldas de Casa Verde. Assim como o Palácio da Presidência argentina é Casa Rosada. Na década de 1930, ainda não havia um nome oficial, ou seja, Palácio das Esmeraldas.

Pedro Ludovico assina o decreto da mudança | Foto: Reprodução

Herbert MoraesQuem deu o nome de Palácio das Esmeraldas?

Bruno Rocha — O governador Pedro Ludovico. Inclusive, atendendo a uma consulta, deu também o nome do Goiás Esporte Clube. E, como se sabe, Hélio Rocha escreveu a história do time de futebol. Complementando o que Ana Cláudia disse, é impressionante a facilidade com que meu pai tinha de conversar com os ex-governadores. Ele era muito respeitado por todos.

Herbert MoraesComo foi a entrevista com Iris Rezende?

Bruno Rocha — Hélio Rocha tinha muita abertura para conversar com Iris Rezende, que foi governador de Goiás duas vezes. Ele era ministro do governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e nós marcamos a entrevista. Iris disse: ‘Venham para Brasília’. Fomos e almoçamos na casa dele. Havia um profundo respeito por meu pai, por sua história profissional.

Iris Rezende, Henrique Santillo e Mauro Borges | Foto: Reprodução

Herbert MoraesComo foi o contato com Henrique Santillo?

Bruno Rocha — O ex-governador e ex-senador disse: ‘Vamos conversar na minha chácara’. Ele morava em Anápolis. Político preparadíssimo, Henrique Santillo era um homem simples, de vida espartana. Seu governo priorizou a saúde, com os hospitais regionais. O gestor estadual não enriqueceu no poder. Estava atendendo como pediatra numa unidade de saúde — de bairro — da Prefeitura de Anápolis. Era o ganha-pão dele e da família.

Herbert MoraesComo foi a entrevista com o ex-governador Leonino Caiado?

Bruno Rocha – Leonino Caiado nos recebeu muito bem no apartamento da família no Excalibur, em Goiânia. Foram conversas longas, muito informativas. Hélio Rocha conseguia isto: as pessoas respondiam tudo que perguntava. Nem precisava pressionar — até porque, embora fosse meticuloso e rigoroso, era um gentleman. Os políticos tinham o máximo de respeito por meu pai.

Herbert MoraesTodos os governadores moraram no Palácio das Esmeraldas ou alguns só iam lá para despachar? Ao menos Maguito Vilela não morava lá.

Bruno Rocha — De fato, alguns não moraram na Casa Verde.

Ana Cláudia — Acho que mais os primeiros e os últimos.

Maguito Vilela e Daniel Vilela (que pode ser o próximo inquilino da Casa Verde); ao lado, Iris Rezende | Foto: Alexandre Parrode/Jornal Opção

Herbert MoraesMas por que alguns governadores decidiram não morar no Palácio das Esmeraldas?

Bruno Rocha — Talvez para ter mais privacidade. Entrevistamos Maguito Vilela, quando governador, durante um café da manhã no Palácio das Esmeraldas. Ele planejava recuperar a Praça Cívica, deixando-a mais bonita para aumentar o convívio das pessoas no local. Queria preservar a originalidade da Art Déco.

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Ronaldo Caiado: governador de Goiás | Foto: Divulgação

Bruno Rocha — Ronaldo Caiado fez questão de morar no Palácio das Esmeraldas. Otávio Lage reclamava e disse que chegou a ficar preso no elevador.

Modernização deu o tom nos governos goianos

Herbert MoraesQuais inquilinos foram dignos e o que foi indigno de morar na Casa Verde?

Bruno Rocha — Não é o foco do livro. O que posso dizer é que Goiás, em termos de probidade e de governantes modernizadores, é bem melhor que alguns Estados, como o Tocantins. Há uma sequência, desde Pedro Ludovico, passando por Mauro Borges e chegando em Ronaldo Caiado, de governadores realizadores e dignos.

Herbert MoraesComo os governadores se posicionaram em relação à construção de Brasília?

Bruno Rocha — Todos os políticos — não apenas os governadores — de Goiás na época, década de 1950, se uniram pela construção da nova capital do país. Emival Caiado, por exemplo, contribuiu muito. Pode-se dizer que a construção de Goiânia, na década de 1930, e de Brasília foi decisiva para o desenvolvimento do Estado. Antes de 1930, Goiás era um dos estados mais pobres do país. Depois de Brasília, melhorou ainda mais.

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José Sarney e Iris Rezende: o ex-presidente e o ex-governador | Foto: Reprodução

Herbert MoraesIris Rezende era o rei do asfalto e das obras?

Bruno Rocha — De fato, Iris Rezende fez muito asfalto e outras obras, como a construção de mil casas num único dia. Fica a ressalva de que quem arranjou os recursos foi o governo de Ary Valadão, que tinha ligação forte com os militares, sobretudo com o ministro Golbery do Couto e Silva, cabeça pensante dos governos dos presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo. Iris deu muita sorte, pois havia recursos fartos para obras. Então, pode-se falar numa sequência. Os governos no geral foram benéficos para Goiás, para os goianos. Pode-se falar numa continuidade produtiva.

Marconi Perillo durante entrevista coletiva no Palácio Pedro Ludovico Teixeira | Foto: Divulgação

Herbert MoraesQuero saber mais sobre a relação dos governadores com o Palácio das Esmeraldas. Todos deixaram suas marcas. Ronaldo Caiado restaurou o edifício.

Bruno Rocha — Muitos deles valorizaram o Palácio das Esmeraldas. Ronaldo Caiado valoriza a residência oficial. Marconi Perillo, quatro vezes governador, também valorizou. Ele também fez uma reforma. Ele quis até transformá-lo em museu. Mas é importante manter o poder na Casa Verde.

Ana Cláudia — Os governadores deram muita importância no começo do Palácio e agora. Começou com a construção. Na década de 1930, Goiânia ainda não era nada, mas tinha um palácio belo e imponente. Era um símbolo de que a mudança da capital era definitiva, estava consolidada. Lá, Pedro Ludovico recebeu o presidente Getúlio Vargas — que governou o país, de forma ininterrupta, de 1930 a 1945. Há as recepções sociais, mas a Casa Verde também é um local de trabalho. Os governadores pensam assim, acredito.

Bruno Rocha — Pedro Ludovico fez muito por Goiás. Maguito Vilela não morava, mas dava importância ao Palácio. Há uma espécie de liturgia do poder na Casa Verde.

Herbert MoraesEm algum momento da história, o Palácio das Esmeraldas viveu um momento de abandono?

Ary Valadão e Maria Valadão | Foto: Livro “Inquilinos da Casa Verde”

Bruno Rocha — Abandono, não. Mas, em alguns momentos, não se tinha o cuidado devido.

Herbert MoraesNo período militar, houve um certo abandono?

Ana Cláudia — Talvez a palavra abandono possa ser trocada por descuido.

Herbert Moraes – Quais foram o auge da Casa Verde, o período ruim e o retorno aos tempos áureos?

Bruno Rocha — No governo de Mauro Borges, os militares enviaram aviões para ameaçar. Eles ficaram sobrevoando, como se fossem bombardear. Em novembro de 1964, o governo do general-presidente Castello Branco, sob pressão da linha dura — a de Costa e Silva —, derrubou o governador e nomeou um interventor. Meu pai, que cobria o Palácio das Esmeraldas, sempre comentava a respeito. Ele publicou notícia sobre a crise política e militar. Há um aspecto importante: o comício das Diretas Já, na Praça Cívica, tendo a Casa Verde como uma espécie de testemunha ao lado, em meados da década de 1980. Tancredo Neves, Iris Rezende, Henrique Santillo e Mauro Borges estavam lá, assim como os deputados Aldo Arantes e Eurico Barbosa.

Herbert MoraesPedro Ludovico governou Goiás como interventor, ou seja, não foi eleito. Era, portanto, um ditador?

Ana Cláudia Rocha — De fato, não foi eleito. Foi colocado no poder por Getúlio Vargas e seus tenentes. Vargas, por sinal, deu um golpe em 1937, o do Estado Novo, e se tornou um ditador consumado.

Herbert MoraesO fato de o primeiro inquilino do Palácio das Esmeraldas ter sido ditador, um interventor, diz muito sobre a Casa Verde?

Ana Cláudia — Não digo exatamente ditador. Pedro Ludovico era interventor. Porém, por sua história, avalio que não cabe denominá-lo como ditador. Ele valorizava a democracia. Mauro Borges era um democrata.

Bruno Rocha — Na década de 1960, chegaram a dizer que Mauro Borges tinha ideias de esquerda. E várias pessoas de esquerda, como Tarzan de Castro e Juares Guimarães, participaram de seu governo. Talvez fosse de centro-esquerda — mais para o centro.

Herbert MoraesVale lembrar que Pedro Ludovico ficou 15 anos consecutivos no Palácio das Esmeraldas… e sem disputar eleição. Quando Getúlio Vargas deu o golpe de 1937, o do Estado Novo, o gestor goiano não rompeu com ele.

Bruno Rocha — Sim, não houve eleições, dada a conjuntura nacional, mais do que local.

Herbert MoraesMas como é que se fala que um político ficou 15 anos no poder, sem eleições, e, ainda assim, se fala em democracia? Ele apoiou o Estado Novo, uma ditadura cruenta. Centenas de pessoas foram presas, o Congresso foi fechado e a imprensa sofreu uma censura poderosa.

Bruno Rocha — Sim, de fato, foi interventor em Goiás, nomeado por Getúlio Vargas, que em 1930, apesar do golpe de Estado, ainda não era um ditador. Então, pode-se sugerir que Pedro Ludovico tinha aspirações de ditador. Ele chegou a usar a força para conseguir mudar a capital da Cidade de Goiás para Goiânia.

Herbert MoraesVocês consideram Pedro Ludovico como um modernizador autoritário?

Ana Cláudia — É possível que Pedro Ludovico tenha usado a força para retirar Goiás do atraso e modernizá-lo.

Bruno Rocha — Não se pode negar os avanços dos governos anteriores. Porém, por uma questão de economia, do capitalismo, Goiás, situado em sua periferia, vivia sob o signo do atraso. Por isso, mesmo dirigindo um governo autoritário, Pedro Ludovico fez uma gestão avançada. De alguma maneira, ele atualizou o Estado e o inseriu mais fortemente no contexto nacional. Goiânia é o símbolo mais forte da mudança. Não era apenas uma mudança de capital, e sim uma mudança de rumos.

Herbert MoraesEm 1930, antes da Revolução ou golpe de Getúlio Vargas, Pedro Ludovico chegou a ser preso em Rio Verde.

Bruno Rocha — Quanto estourou a Revolução de 1930, Pedro Ludovico estava preso. Ao sair da cadeia, ficou sabendo que os revolucionários estavam a caminho de Rio Verde e da Cidade de Goiás, então capital.

Herbert MoraesÉ o famoso homem certo na hora certa, não é?

Era o líder qualificado para ser o representante da Revolução de 1930 em Goiás. Era uma espécie de Getúlio Vargas de Goiás — culto, sensato, disciplinado e capaz.

Irapuan Costa Junior: ex-governador de Goiás | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Herbert MoraesIrapuan Costa Júnior, que faz o prefácio do livro “Os Inquilinos da Casa Verde”, foi governador de Goiás.

Bruno Rocha — Irapuan Costa Júnior é um homem que tem história em Goiás. Foi prefeito de Anápolis, presidente da Celg, governador do Estado, senador, banqueiro e empresário. E é um intelectual, com livros publicados e até tradução de uma obra do filósofo inglês Herbert Spencer.

Irapuan era amigo de meu pai desde quanto ele tinha 9 anos. Trata-se de um dos primeiros amigos de Hélio Rocha. Irapuan gostou de escrever o prefácio, no qual diz que, quando os presidentes da República apoiaram os governos locais, Goiás se desenvolveu mais rápido. Na época de Irapuan, ele teve boa parceria com o presidente Ernesto Geisel. Os dois tinham identidade. Geisel apoiou muito as reivindicações de seu governo. Getúlio Vargas apoiou muito o governo de Pedro Ludovico, o que facilitou, por exemplo, a construção de Goiânia.

Herbert MoraesQuais segredos guardam as paredes da Casa Verde? Fala-se que um governador foi grampeado a mando de um secretário, que foi demitido. Há material para uma história indiscreta de Goiás?

Ana Cláudia — Certamente, muitos, Mas, claro, nem são comentados publicamente. São, afinal, segredos. (Risos)

Bruno Rocha — Começava pelas festas. Eu mesmo gostava de frequentar as festas que aconteciam no Palácio das Esmeraldas. As principais festas de Goiânia aconteciam na Casa Verde. Lá, os jornalistas ficavam sabendo tanto de política quanto dos negócios empresariais.

Ana Cláudia — No Palácio das Esmeraldas tomavam-se as decisões e uma sociedade que estava se fortalecendo e sedimentando-se comparecia lá. Então, era um lugar central para se obter informações privilegiadas. Talvez por causa das ditaduras, a história registra que alguns governadores se sentiam donos do poder, do palácio e da sociedade. Uma história da vida privada talvez possa ser escrita a partir dos acontecimentos acontecidos na Casa Verde. Depoimentos são cruciais para se saber a respeito dos segredos, porque muitas vezes não chegam aos documentos. Os jornais contam muito sobre as ações dos governadores, o que pode auxiliar tanto jornalistas quanto historiadores.

Marechal Ribas Júnior
Ribas Júnior: o marechal que foi interventor em Goiânia | Foto: Reprodução da Wikipédia

Ribas Júnior cuidou menos da Casa Verde

Herbert MoraesQual foi o governador que menos cuidou da Casa Verde?

Bruno Rocha — Talvez o interventor marechal Emilio Rodrigues Ribas Júnior (1897-1973). Ele governou Goiás como interventor de 23 de janeiro de 1965 a 31 de janeiro de 1966. Era um homem da ditadura instalado na Casa Verde. Natural do Amazonas, não tinha compromisso algum com o Estado e, portanto, com o Palácio das Esmeraldas. Terminada a intervenção, foi embora e não voltou mais.

Ana Cláudia — Ribas Júnior estava de passagem. Cuidava da administração, que sabia provisória, sob ordens de Brasília. Não tinha, portanto, compromisso com Goiás. Ficou um ano no poder.

Herbert MoraesSe a pergunta tivesse sido dirigida a Hélio Rocha, o que ele certamente responderia? Será que acrescentaria o Meira Mattos (1913-2007), que foi interventor em Goiás entre 26 de novembro de 1964 e 23 de janeiro de 1965?

Bruno Rocha — Primeiro, ele iria pensar muito. Hélio Rocha era um gentleman e um pesquisador justo. Segundo, certamente mencionaria o Ribas Júnior e, quem sabe, um ex-governador do interior. Que, em nome do bom senso do meu pai, prefiro não citar.

Ana Cláudia — Há políticos que não têm vocação de estadista e, por isso, não se preocupam com o legado coletivo e com o próprio legado. É uma posição pessoal mesmo, talvez decorrente da falta de informação histórica, de conhecimento. Há políticos se consideram donos de uma cidade, de um Estado. Por isso, acabam sendo limitados. Falta-lhe perspectiva histórica, por assim dizer.

Herbert MoraesUm jornalista experimentado, o Ari Diógenes, conta que, em tempos idos, fantasmas apareceram no Palácio das Esmeraldas. Sabem alguma história?

Bruno Rocha — Há o folclore que fantasmas trafegavam à noite pelos corredores, salas e quartos do Palácio das Esmeraldas. Meu pai até contava uma história.

Herbert MoraesQuem são os fantasmas? (Risos) Seria de algum ex-governador?

Bruno Rocha — (Risos). Consta que os fantasmas apareceram, com mais frequência, entre as décadas de 1950 e 1960 — ou seja, na democracia e na ditadura. (Risos)

Palácio das Esmeraldas | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Herbert MoraesPode contar uma das histórias de fantasmas?

Há o registro de que um segurança que trabalhava no Palácio das Esmeraldas saiu correndo, de repente, porque um telex começou a funcionar de madrugada. Ele achou que era um fantasma e fugiu. O barulho assustou o guarda. Hoje, ninguém nem sabe mais o que é telex.

Herbert MoraesVocês teriam coragem de passar a noite na Casa Verde sozinhos?

Ana Cláudia — Sozinha, não. Em nenhum lugar. Mas fico imaginando quantos fantasmas, reais ou imaginários, cada governador viu no Palácio das Esmeraldas. Será que ficaram assustados? Há, claro, os fantasmas de ameaças políticas, como em 1964. Histórias verdadeiras, mas não contadas, também podem se tornar fantasmas, digamos. (Risos)

Palácio é o grande patrimônio em art dèco

Herbert MoraesRetomando o período inicial da Casa Verde. Como foi feita a construção do edifício Art Déco? Na restauração, o governador Ronaldo Caiado pediu para ser revigorado o brilho do verde. Para retomar a cor original, o que é muito difícil. De onde vieram os vitrais, por que o estilo Art Déco?

Bruno Rocha — Vou contar uma história curiosa. Meu avô paterno doou as mudas de jabuticaba que foram plantadas no quintal do Palácio das Esmeraldas. As jabuticabas se tornaram, mais tarde, uma atração à parte da Casa Verde. Fala-se, inclusive, que são testemunhas de muitos acordos políticos.

Herbert MoraesConsta que um governador preferia conversar assuntos confidenciais sob as sombras das jabuticabeiras por recear grampo nas salas e quartos do Palácio das Esmeraldas. Ele teria sido grampeado.

Ana Cláudia — Quase tudo é possível no mundo da política. De fato, eventos importantes aconteceram aos pés das jabuticabeiras. No caso das jabuticabas, até o dia de colhê-las ficou famoso. O governo de Ronaldo Caiado plantou mais mudas de jabuticaba, o que reforça a tradição. Então, elas são personagens do tempo — e perduram mais do que os próprios governantes.

Herbert MoraesAna Cláudia, o que diz da Art Déco da Casa Verde?

Ana Cláudia — O Palácio das Esmeraldas, muito bem preservado, é o nosso maior patrimônio em Art Déco. Há um conjunto de edifícios ao redor, mas o destaque, até pela cor e pelo que representa — é um símbolo de poder e democracia —, é a Casa Verde. Ele é o centro do conjunto de uma praça muito bela, a Praça Cívica. Os prédios laterais foram sendo construídos no mesmo estilo. Então, há no Centro de Goiânia uma riqueza e uma beleza que às vezes não são vistos com atenção. Mas estão lá, atraindo a atenção dos turistas e dos não turistas. Há muito de art dèco preservado em Goiânia e isto não ocorre em todo o país.

Herbert MoraesProcessa-se, neste momento, uma restauração completa dos prédios que margeiam o Palácio das Esmeraldas.

Ana Cláudia — Sim, o governo está concluindo a restauração, o que é muito importante. O Centro Administrativo, hoje Palácio Pedro Ludovico, foge da Art Déco do Centro. Por isso, o Palácio das Esmeraldas ganha mais importância — é a história viva de Goiânia e de Goiás. É a primeira construção Art Déco de uma capital que tem 95 anos. O Centro da cidade tem um acervo valioso. É um museu da beleza a céu aberto. Poucos lugares têm um acervo como o da capital goiana. Falta conservar as construções em Art Déco da Avenida Anhanguera, por exemplo. Como são particulares, é mais difícil.

Herbert MoraesA população tem interesse pelo Palácio das Esmeraldas?

Ana Cláudia — Aqui e ali, é possível ver pessoas fotografando a Casa Verde e se fotografando tendo o palácio ao fundo. Mas, de fato, falta despertar o interesse da população. Visitas guiadas, por exemplo, seriam muito úteis. O Museu Zoroastro Artiaga, nas proximidades, é muito interessante, a partir do edifício, que está sendo restaurado.

Bruno Rocha — O Palácio das Esmeraldas, como o Palácio Catete, no Rio de Janeiro, é uma atração turística.

Ana Cláudia — Programas turísticos para mostrar a riqueza da Art Déco no Centro de Goiânia seriam muito bem-vindos tanto para a população que mora na capital quanto para aqueles que a visitam. Como se sabe, Goiânia é uma cidade turística — de vários tipos de turismos, como o de negócios, congressos médicos, entre outros (o negócio da moda, por exemplo, atrai gente para a capital, que vai se tornando mais conhecida no país). Há dezenas de hotéis de qualidade porque há demanda. Os restaurantes são cada vez melhores e mais famosos.

Alcides “Cidinho” Rodrigues, ex-governador de Goiás | Foto: Divulgação

Herbert MoraesO governador Ronaldo Caiado e os ex-governadores Leonino Caiado, Irapuan Costa Júnior, Marconi Perillo e Alcides Rodrigues valorizam o livro?

Bruno Rocha — Sim, todos valorizam o livro, tanto que deram entrevistas. Irapuan Costa Júnior ficou contente ao ser convidado para fazer o prefácio. Como mora em Aveiro, Portugal, lamentou não ter participado do lançamento. Ele dá muita importância à história de Goiás. E é, claro, um escritor e colunista do Jornal Opção.

Herbert MoraesA pesquisa feita para o livro foi exaustiva?

Bruno Rocha — Desde as primeiras edições, fizemos uma pesquisa rigorosa, exaustiva. Depois, fizemos pesquisas no TRE. Contratamos a professora Maria Lúcia de Castro, da UFG, para pesquisar na Assembleia Legislativa. Porque toda posse do governador é feita na Alego. Então, “Os Inquilinos da Casa Verde” conta a história do Palácio das Esmeraldas, quer dizer, dos governos — o Executivo —, mas também a do Legislativo de Goiás. Pesquisamos as atas.

Herbert MoraesQual é a parte mais difícil de fazer um livro como “Os Inquilinos da Casa Verde”?

Ana Cláudia — A pesquisa é a parte mais complexa. É preciso aprofundar nos assuntos e checar tudo. Porque se trata de uma história de Goiás. Fizemos pesquisas na Casa Civil, na Assembleia Legislativa, na Justiça Eleitoral e, claro, há os depoimentos. Deu um trabalhão danado. Mas tudo foi muito compensador.

Herbert MoraesVocês fizeram uma revisão geral da nova edição?

Ana Cláudia — Sim. Até porque mudamos o formato do texto. Decidimos que, à exceção das entrevistas de Pedro Ludovico — o primeiro governador — e Ronaldo Caiado, o atual governante, devíamos publicar textos corridos (ou seja, não entrevistas no formato pingue-pongue). É mais interessante para os leitores. Facilita a leitura.

Retomando a questão da dificuldade de publicar um livro como “Os Inquilinos da Casa Verde”. Quando a gente estava procurando apoios, ouvimos: “O livro é político”. Sim, o livro conta a história política de Goiás, mas, dada a sua objetividade e respeito aos fatos, não é partidário — o que faz uma diferença enorme.

Herbert MoraesHélio Rocha era um jornalista que, ao publicar “Os Inquilinos da Casa Verde”, operou como historiador?

Ana Cláudia — O objetivo de Hélio Rocha e o nosso é divulgar informações precisas que possam referenciar a pesquisa de estudantes, jornalistas e até professores. Sim, Hélio pesquisava como historiador, talvez melhor do que muitos. Até porque escrevia muito bem. Seguimos o rigor do Hélio. Refazer o livro, para atualizá-lo, é uma homenagem ao grande jornalista e pesquisador que ele foi.

Herbert MoraesMudar sem alterar muito, ou seja, melhorar o que é bom para ficar ainda melhor?

Ana Cláudia — Nos preocupamos, assim como Hélio Rocha, com o fato histórico em si, aquilo que era crucial, e não o disse-me-disse, a briga política, a questiúncula. “Os Inquilinos da Casa Verde” é um livro de história, não de mero registro de posições ideológicas e quizílias. É um memorial de fatos históricos e até de curiosidades. Hélio Rocha tinha uma curiosidade imensa pela informação, não pela fofoca o ou mero conflito político-ideológico.

Herbert MoraesHélio Rocha, para contar uma história, puxava o fio da meada. O detalhe acabava por engrandecer a obra. A nova edição preserva isto?

Bruno Rocha — Preservamos a qualidade da pesquisa e o estilo do texto jornalístico de Hélio Rocha, que é agradável de ler. É o simples sofisticado, sem empolação.

Ana Cláudia — O livro é delicioso de ler. Não é enfadonho. Hélio Rocha escrevia as coisas mais difíceis com o máximo de simplicidade e clareza. Bruno Rocha tem a herança do pai. Eu tenho a herança do irmão e do nosso pai, Benedito Rocha, que era escritor, poeta e músico e apreciava política. A família viveu e vive envolta com política, jornalismo e literatura. Está no sangue.

Herbert MoraesO livro tem o dedo dos jornalistas Hélio Rocha, Ana Cláudia Rocha e Bruno Rocha.

Ana Cláudia — O dedo e o espírito detalhista e rigoroso do Hélio Rocha e nossa contribuição. Mas é importante ressaltar que o livro tem uma unidade bem costurada por mim e pelo Bruno. Nós atualizamos a obra, mas não mudamos sua essência, que é o caráter meticuloso e preciso da pesquisa.

Bruno Rocha — Acrescentamos a história da audiência do governador Otávio Lage com o presidente Costa e Silva. O AVC do Costa e Silva levou ao poder um presidente ainda mais linha dura, o general Emilio Garrastazu Médici. Nós contamos a história da doença do presidente. O AVC de um presidente, presenciado por um governador goiano, alterou a história do país.

Herbert MoraesÉ difícil ser Hélio Rocha? (Risos)

Bruno Rocha — Impossível. Ele era único. Um lorde pessoalmente e como jornalista. Era um enciclopedista, sabia tudo e queria saber muito mais. E escrevia muito bem.

Ana Cláudia — Não é fácil ser irmão de uma pessoa que se destaca tanto, como Hélio Rocha. A cobrança é grande. Uma vez a chefe de “O Popular”, quando fui reclamar alguma coisa a respeito de pagamento, foi sarcástica comigo. Ela, que se sentia meia dona, disse: ‘Nossa, se até a irmã do chefe está passando por isso, imagine os outros’. Aquilo me feriu. O editor-chefe, Reinaldo Rocha, era meu irmão, mas não me protegia. Hélio Rocha era meio que único como jornalista, intelectual e pessoa.

Herbert MoraesComo chamar a atenção dos jovens para um livro tão importante quanto “Os Inquilinos da Casa Verde”? A maioria das pessoas nem sabem que o bairro Pedro Ludovico é uma homenagem ao fundador de Goiânia.

Ana Cláudia — Palestras em escolas podem ajudar a divulgar o livro. Ou melhor, podem ajudar a divulgar a história de Goiás. Hélio Rocha poderia ter dado palestras, por exemplo. Eu e Bruno estamos pensando em fazer lançamentos do livro no interior. É preciso levar esta obra de referência para as cidades goianas, para as universidades, escolas. Aí poderemos fazer palestras, bate-papos.

Herbert MoraesDadas as redes sociais, como o Instagram, as pessoas quase não estão lendo. Mesmo livros não tão grossos afugentam os leitores. Mas é muito importante ler até para organizar e ampliar as ideias.

Ana Cláudia — Ainda há espaço para o livro físico, que vende muito mais que o ebook. Então, os lançamentos em vários lugares, como cidades do interior e universidades, poderão ajudar não apenas na vendagem do livro, mas também, e sobretudo, no aumento da leitura, quer dizer, do conhecimento da história de Goiás. Nós notamos que é grande o interesse pelo livro, que, inclusive, está à venda na Livraria Palavrear, com boa aceitação.

Herbert MoraesHélio Rocha planejava escrever um livro sobre “Os Inquilinos do Palácio do Planalto”?

Bruno Rocha — Ele chegou a pensar sobre uma obra a respeito dos inquilinos do Palácio do Planalto.

Notícia de ida de Pelé para o Cosmos foi dada na casa de Hélio Rocha

Herbert MoraesProcede que seu pai fez uma homenagem ao jogador de futebol Pelé?

A família morava numa casa, na Rua 3, no Setor Oeste. Então, uma vez meu pai fez uma homenagem ao rei Pelé. Foi muito interessante. O fato ocorreu na véspera da inauguração do Estádio Serra Dourada. Eu era criança.

Pelé com o Lourival Batista Pereira
Pelé, em Goiânia, com o jornalista e colunista social Lourival Batista Pereira | Foto: Reprodução

Herbert MoraesComo foi a recepção ao rei Pelé, herói de três copas do mundo de futebol?

A recepção ocorreu à noite, na nossa casa. A crônica esportiva de Goiás (Cunha Júnior, João Batista Alves Filho) e do país (Waldir Amaral, Jorge Curi, João Saldanha e Juca Kfouri) compareceu. Tinha jornalista até do exterior. Estavam em Goiânia para a inauguração do Serra Dourada, um dos melhores do país. Pelé compareceu, com toda a sua simpatia. Era uma estrela. Todos só olhavam para ele. A festa foi patrocinada por Iberê Monteiro, então presidente do Goiás Esporte Clube.

Herbert MoraesPelé conversava muito ou era uma pessoa discreta?

Bruno Rocha — De cara, Pelé disse aos jornalistas, notadamente ao meu pai, que estava se preparando para jogar nos Cosmos, nos Estados Unidos. Corria o ano de 1975, mês de março. A notícia foi dada, em primeira mão, na nossa casa.

Herbert MoraesUm furo de reportagem se deu na casa de Hélio Rocha?

Bruno Rocha — Sim, um furo de reportagem e a imprensa nacional e americana repercutiu. Meu pai era o editor-geral de “O Popular”.

Ana Cláudia — Hélio Rocha e Reinaldo Rocha, irmãos, eram jornalistas referenciais e sabiam tudo o que estava acontecendo na política, na sociedade. Hélio Rocha era tão bem informado que, quando morria alguém, ligavam para ele. Era um Google pré-Google. Hélio foi pioneiro do home-office. Mas os jornalistas e pesquisadores estavam sempre procurando-o para consultas. Ele escrevia textos complementares que, por vezes, eram muito superiores aos textos principais sobre políticos e empresários. Ele tinha informações privilegiadas e era uma fonte muito bem informada.

Bruno Rocha — A Cristiana Lobo, que trabalhava em jornais e, depois, na GloboNews, ligava para Hélio Rocha toda semana. Buscava a informação segura e de bastidores. Meu pai foi fonte dela por vários anos sobre as coisas de Goiás.