Voto útil e voto progressista podem ser instrumentos eficazes contra Ronaldo Caiado

Daniel Vilela percebeu que o alvo, para que se tenha segundo turno, é o candidato do DEM a governador. Este comporta-se de maneira moderada e tenta não cometer erros

Ronaldo Caiado: se querem que se tenha segundo turno, os candidatos José Eliton, Daniel Vilela e Kátia Maria terão de deslocar suas baterias para o postulante do partido Democratas

O senador Ronaldo Caiado (DEM) pode ser eleito governador de Goiás já no primeiro turno? Sim, é possível. O governador José Eliton (PSDB) tem chance de ser reeleito, sobretudo se for para o segundo turno? Sim, tem. O deputado federal Daniel Vilela (MDB) tem condições de ser eleito governador, principalmente no segundo turno? Sim, tem. Por que tantos “sims”?, certamente perguntaria o escritor irlandês James Joyce, criador de uma personagem popular num romance, “Ulysses”, conhecido globalmente mas nada simples.

Tantos “sims” têm uma explicação prosaica: nada está definido na política de Goiás. Por que, se Ronaldo Caiado tem 38% das intenções de voto, com a possibilidade real de liquidar a fatura no primeiro turno? Porque a campanha começou agora. Portanto, neste momento, os eleitores estão iniciando o processo de conhecer os candidatos e suas propostas. Do conhecimento, o primeiro nível, passarão à avaliação. Uma caixa da Panificadora Della, no Setor Bueno, disse a um repórter do Jornal Opção: “Estou assistindo os programas eleitorais na televisão. Eu nem sabia quem era Daniel Vilela e mal conhecia o governador José Eliton”. Antes dos programas, ela só sabia quem era Ronaldo Caiado, que, na sua opinião, “defende os ricos e ignora os pobres”. Alguém a empolgou? “Nada, ninguém. Mas Daniel é um pitelzinho”, disse, com um sorriso comprimido, como se ocultasse um segredo.

A campanha começa a pegar fogo com os programas na televisão, no rádio, com os debates e entrevistas, a exposição massiva nas redes sociais e o contato direto com os eleitores nas cidades, por meio de comícios, carreatas e reuniões. A overdose praticamente obriga os eleitores a tomarem consciência e assumirem algum posicionamento a respeito das eleições e, daí, dos candidatos. Por isso, uma frente relativamente grande, como a de Ronaldo Caiado, pode virar pó, ou não. No momento, o senador e demais candidatos permanecem estáveis — como se o processo eleitoral estivesse congelado. Mas a campanha acaba com a hibernação dos eleitores — exigindo que se tornem sujeitos da história de seu país, de seu Estado.

Ronaldo Caiado é moderno e reacionário?

O que, de fato, põe Ronaldo Caiado em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto? Pode-se sugerir, basicamente, duas hipóteses — plausíveis. Primeiro, é o mais conhecido de todos os candidatos, porque participa de eleições desde a década de 1980. Dos candidatos, todos eles, é o que está na política há mais tempo. Trata-se de um político que, na acepção do sociólogo alemão Max Weber, deve ser tratado como “profissional”. A rigor, portanto, não é um agente da renovação e deve ser visto como um dos principais responsáveis pelo menos por 12 anos do Tempo Novo: os primeiros oito anos de Marconi Perillo (PSD) e os quatro anos de Alcides Rodrigues como governadores de Goiás. Rigorosamente, só não deve ser responsabilizado, como um dos próceres do tempo-novismo, pelos últimos oito anos de poder do ex-governador Marconi Perillo.

Segundo, Ronaldo Caiado construiu uma imagem de político ético e passa o tempo polindo-a como se fosse um automóvel de culto — tipo aqueles carros antigos que, de tão bem cuidados, parecem eternamente novos. Como tal, embora seja responsável por parte dos governos que gerem Goiás há quase 20 anos, é percebido como um agente da mudança, da renovação. Sua bandeira ética está sintonizada com as vozes das ruas.

José Eliton e Daniel Vilela são menos conhecidos, porém, como não há nada que os desabone, poderão ser avaliados como Ronaldo Caiado está sendo? Não se sabe. É preciso esperar o desenrolar da campanha. É provável que, examinadas suas propostas — e se o exame for racional, com o eleitor estando disponível para avaliar com independência —, sejam vistos como agentes da mudança. O fato de um político ser governador, e mesmo de representar um grupo que está no poder há vários anos, não significa que não seja um vetor de mudança.

Se avaliado por seu comportamento no Congresso, Ronaldo Caiado não tem como ser considerado um político progressista. Dado seu liberalismo, nunca foi afeito às políticas compensatórias e inclusivas — como a Bolsa Família, a Renda Cidadã e a Bolsa Universitária. Tampouco admite que o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra resulte da expansão capitalista no campo. Por mais que o MST tenha se tornado uma organização ideológica — tanto que se tornou um dos braços políticos do petismo —, os trabalhadores são pessoas deslocadas, de maneira inapelável, pela hegemonia do modo de produção capitalista em todos os nichos da sociedade. Há casos em que, acionada pela Justiça, a polícia tem de intervir. A lei existe para ser cumprida e o direito de propriedade, como entende Ronaldo Caiado, deve ser respeitado. Mas é preciso lidar com o fato social e, neste caso, o Estado tem um papel crucial, tendo de atuar em defesa da sociedade, do coletivo, e não apenas em defesa dos que têm posses. Seu papel, longe de representar uma classe social, deve ser o de moderador e regulador. A tendência — insista-se, a tendência — é que Ronaldo Caiado, se eleito governador, seja duro com os movimentos sociais. Como lidará com uma greve de funcionários públicos da Educação, da Saúde e da Segurança Pública? O mais provável é que não se coloque como interlocutor e que não proponha o diálogo? Não se sabe, porque como notou o escritor V. S. Naipaul, só o poder revela o político.

Frise-se que, para se contrapor ao MST, Ronaldo Caiado criou a União Democrática Ruralista (UDR) — uma espécie de unidade de combate que ameaçava, no início, até pegar em armas contra os trabalhadores sem-terra.

Ética pode ser máscara para esconder problemas

Então, ao contrário do que parte do eleitorado acredita, Ronaldo Caiado pode, se eleito, se tornar um governador, não da mudança, e sim da reação? Não se sabe, porque o futuro nem a Deus pertence. Mas seu trabalho no Congresso não o coloca entre os políticos progressistas, mudancistas e tolerantes. José Eliton e Daniel Vilela, pelo que se depreende de sua curta história, se comportam como políticos progressistas, não reacionários — ainda que, como advogados, sejam legalistas. Os eleitores terão como avaliar, no espaço de um mês, a distinção que se apresenta aqui? Também não se sabe. O discurso ético é a máscara perfeita para esconder outros possíveis defeitos ou até virtudes que não são de agrado de muitos devido a onipresença do discurso populista. O fato é que um candidato a governador deve — ou deveria — ser examinado pelo conjunto da obra, inclusive por sua história, e não apenas pelo discurso supostamente ético.

O voto progressista, em algum momento, neste mês de setembro, desabrochará, como uma flor, e fará a diferença? Não se sabe. Porque há uma primavera conservadora que está sendo absorvida com certa intensidade, transformando os progressistas em representantes do outono. Há, por assim dizer, um autoengano, uma entrega do eleitor aos que sugerem que, num passe de mágica — com ações duras, e até quase fora da lei, como se o país não vivesse sob o Estado de Direito —, será possível resolver graves problemas, como o da violência, de maneira radical. Nesta onda, que varre o país, Ronaldo Caiado surfa à vontade. Tanto que, com o objetivo de não exibir certo ranço reacionário, mostra-se, não se sabe até quando, como um político moderado. Não se está sugerindo que o presidente do DEM é um agente do atraso, e sim que não é um político progressista. Parece contraditório. Mas não é. O líder do partido Democratas alinha-se àqueles que defendem um campo moderno, a um capitalismo cada vez mais tecnológico — o que prova uma face moderna. Entretanto, ao não ter uma percepção adequada de que é preciso incorporar os deserdados à sociedade, com medidas compensatórios e inclusivas, apresenta-se como não progressista. O moderno, portanto, pode não ser progressista.

Hora de conciliar tática e estratégia

Chegará o momento em que políticos e eleitores progressistas, ao perceberem o que pode acontecer em Goiás nos próximos quatro anos, se curvarão ao voto útil — optando por José Eliton, por Daniel Vilela ou por Kátia Maria? Se não estiverem anestesiados, se a expectativa de poder de Ronaldo Caiado não tiver paralisado seus cérebros — onde a razão e a emoção são produzidas —, é provável que políticos e eleitores percebam o quadro com mais nitidez e reformulem suas posições.

No momento, no afã de defender o PT, o que é justo, a candidata do partido a governador, a articulada Kátia Maria, critica, de maneira acerba, o governo de José Eliton. Trata-se de demarcar posição mais contra o PSDB nacional do que contra o  tucano goiano. Interessa ao PT combater o tucanato, para desgastá-lo em todo o país. Porém, no caso de Goiás, é possível que haja um conflito entre o tático e o estratégico. Fazer a crítica de José Eliton é uma ação tática para levar a uma estratégia: reduzir a força do PSDB e, deste momento, contribuir para tentar eleger um presidente da República do PT. Nada há de ilícito nisto, até porque o PT não é uma célula do PSDB. Entretanto, a tática,  se serve para o PT nacional, não serve ao PT goiano, porque, no Cerrado, seu principal adversário, sobretudo do ponto de vista ideológico, não é a socialdemocracia tucana, e sim o Democratas de Ronaldo Caiado.

Não se trata de sugerir que o PT desmobilize sua crítica em relação ao governo de José Eliton, mas sim de ressaltar outra percepção a respeito do quadro político. Frise-se que o PT de Goiás é um dos mais qualitativos do país, com políticos competentes e íntegros, como Kátia Maria, Pedro Wilson, Adriana Accorsi, Luis Cesar Bueno, Ceser Donizete, Rubens Otoni e Antônio Gomide. São referências positivas e, com formação intelectual acima da média, sabem o que esconde o populismo conservador, que, falando em nome do povo, busca mais subordiná-lo do que atendê-lo e, sobretudo, não respeita sua autonomia.

Numa unidade das Lojas Americanas, localizada no Shopping Buena Vista, na Avenida T-4, no Setor Bueno, um repórter do Jornal Opção ouviu de um caixa que usa óculos de lente grossa: “Não voto em Ronaldo Caiado, mas sei que, para ser eleito governador, está por um ‘beicinho de pulga’”. O comentário é procedente. Por isso, orientado por marqueteiros experimentados — que contam inclusive com o apoio de Gracinha Caiado, mulher do senador, como fator moderador —, Ronaldo Caiado está fazendo o máximo para “não errar”. Não evita o confronto, para não se descaracterizar, mas, estranhamente calmo, tem procurado não acirrar os ânimos. Para retirá-lo da “zona de conforto”, por assim dizer, Daniel Vilela adotou o tom crítico apropriado, convocando-o para um debate do qual não quer efetivamente participar. O candidato emedebista, sem deixar de criticar o governo de José Eliton, percebeu qual é o jogo real, o do momento. Daí o enfrentamento direto — combinando, com inteligência e eficácia, tática e estratégia. Candidato bom-moço não funciona para quem está muito atrás nas pesquisas de intenção de voto. O figurino serve para Ronaldo Caiado, mas não para José Eliton, Daniel Vilela e Kátia Maria. Agora, com a campanha nas ruas, precisa-se mais de guerreiros do que de estadistas. Campanha exige guerreiros e governos, estadistas. José Eliton precisa se firmar e se afirmar como candidato, porque governador já é.

Político experimentado, que já disputou e perdeu eleição para presidente da República e governador, em 1989 e 1994, Ronaldo Caiado sabe que a máscara do “Caiadinho paz e amor”, embora não lhe caiba de maneira precisa, é adequada para uma peleja majoritária. Sobretudo, o candidato do DEM a governador percebe, com ampla clareza, que terá de ganhar a eleição no primeiro turno. Por quê?

Porque a eleição do segundo turno tende a ser outra, muito diferente — com outras alianças. É provável que, se for para o segundo turno, Ronaldo Caiado terá de enfrentar a maior frente progressista da história de Goiás. A aliança poderá ter, no mesmo palanque, adversários históricos, quer dizer, líderes do PSDB, do MDB e do PT. Será uma frente encorpada das forças progressistas contra a possibilidade de passar quatro anos sob a égide de um governador possivelmente conservador e reacionário. Se não prevalecer no primeiro turno, dadas as diferenças partidárias, o voto útil será onipresente no segundo turno. Por isso, Ronaldo Caiado teme tanto que a disputa não termine no dia 7 de outubro, num domingo. Toda a sua expectativa de poder, pacientemente construída, é para o primeiro turno. Mas não serve, quem sabe, para a segunda etapa.

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