Virada surpreendente é o que caracteriza todas as eleições pra governador de Goiás de 1994 a 2014

As primeiras pesquisas de intenção de voto para o governo de Goiás, nos últimos 20 anos, não acertaram o resultado de nenhuma eleição. As campanhas derrotaram todos os favoritos

Fotos: Jornal Opção

Os eleitores de Goiás costumam surpreender os institutos de pesquisa e as visões políticas tradicionais. As pesquisas de intenção de voto quase sempre são verdadeiras e retratam momentos, que não podem ser interpretados de maneira fixa, como algo definido. Ao contrário dos políticos e mesmo de parte da imprensa, os eleitores demoram a discutir eleições e, sobretudo, a definir seu voto. Eles esperam as campanhas e os debates eleitorais e só depois posicionam-se, escolhendo seus candidatos tanto para o Legislativo quanto para o Executivo. Portanto, sem desconsiderar as pesquisas, examinemos a história das eleições em Goiás nos últimos 20 anos — de 1994 a 2014.

O pesquisador Gean Carvalho, do Instituto Fortiori, diz que todas as eleições de 1994 a 2014 apresentaram quadros de virada na reta final, com resultados surpreendentes. As pesquisas de intenção de voto estavam erradas? Não estavam, como registro de circunstâncias, mas as campanhas mudaram o resultado das eleições. Cada eleição tem sua história específica, mas não se deve desconsiderar a história das demais eleições.

1998

Em 1998, as pesquisas iniciais apontavam Marconi Perillo, do PSDB, com 8% das intenções de voto. Iris Rezende, do PMDB, chegou a aparecer com mais de 70%. Eram favas contadas, tanto que o peemedebista já estava montando secretariado. Chegaram a oferecer uma suplência de senador, como mero favor, para o tucano, então com 35 anos de idade, ou uma secretaria no futuro governo.

A campanha começou e Marconi Perillo passou a apresentar um discurso modernizante, sugerindo que era preciso renovar a política em Goiás. No início, era tão desconhecido que foi preciso usar uma camisa azul para ser identificá-lo. Pouco a pouco, a revelia das pesquisas, os eleitores começaram a prestar atenção nas suas ideias e a compará-las com as de Iris Rezende. Tudo indica que houve uma espécie de circo-circuito e que o inconsciente coletivo dos eleitores, se se pode dizer assim, começou a conectar-se ao tucano que falava em mudança e, até por ser jovem, a simbolizava. De algum modo, os eleitores desconectaram-se do favorito e deixaram de prestar atenção no que dizia, entendendo que era mais do mesmo.

O resultado todos conhecem: Marconi Perillo foi eleito governador e, de algum modo, “aposentou” Iris Rezende da política estadual, colaborando para torná-lo, do ponto de vista eleitoral, um político municipal, quer dizer, de Goiânia. As pesquisas que davam Iris como “eleito”? Foram esquecidas.

2002

Em 1998, o candidato natural do PMDB não era Iris Rezende, e sim Maguito Vilela, então governador, que acabou eleito para o Senado. Exercendo sua liderança tutelar, Iris Rezende impediu que o peemedebista mais jovem disputasse a reeleição. Ao se lançar candidato ao governo em 2002, Maguito Vilela apareceu como favorito, deixando o governador Marconi Perillo em segundo lugar. De novo, segundo as pesquisas de intenção de voto, havia indicativo de favas contadas. Era só o peemedebista inscrever-se no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e correr para o abraço no dia da posse. Mas as campanhas, com os eleitores observando com atenção tanto o discurso do postulante do PMDB quanto o do postulante do PSDB, mudaram o quadro final e, mais uma vez, Marconi Perillo sagrou-se vitorioso. Nem se discute os motivos da derrota de Maguito Vilela — quiçá tenha sido a falta de um projeto alternativo crível —, e sim o fato de que os eleitores mudaram o quadro que havia sido sugerido, mais do que definido, pelas pesquisas de intenção de voto.

2006

Em 2006, o PMDB tinha um motivo preciso para assanhamento: não disputaria eleição contra o governador Mar­co­ni Perillo, e sim contra o vice-governador Alcides Cidinho Rodrigues, então filiado ao PP, apontado como um poste até pelos aliados, e como um poste enferrujado pelos adversários. Alcides Rodrigues era o típico candidato-mochila, quer dizer, precisava ser carregado por alguém, no caso o tucano Marconi Perillo. O peemedebismo bancou Maguito Vilela, um de seus grandes nomes e um político popular e conciliador.

As pesquisas de intenção de voto indicaram, pela terceira vez, que eram favas contadas (curiosamente, as pesquisas qualitativas sugeriam que os eleitores estavam satisfeitos com o governo de Marconi Perillo). O senador Maguito Vilela poderia comprar o terno — de preferência, para durar mais tempo, de uma grife de qualidade — para a posse. A campanha começou, os discursos foram expostos e os eleitores, mais uma vez, derrotaram o candidato bancado pelo PMDB, que era favoritíssimo, elegeram o “poste” Alcides Rodri­gues, que, se era poste, ao menos não estava enferrujado. Por que o eleitor optou pela continuidade? É tema para outro debate, mas o fato é que o peemedebismo, na campanha, perdeu “identidade” com os eleitores. As pesquisas extemporâneas provavelmente indicavam menos intenção de voto real e muito mais conhecimento de quem Maguito Vilela e desconhecimento de quem era Alcides Rodrigues. A campanha colocou os dois em pé de igualdade.

2010

Na eleição de 2010, estava de volta um ícone da política goiana, Iris Rezende. De novo, era o favorito. Depois de 12 anos do grupo de Marconi Perillo no poder, e apesar de que Alcides Rodrigues havia rompido com o tucano-chefe, esperava-se que os eleitores estivessem com saudade do político que havia sido eleito governador de Goiás duas vezes — em 1982 e em 1990 —, além de ter sido eleito e reeleito prefeito de Goiânia em 2004 e 2008. Em tese, o peemedebista-chefe havia dado a volta por cima e estava altamente cacifado para a disputa.

Uma pesquisa de intenção de voto chegou a apontar Iris Rezende com 10 pontos acima de Marconi Perillo, então senador. Na campanha, o tucano melhorou seus índices e Iris Rezende caiu. Resultado final: o tucano, mais uma vez, se elegeu. A reviravolta provou que a campanha decidiu a eleição e refez integralmente o que as pesquisas sinalizavam.

2014

Em 2014, o governador Marconi Perillo passava por uma fase de intenso desgaste, supostamente incontornável. Iris Rezende, ao contrário, era bem avaliado como prefeito de Goiânia. As pesquisas de intenção de voto apontavam que finalmente o PMDB iria eleger o governador de Goiás. Começada a campanha, com a exposição dos projetos e imagens dos candidatos, Marconi Perillo começou a melhorar seus índices nas pesquisas de intenção de voto e Iris Rezende começou a se desidratar. Feita a contagem dos votos, o tucano havia sido eleito pela quarta vez e Iris Rezende havia perdido pela terceira vez. Os eleitores de Goiás mais uma surpreenderam os institutos de pesquisas e os que avaliam uma disputa eleitoral pelas primeiras pesquisas que são publicadas.

Jogo abertíssimo

A partir do que se disse, é possível concluir que em 2018 ocorrerá também uma reviravolta? Não é o que se está sugerindo. Como a bola de cristal de um jornalista é a razão, acoplada à verdade, o que se está explicitando, isto sim, é que não dá para apontar favorito incontornável a 15 meses das eleições — um ano e cinco meses. É preciso esperar várias coisas — uma delas o lançamento dos candidatos, que ainda não estão 100% definidos. Depois, com a apresentação dos postulantes, é preciso verificar as campanhas e como os eleitores, que estão desconsolados com os políticos — todos eles —, vão se posicionar. Hoje, sem tirar nem pôr, as pesquisas de intenção de voto revelam mais conhecimento ou desconhecimentos dos nomes que são apresentados pelos institutos de pesquisas. No levantamento espontâneo, os eleitores citam os que lhe vêm à memória, quer dizer, os mais conhecidos. No levantamento estimulado, apelam mais uma vez para a memória e hipotecam apoio àqueles que são mais conhecidos.

O provável postulante do DEM, Ronaldo Caiado, aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Está quase eleito? Como é um político astuto, sabe que não. As pesquisas certamente vão deixá-lo alegre publicamente, mas privadamente vão deixá-lo preocupado. O vice-governador José Eliton, do PSDB, e o deputado federal Daniel Vilela, do PMDB, que são menos conhecidos do que o pré-candidato do partido Democratas, têm de ficar preocupados com os números recentes? Na verdade, não. Eles sabem que, como ainda não há campanha e, sobretudo, os eleitores não estão interessados, neste momento, em disputas pré-eleitores — eles chamam de “fuxico de políticos” —, que as favas não estão contadas. Como sublinham os pesquisadores Gean Carvalho e Mário Rodrigues, titulares dos institutos Fortiori e Grupom, o jogo político-eleitoral está abertíssimo. Mais aberto, impossível. Todos os políticos sabem disso. Os eleitores também.

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