Violência só cai nos Estados se for criada uma política nacional de segurança pública

Estatísticas sobre violência são úteis para gerar manchetes sensacionalistas, mas a Imprensa precisa refletir sobre o assunto de maneira abrangente. A sociedade precisa demonstrar insatisfação com a violência contra policiais

Gravura de William Blake

Gravura de William Blake

As estatísticas sobre violência no Brasil são publicadas pela Im­prensa de maneira indiscriminada. Por vezes, o objetivo é mais provocar sensação: vender jornais e aumentar o acesso na internet. Quanto “piores” os números, mais as manchetes são escandalosas. A prática mais comum é comparar estatísticas dos Estados. Estes são apresentados de maneira isolada, como se não tivessem fronteiras e o mínimo de ligações. Seriam países ou ilhas. Sobram dados, organizados não raro de maneira viciosa — é provável que, em alguns casos, haja subnotificação —, mas falta reflexão. Pode-se dizer que os jornais eventualmente são engolfados pelos números excessivos e, é preciso admitir, expressivos. Mas editores e repórteres esquecem que, além de divulgar notícias, é preciso pensar a respeito. Discutamos alguns aspectos, sem a pretensão de ter a resposta adequada para reduzir a violência. O nosso objetivo é abrir uma ou duas portas.

1 — Um assalto no interior de Goiás, no qual morrem pessoas e os criminosos usam metralhadores e fuzis modernos — nem as Forças Armadas têm armamentos iguais —, diz respeito exclusivamente ao Estado? Tudo indica que não. Por vezes, os malfeitores são radicados no Estado, pois é possível comprar armas, no mercado paralelo, em qualquer região do país. O Paraguai, com suas fronteiras abertas, é um dos principais fornecedores de armas ilegais para toda a América Latina. São armas israelenses, americanas, chinesas, alemãs etc. Outras vezes, os criminosos mais ousados e mais violentos, com relativa organização, são de São Paulo e Rio de Janeiro. Trabalha-se com a hipótese de que criminosos articulam ações em determinadas regiões — como roubo de caixas eletrônicos de bancos — com o objetivo de obter dinheiro, que consideram fácil, para projetos mais ambiciosos nos seus Estados de origem. O dinheiro é utilizado para comprar armas e financiar a logística de ações mais amplas.

2 — Decorrente do que se disse acima — com criminosos cometendo assaltos em várias regiões do país —, Estados isolados têm condições de coibir o crime organizado? Não têm. Mesmo Estados ricos, como São Paulo e Rio de Janeiro, esbarram nas questões fronteiriças (suas polícias só agem dentro de seus territórios). Aliás, quando suas polícias se tornam mais rigorosas, determinados grupos criminosos “migram” para Estados do Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Res­guar­dam-se por um tempo, por uma questão de sobrevivência, mas, assim que as coisas se acomodam, voltam aos locais de origem. Enquanto isso, porém, cometem crimes nos locais onde estão radicados provisoriamente.

3 — Se os Estados isolados não têm condições de combater a criminalidade, o que resta fazer? Cruzar os braços — à espera dos próximos assaltos e, não raro, assassinatos? Como o PT do ex-presidente Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff postulam que o problema da violência e da criminalidade tem origens sociais — resolvidos os problemas sociais, com a redução da pobreza, estaria equacionada a questão da violência — e não tem a ver com a organização, cada vez mais azeitada, do crime, com a ação de verdadeiras máfias, nada resta a fazer? Não é bem assim. Por intermédio de seus braços, que são as instituições de vários níveis — Judiciário, Le­gislativo, Ministério Público, OAB, Im­prensa, para citar algumas —, a sociedade ci­vil pode pressionar o governo federal para que crie de fato, e não apenas de maneira re­tó­rica, uma política nacional de segurança pública.

Só o governo federal detém recursos suficientes para criar uma política de segurança pública ampla, com poderes federais, para coibir o crime organizado em suas várias facetas (assaltos a bancos e empresas, roubo de cargas nas rodovias, sequestros, narcotráfico internacional de drogas). Se o governo de Dilma Rousseff permanecer omisso, “delegando” a questão da segurança pública exclusivamente aos Estados, as estatísticas regionais continuarão piorando e, claro, agradando os editores de jornais que são responsáveis pelos títulos das primeiras páginas. Eles poderão continuar editando: “O Estado ‘x’ é campeão em violência” e “O Estado ‘y’ é o primeiro colocado em número de assassinatos”. As notícias bombam nas redes sociais e, até, alimentam, por algum tempo, as discussões políticas — com as oposições garantindo que os Estados “A” e “B” não investem o necessário em segurança pública. Não é sério o suficiente o político que não vai além da notícia pura e simples. Sua intenção, longe de colaborar para resolver o problema, é torná-lo mais sensacionalista, quer dizer, contribuir para torná-lo maior e, assim, comprometer os grupos políticos que estão no poder. O objetivo é gerar desgaste. Mal percebem que as pessoas comuns, não envolvidas política e ideologicamente com partidos, estão cansadas de críticas excessivas e diagnósticos malfeitos e politizados.

4 — Que os eleitores e os leitores não se iludam: nenhum país, por mais ajustado que seja, acabou com a violência contra cidadãos comuns. Nos Estados Unidos, onde a polícia é extremamente dura, o crime organizado resiste — inclusive com a máfia atuando nos mercados legal e ilegal. No Japão, mesmo sob combate do Estado, a Yakuza age quase que abertamente. Na Alemanha, na Suécia e na França, apesar do rigor da polícia e de se ter um combate ao crime em termos nacionais, a violência persiste. Nos países citados, que não são Shangri-las, a violência é pelo menos contida em níveis apontados como relativamente suportáveis. Isto é preciso ficar claro: o objetivo é reduzir a violência. O político que garante que vai acabar com a violência está mentindo aos eleitores. Como se disse acima, uma política de Estado para a segurança pública, conectando as polícias estaduais — tornando-as mais avançadas em termos de armamentos e tecnológicos — e ampliando a ligação com a Polícia Federal, é o primeiro passo para diminuir os índices de violência. Se não for assim, os editores de jornais continuarão “celebrando” a violência com a divulgação massiva de estatísticas. A busca de “culpados” isolados, se faz a festa daqueles que produzem manchetes nos jornais e apresentam telejornais, não contribui em nada na resolução dos problemas. Gera apenas um debate improdutivo, paralisante e enganador. Alguns jornalistas não parecem cansados desse eterno retorno, mas a sociedade cansou-se de um debate que, no fundo, não é debate.

5 — A Imprensa tem noticiado o assassinato de policiais civis, como Oscar Charife Abrão Garcia, e militares, como o cabo Antônio Moreira Machado Neto e o subtenente Sérgio Rodrigues Souza Vaz. Eles foram mortos quando defendiam vítimas de criminosos. A sociedade deveria prantear tais mortes — não deveria ignorá-las — de modo mais vigoroso.

Há uma certa ambivalência em setores da Imprensa, que tendem a tratar a polícia como suspeita, sempre sugerindo que é violenta. “Criminalizar” a polícia é um erro. É evidente que, às vezes, age com violência, e contra cidadãos que não são criminosos. Mas na maioria das vezes, no choque contra bandidos, não há como a polícia agir com doçura. Em geral, quando chamados pelas vítimas, os policiais são recebidos a tiros pelos meliantes. Portanto, têm de atirar como resposta… As estatísticas de violência contra policiais — assassinatos, mutilações, aposentadorias precoces, estresse intenso, depressões — raramente são divulgadas. É como se não fossem cidadãos que defendem cidadãos. É preciso pensar sobre isto. A polícia é necessária e não tem a ver, como pensam certos esquerdistas, com ditadura e entulho autoritário. Nenhuma sociedade democrática abdica de polícias — e de polícias firmes, reativas.

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Carlos Spindula

Concordo com os argumentos desse artigo, bandidos devem saber que se atirarem contra policiais receberão a resposta na mesma hora e medida, tem que haver respeito aos policiais, eles estão na linha frente na guerra contra os bandidos. Se a Policia se desmoralizar e cair isso significa o fim da sociedade organizada !