Uma chance para o novo consistente na disputa pela Prefeitura de Goiânia

Vanderlan Cardoso, Adriana Accorsi e Francisco Júnior representam o novo consistente. Por que então insistir com Iris Rezende, o político que, como prefeito, sempre pôs a prefeitura à disposição das construtoras?

Vanderlan Cardoso, do PSB, Waldir Soares, do PR, Adriana Accorsi, do PT, e Francisco Júnior, do PSD: por que não dar uma chance de o novo mostrar  se tem mesmo algum valor?

Vanderlan Cardoso, do PSB, Waldir Soares, do PR, Adriana Accorsi, do PT, e Francisco Júnior, do PSD: por que não dar uma chance de o novo mostrar se tem mesmo algum valor?

Ninguém é velho e ninguém é novo inteiramente. O velho por vezes contém laivos do novo. O novo contém em si nacos do velho. A luta do novo é para não ser tragado e corrompido pelo velho, para não repetir o que parece apenas prático, o caminho aparente do sucesso, quando quase sempre é o sendeiro mais cômodo — a repetição de práticas que precisam ser mudadas, reformuladas. Sabe-se, pelo riocorrente da história, que o velho não se entrega sem luta e que os partos para que o novo o substitua por vezes são dolorosos. Mesmo na democracia, quando se deve trocar revolução por evolução, trava-se uma guerra e, não se engane o leitor, o velho não raro vence. A ascensão e consolidação do novo é mais dorida do que a permanência do velho, ao qual todos estão acostumados, para o bem ou para o mal. O tédio da sociedade tem a ver com o conformismo quase generalizado: mudar pra que? Para ficar do mesmo jeito?

No Brasil, como demonstrou Raymundo Faoro no clássico “Os Donos do Poder”, o velho — simbolizado pelas elites, pelos “reis” do patrimonialismo — parece vencer mesmo quando a vitória é do novo. Por que este fenômeno do novo soçobrando ante o velho? Porque o velho, ao perceber os ventos da mudança, incorpora-se rápido ao novo, desidratando-o. O velho torna-se o novo e, deste modo, o novo se torna o velho. A mudança se torna, pois, mais cosmética e controlável.

Veja-se o caso de José Sarney, o morubixaba “imortal” do Maranhão — aquele que, quando escreve, a Língua Portuguesa grita… de dor, registra o filósofo do humor Millôr Fernandes. Cevado pela ditadura civil-militar, engordou nos chamados “anos de chumbo”. Quando esperava que “emagrecesse” no processo de Abertura, quando os civis democráticos começavam a voltar ao poder, eis que trocou a ditadura pelos ventos democráticos, consagrando-se como vice de Tancredo Neves. Com a morte deste, o escritor de bigodes de Stálin tornou-se presidente da República. Era o velho, fingindo-se de novo para solapá-lo, com o objetivo de retirar sua energia mudancista e criadora. Não é gratuito, nem se diz isto em tom de blague, sugerir que o governo de Sarney, general sem farda mas de fardão, deve ser considerado como o último dos militares. Dos homens da ditadura, é o mais longevo e esperto (mais até do que Antonio Carlos Magalhães, cuja brutalidade levava-o a perder aliados; até um quase nefelibata em astúcia, como Fernando Henrique Cardoso, levou-o no bico, por assim dizer). Nos últimos tempos, antes da debacle de Lula da Silva e Dilma Rous­seff, o sr. das sesmarias maranhenses se apresentava como quase petista ou, vá lá, petista honorário.

O problema do novo é que o velho o conhece e, por não tentar conhecer o velho direito, explicando-o por vezes de maneira preconceituosa, pode acabar absorvido. É o que acontece com frequência. O velho cerca o novo porque ao novo falta a astúcia do velho.

Engana-se o leitor se estiver pensando que, ao se falar de ou do velho, está se falando de idade. Não se trata disto. Há indivíduos que, em termos de idade, são novíssimos, mas a cabeça é quase tão velha quanto a de Matusalém. Político que anda armado e com algemas nas mãos fisicamente está no século 21, mas mentalmente pertence ao século 19. Pode até ser um cidadão de bem, mas não é contemporâneo das pessoas de seu “tempo”. Trata-se de um homem “solto” no tempo — quase atemporal, se isto existisse. Quando tinha mais de 90 anos, o filósofo britânico Bertrand Russell permanecia lúcido. Era um homem novo, mesmo sendo, falando de idade, velho. O chanceler Konrad Adenauer, quando reorganizou a Alemanha, em seguida ao desastre nazista, contava mais de 80 anos. O filósofo francês Raymond Aron — autor do seminal “O Ópio dos Intelectuais” (Três Estrelas, 352 páginas, tradução de Jorge Bastos) — escreveu textos de qualidade com quase 80 anos. Idade, pois, não é “o” problema necessariamente. “O” problema é a mentalidade arcaica e limitada de alguns homens, políticos ou não.

Iris Rezende

Iris Rezende é um político que não se moderniza, que repete sempre o mesmo discurso, contando com a suposta falta de memória dos eleitores. Ele representa mais do mesmo

Iris Rezende é um político que não se moderniza, que repete sempre o mesmo discurso, contando com a suposta falta de memória dos eleitores. Ele representa mais do mesmo

Neste texto sobre o novo se falará quase nada de propostas de candidatos, porque alguns deles transcrevem ideias de campanhas anteriores, recauchutam-nas e, sem corar, apresentam-nas como novas, quando, por vezes, eram velhas no nascedouro. O candidato do PMDB a prefeito de Goiânia, Iris Rezende, disse, em 2004, com seu proverbial messianismo, que faria uma revolução no transporte coletivo em seis meses. Depois de quatro anos, o transporte coletivo continuava igual, com as mesmas críticas da população. O peemedebista, com a autoridade de quem já foi governador — modernizador no seu tempo, é inegável — e ministro de Estado, poderia ter pensado na construção de metrô ou, ao menos, num veículo leve sobre trilho (VLT). Pensa, porém, unicamente no ônibus. Se é assim, deveria ter pensado no BRT, mas nunca pensou.

Agora, como se nada tivesse sido dito no passado, Iris Rezende volta a garantir que, se eleito prefeito em 2 de outubro deste ano, vai resolver o problema do transporte coletivo “imediatamente”. Ora, Iris Rezende, tendo sido eleito em 2004 e reeleito em 2008 — governou Goiânia até o fim de março de 2010, quando deixou a prefeitura para disputar o governo do Estado —, não deveria, como disse, ter resolvido “o” problema em seis meses? Com sua boa memória, o leitor concordará que, em cinco anos e três meses, o peemedebista não resolveu “o” problema. Entretanto, se resolveu, com parece sugerir, por que vai resolver agora? É uma saia-justa mal costurada pela idiossincrasia do peemedebista, que parece entender a verdade factual como objeto de manipulação e sedução. A verdade, no seu caso, não é o que é, e sim o que diz.

O que é, pensando filosoficamente, Iris Rezende hoje? É o velho tentando ocupar o lugar do novo, como se o novo não existisse, e o eleitor tivesse de se contentar com o velho, pela ausência do novo. Mas o eleitor não tem mesmo alternativa ao peemedebista? É um engano pensar assim. Há, sim, alternativa. Num tom conformista, há pessoas que dizem: “Iris faz bem o feijão com arroz”. Pode até ser, mas costuma-se dizer que todo gestor, depois de Iris Rezende, pega a casa desarranjada. Por que isto? Porque uma de suas práticas é endividar o setor público, não se importando (com) o gestor que vem depois.

O prefeito Paulo Garcia é criticado pelos goianienses e é apresentado como um mau gestor? O fato é que o petista não teve tutano suficiente para mostrar à sociedade que enfrentou uma série de problemas por ter recebido de Iris Rezende uma prefeitura endividada, com a saúde em frangalho, a educação abandonada, e com os caminhões-coletores de lixo sucateados. A suspensão da terceirização da coleta não foi um bom negócio.

Do ponto de vista urbano, devido ao fato de que os donos de construtoras assumiram o comando do setor de planejamento da prefeitura na gestão de Iris Rezende, a cidade se tornou ainda mais caótica, com o seu crescimento se apresentando ainda mais desordenado. O Iris Rezende gestor eficiente pode ser apenas mais um mito engendrado mais pela sua verdade religiosa, dogmática portanto, do que pela verdade filosófica, mais iluminista. Na semana passada, um motorista do Uber definiu o político: “Iris não é, comparado ao Uber, o táxi da política. É a carroça”. É uma imagem forte, dita por um homem simples que, antes de se tornar parceiro do Uber, estava desempregado havia seis meses.

Novos em Goiânia

Mas, afinal, há alternativa ao velho, quer dizer, a Iris Rezende? Sim, há. Há Vanderlan Cardoso, do PSB. Há Adriana Accorsi, do PT. Há Francisco Júnior, do PSD. Há Waldir Soares, do PR, o delegado-deputado? Há Flávio Sofiati, do PSOL. Há Djalma Araújo, da Rede. Não é possível que, entre seis nomes, não haja um que, representando o novo, seja capaz de renovar a administração de Goiânia.

Veja-se o caso de Waldir Soares. Há quem acredite que seja meio maluco. Não é, não. É um político racional, um deputado federal, e dos mais determinados. Por que não experimentá-lo? Seria uma chance ao novo com vontade, aparentemente, de ser novo. É fato que seu problema básico é falta de experiência administrativa e não apresentar uma equipe que tenha experiência técnica.

Veja-se o caso de Francisco Júnior. Ex-secretário da Prefeitura de Goiânia, ex-presidente da Câmara Municipal, deputado estadual e expert em planejamento urbano, não é um zero à esquerda. Parece ter condições de gerir a prefeitura, dadas sua formação técnica e sua experiência com gestão. Além, claro, de ser um político experimentado — o que importa para a governabilidade. Por que não experimentá-lo? Por que não tentar pôr suas ideias criativas em prática? Ninguém pode dizer que não representa o novo.

Veja-se o caso de Adriana Accorsi. O problema da candidata não é a candidata, e sim o PT e o desgaste acentuado do prefeito Paulo Garcia. Não adianta esconder a cor vermelha, não vale a pena sugerir que o PT desapareceu. Alguém vai sempre lembrar ao eleitor que é do PT e é a candidata de Paulo Garcia, que, vale ressaltar, Iris Rezende apresentava como seu herdeiro político (os dois mantinham uma relação de pai e filho, de tão ligados que eram). Adriana Accorsi é séria, tem projetos consistentes e não é tão inexperiente como se pensa. Dirigiu a Polícia Civil de Goiás, uma instituição com centenas de integrantes, e saiu-se muito bem. Atuou como secretária consistente da gestão de Paulo Garcia, deixando o cargo sem qualquer desgaste foi eleita deputada, sendo a mais bem votada do PT e uma das mais bem votadas entre todos. Por que não experimentá-la? Alguém pode dizer que não representa o novo?

Veja-se o caso de Vanderlan Cardoso? Há um consenso de que se trata de um político que, depois de titubear, modernizou-se. Mais: de todos os candidatos, é o único que tem experiência como gestor privado — é criador de um império empresarial em Goiás, Bahia, Pernambuco e Pará, cobiçado por investidores dos Estados Unidos — e como gestor público, pois foi prefeito, dos mais bem-sucedidos, de Senador Canedo. Seu programa para governar Goiânia é dos mais arrojados, um dos mais novos. Pode-se, portanto, dizer que não representa o novo? Por que não experimentá-lo? Por que, se daqui pra frente, com Vanderlan Cardoso, Francisco Júnior ou Adriana Accorsi, pode se experimentar filé, o leitor há de ficar, mais uma vez, com carne de pescoço?

É provável que um dos três dê jeito no caos urbano de Goiânia. Porque não dá para reorganizar o trânsito e mesmo o transporte coletivo se não se repensar a política de apoio irrestrito aos proprietários das construtoras, hoje verdadeiros donos da prefeitura da capital.

Uma construção como o megaempreendimento Nexus, na confluência das Avenidas D e 85, mexe com a estrutura urbana em geral, solapando o trânsito, possibilitando a ampliação de engarrafamentos e outros problemas. Por que o Nexus está sendo possível?

Primeiro, porque a prefeitura o liberou, mesmo tendo informação precisa de que houve falsificação do relatório de impacto de vizinhança. Segundo, porque, numa visão equivocada da Justiça, entendeu-se que a não construção é mais prejudicial do que a construção. Ora, a se aceitar a lógica de Aristóteles, como se pode dizer que uma obra que não foi construída poderá ser tão útil assim? Deve-se “acreditar” — sim, parece ter se tornado uma questão de fé — mais na publicidade da Construtora Consciente do que nas análises técnicas dos arquitetos e urbanistas do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU)?

Quer dizer que se deve pensar a cidade só para o hoje, para a lucratividade, e não para o futuro e, sobretudo, para o bem-estar coletivo? O desembargador Ney Teles de Paula — acima de tudo, um magistrado íntegro e um intelectual de primeira linha — é seriíssimo, de raro equilíbrio técnico-judicial, mas deveria ter acompanhado a discussão do assunto de maneira mais ampla, pensando inclusive no amanhã, ao validar a construção do Nexus.

Mas o Nexus só se tornou possível graças ao fato de que Iris Rezende, que não pensa no futuro da capital — que, se continuar assim, será o pior possível (mais inchada, mais engarrafada) —, desarticulou a Prefeitura de Goiânia. Os setores técnicos foram substituídos por assessores políticos, todos “loucos” para agradar as construtoras e vice-versa.

Então, se Goiânia quer continuar avançando com mais ordem, com uma gestão que ouça e acate recomendações de técnicos experimentados — que pensam para além do presente e do lucro das construtoras (que não querem saber, lógico, do amanhã dos goianienses) —, não dá para sufragar, nas urnas, aquele que não pensa a capital para os goianienses, e sim, unicamente, para si e para as construtoras.

Não permita, eleitor, que o velho, mais uma vez, mate o novo. Dê um chance ao novo. Tente. Experimente. É mais inteligente errar com o novo do que errar mais uma vez com o velho.

2
Deixe um comentário

2 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
2 Comment authors
Marcelino Almeida

Não voto em Iris porque acho que ele não vai terminar o mandato. Não vai resistir em sair candidato a governador em 2018, ainda mais agora que o Marconi está fora do páreo.

Saramar Mendes

Não é que o Jornal Opção transferiu-se para a esquerda?
O que tem este povo do PT, da Rede, do PSOL que represente o NOVO, se nada mais sabem fazer que repetir chavões do século XIX? Isto é ser novo?