Torcer contra o governo de Dilma é o mesmo que torcer contra o país

A oposição pode e, se quiser, deve torcer contra a permanência do PT no poder. Mas torcer contra o governo é o mesmo que apostar em aumento da inflação e do desemprego

Dilma Rousseff: a presidente não faz um governo de qualidade, mas está tentando ajustá-lo. Fernando Henrique Cardoso: o ex-presidente defende a renúncia da petista. Eduardo Cunha: acusado de corrupção, vai gerir a Câmara dos Deputados sob permanente suspeição

Dilma Rousseff: a presidente não faz um governo de qualidade, mas está tentando ajustá-lo. Fernando Henrique Cardoso: o ex-presidente defende a renúncia da petista. Eduardo Cunha: acusado de corrupção, vai gerir a Câmara dos Deputados sob permanente suspeição

A função da imprensa é dizer o que está acontecendo, sem reduzir ou aumentar o impacto dos fatos. Porém a busca da objetividade possível não significa o mesmo que imparcialidade. Jornais e revistas têm seus interesses, ideologias e aliados — escancarados ou não. Quando jornais e revistas estrangeiros comentam a economia e a política brasileiras fazem um diagnóstico absolutamente isento? Alguns textos estariam “contaminados” pelos interesses políticos, econômicos e financeiros de seus países ou dizer isto significa provincianismo? Por mais livre que seja, a revista “The Economist”, recentemente vendida para um novo grupo econômico, sempre faz diagnósticos exatos sobre o que ocorre no país? A publicação inglesa às vezes é precisa, mas eventualmente pinta o Brasil como o pior dos mundos, como se o mundo fosse inteiramente diferente do país da presidente Dilma Rousseff. Pode ser teoria conspiratória insinuar que a sexta maior economia global, a Inglaterra, tem interesse em depreciar a sétima economia, o Brasil. Mas fica o registro de que as duas nações são competidoras, com a tendência, dados os seus fartos recursos e o potencial de crescimento, de o Brasil superar a Inglaterra nos próximos dez anos, ou antes disso.

Depois das estocadas da “Economist”, uma das revistas mais respeitadas da Europa e lida em vários países, o “Financial Times”, mais importante jornal de economia da Inglaterra, talvez da Europa, decidiu examinar a situação brasileira. O “FT” sugere que, no caso de impeachment de Dilma Rousseff, assumiria outro político medíocre — possivelmente referindo-se a Michel Temer (que não teve a chance de administrar o país). Mas, dos últimos primeiros-ministros britânicos, qual pode ser comparado aos brilhantes Winston Churchill e Margaret Thatcher? Nenhum. Nos últimos anos, sobretudo depois de Thatcher, a Inglaterra se tornou uma espécie de “secretário de Estado” reserva dos Estados Unidos. Estaríamos aderindo aos grupos patrioteiros? Não. Mas é preciso assinalar que interesses comerciais contaminam mesmo as mais qualificadas publicações.

O governo de Dilma Rousseff não é mesmo brilhante. Tanto que a presidente teve de convocar um economista liberal — Joaquim Levy, técnico do mercado financeiro — para “consertar” a anarquia fiscal de sua gestão. A presidente acredita — e é mesmo mais fé do que constatação técnica, uma avaliação racional do quadro econômico — que a crise será debelada nos próximos 12 meses. No máximo, aposta. É óbvio que, como governante, a petista não pode nem deve espalhar pessimismo. Pelo contrário, tem de injetar otimismo no país (a tal frase do filósofo italiano Antonio Gramsci: seja pessimista na reflexão, mas otimista na ação). Apesar do descalabro do setor público, a estrutura básica da economia patropi é sólida. Porém uma espécie de crise psicológica — a crença de que tudo está errado levará a que as coisas se tornem mais erradas — contribui para travar ainda mais o país. Por isso, embora não deva mentir, um presidente não deve dizer que se caiu num “buraco” e que não será possível sair de lá.

O “Financial Times” sublinha que a recessão deve perdurar pelo menos até 2016, com inflação e desemprego em alta — com investimentos reduzidos. Na semana passada, numa entrevista ao jornal alemão “Handelblatt”, a presidente Dilma Rousseff admitiu o vigor da crise e que todos terão de fazer “ajustes dolorosos”. A petista é uma realista, mas às vezes parece, na avaliação de economistas, viver numa realidade paralela. Entretanto, nas suas últimas entrevistas, trocou o ufanismo por uma análise mais comedida. Está mais parecida, finalmente, com Joaquim Levy.

Na segunda-feira, 17, uma pesquisa Focus mostra que analistas do mercado financeiro, consultados pelo Banco Central, avaliam que o processo de encolhimento da economia deve durar ao menos dois anos. O baixo crescimento será decisivo para retardar a redução da pobreza, disse Dilma Rousseff ao jornal alemão.

Quando indagada sobre a corrupção na Petrobrás, Dilma Rousseff disse: “Nós não queremos criminalizar as empresas ou puni-las coletivamente. Nosso modelo é o dos Estados Unidos, que punem os responsáveis e as empresas seguem em frente”.

Oposição contra o país?

A função da oposição é torcer contra quem está no poder ou contra o país? Por vezes, fica-se com a impressão de que há uma torcida, na oposição — e mesmo na imprensa —, para que Dilma Rousseff naufrague ainda mais e que a economia afunde de vez. O motivo é prosaico: quanto pior o governo da presidente, tendo como consequência o aprofundamento da crise, que devora empregos e leva empresas à falência, mais chances a oposição terá de “arrancar” o PT do poder nas eleições de 2018. Acredita-se, aparentemente, que, se houver uma recuperação econômica, o PT terá chance de conquistar um quinto mandato. Talvez não tenha — dado o imenso desgaste do partido. Mas a política é sempre surpreendente e a economia às vezes contribui para mudá-la quase que num piscar de olhos.

O insucesso administrativo de Dilma Rousseff é nefasto para o país — trabalhadores e empresários —, mas, do ponto de vista eleitoral, pode ser positivo para o senador mineiro Aécio Neves (ou Geraldo Alckmin), possível candidato do PSDB a presidente da República em 2018.

Há quem avalie que é melhor deixar a presidente “sangrar” até 2018. Seria uma espécie de “velório prolongado” do PT. O PSDB, robustecido pela crise moral do PT — que teria provado ser “igual” aos piores partidos, sobretudo na questão da probidade administrativa —, tem chance de eleger o próximo presidente. Porém uma instabilidade institucional gerada pelo impeachment ou renúncia de Dilma Rousseff poderia levar ao poder uma outsider, como Marina Silva, tida como incorruptível, e não um político tradicional, como Aécio Neves, Geraldo Alckmin ou Marconi Perillo. Ainda assim, ante o caos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, depois de um período comedido, defendeu a renúncia da presidente. É provável que FHC pense que, depois de um governo-tampão do peemedebista Michel Temer — que seria um novo Itamar Franco, possivelmente governando com uma coalizão política ampla —, chegaria a vez do retorno do PSDB.

O PSDB, o de Fer­nando Henrique Car­­doso, não teme mais uma possível instabilidade institucional, ao contrário do que sugere o “Financial Times”.

Eduardo Cunha

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), foi denunciado por corrupção pela Procuradoria-Geral da República na semana passada. Ressalte-se que denúncia não é o mesmo que condenação. A denúncia será examinada, de maneira cuidadosa, pelo Supremo Tribunal Federal, que poderá condenar ou absolver o líder peemedebista. Portanto, não se pode dizer que Eduardo Cunha é corrupto, e sim que é acusado de corrupção.

Entretanto, dada a fartura da documentação reunida pela Procuradoria-Geral da República, com fortes indícios de corrupção, Eduardo Cunha vai gerir a Câmara dos Deputados sob suspeição. A rigor, o próprio presidente do Legislativo deveria pedir licença. Porém, como sabe que o afastamento o enfraqueceria ainda mais, reduzindo sua capacidade de articulação política, dificilmente se licenciará.

Com a acusação formalizada, e com a possibilidade de aparecerem novas informações — Eduardo Cunha teria recebido 5 milhões de reais de propina, mas o Procuradoria-Geral da República pede ressarcimento de 80 milhões de reais —, a situação do presidente da Câmara dos Deputados, ainda que tenha o apoio da maioria dos deputados, será cada vez mais constrangedora.

Ressalte-se que Eduardo Cunha afirma que não há nada que prove que seja corrupto e denuncia um complô envolvendo a presidente Dilma Rousseff e a Procuradoria-Geral da República para derrubá-lo. O motivo? A sua “independência” em relação ao Executivo.

3 respostas para “Torcer contra o governo de Dilma é o mesmo que torcer contra o país”

  1. Avatar Pedro Henrique Peres disse:

    Então vamos deixar o PT transformar o Brasil numa Venezuela! Editorial mais ignóbil, impossível!

  2. Não é torcida contra o governo Dilma. É a constatação do desastre que foi seu primeiro mandato, que agora se torna nítida. O governador Geraldo Alckmin é mesmo um político responsável. Defende o diálogo entre os governantes para tentar encontrar soluções para amenizar os impactos da grave crise política criada pelo descontrole das contas públicas e pelos erros na condução da política econômica do governo Federal. No entanto, não há apoio político para proteger Dilma.

  3. Avatar Fernando Campelo disse:

    O discurso da presidente e do governo petista até pouco tempo era “não há crise”. Agora mudou para “existe crise, mas a culpa é da China, dos EUA… Culpa é dos outros só não é nossa”.
    As pautas “bombas” eram coerentes com as afirmações petistas. “Se não há crise ‘presidenta’ então dê aumento para estas e outras categorias ou aumente o gasto com isto ou aquilo”…
    O que a oposição quer é uma confissão de culpa seguida de um adeus. Mentiram e conseguiram enganar o povo nas eleições e seguem mentindo desvairadamente. Nada melhor que expor a mentira pra mostrar a verdade.
    O legislativo tem responsabilidade sim sobre as medidas que aprova ou deixa de aprovar que poderiam conduzir o Brasil em direção à estabilidade econômica, mas são medidas impopulares que trariam a “culpa” e o desgaste político a eles. Então por que não deixar esse desgaste na mão dos culpados? Por que assumir uma conta que é dos outros? Dilma pode e deve vetar quase tudo que caminha na direção errada. Ela sabe que existe crise, só não admite a culpa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.