Tiro dado por segurança de um deputado é sinal de que o PMDB precisa se renovar para não morrer

No afã de criticar por criticar, o PMDB de Goiás está desconectado da realidade,
não interpreta os fatos com precisão e por isso perdeu cinco eleições seguidas para
o grupo de Marconi Perillo. O próprio Daniel Vilela precisa se modernizar

Iris Rezende é um político desconectado da realidade do Estado e quer o poder pelo poder. Deputado Daniel Vilela é jovem, mas precisa se modernizar

Iris Rezende é um político desconectado da realidade do Estado e quer o poder pelo poder. Deputado Daniel Vilela é jovem, mas precisa se modernizar

Ao término de 2018, o PMDB terá ficado 20 anos fora do governo do Estado. Trata-se de uma geração — quase um quarto de século. Parece pouco? Em termos de política e de vida mesmo, é muito. Um bebê virou menino, o menino virou adolescente, o adolescente virou adulto e, pronto, está na universidade. Aquele eleitor que completar 30 anos em 2018 tinha 12 anos em 1998, quando o tucano Marconi Perillo foi eleito governador de Goiás pela primeira vez, com pouco mais de 30 anos (hoje tem 52 anos). Parte significativa dos eleitores goianos não tem lembrança efetiva — pode-se informar por leituras, mas o material é escasso — do que foram os governos do PMDB entre 1983 e 1998. Mas sabe que Goiás, entre 1999 e 2016, mudou — e muito. Modernizou-se, tornou-se outro e, no momento, chama a atenção do país.

No geral, os quadros políticos do PMDB não são, a rigor, ruins. Mas os quadros mais qualitativos são cada vez mais escassos. Uma de suas principais perdas é o economista e deputado federal Thiago Peixoto, que, como tantos outros, saiu por falta de espaço, por ter seu crescimento político-eleitoral cerceado pela “ditadura” irista (o irismo é a ditadura civil do PMDB). Re­centemente, criticando a falta de renovação — o partido por vezes é chamado de PMDBI, Partido do Movimento Democrático Brasileiro dos Iris (o Rezende e a Araújo) —, o ex-deputado federal Marcelo Melo (vice de Iris Rezende em 2010, na disputa pelo governo) migrou para o PSDB e é favorito na disputa pela Prefeitura de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal. Hoje, para arrolar apenas alguns nomes, podem ser citados o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, e os deputados Daniel Vilela, Pedro Chaves, Ernesto Roller. O próprio Iris Rezende tem seus méritos, como gestor e político, embora pareça, cada vez mais, um elemento da história e não da realidade contemporânea. Trata-se, diria Roberto Schwarz, de uma ideia (e um corpo) fora do lugar (e, quem sabe, do tempo).

Na semana passada, uma briga — e não meramente um conflito político — no diretório estadual do PMDB levou um segurança do deputado estadual Paulo Cezar Martins a atirar para cima. O parlamentar alega que estava sendo agredido por quatro iristas — nenhum deles com mandato eletivo, mas supostamente enviados ao diretório, não se sabe por quem, para “buscar” certos documentos. O objetivo seria reduzir a força política do deputado federal Daniel Vilela, que, aliado aos outros deputados, das bancadas estadual e federal, quer assumir o controle do partido. A batalha física, seguida do tiro — que parece um alerta de que o PMDB vive espiritualmente num passado selvagem, embora os corpos de seus líderes estejam presentes no ano 2016 do século 21 —, é apenas mais um elemento que indica que fala em renovação como figura de retórica.

Como perdeu cinco eleições seguidas, entre 1998 e 2014, o PMDB deveria ter feito uma autocrítica visceral com o objetivo de renovar-se, tanto em termos de pessoas quanto de ideias. Porém, os caciques são os mesmos, as práticas não mudaram — a pancadaria e o tiro sugerem que os velhos métodos ainda são usados para “revolver” os conflitos — e as ideias, se existem, permanecem “curtas”, e em descompasso com um Estado em que a modernização continua acentuada “atropelando” quem não a entende. Nenhuma autocrítica foi feita, fora os lamentos pueris de praxe e a exposição da tese de que Marconi Perillo se elege e reelege governador graças à imensa estrutura que é capaz de mobilizar.

Peemedebistas não percebem que, ao mencionar a competência de Marconi Perillo para ganhar as eleições, cinco seguidas — ele foi eleito quatro vezes governador e pôs um poste no governo em 2006, Alcides Rodrigues —, estão falando muito mais de sua própria incompetência. Ninguém ganha eleição só por causa de dinheiro e estrutura. Se fosse assim, Antônio Ermírio de Morais teria derrotado Orestes Quércia para governador, em São Paulo, há alguns anos. Se fosse assim, Iris Rezende teria derrotado Marconi Perillo em 1998, quando o tucano fez uma campanha mambembe contra uma campanha riquíssima do peemedebista.
Insistimos num ponto que o PMDB não quer perceber: seus líderes perderam sintonia com o Goiás real. Eles falam nas campanhas e nas críticas que fazem ao governador tucano aparentemente sobre o que não entendem. Parecem nefelibatas. Os peemedebistas devem fazer críticas, as mais duras possíveis, mas devem interpretar, com precisão e não preconceito, o que são tanto o tucano Marconi Perillo quanto o Estado de Goiás. Quando se escuta um peemedebista falando, apresentando uma análise do quadro político e do quadro econômico, fica-se com a impressão de que é um personagem de um filme com o título “De Volta Para o Passado — Sempre”. Os diagnósticos são mais críticas desconectadas do real do que interpretações lógicas e racionais do que está efetivamente acontecendo. Em termos de críticas apropriadas, certeiras, o peemedebismo é o primeiro a chegar atrasado.
Críticas perceptivas e sensatas, a partir de estudos detidos da política e da economia de Goiás, seriam (e são) importantes para todos — situação, oposições e, claro, eleitores. Um estudo econômico abalizado, com dados interpretados com precisão técnica — e não como parte do jogo político e ideológico, que gera distorções e acaba por “reduzir” a sociedade a preconceitos —, seria crucial para o eleitorado se posicionar a respeito do oposicionismo e do situacionismo. Mas, nos últimos 15 anos, o PMDB nunca apresentou uma crítica consistente, persuasiva. As críticas nunca são estruturais e mesmo as conjunturais permanecem quase infantis. Quem ganha com a superficialidade crítica do peemedebismo é sempre o governador Marconi Perillo, que, usando pesquisas e análises mais sofisticadas, compreende, de maneira mais precisa, o Estado de Goiás em que vive, trabalha e milita politicamente.

Veja-se o caso recente da proposta de se instalar uma gestão compartilhada nas escolas de Goiás. Organizações sociais assumirão a gestão das unidades escolares com o objetivo, segundo o governo, de melhorar a qualidade do ensino. Há o exemplo das escolas militares, nas quais a Polícia Militar atua como uma espécie de organização social. Tais escolas têm o apreço da sociedade. No interior, prefeitos e populações se unem para tentar atrair escolas militares. Há um desejo por mudança, que foi compreendido pelo governador Marconi Perillo, possivelmente porque mantém contato direto com as pessoas, enquanto muitos políticos são seres quase virtuais. No momento em que o governo trabalha para implantar as OSs, setores estudantis e professores da rede estadual e da rede universitária, notadamente da Universidade Federal de Goiás, se postaram contra sua adoção. Não há um debate sobre o assunto, mas há uma crise instalada. Qual a posição do PMDB? Para tentar obter ganhos eleitorais, posta-se ao lado dos que estão insatisfeitos com o governo — aliás, tais setores nunca estiveram ao lado de Marconi Perillo (a maioria é militante político de organizações moderadas e radicais, embora existam muitos professores sérios e comprometidos de verdade com a educação) —, mas não tem uma posição sólida e uma proposta alternativa. Educação é um dos temas que o peemedebismo não “domina” e tenta apenas “instrumentalizá-lo” em termos políticos. O PT entende um pouco mais do tema Educação, mas, por vezes, a instrumentaliza ideologicamente.

Pode-se concluir que o PMDB quer o poder, mas não é visto como uma alternativa para a sociedade, porque não é assimilável como “melhor” do que o PSDB. Parece que a sociedade percebe que, bem ou mal, o PSDB tem um projeto de Estado, mas o PMDB não tem projeto algum, ou melhor, só tem um projeto de poder. No caso da crise da Educação, quando seus líderes poderiam ter se sentado com os professores rebelados e examinado suas propostas, transformando-as numa ideia alternativa às organizações sociais, o que se viu, mais uma vez, foi o peemedebismo na retaguarda, superado pela sociedade.

O deputado federal Daniel Vilela significa a renovação, em termos individuais. Porque é jovem e, assim, é contemporâneo dos goianos atuais. Mas não basta ser jovem. É preciso entender a sociedade na qual se vive, compreender suas reivindicações e caminhar um pouco adiante dela, como líder, indicando caminhos. O líder, afinal, não é apenas aquele que obedece ao que diz a sociedade. O líder é, sobretudo, aquele que sugere à sociedade um caminho para a mudança. Pode ser que, num primeiro momento, a mudança proposta não seja bem assimilada pela sociedade, mas, se a ideia for boa e se o governo conseguir colocá-la em prática, produzindo resultados qualitativos, aquela, aos poucos, vai acompanhá-lo. Pode ser o caso das OSs na Educação.

No momento, Daniel Vilela e Iris Rezende esgrimam, direta ou por intermédio de aliados, para ver quem assumirá o comando do PMDB. Mas não se trata tão-somente do comando do PMDB — a face visível. Está em jogo muito mais do que isto: uma forma de o partido deixar de ser o grande derrotado da política de Goiás. Com Iris Rezende, e não há nada de pessoal na avaliação, o partido não se renova. Por dois motivos. Primeiro, Iris Rezende é o principal responsável pelas cinco derrotas do partido, porque ele, sobretudo, perdeu a conexão com o Goiás real. Segundo, porque o peemedebista-chefe não tem mais futuro político. Sim, por causa da idade mesmo. Em 2018, quando o PMDB tentará, pela sexta-feira, arrancar o tucanato do poder, Iris Rezende estará com 85 anos. Mesmo tendo saúde, não tem estrutura física para viajar por um Estado-país, como Goiás, e se relacionar com líderes de 246 municípios. É tarefa para políticos mais jovens e pacientes, como Daniel Vilela.

Portanto, desde já, o PMDB só tem dois caminhos: renovar, com Daniel Vilela — ou outro político —, ou morrer, com Iris Rezende ou um de seus discípulos, como Iris Araújo e Nailton Oliveira. O PMDB é tão velho quanto Iris, mas a velhice que é abominável não tem a ver com idade cronológica, e sim com a caduquice das ideias, projetos e práticas. Os iristas que rolaram pelo chão com o deputado Paulo Cezar Martins são jovens, bem jovens, mas se comportaram como homens do século 19. Envelheceram antes de se firmarem como jovens. O tiro dado pelo segurança de Paulo Cezar Martins, insistimos, é um alerta, uma luz. O PMDB está velho, quase morrendo, mas não basta retirar Iris Rezende do comando. É preciso ir além e interpretar Goiás e, também, Marconi Perillo com mais precisão e inteligência. Senão o peemedebismo continuará sendo “alimento” para o tucanato por muitos e muitos anos.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.