Sérgio Moro é o único que não pode cair no conto da denúncia vazia

Em um país em que, apesar de progressos, as coisas continuam a caminhar muito mais de acordo com personagens do que com as instituições, o juiz da Operação Lava Jato não pode se dar o “privilégio” de errar o peso de sua mão, como a imprensa, de forma infeliz, acaba fazendo

Juiz federal Sérgio Moro: o homem que pode derrubar a República tem de primar pelo equilíbrio | Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Juiz federal Sérgio Moro: o homem que pode derrubar a República tem de primar pelo equilíbrio | Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A Operação Lava Jato pode ser o ponto de viragem da história brasileira no combate aos chamados crimes do colarinho branco — o que, em bom português, corresponde à prática milenar da corrupção em cifras gigantescas e altos círculos de poder, bem usual em terras nacionais desde Pedro Álvares Cabral. Ocorre que, ao contrário do destino de investigações anteriores, como a Satiagraha e a Castelo de Areia, desta vez tudo parece correr com mais serenidade e continuidade. Basta dizer que os trabalhos já se estendem por mais de um ano e já estão no 16º estágio. Fases que parte da mídia optou por chamar de “capítulos”.

Ao cidadão comum isso acaba por passar a imagem de algo que transcorre como uma novela. Esse é um gênero ao qual o brasileiro se acostumou ao longo das décadas e, por isso, vai lhe parecer mais assimilável qualquer coisa que dele se aproxime. Porém, ao mesmo tempo, há a sensação de uma demora agoniante, de uma história que não acaba nunca. A partir dessa impressão, uma ideia de que as ações são algo que estão caminhando para tomar rumo inconclusivo. Tudo poderá, mais uma vez, acabar em pizza? É a pergunta que os mais impacientes acabam por fazer.

Curiosamente, a apuração mais lenta — e, por isso, tão longa — do processo é algo que pode ser visto como bom sinal para os dois lados: os envolvidos e seus advogados acreditam que possam com isso ganhar tempo hábil para a defesa; os investigadores apostam que produzirão mais subsídios para conseguir uma condenação histórica e sem precedentes.
E a Justiça? A Justiça aguarda sempre ser provocada. Esse é o seu status. Então aí, no foco da cena, está um personagem que vem buscando o máximo de discrição, mesmo tendo em suas mãos o poder de derrubar a República: Sérgio Fernando Moro, um jovem juiz federal de 43 anos que atua pela 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba e que desde março do ano passado deixou de ser mais um na multidão.

Difícil entender que uma operação de tal envergadura se centralize em um Estado menos influente, embora importante, como o Paraná e não no Eixo Rio-São Paulo-Brasília, onde está o epicentro da economia e da política. Aliás, o fato de ser uma investigação conduzida do Paraná é um ponto bastante usado pelos advogados dos presos para desqualificá-la. Gostariam eles que a frente fosse restruturada a partir de outro local. Obviamente, gostariam ainda mais de ver Sérgio Moro fora do processo.

Isso porque o Brasil, apesar de estar progredindo como país, continua sendo um lugar onde as questões caminham muito mais de acordo com os personagens do que com as instituições. Dessa forma, se toda a ação passasse para outras mãos, a chance de reviravolta a favor de réus e possíveis réus seria bastante alta.

Inseridos nessa lógica tupiniquim, em que até mesmo o sistema induz a ter de bancar as fichas em um salvador da pátria, chega-se a um ponto crucial: como cidadãos, devemos torcer por Sérgio Moro? E então, aqui, aparece outra palavra importante: torcer.

Essa, infelizmente, é a forma com que as questões ideológico-partidárias têm sido conduzidas. Pior: de forma recrudescida ultimamente. De um lado, governistas chamados pelos oposicionistas de “petralhas”, “esquerdopatas”, “bolivarianos”; do outro uma oposição cujos integrantes são vistos pelos apoiadores da situação como “coxinhas”, “reaças”, “fascistoides”. Tudo em meio a uma batalha irracional, em que o maniqueísmo impele um lado a se considerar “o bem” e a sumariamente condenar o outro como “o mal”. Sobra pouco espaço para a ponderação, a discussão proveitosa, a busca de conciliação de pensamentos em um direcionamento verdadeiramente enriquecedor. Enfim, o que se esperaria de um debate saudável de ideias.

É nesse sentido que, então, quem está vendo o processo de um lado que não seja o diretamente afetado com os procedimentos da Operação Lava Jato torce por seu sucesso. Cada prisão é um soco no inimigo. Já os que sentem o baque com cada descoberta da investigação cobram que ela também atinja “o outro lado”, convictos que estão de que há gente ali envolvida nas falcatruas.

Pior ainda vem sendo o desempenho médio da imprensa brasileira, notadamente de alguns veículos da mídia nacional. Contaminados pelo espírito bipolar, exageram na adoção de uma posição — embora seja salutar lembrar que veículos de imprensa não precisam necessariamente ser neutros e que o jornalismo “imparcial” é, na verdade, uma utopia — e extrapolam.

Dois (entre muitos outros) episódios mostraram como a busca para que uma determinada verdade seja alcançada são arroubos que nada cooperam com a finalidade do ofício da informação: a capa da “Veja” da edição da semana anterior ao domingo do segundo turno da eleição presidencial, com o título “Eles sabiam de tudo” entre fotos de Dilma Rousseff (candidata à reeleição) e Lula. O subtítulo: “Petrolão: o doleiro Alberto Youssef, caixa do esquema de corrupção na Petrobrás, revelou à Polícia Federal e ao Ministério Público, na terça-feira passada, que Lula e Dilma Rousseff tinham conhecimento das tenebrosas transações na estatal”. Até agora, quase dez meses depois, nada ainda incriminou diretamente qualquer um dos dois.

Da mesma forma, o senador Romário Farias (PSB-RJ) foi personagem de matéria na semana passada na mesma publicação, acusado de ter R$ 7,5 milhões em conta na Suíça, dinheiro que não foi declarado à Receita Federal, o que seria o procedimento padrão para valores acima de US$ 100 mil. O ex-jogador e hoje político negou tudo e ainda fez ironias. Para concluir, foi até o país europeu para averiguar in loco a situação. E declarou-se “chateado” por não ter notícia do montante. Nova ironia para dar o xeque-mate: ou a revista prova o que disse ou será processada.

Os parágrafos acima não querem isentar ou inocentar Lula, Dilma ou Romário. Servem apenas para mostrar que a imprensa pode usar seu poder para, inclusive, ajudar a antecipar condenações. Isso foi feito, em larga escala, em outras oportunidades, em casos diversos, em que nomes foram arrolados em listas vazadas seletivamente e divulgadas sem qualquer cuidado.

Sérgio Moro não pode se dar esse tipo de “privilégio”. Por isso, mesmo a prisão de uma pessoa considerada até então idônea, como o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva — presidente da Eletronuclear e considerado o pai do programa nuclear brasileiro — tem de ser levada a sério e não ao sabor das torcidas. Diante de toda a gravidade da operação e da repercussão do caso, o juiz não pode ser superficial na análise da coleta de dados e “mandar prender” sem que os pedidos tenham fundamentos muito bem embasados. Isso porque juiz não “torce”. É bem verdade que, apesar de uma sátira conhecida dizer que “promotores acham que são deuses e juízes têm certeza disso”, o certo é que todos são humanos. Haverá erros das partes? Sim, eventualmente. Oxalá que nenhum deles invalide tanto trabalho e tempo investido. E que os acertos possam promover realmente a virada na sensação de impunidade de crimes de grande porte cometidos por gente poderosa.

Uma resposta para “Sérgio Moro é o único que não pode cair no conto da denúncia vazia”

  1. Avatar Luiz Carlos Lomba disse:

    Muito competente! Grande brasileiro!

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