Se não falou a verdade sobre o mensalão, Lula da Silva estaria dizendo a verdade sobre o petrolão?

O ex-presidente do Uruguai José Mujica disse para dois jornalistas, autores de um livro sobre seu governo, que Lula da Silva sabia do mensalão e que pagar parlamentares “era a única forma de governar o Brasil”

Livro sobre o ex-presidente José Mujica contém revelações explosivas sobre o  ex-presidente Lula da Silva, que pode ter sido um dos formuladores do mensalão | Foto: Reprodução

Livro sobre o ex-presidente José Mujica contém revelações explosivas sobre o
ex-presidente Lula da Silva, que pode ter sido um dos formuladores do mensalão | Foto: Reprodução

“Uma Ove­lha Ne­gra no Po­der” (E­di­­tora Suda­mericana) é um livro sobre o governo do ex-presidente do Uruguai José Mujica. Escrita pelos jornalistas Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, a obra traz revelações de José Mujica sobre Lula da Silva e confirma que o ex-presidente do Brasil sabia do mensalão, portanto não se tratou de traição dos “perdoados” José Dirceu e Delúbio Soares. As conversas com o líder uruguaio foram todas gravadas. A seguir, o Jornal Opção publica dois trechos do livro (traduzidos pelo jornal “O Globo”).

1 — “Lula teve que enfrentar um dos maiores escândalos da História recente do Brasil: o mensalão, uma mensalidade paga a alguns parlamentares para que aprovassem os projetos mais importantes do Poder Exe­cutivo. Compra de votos, um dos mecanismos mais velhos da política. Até José Dirceu, um dos principais assessores de Lula, acabou sendo processado pelo caso.”

2 — “‘Lula não é um corrupto como [Fernando] Collor de Mello [hoje senador e absolvido pelo Su­premo Tribunal Federal, o que os autores do livro não informam] e outros ex-presidentes brasileiros’, disse-nos Mujica, ao falar do caso. Ele contou, além disso, que Lula viveu todo esse episódio com angústia e com um pouco de culpa. ‘Neste mundo tive que lidar com muitas coisas imorais, chantagens’, disse Lula, aflito, a Mujica e Astori [o ex-vice-presidente do Uruguai Danilo Astori], semanas antes de eles assumirem o governo do Uru­guai. ‘Essa era a única forma de governar o Brasil’, se justificou. Os dois tinham ido visitá-lo em Brasília, e Lula sentiu a necessidade de esclarecer a situação.”

O depoimento de José Mujica, que Lula certamente não terá como desmentir — se o fizer, estará chamando um grande aliado de “mentiroso” —, confirma os alertas tanto do ex-presidente do PTB e ex-deputado federal Roberto Jefferson quanto do governador de Goiás, Marconi Perillo. O petebista e o tucano relataram à imprensa que avisaram Lula de que alguns de seus principais aliados — quer dizer, seu governo — estavam comprando apoio político. O petista-chefe sempre refutou a informação de que sabia de tudo. Pu­blicamente, frisava que se sentia “traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tivera conhecimento”.

No meio político, o mensalão não era um grande segredo. Várias pessoas sabiam o que estava ocorrendo, inclusive adversários políticos do PT. Assim, com a ampla estrutura de informação à sua disposição, Lula não tinha como não saber o que estava acontecendo. O comentário de José Mujica sugere — a palavra sugere merece ser enfatizada — que o ex-presidente é um dos criadores do mensalão, ao admitir: “Essa era a única forma de governar o Brasil”.

Uma questão chave que o país e a esquerda petista não podem desconsiderar: quem está dizendo que Lula sabia do mensalão, e até pode ter sido o seu formulador, é um grande amigo e aliado político. Pepe Mujica não está denunciando o ex-presidente. Nada disso. Ele está apenas dizendo que, com dificuldade para governar o país, Lula precisou criar — ou pelo menos viu como inevitável sua criação por aliados — o mensalão. Este, portanto, não é “filho” só de parceiros supostamente aloprados, como José Dirceu e Delúbio Soares, e de um publicitário esperto, Marcos Valério de Souza. É produto de uma estratégia de Lula para governar. Como se costuma dizer, de maneira ligeiramente imprecisa, era para garantir a governabilidade.

Marconi Perillo foi um dos primeiros a alertar Lula da Silva de que seus aliados estavam comprando apoio político. O petista não quis “ouvi-lo” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marconi Perillo foi um dos primeiros a alertar Lula da Silva de que seus aliados estavam comprando apoio político. O petista não quis “ouvi-lo” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Ao explicitar que Lula sabia do mensalão, longe de atacá-lo, José Mujica o está defendendo. O ex-presidente teria sido forçado a criar o mensalão para conseguir governar. Surpre­enden­te­mente, ao fazer a revelação, o líder político uruguaio está “elogiando” Lula. Porém, um aliado do chefe do Lulopetismo poderia dizer: “Como um amigo desses, o PT não precisa de inimigos”. Petistas certamente dirão: “Jovens fumam maconha mas quem ‘viaja’ é Mujica”. Se disserem, será uma deselegância.

As relações entre Lula e Pepe Mujica são tão íntimas que, quando nem o PT sabia que Dilma Rousseff seria candidata a presidente da Re­pública, o brasileiro já havia informado ao uruguaio. “Mujica vê Dilma como uma mulher executiva, que resolve tudo muito rápido. Como uma administradora melhor do que Lula, mas sem o carisma dele”, disse Andrés Danza ao “Globo”.

Do ponto de vista da história, como certamente não haverá nenhuma penalidade judicial para Lula — nem mesmo uma acusação de perjúrio —, ao menos fica o registro, aparentemente definitivo [leia os dois últimos parágrafos], de que o petista-chefe sabia do mensalão e o avaliou como uma necessidade para que conseguisse governar.

Se Lula faltou com a verdade sobre o mensalão, na versão apresentada por José Mujica, muito provavelmente não está apresentando uma versão fidedigna sobre o petrolão. Tudo indica que tanto a presidente Dilma Rousseff quanto Lula sabiam do petrolão. A ressalva é que saber não é o mesmo que participar das falcatruas. Mas, como autoridades, se sabiam e, mesmo assim, não paralisaram a corrupção na Pe­trobrás, dispondo de meios para tal, como demissão de auxiliares mãos leves, podem ser penalizados porque fugiram à responsabilidade, e num momento em que a coisa pública precisava ser defendida e o interesse público, acima do interesse particular, preservado.

As declarações de José Mujica — ainda que não muito amplas — sinalizam que os problemas do PT, em termos de corrupção, pelo menos em termos de se saber o que estava acontecendo nos porões e altos gabinetes, não foram criados tão-somente pelo baixo e médio cleros. A formulação deve ter sido autorizada pelo alto clero. É o que sugere o livro no qual o líder uruguaio conta bastidores do governo de Lula.

Versão diferente

Ao portal G1, um dos autores do livro, Andrés Danza, sublinhou que, ao falar em “coisas imorais”, Lula não estaria se referindo “especificamente ao mensalão”. “Não, Lula estava falando sobre as ‘coisas imorais’ e não sobre o mensalão. O que Lula transmitiu ao Mujica foi que é difícil governar o Brasil sem conviver com chantagens e ‘coisas imorais’”, escreveu Danza para o G1, via e-mail. Parece um jogo de palavras, e talvez Pepe Mujica tenha sido pressionado por Lula — dada a repercussão altamente negativa para o político brasileiro —, mas a nuance apresentada pelo jornalista uruguaio merece ser levada em consideração.

O Instituto Lula disse ao G1 que não se manifestará sobre o livro, que brevemente será lançado no Brasil, informou Danza.

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