Ronaldo Caiado “reabre” e Daniel Vilela “fecha” portas políticas para Iris Rezende e para o irismo

Situação do pré-candidato do PMDB a governador não é fácil, porque sua casa está dividida. O prefeito de Goiânia prefere bancar aquele que considera como seu oxigênio, o senador do DEM

Se uma imagem vale por mil palavras, o que dizer desta fotografia que mostra Iris Rezende e Ronaldo Caiado abraçados, rindo e quase em êxtase? Que Daniel Vilela, se pretende mesmo disputar o governo de Goiás, precisa ficar atento | Foto: Reprodução

Há políticos que dizem mais ou menos assim: “Vamos deixar para discutir a disputa para o governo de Goiás só em 2018”. A frase parece de um realismo ímpar. Mas, se o leitor ouvi-la, mesmo de políticos categorizados, é preciso que saiba três coisas.

Primeiro, o político não está dizendo toda a verdade. Porque, se experimentado, sabe que, quando chegar 2018, os principais nomes para a disputa do governo de Goiás estarão definidos pelo trabalho de base, de pré-estruturação da campanha, feito em 2017. O político estaria “mentindo”? Não; está articulando — o que é diferente. Protelar é uma das formas de articular, pressionar e acumular energia.

Segundo, se o político acredita mesmo que será possível os candidatos exclusivamente em 2018, significa que está fora das articulações de 2017. Portanto, ao sugerir que se deve discutir eleição e chapa majoritária unicamente no próximo ano, está dizendo uma coisa mas sugerindo outra coisa, subliminar. Estaria fora das jogadas e, deste modo, quer participar delas. Ao empurrar a “escolha” do postulante para adiante está indicando que, ao menos no momento, está fora da composição do xadrez do futuro.

Terceiro, comprovando o óbvio de que o futuro (que nunca existe, é a ficção que cria esperança, que alimenta os indivíduos) se decide no presente, aos poucos, o PSDB, o PMDB e o DEM, três partidos tradicionais, estão com seus blocos nas ruas.

José Eliton

O PSDB banca o vice-governador José Eliton para o governo. Tanto o governador Marconi Perillo, do PSDB, quanto José Eliton estão se movimentando e criando uma estrutura gigante para que, com o nome consolidado, a candidatura se torne competitiva. O José Eliton candidato está sendo construído em 2017. Para que chegue em 2018 amplamente conhecido, visto como gestor respeitado e político inovador, de matiz republicano — daí o contato com todos os prefeitos, não apenas os da base governista —, é que a base do governo, com Marconi Perillo na linha de frente, está trabalhando seu perfil, reforçando-o. O que se está projetando é a estadualização do nome de José Eliton — além da tese, mais sutil, de que a base aliada, mesmo no poder há quase 20 anos, está se renovando, e com um político que se aproxima mais do perfil de um João Dória do que dos políticos tradicionais. Frise-se que o discurso firme e direto de José Eliton tende a agradar a sociedade — ainda que, aqui e ali, possa desagradar aliados mais sensíveis.

Vilelas no PMDB

Daniel Vilela e Maguito Vilela: a vitória de um deles para o governo de Goiás sela, em definitivo, o fim do irismo na política. Por isso o irismo prefere Caiado

O PMDB tem três nomes para a disputa de 2018: o deputado federal Daniel Vilela, o ex-governador Maguito Vilela e, sim, o indefectível Iris Rezende. Mas Iris Rezende de novo? Por que não? O senador Ronaldo Caiado, que não apoia nenhum dos Vilelas, apoiaria o decano peemedebista imediatamente. A pedra no caminho do prefeito de Goiânia nem é a idade — 85 anos, em 2018 —, e sim o poder dos Vilelas.

Pelo quadro de hoje, o candidato do PMDB a governador de Goiás será um dos Vilelas — Maguito ou Daniel. Os dois políticos, que montaram uma aliança ampla — cercando Goiânia a partir do interior, onde Iris Rezende perdeu aliados —, são os definidores do nome do postulante peemedebista para 2018. Maguito Vilela quer ser candidato, é visto como agregador, mas a pedra na sua rota não é mais Iris Rezende, e sim seu filho. Em 1998, quando era o favorito para o governo, abriu espaço para Iris Rezende ser o candidato a governador — a tragédia do PMDB se deve a uma certa fragilidade de Maguito Vilela e à força antes excessiva (autocrática) do atual prefeito da capital —, o que, ao longo do tempo, o descaracterizou como líder. Tanto que, quando disputou contra um candidato menos forte, Alcides Cidinho Rodrigues, em 2006, perdeu a eleição.

Agora, com Daniel Vilela em campanha aberta, controlando as bancadas estadual e federal, além das principais prefeituras do partido, dificilmente Maguito Vilela será capaz, até por ser seu pai, de atropelá-lo. Se o deputado federal, ao se tornar mais conhecido, firmar-se como postulante, aparecendo relativamente bem nas pesquisas — o que ainda não ocorre —, dificilmente deixará de ser candidato. O pai o apoiará.

No PMDB há alguém que prefere que o jogo seja remetido para 2018? Exceto Iris Rezende, que participa do xadrez dos Vilelas apenas como peão, os peemedebistas anteciparam o debate e mesmo o lançamento do nome, ou dos nomes: Daniel Vilela e Maguito Vilela. O segundo, “menos candidato”, poderá até esperar um pouco mais — por ser mais conhecido. Mas o deputado, assim como José Eliton, precisa firmar o nome este ano.

Porém, se vai enfrentar uma base aliada encorpada — eventuais dissidências não reduzem sua força — e altamente experimentada em embates eleitorais (não é derrotada há quase 20 anos), Daniel Vilela tem problemas em sua base. Por sua força na cúpula do partido — tornou-se presidente derrotando o candidato de Iris Rezende —, tende mesmo a ser o candidato. Entretanto, como enfrentar uma armada até aqui invencível, com uma casa dividida?

Jogo de Iris

Em geral moderados e perceptivos, os Vilelas sabem, mais do que seus liderados, que Iris Rezende não articula com eles. Por ser uma raposa política, ao receber a bancada estadual e Daniel Vilela, o prefeito sugere que é partidário e que, por isso, vai apoiar o candidato do PMDB a governador. É o salamaleque típico da política e da vida. O jogo de Iris Rezende é outro. Aliás, pode até apoiar a candidatura de Daniel Vilela, mas dificilmente participará de maneira ativa de sua campanha — alegando, por certo, que, como recebeu uma prefeitura em situação caótica, com uma suposta dívida de 1,5 bilhão de reais, não pode ausentar-se com frequência. Este é o pretexto; a explicação mais próxima da realidade é outra.

A queda política de Iris Rezende começou com suas derrotas para o grupo de Marconi Perillo. Mas tais perdas não reduziram sua força no PMDB. Tanto que, num período de 20 anos (contando de 1998 a 2018), disputou três eleições para governador e três eleições para prefeito de Goiânia. Quer dizer, manteve-se como principal líder do partido. No entanto, no caso de vitória de Daniel (ou Maguito) Vilela em 2018, o poder de Iris Rezende, circunscrito à capital, será cada vez menor. A hegemonia do vilelismo selará a “morte” política do irismo.

Político dos mais atentos, Iris Rezende sabe que uma derrota do vilelismo em 2018 o mantém com um dos principais líderes do PMDB em Goiás. Por isso, o mais provável é que o veterano político não se empenhe na campanha de um Vilela para governador. Há outra questão, tratada com luvas de pelica.

Na verdade, Iris Rezende não se tornou líder político por aceitar os fatos de maneira passiva. Ele sempre procura “fabricar” os fatos, pois é um político mais ativo do que reativo. Por isso, enquanto aparentemente não está se movimentando, articula, com alguns aliados, a formatação da tese de que Daniel Vilela é “um bom moço para o futuro” e que, para ganhar em 2018, é preciso disputar com um peso-pesado da estirpe de Ronaldo Caiado. Quando o prefeito de Catalão, Adib Elias, diz que o PMDB precisa bancar um candidato para ganhar, e não cita o nome de Daniel Vilela, está tão-somente ecoando a opinião de Iris Rezende: o nome do irismo é, para o governo, Ronaldo Caiado.

Iristas admitem que Iris Rezende tentou (e tenta) filiar Ronaldo Caiado no PMDB, mas o senador resiste. Porque, escolado, o presidente do partido Democratas sabe que, apesar da força do prefeito em Goiânia, os Vilelas mantêm o controle da máquina partidária. Iris Rezende não tem como dar garantia de que, uma vez filiado ao PMDB, Ronaldo Caiado será candidato a governador. É isto, mais do que lealdade ao DEM, que mantém o senador com os pés fora do peemedebismo.

Ao sinalizar que não quer nenhum Vilela na disputa o governo, ao mesmo tempo que mantém a articulação pró-Ronaldo Caiado — sugerindo que um dos Vilelas deveria ser candidato a senador ou a vice-governador —, Iris Rezende indica, ao seu modo “sutil”, quem de fato o empolga. No caso de Daniel Vilela candidato, poderá até subir no palanque, em Goiânia, mas dificilmente acompanhará o jovem político ao interior. Será um apoio proforma. Nada mais.

Se Daniel Vilela e Ronaldo Caiado forem candidatos a governador, e os indícios de que disputarão são fortes, com quem Iris Rezende ficará? Publicamente, pode até sustentar que apoia o nome do PMDB. Mas certamente votará em Ronaldo Caiado e, até, poderá liberar alguns de seus aliados para apoiá-lo. A ajuda poderá ser política e, inclusive, financeira. Na prática, líderes quase no ocaso, Iris Rezende e Ronaldo Caiado pertencem, hoje, ao mesmo grupo político. De algum modo, um contribui para a sobrevivência do outro. O senador torna, de algum modo, o PMDB mais irista. Aliás, se Ronaldo Caiado fosse mais articulado e menos contencioso em Brasília, Iris Rezende seria mais forte, junto ao presidente Michel Temer, tanto em termos administrativos quanto políticos.

Aparentemente, a “casa” de Daniel Vilela — o PMDB — irá para o pleito de 2018 dividida. É uma forte barreira para o jovem político. Resta saber se intransponível…

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