Quadro político começa a ficar mais perigoso para Ronaldo Caiado

Não se pode sugerir que o candidato do DEM não tem chance de ser eleito governador, mas é possível inferir que a campanha, com a apresentação dos candidatos e propostas, tende a mudar o quadro eleitoral

Ronaldo Caiado, José Eliton e Daniel Vilela: o primeiro lidera, nas pesquisas de intenção de voto, com certa folga, mas os eleitores certamente não ficarão surpresos se o quadro mudar com o embate eleitoral e a apresentação de projetos para governar Goiás

Pesquisadores mapeiam o eleitorado brasileiro há vários anos, detalhando como pensa, quando decide votar em determinado candidato e se, de indeciso, pode se tornar decidido a bancar um ou outro postulante. Sabe-se que não é seu hábito tomar decisões apressadas e costuma decidir em cima da hora. O que prova que aprecia ter mais informações, tanto sobre os candidatos quanto a respeito de seus projetos, para só então fazer sua opção. As reviravoltas eleitorais resultam do caráter reflexivo dos eleitores. De seu, digamos, amadurecimento.

Um candidato que a dois meses das eleições é apresentado como virtualmente vitorioso — caso de Celso Russomanno, em São Paulo, em eleições anteriores — pode, de repente, ficar em segundo ou terceiro lugar. Pode, por vezes, ficar fora do segundo turno. Por isso, aos que acatam a tese de que há favas contadas em política e acreditam em vitória por antecipação, recomenda-se certa cautela.

Procede que os eleitores não examinam todas as ideias de um projeto de governo e é natural que avaliem basicamente seus principais pontos. Quanto mais palavroso um programa de governo, cheio de minúcias que nada dizem de expressivo, mais afasta aqueles que vão dizer o que pensam nas urnas. Um plano precisa ser claro e objetivo. Entretanto, se o candidato, ao apresentá-lo, não for convincente, por mais que as ideias sejam de primeira linha, os eleitores vão trocá-lo por outro postulante, de comportamento oposto.

Os eleitores observam, com extrema atenção, a seriedade com que um candidato apresenta o que pretende fazer se for eleito governador ou presidente da República. Portanto, recomenda-se que os postulantes a cargos executivos levem seus planos de governo a sério, mas também que entendam que devem se apresentar de maneira a serem levados a sério. Os eleitores podem ficar com a impressão de que o candidato e o programa apresentado são quase uma coisa só. O candidato a presidente pelo PSL, Jair Bolsonaro, deixa a impressão, quando responde a uma formulação mais técnica, que está nas nuvens — à espera que seu “chip” salvador, o economista Paulo Guedes, apareça e fale o que deve dizer aos eleitores. O mesmo não ocorre com Ciro Gomes, do PDT, Geraldo Alckmin, do PSDB, e Henrique Meirelles, do MDB, que demonstram segurança e firmeza.

Caiado Bakunin

Em Goiás, a impressão que se tem é que os candidatos a governador — Ronaldo Caiado, do DEM, José Eliton, do PSDB, e Daniel Vilela, do MDB — saberão o que fazer se forem eleitos. Parecem qualificados. Tecnica­mente, até por sua experiência administrativa — foi presidente da Celg, secretário de Segurança Pública, vice-governador e, agora, governador —, José Eliton é o que mais tem conhecimento do que é possível fazer. Precisa, porém, transformar seu imenso conhecimento num discurso menos técnico, quer dizer, precisa comunicá-lo com o máximo de clareza para criar empatia com os eleitores.

Ronaldo Caiado passa a imagem de que sabe tudo, o que pode ser interpretado como empáfia. Do que fala fica-se com a impressão de que tem a solução para tudo, o que pode gerar desconfiança entre os eleitores mais escolarizados — aqueles que sabem que propostas transformadoras, ao esbarrarem num orçamento limitado, poderão nada transformar.

Ainda que seja visto como agente da mudança, até por ser jovem, Daniel Vilela, se quiser obter algum sucesso, precisa apresentar suas ideias de maneira mais densa. Exatamente por ser jovem, com menos de 35 anos, os eleitores ficarão de olho no que diz, para verificarem se tem segurança e competência, isto é, condições técnicas e maturidade para gerir um Estado como Goiás.

Daniel Vilela, embora menos experiente, supera Ronaldo Caiado num aspecto: não apresenta o mundo como se fosse resultado de algum armagedom. Seu tom, assim como o de José Eliton, nada tem de apocalíptico — o que gera empatia. Já o postulante do DEM sugere uma mudança radical, como se tudo estivesse errado, e os eleitores sabem que o mundo não é assim. Embora seja um político de direita, o presidente do partido Democratas parece acreditar numa “revolução” — em revirar a sociedade de pernas para o ar — e não em uma “evolução”. Destruir tudo para reconstruir tudo — o que parece uma ideia não de liberais, e sim de anarquistas ao estilo do russo Mikhail Bakunin.

Ao contrário de Ronaldo Caiado, que sugere que pretende “incendiar” o mundo “velho”, para criar um mundo “novo” — sem que se apresente uma ideia objetiva do que realmente se pretende fazer —, José Eliton e Daniel Vilela sugerem, ao menos por aquilo que se verifica nas suas entrevistas, que são apóstolos da construção, da evolução. Apostam que a esperança gera redenção para os indivíduos e que o consenso pode ser buscado de maneira pacífica. São, insista-se, racionalistas de uma linhagem que pode ser chamada de “construtiva”.

Observa-se que Ronaldo Caia­do, supostamente acatando orientação de um marqueteiro, quase não tem dado opiniões, exceto pontuais, sobre temas complexos. O senador tem espírito de cruzado e responde aos adversários de bate-pronto — num tom, por vezes, ameaçador, ainda que seja, por assim dizer, muito mais civilizado que Jair Bolsonaro, que alguns chamam, ao menos nos bastidores, de “boca do inferno da política brasileira”. O que se nota é que estão “escondendo” Ronaldo Caiado para que o estilo de ser e reagir de Ronaldo Caiado não apareça.

É provável que, com a campanha se acirrando, pelo confronto de ideias, o “Caiadinho Paz e Amor” — como o Lula da Silva de 2002 — desapareça e o guerreiro Ronaldo Caiado apareça, com seu discurso duro e, não raro, implacável, o que pode assustar, não seus adversários, e sim os eleitores.

Ronaldo Caiado, na verdade, não mudou. Seu novo estilo, low profile, é uma construção do marketing. O prazo de validade do personagem — sim, o que se tem, no momento, é um personagem conduzindo o indivíduo real — deve ser a campanha. Quando cutucado, com vara curta ou longa, responderá, possivelmente da maneira habitual, com rispidez e com aquele riso contraído, que parece um esgar e que, no fundo, é sinal de uma irritação profunda.

Obra aberta

O que decidirá quem será governador de Goiás a partir de 2019 e até 2022, não são as pesquisas atuais — que retratam um quadro estanque, sem exposição do contraditório e até das imagens dos candidatos —, e sim a campanha. Os debates, a apresentação dos programas e dos próprios candidatos, o choque de ideias e personalidades serão decisivos para que os eleitores escolham seu governador. No momento, não há como escolher, porque, embora todos os candidatos tenham apresentado um programa de governo, os eleitores não puderam assistir o conflito entre os postulantes.

Pode-se sugerir, portanto, que Ronaldo Caiado precisa ficar mais preocupado com seus índices nas pesquisas — no momento, lidera todas as pesquisas de intenção de voto — do que seus adversários. Com a campanha, com a exposição do contraditório e da “estampa’ dos candidatos (avalia-se tudo numa campanha), eventualmente muda-se o quadro estabilizado na pré-campanha. Não se está dizendo que o senador do Democratas não tem chance de ser eleito — porque tem —, mas sim que é cedo para tratá-lo como próximo governador, porque a campanha mal começou. O tempo dos políticos e, mesmo, dos jornalistas não é o mesmo dos eleitores, que começam a prestar atenção nos candidatos mais tarde, quando política e eleições começarem a fazer parte de suas vidas de fato.

Talvez não seja assim, mas tem-se a impressão que Ronaldo Caiado está no seu limite, ou seja, não tem como crescer — ressalve-se que seus índices nas pesquisas de intenção de voto são altamente positivos — e teme cair. Se descer, pouco que seja, pode-se criar uma onda e a queda tende a se ampliar. José Eliton e Daniel Vilela, dada a força de suas máquinas eleitorais — o PSDB e o MDB comandam armadas poderosas, com vários prefeitos, em todo o Estado. A estrutura é grande e sólida, e assim que se movimentar, se tornando uma massa uniforme e coesa, pode contribuir para mudar o quadro.

Quando se diz que a eleição de 2018 é uma obra aberta não se está indicando que Ronaldo Caiado não tem chance de ser eleito governador — nenhum analista deve ter a empáfia de sugerir isto —, e sim que o quadro, com a campanha apresentando os candidatos e seus programas de governo, pode mudar. A tendência é que, no início de setembro, o quadro esteja mais embolado, com a frente do senador democrata caindo para níveis perigosos. Para ele.

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Kesley

Eu acho ta perigo para o jose eliton . To achado que eli vai segundo turno.a midia ta preucupada . O jose eliton nao sobe na pesquiza.

Paulo Meirelles

Realmente… perigoso de ganhar no primeiro turno !!!!

Wesley

O atual governador tem que se preocupar é com o candidato do MDB e tentar ir pra o segundo turno, tentar…

Wenderson

Não fazer isto é um grande erro de estratégia…

Franklin

Na hora do debate a máscara vai cair e o Ronaldo Caiado vai chamar algum outro candidato para a porrada, como fez com seus colegas de senado.

Simar

Verdade. Ele é muito valente