A “prisão” do jogador Neymar e a “morte” do entertainer Jô Soares

Se condenado na Espanha, o atacante do Barcelona e da seleção brasileira pode pegar pelo menos oito anos de cadeia. No Brasil, há quem queira a morte do humorista e apresentador da TV Globo

Jô Soares (homenageando Neymar) pode ser criticado, até com certa aspereza civilizada,  mas tem o direito de gostar da presidente  Dilma Rousseff e de tratá-la com cortesia | Neymar, que jogou mal contra a seleção da Colômbia, responde a processo na Espanha, é investigado pela Receita Federal e deve ser denunciado por falsidade ideológica pelo MPF | Reprodução/TV Globo/ Leo Correa/Mowa Press

Jô Soares (homenageando Neymar) pode ser criticado, até com certa aspereza civilizada, mas tem o direito de gostar da presidente Dilma Rousseff e de tratá-la com cortesia | Neymar, que jogou mal contra a seleção da Colômbia, responde a processo na Espanha, é investigado pela Receita Federal e deve ser denunciado por falsidade ideológica pelo MPF | Reprodução/TV Globo/ Leo Correa/Mowa Press

A ditadura civil-militar “viveu” 21 anos — de 1964 a 1985 — e “morreu” há 30 anos. Durante algum tempo, sobretudo entre militantes da esquerda e mesmo entre políticos de centro, falou-se na persistência de “entulhos autoritários”. A “banda” passou, a moça saiu da janela e o país, apesar de certos arroubos autoritários do petismo, democratizou-se. Mas os ranços autoritários — beirando o totalitarismo — volta e meia, potencializados pela comunicação direta e rápida das redes sociais, reaparecem. Jô Soares, da TV Globo, entrevistou a presidente Dilma Rousseff na sexta-feira, 12, no Palácio da Alvorada, em Brasília. Como não se trata de um jornalista, e sim de um expert em entretenimento, a conversa, vista como light por muitos, notadamente por aqueles que não comungam das ideias do PT, deixou várias pessoas irritadas. Na sexta-feira, 19, na porta da casa do profissional do Grupo Globo, alguém pichou: “Jô Soares morra”.

A pessoa que escreveu isto provavelmente não pensa em matar Jô Soares e quis, quem sabe, tão-somente manifestar seu desagrado com a entrevista em tese “áulica”. Trata-se de uma demonstração de mal-estar. Mas é inegável que se trata de uma brutalidade e um incentivo a comportamentos bárbaros. A crítica poderia ter sido expressa assim: “Jô Soares, seu governista!”, “Jô Soares, seu adesista!” ou, num texto mais longo, “Jô Soares, volte ao bom caminho, não o dos tucanos, e sim à independência crítica”. Uma discordância no terreno político, mantendo-se a civilidade. Palavras não são mas podem se tornar atos. Mas é óbvio que quem escreveu “Jô Soares morra”, uma formulação corrosiva e chamativa, sabe que uma frase forte tem mais apelo do que um texto sólido mas educado.

Bem-humorado, quase sempre sardônico, quando se trata da presidente Dilma Rousseff, o humorista, escritor e apresentador Jô Soares derrete-se. Seu entusiasmo parece mais pessoal do que com o governo em si. A personalidade circunspecta da petista-chefe parece agradá-lo. Aos 77 anos, independente espiritual e financeiramente, Jô Soares tem o direito de ter suas simpatias e idiossincrasias. Mais do que isto, tem o direito de achá-la “simpática”, “séria” e “culta” — assim como seus telespectadores têm o direito de criticá-lo pelo suposto adesismo.

Recentemente, o jornal “O Globo” e o Universo Online (UOL) divulgaram que vários brasileiros, como Marília Pêra e Jô Soares, têm contas na Suíça. O SwissLeaks revelou que o HSBC, que está saindo do Brasil, operou contas de empresários, políticos e artistas patropis. Jô Soares contrapôs que abriu conta numa agência do HSBC nos Estados Unidos. Porém, os documentos obtidos sugerem que o celebrado entertainer mantém conta bancária na Suíça. Não é crime ter contas na Suíça — país que “lava” dinheiro da criminalidade internacional — e em outros paraísos fiscais. Entretanto, suspeita-se de que empresários, políticos e artistas estejam sonegando impostos. Ressalte-se que, até agora, não há nada provado contra Jô Soares. A única informação objetiva é que possui conta bancária fora do Brasil.

O fato de se ter descoberto que tem conta na Suíça, ou noutro país, teria arrefecido a independência de Jô Soares? Ele estaria sendo pressionado? Não há nenhuma evidência de que, ao se mostrar simpático à presidente Dilma Rousseff, tratando-a com respeito e cortesia, o encanecido apresentador esteja sob pressão da Receita Federal.

Criticar Jô Soares, em virtude de suas simpatias pessoais — que não parecem político-ideológicas —, é lícito, mas exigir que pense como seus críticos, numa patrulha irracional e virulenta, que chega a desejar a morte do “adversário”, não é democrático. Entra-se no perigoso terreno da barbárie e, paradoxalmente, pode cristalizar a ideia de que Dilma Rousseff está se tornando uma vítima, ao mesmo tempo que fortalece a tese de que os críticos do PT, eles sim, é que são autoritários.

Mau humor de Neymar

Na quarta-feira, 17, a seleção brasileira, jogando muito mal, perdeu para a seleção colombiana por 1 a 0. Como a Colômbia jogou com sua camisa amarela, embora não tenha feito um grande partida — se tivesse, o Brasil teria perdido por um placar mais elástico —, às vezes ficava-se com a impressão de que a seleção patropi não estava jogando com sua camisa azul. É provável que, por vezes, o telespectador deve ter pensado que a Colômbia era o Brasil e o Brasil era a Colômbia.

Durante o jogo, o que se viu em campo foi uma seleção brasileira catatônica, à espera do lance salvador de Neymar — a tal “teoria da neymardependência”. Porém, o craque não estava em seus melhores dias e parecia mal humorado — logo ele, um garoto de 23 anos, que joga com alegria e, mesmo milionário, como o fominha que é. Ao final da partida, irritado, mostrou-se agressivo e acabou levando um cartão vermelho.

Terminado o jogo, e posteriormente num dos telejornais da rede, os comentaristas da Globo falaram do mau do humor de Neymar. Mas não esclareceram com precisão os problemas extracampo do notável atacante.

A revista “Época” publicou uma capa com um título criativo, “A sujeira do jogo bonito”, sobre, por assim dizer, um negócio chamado Neymar. Sim, o atleta espetacular é um homem e, ao mesmo tempo, um empreendimento. O homem-mercadoria, diria Karl Marx, ou o trabalhador-capitalista, diria Thomas Piketty. Entretanto, como o futebol é um grande negócio para a Globo, o narrador Galvão Bueno e os comentaristas Casagrande e Caio não se alongaram.

Entrevistado, Daniel Alves, colega de seleção e Barcelona, culpou os árbitros pela irritabilidade de “Ney” — como o nominou. De fato, durante os jogos, os adversários “batem” duro e, por isso, Neymar às vezes se irrita. É humano. Mas a irascibilidade atual não é a mesma de outros tempos.

A imprensa — as reportagens mais qualificadas são da “Época” e da “Folha de S. Paulo” — publicou que Neymar pode ser preso pela Justiça espanhola, se for condenado, ao lado do pai, Neymar da Silva Santos. Neymar e seu pai; Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, ex-presidente do Santos; Odílio Rodrigues Filho, ex-vice-presidente do Santos; Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona; Josep María Bartomeu, presidente do Barcelona; o Barcelona; o Santos e a N&N Consultoria, empresa da família de Neymar, são réus em processo na Espanha. Os crimes que teriam cometido: corrupção privada e estelionato de contrato simulado (na transferência do craque do Santos para o Barcelona). O jogador pode ser condenado a oito anos de prisão.

O Grupo DIS, que havia investido em Neymar, recorreu à Justiça espanhola alegando que, na sua venda, tanto o jogador quanto o Santos e o Barcelona o ludibriaram. A estrela do Barça, ao lado de Messi, teria custado bem mais — 325 milhões de reais (94 milhões de euros) — do que o que foi divulgado. O DIS, que detinha 40% dos direitos econômicos de Neymar, quer receber mais 86 milhões de reais (25 milhões de euros). Por isso denunciou a suposta fraude na transação, o que, agora, a Justiça espanhola vai averiguar. O pai de Neymar diz que não infringiu a lei e que não foi notificado pela Justiça.

Para piorar a situação de Neymar e de seu pai, a Receita Federal está investigando seus negócios e, se comprovada a sonegação milionária, o jogador terá de pagar a “maior multa já aplicada a um esportista no Brasil”. E o Ministério Público Federal deve denunciá-lo por “falsidade ideológica”.

O mau humor de Neymar está explicado, porém não justificado. Porque, antes de tudo, deve se comportar como profissional e, fora de campo, como cidadão. O fato de ser Neymar, o craque que encanta o mundo, não significa que se tornou Deus, que está acima dos demais mortais e, portanto, das leis.

Uma resposta para “A “prisão” do jogador Neymar e a “morte” do entertainer Jô Soares”

  1. Avatar José Roozevelt Vieira da Silva disse:

    Se eu fosse ele, pedia para ser julgado aqui no Brasil pela Justiça Brasileira! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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