Prisão de Delcídio do Amaral sugere que PT é pai de corrupção sistêmica

O PT abriu as comportas da corrupção para subordinar as elites conservadoras dos Estados e, num processo sistêmico, contaminou-se de maneira incontornável

Lula da Silva, Delcídio do Amaral e Dilma Rousseff: o senador não é um político anódino do PT; embora o partido o esteja abandonando no pantanal de supostas irregularidades, trata-se de um dos grãos-mestres do petismo no Senado e na política nacional | Fotos: Divulgação/Fotomontagem

Lula da Silva, Delcídio do Amaral e Dilma Rousseff:
o senador não é um político anódino do PT; embora o partido o esteja abandonando no pantanal de supostas irregularidades, trata-se de um dos grãos-mestres do petismo no Senado e na política nacional | Fotos: Divulgação/Fotomontagem

“Ou todos nos locupletemos, ou restaure-se a moralidade.”
Stanislaw Ponte Preta

Em Brasília, quando um político cai, quase todos os seus pares, até os mais próximos, tendem a pisar na sua cabeça. Assim ocorreu com Fernando Collor, em 1992, quando, dado o impeachment, foi compelido a deixar a Presidência da República, e com Demóstenes Torres, que teve seu mandato de senador cassado. Agora está ocorrendo com o senador Delcídio do Amaral, abandonado até por seu partido, o PT de Lula da Silva.

Delcídio do Amaral, tido como o senador “de” Lula da Silva, sobretudo no que diz respeito à Operação Lava Jato — que investiga a quadrilha que privatizou os cofres da Petrobrás —, foi preso na semana passada pela Polícia Federal, em virtude de uma decisão do Supremo Tribunal Federal.

O senador sul-mato-grossense teria articulado uma esquema, com a participação do banqueiro André Esteves, do banco BTG Pactual, para o ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró fugir do país. Um filho de Cerveró gravou a conversa com o petista, num hotel de Brasília, e, como ficou caracterizado que Delcídio do Amaral estava trabalhando para obstruir as investigações, o STF decidiu prendê-lo.

Embora alegue ser inocente, Delcídio do Amaral apresentou provas contra si próprio. Ninguém precisou acusá-lo de nada. Kafkiano, ele se acusou. Mesmo que fique caracterizado que tenha contado bravatas, sobre sua influência no STF, para incentivar Cerveró a ficar calado e a fugir do país — o ex-diretor da Petrobrás aderiu ao recurso da delação premiada —, trata-se de um senador, portanto sua fala é de uma gravidade ímpar.

O Senado aprovou uma Lei de Direito de Resposta, quase um AI-5 contra a Imprensa forjado pelo senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, e sancionado pela presidente Dilma Rousseff, e imediatamente suspeitos de falcatruas, como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, do PMDB, e Delcídio do Amaral, decidiram usá-lo como instrumento de censura e intimidação. Eduardo Cunha recorreu à Justiça contra “O Globo”. Mesmo sem apresentar uma defesa consistente, pois o jornal não mentiu nem excedeu nas informações sobre suas contas bancárias na Suíça, Eduardo Cunha exigiu uma página inteira e uma manchete na primeira página do jornal da família Marinho.

O petista Delcídio do Amaral — que publicava comentários no Twitter professando honestidade — superou Eduardo Cunha ao sugerir a um repórter da “Folha de S. Paulo” que, se publicasse uma reportagem conectando-o com recebimento de propinas, exigiria direito de resposta, além de processá-lo criminalmente. A “Folha”, felizmente, não silenciou-se e denunciou a ameaça. Logo em seguida, o senador foi preso, provando que a Imprensa estava certa e o petista, errado.

A prisão de Delcídio do Amaral, tido como um dos condestáveis dos reds que estão no poder, diz alguma coisa sobre o senador e muito sobre o PT. Para se tornar uma espécie de PRI mexicano na América Latina, o PT recriou o mito de Fausto, tão bem delineado por Goethe em “Fausto” e por Thomas Mann (filho de uma brasileira) no romance “Doutor Fausto” (em boa hora reeditado no Brasil).

O petismo aliou-se às elites regionais mais conservadoras e com histórico de corrupção do país, reinventando as histórias contadas por Raymundo Faoro no livro “Os Donos do Poder”. Noutras palavras, no lugar de renovar o país, contribuindo para recriar as elites — pois nenhum país cresce e se desenvolve sem elites inovadoras e criativas —, o PT realimentou as velhas elites já “engordadas” por um processo de corrupção histórico. No processo de corromper para adquirir governabilidade, o petismo “sujou-se”. Vários de seus integrantes começaram comprando apoio, com o farto dinheiro do governo federal, notadamente de estatais como a Petrobrás, e, em seguida, decidiram locupletar-se.

Pode-se dizer que o PT — não a presidente Dilma Rousseff em si, pois tudo indica que é pessoalmente honesta — se tornou o criador de uma espécie de corrupção que, não sendo episódica, é sistêmica. A corrupção começou a se alimentar de mais corrupção, num processo incontornável que não pode ser parado, exceto com o fim das alianças políticas que estão sistematicamente furtando os cofres públicos.

Delcídio do Amaral, portanto, pode até ser isolado pelo presidente do PT, Rui Falcão, para não conspurcar ainda mais o partido, mas não é um outsider. É uma figura de proa do partido — um insider. Trata-se de um senador que mantinha diálogo franco e direto com a presidente Dilma Rousseff e com o ex-presidente Lula da Silva. É um político da linha de frente do PT, um grão-mestre, um líder no e fora do Senado.

A prisão de Delcídio do Amaral mostra, em suma, que a estrutura de poder criada pelo PT em 13 anos de governo se tornou visceralmente corrupta. O senador do Mato Grosso do Sul é uma face do problema, ou, dito de outra forma, uma das consequências da corrupção sistêmica que o PT criou para subornar e subordinar as elites estaduais — ativas no palco da política nacional.

O filósofo italiano Norberto Nobbio, admirado e sempre citado pelas esquerdas patropis, escreve que, ao contrário do que tradicionalmente se pensa, os fins não justificam os meios, mas procede que, na maioria das vezes, os meios corrompem os fins. É uma síntese do que está ocorrendo com o governo do PT.

Dilma Rousseff é presidente, está instalada no Palácio do Planalto, mas governa com extrema dificuldade. Por quê? Porque seu governo perdeu credibilidade política, em termos nacionais e internacionais, e sobretudo perdeu credibilidade perante a sociedade brasileira. A prisão de Delcídio do Amaral reforça a tese de que o segundo governo de Dilma Rousseff acabou em menos de um ano.

Os problemas de Joaquim Levy, que não consegue implantar seu projeto de recuperação da máquina pública, têm a ver muito mais com a falta de respeitabilidade do governo federal. Ao tentar arrancá-lo do Ministério da Fazenda, colocando em seu lugar o goiano Henrique Meirelles, como se este fosse uma espécie de pajé mágico-mesmerizante, Lula da Silva quer, na verdade, colocar no governo sua própria estrutura de poder, que, mais profissional do que a de Dilma Rousseff, tentaria consertar os estragos políticos. Acrescente-se que Delcídio do Amaral fazia parte do grupo de “notáveis” do Lulopetismo.

Campanha mais curta

Os jornais reproduzem o discurso de políticos às vezes com fidelidade. A reclamação do momento é que a campanha eleitoral de 2016 será “muito curta” — passou de 90 dias para 45 dias, com meros 35 dias de televisão. Antes de comentar a questão, vale o registro de que nós precisamos de política e, quanto mais política, melhor. Os que mais sofrem com os problemas decorrentes da política são exatamente aqueles que dizem abominar a política.

Quanto a uma campanha mais curta, os candidatos que não conseguirem apresentar suas ideias num período de 45 dias — sobretudo nos 35 dias de campanha televisual — podem desistir da política. Um marketing mais concentrado, com ideias sofisticadas mas apresentadas de maneira mais simples e com clareza, por certo resolverá o problema. É provável que uma campanha mais curta prenda mais a atenção dos eleitores, que se “cansarão” menos de propostas repetidas à exaustão e, muitas vezes, de modo despropositado e desarticulado. Até as novelas da TV Globo tendem a ser menores, porque os telespectadores não suportam histórias alongadas mais para fins de faturamento do que por razões dramáticas e/ou estéticas.

Políticos são espécies de antenas da raça. Sabendo que a campanha vai ser mais curta, eles já transformaram a pré-campanha nos 90 minutos do jogo e “deixaram” 30 minutos para a prorrogação — isto é, para a campanha.

Noutras palavras, a grande campanha, com as articulações políticas e agregação de aliados, se dará na pré-campanha.

Os políticos, na prática, já estão em campo, quer dizer, em campanha. Eles entenderam que a disputa eleitoral de 2016, com a pré-campanha esticada, será uma das maiores da história, e não, como muitos parecem acreditar, sobretudo nos jornas, uma das mais curtas.

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Pedro Henrique Peres

Vocês insistem em dizer que a Dilma é honesta, isso é uma grande afronta à inteligência dos leitores!